AUTO-ENTREVISTA – Julieta Ferreira

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É errado pensar que uma auto-entrevista é fácil. Primeiro fiquei

entusiasmada com a ideia por ser uma oportunidade de falar sobre o que fica

geralmente omisso nas entrevistas que me têm feito. Depois, quedei-me a olhar o

branco tremeluzente no monitor do meu portátil, sem saber por onde começar.

Isso raramente acontece quando me sento para escrever porque o processo da

escrita se inicia muito antes de as palavras ganharem forma e criarem imagens

no espaço vazio da página. Ah! Afinal encontrei a primeira pergunta.

1.

Onde e como se inicia o processo da escrita?

R: A verbalização das minhas

ideias, em forma de escrita, deixa de ser um começo mas sim o desfecho de um

percurso, iniciado num momento atemporal, na esfera do meu pensamento, único

lugar onde existo despida dos atavios com que me enfeito e os que me são

oferecidos pelos olhares dos outros. É no pensamento que residem as palavras

sem embuste. A seguir, há uma viagem que se inicia após a visualização das

primeiras frases a desenharem imagens e a construírem uma história. É uma

viagem que constantemente me surpreende por me levar a percorrer caminhos e a

chegar a destinos insuspeitados. Quando escrevo poesia, pode ser uma

determinada imagem, uma sensação e até um pedaço de memória de um instante

vivido e guardado, que se materializam no primeiro verso e a partir daí

construo o poema. Não sou uma escritora disciplinada, não sinto a obrigação de

escrever todos os dias e quando estou a escrever um romance não sigo um plano

rígido mas, se não escrevo, sinto uma falha, como uma urgência a que tenho de

atender. Isso leva-me à segunda pergunta….

2.

Porque escreve e quando surgiu a motivação para a escrita?

R: Desde criança que me senti

tocada pelo mundo fantástico que me chegava dentro dos livros e no qual eu

mergulhava, afastando-me da realidade. Houve muitas histórias que eu fui

construindo mas não passaram de imagens a boiar-me na mente. Eram só para mim.

Houve sempre a ideia de publicar mas só em 2005 surgiu a motivação forte para

escrever um romance que não ficasse fechado na gaveta. Nesse ano deu-se uma

viragem na minha maneira de estar no mundo e também a nível interior. O livro

autobiográfico, Regresso a Lisboa –

confissões proibidas, viria a tornar-se a materialização dessa mudança e um

marco muito importante e decisivo para o que se seguiria, em termos de escrita

e também em termos pessoais. À medida que vou escrevendo, vou-me (re)encontrando.

Escrevo à procura de uma identidade, numa afirmação de quem sou, um rescindir

dos fantasmas que me habitam, uma catarse que me liberta de certas amarras. No

isolamento e na ausência, a escrita serviu para me situar dentro de um espaço e

me (re)ligar com o que deixara para trás. Serviu, digamos assim, de ponte entre

aquela que eu fora e aquela que não sabia ainda quem era. Era a voz dos meus

silêncios, dúvidas, inquietações, da minha nostalgia e das partes mais negras

da minha alma. Agora é uma presença constante, que se impõe. É uma paixão e um

vício. Um vício muito bom que me apazigua e me faz crescer.

3.

Como surgiu a ideia para o seu mais recente romance, CARTA A UM

EX-AMANTE, e do que trata?

R: Depois de ter conversado com muitas mulheres que

conheço e saber que tinham vivido relacionamentos amorosos que apresentavam

semelhanças entre si, resolvi pôr numa narrativa as suas dúvidas, inquietudes,

inseguranças, desenganos, buscas, desilusões e esperanças. Usei um discurso na

primeira pessoa, em forma de carta, para criar uma maior verosimilhança e

também para produzir um efeito estético que traduzisse esse intimismo. É uma

narrativa intimista em que a personagem feminina despe a sua alma para

exorcizar um amor que talvez não tenha chegado a ser, usando um discurso muito directo, por vezes

chocante, na sua transparência e desassombro. Não é nem tem pretensões a ser um

livro de ajuda, de desenvolvimento pessoal. Não sou socióloga, psicóloga ou

especialista em relações humanas. Mas sou uma autora que se interessa em

analisar comportamentos e emoções, em contextos de âmbito social, familiar,

sexual. Gosto também de retratar a mulher madura, tantas vezes ignorada no

âmbito literário e não só. É um livro que pode gerar controvérsia porque é feito

de uma realidade que toca de muito

perto os leitores. É uma carta de

auto-análise, um desnudar meditado e sentido, em que muitas mulheres se podem rever, embora nunca tenham tido a

coragem para a escrever. Foi mesmo isso que pretendi. Dar voz a essas mulheres

e falar do que fica encoberto, o não dito nas relações mais íntimas. Ao

contrário do que se possa julgar, não é um romance de amor embora se fale do

amor, um amor longamente contido, e é o

amor que até ao fim se busca, como diz Isabel Fraga, no prefácio.

4.

O que faz de um romance um bom romance?

R: Depende muito dos leitores e

das suas preferências. Há romances que estão no top das listas das livrarias e

que não me dizem nada. Há autores que são bastante conceituados e muita gente

não lê. Há outros autores, desconhecidos do grande público, que escrevem bons

romances mas poucos os lêem. Para mim, como leitora compulsiva que sou,

agrada-me uma narrativa em que me possa sentir dentro do mundo retratado, em

que me identifique com o que o autor está a narrar e consiga acompanhá-lo na

sua viagem pelas palavras. Prefiro histórias realistas e com uma estrutura

narrativa que eu possa seguir sem questionar a minha inteligência e sem ter de

voltar atrás umas quantas vezes para perceber o conteúdo. Um bom romance, no

meu entender, é aquele que consegue usar as palavras adequadas, num estilo

simples e ao mesmo tempo poético, para comunicar imagens, sensações e emoções

que vão ao encontro do leitor, o fazem reflectir e o enriquecem, alargando o

seu horizonte literário.

5.

É fácil separar-se de um livro quando o termina?

R: Quando começo a escrever nunca

sei onde a escrita me conduzirá e quanto tempo levará a completar o romance mas

sinto uma certa pressa em acabá-lo. Sempre fui impaciente e gosto de ver o produto

final, com alguma rapidez. Mas não forço nada. Costumo dizer que o livro vai-me

acontecendo, as personagens vão-se impondo e a história flui naturalmente. Nunca

estabeleço um prazo e, se há dias em que não surgem ideias, não fico frustrada

com isso. Tal como leitora, tenho de me sentir bem dentro da escrita e, do

mesmo modo que me custa dizer adeus a um livro cuja leitura me agradou, sinto a

dor da separação do romance que termino. E, contraditoriamente, sinto o

regozijo de ter concluído um trabalho e ver realizado mais um projecto. É uma

ambivalência interessante. Depois, nas várias leituras que faço, há sempre

correcções e a descoberta de novos sentidos, um renovado confronto com as

palavras e as personagens e é aí que tento distanciar-me o mais possível para

olhar o livro como se não tivesse sido escrito por mim. É quando se começa a soltar o cordão umbilical.