Janela de oportunidades

Fato rasgado, camisa sem botões, a gemer de dor, sentiu-se puxado pela gravata até à janela aberta da sala. Na avenida, os carros, com o freio nos dentes. Empurrando-lhe a nuca, o outro forçou-o então a colar os olhos no abismo. E no alto daquele décimo andar, brutal, cuspiu: «Ou passas para cá o bago, e é já, ou vais parar lá em baixo, feito um hambúrguer! É a tua janela de oportunidades.»

Momento fundador – alguém disse – da inesquecível metáfora.

João Pedro Mésseder

Auto-Entrevista – Obra: A Desilusão de Judas de António Ganhão

Autor: António Ganhão

Obra: A Desilusão de Judas António Ganhão

Editora: Lua de Marfim

Lançamento: dia 6 de Setembro, 17.30h, El Corte Inglês, com apresentação de Miguel Real.

AUTO-ENTREVISTA

– Porquê a escrita?

Porque as palavras são eternas. Elas soltam-se dentro das frases, ganham vida própria e nunca mais ninguém lhes rouba essa vitalidade. Nós somos perecíveis, mal crescemos, entramos logo num processo de degradação. Somos, por breves instantes, o pó que ainda não assentou. A escrita tem esse lado de imortalidade que me fascina. De pó em permanente suspensão. Não altera a nossa natureza, mas exalta-nos e prolonga-nos.

– A religião surge como um factor aglutinador do seu livro. Existe no Barreiro uma comunidade religiosa tão expressiva como a que deu corpo no seu romance?

O Barreiro foi porto de chegada de muitos imigrantes vindos das terras do Alentejo, ficaram ali com Lisboa do outro lado. Foi uma espécie de fronteira entre o apelo do mundo moderno, a capital, e as tradições em que tinham crescido. Por isso foi natural que tivessem surgido muitos locais de culto como o da Nossa Senhora do Rosário. E que a Virgem respondesse ao seu apelo com um milagre. Agora, como é que um local de culto Mariano sobreviveu às lutas operárias que se seguiram à implantação da república, é uma das curiosidades que abordo no meu livro.

– No seu livro aborda a corrupção no universo bancário e o desleixo generalizado que se instalou nas relações de trabalho. É essa a sua desilusão?

Nós temos pactuado com a hipocrisia de fingir acreditar que os “sacrifícios” que nos são pedidos vão salvar o país. Os que detém o poder julgam que nos podem moldar, podar e restringir-nos como se fossemos um Bonsai, castigar-nos, assim como no Douro, se castigam as videiras para que estas produzam o melhor vinho. Aí sim, reside a única ilusão, de que esse é o caminho. Seriamos fadados para a desilusão se tivéssemos fé no dono da vinha.

– O que o levou a criar um serial killer?

Não gosto que as pessoas vejam o meu personagem como um serial killer. De facto não é. Ele está comprometido em ajudar os outros, em tornar este mundo num mundo melhor. É alguém que assume os desafios do seu ciclo social mais próximo, que cultiva a sua espiritualidade. Ele sente a urgência da missão de ser apóstolo; todos nós somos apóstolos abortivos de Cristo, como S. Paulo. Mas as nossas fragilidades comprometem esse apostolado, e não nos permitem passar uma mensagem salvadora. O meu personagem sente que não pode consentir que isso lance os outros na perdição. Por isso os salva.

– Matando-os…

Administrando um sacramento. No livro todas as mortes são um momento cénico de paz. Não existe violência, são rituais de purificação.

– O seu próximo livro seguirá esta vertente religiosa?

O personagem principal do meu próximo livro é um católico não praticante, como se definem muitos portugueses. Alguém que não se preocupa com a religião ou com o transcendente. É muito diferente do actual personagem, embora também lhe tenha emprestado alguns traços autobiográficos.

– Existirão mortes?

Claro que sim, o pó precisa de um chão para assentar. Eu defendo que todos os livros deveriam começar com uma morte, sobretudo os de poesia. Precisamos desse silêncio para crescer.

“Um lugar chamado Oreja de Perro”

“Um lugar chamado Oreja de Perro”

IvánThays

Eucleia Editora

“Cheguei à conclusão de que o pior que nos podia acontecer era acostumarmo-nos à morte, à impunidade, ao horror, ao mal” pag.19

I

Iván Thays constrói um cenário de silêncio, de melancolia e afastamento emocional a tudo o que rodeia o personagem principal. O jornalista em plena decadência profissional e destruído emocionalmente por uma perda irremediável é enviado para uma aldeia pobre, assistida por caminhos quase intransitáveis, que se prepara para assistir a um acontecimento que o jornalista adjectiva como “ridículo intento populista de um presidente que já se vai do governo e cujo partido não tem nenhuma oportunidade nas eleições” pag.15

O presidente é Alejandro Toledo Manrique.

Se acompanhamos o caminho de perda, de deterioração emocional do protagonista, fazemo-lo dentro do contexto sociopolítico do Perú. O Presidente Toledo prepara-se para ser substituído na presidência por Alan García Perez, outrora presidente no período de 1985-1990 e substituído, então, pelo controverso Fujimori.

Dez anos depois, em 2000, Fujimori viria a exilar-se no Japão, após inúmeros escândalos, e renunciar à presidência. Fujimori viria a ser acusado e condenado por violação dos direitos humanos.

É em 2001, após um período de transição, que Alejandro Toledo Manrique é nomeado presidente com uma elevada taxa de popularidade. No momento em que o jornalista se desloca a “Oreja de Perro”, Toledo cumpre o seu último ano de mandato (2001-2006), tem um índice de popularidade muito baixo, e prepara-se para ser substituído.

O jornalista viaja para “Oreja de Perro”. Enquanto a recém-constituída “Comissão da Verdade”, liderada por um professor universitário e filósofo (ou seja, liderada pela teoria), procura o que anuncia – a verdade – o objectivo do jornalista é diferente:

“a mim, o tema que atraía era o do mal. Quer dizer: é isto o ser humano?» pag. 17

A viagem não implica, somente, deslocação física, mas também alteração anímica. Durante o seu percurso, sabemos do desmoronamento do seu casamento através de uma carta deixada pela esposa, da degradação da situação profissional e da dor provocada pela perda do seu filho.

“Começam os primeiros sintomas do mal das montanhas. Dor de cabeça, náuseas, esgotamento, olhos inchados, a indomável carta resplandecente, lábios secos, palpitações nas têmporas. O estômago que se desloca lentamente em círculos. Insónia, não. Insónia, não posso permitir.” Pag.33

 

Tudo menos a consciência. A consciência implica pensamento, interacção, memória, dor. E a memória é um elemento fulcral no livro de Iván Thays.

“Oreja de Perro” é um tempo suspenso, um purgatório, na transformação do principal personagem do livro. O local sublinha a solidão e, como o próprio jornalista afirma, o barulho das moscas aumenta a sensação de clausura. “Oreja de Perro” é um pequeno lugar, de que, provavelmente, ninguém ouvira falar até a “Comissão da Verdade” o mencionar no seu parecer como palco de atrocidades. Nesse parecer é mencionado a existência de valas comuns e clandestinas. Os ronderos (patrulha camponesa; força de segurança baseada na comunidade) teriam sido os únicos a derrotar o terrorismo sem qualquer ajuda da polícia. Aliás, a localidade não havia sido visitada por qualquer força da autoridade.

“Nunca uma autoridade chegou até cá. Nem sequer um tenente alcaide. Agora o próprio presidente Toledo escolheu a zona para iniciar um programa de distribuição de dinheiro para camponeses” pag.15

 

Scamarone, o fotógrafo, é o seu companheiro de viagem. Segundo o jornalista, não há qualidade humana que recomende o seu colega. Cínico e detentor de uma retórica de sucesso, Scamarone é descrito como um indivíduo muito baixo, menos de 1,50m, capaz de convencer toda a gente que não era anão. A verborreia com que presenteava os seus interlocutores (ou ouvintes?), sobre viagens e com citações sem sentido, tinha o poder hipnótico sobre quem ouvia. A estatura do fotógrafo é uma metáfora sobre a estatura moral. No entanto, o cinismo de Scamarone terá um papel relevante na saída do limbo em que o jornalista caiu. Ele irá influenciá-lo a recusar a fuga, a dormência emocional, através de uma relação amorosa que, à partida e tal e qual acontecera com Mónica (esposa), se encontra condenada.

II

“Fui eu que permaneci enclausurado na sua morte” pag. 104

 

No dia em que parte para “Oreja de Perro”, o jornalista lê a notícia do homem que havia ficado amnésico após um trágico acidente que vitimara a mulher e o filho. Ele tivera oportunidade de o entrevistar e, em consequência, perceber o vazio da sua memória. Durante a sua estadia na aldeia, ele nunca esquece a situação desse homem. Por isso, algum tempo mais tarde, tenta convencer o Editor do seu jornal a deixá-lo entrevistá-lo, novamente. Tinha passado um mês e, devido à velocidade da informação, esse acidente pertencia a um passado distante. O autor apresenta-nos outro tipo de esquecimento. Já não é aquele que a quantidade de tempo “enterra”, mas um outro tipo de esquecimento: a velocidade de informação nova submerge a mais antiga Na segunda entrevista, o homem afirma não ocupar a sua memória com factos do passado, mas com informação recente, mais ou menos relevante, como citações de Shakespeare ou língua chinesa. Ele contou-lhe o que a professora de chinês lhe havia dito quando se lamentou pela falta de memória:

(…) Não tens que lamentar-te pela amnésia. A memória é uma espia. Tu conseguiste livrar-te dela, conseguiste extraviar-te da tua espia” pag.90

 

Sem memória tudo desaparece: o filho, a história, as emoções, a aprendizagem. E tudo se repete, renovadamente. O jornalista e o país precisam de recordar, de não esquecer a sua história de forma a construir um futuro com menos vícios do passado. A memória, no livro de Thays, é indissociável da culpa e da forma como se pode lidar com ela.

O jornalista parte para “Oreja de Perro” carregando o peso da sua memória. Tal como o país, ele está preso ao passado e tem muitas feridas por sarar.

A violência no Peru, como em todos os locais, alimenta-se do medo e envolve as suas raízes na ignorância:

“A tua mãe sabe ler?, perguntou-me um dia o polícia.

Sim, sabe, respondi. É professora

Isso é fodido, disse ele. Saber ler nestes sítios é fodido” pag.185

 

Muitas pessoas foram raptadas pelos militares para serem interrogadas, torturadas e mortas. Mas ele não se deslocou até ali por causa desse sofrimento, mas para escrever sobre o acontecimento político. E o paralelismo entre o país e o personagem não cessa com a incapacidade de esquecer o passado e construir um futuro: A escrita da carta de resposta à esposa e a chegada do presidente Toledo são dois acontecimentos por realizar. Tudo é constantemente adiado. Ambas as situações, ao acontecerem, implicam a tangibilidade do presente, a concretização da realidade que o personagem individual (jornalista) e a personagem colectiva (povo) sabem ser inevitável.

A imparcialidade/distância é colocada em causa quando ele se envolve com Jazmín, natural de “Oreja de Perro”, grávida devido à (hipotética) violação por um sargento. A miscigenação da população com a atrocidade militar é, assim, concretizada numa geração futura. Ele sabe que a sua envolvência com Jazmin não pode ser duradoura, e prenuncia: “ Seria mais fiel dizer que Jazmín é, e isso nota-se a léguas, uma dessas raparigas a quem vai suceder alguma coisa na vida. Ou melhor, como tinha dito o meu pai, uma rapariga de que há que fugir de imediato porque depressa se meterá numa alhada” pag.39

Jazmín assumia ser a mãe e o pai daquela criança. Nada queria da figura militar que havia raptado e torturado e morto a sua mãe (ascendência).

III

“O antónimo ideal da memória deve ser a imaginação, fantasiar, fazer ficção. Não a amnésia”

 

O caminho para a aceitação, para a Verdade, é um caminho difícil e talvez utópico tanto para o personagem individual (jornalista) como para o personagem colectivo (o país)

Iván Thays utiliza uma prosa seca de adjectivos, com frases curtas, que nos remete para a escrita jornalística. A utilização de apontamentos, que ele escreve no seu caderno, é um recurso narrativo que confirma essa vontade de manter o registo jornalístico.

Ao longo do livro, deslocamo-nos para um mundo com características próprias: Uma grávida que fala com os anjos e antevê o futuro, o acidentado que memoriza Shakespeare. Mas, sobretudo, somos transportados para um mundo que necessita de redenção, de um recomeço, de não esquecer a sua história, mas ultrapassar as dificuldades e despertar com lucidez para um novo dia.

