Uma viagem à Índia – 5

Uma vista de olhos sobre a ética de  Bloom 

“A amizade e a paz são momentos intermédios que no fundo aguardam a paz.”

Canto I, 48

“As vidas dos outros não nos comovem[pensa Bloom]. A tua vida é apenas uma equação que não consigo resolver porque não te amo. E também o oposto: não consigo resolver a tua equação porque não te odeio.”

Canto I, 54

“[…]o bom descanso pertence a um estado volátil, mas a qualidade do sono é que decidirá.”

Canto I, 55

“Conhecem-se homens pelo que lêem, mas não só. Como matam – que armas usam – e como se apaixonam – que palavras utilizam nas declarações de amor. Ah, e ainda um pormenor: de quem tens medo? E que nome dás à coisa grande que do céu nunca chega a vir porque prefere manter-se assim, possibilidade? Se decifrares o último barulho que um moribundo faz, descobrirás a sua religião, eis uma certeza.”

Canto I, 63

“Não deixes que a tua cadeira confortável prejudique a tua curiosidade.”

Canto, 70

“[…]o que é um povo senão o que come?

Canto I, 79

“[…] um assassino premeditado e bem-sucedido tem um sistema mental semelhante ao utilizado por um empresário de sucesso: ambos são meticulosos inventores do futuro.”

Canto I, 82

“Na vida a que chamamos inexplicavelmente real, o somatório de duas coisas iguais é normalmente uma subtracção.”

Canto I, 97

Susana Leite

II – Momentos de glória

Acumulou funções num clube de futebol: presidente, treinador e jogador.

Jogou quatro anos como avançado centro sem uma única lesão e com uma estatística admirável: nenhum golo e sete bolas ao ferro. Ergueram-lhe uma estátua, participou nos noticiários e nos programas de celebridades, escreveu um livro.

Era um intrigante caso de sucesso, aquele de alguém que levara um clube a descer três vezes de divisão.

Paulo Tavares

A última mulher

Ela sentia tanto pudor que evitava despir-se na sua presença. Um pudor desmedido, observou ele. Um pudor que ocultava, podia se dizer, algum mistério. Por fim lhe deu as costas, tirou a blusa e se voltou mostrando-lhe os seios pontiagudos, ainda que cruzando os braços na altura do abdômen. “Está vendo?”, disse sem olhá-lo. “Nenhum homem viu isto antes”, e lhe mostrou em seguida seu assombroso corpo sem umbigo.

“Quando nasci – contou – não foi necessário cortar o cordão umbilical. Puxaram por ele e meu umbigo limpo e inteiro foi arrancado do ventre. Meu pai me chamou Eva, como a primeira mulher que, ao nascer da costela de Adão, também carecia de umbigo. Minha mãe se assustou e, num ataque de superstição, exclamou que se a primeira mulher nascera sem umbigo, agora eu podia muito bem ser a última.  Os médicos riram muito, e até que na ala oposta não nascesse a menina seguinte, uma incerteza – não sei se exagerada, reinou naquele hospital.”

Ele escutou seu relato em silêncio e riu das mesma forma que os médicos. Depois percorreu com a língua o ventre liso e amou-a como se realmente fosse a última mulher na terra.

Do livro “La vida imposible” (editado por Emecé España y Emecé Argentina en 2002), de Eduardo Berti.

Tradução de Patrícia Melo

Patrícia Melo

Maria Sofia Magalhães: O “equilíbrio entre o real e o sonhado”

(Editora: edita-Me, Editora, Lda.)

1.       No mundo tecnológico e instantanista em que vivemos, crê que a literatura, tal como a aprendemos a significar pelo menos desde o Iluminismo, ainda tem sentido?

R.      Apesar do imediatismo e da tecnologia do instante, a literatura continua a fazer sentido no equilíbrio entre o real e o sonhado, no retrato do que há para além do segundo, como espaço de reflexão e depuração do reflexo no sentir do que se vive.

