2010 – Ano de boa cepa

Se é voz corrente que tudo piora em Portugal, podemos alegrar-nos porque na Literatura 2010 foi um ano bom – tirando a morte de José Saramago que, no entanto, ficará imortalizado nos seus livros, na sua Fundação, na sua querida Pilar e no maravilhoso filme de Miguel Gonçalves Mendes. Houve a ascensão de Gonçalo M. Tavares, com a sua produção profícua, belíssima, inovadora, com uma qualidade tão unanimemente reconhecida que já é muitas vezes referido como o próximo Nobel português da literatura. E houve ainda vários autores já reconhecidos a publicarem de novo, como foi o caso de António Lobo Antunes, José Eduardo Agualusa, Helena Marques, Hélia Correia, entre outros.

Do ponto de vista da tradução, foi também um ano bom. Apesar de continuar a não haver crítica de tradução, a qualidade das traduções publicadas tem melhorado consideravelmente. Fomos aliás brindados com traduções de tradutores consagrados em Portugal, como é o caso de Salvato Telles de Menezes (As Aventuras de Augie March de Saul Bellow), Margarida Vale de Gato (A Viagem dos Inocentes de Mark Twain), Margarida Periquito (O Apogeu de Miss Jean Brodie de Muriel Spark), Aires Graça (Tudo o que eu tenho trago comigo, de Herta Müller), entre muitos outros. É sabido de qualquer lista nunca é exaustiva e é sempre injusta. Por isso, ressalte-se que se trata apenas de alguns exemplos.

Por último há a salientar mais uma vez o caso único da Ahab, cujos livros são do melhor que há: agradáveis à vista e com traduções sempre impecáveis.

Seguindo esta tendência, 2011 só pode ser melhor. Desde que haja dinheiro para comprar livros.

Bom ano e boas leituras!

Maria do Carmo Figueira

71º e último episódio – O BOM LADRÃO – Folhetim em setenta e um episódios

O pai um sujeito magro e alto, queixo e orelhas grandes, logo os levam para dentro da casa, dizem que passam o dia jogando xadrez, que nas férias vão à praia, não conhecíamos o mar até o dia em que papai alugou a casa na praia, mas não ficou conosco, era para se livrar da família um tempo, diz que tem muito trabalho, Clara não reclama, foi quando descobri felicidade no rosto dela, permanecia horas sentada diante do mar enquanto brincávamos na praia, era outra mulher a que via caminhando na areia, fitando o crepúsculo, mas foram poucas as vezes que a vi feliz assim, nunca saímos daqui, a cidade cresceu e nós fomos ficando pequeninos, o apito da fábrica, meio-dia, hora do almoço, os funcionários saem da fábrica e enfileiram-se sentados no muro que ocupa todo um quarteirão, roubou nossa rua, aliás nossa rua não existe mais, melhor entrarmos, é bom estarmos juntos, reconstruir o cenário, os movimentos, os personagens… Não suporto conviver com tantas pessoas me olhando, o limpa-pés sujo de bosta, sempre há um engraçadinho que pisou na merda espalhada pelos cães nas calçadas, a chave na fechadura, o ruído da porta destravada, o longo corredor escuro, a luz do escritório, o ruído da velha Remington Rand, os dedos em movimento, a poltrona de couro de carneiro vazia, onde todos? Eu muito próximo do lugar onde não há mais para onde ir, a morte será sempre o presente do futuro, só quem conseguir o livro conhecerá a obra de Samuel F., mas não saberá quem sou nem onde tudo ocorreu, não há corpo nem cartografias nesse putrefato sentado em uma cadeira, diante de uma velha máquina de escrever, ao lado um pacote ainda virgem de papel reciclado, obra por se (des)fazer, na parede a fotografia com Carol, Clara e Samael F.; e chegamos a um não-lugar, não há mais para onde ir…

 

FIM

Colheita 2010

À colheita do ano, como quem vai aos sonhos pelo Natal ou vindima as horas de leitura. Quem lê, parte do que lê, por obrigação profissional, nem sempre consegue arrecadar tempo para outros voos e empreitadas há muito encostadas às prateleiras do nosso contentamento. De modo que neste respigar quase me cinjo a livros que por essas mesmas razões me saltaram ao caminho. Cinjo-me ainda a livros de lavra recente. Os outros, para outra ficam ou para as Calendas. O Régio teria as suas razões para falar em colheita; cada livro pede o seu exacto Setembro para se ler. Para sobre eles se escrever, exactamente o mesmo.

Por partes, como diria Jack. Romance. O primeiro grande soco do ano foi, sem dúvida, o de Valter Hugo Mãe. A sua máquina de fazer espanhóis revelou um crescendo de maturidade de escrita, habilmente doseada com uma ironia muito subterrânea, por vezes ácida, mas, sobretudo, e como quase sempre, despertando grande emotividade que não é senão prova da sua sensibilidade à escrita. Surgiram depois, no gourmet luso-literário, os arremedos de Hélia Correia e de Manuel da Silva Ramos. Ramos, cáustico, excelente no reinventar da escrita e do dizer de um certo se português, ontem como hoje. Hélia, escrevendo, provavelmente o livro da sua vida, o excelentíssimo «Adoecer» empreitada de deixar doente qualquer pretendente à escrita. Por miséria, claro está. A terminar, no final do ano, ou por lá perto, duas surpresas. Afonso Cruz e a su’«A Boneca de Kokoschka», lugar de experimentalismos vários, deambulações filosóficas e muita imaginação. Doutro cariz, não menos poderoso, pela memória viva dos tempos idos e relatados, pelo fulminante emocional das personagens, pelo rigor da escrita, «Ernestina», de Rentes de Carvalho. Bibliotecas que se prezem, é fazer as trocas nos saldos, sobretudo se no sapatinho voz calharem os tacões dos tops.

Portugueses ainda, ou português, também errante como Rentes de Carvalho, mas noutra perspectiva, a da viagem mirabolante que vai empreendendo dentro da sua escrita. É Gonçalo M. Tavares, claro, quem mais? A acenar ao sapatinho, dois livros de uma assentada. Entre eles, como chamar-lhe… Meteoro, prodígio, espanto? Por aí, é «Viagem à Índia». E pronto, viramos a face, e logo outra chapada do prolífico e genial autor, «Matteo Perdeu o Emprego». Investigação, indagação, revelação, cabe um pouco de tudo na orgânica “tavariana”, ou devemos dizer cidade “tavariana” que vai crescendo num jogo de auto-intertextualidade desconcertante e originalíssimo. França reconheceu-o este ano, a rapaziada sueca, vaticino, não tardará muitas primaveras a seguir o exemplo.

E por falar em notáveis. Imprescindível passa a ser a biografia da portentosa Clarice Lispector, assinada pelo yankee Benjamin Moser. A vibrante autora de obras como «A Paixão Segundo G.H.», «A Hora da Estrela» ou os muitos contos escritos, já antes fora «trabalhada» em termos biográficos, vale este volume que a Civilização editou pelo apurado e aturado trabalho investigativo empreendido por Moser, bem como pela paixão que denota pela obra da escritora. Em português, fica a sugestão, há que lê-la nas edições Relógio d’Água. De resto, se de passagem pelo youtube, não deixem de espreitar aquela que estimo ter sido a sua última entrevista (absolutamente intrigante e cativante) à televisão brasileira, isto poucos meses antes de falecer, em 1977. Era na altura em que ainda se podia fumar em televisão!

Estrangeiros ainda, estrangeiro, estranho estrangeiro um tal de Ferdinand von Schirach, cujos contos a Dom Quixote editou. Crime, sangue, racismo, uma lição de como escrever contos – a ler, de uma dentada, sobretudo quando os contos parecem estar a reaparecer como moda, eles que tanto desconsiderados são pelas editoras. Haja calhamaços nos tops… Os anjos nos ajudem… Com estes «Crimes» de Schirach saiba que não sairá da leitura em branco. Do desconhecido escritor, advogado de labuta nascido em Munique em 1964, passo ao genial Dino Buzzatti. Do cavalo editorial de Dom Quixote passamos, pois, para a Cavalo de Ferro, que continua a galopar a velocidade de cruzeiro em matéria de exigência literária; salvo uma ou outras honrosas excepções. Não é o caso. «O Grande Retrato» é apenas mais uma prova do engenho literário do mestre italiano, aqui, como sempre, de mãos dadas com a fantasia mas enveredando pelos penhascos e abismos da ficção científica. Não menos impacto me provocou «A Derrocada», de Ricardo Menéndez Salmón, segundo volume de uma trilogia sobre o Mal a que a Porto Editora iniciara com «Ofensa». À espera do terceiro nos encontramos. Ofensa seria não referir (como muito boa e respeitada crítica não referiu) «O Evangelho do Enforcado», de David Soares. Imaginação, história, bem escrever, muita emoção, eis um grande romance no chamado domínio do fantástico. A ler, a ler, a ler, sem qualquer preconceito de género. Deixe-se de ir pelo rebanho dos tops, insisto. Por último, neste capítulo, como não celebrar a edição em português do delirante John Fante, desta feita, do clássico «A Primavera Há-de Chegar, Bandini». Os parabéns seguem para a Ahab, que como poucas neófitas chancelas editoriais nos tem brindado com excelentes propostas, uma outra, sem dúvida, os contos de Kjell Askildsen, em «Um Repentino Pensamento Libertador» o tempo que eu levei para decorar o nome do autor! Ao contrário das horas que levei a ler as suas páginas. Ah, falta-me ainda uma derradeira referência, para a sempre aconselhável colecção Ovelha Negra, honra e excepção editorial de uma casa que apregoa gostar de trabalhar nas obras. Sugestão: David Toscana e o seu divertido, curioso e fulgurante «Santa Maria do Circo».

Poesia agora, que o Pai Natal também preza. Revelação, ou confirmação, Catarina Nunes de Almeida, com «Bailias», na Deriva. Regresso, ufa, finalmente!, de Margarida Vale de Gato, com esse belo objecto de leitura dito livro que é «Mulher ao Mar». Sem espanto, pelo espanto de sempre, a poesia de Jaime Rocha, desta feita, em «Necrophilia», livro de poemas que pode e deve ser lido em simultâneo com «Adoecer», de Hélia Correia. Lizzie, sempre Lizzie, a portentosa, enternecedora e “estremecedora” história de Elizabeth Siddal e os «seus» pré-rafaelitas. Por último, não menos importante, que dizer da recolha em volume único de toda a poesia de Sophia? Alegria, pois claro.