O mais arrepiante não é a foto. O mais arrepiante é que, quando a tirei, a ninguém importava um caralho que uns cães estivessem a comer os miolos dos mortos. Não era foto nem para primeira página, não era nada, estávamos acostumados a isso. Isso era o que me dava medo” Pag.222

“Oreja de Perro” pode ser o cão violentamente pontapeado pelo militar e defendido timidamente pelos populares, ou pode ser, pelo contrário, o cão magro e de cauda cortada que se passeia defronte do jornalista parecendo que se ri até o jornalista pensar, animado, que as coisas não têm de ser tão más. Podem ser melhor.

Mário Rufino

59º Episódio – Folhetim (II sequência de novelas) – O MÊNSTRUO MÁGICO DAS ORQUÍDEAS GRÁVIDAS – Folhetim em Setenta Episódios por Carlos Pessoa Rosa

Merda! O alarme da fábrica. 7h00. Já não sei dia e hora. Sinto alguém no quarto. Procuro nos cantos, sem sucesso. A colcha é feita de retalhos coloridos. Depois da alta é a primeira coisa que vejo em cores fortes. Há vaga lembrança de televisão em branco e preto. De um desenho do Pica-pau, ele diante da linha de trem, olha um lado demoradamente, depois, para o outro, mais algumas vezes, nada, os dois horizontes tranquilos, certo de não correr riscos, atravessa, mas um trem surge do nada e passa sobre seu corpo. Mas personagens de desenhos animados não morrem, logo estão de volta, em outra cena, e você ri, esquece que morreu. Ninguém está livre da morte, por mais cuidadoso que seja, acho que o desenho dizia isso, não temos controle do fim. Não sei o que fazer, não sairei, há comida para semanas, a casa está cuidada, talvez me levantar e ficar sentado debaixo da jabuticabeira aguardando as visitas, elas virão, é só meu corpo metabolizar a química, transformar os medicamentos em radicais inativos a serem eliminados pelos rins e fezes. Melhor me levantar. Pelas frestas da janela percebe-se o dia ensolarado. Posso ficar de cueca e camiseta, minhas visitas não ligam para os pequenos detalhes que tanto incomodam as pessoas. No banheiro, urino, evacuo e escovo os dentes. Ritual de limpeza. Vou até o escritório. Contemplo a velha Remington Rand, a folha amarelada que contém o último texto antes de me internarem. O pacote virgem, fechado, ao lado. O que teria deixado ali o outro de mim? Jogo o corpo na poltrona de couro de carneiro, a luz apagada, olho os livros nas prateleiras, incomodaria dizer que li todos eles, mas quase todos, se alguém me fizesse a pergunta sempre imbecil de querer saber qual o melhor, o primeiro, o mais importante autor que me influenciou, responderia Kafka, sem pestanejar, não pela culpa, que ela permaneça com os religiosos que se autoflagelam diante da obviedade das necessidades do corpo. Sei que o pai e a mãe mortos. Carol também. Dia desses, foi o André. De mim, a memória morta. Todas essas idéias apenas para ter coragem de ir até a máquina de escrever… Retiro a folha. Poucas palavras: “sem intimidade e sem interior, o oculto é o que se perdeu, a impossibilidade de dizer Eu, literatura nômade…” Me interromperam neste ponto. Será o reinício. Abro o pacote. Pego uma folha em branco. Ajeito-a na máquina. Troco a fita, fico com os dedos sujos de tinta. Ajeito a bunda na cadeira. Acerto as mãos como o pianista antes de iniciar a peça. Estou trêmulo, suando frio, o ruído da trava, alguém abriu a porta, tempo conhecido, de fechá-la novamente, pegar as cartas espalhadas pelo chão, deixar a chave no prego, dependurar o casaco, ruído da sineta, não ouço passos, o toque no soalho é muito leve, peso de uma pena caída na calçada, aí está você, aguardava-o, deixe a pasta sobre a mesa, sente-se na poltrona de couro de carneiro… De quem é esse livro? Nosso… Como? Esqueça, lá estão os olhos do bichano, está conosco novamente, você deve estar cansado, suportar a rotina ridícula da repartição, só para ter um salário que me permita ficar aqui diante da máquina de escrever. Mas acabou. Não sairemos mais. Veja os modos do bichano, acariciando com o rabo suas pernas, lá vai em direção da cozinha, está com fome, pode segui-lo, fico aqui um tempo mais, tenho uns acertos no texto, as cartas… Deixe sobre o móvel, não há nada de nosso interesse nelas, com certeza, não precisa me dizer, com você em casa começo a me lembrar das pessoas, vá, o gato está com fome, os azulejos brancos, as falhas provocadas pela falta de alguns, a ração deve estar no armário, aqui está, encho a vasilha, o gato bebericando água na torneira gotejante, coloco o alimento no chão, o gato pula e segue na direção da ração. Ouço o ruído de máquina de escrever, é o outro de mim, há uma mulher entristecida sentada na mesa da cozinha, observa-me de algum lugar, mas para mim é bem presente, não há tempos para mim, o gato pegamos na rua, faminto e com o rabo torto. Você não vai comer? O caldo verde que tanto gosto, ela me mostra um ovo, sorrindo, peço que coloque na sopa e me sento, sorvo lentamente o caldo, o gosto de infância nunca desaparece, é como o doce de leite, a pamonha, a maria-mole, o brigadeiro… Os caminhos estão descansando… Quintana nunca deixou que lhe roubassem a criança. De onde, a referência? As palavras podem se tornar mágicas, basta não enclausurá-las em vitrinas, o lugar delas é o silêncio, dali saem sempre renovadas…

 

Capítulo XI: Blocos vazios de infância

Os dias escorrem. Insônia. Dias sem dormir. Escrever para quem? Não haverá leitor para um texto que não tem vínculos cartográficos, biográficos e históricos. Nem serve de autoajuda… Talvez para desencadear de vez um suicídio. Não ria de mim… Sente-se aqui ao meu lado, escrevamos a quatro mãos. Isto, assim… Vamos filho, coma a sopa, tem o rosto cansado, não sei quanto tempo conseguirá manter essa vida dupla, sem dormir direito, escrevendo mundos em folhas em branco, que nem sabe se algum dia terá leitor, é Clara sentada na mesa, nunca a chamei de mãe, talvez quisesse ter dito, mas nunca, agora posso colocá-la diante de mim dizendo, sempre com a mão direita dentro do bolso do avental, como faz as vendedoras portuguesas nas feiras-livres, mexendo com dinheiro, mas naquele bolso não há nada, talvez os sonhos não realizados, então, ela presente, posso me justificar, não me importam ter leitores, ou talvez importasse sim, agora não mais, o momento é de resgate, das cores, dos vínculos importantes, de tocar os cabelos negros e ondulados que caem sobre seu ombro, sem medo do pai que nunca mais voltou a casa, nunca sentiu ser dele a família, vamos dizendo com os pensamentos, juntos, Não se preocupe, fique descansada, você foi muito importante, digo o que nunca consegui dizer, ela me sorri, levanta-se, permanece um tempo com os olhos enormes a nos observar, nós como a criança flagrada pela mãe no varal de roupas, rosto quente, deve estar avermelhado, passa a mão em nossa cabeça e segue na direção do escritório, vamos atrás, ajeita-se na poltrona de couro de carneiro, a superfície craquelê, tempo marcando fronteiras, como faz com as paredes, a pele, ela olha contemplativa para os dedos do filho em desassossego, como se conversassem através dos sons emitidos ao teclar, olhamos para ela, ele também sou eu, tento dizer, mas ela vê apenas um, apesar de haver esse outro de mim, e ela diz para Você não vai comer? Olhamos para ela sorrindo, continuamos a teclar Já estivemos na cozinha, ainda há pouco, o caldo verde com ovo, lembra-se? Ela olha na nossa direção, volta-se para velha Remington Rand, percebemos que está confusa, deixa escapar palavras pela boca, Surpresos! De que doença falaria? Voltamos a teclar, agora eu e o outro somos um, ela nos pegou de surpresa, de que doença falaria? Não perguntamos… A poltrona vazia, alguém chega à porta, apenas esboço, de outro tempo além deste, tenta nos dizer algo, mas não nos permitimos ouvir, precisamos de sossego para escrever, evitar o mundo ao redor, Olá, vai ficar aí até quando? Carol! É de minha mãe a voz aguda de surpresa pela chegada dessa mulher de nome Carol que o outro de mim beija na boca, eu dizendo que teria de terminar o capítulo, depois veria o que fazer, mas ela vindo até nós, a nos abraçar por trás, beija nosso pescoço, Clara sem jeito pedindo licença e indo para a cozinha, só nós no escritório, Carol nos levando dali, entramos no quarto, avisa-nos que a mãe doente, muito doente, tem pouco tempo de vida, nos abraçamos forte, choro, e as lágrimas deixam-nos excitados, Carol percebe a ereção, começa a nos acariciar, ficamos na cama bolinando, até gozarmos, nunca entendi a excitação toda vez que diante da morte, agora o outro de mim ajeitando-se em minhas linhas, não entendo bem a superposição, mas sinto alguma mudança dentro, sentado diante da velha Remington Rand e o escritório vazio, o ruído da carroça e do chicote, o som ruidoso do movimento da roda, sempre no mesmo ponto, daria para pontuar o tempo através do estridente, saímos correndo, não sabemos se alguém perguntou aonde iríamos, mas a sineta, a porta aberta, a rua… Colocaremos tudo em seu devido lugar, viveremos juntos tudo isso, nunca mais em cantos diferentes, muitas vezes, agora a impetuosidade e o medo habitam um mesmo corpo, a rua de terra, é seu Manoel subindo com a carroça, o burro velho e surrado, traz verduras, frutas e legumes, Clara sai na porta, sem o avental, deixou-o dependurado no prego na cozinha, tem as mãos livres, seu Manoel diz Eia! Eia!

 

(continua)

Outra história

Tudo aconteceu. Alheio a qualquer batalha, a paisagem é este pátio retangular, muros de pedra e hera, nesgas de céu entre árvores copadas. Daqui a pouco, o ondear de vozes, restos de frases.

Alguém tosse dando aviso de mão. Quer falar e já não mais.

Eu sou o repositório de gestos, olhares fixos, solidões. Rostos e nomes que se diluem e fogem antes de resgatados: um exercício de cansaço.

Às vezes, a sensação de vagar em dois mundos. A hora da partida. A hora da chegada. E agora, ainda agora. Como nunca antes nada.

Ernane Catroli

Quotidiano de afectos II

Uma mesa. Um bar.

Um homem. Uma mulher.

Um espelho com empregado ao fundo.

A mulher é louca ao espelho: prepara-se para a caçada:

arranha cabelos, mascara cicatrizes, borrifa de perfume os lóbulos; descruza as pernas de renda; os lábios mudam de cor e idade.

A gordura é vício; a fealdade indecisão.

São duas e meia da manhã.

O gelo derrete nos copos.

O homem suspende. Avalia o redor.

A linguagem é imprecisa.

O vazio enche-se de copos.

As almas de vodka.

O homem cansado domestica o bigode;

sossega as sobrancelhas com saliva.

Esquadrinha um novo ângulo numa das patilhas e diz:

-Tenho sono.

A mulher responde:

-Ainda é cedo. Nenhum amor se deita para dormir.

Dentro do espelho, as bocas mordem-se sem sinal de sangue.

O homem levanta-se, sai.

A mulher louca cruza novamente as pernas.

O empregado assiste a tudo, impávido e transparente, enquanto limpa com um pano o bolor dos copos.

Sandro William Junqueira

Unya

Unya era uma mulher, física, quase religiosamente física – era, por isso, impossível não desejá-la e Unya sabia-o. Infelizmente, Unya também amava. Unya conheceu o amor da sua vida por acaso, num desses acasos onde é noite e muita gente se junta, onde se bebe um pouco, um pouco bêbadas as pessoas fumam muito e bebem um pouco mais. O seu amor não bebia. Unya sabia-o e, por apego a uma sua estranha tradição e medo de agoirar, bebia por todos os que, como o seu amor, não o faziam. Unya era uma pessoa que, naturalmente, articulava perfeitamente o seu corpo entre a dor e o prazer. Daí que gemesse duas vezes ao entalar um dedo.

