As topografias de Poe

O espaço representado nas ficcionalidades de Poe tem algo do vislumbre da infância fotográfica. Ora leia-se: “A cidade estava em grande parte despovoada e, nos bairros horríveis vizinhos ao Tamisa, no meio de um desses becos negros, estreitos e imundos, onde o demónio da peste tinha fixado a sua residência, passeavam à vontade o espanto, o terror e a superstição…” (RP: 11). A passagem surge como que a revelar um quotidiano sem contexto, imerso em si mesmo e à procura de uma regra que permitisse entender, pelo menos, um horizonte.

Por vezes, o detalhe, o microcosmos e o fascínio pelas texturas mais imediatas contracenam com o irremediável: “O ar estava frio e enevoado. As pedras arrancadas da calçada jaziam numa desordem medonha por entre a relva alta e vigorosa…” (RP:12). Mas é a percepção – da fatalidade – que acaba sempre por comandar o relato e emprestar-lhe sentido: “E toda aquela turba ia com uma actividade ruidosa e desordenada cujas discordâncias mortificavam o ouvido e produziam nos olhos uma sensação dolorosa” (HC:69). Poe diagnostica o visível e pressupõe-o como um possível, à solta, que parece ter saído de uma ordem que antes vingara durante séculos. É esta descoberta implícita, mas tão óbvia, que melhor exemplifica a inscrição literária de Poe.

Ao fim e ao cado, Poe entendeu muito bem, no seu tempo, que as mudanças correspondem sempre a uma inquietação muito difícil de fixar. O que as caracteriza é o desfasamento entre o que é tangível aos olhos de quem analisa ou descreve e a mais profunda falta de enquadramento para esse espectáculo corrente. A semente do niilismo moderno – e do sofrimento sem causa – terá aqui a sua génese. É um facto que a disforia toma conta do mundo no alvor moderno e urbano, nas periferias industriais emergentes e nestas vielas taciturnos que Poe tão bem traça e relata. A nova inscrição dos espaços vai desencadeando um novo hiper-realismo que torna as liturgias, os milagres, os santos e outras figuras da tradição teológica em miragens sem grande espaço de fruição. As utopias da época ditam visões autónomas e livres e ancoram em aparelhamentos que retiram, por sua vez, espaço às fantasmagorias dominantes ligadas à lanterna mágica. A fotografia – e algumas décadas mais tarde – o cinematógrafo são os exemplos mais copiosos de um novo processamento da realidade em que o dia-a-dia impiedoso e cruel se torna personagem principal.

Contudo, no campo especificamente literário, Poe, além de fotógrafo – que o foi de modo prodigioso –, não evitou a chamada ‘carga da época’. O encantamento gótico-romântico persistia em ver o que o mundo não deixaria ver. Mas o que a literatura dá a ver raramente se confunde com o desígnio tosco do ici-bas. A literatura herda um mundo que adora encenação, na boa tradição danielítica.

O mais fascinante, no caso de Poe, é que na sua obra convivem ambos os olhares: o desassombrado e fotográfico, mas também o codificado e encenado. Eis um exemplo deste último: “(…) restaurei parcialmente uma abadia (…) numa das regiões mais remotas e mais isoladas da bela Inglaterra. A lúgubre e solitária imponência do edifício, o aspecto quase selvagem da propriedade, as muitas melancólicas e queridas recordações de que não me conseguia libertar tinham muito em comum com o sentimento de extremo abandono (…)” (LI:32,33). E ainda outro exemplo, este carregado de adornos e simulacros: “Magnífica de ouro e púrpura, desceu sobre nós (…) até que por fim os seus rebordos pousaram nos cumes das montanhas, o seu aspecto sombrio agora convertido em magnificência, encerrando-nos (…) numa prisão esplendorosamente, gloriosamente, mágica” (EL:52). Ou ainda, para finalizar: “E sempre que o visitante mudava de posição, via-se cercado por uma infinda série de formas sinistras como as que povoavam as superstições normandas ou os sonos pesados de culpa dos monges. (…) (O) vento por detrás das tapeçarias acentuava o efeito fantasmagórico e proporcionava ao conjunto uma animação medonha e inquietante” (LI:36).

Poe: uma literatura de fusão, é certo. Mas também uma literatura do fascínio. Quer pelo espaço que brota como uma explosão luminosa e realista, quer pelo espaço que se insinua como um locus críptico e enclausurado.

Retrato de Alberto de Lacerda

Num país sem tradição de biografias literárias, Luís Amorim de Sousa cometeu a proeza de fazer o retrato do seu amigo Alberto de Lacerda. Verdade que um retrato não é uma biografia, mas Às Sete no Sa Tortuga vai com certeza ser saudado como embrião de uma obra de maior fôlego.

         Lacerda e Amorim de Sousa foram amigos durante décadas. Conheceram-se em Londres, no café Sa Tortuga de King’s Road, creio que em 1960. (O encontro coincide com o regresso de Lacerda a Londres depois de uma temporada no Brasil.) E ficaram amigos para a vida.

         O livro lê-se num ápice, tanto pela escrita fluente do autor como pelo sortilégio que emana da figura de Lacerda, alguém que, e são palavras de Eduardo Lourenço, «sob o silencioso desdém ou a fulgurante ironia poucos adivinhariam que Alberto de Lacerda era […] um exilado de si mesmo, escolhido com infalível mirada pela musa exigente da pura melancolia e da liberdade.» (cf. Alberto de Lacerda. O Mundo de um Poeta, Lisboa: Gulbenkian, 1987) Amorim de Sousa tem a vantagem do happy few entre pares. Quando se conheceram, Lacerda tinha quase dez anos de Londres. A diferença de idade  —  Lacerda nasceu em 1928, Amorim de Sousa em 1937  —  não foi obstáculo a um convívio que sobreviveu às naturais atribulações da vida literária.

         Londres foi o ponto de encontro e despedida de ambos. Amorim de Sousa foi a última pessoa que viu Lacerda antes de morrer, no Chelsea and Westminster Hospital, a 26 de Agosto de 2007, um mês antes de completar 79 anos. Na véspera, tinha sido descoberto em coma pelo seu amigo John McEwen, crítico de arte, que o fora buscar para almoço. Um ataque de coração em simultâneo com um derrame apagaram subitamente o autor de Palácio (1961).

         Amorim de Sousa faz justiça às peculiares idiossincrasias de Alberto de Lacerda. Acompanha o seu trajecto por Londres, o período americano (primeiro em Austin, depois em Boston), o regresso a uma Londres “desumanizada” e as graves dificuldades materiais dos últimos anos.

         No momento em que a Assírio & Alvim e a Fundação Mário Soares dão à estampa os primeiros volumes da Colecção Alberto de Lacerda, sendo um deles O Pajem Formidável dos Indícios, colectânea inédita de poemas escritos entre Outubro de 1995 e Janeiro de 1997, neste momento, dizia eu, o retrato do poeta feito por Amorim de Sousa tem todas as condições para chamar a atenção para a obra de um poeta que foi sempre estrangeiro na sua própria terra.

A literatura de Poe: liberdade vs. fatalidade

Nas narrativas de Poe, está em curso uma imaginação livre, moderna e poderosa. Há sempre um sujeito muito claro que enuncia o relato e está sempre em cena uma linguagem que aparece como diria Foucault. Esta marca de vincada subjectividade torna-se visível, por exemplo, no conto Silêncio, que dá corpo a um curioso diálogo entre o demónio e o narrador, junto ao túmulo deste último, sob o pano de fundo de uma paisagem que se vai alterando. Metamorfose que por si se explica, como se fosse um acto que não carece de criador ou explicativo: é este mesmo o cerne do emergir literário.

O modelo de diálogo onde o demónio intervém surge noutras narrativas como, por exemplo, em O Gato preto. O trânsito entre a vida e a morte torna-se aí realmente chão, directo e sobretudo dissociado da parábola ou do carácter de alegoria ou exempla, o que jamais aconteceria nas literaturas pré-modernas que sempre separaram a esfera do divino e a esfera dos homens. Os personagens de Poe são sempre sujeitos activos que edificam, matam ou redimem, sendo tão-só guiados pelo que resulta das virtualidades literárias da imaginação e da linguagem. O mesmo pressuposto de jogo criativo viria, no futuro, a revelar-se no cinema em alguns dos mestres do expressionismo cinematográfico alemão, como Fritz Lang ou Murnau.