Duas referências finais, noutros géneros, noutras leiras. Literatura de Viagens. Esqueçam rapaziadas bem intencionadas. Um livro para roteiro: «Viva México», de Alexandra Lucas Coelho. Literatura de viagens? Sim, está lá. Mas também, e tão-só, literatura; de toada jornalística, bem certo, mas literatura. Pura e dura, como a sua escrita e o seu olhar sobre as paragens e gentes que nos dá a viver. Crianças, crianças, enfim, que o Natal é o Natal. Um só título, entre muitos que fui folheando: «Contos Para Meninos que Adormecem Logo a Seguir», assinados por Pinto & Chinto. Da Kalandraka. Boas farturas e leituras.

Pedro Teixeira Neves

69º episódio – O BOM LADRÃO – Folhetim em setenta e cinco episódios

Capítulo XI: Blocos vazios de infância

Os dias escorrem. Insônia. Dias sem dormir. Escrever para quem? Não haverá leitor para um texto que não tem vínculos cartográficos, biográficos e históricos. Nem serve de autoajuda… Talvez para desencadear de vez um suicídio. Não ria de mim… Sente-se aqui ao meu lado, escrevamos a quatro mãos. Isto, assim… Vamos filho, coma a sopa, tem o rosto cansado, não sei quanto tempo conseguirá manter essa vida dupla, sem dormir direito, escrevendo mundos em folhas em branco, que nem sabe se algum dia terá leitor, é Clara sentada na mesa, nunca a chamei de mãe, talvez quisesse ter dito, mas nunca, agora posso colocá-la diante de mim dizendo, sempre com a mão direita dentro do bolso do avental, como faz as vendedoras portuguesas nas feiras-livres, mexendo com dinheiro, mas naquele bolso não há nada, talvez os sonhos não realizados, então, ela presente, posso me justificar, não me importam ter leitores, ou talvez importasse sim, agora não mais, o momento é de resgate, das cores, dos vínculos importantes, de tocar os cabelos negros e ondulados que caem sobre seu ombro, sem medo do pai que nunca mais voltou a casa, nunca sentiu ser dele a família, vamos dizendo com os pensamentos, juntos, Não se preocupe, fique descansada, você foi muito importante, digo o que nunca consegui dizer, ela me sorri, levanta-se, permanece um tempo com os olhos enormes a nos observar, nós como a criança flagrada pela mãe no varal de roupas, rosto quente, deve estar avermelhado, passa a mão em nossa cabeça e segue na direção do escritório, vamos atrás, ajeita-se na poltrona de couro de carneiro, a superfície craquelê, tempo marcando fronteiras, como faz com as paredes, a pele, ela olha contemplativa para os dedos do filho em desassossego, como se conversassem através dos sons emitidos ao teclar, olhamos para ela, ele também sou eu, tento dizer, mas ela vê apenas um, apesar de haver esse outro de mim, e ela diz para Você não vai comer? Olhamos para ela sorrindo, continuamos a teclar Já estivemos na cozinha, ainda há pouco, o caldo verde com ovo, lembra-se? Ela olha na nossa direção, volta-se para velha Remington Rand, percebemos que está confusa, deixa escapar palavras pela boca, Surpresos! De que doença falaria? Voltamos a teclar, agora eu e o outro somos um, ela nos pegou de surpresa, de que doença falaria? Não perguntamos… A poltrona vazia, alguém chega à porta, apenas esboço, de outro tempo além deste, tenta nos dizer algo, mas não nos permitimos ouvir, precisamos de sossego para escrever, evitar o mundo ao redor, Olá, vai ficar aí até quando? Carol! É de minha mãe a voz aguda de surpresa pela chegada dessa mulher de nome Carol que o outro de mim beija na boca, eu dizendo que teria de terminar o capítulo, depois veria o que fazer, mas ela vindo até nós, a nos abraçar por trás, beija nosso pescoço, Clara sem jeito pedindo licença e indo para a cozinha, só nós no escritório, Carol nos levando dali, entramos no quarto, avisa-nos que a mãe doente, muito doente, tem pouco tempo de vida, nos abraçamos forte, choro, e as lágrimas deixam-nos excitados, Carol percebe a ereção, começa a nos acariciar, ficamos na cama bolinando, até gozarmos, nunca entendi a excitação toda vez que diante da morte, agora o outro de mim ajeitando-se em minhas linhas, não entendo bem a superposição, mas sinto alguma mudança dentro, sentado diante da velha Remington Rand e o escritório vazio, o ruído da carroça e do chicote, o som ruidoso do movimento da roda, sempre no mesmo ponto, daria para pontuar o tempo através do estridente, saímos correndo, não sabemos se alguém perguntou aonde iríamos, mas a sineta, a porta aberta, a rua… Colocaremos tudo em seu devido lugar, viveremos juntos tudo isso, nunca mais em cantos diferentes, muitas vezes, agora a impetuosidade e o medo habitam um mesmo corpo, a rua de terra, é seu Manoel subindo com a carroça, o burro velho e surrado, traz verduras, frutas e legumes, Clara sai na porta, sem o avental, deixou-o dependurado no prego na cozinha, tem as mãos livres, seu Manoel diz Eia! Eia!

 

(continua)

68º episódio – O BOM LADRÃO – Folhetim em setenta e cinco episódios

De mim, a memória morta. Todas essas idéias apenas para ter coragem de ir até a máquina de escrever… Retiro a folha. Poucas palavras: “sem intimidade e sem interior, o oculto é o que se perdeu, a impossibilidade de dizer Eu, literatura nômade…” Me interromperam neste ponto. Será o reinício. Abro o pacote. Pego uma folha em branco. Ajeito-a na máquina. Troco a fita, fico com os dedos sujos de tinta. Ajeito a bunda na cadeira. Acerto as mãos como o pianista antes de iniciar a peça. Estou trêmulo, suando frio, o ruído da trava, alguém abriu a porta, tempo conhecido, de fechá-la novamente, pegar as cartas espalhadas pelo chão, deixar a chave no prego, dependurar o casaco, ruído da sineta, não ouço passos, o toque no soalho é muito leve, peso de uma pena caída na calçada, aí está você, aguardava-o, deixe a pasta sobre a mesa, sente-se na poltrona de couro de carneiro… De quem é esse livro? Nosso… Como? Esqueça, lá estão os olhos do bichano, está conosco novamente, você deve estar cansado, suportar a rotina ridícula da repartição, só para ter um salário que me permita ficar aqui diante da máquina de escrever. Mas acabou. Não sairemos mais. Veja os modos do bichano, acariciando com o rabo suas pernas, lá vai em direção da cozinha, está com fome, pode segui-lo, fico aqui um tempo mais, tenho uns acertos no texto, as cartas… Deixe sobre o móvel, não há nada de nosso interesse nelas, com certeza, não precisa me dizer, com você em casa começo a me lembrar das pessoas, vá, o gato está com fome, os azulejos brancos, as falhas provocadas pela falta de alguns, a ração deve estar no armário, aqui está, encho a vasilha, o gato bebericando água na torneira gotejante, coloco o alimento no chão, o gato pula e segue na direção da ração. Ouço o ruído de máquina de escrever, é o outro de mim, há uma mulher entristecida sentada na mesa da cozinha, observa-me de algum lugar, mas para mim é bem presente, não há tempos para mim, o gato pegamos na rua, faminto e com o rabo torto. Você não vai comer? O caldo verde que tanto gosto, ela me mostra um ovo, sorrindo, peço que coloque na sopa e me sento, sorvo lentamente o caldo, o gosto de infância nunca desaparece, é como o doce de leite, a pamonha, a maria-mole, o brigadeiro… Os caminhos estão descansando… Quintana nunca deixou que lhe roubassem a criança. De onde, a referência? As palavras podem se tornar mágicas, basta não enclausurá-las em vitrinas, o lugar delas é o silêncio, dali saem sempre renovadas…

 

(continua)

“E Depois do Amor” de Ray Kluun (Presença)

“Aqui são oito da manhã. Ponho-me na fi la de espera. Somos os

últimos a sair do avião. Temos todos os outros passageiros à nossa

frente. A Luna ainda está meio a dormir, com a cabeça no meu ombro.

Quando a passo cuidadosamente do braço esquerdo para o direito,

chega-me ao nariz o cheiro forte a transpiração do meu sovaco.

Depois de uma boa meia hora à espera chega a nossa vez.

A técnica de interrogatório do funcionário australiano não destoaria

na Alemanha de há algumas décadas.

Passaporte.

— Vou ter que te pôr no chão um instante, querida. — Sento

a minha fi lha no carrinho da bagagem, tiro para fora o meu passaporte

e entrego-o ao funcionário. Ele começa a folheá-lo com um

ar enfastiado.

É óbvio que isto está para durar. Ponho-me à procura de um

chupa-chupa para a Luna na minha bagagem de mão.

— Estás cansada?

Ela diz que sim.

— Podes voltar a dormir depois, na autocaravana.

O funcionário observa a minha fotografi a, e depois fi ta-me com

um olhar carrancudo. Começo de imediato a sentir-me culpado. Ele

vira a página, vê a fotografi a da Luna e depois olha-me novamente.

— Qual é o objectivo da sua visita à Austrália?

Sim, boa pergunta — se eu soubesse a resposta…

— Férias.

— Por quanto tempo?

— Alguns meses.

— Quantos meses?

— Aaah… três? Quatro? Talvez cinco, se achar que é essa a resposta

certa.

O funcionário pergunta-me se estou a gozar com ele.

Ups!, por instantes esqueci-me: nunca devemos ser informais

com estas pessoas.

— O seu visto é válido por seis meses. Nem um dia a mais.

Entendido, amigo?

— Sim. OK.

— Para onde vai?

— Vou andar pelo país. Com a minha fi lha.

— Para onde?

— De norte para sul, pela costa.

Ele pede-me que lhe mostre as passagens de regresso. Pergunta-

-me quanto dinheiro tenho. Como vamos viajar. Onde vamos fi car.

Onde vamos passar a primeira noite. E tenho algum documento

escrito que o prove? Qual foi o último país que visitámos.

— A Tailândia.

— A Tailândia?!?

Ups! Resposta errada.

Ele pede-me que leia o pequeno texto afi xado no vidro. É uma

lista de tudo o que é proibido na Austrália. Bebidas alcoólicas,

drogas, armas, pornografi a, comida. Aquela lista deixa-me ligeiramente

nervoso.

Digo-lhe que não temos nada a declarar.

Ele pergunta-me se trazemos alguma coisa da Tailândia.

— Eu… aah… acho que não.

— Acha ou tem a certeza?

— Tenho a certeza. Acho eu.

— Nem sequer comida?

— Não.

15

— Ou fruta?

— Não, fruta também não.

— Tem a certeza?

— Sim.

— Portanto, comida nenhuma?

O funcionário olha para a Luna, toda satisfeita a saborear o seu

chupa-chupa.

— Oh.

Então ele pergunta-me se estou ciente que mentir a um funcionário

de imigração em serviço é crime.