João Silveira

56º Episódio – Folhetim (II sequência de novelas) – O MÊNSTRUO MÁGICO DAS ORQUÍDEAS GRÁVIDAS – Folhetim em Setenta Episódios por Carlos Pessoa Rosa

O que está precisando, vamos ver… A fita para a Remington Rand que foi de seu pai? Engulo o último gole do café confirmando com a cabeça. Então vamos lá… Segue na direção da última prateleira, mais ao fundo da loja. Aqui temos, quantas vai precisar? Pode colocar uma caixa… Pelo jeito tem uma grande história na cabeça, li seu último livro, devo dizer que é muito pesado e triste, mas hoje entendo melhor o que o senhor escreve, a idade vai desnudando a falcatrua em que nos colocaram, mas escrever aquelas coisas ainda tão jovem, deve ser difícil carregar esse seu mundo nas costas… Vejo um brilho nos olhos daquele libanês que nunca pediu a cidadania brasileira, compartilho com um sorriso, não me lembro de que livro fala, mas minha mãe também anota a existência de um livro em seu diário… Tudo que escreve está nas ruas, diante de nosso nariz, mas não nos permitimos enxergar, tem lá uma passagem que o senhor fala da diferença entre olhar e enxergar, li várias vezes, é uma grande verdade, passamos a vida olhando, nunca enxergamos, o senhor me fez perceber, mas é preciso o fim próximo, e o senhor parece ser companheiro da morte, conheci seu avô, era um pouco assim, seu pai já não, mais objetivo, devaneio não era com ele, não gostava do que o senhor escrevia, uma vez tentei argumentar, tinha acabado de ler o livro, não me deixou, nem podia Samael, seu pai não sonhava, carregava a culpa do mundo nas costas, metido até o pescoço com a maçonaria, precisava de algo para lhe dar motivo de viver e estar vivo, de criar um personagem respeitado e respeitável, quantas fitas dessas não vendemos a seu avô… Agora não resta mais nada seu Samael, aguardo a morte, eu e minha velha, sofrida de artrose e artrite, a velhice é uma droga, os filhos se foram, dois muito cedo, ficamos sozinhos… E a cidade mudou muito, já fui assaltado duas vezes, ficaram bravos, não havia o que levar, apanhei, mas só fecho a loja quando não receber mais a visita dos fregueses antigos, como o senhor seu Samael, e não esqueça de me avisar quando sair algum outro livro, não levamos nada material dessa vida, quem sabe será permitido levar as histórias que lemos…

O homem diante de mim não para de falar, eu sou o instrumento de sua solidão, pego o dinheiro da carteira, ele bloqueia meu movimento com a mão. Não, não vai pagar, é presente, já não trabalho para viver, e ninguém mais além do senhor vai levar essas fitas, vamos, aceite, é presente. Entendi o gesto. Devolvo a carteira ao bolso e dou um abraço forte naquele homem frágil em final de vida, talvez não o veja nunca mais. Pego o pacote e saio sem olhar para traz. Metrô sentido República. Entro no primeiro sebo que encontro, é o lugar próprio para encontrar um livro que ninguém tem preparo e disposição para ler, pergunto sobre um autor de nome Samael, o sujeito me olha esquisito, vai até fundo da loja e retorna carregando um livro. Está registrado meu nome na capa, Samael F., não me pergunte o motivo do nome do autor desse jeito, talvez influência de Kafka, me diz o vendedor, “O mênstruo mágico das orquídeas grávidas”, título insano, cheio de estranhezas, não consigo perceber como algo que me pertence, mas sei que os remédios ainda circulam no sangue, compro o livro. 

Henrique Normando: “A Poesia escapa a formas rígidas e definitivas”

1 – O que é para si a

Literatura ?

H.N. –   Segundo o

conceito tradicional,o Autor é uma pessoa que escreve usando exclusivamente o

poder da sua imaginação. Para Barthes, no mundo moderno,este conceito está

obsoleto, pois segundo ele,o Autor combina” textos pré-existentes em novas

formas.”       Estou em desacordo com o

pensamento de Barthes, talvez porque sou essencialmente um escritor de Poesia e

acredito que um Poeta só é original e “verdadeiro” se inovar, sendo um Criador

que transmite  ao Leitor a essência da sua alma e das suas experiências

envolvendo, ainda que inconscientemente,as influências que recebeu dos autores

que leu,com destaque para os que mais o marcaram.

2 – O que pensa da Poesia que se faz

actualmente em Portugal?

H.N. – Penso que a maior parte  da Poesia que se

publica,é cosmética.Não resisto a citar Alexander  Soljenitsyne, que a

propósito de Literatura, referia : “Uma literatura que não respire o ar da

sociedade que lhe é contemporânea, que não ouse comunicar à sociedade os seus

próprios sofrimentos e as suas próprias aspirações, que não seja capaz de

perceber a tempo os perigos morais e sociais que lhe dizem respeito, não merece

o nome de literatura: quando muito pode aspirar a ser cosmética.”

Conheço no entanto,vários Autores de grande qualidade e originalidade, que não

se limitam a copiar os Mestres e marcam, ou irão marcar através do seu cunho

pessoal, o futuro da nossa literatura.

3 – Acha que um Livro de Poesia deve

ter um fio condutor ?

H.N. – Não acho. Reli há bem

pouco tempo, o livro “Câmara Ardente” de Miguel Torga e não existe lá qualquer

fio condutor, para além da genialidade do Autor em cada poema que escreveu. São

poemas autónomos, tendo o Autor escolhido o título do segundo poema, para dar o

título global ao seu livro. Claro que não tem que ser assim e um livro de

poemas pode ser concebido para ter um fio condutor. Os meus dois últimos livros

publicados, obedecem a uma lógica sequencial. Os dois livros anteriores não

obedecem a essa lógica. O livro que estou a terminar actualmente, tem um fio

condutor .                                                                  A

Poesia escapa a formas rígidas e definitivas.

4 – Como acha que vai ser a Poesia no

Futuro ?

H.N. – Respondo com um excerto

de um poema de António Gedeão, POEMA DO FUTURO, em que este Autor teve o génio

de sintetizar os efeitos do tempo, sobre a forma e o conteúdo da Poesia e da

Literatura em geral, indissociavelmente ligados  à evolução da Humanidade,

em muitos aspectos imprevisível.

Poema do Futuro

……………………………………..

Na História Natural dos sentimentos

tudo se transformou.

O amor tem outras falas,

a dor outras arestas,

a esperança outros disfarces,

a raiva outros esgares.

Estendido sobre a página, exposto e descoberto,

exemplar curioso de um mundo ultrapassado,

é tudo quanto fica,

é tudo quanto resta

de um ser que entre outros seres

vagueou sobre a Terra.

António Gedeão, in ‘Poemas Póstumos’

5 – Acha que a crítica se tem debruçado

sobre os Poetas não consagrados?

H.N. – Acho que não. Penso que

os críticos, salvo raras excepções,encaram os “não consagrados” com algum preconceito

e “ jogam à defesa”. No entanto, reconheço que não é fácil criticar Poesia,

como se torna cada vez mais difícil criticar uma Pintura , uma Escultura,

Fotografia ou Desenho, assim como as instalações interdisciplinares e

respectiva multiplicidade de materiais e suportes utilizados.

                                                        O

mesmo se passa em relação à Música.

                                                              Aliás,

Novalis, poeta romântico( século XVIII / XIX ),dizia que a «crítica da poesia é

um disparate». Segundo ele, “a Poesia não era susceptível de

crítica no sentido até então vigente de crítica explicativa e censurante. Para

Novalis era uma profanação e uma enormidade temerária aferir a poesia por

padrões e submetê-la à jurisdição de cânones, ou defini-la  em

circunscrições lógicas e tradicionalistas.  Poesia não é sequer definível

«Poesie ist indefinissabel “.

6 –    Qual a principal

dificuldade para a divulgação da Poesia?

H.N. – Quanto a mim, o problema

da falta de divulgação reside no afastamento das Escolas e respectivos

programas educacionais, a falta de cultura poética de muitas famílias que

podiam ter um importante papel nesta área do saber, o desinteresse da classe

política pelas questões culturais e as dificuldades de distribuição dos livros

editados.

7-   Acha que há aspectos

positivos, apesar de tudo, relativamente à adesão dos portugueses à Poesia?

H.N. – Acho que sim. Portugal

continua a ser um país com enormes talentos que se vão manifestando gradualmente

e  há várias iniciativas extraordinárias, como as Quintas de Leitura. A

Câmara Clara, na TV 2, também tem sido um importante meio de divulgação

cultural.

                                                                                                                                    Por

outro lado está a criar-se uma nova dinâmica no mundo dos jovens Editores de

grande importância para o futuro da Cultura em Portugal.

8 – Com quatro livros publicados, quis

são os seus projectos para o futuro?

H.N. – Tenciono publicar o meu

quinto livro de poemas ainda este ano. Trata-se

de “O Regresso de Martinez”. Depois

irei acabar um livro de contos que me está a dar muito prazer escrever.

9 – O seu livro recentemente publicado,

O SONHO PERSISTENTE, tem tido a divulgação que esperava?

H.N. – Todas as pessoas que o

leram e me contactaram gostaram muito do livro.No entanto, sei de muitas

pessoas que não o conseguem encontrar nas livrarias onde supostamente ele

estaria. Creio que o Editor está a tentar ultrapassar este problema que se

prende com a distribuição.

10-  Está satisfeito com a

 Edita-Me ?

H.N. – Estou. O Editor é uma

pessoa excepcional em vários sentidos. Dinâmico,multifacetado,inteligente para

além de estar a  ter  um papel muito importante na divulgação

cultural neste país.

“Deste lado da Luz”, de Colum McCann

Colum McCann é um autor irlandês, premiado em sete ocasiões (cinco romances e duas colecções de contos). O romance anterior “ Deixa o Grande Mundo Girar” foi premiado com o “National Book Award” de 2009, entre outros prémios e nomeações. Os seus livros estão traduzidos em trinta línguas. “Deste Lado da Luz” chega a Portugal através da Editora Civilização

“Toda a luz verdadeira regride com a memória da luz” pag.255

I

Em “Deste lado da luz”, Colum McCann estabelece uma relação tanto intrínseca como extrínseca com a pintura. As construções das comoventes e poderosas imagens baseiam-se numa dialéctica entre luminosidade e sombras. A caracterização emocional das personagens, a construção de todo o ambiente onde se inserem, a própria contextualização social é sugerida ao leitor através de uma luz que se concentra em aspectos particulares. O que fica na sombra enfatiza o facto desnudado pela luz. A memória e o tempo estão dependentes entre si e a constante referência ao “Melting Clock” de Salvador Dali, grafitado na parede do túnel, simboliza a relatividade do tempo perante a persistência da memória.

A conjugação entre luz e sombra presente no aspecto emocional, social e espacial define os principais elementos ao longo da narrativa, deixando os outros elementos presentes na penumbra, prontos a emergir da escuridão. A construção de imagens é muito forte em “Deste lado da Luz”. O autor consegue ser incisivo e eliminar ou suavizar o possível afastamento do leitor. A procura de Treefrog, na sua pequena caverna dentro do túnel, dos seus objectos pessoais através do acender e apagar de um isqueiro constrói uma incisiva oposição entre o claro e o escuro A luz focal vai desvendando, conforme a vontade do autor, o que podemos ver ou onde devemos pousar a nossa atenção. Outro exemplo que suporta esta técnica narrativa tão ligada à pintura, mais propriamente ao chiaroscuro, é a iluminação dos mapas, desenhados por Treefrog, através da luz de uma vela.

A dialéctica entre a luz e a sombra é a chave de leitura proposta pelo Colum McCann. O tenebrismo está presente nos locais, nas emoções, no conhecimento e na ignorância, no recalcamento de acontecimentos traumáticos e na recordação dura e violenta de actos insuportáveis. Existe na solidariedade e no racismo, no desprezo e no companheirismo. A Luz e a escuridão estão presentes em cada personagem, em cada ser humano.

II

O realismo da prosa de Colum McCann aborda vários temas que, no seu conjunto, resultam numa reflexão sobre a condição humana, os seus valores e construção ética, e sobre a arbitrariedade dos acontecimentos que, de forma irremediável, afecta o desenvolvimento da sociedade e de cada indivíduo. A narrativa é contextualizada pela II Grande Guerra, pelo Racismo dos anos 20 e anos consequentes, pela hipotética libertação do indivíduo nos anos 60, e pelo tempo decorrido até chegar à actualidade. Estamos em duas épocas em simultâneo: acompanhamos Treefrog desde 1991 e Walker desde 1916. A distância temporal das duas narrativas paralelas vai diminuindo com o decorrer da narração, aumentando a pressão dramática e emocional, até chegar à fusão da narração num tempo único. A partilha do local e da temática permite ao autor manter a coerência do texto. Em nenhuma fase o leitor se confunde, ou se “perde”. Em dois tempos paralelos, as personagens repetem-se tendo como ponto comum o túnel (no aspecto físico), o rompimento de limitações (no aspecto emocional) e o possível renascimento (individual e social). É constante a focagem nas margens da sociedade, nas pessoas que nela não encontram o seu espaço, ou, de uma forma mais crua, nos despojos humanos do darwinismo social. A luz destaca as figuras principais do texto, sempre abaixo da linha do horizonte, abaixo do que é socialmente aceitável:

“Meu Deus, estou tão baixo, amor, que afirmo que para olhar para baixo tenho de levantar os olhos” pag. 93)

No plano temporal mais próximo (com início em 1991), a sociedade existe como uma entidade alheia, que caminha e vive por cima dos miseráveis depositados num túnel brevemente visitado pela luz do dia. Em paralelo e numa outra época (a partir de 1916), as diferenças sociais existem através do racismo e da negação de direitos fundamentais. A dificuldade em ultrapassar fenómenos malignos como o álcool e as drogas, a luta contra a miséria e a convivência entre classes são temas basilares das duas narrativas.