Em Poe, a cena ficcional é sempre atraída por uma ideia de fatalidade, ao fim e ao cabo um modo de questionar os sentidos que a então recentíssima vida moderna e urbana colocava em marcha. Ao longo de séculos, as providências haviam acautelado a harmonia entre os deuses e os homens, mas agora, separados dessa junção protectora, os personagens de Poe mais não fazem do que profeticamente prenunciar – passe a redundância – a negatividade do sujeito moderno, tão do gosto de Baudelaire, Nietzsche ou Ortega Y Gasset, etc[1].

Em contos como Ligeia, Gato preto, O Rei peste, Berenice ou Eleanora, a fatalidade acompanha toda a trama e chega mesmo a ser assinalada pela voz que narra:  “Já não era capaz de me reconhecer. A minha alma original pareceu fugir-me de repente do corpo” (GP); ou: “Falarei apenas daquele aposento, para sempre amaldiçoado ao qual, num momento de loucura, conduzi como minha esposa – como sucessora da inolvidável Ligeia – a minha  loura (…)” (LI).

Ao contrário dos monstros e portenta que, no imaginário pré-moderno, eram habitantes de um alhures legitimado de modo metafísico, nas narrativas de Poe a topografia das monstruosidades e fantasmas abre-se à empatia do quotidiano, sendo fruto de um puro jogo da linguagem literária. Tal ocorre, quer através de um olhar que filtra o ambiente das novas cidades e as novas visibilidades do quotidiano, quer através de um olhar preso à idealidade romântica e gótica que visiona ruínas medievais e espectros desolados. Literatura de fusão feita a partir de uma simbiose de olhares, como se vislumbrasse uma espantosa intuição do tropo fotográfico, fenómeno, também ele, emergente e contemporâneo da obra e da vida do autor.

30º episódio – O BOM LADRÃO – Folhetim em setenta e cinco episódios

Entre nós, só os contornos são semelhantes, um contagiando o outro, mas aos olhos de Carol não há distinção, ela admira a resultante da loucura, um sujeito dentro de uma armadura, protegendo-se dos contatos e dos afetos, criar podia ser uma saída, desconstruir, dar forma e consistência a novas representações, identidade na loucura, único modo de o não-sentido apressar a viagem final, mas ainda restam os delírios alimentados na esfera do absurdo, equilibrar-se na tênue linha que nos separa do desvario, como em Paul Klee, em O Saltimbanco, somos mais linhas que planos ou patamares, fina casca onde rupturas ocorrem a um simples sopro, e nós, eu e o outro de mim, sentados diante da tela, em crise criativa, resta muito pouco a representar, todos se foram, e não, de um modo ou de outro. Aqui o não-lugar, nem dentro nem fora, as janelas sempre fechadas. Não vivi Balzac… Terminar a obra é morrer e enterrar-se. O livro será obra nunca terminada, nunca definitivamente, ponto final será a última viagem do autor, depois que todos não mais presentes, a porta com animal no frontão, escancarada, o cheiro de podre nas narinas de quem matou tio Anastácio, cheiro mortiço a desvendar o segredo que habitava aqueles aposentos, não haverá herdeiros, apenas fantasmas, o outro de mim a testemunhar e endossar tudo que escrevo, quero o corpo cremado, as cinzas deverão ser jogadas debaixo de uma jabuticabeira, quero atapetar de sorriso negro o tronco da árvore, ser luto suculento e atraente, dizer às crianças que a morte é um fato, mas não um fim, como a obra.

 

(continua)

Capitulo 1 – A Flip da Casa Grande, a Flip da Senzala

Esta é a oitava edição da festa que virou a principal atração turística de Paraty, e muita coisa mudou nesses anos. Neste encontro em que o principal homenageado é um dos autores considerados entre os maiores intérpretes do Brasil (formando juntamente com Sergio Buarque de Holanda e Celso Furtado uma espécie de santíssima trindade), paira no ar da cidade símbolo do início do pujante ciclo do ouro, um convite à reflexão sobre quem somos e para onde vamos.

Coincidentemente (ou não), a primeira Flip aconteceu no primeiro ano do primeiro governo de um líder sindicalista, prometendo mudanças sociais profundas. Esta, no último ano do governo Lula, foi aberta pelo seu predecessor, um especialista em Gilberto Freyre que reconhece a polêmica em torno do grande brasilianista, mas também a importância de alguém que mostrou ao mundo um caminho de entendimento acerca do servilismo que persiste mesmo num país mais democrático e justo do que era quando Freyre estudou as origens e heranças do escravismo e do colonialismo.

No prefácio da última edicao da mais conhecida obra do homenageado, Fernando Henrique Cardoso definiu Casa Grande & Senzala como um livro perene, um clássico que se deixa ler preguiçosamente, não obstante a densidade do livro.

De fato, muito mudou no Brasil e no mundo desde a primeira Flip. No ano em que foi lançado o iPad, Paraty, porem, continua a ser a cidade virgem que Freyre achava que todos deveriam conhecer.

Nas ruas escorregadias de pe-de-moleque, convivem tipos diversos: europeus bonitões, jovens alternativos aspirantes a intelectuais, crianças na Flipinha, mulheres com sapatos inadequados, mulheres apropriadamente calçadas, mulheres em grupos, uma festa muito feminina. No pequeno salão da crepêrie Le Castellet, por exemplo, dos 16 convivas, 14 são mulheres, que comentam animadas as palestras e leituras do dia.

A presença feminina sem dúvida reflete uma sociedade onde ocorre a independência e ascensão de grupos antes marginalizados, num Brasil muito diferente daquele sobre o qual Freyre debruçou-se nos anos 20, a partir de uma universidade norte-americana.

Mas se as pedras que pavimentam as ruas de Paraty continuam impassíveis, o respeito a certas hierarquias se mantém forte. Para além do aspecto democrático próprio de fóruns de discussão literária, os degraus entre os estratos sociais sao altos ao separar os festeiros amigos (aqui literalmente) do príncipe, daqueles sujeitos à tragédia dos comuns. Pousadas e casas luxuosas deixam-se entrever por poucos segundos aos pobres mortais que se limitam a se contentar com os (deliciosos) doces tradicionais vendidos em carrinhos de rua a R$ 3. As festas exclusivas não passam de rumores para aqueles que se hospedam fora do adulado centro historico.

Num Brasil que continua governado por aliancas com as oligarquias, nada causa surpresa, mas refletir sobre essa separacao velada pelas ruas de Paraty tem certamente um sabor especial. Mesmo para os comuns.

Mauro Finatti

Capitulo 2 – Flip – A elegância do robalo

Nesta minha terceira Flip, encontro um evento muito mais institucionalizado do que a versão de 2006, quando ainda era fácil conseguir ingressos para as tendas dos autores durante a própria festa, e comer em restaurantes como o Banana da Terra sem ter que fazer a reserva “de São Paulo”. Deste restaurante, aliás, é que escrevo hoje. Meu blackberry chama menos atenção do que seu arcano antecessor de 4 anos atrás, e menos ainda do que a mesa onde janta Salman Rushdie, confortável entre público não hostil.

A propósito do espanto que os rigores islâmicos têm causado na mídia brasileira recente, hoje a mesa mais marcante foi aquela dividida entre o israelense A. B. Yehoshua e a iraniana Azar Nafisi, e mediada por Moacyr Scliar. A simpática e elegante Nafisi observou a um dado momento do debate a dificuldade de estar ladeada por dois escritores, homens, experientes e com impressionante número de publicações, ao que o escritor brasileiro acrescentou: judeus.