Corando de vergonha, tiro a embalagem aberta de chupa-chu pas

do meu saco e entrego-lha. O funcionário fi ta a Luna de sobrolho

franzido. Deito-lhe um olhar suplicante, mas ele acena negati vamente.

— Escuta, querida, este senhor diz que não podes entrar na Austrália

com o chupa-chupa. — A Luna está demasiado cansada para

protestar, e por isso limita-se a abrir a boca. Antes que ela mude de

ideias, agarro rapidamente no chupa-chupa e olho em volta, à procura

de alguma coisa onde possa deixar este bem de alto risco.

Mas o funcionário ainda não se fartou.

Pergunta-me se visitámos algum jardim zoológico na Tai lândia.

Uma voz dentro de mim diz-me que, a julgar pelo que se passou

até agora, será melhor responder que não.

Ele pede-me para abrir a mala.

A voz dentro de mim diz-me que desta vez talvez seja melhor

não responder «não».

O funcionário examina o interior da mala.

Que areia é aquela no meu mocassim?

É da praia.

Não, a areia é proibida. Nada de areia tailandesa na Austrália.

Sacuda a areia do sapato. Não, aqui não, vá sacudi-la além. E passe

o mocassim por água.

Quando regresso ao guiché, eu e a Luna somos as duas únicas

pessoas ali.

O funcionário torna a olhar para o meu passaporte. Examina os

carimbos. Todas as minhas viagens com a Carmen. Vai passando as

páginas. Ibiza. Banguecoque. Olha para a Luna.

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— É sua fi lha?

— Sim.

Ele torna a inspeccionar o passaporte.

— Onde está a mãe dela?

Deus do céu. Isto é mais do que eu consigo suportar. Olho-o

nos olhos e faço uma pausa.

— A mãe dela está morta, senhor funcionário. Teve cancro

e morreu há seis meses.”

 

Ficha Técnica:

E Depois do Amor

Ray Kluun

Título Original: De Weduwnaar

Tradução: Miguel Romeira

Páginas: 304

Colecção: Vidas d’Escritas Nº 13

PREÇO SEM IVA: 15,94€ / PREÇO COM IVA: 16,90€

ISBN: 978-972-23-4466-1

Código de Barras: 9789722344661

A literatura de cordel high-tech

Harold Bloom revelou, há precisamente três anos, no The New York Review of Books*, que tinha decidido “voltar a ler Shakespeare em vez da Bíblia, depois de ter regressado à vida – foram essas as suas palavras – na sequência de alguns dias de internamento. E a conclusão apareceu então como óbvia: “Não há separação entre vida e literatura em Shakespeare”.

Este “back to life” não podia ser mais auspicioso e até actual. Se a Bíblia é uma imensa alegoria que desliza entre o exemplo e o vivido, o grande dramaturgo inglês foi sobretudo o organizador genial de mil tradições orais que dominavam o seu tempo. É precisamente a mesma diferença que hoje existe entre os acontecimentos que nos media se reproduzem como cerejas, criando cadeias ficcionais, apaixonadas e delirantes e os acontecimentos que se constituem, no nosso dia a dia, como aparições ou vaivéns de conjuntura.

De facto, o público actual procura as grandes metáforas da vida nas narrativas que os media vão desdobrando no quotidiano. E acontece muitas vezes que, a partir de eventos eleitos como notícia, se forma, sem grande controlo por parte dos mecanismos editoriais, uma sequência de alegações, conjecturas, rumores, contribuições, juízos e outros dados adicionais que acabam por transformar a notícia original numa verdadeira cadeia ficcional.

Este processo acelerou-se e tornou-se quase normal no mundo massificado e globalizado, onde prolifera uma certa ambiguidade entre público e privado e onde os factores afectivos e passionais passaram a dominar boa parte da produção e do consumo mediáticos. Existe realmente uma óbvia correspondência entre estas novas cadeias ficcionais – espécie de ‘literatura de cordel high-tech’ – e os mitos da Antiguidade (ou o mundo das parábolas que o sucedeu).

Enfim: Bloom teria razão. Existe uma clara distinção entre o patamar da parábola que reinventa a realidade e o patamar da conta-corrente que a amplia e transfigura (através de personagens e factos que vão e vêm, sucumbem e reaparecem). Para quem recupera de uma doença grave, é normal que este segundo patamar se torne mais aliciante. Mas para quem anda na adrenalina e no stress do dia-a-dia, nada melhor do que umas prestidigitações mágicas aliadas às cerejas. Como se umas e outras fossem verdade.

Quase se pode dizer que a literatura, hoje em dia, tanto se transfigura nos livros e na rede como se actualiza e ritualiza nos media e no ‘zapping’ da euforia massificada do dia-a-dia. Chamemos-lhe a ‘literatura de cordel high-tech’.

Com ou sem cordel, caros leitores, desejo a todos um Bom Natal!

 * The New York Review of Books , Vol. LIV, Nº 18, 22/11/07, p.40.

66º episódio – O BOM LADRÃO – Folhetim em setenta e cinco episódios

A víscera começa a chiar, passo diante de uma quitanda, fico um tempo olhando as verduras, os legumes e as frutas, começam a ter cor, verde e amarelo opacos, percebo o dono preocupado comigo, parado diante de seu comércio, vivem todos com medo, sigo na rua, há um restaurante italiano na esquina, entro, sou um dos primeiros a chegar para o almoço, vou até o banheiro, esvazio a bexiga, lavo as mãos, retorno ao salão, sento-me em uma mesa de fundo, o garçom me traz o cardápio, peço uma lasanha, faz tempo que não como uma massa, vontade de pedir uma cerveja, mas melhor nem pensar, não custa aguardar mais uns dias, substituo por água, fico sozinho folheando o livro, paro em uma página ao acaso: “Sem consolos a simular garantias à existência. Fechada a porta, rompia-se com os delírios da linearidade, com a noção de tempo e espaço, mergulhava-se no fortuito e casual, investia-se, por instinto, no sacro e no profano, no longo corredor da individuação, que terminava em um amplo salão abarrotado de livros”. Estranha sensação de ler alguma coisa que sabemos nossa e não nos lembrarmos de absolutamente nada, como não saído de nossas entranhas, para mim não existe texto pesado, mas é claro que tudo que um escritor escreve ele já superou, portanto, quanto mais intensa a vida de um, menos leitores ele terá, sem dúvida, só os que escrevem o singular conseguirão bater recordes de vendas, ninguém quer ler para pensar e mudar, leitura para a maioria é entretenimento, um modo de passar o tempo sem saber que é ele que nos atropelará, sutilmente, atmosfericamente… Sei que fui um leitor afoito, li todos aqueles livros que estão na prateleira, mas tudo ficou embaralhado na minha cabeça…

Como a lasanha tentando esquecer o prato nojento do manicômio. As pessoas começam a me incomodar. Alarido deprimente de quem necessita ocupar o silêncio a qualquer custo. Não desejo encontrar ninguém na casa ao retornar. Há um filme em cartaz que gostaria de assistir, “A janela”, de Carlos Sorin, é dele a ideia de uma história simples que debulhasse a cabeça do espectador. Filme onde pequenos e inconscientes detalhes fossem ampliados. O nome me atraiu, gosto de janelas e portas, janelas pelo transitável apenas na transgressão, vão de onde um observador a tudo assiste sem muito participar, que permite um olhar contemplativo. Já a porta… Abertura com duplo sentido, por ela entramos ou saímos, também nem entrar nem sair, uma porta implica pelo menos espaço duplo, fechar a porta significa bloquear passagens, definir territórios, cartografias, permitir ou proibir travessias, a primeira porta aberta nos jogou no mundo, a última nos colocará diante do desconhecido, nenhuma das duas é de nossa escolha, nem pública nem privada, querem divindades responsáveis, mas apenas delírios, todo órfão sonha um pai, uma descendência, somos filhos do vazio e nos restará o abismo, muitas portas deixamos de atravessar, outras nem nos permitiram abertas, há as escancaradas, em algumas fomos empurrados, a única porta que me pertence é a de única chave, que lembra uma lagartixa, que me leva ao corredor de piso de madeira corrida, ao escritório, ao quarto e à cozinha. O dentro que me pertence protege minha intimidade, é o não-lugar no mundo, é o local das tessituras expressivas que na vida perdidas… O sacro e o profano em único espaço, o mofo e a orgia, além da porta na fronteira do singular e da insânia, a porta do “Castelo” de Kafka, dos hospícios, dos prédios ditos da justiça, dos hospitais e dos cemitérios…

Vou festejar a noite em algum bordel, as putas fingem como os poetas, e o fazem tanto que nos fazem crer verdadeiro todo e qualquer fingimento. De onde isso? Nem Amélia, nem Dulce… Pagar não deixa porta aberta à cobrança. Escolho um na Augusta. Olho todas elas sem saber o que procuro. Atrai-me as coxas, gosto de vê-las de baixo para cima, como enxerga a criança, há uma delas com as coxas de Dern, dou um toque, ela se aproxima, discute o preço segundo uma tabela de ações, me diz que não há limites ou restrições, posso usar qualquer porta, entrar e sair como bem entender, basta pagar. Há quartos no fundo do bordel, tudo muito arrumado, espelhos na parede e no teto, sobre um móvel os preservativos de vários tipos expostos, objetos para atuar o gozo ao gosto da clientela, prefiro ao comum, nada ao sugo ou com temperos exóticos, divertido brincar, tomar a iniciativa, meus instrumentos são os dedos e a língua, penetração no final, na maioria das vezes elas se surpreendem, o fingimento torna-se algo verdadeiro, o corpo da mulher é cheio de pontos não explorados, vejo-me tocando pela necessidade de sentir a superfície e o volume, é o que me excita já que as cores são fracas, depois mergulho no gozo como um surfista no túnel de uma onda… É você quem deveria receber ela me diz, sorrindo, colocando a roupa. O sacro precisa de uma dose de profano, é o equilíbrio que define a intensidade do gozo, daí atração humana por anjos, virgens e a pele leitosa das religiosas.

 

(continua)

A biografada: uma evocação de Natal

Existe um mal, nem sempre óbvio, de que padecem muitas e muitas biografias: o não entenderem que as histórias pessoais são as histórias mais importantes do mundo, justamente por nelas se rever o silêncio, o inenarrável, um desmedido caudal de anonimatos, mil acasos imperceptíveis e, por vezes, alguns nichos de loucura. Muitas vezes, as biografias incidem mais nas narrativas previsíveis – e historicamente descodificáveis – do que naquelas em que importaria dar o desejado salto do ‘dito’ para o ‘não dito’.

Uma pessoa é um imenso espaço de brancura – por preencher – e não um esquema resolvido por um cheque-mate matreiro.