A rejeição social, através do racismo, é determinante na vida de Walker que, por ser negro, é uma vítima constante de acções racistas. Estamos no período de 1916-1932:

“Por vezes, na rua, os polícias revistam-no e ele não reage, não se arriscando a dizer coisa alguma; se abrir a boca, eles desfazem-no com pancada. Põe o seu dinheiro de parte num banco de negros – tem menos lucro, mas pelo menos está com os seus e ele sente que está em segurança” pag.53

Ainda neste período, a problemática relação entre trabalhadores e patronato faz-se sentir. Na inauguração do túnel, apesar de todos os esforços do patrão em ser ele a cortar a fita e em ser o primeiro a atravessa-lo, o grupo de trabalhadores antecipa-se e faz questão de partilhar aquele momento histórico com as esposas, os filhos e os netos. O grupo funciona como uma personagem independente, constituída pelos trabalhadores, sem nunca privar os seus elementos de individualidade. O trajecto é uma procissão em honra dos mortos e uma passagem cultural às novas gerações.

“Algumas mulheres colocam flores na beira dos carris, e acendem-se mais velas ao lado dos ramos. A meio do túnel os homens apertam a mão uns aos outros, os soldadores à procura de outros soldadores, os waterboys a conversarem com outros waterboys. (…) O sobrinho de Power corre pelo túnel para lançar a bola de baseball com os outros rapazes” Pag. 49

A estrutura moral ou de valores éticos são divergentes nas duas linhas de narração. Treefrog, Ângela, Elijah e restantes habitantes do túnel, subvalorizados pela sociedade, fazem tudo para sobreviver. Naquela existência afastada da sociedade estão entregues à escuridão e têm uma outra escala de valores. Se na construção do túnel e no seu interior, em 1961, Walker não sente a rejeição social,

“ Mas Walker não se ofende. Sabe que, debaixo do rio existe uma democracia. No meio da escuridão, o sangue que corre nas veias é da mesma cor para qualquer homem – um latino, um negro, um polaco, um irlandês, é tudo a mesma coisa – pelo que Walker apensa se ri” pag 11.

já Treefrog, no mesmo local mas na década de 90, vive como um bicho, isolado, comercializando somente o indispensável e desprovido de qualquer solidariedade. A rejeição social acontece de forma diferente nos dois planos. Enquanto Walker sofre o racismo, Treefrog sofre a miséria.

O desenvolvimento da narração é, também, diferente nos dois casos.

Por um lado, e numa perspectiva diacrónica, acompanhamos a juventude de Walter até ser avô de Clarence Nathan (personagem chave), observando, desta forma, a construção e decadência da sua família ao longo dos anos; por outro, temos uma visão mais sincrónica, menos linear e mais dependente da luz que desvenda a memória de Treefrog e nos permite ir descobrindo a ligação dele com Walker e a sua família. Através das pistas deixadas pelo autor, conseguimos perceber que em tempos ouve uma ruptura insanável na vida de Treefrog. A partir daqui, o seu comportamento tornou-se errante até se transformar em obsessivo-compulsivo. Destruído emocionalmente, começa a agredir-se. Treefrog entra no outro lado da luz, no outro lado da lucidez e dentro da escuridão.

A narração é, muitas vezes, emocionalmente violenta. A verdade interior dos personagens tanto é derrotada como sai, por vezes mas não definitivamente, vencedora.

“- A sério, é uma bela ideia, gostaria de morrer, faz-me lembrar morangos, parece delicioso” pag. 67, disse Ângela a Treefrog.

É com esta personagem que Treefrog vai evoluindo e ensaiando alguns actos de solidariedade e compaixão. É a ela que conta o começo da auto-agressão (clips em brasa, tesouras, alicates, cigarros, fósforos, lâminas…). Colum McCann mostra-nos que há possibilidade de salvação para Treefrog, uma hipótese de ele passar para a luz. E aqui existe uma clara referência a Dante e aos seus círculos do inferno em “Divina Comédia”:  “Ele sabe muito bem que homens e mulheres vivem aqui em baixo e tem de ser cauteloso. A sua aparição no meio deles é falsa, é um homem que ainda vive em algum mínimo de luz. Ele viu-os, aos verdadeiramente condenados. (…) Homens e mulheres feridos vivendo no seu lazareto de desespero. Há sete andares de túneis ao todo- e ele ouviu falar de homicídios e esfaqueamentos aqui em baixo” pag 106

Paralelamente, Clarence Nathan, neto de Walker, conhece o inferno do avô. O racismo atravessa gerações:

“Todos os insultos são rabiscados num caderno da escola: mestiço, mulato, escurinho, tostado, tição, escarumba, esturro, copinho de leite, branquela, carvão, preto” pag. 181

Devido à cor da sua pele, oriunda de avó branca (Eleanor) e avô negro (Walker), Clarence Nathan sofre o racismo dos brancos e dos negros.

O tempo das duas narrações vão-se aproximando, o cruzamento de personagens é mais visível, e as acções e consequências tornam-se mais claras. Colum McCann demonstra-o de forma sublime, através de Treefrog:

“ Debaixo da grade, olhando para cima, a observar as estrelas irrelevantes, Treefrog sabe que a luz a bater nos olhos desapareceu há anos; não existe nada lá em cima a não ser o movimento do passado, coisas há muito implodidas e explodidas e desaparecidas para sempre” pag. 198

Apesar de toda a negrura, decadência, podridão, o autor mostra sempre o outro lado, o lado da salvação, da iluminação. Walker e Clarence Nathan sentam-se na igreja e ouvem as palavras de um novo Pastor, jovem, sobre um antigo rei de Judá, Ezequias. O sermão é sobre a tolerância, a necessidade de fé e da permanência da luta. Na construção de um túnel entre dois reservatórios de água, uma equipa começou a escavar junto à fonte de Siloé e a outra equipa junto à fonte de Giom. Contavam encontrar-se a meio, mas erraram os cálculos e os túneis perderam-se um do outro. Os homens gritaram de raiva e desespero. Quando, em vez de somente gritar, quiseram também ouvir, distinguiram as vozes presentes em cada túnel. Mudaram de direcção e guiados pelas vozes escavaram até se encontrarem:  “Os homens escavaram o resto da rocha e olharam de perto para os rostos cansados uns dos outros. Depois, estenderam a mão e tocaram-se para terem a certeza de que eram reais.” Pag. 163,164

Este é o caminho da luz, onde os dois opostos se unem e onde as duas narrações paralelas se aproximam e se tornam numa só. No fim, num só tempo e narrativa, percebemos que entre Treefrog e Clarence Nathan só um pode sobreviver.

“ Ele esvaziou a si próprio de história, e tudo o que Clarence Nathan conheceu alguma vez na sua vida está entre o momento presente e um túnel” pag. 245

III

Colum McCann manipula com mestria as necessárias técnicas narrativas para manter a coerência do texto, cria imagens pungentes, constrói personagens inquietantes, e elimina a leitura passiva desta história. E consegue-o de forma convincente. O mundo representado é o nosso e depressa reconhecemos contemporaneidade em “Deste Lado da Luz”. A violência emocional é tremenda, mas nunca gratuita. Apesar de alguma falta de fluidez nas analepses, ou flashbacks, o leitor não se perde na inerente complexidade de uma narração a dois tempos paralelos.

Em suma, é um bom livro, composto por várias camadas interpretativas, pleno de significação e que, provavelmente, pede uma releitura. E se o solicita, não é por dificuldade de seguir ou compreender o enredo, mas pela riqueza simbólica das imagens criadas.

Mário Rufino

Para mais detalhes sobre o autor: http://www.colummccann.com/

AUTO-ENTREVISTA – Julieta Ferreira

É errado pensar que uma auto-entrevista é fácil. Primeiro fiquei

entusiasmada com a ideia por ser uma oportunidade de falar sobre o que fica

geralmente omisso nas entrevistas que me têm feito. Depois, quedei-me a olhar o

branco tremeluzente no monitor do meu portátil, sem saber por onde começar.

Isso raramente acontece quando me sento para escrever porque o processo da

escrita se inicia muito antes de as palavras ganharem forma e criarem imagens

no espaço vazio da página. Ah! Afinal encontrei a primeira pergunta.

1.

Onde e como se inicia o processo da escrita?

R: A verbalização das minhas

ideias, em forma de escrita, deixa de ser um começo mas sim o desfecho de um

percurso, iniciado num momento atemporal, na esfera do meu pensamento, único

lugar onde existo despida dos atavios com que me enfeito e os que me são

oferecidos pelos olhares dos outros. É no pensamento que residem as palavras

sem embuste. A seguir, há uma viagem que se inicia após a visualização das

primeiras frases a desenharem imagens e a construírem uma história. É uma

viagem que constantemente me surpreende por me levar a percorrer caminhos e a

chegar a destinos insuspeitados. Quando escrevo poesia, pode ser uma

determinada imagem, uma sensação e até um pedaço de memória de um instante

vivido e guardado, que se materializam no primeiro verso e a partir daí

construo o poema. Não sou uma escritora disciplinada, não sinto a obrigação de

escrever todos os dias e quando estou a escrever um romance não sigo um plano

rígido mas, se não escrevo, sinto uma falha, como uma urgência a que tenho de

atender. Isso leva-me à segunda pergunta….

2.

Porque escreve e quando surgiu a motivação para a escrita?

R: Desde criança que me senti

tocada pelo mundo fantástico que me chegava dentro dos livros e no qual eu

mergulhava, afastando-me da realidade. Houve muitas histórias que eu fui

construindo mas não passaram de imagens a boiar-me na mente. Eram só para mim.

Houve sempre a ideia de publicar mas só em 2005 surgiu a motivação forte para

escrever um romance que não ficasse fechado na gaveta. Nesse ano deu-se uma

viragem na minha maneira de estar no mundo e também a nível interior. O livro

autobiográfico, Regresso a Lisboa –

confissões proibidas, viria a tornar-se a materialização dessa mudança e um

marco muito importante e decisivo para o que se seguiria, em termos de escrita

e também em termos pessoais. À medida que vou escrevendo, vou-me (re)encontrando.

Escrevo à procura de uma identidade, numa afirmação de quem sou, um rescindir

dos fantasmas que me habitam, uma catarse que me liberta de certas amarras. No

isolamento e na ausência, a escrita serviu para me situar dentro de um espaço e

me (re)ligar com o que deixara para trás. Serviu, digamos assim, de ponte entre

aquela que eu fora e aquela que não sabia ainda quem era. Era a voz dos meus

silêncios, dúvidas, inquietações, da minha nostalgia e das partes mais negras

da minha alma. Agora é uma presença constante, que se impõe. É uma paixão e um

vício. Um vício muito bom que me apazigua e me faz crescer.

3.

Como surgiu a ideia para o seu mais recente romance, CARTA A UM

EX-AMANTE, e do que trata?

R: Depois de ter conversado com muitas mulheres que

conheço e saber que tinham vivido relacionamentos amorosos que apresentavam

semelhanças entre si, resolvi pôr numa narrativa as suas dúvidas, inquietudes,

inseguranças, desenganos, buscas, desilusões e esperanças. Usei um discurso na

primeira pessoa, em forma de carta, para criar uma maior verosimilhança e

também para produzir um efeito estético que traduzisse esse intimismo. É uma

narrativa intimista em que a personagem feminina despe a sua alma para

exorcizar um amor que talvez não tenha chegado a ser, usando um discurso muito directo, por vezes

chocante, na sua transparência e desassombro. Não é nem tem pretensões a ser um

livro de ajuda, de desenvolvimento pessoal. Não sou socióloga, psicóloga ou

especialista em relações humanas. Mas sou uma autora que se interessa em

analisar comportamentos e emoções, em contextos de âmbito social, familiar,

sexual. Gosto também de retratar a mulher madura, tantas vezes ignorada no

âmbito literário e não só. É um livro que pode gerar controvérsia porque é feito

de uma realidade que toca de muito

perto os leitores. É uma carta de

auto-análise, um desnudar meditado e sentido, em que muitas mulheres se podem rever, embora nunca tenham tido a

coragem para a escrever. Foi mesmo isso que pretendi. Dar voz a essas mulheres

e falar do que fica encoberto, o não dito nas relações mais íntimas. Ao

contrário do que se possa julgar, não é um romance de amor embora se fale do

amor, um amor longamente contido, e é o

amor que até ao fim se busca, como diz Isabel Fraga, no prefácio.