Provavelmente o ateu e sionista Yehoshua se sinta menos judeu que Scliar, a julgar pela personagem central de seu livro mais recente (Fogo Amigo), um septuagenário autoexilado na Tanzânia que quer livrar-se da “lambança judaica”, para quem, se não existe desligamento permanente, que seja apenas temporário…

Como disse ontem William Gordon, o “Mr. Allende”, um advogado que virou escritor, nunca se deixa totalmente de ser advogado, sempre fica um resquício. O mesmo se pode dizer do desligamento desejado pelo protagonista de Fogo Amigo, e que reflete a dualidade do autor, de quem ora sobressai o notório pacifismo, como quando clama pela ajuda internacional para a solução dos conflitos no oriente médio, e ora mostra certa intolerância, como quando se disse enojado pela comparação feita por Saramago entre Auschwitz e Ramallah. Saramago veio à tona depois que Yehoshua citou o trecho bíblico sobre a vida de Caim (ou como este recebeu um “upgrade” incompreensível para um fratricida, por força de quem manipulou a escrita da Bíblia) e uma espectadora perguntou se ele havia lido a obra com o nome do filho de Adão, de autoria do Nobel português.

Essa interessante dualidade do autor israelense resultou também no único momento em que Azar Nafisi pareceu desconfortável, quando foi repreendida em público pelo colega de mesa, que a instou a não colocar a culpa apenas em governos, como alegadamente ela o teria feito em Lendo Lolita em Teheran, sua obra mais famosa. A escritora ensaiou um mea culpa diante da veemência de “A.B.”.

Antes da reprimenda, Nafisi mostrou-se desenvolta e lúcida, arrancando aplausos entusiasmados da plateia. Para a iraniana, a literatura é existencial, e não política. Quando ela é independente da política, ela torna-se subversiva e revela a verdade. Prosseguindo, ela afirmou que a boa literatura faz refletir, faz pensar e ficar inquieto, e citou Salman Rushdie.

Nafisi não se esquivou de perguntas provocadoras, como aquelas sobre o posicionamento do presidente Lula a respeito da condenação à morte de Sakineh Ashtiani, ou as recentes regras francesas proibindo o uso da burka em público. Conhecida por seu posicionamento contrário à obrigatoriedade do traje feminino em certas partes do Islão, Nafisi mostrou-se decepcionada por uma lei impositiva, que não foi discutida com a sociedade, deixando de assimilar um importante grupo étnico que hoje habita a França. Mostrou com isso saber balizar suas próprias posições com o imperativo de respeito às liberdades individuais. Com relação à visão inconstante do nosso presidente, que inicialmente pretendia não intervir para não “avacalhar”, e posteriormente aceitou acolher a mulher que deixava desconfortável seu amigo déspota, Nafisi foi categórica: democratas não podem ser amigos de ditadores, e desconfortável é morrer apedrejado. Hurras da plateia.

Nafisi salientou, por fim, que seu país não deve ser lembrado apenas por seu líder não eleito e por leis surpreendentemente brutais aos olhos das nações ocidentais do século XXI, mas também por sua história rica e milenar, por seu legado que vai da poesia à matemática e por Rumi, para quem não fazia diferença, como local para louvor, estar numa sinagoga, numa igreja ou numa mesquita.

Depois dessa lição de respeito à diversidade, lavei a alma com uma massagem num encantador spa asiatico no escondido bairro do Caborê (a caminho do qual passei pela igreja O Brasil para Cristo, que pelo fervor dos cantos parecia alheia à reflexão que ocorria a poucos metros dali) e me refestelei com um robalo elegantemente coberto por uma crosta de pimenta limão, que me evocou a obra de Muriel Barbery sobre o gourmand que buscava ao fim da vida o sabor essencial.

Mauro Finatti

“O Coração é um Caçador Solitário” de Carson McCullers (Presença)

O mês de Agosto não é, naturalmente, um mês vocacionado para lançamentos de novas obras e, portanto, para pré-publicações. Trata-se do mês da grande pausa e do sabor a mar. De qualquer modo, para dar corpo a esta rubrica, seguimos uma das muitas pistas editoriais deste Verão. De entre os vários anúncios que nos chegaram, destaque para a oferta da Presença (“Campanhas Especiais”).

Nesse âmbito, seleccionamos e sugerimos, para esta semana, O Coração é um Caçador Solitário de Carson McCullers. Passamos a publicar a respectiva sinopse:

“No Sul profundo dos Estados Unidos, em plena década da Grande Depressão, num cenário desolado, de pobreza, intolerância e isolamento, John Singer, um mudo, torna-se de súbito confidente de um grupo de personagens desenquadradas da sociedade. Todos procuram à sua maneira preencher o vazio deixado pelos sonhos perdidos – e todos, por algum motivo, acham que Singer os compreende. Mas Singer, impassível na sua mudez, não tenta alcançar nada senão a atenção de um amigo que não manifesta mais que indiferença… Uma obra expressiva e poderosa que permanece actual na sua projecção de uma realidade intrínseca à condição humana (Colecção: Obras Literárias Escolhidas, Nº na Colecção: 13, Data 1ª Edição: 06/04/2010, Nº de Edição:ISBN: 978-972-23-4339-8, Nº de Páginas: 360, Dimensões: 150x230mm, Peso: 524g).

Note-se, por fim – não deixa de ser importante –, que a crise aconselhou e bem o editor a uma descida do preço (de 18,68 € para 16,90 €…).

27º episódio – O BOM LADRÃO – Folhetim em setenta e cinco episódios

Deixo que esfrie um pouco. Do outro lado da mesa, a criança pega o ovo que estala no caldo quente, a mãe observa a reação do pai, mas este perdido no noticiário do jornal, há dias que ele chega assim ignorando a família, a morte de tio Anastácio contrariou-o, expôs a família toda, cobrou de minha mãe. Um pouco mais, apenas um pouco mais… Havia o lado bom quando ficava assim. Clara, pegue um ovo! Para quê? E não me chamo Clara, já disse que não gosto dessas confusões de nomes, Clara era o nome de sua mãe. Desculpe-me Carol, me dê o ovo, vou estalá-lo no caldo, como fazia quando menino. Tanto capricho e agora você com essa ideia de colocar ovo na sopa! Nessa hora Carol está sendo Clara. No ar, o cheiro de alho e cebola; de sangue e da mãe. Carol preocupada com o desinteresse do marido, com o meu, mas Carol não mais, o romper lento com a vida, não sabe como me ajudar, as depressões cada vez mais duradoras e frequentes, a gema do ovo flutuando no caldo verde, a clara esbranquiçada, o calor da sopa no rosto, a fumaça fugindo dali, quase imperceptível, o menino querendo virar fumaça, esparramar-se no teto, centenas de tentáculos, sair pelas fissuras abertas nas paredes, olhar o mundo do escuro das frestas. E elas continuam lá, no mesmo lugar, nem um pouco mais largas, para refúgio da alma.

Os dois… No meio da fumaça. Fogo nas folhas secas de outono. Um torce que as chamas atinjam as folhas da árvore, o outro treme nas pernas pela possibilidade de ser descoberto. Rasuras. Qual o motivo de não viver completamente a perversidade infantil? Por que o olhar enviesado? De um lugar já comido pelas traças do tempo. Continuam vivos os dois. Cada qual morreu um pouco. Repetir a infância no ovo flutuando na sopa enquanto o sósia olha Carol como se fosse Clara, e que ela não saiba, imagem de mulheres superpostas, Clara olhando o companheiro com preocupação, ou Carol?. A opção de enclausurar-se na casa, sem ver o outro que acabara de chegar da rua, rejeitar as correspondências, alimentar o gato e sentar-se diante da geladeira, no canto a criança perdida nos artefatos ficcionais da realidade, no ambiente, orgia de personagens, dança profana ao redor de uma fogueira, o fogo no olho dos dois, nos mistérios das chamas, nas imagens que se amontoam, ali o devir, o homem na mesa colocando o ovo no caldo verde diante de uma mulher de nome Carol, e o sósia, fantasma, cansaço inclinado sobre o piso, como se por ali passasse um rio e ele estivesse a ponto de mergulhar.