Dir-se-á que o mal de muitas biografias residirá no mito de Andrea Palladio. Por outras palavras: fazer corresponder a um conjunto de formas particularmente simétricas e centradas aquilo que é a lógica instável, errante e imprevista de um organismo vivo.

O que resta, quando alguém parte, é uma constelação táctil de memórias. E o bom biógrafo não pode deixar de entender essa constelação como uma espécie de presente onde abundam imagens por revelar. Imaginemos que a biografada – deixemos em suspenso a sua identidade – adorava escalar encostas íngremes e perder-se na limpidez do horizonte. Imaginemos que ela prezava as palavras que se atropelam em certos poemas de Tolentino Mendonça. Imaginemos que ela encarava a espiritualidade como se fosse um oceano onde todos os outros receberiam sua própria água.

O biógrafo deveria, em termos ideais, colocar-se na posição de quem, todos os dias, se lembra da biografada. Como se lhe ouvisse a voz, sempre que opta entre o trigo e o joio. Como se a ouvisse dizer “José Águas” com alegria contagiosa, ou a visse para sempre rejubilar numa praça onde confluem cinco canais diferentes.  A biografada terá sempre que se tornar numa imensa brancura por preencher. E em cada dia que passa, todas as esquadrias desenhadas por Palladio acabarão por se transformar na árvore arrancada às margens do rio em dia de enxurrada.

A biografada crescerá no seu autor como parte de uma memória privada: uma história que se eleva como um balão gigante a pairar sobre as engenharias e as objectividades da chamada história universal. Essa biografada existe no mais profundo alicerce onde a imagino e recordo. Mas o seu nome, caro leitor, é secreto. O Natal é também uma altura de evocação. A literatura brota de sinais minúsculos, acenos sem norte, silhuetas emprestadas pela contingência. Mas brota sobretudo da memória: essa fonte de sortilégios que é o retrato ao mesmo tempo fugaz e matérico do vivido. E do esquecimento.

Clube da Tradução Literária

Foi criado no dia 28 de Novembro o Clube da Tradução Literária! É  um ser que nasceu virtual, mas de progenitores bem reais e que pode, a qualquer momento, materializar-se numa palestra, num workshop – logo que se verá. Para já, mora no Facebook e já tem bastantes amigos. Está a desenvolver rapidamente uma série de “parentescos” (leia-se links), nomeadamente com a PNETLiteratura e, em particular, com o Observatório da Tradução.

Não vamos cair na ortodoxia de dizer que “Tradução Literária” é quase um pleonasmo, pois sabemos que existem outros tipos de tradução, até mais reconhecidos, mais “in” e mais bem pagos. Mas achamos que a tradução literária vem de mais longe, de certeza de muitos antes da Revolução Industrial e das máquinas, equipamentos, porcas e parafusos, que fazem as delícias dos tradutores técnicos e dos cada vez mais inteligentes programas de tradução automática. Para além de mais antiga, é mais simbiótica, é um corpo a corpo entre tradutor e original na busca da recriação perfeita. É arte.

Sem subsídios estatais, sem direitos de autor, sem sindicatos, sem organizações de classe, a Tradução Literária precisa de uma voz, e é isso, entre outras coisas, que o Clube pretende ser.

Mas, para além de uma voz, o Clube da Tradução Literária pretende ser também um espaço de muita discussão, um espaço para onde os tradutores literários possam trazer os problemas que por vezes tanto tempo lhes consomem, as experiências que entendem dever partilhar, e onde se sintam entre pares.

Na Internet há amplas comunidades de tradutores, com muitos artigos publicados, muita reflexão em conjunto. Era mais do que tempo de criar uma comunidade dessas em Portugal e, apesar de o Facebook nos dar uma dimensão planetária, é sobretudo neste canto à beira-mar que queremos fazer-nos ouvir.

Cliquem no link, vão dar uma espreitadela, deixem um “Gosto” e uma ideia.

Facebook: http://www.facebook.com/profile.php?id=100001888371831#!/

E-mail: clube.trad.lit@gmail.com

Maria do Carmo Figueira

61º episódio – O BOM LADRÃO – Folhetim em setenta e cinco episódios

O mesmo nas ruas, cada vez mais. A única bala perdida dentro de um hospício não são as metálicas, mas as colocadas na boca dos internos pelos enfermeiros, aviadas pelos médicos, pelos doutores da vida e da morte. Amélia trocou os lençóis, o quarto está perfumado, vou pedir que na minha morte perfumem o caixão desse modo, durmo sem travesseiro, acho que sempre foi assim, que livro seria esse que foi aceito para publicação? André criticou o que escrevo… Ninguém suporta. Os psiquiatras ficaram horrorizados com um texto escrito com a unha na parede de minha cela, aquilo não era um quarto, custou-me um choque a mais, o aprisionamento do outro de mim, não conseguiria escrever nem mesmo um diário, não tenho qualquer interesse em atuar no tempo comum, se o faço é pelo resultado do tratamento, repetir o mesmo, sempre e do mesmo jeito, reforçar o modelo, mas só com os remédios meu mundo assim, em branco e preto, eu sem gozo, sem prazer, sem desejo… Mentira! Desejo existe, só estou usando a tática do perdedor, o tempo resolverá, é preciso perder o mundo e viver o inferno da impossibilidade do dizer, ser escritor é isso, prostituir as palavras, transmitir todas as pragas possíveis, isso não é possível sem o outro, escritura necessita sempre de dois, como no sonho, há sempre um fora de cena…

A luz zebrando o assoalho… Que horas seriam? Sensação de ter dormido muito. É possível que várias noites tenham se passado, os dias sem criatividade, sempre os mesmos, circular, repetitivo, construído pelo mesmo, as palavras frágeis e sem poder criativo, ninguém suporta o silêncio, como se fosse o oposto da palavra, mas é no silêncio que a escrita helicoidal, não há totalidade a não ser na loucura coletiva, tenho dormindo muito todas as noites, efeito dos remédios, a fresta na parede, dois olhos me espiam… Saco! Não tomei os medicamentos ontem à noite, melhor me levantar, dobrar a dose agora cedo, na parede a data atual, não acredito, amanhã será o dia da visita da assistente social, a consulta com o psiquiatra ocorreu faz uma semana, ele elogiou minha evolução clínica, disse assim mesmo, clichê, o que mais ouço das pessoas são respostas prontas, André praticamente esqueceu-se de mim, ouço o som da televisão na casa dele, não é incomum arrumar alguma encrenca com vizinhos e transeuntes, estou feliz por estar fora de seu foco… Amélia também não se preocupa mais comigo, vive elogiando meu comportamento, minha melhora, percebo nela um interesse de se misturar com minha normalidade, até que gostaria, mas não quero nada com essa gente que pensa me ajudar e me mata lentamente, que não percebe o próprio suicídio imposto pela rotina. Hoje é dia de ir ao banco receber a aposentadoria, antes tomarei um bom café com leite… Na cozinha vaga lembrança da mulher sentada na cadeira, do gato aguardando a ração, mas nada sobre Carol. Do outro lado da parede, nada se houve, está dormindo ou morreu… Besteira! Gente ruim não morre nunca! A pia está carregada de louça suja, Amélia vem amanhã, a assistente social vem à tarde. Melhor sair, tomar o café na padaria, mas antes mais uma lida no diário:

Volto do médico. Não sei como anunciar o problema a Samael. O que não se pode dizer… Escrever é possível. O problema não é a morte, mas o modo, não gostaria de dar trabalho aos dois, ainda mais agora que estão tão bem. Para não fugir à verdade, estou até tranquila, se é para morrer que seja no momento em que estamos mais felizes, quando não há mais planejamentos, quando vivemos a plenitude, mesmo que temporariamente, mas não sei como dar a notícia, talvez melhor não dizer nada, caso venha a perceber… O doutor falou em pouco mais de um ano. Ainda bem Carol em casa. Não ficará sozinho. Será internado tão logo não tenha mais ninguém, hoje sei que é doente, conversei com o médico, falou-me que há um componente genético em algumas psicoses, que o álcool pode desencadear surtos, mas eu estou contente que não beba mais, não vê-lo mais nos cantos, falando sozinho, diminuiu o tempo em que fica no escritório, não ficou triste com a repercussão do livro, muitas críticas perversas, mas ele acredita no que escreve, rejeitou entrevistas para defender a obra, o editor não gostou muito, disse-me dias desses que não me preocupasse com ele, que a doença faz com que viva no limite, lugar evitado por todos, daí as críticas nada elogiosas… Não seria de todo mal o momento de minha morte. Pelo menos posso pedir que Carol continue a cuidar dele. O que mais poderia desejar uma mãe que não fosse ser substituída por uma mulher tão preocupada quanto ela própria nos cuidados com um filho? Mesmo sendo um homem… Para a mãe, o filho nunca cresce. Há culpa nisso, sei bem, sem irmão, um pai ausente, a mãe distante do que desejaria como família… Agora o anúncio do fim, hoje os médicos não omitem nada. Melhor assim, podemos nos preparar, e aos próximos… Não vou comunicar ainda, aguardarei os acontecimentos, é melhor, não vou roubar o momento feliz em que os dois estão vivendo.

 

(continua)

Araquém Alcântara lança 2 livros

Chegam às livrarias em dezembro duas novas obras do precursor da fotografia de natureza no Brasil: o inédito Araquém Alcântara: Fotografias e a reedição ampliada de TerraBrasil, considerado o maior best-seller brasileiro do gênero: 82 mil exemplares em suas 11 edições anteriores.

A noite de autógrafos das duas publicações ocorre em 8 de dezembro, em São Paulo, a partir das 19 horas na Livraria da Vila dos Jardins (Alameda Lorena, 1.731 – Tel.: (11) 3062-1063), com preços especiais para os dois livros.

Segundo a assessoria de imprensa do profissional, trata-se de uma obra diferenciada, à medida que reflete a maturidade de um fotógrafo que já publicou 41 livros temáticos, ganhou mais de 50 prêmios nacionais e internacionais e agora apresenta um trabalho com forte teor poético e totalmente livre de temas.

A curadoria das imagens é do fotojornalista e crítico Eder Chiodetto, para quem o andarilho Araquém, após 40 anos como viajante pelo país, agora se liberta, apresentando um trabalho autoral totalmente inovador.

O livro “Araquém Alcântara: Fotografias” reúne 80 fotos clicadas originalmente em preto e branco, a maior parte produzida nos dois últimos anos em todas as regiões do Brasil. Estão lá as pessoas, a metrópole, a mata, o rio e até a neve. As imagens estão desvinculadas umas das outras. Cada uma ocupa uma página ímpar, enquanto as páginas pares trazem a simples identificação da cena, fornecendo um respiro para a contemplação.