2.       Qual foi o último acontecimento literário, independentemente da sua natureza, que mais lhe tocou? Porquê?

R.      A doação do espólio de Sophia de Mello Breyner à Biblioteca Nacional, porque a hipótese de poder apreciar, estudar, admirar, entender, a evolução e a criação poética de Sophia é, para mim e penso que para muitos, de um inegável interesse e funda emoção.

3.       Fale-nos resumidamente do seu último livro, como se estivesse a revê-lo em voz alta para um grupo de amigos.

R.      Ciclo da Pedra é um livro que percorre um caminho irregular, pedregoso, útil e por vezes frustrante, de renovação de linguagem, de experimentação de estilos mas, e sobretudo, de dissecação crua de vários fragmentos de uma mistura entre o que sou, o que queria ser e o que aprendi que deveria ser.

4.       Pensa que a literatura e a rede poderão vir a ter, de algum modo, um destino comum?

R.      Sendo a literatura uma forma de comunicar e a rede a ampliação e a aceleração constante da velocidade da comunicação, já têm um destino comum.

5.       Refira dois autores e duas obras que o tenham marcado na sua carreira.

R.      Não me parece que eu tenha qualquer coisa minimamente aproximada do que se pode chamar carreira literária. Por outro lado, são muitos os autores e muitas as obras que me marcaram. Posso, no entanto, referir Sophia de Mello Breyner e Contos Exemplares, John Steinbeck e A Um Deus Desconhecido, como dois autores e duas obras que foram muito importantes para a minha forma de olhar a vida.

Apólogo

Era uma vez um livro insubmisso.

Começou a passar palavra.

O número de livros insubmissos não tardou a aumentar. Um deles, editado na quadra natalícia, lembrou-se de impedir a presença do Pai Natal nas suas ilustrações. A atitude, considerada intolerante, vedou-lhe a possibilidade de qualquer resenha nas páginas culturais de jornais e revistas.

A vozearia tornou-se insuportável. Os livros saíram à rua, dirigiram-se para as grandes superfícies. Derrubaram expositores, escaparates, prateleiras. Alguns sabiam explicar bem as razões da insubmissão. Outros menos. O tempo foi passando. Pontuado por tumultos.

Acabaram todos guilhotinados (coisa que, dizem, já só pode acontecer aos livros), acusados de terroristas e inimigos da democracia.

João Pedro Mésseder

41º Episódio – Folhetim (II sequência de novelas) – O MÊNSTRUO MÁGICO DAS ORQUÍDEAS GRÁVIDAS – Folhetim em Setenta Episódios por Carlos Pessoa Rosa

E na casa nunca me senti só como agora ao ver essas crianças, empilhamentos de ossos, brincarem em águas empoçadas e fétidas, corpos com suas úlceras pútridas nas calçadas aguardando um trocado ou o camburão do IML, jovens aspirando droga, só eu atento, tudo em branco e preto, o que atenua um pouco a dor, o líquido que escorre das feridas não é vermelho, mas preto, e as pessoas passam desinteressadas no que enxergo e continuam seus pesadelos, só eu fora, diante de mim um exército de cegos funcionais. Na casa, sem os remédios, reencontrarei meus parceiros, o outro de mim, a velha Remington Rand, quem escreve é sempre o outro, escrever é agora o interminável, o incessante, Blanchot, não esqueço nem na insanidade, é o outro de mim com suas mensagens sutis, as intermináveis cartas enviadas aos amigos, não há leitor nessa massa amorfa e repetitiva, não, na casa não me sinto só, desejo a solidão da casa, a ameaça do fascínio, a imprudência dos delírios, onde bastam alguns passos para sair do quarto, outros tantos para sair da vida… Dentro de casa permito-me fora, fora de casa não me permitem nada, nem esperança. O parque… Pássaros e gatos… Não lugar sem intimidade, sem interior oculto, impossibilidade de dizer Eu, sem literatura… O que vou ter depois da morte? Além do nome na lápide, nada! Samael… Anunciar a morte no nome e na linguagem.