 

(continua)

19º episódio – O BOM LADRÃO – Folhetim em setenta e cinco episódios

Não cedeu à ideia de entre os mortos. Tive a impressão de ter visto jovens saindo do cemitério com peças roubadas dos túmulos. Willer, muito tempo antes; talvez. Não foi delírio. Disse-me que depois ouviram música. Registros inúteis… Os encontros repetindo-se. Nunca mais nos separamos. Vamos morar juntos! Lembro que Carol olhou-me incrédula. Puta é mulher da rua, melhor não arriscar. Você sentado próximo me desafiando. Pois arrisco, vamos pegar suas coisas, de agora em diante morará em casa. Esqueceu-se de Clara? Não, não me esqueci. O que disse? Nada Carol, falo sozinho às vezes. Clara nada falou, sempre foi assim, reprovação era o silêncio, na frente de Carol calou de vez durante semanas até me pegar sozinho. Carol trabalhava. Como pode? Uma mulher da vida! Sem eufemismo mãe, gostei da puta, só isso, é a escolhida. Estivesse vivo seu pai! A opção seria a mesma! Nunca mais cobrou a presença de Carol, evitava ficar conosco, a casa era grande, não faltavam refúgios. Mas Carol não era carinhosa apenas com os fregueses, soube aproximar-se de Clara, despertou-lhe os perdidos nas tortuosidades do feminino, acendeu uma luz na mãe e arejou a casa. Só não tivemos filhos, problema causado pelos abortos. Não fez falta, havia pedaços de gente além da conta ao meu redor e eu não suportaria mais essa possibilidade…

Literatura é nada, disse um dia o velho. Onde o gole de algum excesso ou loucura? Sempre correto, devia dar exemplo aos pares, então, camuflava… Você quer algo melhor que a palavra camuflar? Um dia alguém desvendaria algum segredo, alguma farsa, alguma mentira. O dia em que tudo escorreu para o ralo havia chegado. Quem diria? O grande qualquer coisa mostrando o rosto como se mostrasse o cu. Uma carta escrita com letra de professora e imagens adolescentes. O velho havia se enroscado com uma menina de dezesseis anos. Engravidara. Apareceu em casa no verão, eu atendi ao chamado da sineta, perguntou por Clara, corri a chamá-la, vi quando a mãe retornou, tremia e transpirava muito, o rosto pálido. Trancou-se no quarto, não saiu de lá nem para preparar o jantar do marido. Algo de muito grave havia ocorrido… Precisaria dizer?

 

(continua)

THE DISQUIETING MUSES, de Sylvia Plath, tradução de Ana Maria Chaves

Partindo do quadro de Chirico com o mesmo título, depois da denúncia do papel da mulher-esposa, Sylvia Plath sufoca-nos com o seu retrato da mulher-filha, sobre a qual recai o peso insuportável de tudo o que a mãe (e a sociedade) dela espera e a que jamais ela poderá ou quererá corresponder.

THE DISQUIETING MUSES

Mother, mother, what ill-bred aunt

Or what disfigured and unsightly

Cousin did you so unwisely keep

Unasked to my christening, that she

Sent these ladies in her stead

With heads like darning-eggs to nod

And nod and nod at foot and head

And at the left side of my crib?

Mother, who made to order stories

Of Mixie Blackshort the heroic bear,

Mother, whose witches always, always

Got baked into gingerbread, I wonder

Whether you saw them, whether you said

Words to rid me of those three ladies

Nodding by night around my bed,

Mouthless, eyeless, with stitched bald head.

In the hurricane, when father’s twelve

Study windows bellied in

Like bubbles about to break, you fed

My brother and me cookies and Ovaltine

And helped the two of us to choir:

‘Thor is angry; boom boom boom!

Thor is angry: we don’t care!’

But those ladies broke the panes.

When on tiptoe the schoolgirls danced,

Blinking flashlights like fireflies

And singing the glowworm song, I could

Not lift a foot in the twinkle-dress

But, heavy-footed, stood aside

In the shadow cast by my dismal-headed

Godmothers, and you cried and cried:

And the shadow stretched, the lights went out.

Mother, you sent me to piano lessons

And praised my arabesques and trills

Although each teacher found my touch

Oddly wooden in spite of scales

And the hours of practicing, my ear

Tone-deaf and yes, unteachable.

I learned, I learned, I learned elsewhere,

From muses unhired by you, dear mother.

I woke one day to see you, mother,

Floating above me in bluest air

On a green balloon bright with a million

Flowers and bluebirds that never were

Never, never, found anywhere.

But the little planet bobbed away

Like a soap-bubble as you called: Come here!

And I faced my traveling companions.

Day now, night now, at head, side, feet,

They stand their vigil in gowns of stone,

Faces blank as the day I was born.

Their shadows long in the setting sun

That never brightens or goes down.

And this is the kingdom you bore me to,

Mother, mother. But no frown of mine

Will betray the company I keep.

AS MUSAS INQUIETANTES

Mãe, mãe, que tia maldosa

Ou desfigurada e hedionda

Prima insensatamente tu não

Convidaste para o meu baptizado

E em seu lugar mandou estas damas

De cabeça a lembrar ovos de passajar,

Acenar à cabeça e aos pés da cama

E ao lado esquerdo da minha alcofinha?

Mãe, tu que a nosso pedido inventavas histórias

Do Mixie Blackshort, o ursinho valente,

Mãe, onde as bruxas acabavam sempre

No forno em biscoitos, já não sei agora

Se as vias ou se tu proferias

Palavras para me livrares daquelas três damas

A acenar à noite junto à minha cama,

Sem bocas nem olhos, cabeças peladas todas cosipadas.

No furacão, quando as doze janelas

Do estúdio do pai inflaram para dentro

Como bolhas quase a rebentar, tu deste

A mim e ao mano Ovaltine e biscoitos

E ajudaste-nos a cantarolar:

“Thor está zangado; bum bum bum!

Thor está zangado, mas não vamos ligar!

Mas aquelas damas partiram os vidros.

Quando as meninas bailavam em pontas

Agitando luzinhas como vaga-lumes

Cantando a cantiga do pirilampo, eu,

Escondida a um canto, não erguia os pés,

Pregados ao chão, de tutu a brilhar

Na sombra lançada pelas cabeças lúgubres

Das minhas madrinhas, e tu a chorar:

E a sombra alongou-se e a luz apagou-se.

Mãe, mandaste-me ter lições de piano

E elogiavas os meus arabescos

Mas os professores achavam-me os dedos

Hirtos como paus apesar das escalas

E das horas passadas a praticar,

E o ouvido embotado, um caso desesperado,

E eu aprendi, oh sim, aprendi, mas noutro lugar,

Com as musas, mãe querida, que não contrataste.

Um dia acordei e ali estavas, mãe,

A pairar no ar do mais puro azul

Num verde balão a luzir com um milhão

De flores e pássaros que nunca existiram

Nunca, nunca, nunca, em nenhum lugar.

Mas o planeta desfez-se no ar,

Bola de sabão, quando tu disseste: Vem cá!

E as companheiras de viagem então enfrentei.

E agora, dia e noite, à cabeceira, ao lado e aos pés,

Montam-me vigília com vestes de pedra,

Os rostos vazios de quando eu nasci.

Sombras alongadas no sol poente

Que nunca se apaga nem nunca se acende.

E é este o reino a que me trouxeste,

Mãe, mãe. Mas em meu semblante nada

Trairá as que me acompanham.

link para o quadro:

http://www.angel-art-house.com/upload/artists/d/de_chirico,_giorgio/dec10.jpg

Traduzindo

Não é apenas a tradução de um poema; é ser tocado por um texto, partir à sua descoberta, à forma como foi construído, inspirado… pintado. É uma simbiose perfeita não só entre um original e a sua tradução mas, mais fundo ainda, entre o tradutor e a alma do poeta, cujo poema é já em si a “tradução” de uma pintura em palavras. Dito de forma mais simples, Ana Maria Chaves, ao traduzir “The Disquieting Muses” de Sylvia Plath, teve de traduzir o quadro do mesmo nome de Chirico, tudo o que esse quadro despertou em Plath e, ainda, a própria Plath.