Araquém Alcântara: Fotografias (Editora TerraBrasil) tem 196 páginas no formato de 30,5 cm x 25 cm, contendo 81 fotografias em preto e branco, impressas em papel italiano Garda Klassica 150g. O preço de capa é R$ 120,00 (no lançamento, será vendido a R$ 100,00).

59º episódio – O BOM LADRÃO – Folhetim em setenta e cinco episódios

O almoço, ninguém vive sem se alimentar, acho que o senhor deve saber disso. O tempo passou muito rápido. Já estava preocupada, aquele escritório está repleto de espíritos ruins, sinto quando entro para limpar, o senhor deveria se livrar daqueles livros todos, da máquina de escrever… Besteira, Amélia! Besteira? Foi ali que pegaram o senhor fora de si, havia algum espírito ruim usando seu corpo, nem sabe o trabalho que deu aos policiais… Não precisa falar Amélia, como diz, careço de saber, agora já passou, não tem mais espírito algum na casa, disso tenho certeza, sou eu e mais eu… Se for assim, pode sentar se quiser, a comida está pronta. Trata-me como um doente ou um filho… Um alívio saber que não preparara nenhum caldo verde. Gosto de pratos simples, arroz, feijão, fritas e um bife. Ótimo! Depois volto ao diário, é um modo de definir um corpo e um território para alguém perdido de memória. Já sei que fui filho único de um casal normal, singular se quiser, mas não um filho ao gosto do pai, para a mãe uma criança que vivia outras cartografias, soube que André frequentava a casa, que já não gostava dele… Amélia, a comida está uma delícia! É a fome, seu Samael, quando ela bate até prego é bom. De onde conheço Amélia? Não vou perguntar para que não me trate como mais doente ainda. Ela é bem competente, passou toda a roupa, a casa está arrumada e limpa. Depois de lavar a louça eu vou embora, volto só na outra semana… Tudo bem Amélia, você fez mais do que devia. E Amélia passou pela sineta. Voltou um tempo depois com a sacola cheia. É para o senhor não ficar sem nada em casa, tem frutas, frios, ovos… Vou dar uma volta, Amélia, tranque a porta ao sair.

Dia sem nuvem… Como pode alguém passar a infância em um bairro e não se lembrar de nada? Devo ter brincado nesta calçada, na rua, feito essas coisas que todas as crianças praticam, empinar pipa, andar de carrinho de rolimã, jogar bolinhas de vidro… Mas não conseguirei colocar meus antepassados e antigos conhecidos em seus lugares. Não conseguirei, como Lobo Antunes, colocar no pátio da escola personagens que fizeram parte de minha vida. Assim também fez Virgílio Ferreira… Esses nomes me aparecem com facilidade. Não me peçam para citar os livros. Quem sabe em outra hora, quando sem remédios. Sei que a escola do outro lado da rua era a única no bairro, fui alfabetizado nela, sei pela boca de André, não me lembro de uniforme e mochila entrando por aquele portão… Para mim, a mangueira no centro do pátio é uma desconhecida. Melhor encontrar um caixa eletrônico, preciso de dinheiro para pagar as contas recentes, há um na avenida, próximo do supermercado, onde antes funcionava um cinema. Também não me lembro, André estranha quando me diz as coisas e não obtém respostas, não posso tê-las, não me lembro no mundo descrito por ele. Como explicar-lhe que a tal cura do surto envolve a perda da memória e ver tudo em branco e preto? Não vou suportar muito tempo, a única coisa que sei me pertencer, que sempre me pertenceu, é a vontade de escrever… Aí está! Vou retirar o suficiente para pagar as despesas destes dois dias, aproveitar e completar a compra que Amélia me fez, preciso de cigarros. Uísque… Melhor passar direto, a lembrança dos choques ainda comigo, ovos, tenho alguma relação antiga com eles, alguns doces, material de limpeza… Suficiente para me ocupar um tempo, deixar a tarde escorrer, passar na padaria e pagar a dívida, olhar o canto vazio, não há ninguém, nem a mulher que encontrei ontem, pergunto dela ao caixa, não sabe me responder, melhor retornar, os ruídos da rua começam a me incomodar, há mendigos que ninguém vê em cada quarteirão, drogados esmolando trocados para manter o vício, uma mulher caída, já a vi em algum lugar, ou escrevi sobre ela, não me lembro, ao lado um cachorro com uma corda prendendo-o pelo pescoço ao portão de uma casa abandonada. O apito… Uma multidão sai da fábrica como se fugindo de um presídio, um burburinho ensurdecedor… Lembra-me imagem de algum filme. Protejo-me caminhando próximo da parede, vejo rostos, olhares, braços, pernas… A porta. O leão no frontão. O limpa-pés. Por que me apego à ideia de um sem barro? A chave… Agito a mão dentro do bolso, aqui está… Duas voltas e destrava. Fecho a porta rapidamente e jogo meu corpo sobre ela. Suspiro. Não suporto mais… O longo corredor a minha frente. Trancar a porta e colocar a chave no prego. Deixar a compra sobre a mesa. Ir ao quintal. Preciso plantar algo, romper com a monotonia desse cimento. Aqui havia um pé jabuticaba, está no diário, onde eu brincava. Talvez deva plantar uma jabuticabeira…

 

(continua)

Tudo é Relativo | Ana Cristina Leonardo

Como é a minha primeira participação no PNET Literatura, sai um preâmbulo.

Conta-se que houve em tempos um cavalheiro – um entre muitos – que se afincava em obter os favores de Madame Recamier. A francesa, mulher influente que ao gosto pelas artes juntava o gosto pelos artistas, terá tentado repelir os seus avanços explicando-lhe que Monsieur, o meu coração, dei-o a outro. O cavalheiro, cujo nome não pude apurar, respondeu-lhe com um bon mot à altura: “Madame, nunca pretendi chegar tão longe”.

É mais ou menos como eu, convidada deste salão literário virtual. Sem pretensões, escreverei sobre livros que ando a ler, li ou gostaria de ler. E para começar e a propósito, que preâmbulos longos só no final do jogo, o título de onde tirei a história citada acima: Tudo É Relativo e Outras Lendas da Ciência e da Tecnologia, assinado por Tony Rothman e publicado este Verão pela Gradiva.

O livro está aqui na minha mesa e abro-o ao acaso. Cito, na tradução de José Malaquias.

«Os autores deveriam estar gratos à memória geracional. Cada vinte anos surge uma nova geração sem qualquer conhecimento do passado e com a certeza de que o passado não pode ser importante. Numa vã tentativa de perpetuar um sentido histórico, os editores contratam autores para voltar a contar histórias que já foram contadas, submergidas e contadas de novo no ciclo cósmico interminável do esquecimento e da lembrança. As histórias são sempre as mesmas, talvez com uma linguagem actualizada e gráficos cada vez mais tortuosos, porém, sem essa constante roda de extinção e renascimento, os autores teriam demasiado tempo livre e sem nada à laia de compensação. O conhecimento, como Platão compreendeu, é apenas reminiscência.

Assim, tudo o que vou dizer neste ensaio ou no próximo já foi dito. Porém, aquilo que me interessa saber é se as histórias do Panóptico de Conceitos Passados e Presentes evoluem. Muitos desmistificadores, desmontadores e mesmo documentários de televisão salientaram que Edison era não apenas um grande inventor mas também, por vezes, um competidor muito pouco escrupuloso – se não mesmo impiedoso –, tendo a sua lâmpada estado longe de ser a primeira. O meio ambiente já aplicou suficiente pressão sobre os relatos-padrão para que alguma diversificação e selecção natural possam ter tido lugar. Do ponto de vista de biografias sérias, penso que isso já ocorreu. Se olharmos para 1940 e para o filme biográfico de Hollywood Edison the Man, podemos iludir-nos com o desempenho absolutamente encantador de Spencer Tracy encarnando este homem quase desprovido de qualidades humanas. O retrato inspirador – realmente inspirador – de um homem generoso e com encantos mágicos que adora crianças e se dedica de forma altruísta ao progresso da humanidade é tão sedutor como iconográfico. A partir do filme nunca se adivinharia que o primeiro casamento de Edison foi um desastre e que a mulher morreu em estado de colapso nervoso, que ele tinha conhecimento de um dos seus antecessores, que fez tudo menos rejeitar apoio financeiro na sua procura da lâmpada incandescente ou que alguém em Menlo Park, tirando ele próprio, alguma vez tivesse tido uma ideia (…)», págs. 241/242.

Tony Rothman não é um escritor no sentido estrito do termo. É um físico que se dedica à divulgação científica. Mas quantos escritores “à séria” andam por aí que deveriam dar um dedo, talvez dois, talvez três… para escreverem com esta clareza, este wit, este à-vontade (aisance, diria eu agora se fosse Madame Recamier…) exemplificados nestes curtos e acidentais parágrafos.

Para manter a fluência e a preferência, da próxima vez falarei, se ainda me quiserem e for (ainda assim) something completely different, acerca de Depois da Chuva, contos de William Trevor traduzidos para a Relógio D’Água por Paulo Faria.

E muito obrigada pelo convite!

57º episódio – O BOM LADRÃO – Folhetim em setenta e cinco episódios

Quem sou eu? Pergunta feita por Tolstói aos 26 anos. A metade da idade que tenho agora, quase a de Samael. Acho que meu filho será a única pessoa a pegar o que escrevo, aprendi com ele o gosto pela leitura, lia escondido do pai que não permitia que entrasse na biblioteca, dizia que os livros eram para serem lidos pelos adultos, não pelas crianças; muito menos pelas mulheres. A biblioteca, quando não estava em casa, permanecia trancada, mas Samael, sempre encantador com as empregadas, conseguia lá permanecer um tempo, lendo algum livro. Eu não devia aceitar o rumo de meu casamento… Consegui terminar o curso normal, poderia dar aula, mas logo me casei. Nunca fui corajosa. Logo veio a gravidez. De uma relação entre dois desconhecidos, nasceu Samael. Quieto já no nascimento, jeito calmo de sugar o leite, mais a cara do pai, isto me incomodava, não vou deixar de registrar, não queria dois homens iguais em casa, suportar um já era difícil, nem um ano de casada para perceber onde me metera. Viriam outros não fosse a doença que me atingiu logo depois do parto. Hoje sei que foi adquirida de meu marido, trouxe da rua, mas foi melhor assim… Apesar de filho único, Samael preencheu a falta de carinho e companhia com personagens que ele mesmo criava, não era incomum encontrá-lo em longas conversas com personagens anônimos, maioria das vezes nos cantos, no quarto ou debaixo da jabuticabeira, o que me preocupava, meu irmão também agia do mesmo modo, até atirar-se de corpo e alma em delírio próprio; um dia, entregou-se à morte. Daí sofrer muito ao castigar Samael por alguma arte que tenha feito. O que meu irmão buscava ao adiantar a morte, ninguém nunca soube, nem mesmo eu que dividia com ele as alucinações de infância.