4.

O que faz de um romance um bom romance?

R: Depende muito dos leitores e

das suas preferências. Há romances que estão no top das listas das livrarias e

que não me dizem nada. Há autores que são bastante conceituados e muita gente

não lê. Há outros autores, desconhecidos do grande público, que escrevem bons

romances mas poucos os lêem. Para mim, como leitora compulsiva que sou,

agrada-me uma narrativa em que me possa sentir dentro do mundo retratado, em

que me identifique com o que o autor está a narrar e consiga acompanhá-lo na

sua viagem pelas palavras. Prefiro histórias realistas e com uma estrutura

narrativa que eu possa seguir sem questionar a minha inteligência e sem ter de

voltar atrás umas quantas vezes para perceber o conteúdo. Um bom romance, no

meu entender, é aquele que consegue usar as palavras adequadas, num estilo

simples e ao mesmo tempo poético, para comunicar imagens, sensações e emoções

que vão ao encontro do leitor, o fazem reflectir e o enriquecem, alargando o

seu horizonte literário.

5.

É fácil separar-se de um livro quando o termina?

R: Quando começo a escrever nunca

sei onde a escrita me conduzirá e quanto tempo levará a completar o romance mas

sinto uma certa pressa em acabá-lo. Sempre fui impaciente e gosto de ver o produto

final, com alguma rapidez. Mas não forço nada. Costumo dizer que o livro vai-me

acontecendo, as personagens vão-se impondo e a história flui naturalmente. Nunca

estabeleço um prazo e, se há dias em que não surgem ideias, não fico frustrada

com isso. Tal como leitora, tenho de me sentir bem dentro da escrita e, do

mesmo modo que me custa dizer adeus a um livro cuja leitura me agradou, sinto a

dor da separação do romance que termino. E, contraditoriamente, sinto o

regozijo de ter concluído um trabalho e ver realizado mais um projecto. É uma

ambivalência interessante. Depois, nas várias leituras que faço, há sempre

correcções e a descoberta de novos sentidos, um renovado confronto com as

palavras e as personagens e é aí que tento distanciar-me o mais possível para

olhar o livro como se não tivesse sido escrito por mim. É quando se começa a soltar o cordão umbilical.

54º Episódio – Folhetim (II sequência de novelas) – O MÊNSTRUO MÁGICO DAS ORQUÍDEAS GRÁVIDAS – Folhetim em Setenta Episódios por Carlos Pessoa Rosa

Será internado tão logo não tenha mais ninguém, hoje sei que é doente, conversei com o médico, falou-me que há um componente genético em algumas psicoses, que o álcool pode desencadear surtos, mas eu estou contente que não beba mais, não vê-lo mais nos cantos, falando sozinho, diminuiu o tempo em que fica no escritório, não ficou triste com a repercussão do livro, muitas críticas perversas, mas ele acredita no que escreve, rejeitou entrevistas para defender a obra, o editor não gostou muito, disse-me dias desses que não me preocupasse com ele, que a doença faz com que viva no limite, lugar evitado por todos, daí as críticas nada elogiosas… Não seria de todo mal o momento de minha morte. Pelo menos posso pedir que Carol continue a cuidar dele. O que mais poderia desejar uma mãe que não fosse ser substituída por uma mulher tão preocupada quanto ela própria nos cuidados com um filho? Mesmo sendo um homem… Para a mãe, o filho nunca cresce. Há culpa nisso, sei bem, sem irmão, um pai ausente, a mãe distante do que desejaria como família… Agora o anúncio do fim, hoje os médicos não omitem nada. Melhor assim, podemos nos preparar, e aos próximos… Não vou comunicar ainda, aguardarei os acontecimentos, é melhor, não vou roubar o momento feliz em que os dois estão vivendo.

Estranho ouvir histórias sobre você e não encaixar-se no lido. Como se fosse outra pessoa com nome Samael, que viveu nesta casa, eu sendo um impostor, um não-eu, clone sem passado, apenas o corpo o mesmo, daí acharem tratar-se do antigo morador, mas eu no não-lugar, no não-tempo, mesmo com a jabuticabeira no quintal, a sensação de déjà vu, estranho a mim mesmo, e não há mais nada escrito no diário, a morte é uma folha de papel em branco, não me oferece muito sobre Clara, de minha pessoa apenas rastros, impressões de mãe, mulher, de alguém que não me lembro, são os medicamentos, não há dúvida, mas suportarei até amanhã, quem chegou aqui não perde em esperar, há a vantagem de Amélia estar presente, ela está muito feliz com meu tratamento, foi o que deixou escapar dia desses, o André também não se preocupou mais comigo, a assistente social terá também boa impressão, os profissionais são rasos como os tempos, nada sensíveis, não dariam um passo na vida sem aplicar o tal check-list, prática mais próxima dos símios, mas o homem não tem mais neurônios que eles, mais empáfia talvez, insuportável viver essa mentira diária, rotina de águas empoçadas, de palavras engessadas, de discursos estéreis, de preconceitos delirantes… Amanhã, amanhã não tomarei mais os medicamentos… Não! Antes preciso dispensar Amélia sem que ela desconfie de nada. Provavelmente André irá me sondar, terei de arranjar uma justificativa convincente, não quero que acenda alguma luz vermelha em sua mente. Melhor sair e resolver os problemas…

Retorno à tarde. Há um grupo de pessoas na porta da casa do André. A porta aberta. Há um cheiro horrível vindo de dentro. Os bombeiros invadiram a casa. Dizem que morto… Só agora me dou conta, não ouço nada vindo dali há dias. Pode parecer egoísta, mas para mim um problema a menos. Agora será mais fácil me livrar de Amélia, não terá com quem bater os dentes. André era o único por aqui que conhecia um pouco a vida privada dos vizinhos. O que sobrou tem o discurso neoliberal: cada um por si, independentemente do meio, Deus para os miseráveis. Podem crer que sou o menos egoísta e frio no picadeiro, ainda acredito que a escritura poderá um dia modificar essa merda toda… Quero de volta minha insânia, só ela me preenche e devolve o que me pertence.

 

Capítulo X: As putas fingem como os poetas

Preciso pedir licença para a multidão que se aglomera diante da porta de André e invade a entrada de casa. Pego a chave do bolso do casaco com alguma dificuldade. Enfio-a na fechadura. Dou duas voltas. Não há necessidade de usar as outras pessoas como espelho, como todos fazem, eu me vasculho e me farejo como o gato a entrada de uma toca de rato. Tenho sempre diante de mim um espelho que me reflete continuamente, não há como fugir no comportamento do outro, quando digo algo, sou eu quem fala, quando crítico alguma ação, falo de mim mesmo; de mim e do outro de mim… Somos apenas o duplo de um mesmo, mas cada qual com seu duplo, infinitamente. Sinto-me feliz, ninguém pode olhar e ver meu rosto agora, chapado na porta, destoa da maioria, a morte não me surpreende mais, não esperava a de André, mas veio em boa hora, acredito que ele pensaria o mesmo fosse eu o defunto. Ruído seco… A morte é um ruído seco, um estalido, um destravar de fechadura, retiro a chave, abro a porta e, sem acender a luz, entro. Jogo o corpo sobre a porta que se fecha num estrondo. Adentro a escuridão do corredor a ver fantasmas, mas eles não estão. Quando voltarão? Gesticulo como esportista diante da vitória, jogo o braço para o alto, mãos fechadas, digo um Yes!, atravesso o corredor de olhos fechados, ouvidos na estranha cantoria sussurrada pela boca, Fred Stern, “Dançando na Chuva”. Há quanto tempo meu corpo não dança? Há quanto tempo alma dentro de corpo em formol? Os medicamentos enrijecem os movimentos, apenas isso, os pensamentos continuam na velocidade da luz. Ao ver um barco na calmaria do mar, não imaginamos que em seu interior pode caber toda a “Divina Comédia”. Não é o que acontece nas viagens de transatlântico? Os viajantes deixam um backup no porto e assumem um ritornelo orgíaco, de fundos de saco rompidos, de espermas escorrendo nos declives das ondas, da paixão esotérica por um ídolo cadente, do pó na narina, do orgasmo ejaculado na direção das sereias. Assim começo a me sentir melhor… Onde os deixei? Ninguém responde. Mas logo esta casa estará cheia, haverá aqui uma família, quase uma família, o pai não, que fique no túmulo para sempre. Para sempre… Há um livro que carrega esse nome. Talvez Virgílio Ferreira. Ah! Aqui estão! Lixo?! Não, melhor no banheiro, a descarga não deixa indícios… Doutores do desprazer, aqui vão suas pílulas mágicas! Pronto! Agora é aguardar as visitas e o retorno das cores… Demorará um pouco até tudo ficar no meu normal… O dia deixou-me cansado. Melhor dormir. Descansar. Preciso me cuidar para que Amélia não descubra, a bandida é muito perceptiva, a pobreza aproxima mais os despossuídos da loucura, fruto do sofrimento pela falta e incerteza, atrai mais as emoções que desintegram o espírito, como o ódio e o desejo de morrer e matar. Amanhã me livro da empregada.

 

(continua)

Híbrido (1)

04 de Setembro, 9:00

Ontem eu e […] ficámos sentados durante um bocado junto ao ventilador, perto das escadas que descem da rua. Era perto das sete horas. No ângulo da Alameda, observámos sossegados a misteriosa engrenagem universal, a realidade polimorfa e bi-dimensional. Dois negros a correrem à volta do relvado; três adolescentes conversando junto à fonte sem água; um grupo de rufias perto da escada oposta, a jogarem à bola com um pit-bull; um negro que dança ao som de auscultadores, um branco grunge que arrancou as mangas da camisa quadriculada; uma mulher com um carrinho de bebé, à espera da mãe da criança; um casal de namorados, num dos bancos, nos outros bancos reformados; cães de raças distintas; etc, etc. Ao fundo ficam o parque infantil, a brilhar, meio indefinido por uma poalha luminosa e melancólica, impressionista, e as várias cores de roupa, o movimento parado, que é só a ideia do que vai acontecer – um ar sólido e transparente, eriçado de partículas incandescentes e coberto com uma cor dourada e esmaecida. Cada peça da engrenagem roda por si própria, os corredores, as adolescentes, os cães, dentro de um círculo definido e puro, auto-justificado e real, até à última parcela. Mas a engrenagem, por si própria, não tem movimento, é uma máquina dura e parada, desenho técnico onde não se divisa um sentido definido. Estamos na avenida de Berna.

Da série A Ronda

Paulo Bugalho

53º Episódio – Folhetim (II sequência de novelas) – O MÊNSTRUO MÁGICO DAS ORQUÍDEAS GRÁVIDAS – Folhetim em Setenta Episódios por Carlos Pessoa Rosa

Necessito do outro de mim, a impossibilidade da literatura me destrói, preciso do excesso, do caminhar no limite, nas fronteiras, o mundo eu já perdi, estou pronto novamente para dizer, como ela, na primeira pessoa, devo suportar um pouco mais, até a última visita, enquanto leio o diário, sedimento algo de quem fui, através de resenha materna, ela não mais aqui, não sei o motivo, deve ter registrado no diário, mas agora não mais, a velha Remington Rand me assediando, melhor sair, comer alguma coisa, morrer mais uma noite, amanhã não haverá ninguém a me incomodar logo cedo, vontade de colocar um aviso na porta, como dos hotéis, NÃO INCOMODE, mas na rua estimulará ação de vândalos, nem no hospício há tantas variedades de loucura, tantas tatuagens no couro, tantos registros estranhos nas paredes, tantas desavenças sem motivo, tanta desigualdade, tantas mortes violentas, tantas vísceras ruidosas de fome, tantos crentes, tantos incrédulos, tantos mortos vivos… O mesmo nas ruas, cada vez mais. A única bala perdida dentro de um hospício não são as metálicas, mas as colocadas na boca dos internos pelos enfermeiros, aviadas pelos médicos, pelos doutores da vida e da morte. Amélia trocou os lençóis, o quarto está perfumado, vou pedir que na minha morte perfumem o caixão desse modo, durmo sem travesseiro, acho que sempre foi assim, que livro seria esse que foi aceito para publicação? André criticou o que escrevo… Ninguém suporta. Os psiquiatras ficaram horrorizados com um texto escrito com a unha na parede de minha cela, aquilo não era um quarto, custou-me um choque a mais, o aprisionamento do outro de mim, não conseguiria escrever nem mesmo um diário, não tenho qualquer interesse em atuar no tempo comum, se o faço é pelo resultado do tratamento, repetir o mesmo, sempre e do mesmo jeito, reforçar o modelo, mas só com os remédios meu mundo assim, em branco e preto, eu sem gozo, sem prazer, sem desejo… Mentira! Desejo existe, só estou usando a tática do perdedor, o tempo resolverá, é preciso perder o mundo e viver o inferno da impossibilidade do dizer, ser escritor é isso, prostituir as palavras, transmitir todas as pragas possíveis, isso não é possível sem o outro, escritura necessita sempre de dois, como no sonho, há sempre um fora de cena…