17º episódio – O BOM LADRÃO – Folhetim em setenta e cinco episódios

Aceitou o convite. Deixei-a na porta do local procurado, um prédio de três andares. Agradecida, cedeu um sorriso que eu fiquei a contemplar, a mão de longos dedos e esmalte vermelho nas unhas segurando a minha, até arrancá-la e entrar no prédio, eu torcendo, um último olhar, mas ela desapareceu no corredor, eu ali estonteado, Carol, deixou o nome no ar, agora diante de mim… Já vou, é só terminar o parágrafo. Mentira. Parágrafo nenhum, ideia nenhuma, nem Carol mais aqui. O menino aguarda um gesto meu, eu fantasma dele, no presente do futuro, muito antes de estar, o pai gesticulando, irritado, pela expressão o menino sabia o pai irado, eu incomodado, fujo amedrontado pela emoção presente e refugio-me na voz de Carol. E se o pai voltasse a ser o mesmo de antes? Era a preocupação. Nunca mais, disse o médico, mas ele sempre presente, aí está toda poética da retomada, esse brincar com o tempo. As cartas sem leitura… O corredor com os fantasmas, a sineta, a louça por lavar, acumulando, Carol… Fantasmas não ficam paraplégicos ou dementes.

A mesa vazia, o pão amanhecido, é só umedecê-lo, o resto fica por conta do micro-ondas, disfarça o envelhecimento, com manteiga fica mais macio, a casa é quase sepulcro, eu quase cadáver, a velha Remington Rand tecla sozinha, as palavras tem vida própria, são polifônicas, permitem meus sopros e ventos, sei disso, você aceitaria um ovo, mas eu estou saturado de comer ovos, sejam fritos ou cozidos… Sou o que está diante de mim – e não sou; ele é o que sou – e não é. Que ruído será esse? É você que me pergunta. A marcha ceifando o assoalho. Corro na intenção de ver e ouvir sua dor. Não me reconhece nem me vê. Tem os olhos na direção da criança de cócoras e assustada no canto, mas há outra criança que ri da desgraça, quer vê-lo longe da casa, mas esse ele também não percebe, ou finge que não, e as duas crianças correm ao percebê-lo caído no chão. Eu nada posso daqui, nem ali poderia fazer alguma coisa, Clara sentada na cadeira, mãos segurando o rosto, o que seria de nós? Carol, que é de você? O jantar na mesa… Os meninos mortos-vivos. O outro de mim na repartição, o ruído da velha Remington Rand vindo do escritório… De quando? Quem? Eu aqui na cozinha, o gato na pia bebericando água na torneira, só ossos, é preciso um de nós sair para comprar ração, senão será mais um cadáver dentro da casa, mais um fantasma, como eu, o cheiro de fezes e urina do animal, a ferrugem na geladeira e no fogão, a porta da cozinha e que dá no quintal, emperrada, mas a jabuticabeira lá onde não mais, carregada, os lábios e língua na vulva de Carol, fruto suculento, fruto perpétuo, só a morte tem direito a uma última degustação, saudade apenas, das pernas, do gozo e das mãos de dedos longos de Carol, os mesmos dedos que retorcidos junto ao desvio dos olhos e aos movimentos do corpo, convulsão tardia disse-me o doutor, precisamos investigar, chegou-se à condenação, seis meses, Carol deixou de ser, foi outra coisa, ficou agressiva no início, depois entrou numa apatia extrema até morrer afogada pela própria secreção. Ficamos, eu e meus outros fantasmas, no aguardo do retorno de Carol, demorou mais, surgiu sem menos, atravessou a porta de madeira maciça, perambula pela casa junto aos meninos, Clara e o pai. Os gatos… Já sento Carol! Por que insiste? Por que insisto? O caldo verde sobre a mesa, ainda quente, o estômago incomodando, embebido em café, álcool e cigarro. Quanto tempo na cozinha? É importante saber? Eu já homem… Clara e Carol.

 

(continua)

As Filhas do Assassino de Randy Susan Meyers (Editorial Bizâncio)

“NÃO FIQUEI SURPREENDIDA quando a mamã me pediu para lhe salvar a vida. Desde a minha primeira semana no infantário, tinha percebido que ela não era o género de mãe que usa colares de macarrão. Basicamente, a mamã considerava-me como uma criada prestável em miniatura.

Vai buscar-me uma Pepsi, Lulu.

Traz-me o leite para os cereais da tua irmã.

Vai à loja comprar-me um maço de Winston.

Até que um dia subiu a parada:

Não deixes o pai entrar em casa.

No mês de Julho em que a nossa família se desintegrou, a minha irmã estava a caminho dos 6 anos e eu estava prestes a fazer 10, o que, aos olhos da minha mãe, eram cerca de 50. O papá não ajudava grande coisa, mesmo antes de se ir embora. Tinha os seus problemas. O meu pai queria coisas que não podia ter e, acima de tudo, desejava ardentemente a minha mãe. Talvez o facto de ter crescido à sombra de Coney Island, o mundo de fantasia de Brooklyn, explicasse a fraqueza dele pela fachada pinup da mamã, mas eu nunca compreendi como era possível ele sentir a falta do resto. A cobertura açucarada dela deve tê-lo impedido de reparar como ela suportava mal qualquer momento que não lhe pertencesse completamente.

As batalhas da mamã e do papá eram o pulsar da nossa casa. Mas ainda assim, até ao dia em que a minha mãe o pôs na rua, o meu pai era o exemplo acabado da esperança contra a experiência. Regressava do trabalho todas as noites à espera do jantar, de um beijo de boas-vindas, de uma cerveja fresca, mas a mamã considerava o seu regresso a casa como o sinal para começar a rabujar contra a vida.

— Quantas horas por dia achas que consigo passar sozinha com elas, Joey? — perguntara a mamã poucos dias antes de ele sair de casa. Apontara para a minha irmã e para mim a jogar Serpentes e Escadas

na minúscula mesa de fórmica entalada no canto da reduzida cozinha. Éramos as meninas mais bem-comportadas de Brooklyn, meninas que sabiam que desobedecer à mamã valia uma palmada brusca e horas passadas a olhar para os dedos dos pés.

— Sozinha? — Os lábios do papá exalavam cerveja. — Poramor de Deus, passas metade do dia na cavaqueira com a Teenie e a outra metade a pintar as unhas. Sabes que temos um fogão? Com botões e tudo o mais? Teenie, a amiga da mamã vivia em baixo, no primeiro andar, com cinco filhos e um marido demoníaco, cuja cabeça gigante parecia uma bigorna. O apartamento de Teenie cheirava a lixívia e a roupa acabada de engomar. Engomar era o Valium de Teenie. As explosões do marido deixavam-na tão ansiosa que implorava à mamã que a deixasse passar a ferro a roupa amarrotada da nossa família. Graças ao marido de Teenie, dormíamos em lençóis impecavelmente engomados e em fronhas suaves como cetim.

Eu sonhava com a libertação da minha pretensa família, convencida de que era a filha secreta do nosso formoso Mayor, John V. Lindsay, que parecia tão esperto, e da sua doce e requintada mulher, que eu sabia ser o género de mãe que me compraria livros, em vez de Barbies falsas de má qualidade da secção de brinquedos assucatados da Woolworth. A família Lindsay pusera-me naquele apartamento feio, com a

tinta a estalar e pais de terceira categoria, para testar a minha virtude, e eu não iria desiludi-los. Mesmo quando a mamã me gritava na cara, eu mantinha a voz regulada num tom destinado a agradar a Mrs. Lindsay.

Naquela tarde, a mamã mandou-nos dormir uma sesta. O pequeno quarto do tamanho de um caixão que Merry e eu partilhávamos estava quente, quente, quente. O único alívio era quando a mamã nos esfregava o peito e os braços encardidos com uma toalha de rosto que ensopava em álcool e água fria. Deitada no calor da tarde, esperando impacientemente a chegada do meu aniversário, no dia seguinte, rezei para que a mamã tivesse comprado o conjunto de química que durante todo o mês eu dera a entender que queria. No ano anterior, pedira uma enciclopédia britânica e recebera uma boneca que chorava. Nunca desejara ter uma boneca e, mesmo que tivesse desejado, quem queria uma boneca que nos fazia chichi em cima?

Esperei que a disposição recentemente melhorada da mamã pudesse jogar a meu favor. Desde que pusera o papá na rua, já quase não gritava connosco. Quase não dava pela nossa existência. Quando lhe recordava de que eram horas de jantar, levantava os olhos da revista de cinema e dizia:

— Tirem dinheiro da minha carteira e vão ao Harry’s. Nós percorríamos três quarteirões até à cafetaria Harry’s e pedíamos sanduíches de atum e batidos, de baunilha para Merry e de chocolate para mim. Normalmente eu terminava primeiro, enrolava as pernas à volta do suporte cromado frio que sustentava o banco de couro, e girava com impaciência enquanto esperava. Merry dava pequenos tragos no batido e minúsculas dentadinhas na sanduíche. Eu gritava-lhe que se despachasse, imitando a avó Zelda, a mãe do papá.”