Hoje, viúva. Há exatos dois dias. Não estaria escrevendo estivesse vivo… Não deixaria, faria um escândalo, até segredos evitei, mas ele percebia em minha expressão quando havia algum. Nunca dei justificativas para que se sentisse incomodado, respeitei-o, cuidei da casa, atuei o papel de esposa fiel e dedicada que os irmãos cobravam dos membros, mesmo sendo assediada por eles, nunca o trai, o que não era comum entre as outras mulheres, sei que meu silêncio e passividade prejudicaram Samael, mas agora não adianta sofrer, nós dois alcançamos a liberdade, a porta da biblioteca ficará definitivamente aberta, é estranho dizer isso nem dois dias depois do enterro, mas sei que saiu um peso grande de nossas cabeças, Anastácio, meu outro irmão, o mais velho, preencheu um pouco a figura ausente de um pai, mesmo sendo rejeitado pela sua opção sexual, com certeza Samael nunca se esquecerá do tio…

Devo registrar algo que me deixou muito feliz. Já na primeira noite sem o pai, Samael passou a noite na biblioteca teclando na Remington Rand. Quer ser escritor… O pai nunca concordou. Agora não sei o que vai ser de nós dois. Nada sei da vida particular de meu marido, nem mesmo onde tem conta bancária. Talvez Samael precise trabalhar. Pelo menos a casa é nossa… Acredito que sim. Depois da última vadia que apareceu em casa grávida, vai lá se saber… Não deve ser filho dele, também ficou estéril com a doença, fizemos exames, nunca aceitou que havia problema com ele. O que foi minha vida? Dividisse o passado ao modo de Tolstói, haveria apenas dois momentos: o primeiro nada diferente da vida do autor russo, poética, maravilhosa, inocente, esfuziante, apesar dos problemas em casa, até o casamento, aos dezesseis anos. O segundo, até a morte de meu marido, renúncia total do papel de mulher, como já disse, mas preciso reforçar, fui uma esposa preocupada em passar à sociedade as preocupações próprias de uma família, cumpri meu papel de companheira dedicada aos compromissos assumidos pelo marido, prestei assistência social, levei uma vida honrada e regular, fria como mármore, mas atuando o papel exigido. O mundo ao redor mudou, poderia arrumar outro companheiro, oportunidades não faltaram, a gravidez mudou meu corpo, tornou-me mais mulher nos gestos, mas quando o medo tem sua raiz na infância há muito pouco a se fazer… É o passado repetindo-se infinitamente, em cada botão de camisa, em cada orgasmo, como se afirmasse a fragilidade da mãe, da fêmea que neguei pela falta de reação. Sei que meu terceiro período sofrerá poucas modificações, não desejo a experiência de outro homem, o amor conhecido apenas a Samael, mas é dúbio o que sinto, algumas vezes me lembra o irmão, outras, o marido, tem o nariz aduncado como o dele, a mesma sobrancelha, os pelos vazantes nas orelhas e no nariz. Sei que Samael é especial, sensível, tem um jeito muito particular dirigido às mulheres, as empregadas em casa sempre se deram bem com ele, até demais, acredito que Samael não saiba que conversei com Da Graça quando dispensada, o pai havia flagrado-o com a empregada.

 

(continua)

Invisíveis

Enquanto crescia, a minha bisavó morrera há um tempo tão pouco que o seu nome circulava em vida pela casa.   O temperamento, as manias e os hábitos superaram o derrame de terra no cemitério encrustado em meio à cidade e mantinham-na estampada nas paredes, ao pé do fogão de seis bocas ou apoiada no umbral da porta de entrada explicando por que necessitava voltar para a casa na vila.   O sotaque lusitano perpetuava-se no preparo do cozido de carnes e legumes, um evento anual da família, liderada então pela avó que em todos os cantos adornava o apartamento com galinhos portugueses em objetos, tapeçarias, bordados na toalha de mesa e guardanapos ou sinos de tocar.  Compondo um passado por vezes disforme, estas lembranças são mais do que apenas lembranças, servem de alicerces para a alma aludida na doutrina socrática, a alma de memórias.  Densa e transparente como uma lágrima.

Recentemente se organizou no centro cultural King Juan Carlos uma conferência à respeito de literatura portuguesa, sob o enfoque antropológico.  Naquela noite tratava-se da  invisibilidade do imigrante português. A discussão contava com os ilustres professores-doutores Onésimo T. Almeida, membro do elenco do PnetLiteratura, Cristiana Bastos e Frank F. de Sousa, recém chegados da conferência American Portuguese Studies International na Brown University sobre literatura portuguesa organizado no ínicio do mês de outubro.   Iniciado o primeiro painel na sala aconchegante, onde da mesma poltrona assisti ao festival de curtas (“cortocircuito7 – The Latino Short Film Festival of New York”) da América Latina e Espanha, caiu-me o termo invisibilidade um tanto inaceitável ou, pelo menos, ponto para princípio de reflexão sob novo prisma.   Por coincidência, um dos curtas de destaque do festival tratara da figura do “amigo imaginário” (ou invisível?) que ocupa a infância de muitos.  Em filme, estes amigos ocultos encontravam-se e discutiam como a nova mídia, incluindo os jogos eletrônicos, colocava-os no olho da rua e o que fazer com tantos super-heróis inutilizados.

A discussão aflorou quando panelistas e audiência buscavam argumentos para explicar a presença discreta dos imigrantes portugueses nos Estados Unidos.  Estas comunidades concentraram-se principalmente na costa leste, nos arredores de Massachussets e Rhode Island e Nova Jérsei, e parte na costa oeste, Califórnia.  Os fluxos imigratórios ocorreram em diferentes épocas, resultando numa população de cerca de um milhão de luso-americanos, excluindo-se deste número os brasileiros e africanos descendentes de portugueses também.  Questionou-se as razões destes imigrantes não destacarem a cultura de origem através da literatura.  Citou-se John Roderigo dos Passos (1844-1917), cidadão americano de origem madeirense, escritor predominantemente americano e absorvido pela cultura local e os movimentos políticos da época.   Por sua vez, na literatura contemporânea, conta-se com Katherine Vaz, participante e panelista, autora de Saudade, Our Lady of the Artichoke and Other Portuguese American Stories, é aclamada como uma das maiores vozes literárias dentre os portugueses-americanos, embora de origem materna irlandesa.  Também o poeta e escritor Frank X.Gaspar, professor de estudos portugueses da universidade de Dartmouth, traz em seu currículo livros Deixando a Ilha do Pico, Stealing Fatima, The Holyoke, dentre outros, que refletem o legado dos avós imigrantes na comunidade pesqueira da costa leste.  Fora do contexto específico dos imigrantes luso-americanos, o tema imigração tem iluminado obras recentes por Adriana Lisboa, Luiz Ruffato, José Luis Peixoto, expoentes da literatura lusófona contemporânea.

De navio rumo ao primeiro porto em  Recife e, depois, o cais do Rio de Janeiro, a bisavó deixara Braga e seus costumes tradicionais, os vestidos das viúvas enlutadas no negro fechado, esta imagem dos Trás-dos-Montes, um arquétipo indelével.  Os parentes aclimatados no estilo de vida carioca acolheram-na e ela, órfã e vivente naquela época de viagens custosas, jamais regressou a Portugal.  Não creio que vislumbraria o mundo de possibilidades que me tocaria em poucas décadas sobrepostas, as viagens de idas e vindas entre o Brasil e os Estados Unidos, as visitas a Portugal, a versão mais mundana da imigração.  Para além das praticidades atingidas, mencione-se os avanços tecnológicos que a bisavó descartaria como fantasias e delírios.  Porquanto levava a vida pacata na antiga Ilha do Governador, seguramente apreciava a chegada de uma carta com notícias longínquas.  Nas cercânias, instalaria-se o novo e moderno aeroporto, cujos aviões transportariam a carga humana da globalização.   Hoje, a comunicação se dá silenciosa pelas mensagens instantâneas, acusadas por estudiosos como Thomas Pettitt da universidade da Dinamarca como meio da pré-era Guttenberg, abrindo assim um debate em leque sobre os níveis de evolução civilizatória.

Na celeridade do tempo, dilui-se o suor que uma carta envelopada pudesse provocar por todos os poros.  Imperfeições que a vida nos exige encarar.  Não fossem os Correios, empregador do bisavô, a mãe e o pai da avó talvez não se houvessem conhecido e gosto de romancear a primeira troca de olhares e a afirmação das afinidades nos arredores da agência central dos Correios, o envio premente de notícias além-mar precipitando-os.

Se houve o Orientalismo de Edward Said, um mistério oculta a inexistência do Luso-Orientalismo, questão proposta no recanto cultural ibérico.  Na palestra atendida, um segundo quadro de intelectuais discutiu a colonização de Goa sob influência portuguesa, testemunho deste fragmento histórico.  O caso de Goa interessa aos estudiosos no que diz respeito à penetração estrangeira numa sociedade milenar e o impacto de colonizadores descritos como não tão “agressivos” a ponto de instaurar o idioma português naquele ponto do mapa asiático.  O escritor sectagenário Victor-Rangel Ribeiro, autor de Tivolem,  agraciou o público com um relato da sua experiência pessoal, a juventude em Goa, os conflitos de identidade cultural sofridos, as viagens da Ásia para a Inglaterra e a sua instalação definitiva nos Estados Unidos.

Afirmando a necessidade de divulgação da literatura lusófona, o Center for Portuguese Literary and Cultural Studies da Universidade de Massachussets (Dartmouth) e a Gávea-Brown da Brown University respectivamente sob as tutelas dos professores Frank F. De Sousa e Onésimo T. De Almeida tratam da publicação de livros relevantes à literatura lusófona, assim contribuindo para apagar os rastros de invisibilidade apontados como característicos deste grupo de imigrantes.  Numa nota menor, entretanto de igual importância, o Brazilian Endowement for the Arts, presidido pelo admirável Domício Coutinho, organizou na House of the Americas, Columbia University e West Point Academy, um congresso com ciclo de palestras em homenagem ao centenário de Joaquim Nabuco.  Fica aqui a divulgação do evento e felicitações pelo elegante trabalho em prol das letras brasileiras e portuguesas.

Por fim, como que para encerrar estas divagações, tomo às mãos “A cor do invisível” de Mario Quintana.  São poemas que traduzem o movimento das nuvens sobre um porto parado, o mundo por vezes tão insignificativo, uma viagem em fuga a cada saída da casa.  “Como é bela uma asa em pleno vôo… uma vela em alto-mar… Sua vida – toda ela! – está contida, Entre o partir e o chegar…”  E “porque são os passos que fazem os caminhos”, é que na invisibilidade de cada e todo o imigrante, uma pobre alma em paciente espera, densa mas transparente como uma lágrima.  Furta-cor.  A nostalgia da bisavó e de todos os que viajaram a trazer-me, então, até aqui.