A luz zebrando o assoalho… Que horas seriam? Sensação de ter dormido muito. É possível que várias noites tenham se passado, os dias sem criatividade, sempre os mesmos, circular, repetitivo, construído pelo mesmo, as palavras frágeis e sem poder criativo, ninguém suporta o silêncio, como se fosse o oposto da palavra, mas é no silêncio que a escrita helicoidal, não há totalidade a não ser na loucura coletiva, tenho dormindo muito todas as noites, efeito dos remédios, a fresta na parede, dois olhos me espiam… Saco! Não tomei os medicamentos ontem à noite, melhor me levantar, dobrar a dose agora cedo, na parede a data atual, não acredito, amanhã será o dia da visita da assistente social, a consulta com o psiquiatra ocorreu faz uma semana, ele elogiou minha evolução clínica, disse assim mesmo, clichê, o que mais ouço das pessoas são respostas prontas, André praticamente esqueceu-se de mim, ouço o som da televisão na casa dele, não é incomum arrumar alguma encrenca com vizinhos e transeuntes, estou feliz por estar fora de seu foco… Amélia também não se preocupa mais comigo, vive elogiando meu comportamento, minha melhora, percebo nela um interesse de se misturar com minha normalidade, até que gostaria, mas não quero nada com essa gente que pensa me ajudar e me mata lentamente, que não percebe o próprio suicídio imposto pela rotina. Hoje é dia de ir ao banco receber a aposentadoria, antes tomarei um bom café com leite… Na cozinha vaga lembrança da mulher sentada na cadeira, do gato aguardando a ração, mas nada sobre Carol. Do outro lado da parede, nada se houve, está dormindo ou morreu… Besteira! Gente ruim não morre nunca! A pia está carregada de louça suja, Amélia vem amanhã, a assistente social vem à tarde. Melhor sair, tomar o café na padaria, mas antes mais uma lida no diário:

Volto do médico. Não sei como anunciar o problema a Samael. O que não se pode dizer… Escrever é possível. O problema não é a morte, mas o modo, não gostaria de dar trabalho aos dois, ainda mais agora que estão tão bem. Para não fugir à verdade, estou até tranquila, se é para morrer que seja no momento em que estamos mais felizes, quando não há mais planejamentos, quando vivemos a plenitude, mesmo que temporariamente, mas não sei como dar a notícia, talvez melhor não dizer nada, caso venha a perceber… O doutor falou em pouco mais de um ano. Ainda bem Carol em casa. Não ficará sozinho.

 

 (continua)

Clarice Lispector

Num livro, uma frase – uma ferida. Contaminada. Um vírus, à espreita, para se espalhar. Sem uma ferida, que se propaga, não há frase, não há livro. Sem uma ferida, não há leitor. Num leitor, em algum lugar impalpável, uma ferida, mas não a frase contaminada. A diferença do livro: espalhar, não a ferida – que esta, sem ela, não há leitor –, mas, além de cutucar, de dentro, a ferida, espalhar o vírus, na outra ferida, até então imunizada. A frase, o livro – uma contaminação. O leitor, ferida viva, tenta – esparadrapá-la. Consegue: esparadrapa a frase. Não o vírus. Que o invade. Um outro leitor, desse livro, página contra o sol, descobre a frase: Pedir? Como é que se pede? E o que se pede? Pede-se vida. E vejo, então, o que já me contaminara.

Alberto Pucheu

52º Episódio – Folhetim (II sequência de novelas) – O MÊNSTRUO MÁGICO DAS ORQUÍDEAS GRÁVIDAS – Folhetim em Setenta Episódios por Carlos Pessoa Rosa

Ela havia saído. Senti-me aliviada. O filho retornou antes. Estava preparando um caldo verde quando chegou. Ouvi a sineta, entrou primeiro no escritório, sempre age assim, como o pai, temos um gato, o animal aguarda-o em uma das prateleiras da biblioteca, quando chega, desce, rodeia suas pernas e corre na direção da cozinha, só aceita ser alimentado por ele, Samael entrou em seguida, trazia a vasilha onde colocou a ração que ofereceu ao bichano. Eu sentada na cadeira, aguardando para jantarmos juntos. Carol? Saiu antes do almoço, respondi. Em que trabalha? Ele me observa um tempo, como a querer dizer algo, mas desiste, afasta-se, abre a torneira da pia e serve água ao gato. Volta-se olhando algum ponto muito distante, depois me encara fixamente enquanto se ajeita na cadeira. Pega a colher e experimenta o caldo. É difícil dizer-lhe em que trabalha… Não me olha, brinca com a colher no caldo. Como assim? Ela é uma profissional, ele me diz, levantando os olhos lentamente. Profissional em quê? Hesitou na resposta… Mãe, ela é uma prostituta. Não sei dizer qual foi minha reação. Acho que apelei ao pai morto, talvez ele tenha me dito que estávamos livres dele há anos, que o deixássemos no túmulo, onde estava muito bem enterrado. Saí da cozinha e fui ao quarto de onde saí somente no dia seguinte. Não nos falamos durante semanas. A casa é grande, era possível evitá-los. Deixava o jantar pronto e não saía mais do quarto. Mas Samael demonstrava estar muito bem, já não falava sozinho pelos cantos, diminuíra o tempo escrevendo, isto fez com que me aproximasse de Carol, não percebi nela qualquer mal-estar ou irritação para comigo, ao contrário, hoje nos entendemos como irmãs, mesmo não entendendo a relação dos dois, Carol é uma mulher expansiva, de trato fácil, quis aprender a preparar pratos para Samael, também estranha sua mania de colocar ovos no caldo verde quente, já lhe disse que não adianta implicar, que na infância tinha de apagar incêndio com o pai por causa do bendito ovo, e os dois vão bem, o que mudou minha vida também, chego até a pensar que somos uma família…

Hoje paro por aqui, não sei quando volto, está na hora de preparar um jantar especial para os dois, estão completando um ano juntos, quiseram que eu participasse do momento, então, vamos à cozinha… Quase me esquecia, o dia é especial por mais um motivo, uma editora aceitou um original dele, ainda não sabe, ligaram para casa, pediram para agendar uma entrevista.

Não me lembro desse dote de Clara… Minha mãe. Literatura exige a experiência do fora, do não-lugar sem intimidades, do distanciamento. Ela gosta de colocar diálogos no relato, o que acrescenta em veracidade, como dizer que aquilo não saiu de uma boca? Não me recordo de nada, com ou sem diálogos. Um livro meu aceito… Como não me lembrar disso? E Carol… André também a conheceu. Dentro de mim nem rastro, talvez tenha sido a causa da doença, não da psicose, mas da SIDA, a doença não dá para esquecer, no hospital me tratam com reservas, deveriam usar luvas para retirar sangue de todos os pacientes, mas não havia em quantidade suficiente, então os enfermeiros colocam luvas apenas para atender os pacientes de risco, eu sou um deles, carrego uma estrela na testa como os judeus nas portas das casas durante o nazismo. Ela já sabia de meus fantasmas, do outro de mim… Que poderia fazer um psiquiatra? Se não conseguem cuidar nem dos seus! Os psiquiatras são pessoas normais, como todas as outras… Ouvi no hospício, de um deles. Não respondi que o problema está exatamente nisso, o de ser uma pessoa singular, normal como as outras, qualquer relação entre nós seria assimétrica, o profissional dotado de poder, do status da normalidade… E quem retirará a coroa de um rei? Nunca na história. Sem o outro, são rasos, cacoetes, nada sabem do vazio e da solidão absolutos, nada além do apreendido em leituras, no vício, nos excessos e nas armadilhas das palavras.

 

(continua)

Curso instantâneo de literatura

(Aviso: Esta história é rigorosamente autêntica)

A moça tinha um desses cursos que vieram substituir o chá de tília ou os curandeiros. Foi-me apresentada ao telefone por um seu amigo. Queria perguntar-me qualquer coisa. Ela pediu-me que lhe explicasse a diferença entre conto, novela e romance. Se eu fosse desportita ou político, diria agora: “Fiz o meu melhor”. Depois ela explicou. Já não se lembrava do que era novela e romance, mas queria escrever um romance.

Daniel de Sá

51º Episódio – Folhetim (II sequência de novelas) – O MÊNSTRUO MÁGICO DAS ORQUÍDEAS GRÁVIDAS – Folhetim em Setenta Episódios por Carlos Pessoa Rosa

Quinze dias… Um martírio. O apito. Levantar, escovar os dentes, tomar meu lanche matutino, passar o dia andando sem objetivo, fazendo compras, jogando conversa fora, suportando comentários e preconceitos do André, a assistente social ficou feliz com o que viu, deve ter conversando com o André antes de tocar a campainha, um pouco mais jovem que eu, acho que está interessada em mim, mas faço que não percebo, preciso de mulher, mas prefiro pagar caso não encontre alguma aventurosa, não quero compromissos nesta altura, já me falou de sua vida, é divorciada, tem dois filhos adolescendo, eu não tive filhos para evitar problemas, não vou adotar de terceiros, além disso tem a doença, nem sei de quem, agenda outra visita para daqui a um mês, é muito tempo, não sei se suporto tomando medicamentos, mas será a última, se estiver bem na próxima visita precisarei apenas ir às consultas psiquiátricas. Fez perguntas sobre as mudanças no quintal, quis saber o motivo de um pé de jabuticaba, inventei uma história, em branco e preto é mais fácil, com palavras artesanato, sou bom nisso, ninguém questiona as respostas prontas, falei de saudade da infância quando havia ali um pé do fruto, que era meu lugar predileto para brincar, não falei que jabuticabas provocam em mim ereção, poderia pensar que a doença me sondava, disse-lhe apenas que me faziam lembrar um beijo, o que ruborizou seu rosto, ela confirmaria tudo com André, ele ficou quase meia hora tecendo fatos vividos na infância tão logo viu o pé plantado no quintal, que ocorreram debaixo do pé de jabuticaba, eu concordando com tudo, vendo prazer em seu rosto, como se o passado fosse o único tempo vivido por ele. Amélia já não me faz tantas perguntas. Hoje me sondou para saber do diário. Eu não o abri mais, aproximei-me várias vezes dele, mas não tive coragem. Está marcada a página em que parei. Quem sabe esta noite…

 

Capítulo IX: Há sempre um fora de cena

Chove… Gotas graúdas. Pelo repicar, granizo. Eu sentado no sofá de couro de carneiro. O diário sobre o móvel, junto às correspondências, não abro as cartas que recebo, não quero ter o trabalho de respondê-las, nem sei quem poderia se incomodar com alguém doente como eu, já não mais família, lembrança alguma de parentes… Vou ler o diário, não adianta negar que nele há algo que me pertence. Caderno comum, apenas a capa dura, com duas linhas ocupadas, na primeira lê-se a palavra Diário e na segunda o nome Clara. Fixo-me um pouco no nome. Nunca pensei escrever um diário… Na situação atual, quando o outro de mim ausente, eu a viver um presente esvaziado de ontem, onde as pessoas estranhas, embriagadas no segredo de não ter nenhum, quando não há nada que não seja a repetição, seria de grande ajuda um diário pessoal. Meu arquivo morto são os livros, fragmentos que escapam de algum alçapão na alma, o que faz de tudo obra ficcional, nunca me encontrei nas histórias de infância, idolatria necessária à repetição do comportamento, da masmorra, cárcere com alicerce fabricado nos porões do Estado, com alguma pitada de ciência, religião e filosofia. Quem sabe, no olhar dela, haverá contaminações relacionadas ao tempo e espaço burgueses, arquitetura secular, em ambientes aquecidos, de comida e sexo fartos, mantendo-se afastadas as aparições, os devaneios e a intuição. As bruxas eram a resistência… Os remédios falham em alguns momentos… Vamos ao delírio materno:

Samael acaba de sair. Continua muito parecido ao pai fisicamente, mas as semelhanças ficam nisso, tem um comportamento cada vez mais arredio, é de pouco falar, vive enfurnado no escritório escrevendo suas histórias sem início ou fim, não fosse o serviço público não teria como viver, as editoras devolvem tudo que escreve, já não lê as cartas que enviam junto aos pacotes, percebo-o irritado, mas não demora e retorna à velha Remington Rand que fora do pai, não tem namorada, o que não me preocupa, sei da preferência pelas profissionais, já me confessou, mas agora tenho medo da doença dos tempos, ele riu quando lhe disse, não acredita em família, o que não me frustra de todo, não lhe proporcionamos uma infância, não ao modo comum, mas Samael também nunca foi um filho normal, o pai carcamano, preconceituoso e rígido, sempre a criticá-lo, o que me preocupa é essas conversas no vazio que flagro com mais frequência, é um bom filho, mas me preocupa seu comportamento, talvez uma ajuda psiquiátrica, riu de minha sugestão…

Janeiro, agora uma nova moradora, essa mulher aqui em casa. Sabia algo errado. A demora maior para chegar a casa, as saídas aos sábados e domingos. Menos tempo para escrever, alongou a insônia. Dorme duas horas por dia. Às vezes, acordo com o som do teclado, vai direto à repartição. Havia uma mulher, sem dúvida. Por que não pensei? Não gostava da ideia… Não é fácil. Você em casa e o filho traz uma mulher dizendo que ela vai habitar o mesmo teto. Não tive reação… No dia seguinte, esperei tomarem café, mas só ele saiu, ao me levantar encontrei-a no escritório lendo o que Samael escrevera durante a madrugada. Evitei contato manhã toda. Antes do almoço ouvi o som da sineta. Além de Samael, ninguém tinha a chave para entrar.