Ficha Técnica:

Autor: Randy Susan Meyers

Título: As Filhas do Assassino 

Título original: The Murderer’s Daughters

© Randy Susan Meyers, 2009, publicado originalmente por St. Martin’s Press

1.ª edição: Junho de 2010

Tradução: Cláudia Brito

Revisão: Sandra Pereira

Capa: Editorial Bizâncio sobre fotografia de Svetlana Bekyarova

Composição e paginação: Editorial Bizâncio

Impressão e acabamento: Rolo e Filhos II, S. A. — Indústrias Gráficas

Depósito legal n.º 312 446/10

ISBN: 978-972-53-0457-0

16º episódio – O BOM LADRÃO – Folhetim em setenta e cinco episódios

Então ele em casa, nós diante de um corpo desprovido, mutilado, que carece de movimento, sem possibilidade de sermos alcançados e repreendidos. Não tem como reagir, o que nos agrada. Mas você abusa. Estivesse ao alcance dele… Sempre fui eu o castigado. Você é esse meu lado invisível, que age no encanto, no feitiço. Agora ele não passa de um nome fraturado, lasca do que era; inútil. Rosto torto e uma metade paralisada. Permanece o dia todo em casa… Dependente em tudo, a mãe cuidando. Lá vem ela, trazendo a sopa ainda quente. Ajeita a cabeça dele em seu peito. A colher na pausa e no sopro dos lábios para esfriar. Metade do conteúdo vaza pelo lado paralisado. Irritado, ele agita o braço e derruba a sopa, faz maior a sujeira, a mãe repousa o prato no móvel, limpa calmamente o pescoço e o peito do marido. Você olhando, curioso, eu evito a cena, a mãe nos descobrindo próximos, devia saber desse outro de mim, mais levado e capeta. Vai, vai fazer alguma coisa! Não diria nunca vão fazer alguma coisa, mesmo sabendo de mais um na mesma carcaça. Corremos pelo longo corredor de pé direito alto. Ainda nenhum fantasma visível. O sino já na porta. A rua de terra batida. A mãe nos esqueceu. Passamos o dia todo na rua sem ver seu avental. Duas olheiras achegaram-se ao redor de seus olhos. Duas jabuticabas chupadas lentamente pelo velho que morria aos goles e tentava levá-la junto. Do quarto, quando tudo na casa dorme: soluços. Ainda ouço os ruídos tristes vindos de lá. Você não vem jantar? Na porta do escritório, Carol. Não mais a porta da cozinha com Clara. Nem Carol… De repente, lembranças. Do dia em que ouvi Clara dizer ao pai de seu receio quanto ao destino do filho, das preocupações que tinha pelo meu jeito quieto de ser, muito parecido ao comportamento do irmão que deu cabo da própria vida e que eu não conheci, preocupação que nunca a deixou, muito mais tarde, diante da morte dela, o pedido para que eu procurasse ajuda, ironizei seu medo, a morte estava diante de nós, não me preocupava com ela, mas com o modo que ela me pegaria, se fosse para sofrer apressaria o final, disse-lhe, e ela calou de vez em meu colo, deixou comigo a expressão que fazia quando me flagrava falando sozinho, preocupação inútil que carregava, suicídio fazia parte de meus propósitos quando no surto, o que me apavora até hoje, mas não seria capaz, há algo em mim que apesar de não pertencer a nenhuma tribo ou clã prende-me a um território muito pessoal, caótico e imaginário, não possuo raízes além das plantadas nesta casa centenária, cartografia do abismo, não acredito em cura psicanalítica quando as referências se perderam, não faço parte desse exército de burocratas e intelectuais que se voltam para o trabalho em casa e para os esportes, cozinham e cuidam do jardim, jogam tênis e vôlei de praia, como se agindo ao modo tocassem alguma existência, mas ela abandonada em alguma dobra da história, meu território pertence às palavras, a suas ligações e afetos, e que me arrastam com suas máscaras e simulacros, seus cantos, danças e rituais; quando morrer será delas a existência. Mas qual o motivo de tanta fuga e racionalização? Pensava no encontro com Carol… Ela diante de mim, pornográfica, me fez descobrir a poesia no que virgem e selvagem, nas umidades e nos ruídos provocados pelo atrito, separar sensualidade da pornografia é obra de quem mergulhado em excesso de culpa, nesse coletivo cuja subjetividade é substituir árvores por prédios, cobrir a terra com asfalto, isto sim é pornográfico, matar a natureza… Seria negar a paixão pela mãe? A natureza é feminina, mesmo nas tempestades. Mas Carol não precisa matar ninguém. É livre e sem culpas. Olá, você sabe onde fica… Sábado, eu sozinho, Ipiranga com São João. Se permitir, posso levá-la, é meu caminho.

 

(continua)

“Cidades Crónicas”: um arquivo da rede.

Já não me lembro como começou, nem sei por que terá acabado. Há muito que desejava falar neste caso, mas o pudor sacudia-me sempre o gesto. Com inusitada força. Tudo porque também andei envolvido, de corpo inteiro, na saga. Teve vida curta, apenas de Fevereiro de 2006 a Abril 2007. Milton Ribeiro, da sua Porto Alegre gaúcha, foi o mestre de cerimónias e o grande inspirador. Foi ele que alimentou a parada, ao longo dos catorze e densos meses de vida do projecto. A ideia era simples: cada escritor falava de uma cidade. A 28 de Fevereiro, foi Nelson Sáute, olha quem, que deu o tiro de partida. Assim – “ Eu estava ali na esquina entre as avenidas Eduardo Mondlane e Amílcar Cabral, no coração de Maputo, alheio ao tumulto do trânsito, àquela hora da tarde, engraxando meus sapatos…”. O site chamava-se, muito denotativamente, “Cidades Crónicas” (http://www.verbeat.org/blogs/cidadescronicas/) e é um desses arquivos da rede que vale a pena percorrer. Colocando-me de lado no rol – se quiserem ver tudo, vão ao site que continua fresquinho e online! –, eis os participantes: Milton Ribeiro, Porto Alegre / Brasil; Nelson Saúte, Maputo / Moçambique; Fal Vitiello Azevedo, São Paulo / Brasil; Claudia Letti, Rio de Janeiro / Brasil; Fernando Monteiro, Recife / Brasil, Luís Graça, Lisboa / Portugal e Manuel Jorge Marmelo, Porto / Portugal. A instantaneidade e a obsessiva actualização são apenas uma parte da rede. Com o passar dos anos, serão os arquivos a brindar ao gosto, à saúde e – há-de acontecer em muitos casos – ao mercado. Não acreditam?