A paisagem hipnótica

Nunca partilhei do spleen de quem olha para o nosso tempo com a perspectiva de que este já não lhe pertence. É um facto que, nas últimas décadas, um horizonte fixo de referências com mais de dois séculos de idade se foi descolando da experiência do dia-a-dia, do mesmo modo que a tecnologia veio atribuir ao quotidiano e ao presente novos significados.

A banalidade de que tanto hoje se fala é, em grande parte, resultado da reordenação de expressões e linguagens num quadro de mudanças bem mais vastas. Esta pulverização expressiva atravessa um conjunto vastíssimo de territórios e não se limita naturalmente ao que continua a ser (esquematicamente) designado por perímetro artístico, incluindo aí a literatura confrontada com a rede e com o ascendente do digital (veja-se o recente exemplo de Francoforte).

Os campos hoje em dia contaminam-se, confundem-se e movem-se. Subitamente, quebraram-se as paredes que limitavam os géneros e as legitimações expressivas, ao mesmo tempo que se passaram a ouvir vozes que antes não dispunham de meio onde enquadrar a sua expressão própria. Todos conhecíamos já a tradição espistolográfica, enciclopédica e opinativa que era complementada com modelos adequados à tradução do intimismo (diário, crónica, memórias, etc.). Contudo, as novas expressões veiculadas pela rede tem proporcionado, nos últimos anos, a enunciação de tipos expressivos que não se enquadram em nenhum destes moldes que parecem ter sempre existido.

Esta emergente explosão de vozes tem arrastado consigo errância, procura e sobretudo afirmação admirada. Do seu nada, novas vozes e (por vezes) o anonimato encarnaram e encorparam o vertiginoso papel de autor e de editor, na confluência de olhares que ainda ontem dividia o imenso fosso entre auditório e emissor, ou seja, no caso literário, entre público e escritor. Desaparecido o palco que os afastava, removida a crisálida que envolvia a voz, transposto para a rede o desejo de “dizer”, eis que a novíssima panóplia desabrochou.

E com ela, entre ela, também com ela, a expressão de alguma banalidade. Mas não se reduzam as novas expressões, de modo simplista e apressado, a mera banalidade. Até porque, para muitos, a banalidade é uma manifestação de deriva e desvario que espelha a descida do ‘céu das expressões’ à ‘poeira terrena dos mortais’. A dessacralização expressiva ‘em curso’ é comum a muito do que atravessa a arte (dita) pobre, a blogosfera, a estética do minúsculo (caso Twitter) e a inscrição em papel ou não de variadas vozes literárias. Reduzir tudo isto a banalidade e a pós-qualquer coisa é não querer ver a paisagem que se move – de de que modo – ali mesmo à nossa frente.

LC

54º episódio – O BOM LADRÃO – Folhetim em setenta e cinco episódios

Amélia deu um jeito no dia seguinte à internação, depois não abrimos mais a casa, me disse ter encontrado fezes de rato, se quiser arranjo um gato ou coloco veneno. Melhor a segunda opção. Mais alguns dias e estará tudo em ordem. Olho para aquele sujeito, que não me lembro parte de meu passado, cheio de dúvidas, Estará tudo bem para quem? Dentro de alguns dias quero minha insanidade de volta… Penso, não posso dizer. Agarro o fio onde a ruptura provocada pelo pensamento, Assim espero André! Preciso terminar o trabalho. Você não acha que essas coisas que escreve acabam com você? Como sabe o que escrevo? Desculpe-me, mas não pude evitar, havia um calhamaço sobre a mesa, ao lado da máquina, peguei para ajeitar na gaveta, mas a curiosidade foi maior, não sei como alguém pode fazer essa confusão toda com as ideias e as palavras, você complica a vida… André, eu não permiti! Eu sei, por isso peço desculpas. A literatura não me deixa doente… Quase digo que é a mediocridade reinante ao redor que me deixa adoecido, mas me calo, com seu jeito calmo o que ele quer é verificar através de meu comportamento até onde vai a tal da cura. Homem, como alguém pode conviver com todos os fantasmas, as mortes e as perversões ali contidas? Me desculpe a intromissão, mas não posso deixar de lhe dizer o que penso, como alguém pode escrever que trepou com uma morta? Seu pai não gostaria de nada disso, foi um venerável respeitadíssimo na comunidade… Por que me tenta como o diabo? Não posso entornar o caldo agora. Vou reavaliar tudo isso, André, fique tranquilo, não vou macular a imagem do velho. Melhor assim, o pessoal da loja está preocupado. O pessoal da loja? Quer dizer que leu o texto para outras pessoas? Não, apenas falei de algumas passagens… Está bem André, eu o desculpo, agora preciso ficar sozinho, estou suado, depois da sopa vou descansar, o dia foi agitado, você sabe, banco, escritórios… Para quem saiu de uma internação deve ser fácil suportar o mundo aqui fora. Não acredito que a frase saiu da boca da múmia diante de mim. Ilusão a minha, é claro que não ouviu a própria voz, apenas uma frase feita, dessas que nos chegam através de palavras mortas. E não fique zangado comigo, só penso no seu bem, somos vizinhos há anos, brincamos juntos na rua, frequentamos a mesma escola… Como pode? Eu tão diferente! Não se preocupe André… Respondo saindo do sofá, abraçando-o pelo ombro e levando-o até a porta. Acho que você não vai tomar banho de mangueira, a Amélia… A mangueira não mais ali. Devia ter percebido  a porta fechada. Não se preocupe tomo de balde. Um alívio vê-lo desaparecer na rua. Vou fechar a porta, mas Amélia não deixa, vem penteada e maquiada. Até amanhã! Amanhã ligarão a luz e a água. Bom para o senhor, agora precisa comprar uma televisão para se distrair, nunca vi casa sem TV. Então até… Fecho a porta e jogo meu corpo sobre ela. Até não sentir mais o cheiro de gente.

Quase me esqueço… Retiro a chave do bolso, coloco-a na fechadura, dou duas voltas até ouvir o ruído do trinco. Suspiro fundo. Filho de uma anta! Ler meus textos! Melhor tomar os medicamentos, está na hora. Tranco a porta, retiro a chave da fechadura e a dependuro no prego. Observo o longo corredor. Gostaria de enxergar, mas os medicamentos só me permitem olhar. Nada além do vazio e do silêncio, morada sem passado. Sigo lentamente como se arrastasse uma bola de ferro presa aos tornozelos. Paro na porta do quarto. Dos móveis, apenas o esboço. Com os remédios tudo se torna raso, bordas, não há volume, profundidade, perde-se o barroco. Logo tudo será uma escuridão só, ontem nem percebi tamanho o cansaço. Se não jogaram no lixo, tenho umas velas na gaveta do armário… Os azulejos que restam na parede da cozinha rebrilham entre as falhas cimentadas e opacas. Aqui estão… Entre ovos de barata e talheres. Melhor retirá-las, são três, uma para o banheiro, outra para o quarto e a derradeira para o escritório. Escurece rapidamente. Da janela da cozinha nada se vê, os prédios ocuparam o horizonte. O fora, nem quadrado azul… O início da noite me carrega uma agonia estranha no peito. Haverá renascimento para o homem? Um dia não mais as janelas acesas nos prédios; o som da alma. Único ruído atravessa a madrugada, vem da casa de André, parede de meio tijolo, é a televisão a alimentar insônias, raramente sinal do telefone, conversas curtas, nem os filhos suportam seu jeito abelhudo, de quem depois da aposentadoria descobriu-se vácuo, sem entusiasmo para recomeçar, apenas um entre milhões no aguardo implacável do fim, sem possibilidade de desdobramentos, que perdeu o mundo e se perdeu na possibilidade de dizer, como eu sob efeito dos medicamentos, hora de tomá-los, antes que as cores retornem, não é momento, é preciso evitar sons que alertem André, procura algum sentido a mais para continuar vivo, um entre tantos gestos inúteis que adota como salva-vidas, três comprimidos circulando no sangue até o cérebro, inundando neurônios, me mantêm enjaulado, quando vou voltar a ler estes livros que agonizam nas prateleiras? Nunca mais… O tempo que resta é para escrever, não ler, já li o suficiente, doarei os livros a alguma biblioteca, venderei a algum sebo, lugar de visita de sujeitos esquisitos, ritual nômade de quem procura uma frase perdida, algo raro ou um ultimato… Mesmo vazias, haverá rastros dos livros nestas prateleiras, como na velha Remington Rand, das escrituras, melhor me sentar na poltrona, deixar a noite enfurnar-se no escritório, não tenho dificuldade alguma para dormir, exercito todos os dias a morte, ao acordar vejo se agarro algo do último sonho, pode ser uma estrada recapeada que me leva a lugar nenhum, asas-delta sobrevoando o vale, eu a apagar registros na lousa, gritos de enclausurados na memória, mas o negro ocupando tudo, acendo a vela, chama negra e branca bruxuleante, o cheiro sem ligações aparentes, as sombras, mas nenhum fantasma, nenhuma associação com algo que poderia chamar de passado, sei que a mãe escrevia um diário, deve estar no sótão, nunca mais entrei lá, coloquei as coisas dela do jeito que deixou, nem vaga lembrança do rosto, talvez pudesse construir uma história para mim, com início, meio e fim, não me importo, ninguém se importaria comigo além da mesma atenção que dedicariam a uma sombra no chão, você pode dizer, mas que dramático, mas não digo nada disso para ser dramático, apenas relato, não carrego culpa, ao contrário, curto cada instante, os medicamentos é que mudam um pouco isso, prefiro a sonoridade da insânia, com ela é possível recriar ouvindo Apelo, Baden Pawell, com Yo Yo-Ma, os medicamentos roubam minha cinestesia, os personagens que habitam a música, mas nem pensar no choque em tempo tão curto, melhor curtir a abstinência do Ser, mesmo em branco e preto, agir sem as nascentes existentes nos sonhos, no delírio, no amor, na criação… Nada sou sem os atos falhos e os lapsos que me foram roubados pela química. Não desejo o singular a bebericar paroxetina, modo de suportar o mundo convulso, não há sentido algum em viver anestesiado ou deitado em divãs onde a assimetria de poder é fato, onde singular domina singular, referência de ritual dualístico, mas o mundo é fluxo de rio, águas nunca as mesmas, com seus duelos abstratos esquizofrênicos. Faz-se necessário procriar cartografias, retirar as palavras do uso comum…

 

(continua)