 

(continua)

Auto-entrevista – Maria Helena Ventura *

Baseio esta mini auto-entrevista num questionário pouco rígido, maleável, já que as perguntas, mais vezes formuladas em entrevistas ou por leitores comuns, têm sido colocadas de forma diferente.

O objectivo principal é dar informação sobre o romance Cidadão Orson Welles, o meu décimo sexto livro publicado em Março deste ano.

1 – P. O que a levou a escrever sobre Orson Welles, ou quando se entusiasmou pelo trabalho e pela figura deste cineasta a ponto de querer escrever sobre ele?

     R. Presumo que todos os autores escrevam sobre temas que os fizeram pensar e figuras que os marcaram, cumprindo uma das funções da literatura: questionar a vida. Afinal as ficções são construídas com símbolos, temas e personagens do real.

                Já ouvia falar de Orson em criança, muito antes de alcançar a dimensão do seu talento com várias facetas. Naquela altura apenas intuía uma grandeza que os seus pares fingiam não reconhecer. Mais tarde chamaram-lhe génio.

À medida que fui conhecendo melhor o seu trabalho e personalidade, descobri que era arrojado, provocador no bom sentido, capaz de romper com os esquemas tradicionais da realização de um filme, mesmo enfrentando múltiplas oposições para dar vida aos projectos.

Firme nas convicções e aguerrido, apresentava-se aos meus olhos com as qualidades de qualquer herói moderno. Mas tinha ainda outro talento que me fascinava: também era poeta. Sempre admirei quem, no meio de vidas complicadas, consegue arranjar tempo de qualidade para criar beleza num poema. Orson ordenava o caos que o rodeava criando arte, beleza, por isso me marcou tanto.

2 – P. Sendo uma ficção, porque não pensou num título diferente, Yasmina, por exemplo, já que esta personagem domina o livro todo?

     R. Há mil opções para intitular um livro, mais e menos óbvias. Enquanto esboço, apenas, o livro teve um título diferente, mas o enredo foi ganhando autonomia.

Yasmina descodifica os sentimentos próprios e alheios, enquanto personagem e narradora. Apresenta a sua história de mulher a um tempo vulnerável e protectora, como um tributo a O.W., grata pelos meses de enlevo que viveu com ele. Essa homenagem só seria plena chamando a atenção para o homem por detrás do cineasta. Daí o título.

3 – P. Vinha do romance histórico: A Musa de Camões, Afonso o Conquistador, Onde Vais Isabel e Um Homem Só. Rompeu com esse género literário?

     R. A pesquisa para construir uma ficção com base em factos históricos suga todas as energias do autor. É preciso que ele esteja bem documentado, mas gerir o amontoado de dados recolhidos é uma empresa esgotante.

                Escolher e rejeitar são dois tempos imperativos com que lidamos cada dia. E ainda assim, diante do romance histórico, é doloroso rejeitar o que deu tanto trabalho a pesquisar. Só que a ficção precisa do seu espaço, por isso o livro se chama romance. Há uma altura em que é urgente começar o trabalho de composição aliando pesquisa à criação literária. Quando chegamos ao fim, extenuados, sentimos alívio.

                Cidadão Orson Welles estava agendado. Preencher o esboço inicial converteu-se num trabalho apaziguador que fluiu sem constrangimentos. Quando dei por mim estava concluído. E longe de sentir cansaço, estava apta para outros projectos, até romances históricos.

Este intervalo (interlúcido) deu fruto – um romance com menos páginas mas de grande amplitude. E ensinou-me que o autor precisa de distanciamento em relação aos géneros que trabalha, seja entregando-se a um ócio merecido, seja alterando rotinas, explorando outras formas de fazer. Mas outro romance histórico virá.

4 – P. Pensa que tem um estilo próprio?

      (Converti em pergunta uma afirmação frequente de alguns dos que me lêem, reforçada depois de Cidadão Orson Welles)

       R. Felizmente, como a maioria dos autores, acho que sim. Nunca tentei mudar, a não ser na preocupação de burilar as frases para adequar o estilo ao universo ficcional criado. Mas ainda que tentasse, acho que seria sempre notória uma forma de expressão que identifica o meu trabalho. Não quer dizer pior nem melhor, só com características próprias.

5 – P. Acha que um livro deve ter uma fórmula simples para vender, para se adequar ao mundo competitivo, para servir a sociedade sem tempo para ler?

     R. Há obras-primas que não vendem, há cinema de autor que não consegue alcançar êxitos de bilheteira, mas esses trabalhos estão bem identificados e hão-de ser referências. Se não for nos tempos de hoje, um dia será.

Os leitores interessados sempre hão-de ler. Quando os leitores ocasionais forem absorvidos por novos apelos, ficarão sempre os outros. E esses são cada vez mais exigentes.

Notamos que os livros, por imposição do marketing editorial, são mais apelativos na capa. Mas se no conteúdo apenas obedecem a fórmulas competitivas, não criam nada de novo, repetem. Não podem satisfazer esses leitores interessados.

                Mac Kay dizia que uma mensagem só se converte em informação quando organiza os elementos de forma inovadora. Com o livro acontece o mesmo. Ainda que o tema seja conhecido, tem que haver um novo ângulo de abordagem no processo criativo para cativar.

                A melhor maneira de um autor respeitar os leitores é partir do princípio que eles são inteligentes, que vão exigindo mais trabalho de criação. E a criação não se subordina a fórmulas simplistas, segue a própria subjectividade do autor na construção de mundos ficcionais onde se note coerência, questionamento dos problemas reais e respeito pelo próximo.

* Maria Helena Ventura nasceu em Coimbra, vive no concelho de Cascais e é Mestre em Sociologia. Os seus poemas de adolescente começaram a sair em publicações regionais e no jornal República, já depois de lhe ter sido dedicado um espaço numa das sessões do programa radiofónico Tempo de Juventude. Começou a publicar livros (poesia) em 1983, no mesmo ano em que se tornou membro da Associação Portuguesa de Escritores. Em 1999 publica o primeiro romance, Mar Mulher, sobre a diáspora do povo timorense, precisamente quatro anos depois da tese de Mestrado sobre o mesmo tema. A partir de então nunca mais abandona a ficção. Tem, até ao momento, sete livros de poesia e nove romances, o último Cidadão Orson Welles, saído em Março de 2011.

“Garman & Worse”

Alexander Kielland é um autor norueguês do final do século XIX, que, juntamente com Henrik Ibsen, Bjornstjerne Bjornson (Nobel) e Jonas Lie, faz parte dos quatro escritores mais importantes dessa época.

A sua sensibilidade para as questões sociais está bem patente na sua mais importante obra, “Garman & Worse”, traduzida por João Reis e editada pela Eucleia Editora.

“E enquanto os anões esforçam os olhos para ver acima dele, o mar canta a sua velha canção. Muitos mal a percebem, mas nunca dois a entendem da mesma forma, porque o mar tem uma palavra diferente para cada um que se coloca cara a cara consigo” pag.7

Olhar para o mar e ouvir a sua canção implica silêncio, obriga a reflexão, e propõe o encontro da pessoa com ela própria, num processo de auto-avaliação. Kielland dota o mar de características humanas (prosopopeia): “ (…) e autêntico bate o coração, o último saudável num mundo doente” e adjectiva o humano de anão que anda num mundo doente. E se o faz, tal se deve à fuga do pensamento quando enfrenta o vazio do infindável mar. Por esta razão o Homem entrega-se à construção, ao trabalho, à frivolidade dos protocolos sociais. Quando Rachel Garman pergunta a Jacob Worse como pode ele viver sem querer quebrar a rotina, a tradição, o pensamento vigente, quando nele há tantas ideias novas, Jacob responde:

“- Tenho um remédio simples, que aprendi com a minha mãe, e que o seu pai também usava – o trabalho. Trabalhar de manhã à noite (…)” pag 157

O Leitmotiv de “Garman & Worse” é o confronto entre inovação e tradição. Ao longo do texto podemos acompanhar a impossibilidade de conjugar estes dois factores dentro do seio familiar e das ligações sociais – através da relação laboral e, intrinsecamente, das diferenças entre classes. O papel da mulher na sociedade e o papel da igreja contextualizam-se, também e de forma clara, neste confronto entre tradição e inovação.

A prosa é objectiva, equilibrada, e elimina o supérfluo. A perspectiva muda consoante o capítulo dando, desta forma, uma pluralidade de pontos de vista. A narrativa é sólida e, apesar dessa mudança de perspectiva, não perde, em momento algum, a sua coerência. O autor tanto se aproxima das personagens (ao ponto de não sabermos a quem é que pertence determinado pensamento, se à personagem ou ao narrador) como delas se distancia.

Os acontecimentos precipitam-se com a chegada de Richard Garman. O irmão do Cônsul Christian Fredrik Garman, dono da firma Garman & Worse, era um náufrago em terra. Tinha vagueado por muitos locais, conhecido muita gente e, no momento em que recebe a carta do irmão para voltar a casa, encontrava-se dominado pelo desespero.

Apesar de todas as possibilidades profissionais que Richard tem, quando chega a casa, ele escolhe a mais inesperada para quem o rodeia: “Sabes, Christian Fredrik, não consigo imaginar um cargo mais adequado a um náufrago como eu do que o de faroleiro aqui” pag. 11

O náufrago em terra muda-se mais a filha para o farol. É nesta fronteira entre o mar e a terra, de cara voltada para o mar e costas voltadas para a terra, que Richard projecta o olhar sobre o infindável e deixa o mar entrar em si. Renovado, Richard está em casa.

É através de Gabriel Garman, filho mais novo do Cônsul, que assistimos a uma primeira batalha entre a tradição e a inovação. A renovação da indústria implica a actualização da forma de produção da empresa. Morten Garman, filho mais velho do cônsul, defende o fabrico de navios a vapor enquanto o Cônsul continua a defender a manutenção da construção de caravelas. A tradição abranda a inovação:” (…) Christian Fredrik – seguia de perto os seus passos [do pai], sempre de acordo com a máxima: o que faria o pai nestas circunstâncias?” pag. 26

A insatisfação de alguns trabalhadores, com evidente diferença de nível de vida, faz-se sentir. Por várias vezes são referidos o cheiro nauseabundo a peixe e a sujidade nas ruas, enquanto a mansão da família Garman, em Sandsgaard, tem todas as comodidades. A conformidade do trabalhador perante o patrão começa a diluir-se e, desta forma, são introduzidos os problemas dos estratos sociais e relações laborais:

– Não chega – gritava- matarmo-nos a trabalhar para estes tipos? Têm mesmo de ficar com parte de cada migalha que comemos e de cada gota que bebemos? Olhem só para as casas deles! Quem lhes deu tudo aquilo? Nós, avô!” pag. 49”

Novas palavras como “proletariado” são ditas sem serem apreendidas, por serem recentes, pelos mais antigos.

A inovação tecnológica é simultânea à alteração do comportamento da população.

