57º episódio – O BOM LADRÃO – Folhetim em setenta e cinco episódios

Quem sou eu? Pergunta feita por Tolstói aos 26 anos. A metade da idade que tenho agora, quase a de Samael. Acho que meu filho será a única pessoa a pegar o que escrevo, aprendi com ele o gosto pela leitura, lia escondido do pai que não permitia que entrasse na biblioteca, dizia que os livros eram para serem lidos pelos adultos, não pelas crianças; muito menos pelas mulheres. A biblioteca, quando não estava em casa, permanecia trancada, mas Samael, sempre encantador com as empregadas, conseguia lá permanecer um tempo, lendo algum livro. Eu não devia aceitar o rumo de meu casamento… Consegui terminar o curso normal, poderia dar aula, mas logo me casei. Nunca fui corajosa. Logo veio a gravidez. De uma relação entre dois desconhecidos, nasceu Samael. Quieto já no nascimento, jeito calmo de sugar o leite, mais a cara do pai, isto me incomodava, não vou deixar de registrar, não queria dois homens iguais em casa, suportar um já era difícil, nem um ano de casada para perceber onde me metera. Viriam outros não fosse a doença que me atingiu logo depois do parto. Hoje sei que foi adquirida de meu marido, trouxe da rua, mas foi melhor assim… Apesar de filho único, Samael preencheu a falta de carinho e companhia com personagens que ele mesmo criava, não era incomum encontrá-lo em longas conversas com personagens anônimos, maioria das vezes nos cantos, no quarto ou debaixo da jabuticabeira, o que me preocupava, meu irmão também agia do mesmo modo, até atirar-se de corpo e alma em delírio próprio; um dia, entregou-se à morte. Daí sofrer muito ao castigar Samael por alguma arte que tenha feito. O que meu irmão buscava ao adiantar a morte, ninguém nunca soube, nem mesmo eu que dividia com ele as alucinações de infância.

Hoje, viúva. Há exatos dois dias. Não estaria escrevendo estivesse vivo… Não deixaria, faria um escândalo, até segredos evitei, mas ele percebia em minha expressão quando havia algum. Nunca dei justificativas para que se sentisse incomodado, respeitei-o, cuidei da casa, atuei o papel de esposa fiel e dedicada que os irmãos cobravam dos membros, mesmo sendo assediada por eles, nunca o trai, o que não era comum entre as outras mulheres, sei que meu silêncio e passividade prejudicaram Samael, mas agora não adianta sofrer, nós dois alcançamos a liberdade, a porta da biblioteca ficará definitivamente aberta, é estranho dizer isso nem dois dias depois do enterro, mas sei que saiu um peso grande de nossas cabeças, Anastácio, meu outro irmão, o mais velho, preencheu um pouco a figura ausente de um pai, mesmo sendo rejeitado pela sua opção sexual, com certeza Samael nunca se esquecerá do tio…

Devo registrar algo que me deixou muito feliz. Já na primeira noite sem o pai, Samael passou a noite na biblioteca teclando na Remington Rand. Quer ser escritor… O pai nunca concordou. Agora não sei o que vai ser de nós dois. Nada sei da vida particular de meu marido, nem mesmo onde tem conta bancária. Talvez Samael precise trabalhar. Pelo menos a casa é nossa… Acredito que sim. Depois da última vadia que apareceu em casa grávida, vai lá se saber… Não deve ser filho dele, também ficou estéril com a doença, fizemos exames, nunca aceitou que havia problema com ele. O que foi minha vida? Dividisse o passado ao modo de Tolstói, haveria apenas dois momentos: o primeiro nada diferente da vida do autor russo, poética, maravilhosa, inocente, esfuziante, apesar dos problemas em casa, até o casamento, aos dezesseis anos. O segundo, até a morte de meu marido, renúncia total do papel de mulher, como já disse, mas preciso reforçar, fui uma esposa preocupada em passar à sociedade as preocupações próprias de uma família, cumpri meu papel de companheira dedicada aos compromissos assumidos pelo marido, prestei assistência social, levei uma vida honrada e regular, fria como mármore, mas atuando o papel exigido. O mundo ao redor mudou, poderia arrumar outro companheiro, oportunidades não faltaram, a gravidez mudou meu corpo, tornou-me mais mulher nos gestos, mas quando o medo tem sua raiz na infância há muito pouco a se fazer… É o passado repetindo-se infinitamente, em cada botão de camisa, em cada orgasmo, como se afirmasse a fragilidade da mãe, da fêmea que neguei pela falta de reação. Sei que meu terceiro período sofrerá poucas modificações, não desejo a experiência de outro homem, o amor conhecido apenas a Samael, mas é dúbio o que sinto, algumas vezes me lembra o irmão, outras, o marido, tem o nariz aduncado como o dele, a mesma sobrancelha, os pelos vazantes nas orelhas e no nariz. Sei que Samael é especial, sensível, tem um jeito muito particular dirigido às mulheres, as empregadas em casa sempre se deram bem com ele, até demais, acredito que Samael não saiba que conversei com Da Graça quando dispensada, o pai havia flagrado-o com a empregada.

 

(continua)