LC

14º episódio – O BOM LADRÃO – Folhetim em setenta e cinco episódios

Capítulo II: Pornografia poética

Tarde. Bagas comestíveis. O fruto suculento e negro. Indeiscente necessita do toque delicado dos dentes para expelir o caldo fresco e doce. Mordiscar os seios de Carol… Não tão distante, o medo de a prima tratar do mesmo modo a glande. Na boca de criança sensualidade é princípio sem contaminações, sabor puro, sem ruídos externos. Fruto vazio de gravidez é casca no chão; tapete negro escorregadio. Prenhe, atapeta o tronco. Clarabóias negras. Ao adulto, sensual será o parágrafo com sabor de enquadramento Aleksandr Sokúrov. Atmosfera de raízes aquáticas. Escorregadias. Mas palavras diurnas são cascas ressequidas, sem caldo. Necessárias as noturnas. Paridas em pouca luz e no desvario. Desnudas. Sem as roupagens do hábito. Sem hálito. Eu sentado na mureta. E ao mesmo tempo aqui, no escritório. O dedo no pó que se acumula. Distração necessária à (des)memória. Estranhezas resenhadas sobre o móvel. Vento, redemoinho, movimento. Muito distante… A névoa arrasta nuvens. Escurece. Surgem do fundo os primeiros raios. De alguma dobra imagens que pensei soterradas. Vamos, entre! A mãe saindo pela porta da cozinha, moça, o avental onde esfrega as mãos, o olhar na tempestade próxima, você ao meu lado desafiando a natureza, debaixo da árvore, comendo jabuticaba, mas sou eu quem responde, um Já vou! assim no singular, ninguém imagina esse duplo que fica bravo quando decido pelos dois, mas eu também deslumbrado com a natureza irada, mas puxando-o na direção da varanda, não gosto de contrariá-la, é a única em casa a nos acudir, e você resistindo até a luz mais forte riscar o céu e cair do outro lado da cerca desmascarando a fragilidade de sua valentia, você em disparada correria na direção da casa, caímos molhados no assoalho frio, a orelha ardendo nos dedos da mãe, carregados até o quarto, ela sem dizer nada, nem precisava, o ruído de travamento da chave, ficamos de castigo no quarto, reclusos, com o som graúdo da água desabando no telhado, tardes crepusculares que me carregam de estranhezas, rachaduras e fissuras que me calam, mas você me tortura com suas propostas de fuga, coloca-me diante da janela, a natureza anoitecendo antes da hora, meu queixo no parapeito, de quando o vidro baço?, poesia de Fernando Pessoa, algo a ver com a morte da irmã, o dedo abrindo um vão no obstáculo, tarde enlutada, estou vendo vocês ainda garotos, a mãe na cozinha lavando louça, nas vazantes da culpa, não sabe castigar, está atenta aos ruídos que poderiam escapulir pelo vão da porta e que flagrasse algum som que denotasse arrependimento, mas o que ouve são os vazios da mudez, então retira o avental, enxuga as mãos nele, joga-o sobre a pia e atira-se no corredor.

 

(continua)

Metrofobia

Amigo disse-me que existia e era verdade. Eu fui ao Houaiss e procurei – nada. Eu fui à world wide web e procurei – nada. Eu fui à wikipédia e procurei – lá estava.

Diga-se no entanto que a wikipédia é tão fiável como o Fábio Coentrão a jogar a defesa esquerdo contra o Messi – não é. Mas na listagem enorme de fobias, lá estava: a metrofobia.

Há muitas fobias, há até a fobia de ter fobias. Há a fobia da estupidez e a fobia do pensar – devem estar de algum modo ligadas, imagino. Coíbo-me de colocar aqui mais exemplos, a world wide web tem esta coisa maravilhosa de estar à mão de semear, queira esta expressão dizer o que quiser.

Mas deixo-me contaminar pela internet e confio: metrofobia existe e diz-se como a fobia ou o ódio à poesia. Espantados? Eu também fiquei.

Quem será aquele que tem fobia da poesia? Imagino alguém com fobia de muita coisa, mas de poesia? Que raio de importância lhe dão para que mereça ter um termo que a define pelos que a detestam? Dão-lhe muita, só eu não a percebo. A poesia? Às vezes. Mas neste caso queria dizer a importância.

Metrofobia é por isso odiar poesia. É ter urticária quando se pensa num recital (concedo que às vezes, dada a qualidade de tantos, também tenho). É sentir as borboletas a navegarem no estômago quando vemos a lombada do “Um Toldo Vermelho” (ok, mau exemplo, há gente que sente essa ansiedade com esse título e até adora a poesia). É imaginar versos – frases que não acabam a folha, para dizer de como os defini num conto para crianças – e ter pesadelos com eles (também é um facto que há muitos versos que só por existirem nos deixam a pesadelar, e nós amamos todos poesia). Metrofobia é “querer ser mais alto / querer ser maior do que os homens” colocando a poesia a rastejar como fobia específica, das serpentes e cobras (que se chama ofidiofobia ou ofiofobia, já agora). Metrofobia é uma ofidiofobia disfarçada de palavras, no fundo.

Eu não tenho metrofobia. Embora possam crer que depois do tanto que li para excluir tanta coisa de uma antologia que co-organizei tenha desenvolvido uma metrofobia selectiva – só para a má poesia. Algo como uma “metrofobia do péssimo” para usar um termo que poderia pertencer a Deleuze. Sou, antes, um metrofílico, isso sim. Tenho uma metrofilia aguda, o que já me faz crescer em mim uma ablepsifobia que me vem assustando. Mas antes isso do que ser hesacosioihontahexafóbico – com este diagnóstico nunca teria lido o grande êxito de Bolaño.

Ah! Já me esquecia: um abraço para o Diogo, que sei ser algo logofóbico no que aos meus textos diz respeito mas que pode descansar: considero muito todos os metrofílicos – como ele.

12º episódio – O BOM LADRÃO – Folhetim em setenta e cinco episódios

A calcinha da mãe no varal! Não responderei a suas provocações, e saia daí, vamos acordar a moça. Você quer dizer salvar o texto… Não, cara! Que Totem?! Ato falho… Que texto?! Vamos recolher os fragmentos que permanecem vivos dentro de nós, como os fantasmas que habitam a casa e que se repetem em outros lábios, outras panturrilhas… E não estamos no escritório, mas no quarto vagabundo de um hotel de terceira, próximo da repartição, hoje é feriado, o marido dela está internado, vai amputar uma perna, o cacete já perdido pela doença, ela nem aí, é o que parece, mas deve estar cansada de sofrer, o sujeito quando impotente agride a mulher, chama-a de puta, vadia, ela acaba aceitando o papel, como se dissesse Agora pode ofender que é verdade, sou puta sim, dou para quem bem entendo, poderia escolher qualquer um, e nós somos esse qualquer um escolhido, ela sabe de nossa falta de apego às pessoas, cansados de perder, ainda bem sem filhos, melhor acordá-la, não tenho coragem, o cara pode estar morto sobre uma maca no hospital, eu a excitá-la, o que o velho fazia com a garota, trinta anos mais jovem, ele de cueca samba-canção e meia soquete no lombo da jovem, a fungar como um cão preso na cadela, e não tinha nada a dar à moça a não ser jóias e dinheiro, ela não tinha cara de quem se conformava com gestos fraternos ou filantrópicos, a mãe nas costuras e nas sombras, pespontando a tristeza… E lá vinha a lebreia enfurnando tudo em seu ventre. Nós na janela apanhando nuvens, a luz vinda do fundo, de alguma dobra da memória… E os pássaros com seus três cantos, delimitando território, sem esperanças de novas cartografias, novas harmonias, contrapontos e polifonias. De quem falo? Você tem razão, sempre teve razão, sou o idiota que acredita ser possível alguma consistência e persistência além das tatuagens desenhadas na pele. Quantos desses jovens que se repetem na impotência chegariam até aqui? Nada é pré-verbal neles, apenas estrutura da linguagem dos pássaros… E o velho sabia de meu fracasso capitalista. Quem vai ler essas porcarias! Hoje sei que ninguém… O que deseja com isso? Acha que conseguirá ressuscitar os terreiros e a invenção da roda? Não respondi ao editor, você rindo me dizendo que li demais Guattari, Deleuze e Derridá… Verdade! Tudo inputs e outputs… Simples como a mulher adormecida no leito de um hotel vagabundo, sozinha, como a “A criação do mundo” de Courbet, figura feminina que um bom observador quer se misturar, recriar, e não apenas identificar a repetição, há cheiro e suor, vísceras, nessa pintura, assim gostaria as inclinações e associações das palavras, como ímã, mas o tempo humano avança no reducionismo, e logo ela se levantará, irá ao banheiro, no banho lavará a vulva até o desaparecimento do último indício de algum gozo, não se lembrará mais do homem que a penetrou até o grito, a não ser em alguma conversa com amigas quando o assunto será o tamanho do órgão do cara, alguma frase de efeito que ouviu, e ninguém mais no quarto, a janela aberta à rua, aos ruídos de carros, o prédio em estilo gótico, a mulher entrando na enfermaria, você ao meu lado sem dizer nada, sempre estranhou esse meu lado literário, mas ela diante do marido, cor de palha, dizem ser a cor dos diabéticos com os rins perdidos, pensa que poderia ter morrido, seria mais justo, mas não, o sujeito ali deitado, Onde você estava? Como se desconfiasse, mas ela foi dizendo O trânsito, você sabe… Dói?