II

A Igreja mantém o seu poder regulador sobre a Razão, a Moralidade e a Tradição. E é por esta tríade que o homem orienta a sua conduta e a mulher se sujeita a um papel secundário. Fru Garman, mãe do Cônsul, apesar de matriarca da família, não governa realmente a sua casa. Apesar da tradição se basear na antiguidade, a presença feminina não está sujeita a essa regra. É, constantemente, relegada para um plano secundário. Esta é a regra vigente e conservada, também pela igreja. Quando o director da escola, estudante de teologia com pretensões a Pastor, quer fazer o seu primeiro discurso na igreja é fortemente influenciado por Rachel, filha do Cônsul. Rachel não partilha as ideias vigentes. Rachel (e Jacob) é uma “livre pensadora”

Na igreja, após o discurso escandaloso e de matriz anticanónica de Johnsen, director da escola, sobre a falsidade do coração humano e a escolha do caminho da verdade em detrimento de rituais, o sentimento entre as mulheres tornou-se indefinido. Por hábito, procuraram nos homens a sua própria opinião: “Entre as mulheres, o sentimento parecia bastante indeterminado, e muitos olhares inquiridores eram lançados em direcção aos homens, na esperança de adivinhar qual seria a sua opinião, fosse de um pai, um marido, um irmão, ou de facto qualquer outra pessoa do sexo oposto com quem cada mulher tinha o hábito de formar a sua própria opinião” Pag.89

A pessoa mais procurada foi, no entanto, o deão.

Este personagem é o mais sedutor de todas as personagens do livro. Quando todos esperavam agressividade perante tal discurso, o deão respondeu com uma voz afectuosa, um sorriso nos lábios e uma retórica que seduziu o director a mudar de opinião.

Sempre que surge um problema, uma quebra na rotina estabelecida, a sedução do deão recompõe a ordem. Não o faz através da imposição ostensiva de regras de conduta, mas pela sedução e envolvência da sua capacidade oratória.

A tradição mantém-se através da repetição cega dos costumes, da formação da Moral, por parte da igreja e personificada no personagem do deão e, também, através da educação escolar que, aliás, se encontra muito ligada à igreja: “O professor propagava o seu tema favorito: que era impossível que os jovens adquirissem um conhecimento apropriado sem levarem pancada; e toda a formação superior desapareceria se não se impusesse um limite ao humanismo moderno, a que ele preferia chamar doença” pag.39

Jacob Worse e Rachel Garman representam a ruptura com a Razão e Tradição vigentes. Jacob, em conversa com Rachel, dá mais um exemplo da dificuldade em contrariar o que há muito está estabelecido. No seu caso, o pensamento inovador foi derrotado pelo conservadorismo. Ele havia fundado uma associação para a qual fora nomeado presidente. Devido aos rumores de falta de legitimidade por não ter havido eleições, ele próprio as propôs. Perdeu, surpreendentemente, para outra pessoa que nunca havia ido a nenhuma reunião. Mais tarde, descobriu que o deão havia influenciado a opinião das pessoas. Desta forma, o pensamento antigo derrotou o moderno.

Ao contrário da inadaptada Rachel, Madeleine, filha de Richard Garman absorveu as regras de etiqueta e as regras da sociedade, após alguns anos na cidade. Tudo isto apesar de ter morado 10 anos em Bratvold, no farol, e convivido com os pescadores. A relação de Madeleine com a localidade onde crescera mudou radicalmente “(…) nunca queria ir para a sua casa em Bratvold juntamente com o seu pai, mesmo que só por alguns dias. Parecia temer olhar outra vez para o céu” Pag.94

Tornara-se uma mulher mais activa, mais citadina e muito menos introspectiva, menos perto do mar.

Enquanto Madeleine fazia o percurso de adaptação à Razão vigente, Rachel Garman não cessava de se indignar com o papel da mulher na sociedade: “Tudo a parecia irritar [Rachel]. Não aguentava ouvir estes homens discuti-la e á sua posição como se fosse algum animal estranho, e sem nunca terem a preocupação de lhe perguntar a sua opinião” pag.67

III

Desde o início até quase ao fim do livro existe um navio em fase de construção. Se há uma materialização da tradição, em “Garman & Worse”, então ela existe através dessa embarcação. Apesar de muitas forças estarem envolvidas na construção, só o Cônsul sabe o nome que vai dar ao navio.

Era fulcral para o Cônsul que a embarcação estivesse pronta a zarpar em determinado dia. Mas algo nefasto acontece e que vai ter repercussões definitivas nos intervenientes. Um incêndio deflagra-se nas imediações. Apesar do filho do Cônsul propor novas medidas de combate ao fogo, o Cônsul recusa e continua a usar as velhas bombas de água, que não surtem qualquer efeito. “O jovem Cônsul adquiriu uma postura firme; parecia ouvir um eco de todas as desavenças entre eles. Era a velha história, o novo contra o velho, e ele respondeu sucinta e friamente: – Ainda sou o chefe da família. Volta e faz o teu dever como eu mandei” pag.123

A tradição da família afunda-se defronte de todos. No entanto, é o filho mais novo, juntamente com a força dos trabalhadores da empresa, que consegue salvar o que o Cônsul já dava como perdido. Soltando o barco para água, consegue extinguir o fogo que consumia a embarcação. Mais tarde, temos a oportunidade de saber qual seria o seu nome. O navio seria baptizado com o nome do pai do Cônsul, mas em vez disso, e de forma metafórica, é o filho mais novo a baptizar o navio: Fénix. E assim se transmite, para o presente e futuro, um passado renovado.

A problemática da clivagem entre estratos sociais é abordada, já nos capítulos finais, com um humor cínico e negro. Evitando desvendar mais do que o necessário, refiro-me à desigualdade entre pobres e ricos mesmo depois de mortos. Enquanto um cortejo fúnebre reúne grande parte da população, é acompanhado por uma orquestra e monopoliza as coroas de flores existentes, outro cortejo, bem mais simples, com uma única coroa de flores que sobrara em todas os estabelecimentos, espera, com o caixão pousado, defronte de uma cervejaria. Só pode entrar um cortejo de cada vez e este, mais pequeno e menos composto, tem de aguardar. Os sete palmos de terra que o padre apregoa serem uma medida de igualdade entre ricos e pobres não é, afinal, assim tão fiável. Os pobres têm o seu espaço para serem sepultados. O coveiro desvia velhas ossadas, que são desenterradas conforme se abre outra sepultura, e guarda-as num pequeno porão para dar lugar a outro pobre numa nova cova. O coveiro, pouco sensibilizado pela pobreza, afirma: “Os pobres dão tanto trabalho na morte quanto em vida. Nunca morrerão como pessoas respeitáveis, um por um, de vez em quando; mas morrem todos ao mesmo tempo, sabe, e então vêm para aqui e querem ser enterrados.” pag.152

IV

As ideias novas casam com a necessidade de mudança.

O diálogo entre Rachel Garman e Jacob Worse mostra, de certa forma, o caminho percorrido pelas personagens e, devido à universalidade de “Garman &Worse”, o próprio caminho dos leitores: Jacob afirma “Novas descobertas e experiências surgem a toda a hora, e dúvidas e questões escondem-se por baixo e minam toda a construção. Verdades aceites e bem estabelecidas são arrasadas, e aqueles que são incapazes de se adaptar aos novos tempos reúnem-se confusamente em volta da estrutura apodrecida, amaldiçoando a juventude e prevendo a destruição da sociedade” pag 157

Esta problemática mantém-se actual apesar de agora a velocidade dos acontecimentos ser muito maior. O Homem, actualmente, só tem capacidade de reacção perante a extraordinária mutação das tecnologias. A facilidade de acesso a muita informação, numa rapidez invulgar, tem efeitos sobre os Valores, sobre a Tradição e sobre a Moral A questão debatida ao longo de “Garman & Worse” encontra-se, ainda hoje, na actualidade. Apesar de em alguns aspectos poder ser considerado um livro datado, a universalidade em si existente permite que um século depois ainda seja uma obra de grande qualidade.

“ Todos se debatem cegamente em conjunto, enquanto a sociedade se entrelaça com um tecido de hostilidade, desconfiança, falsidade e hipocrisia” pag. 157

Madeleine volta a Bratvold e depara-se com o mar e, por consequência, consigo mesma…

“ Parecia que uma mancha de impureza repousara em si durante todo o tempo que estivera afastada de Bratvold; e agora que se encontrava novamente cara a cara com o oceano, parecia quase envergonhada por regressar” Pag.171  

…enquanto Jacob Worse apela à emancipação da mulher.

“Não é muito fácil dizer antecipadamente qual deve ser o seu tema –disse ele- ; mas está claro que há infindáveis coisas que o mundo pode apenas descobrir com uma mulher, e que parece estar à espera de ouvir. Só lhe resta ter vontade” Pag.114

É difícil compreender como foi possível ter de esperar tanto tempo por uma tradução de “Garman & Worse” para português. Felizmente, essa espera terminou.

Mário Rufino

O self-publishing esquizofrênico ou Cinderela sem sapatinho

Prezado autor,

Agradecemos seu interesse em tornar-se um autor de nossa casa. Seu original foi avaliado por nosso conselho editorial, composto por escritores, leitores e críticos. Há nele o vigor de um jovem escritor aliado a criteriosa qualidade da escrita, sem deixar de lado o apelo comercial. A história é cheia de nuances que prendem a atenção até a última palavra, o que realça mais a potencialidade da obra. No entanto, optamos por programar nossas edições com bastante antecedência, o que nos deixa com uma quantidade suficiente de títulos a publicar, já aceitos, pelos próximos três semestres — o que torna inviável o aceite do seu original. Esperamos que obtenha sucesso em sua tentativa de publicação.

Atenciosamente,

Editorial

Fast-fooditorial

Ser publicado hoje não é uma tarefa muito difícil. Muitas empresas escancaram a receita da arte para quem quiser, sem segredos. Publique seu livro! Seja um autor! Escolha pelo número! Editoras que misturam self-service e fast-food ao processo editorial crescem a cada dia. Oferecem todos os serviços para transformar aquele arquivo em livro e, de quebra, ainda organizam a noite de autógrafos. A contrapartida é – na maioria esmagadora dos casos – a garantia da venda, assinada em contrato pelo autor, de boa parte do que foi impresso. O suficiente para cobrir os custos e gerar lucro ao “patrocinador”. E nada que o autor não possa se mobilizar para conseguir. Já vimos por aí muitos casos parecidos.

Fada madrinha

O que é publicar um livro? É ser lido. Assim como todo artista, o escritor quer palmas no fim do espetáculo. Aquele ainda não publicado é como a gata borralheira, esfregando o chão enquanto a madrasta e suas filhas, os publicados, curtem o baile. Para colocá-los no mesmo nível é que surgiu a fada madrinha que Cinderela tanto aguardava: o self-publishing (feito pelo próprio autor ou por editoras de serviço). Como se fosse mágica, aquele vestido todo rasgado e sujo torna-se um belo exemplar de nobreza — preparado para a festa. O autor, até então desiludido, se enche de esperanças, veste seu livro, e vai para o lançamento. E tudo ocorre bem, com o príncipe encantado por sua obra, até a meia-noite, quando a livraria fecha e o livro vira abóbora. Será que no dia seguinte vão achar a Cinderela?

Realidade dos esquizofrénicos

Aquele que se preocupa em fazer o livro acontecer e busca o lobby usual e o marketing conveniente , mesmo tendo em conta infinitos fatores, como tiragem pequena e distribuição inexistente, tem mais chances de ser encontrado. O autor precisa deixar seu rastro. Já os que se auto-publicam para vender cinquenta livrinhos aos seus amigos, familiares, e curtir uma noite de baile, não fugirá do óbvio: morrerá sozinho, no alto da torre, preso, amaldiçoado pelo feitiço do esquecimento. É a fenda que divide o self-publishing em dois lados: os que deixam o sapatinho de cristal perdido no baile e os que vivem a realidade dos esquizofrênicos.

Após o baile

Todo esse novo mercado é incentivado pela demanda, óbvio. Afinal, qual escritor não deseja debutar no mercado editorial sem as dificuldades tão conhecidas por todos? Quem não deseja estar ao lado dos bons? O escritor sempre negado pelas editoras quer fazer parte da festa. O que acontece hoje é bem claro. Achou-se uma maneira de escoar a criação desenfreada dos tempos modernos. Coloque uma máquina de escrever em quase todas as casas para termos um resultado: irão usá-la para criar. Mais esperto será o empreendedor que comprar uma tipografia e oferecer seus serviços. São as idéias se repetindo entre os séculos.

Mas um livro, além de tudo, é arte. A edição dele em caráter industrial é um erro. Não acredite que diagramar em formato de livro aquele arquivo que você digitou é o mesmo que editá-lo. Afirmar essa construção do livro como arte é defender o papel do editor perante o camelódromo do conteúdo e, ao mesmo tempo, alertar ao escritor que, salvo poucos casos, se auto-publicar no conceito “Cinderela sem sapatinho” é doentio. A realidade é cruel, mas precisa ser enfrentada. Vá atrás do seu príncipe, mas não esqueça de deixar pistas para um encontro após o baile.

Raphael Vidal