53º episódio – O BOM LADRÃO – Folhetim em setenta e cinco episódios

Fico confuso quanto ao rumo a tomar, foi assim a vida toda… Não quero para mim o que escrito na pausa urbana, a cegueira de Saramago não me interessa, só me aparece nesses momentos em que uso os medicamentos, eles me aproximam da multidão acéfala, de corpos com as vísceras ao avesso, ruídos vindos das tripas das avenidas, tudo em branco e preto, não consigo ser um deles, tratado ou não, com os medicamentos necessito das mãos para tocar o volume das coisas, e o tempo, o que é dele, já quase duas horas na torre da igreja, eu já na dobra que me afastou do vizinho, felizmente ninguém na rua, a porta de casa aberta, a mangueira ainda bloqueando a entrada, a limpeza tem cheiro próprio, não há barro no limpa-pés, coloco a mão no bolso do casaco por hábito, a chave que me lembra a lagartixa, não sei de onde, devolvo-a ao mesmo lugar, a luz mortiça no corredor, e a voz de Amélia. De quando a lembrança? Existiram as árvores? Jabuticabas lustrosas no tronco, cascas ressequidas e pisadas no chão, a ereção, o pelo negro e a vulva rósea, a casca negra e o fruto branco, a vazar secreções, a língua saboreia secreções mucosas, e a mulher a descarregar palavras, Acho que o senhor deveria arranjar um gato ou colocar veneno, encontrei fezes de ratos no escritório, também tem traça comendo alguns livros, Amélia desviando-me de algum escrito que não sei de onde nem de quando… Como pode falar tanto! Não respondo, apenas aceno afirmativamente com a cabeça. Um dia vou montar um texto com o que sobrou da ação das traças… Obra ao acaso da fome do inseto. Quantas dúvidas no velho testamento em função da ação das traças? Assim a história, fruto da omissão de fatos, da ação da Lepima humani. E que cheiro é esse, Amélia? Foi seu André, deixou para o senhor, disse que precisa se alimentar, é uma sopa. Vizinho enxerido!

Atravesso o corredor, piso brilhando, na cozinha a torneira seca, mas o filtro cheio de água, sobre a mesa o caldo verde, as vísceras quietas, abro a geladeira, desligada, deixo a sopa onde está, Amélia no meu pé… Disse que depois acerta com o senhor. Sei disso, Amélia. Então, vou acabar o serviço. Sai na direção do quintal. Sigo para o escritório, acendo um cigarro, a Remington Rand me espiando, sempre há outro de nós a escrever, mas o meu ausente, castrado pela química… Me ajeito na poltrona de pele de carneiro, olho os cantos para ver se estão por aqui… Nada! Deixo ouvidos à mercê do vento, nenhum som além do provocado pela vassoura no quintal. Fecho os olhos na esperança de algum sinal, mas nada além de bolas brancas e negras, e a sineta… Será? Só podia ser… Diante da porta, André. Precisa de mais alguma coisa? Não, obrigado pela sopa, como foi se lembrar? Adorava vir até aqui na hora do jantar para saborear o caldo verde preparado por sua mãe… De quando? Não me lembro dele em casa dividindo a mesa. Está tudo muito vazio depois que as duas se foram… Infelizmente sua loucura por Carol não resultou em filhos… Quem é ele para falar em nome de minha vida? Sem remédios seria motivo para expulsá-lo de casa. Mas… E os seus? Por aí… Eu os tenho e não, mas os criei para a vida, estão espalhados pelo mundo. Hipócrita! Pudesse os manteria aprisionados em casa. Ninguém cuida dos filhos para entregá-los ao mundo. Não vou falar, é claro! Estaria fazendo o jogo dele que me testa para saber até onde os médicos acertaram ao me darem alta. Aguarda um tempo algo de mim, mas eu quieto… Você precisa evitar o álcool, não sabe como o encontrei, precisei chamar o médico, ele decidiu interná-lo. Suportou menos do que eu esperava… Culpa! Esses merdas alimentam-se de culpa. Não me lembro… Digo para não perceber que há algo não dito no ar.

 

(continua)

A enseada de Sabato

O romance não se inicia em estado de clímax, como é evidente. Afinal, mais do que permitir ao leitor cair imerso e desamparado no vórtice da cena, Ernesto Sabato limita-se a dar voz ao protagonista para que anuncie o que é decisivo na narrativa: “Bastará dizer que sou Juan Pablo Castel, o pintor que matou Maria Iribarne”. O jogo parece ficar todo à mostra, poderá pensar-se, mas não é isso que realmente acontece. Até porque um clímax coloca em jogo actos, factos e situações, enquanto a tensão criada pela declaração de Castel apenas gera um estado de alerta. Mas um alerta que cativa e que conduzirá o leitor a ter que virar a página. A mestria começa justamente aí.

O enredo abre-se depois do mesmo modo que se abre um desdobrável: no dia da inauguração do Salão da Primavera de Buenos Aires de 1946, uma mulher fica muito tempo parada diante de um quadro do próprio Castel. A figuração impunha, em primeiro plano, uma cena onde contracenavam mãe e filho, uma imagem levemente desfocada sobre o seu realismo momentâneo. Mas o que acaba por cativar Maria Iribarne – a anónima visitante do salão –, alheada das vozes circundantes e do solilóquio dos críticos, é um detalhe do quadro a que fica intensamente presa durante minutos e minutos. Como se um pormenor da pintura – era uma simples janela – pudesse isolar-se do mundo inteiro, tornando-se numa espécie de luz ao fundo do túnel de toda a criação, de toda a imaginação, de todos os textos.

Este facto viria a mudar a vida de Castel. A partir da timidez e silêncio em que se resguardava, seguiu obsessivamente o fascínio da mulher pelo detalhe do seu quadro. Vira-a ao longe no Salão durante minutos – uma eternidade –, até que Maria Iribarne abandonou a exposição: “Durante os meses que se seguiram, só pensei nela, na possibilidade de a voltar a ver. E de certo modo só a pintei a ela. Foi como se a pequena cena da janela começasse a crescer e a invadir toda a tela e toda a minha obra”. O ponto de partida de O Túnel de Sabato (1948) é tão simples quanto admirável. Uma mudança radical a partir de um aceno breve e aparentemente sem peso. Mas o suficiente para carburar uma trama intensa.

O relato tornar-se-á permeável às coincidências e a uma série de contingências algo inesperadas. O suficiente para que ambos se encontrem e para que o voyeurismo de Castel se torne doentio. Cada vez mais abismado. A atracção acabará por tornar-se fatal. Há cartas, telefonemas, idas de comboio à casa de campo de Maria Iribarne. E há sobretudo o ciúme e a conjectura fantasmática que farão da saga aventurosa uma tragédia à procura do seu sentido.

É evidente que de um grande ponto de partida nem sempre se deduz o que é esperado, sobretudo quando o leitor já sabe aquilo que o espera. Raramente as expectativas e o peso bruto dos factos pactuam. E a regra parece cumprir-se neste romance de Sabato: “Quando me entreguei, na esquadra, eram quase seis horas./ Através da janelita do meu calabouço, vi como nascia um novo dia, como um céu sem nuvens. Pensei que muitos homens e mulheres começariam a acordar e logo tomariam o pequeno-almoço e leriam o jornal e iriam ao emprego, ou dariam de comer aos filhos e ao gato, ou comentariam o filme da noite anterior/ Senti que uma caverna negra ia aumentando dentro do meu corpo”.

Mas o que interessará a potencialidade da narrativa e até o modo como o inimaginável se debruça sobre a enseada do imaginável? Afinal, a literatura mais não visa do que uma brecha. Um clarão capaz de tornar o olhar numa súbita visão. Ainda que muitíssimo breve. A janela de Maria Iribane teve efectivamente esse condão.

Livro de José Luís Peixoto

Acontece com Livro o que me acontece com qualquer outro grande livro. Prefiro sempre o que suscita o indizível e o inexplicável ao que se torna apenas confessionalmente dito. Como escrevi noutro texto sobre a mais recente obra de José Luís Peixoto, nada cabe e tudo se extravada em passagens como – “Os anos tinham passado sobre aquele livro. Em tamanho, o livro era uma espécie de morte. A Adelaide aceitou o livro e ajeitou-o na alcofa.” (p.68).

Habituei-me a ler José Luís Peixoto, entre o jeito críptico e a circularidade dos modos, como quem se confessa às paredes da sua “vila”: esse microcosmos diluído em silêncio, cal e matéria de feno que vai sempre contracenando e tratando a poética de JLP por tu. A narrativa, para além da história que vai vincando, vive sempre da elementaridade, da economia e da simplicidade que brota da economia de frases como – “Parei o carro, as cigarras” (p.215) ou “cheguei antes da minha mãe, missa demorada” (p. 216).

Livro coloca em cena uma época e assinala um tempo que se converte em instrumento do próprio progresso ficcional. Nesse sentido, afasta-se dos dois primeiros romances do autor – Nenhum Olhar (2000) e Uma Casa na Escuridão (2002) –, atemporais cada um a seu modo. E distancia-se da estrita circularidade do terceiro – Cemitério de Pianos (2006) –, ainda que a suspensão da narrativa, sem cisões drásticas, faça parte do leme habitual com que as histórias de JLP vão aparecendo. Um modo que vai somando fascínio e fragmento ao cumprimento do plot.

Reatemos o chamado espírito de época: Livro dá-nos conta da geração que, nos anos sessenta, emigrou para França – Saint-Denis e Champigny estão lá com cheiro a barraca –, e de que descende o narrador do próprio romance que se chama “Livro”: um ser “sem direcção”. Um nome realmente singular que a mãe, Adelaide, eterna apaixonada de Ilídio e casada com o militante político Constantino, dá ao filho trocando as voltas às legislações e, de certo modo, parodiando o cortejo do fazer literário e de muitos outros que o antecederam (o nome Josué – personagem central de Livro – surge associado aos “Livros Históricos” do período profético, ao fim e ao cabo colectâneas anónimas do séc. X AC). De facto, “Josué andava de dedo esticado, a apontar para terrenos de estevas e a projectar construções invisíveis no ar.” (p.175). Foi Josué quem criou Ilídio, desde o dia em que a mãe lhe desapareceu, relembremos.

E houve ainda outro dia mágico em que ambos os homens se separaram: “Não havia uma palavra simples que os descrevesse. A hora chegou como um prego enferrujado, a espetar-se entre as costelas”. Muitos anos depois, já sem Josué, é Ilídio quem testemunhará a maior das revelações: “A minha mãe diz que estão cansados de andar às escondidas, que já ninguém tem idade para isso. E ficam à espera.”.

Livro é um nome e é um livro. Um livro rico, denso, de percursos abertos e fecundo no espaço com que efabula rostos, espantos, sombras e sobretudo a terra como erupção de muitas vozes.