 

(continua)

9º episódio – O BOM LADRÃO – Folhetim em setenta e cinco episódios

Adorávamos brincar com o figo e a manga-rosa. Viemos da mãe dos homens, modo de dizer de Da Graça, expulsos pelo furor uterino. A empregada sabia da malícia carregada pela metáfora. Flagrada nua por diversas vezes. Pelos negros em abundância, os seios em rigidez militar, o bico emergente como um pêssego. Quando nos via, escondia tudo com os braços. Adorava aquele Seus safados! que nos dirigia, desejosa. Você assustado com a floresta. E você tirando sarro de minha reação. Ela sabia sendo espiada. Conhecia esse duplo voyeur. Fugíamos para o quintal, atrás da mangueira, um dia descobrimos não precisar dos frutos, era só massagear, lentamente, depois bem rápido, para cuspir o líquido esbranquiçado e sentir aquela coisa prazerosa e inexplicável no corpo. Veja! O clitóris está durinho, baba secreção pela vagina. E o cheiro de cio. A bandida não está satisfeita, quer mais, e dorme, e geme, goza dormindo, sinta o enrijecimento na ponta da língua, vamos devagar, acariciar com a glande, veja só, dormindo ela se agita, deve sonhar com Tom Cruise, ela sempre fala no ator, impressionou-a De olhos bem fechados, do Kubrick, deseja participar de uma orgia, não sabe estarmos os dois aqui, o marido é um sujeito bonachão, vai buscá-la na repartição quase todos os dias, ela diz que tem bom coração, mas foi castrado pela doença, é diabético, foi o que nos disse, você viu o jeito dela pegar na pica, com três dedos, delicadamente, como se tivesse diante de algo muito sensível, uma imagem sacra, acariciando-o, olhar fixo, os lábios em movimento contínuo de quem quer lamber e morder o fruto, depois mordiscar o bico do seio, é uma cobra, a língua úmida, bruxuleante, o cacete como chupeta, e ela pedia calma, você viu, eu levando meu olhar para a janela, deixando entrar o barulho das ruas para não gozar em sua boca, apelei até para a imagem macilenta e mal humorada do pai, mas a vontade era muita, o pensamento no vírus, na possibilidade de transmitir-lhe a doença, desacelerou um pouco, não seria justo, parecia que a víbora sabia, virou de barriga para cima e abriu as pernas, pediu que eu lambesse sua vulva e gozou alto, mas não parou aí, pediu que a penetrasse, entrei firme, decidido, já quase gozando ela pedia para ir devagar, Há tempo, dizia gemente, o sangue na minha cabeça, o saco começava a dar sinais de orgasmo próximo, ela mordiscando meu bico de seio. Vamos de cachorrinho… Mudou de posição, veio por cima, veja como enfia os dedos no próprio rabo e goza mais uma vez antes de enfiar meu pau em sua boca, segurando minhas bolas com as mãos e me levando às nuvens. Por que repetir se você assistiu de camarote? Quem foi você na nossa vida? Ela dorme… Amanhã será a funcionária pública vergonhosa de sempre, que fica vermelha quando é assediada ou ouve uma piada picante. O que a timidez esconde é um vulcão próximo da erupção. Quem poderia imaginar? Tom Cruise não daria conta… Para mim o depois é pesadelo, fumaça negra, fuligem, morte. A falta que me faz Carol, com ela corria com muito calor e rapidez, era atrito mesmo, paixão… Não precisa me dizer. Não quero ninguém abaixo dos quarenta, mesmo com você me dizendo que paixão é para os iniciantes, não acredito nisso, Carol provou isso, é o cheiro, depois dela passei a observar mais as mulheres acima dos quarenta, a maioria separada e perdida, mergulhada em cheiros artificiais, você não sente o cheiro das glândulas, já tivemos experiência com viúvas lutando pela sobrevivência, com malhadoras com pernas bem torneadas, coxas suculentas e usando minissaia, com presbiterianas, testemunhas de Jeová e até freira… As lésbicas são as mais bem resolvidas! Acho que há diferença entre elas e os gays. Tio Anastácio… Lembra-se? O velho implicava com a presença dele em casa. É ruim para o menino, dizia à mãe, quando nos imaginava dormindo. Não entendia o porquê, tio Anastácio foi quem nos ensinou a respeitar o outro… Mas ele mesmo sempre carente de aceitação e carinho. Fazia de tudo para chamar a atenção das pessoas.

 

(continua)

Traduzindo I

Parto das palavras de Luís Carmelo, “A literatura é um rio…”, e pergunto: a tradução será um dos seus principais afluentes ou um rio paralelo que transporta o mesmo caudal de continente para continente? Tudo o que a literatura nos dá a tradução dá aos que não a recebem na língua em que nasce. O afluente alimenta o rio, mas perde-se nele. Na foz, não se sabe que parte daquela água veio do afluente. Mas Camões, Eça, Fernando Pessoa, Saramago chegaram a todo o mundo, atravessando mais do que rios – oceanos!

Com os sonhos, acontece o mesmo. Não têm limites, levam-nos a recantos desconhecidos, a paisagens inexistentes, a dimensões insondáveis.

Traduzindo… é um sonho, um desejo e agora uma realidade. É um espaço que pretende pôr tradutores literários, escritores, alunos de tradução, revisores, etc. a conversarem, a pensarem em conjunto, a interagirem, a concordarem e a discordarem, a encontrarem-se virtualmente, a serem uma comunidade.

Todos os contributos são bem-vindos. O endereço pnet.traducao@gmail.com está à vossa (nossa) espera!

A estreia é com “The Applicant” de Sylvia Plath, cuja tradução Ana Maria Chaves aqui deixa.

Maria do Carmo Figueira

7º episódio – O BOM LADRÃO – Folhetim em setenta e cinco episódios

Capítulo I: Mofo Uterino

O pelo rapado. Apenas uma faixa cuidadosamente aparada. Uma delicada borboleta tatuada à direita de quem olha. O sexo identificando a tribo. Mas os temperos que atraem estão além do visual. Atingem o nariz. Cheiro que atrai a língua para seu sexo, alquimia de glândulas que deve atrair o parceiro ideal. Em algum lugar próximo, cães uivam a perda da fêmea. Haverá um casal emparelhado no meio da rua para graça das crianças e chacota dos adultos. Mas foi o cheiro que os fez acasalar. Aqui já não há rivalidade, sou o escolhido neste quarto de janela aberta e sem cortina, ouvindo os sons retorcidos das vísceras da mulher, encaracolando com o dedo indicador os poucos pelos restantes em sua vulva, observando a borboleta aprisionada na pele. Impedida de revoar. Assim foi com a mulher, tatuada nos afazeres domésticos, calada de gozo, metaforizando orgasmo em guloseimas coloridas e saborosas. Onde está você? Que é dele, do duplo? Devia saber… Esse lado voyeur. Sempre devo procurar o imponderável em você. Sobre a luminária… Ver o mundo de cima. Houve alguma coisa? Nada, relaxe, continue a cochilar, é minha mania de falar sozinho. (entre tantas que surgiram depois da morte de Carol). Os pelos encaracolados e alourados, mas Carol não os aparava. A maioria dos homens gosta de mulheres peludas na vulva, quem gosta ao contrário, ao modo infantil, são as mulheres e alguns homens que sentem atração por crianças. Foi bom você convidá-la… Não é de falar muito, detesto mulheres que não param de tagarelar durante o sexo. Bem, você sabe bem disso, não escolheria outro tipo. E já vinha te assediando a tempo. Enquanto atendia o público ficava balançando o traseiro avantajado. Casada. Soubesse portador do vírus maldito… Não queria que usasse preservativo, convenci-a do contrário. Você percebeu o seio? Manga-rosa. E a vulva? Um figo. Modo desusado, ver do alto. Como se no teto houvesse um espelho. Ou será um espelho? Mas o outro de mim não me repete nos gestos, apenas me faz relembrar o passado, sem ele seria um sujeito sem ontem, esse registro que foge de mim como um animal assustado, rabo entre as patas traseiras, ladrando. As mulheres deixaram de ser interessantes… Para você, não para mim! Para o voyeur o mundo perdeu a graça, tudo agora é exposto, não sobrou nada a não ser espiar a vida privada.

 

(continua)