Melhor seguir, antes que percebam que carrego algum valor. Os escritórios do departamento de água e luz ficam próximos. Viveria sem luz, mas não sem água. Insuportável a ideia de morrer sedento; ou afogado. O excesso e a falta de água sempre me assustaram, nunca desejei ser uma escultura ressequida, muito menos uma forma amorfa. E o que fui ou sou? Não muito para uma vida. Sempre apoiado num túmulo… Estes escritórios são tumulares. A jovem me atende segundo um protocolo de perguntas, preencho um vasto questionário, pago a conta e a taxa para religarem a luz, agenda a visita do técnico para o outro dia, não consigo convencê-la a enviar alguém ainda hoje, não foi muito com a minha cara, não pintou a química do cheiro, saio e atravesso a rua na faixa de pedestres, motivo de descrição barroca para um autor como Saramago, prefiro o tiro certeiro de Lobo Antunes, de Al Berto, desta vez o protocolo usado pelo funcionário é mais simples, também o questionário. Arrisco perguntar se ligariam a água ainda hoje. O senhor acredita em milagres? Entendi… Amanhã, talvez. Saio e acendo um cigarro. Sempre trago como se fosse uma última vez. Quando nem mais a morte, o prazer não fará sentido. Saídas técnicas sempre me cansaram. Estéreis. Pessoas com o mesmo semblante, a mesma respiração, as mesmas opiniões, caminhar no mesmo, na repetitiva programação da TV… Assim o tempo não passa, afugentar possibilidade de envelhecer. Preencher com vazios a angústia e a incerteza provocadas pelo caos. Não quero escrever sobre os conflitos ou violência urbanos, desejo ouvir os pensamentos dos caracóis. Não me apetecem as algemas do esperado nem a experiência do pronto. Não quero botões nem zíperes, talvez encontre outro modo de fechar a pele ao vento. O dia em que levar uma mulher ao gozo com única palavra não haverá mais guerras. Impossibilidade ao alcance da linguagem. Mas antes preciso suspender os remédios. Estrategicamente, necessito de alguns meses… Talvez dias sejam suficientes. Retornar ao não tão claro, ao nublado da estranheza, de viver com a possibilidade da peste, quando falamos nós nos apoiamos num túmulo, e esse vazio do túmulo é o que faz a verdade da linguagem, mas ao mesmo tempo o vazio é realidade e a morte se faz. Dar nome às coisas é um gesto de negação da morte. Não exijam de mim o nome da fonte, os textos como referências são meus cacoetes, a manifestação de meu TOC, depois de morta a autoria a obra adquire vida, cada pensamento, cada ideia, cada frase, tem nome próprio, como meu nome Samael, anjo da morte, linguagem a anunciar a morte, fruto da castração imagética, mas resistência ao assassinato em série e à redundância, da água-esgoto sempre a mesma, da fuga no pó branco, do calor provocado por engenhocas capitalistas.

 

Capítulo VII: Sem Diarreia Intectualista

A barriga ronca… Dentro de mim há vazios e vazantes, movimentos, sons e ideias que ignoro, dizem um arquivo, simulacro do compartilhado desde a origem, traços delirantes, hélices helicoidais das manifestações e sonhos, cada um tem a chave de um mistério que o faria diverso e disperso do coletivo, mas o homem como figuras russas, filhotes de cavalo-marinho, agarrados em único eixo, único espaço, como se o mundo fosse apenas o esqueleto do que visível, e o homem coloca lentes no espaço para melhorar sua miopia, mas é a hipermetropia o problema, é a visão próxima que está comprometida, mais a perda do faro, do tato e da magia, dentro de mim há um corpo onde vísceras acomodam-se em território próprio, origem de tudo que ninguém suporta: ventosidades, fezes e urina.

O homem apenas será perfeito quando a merda sair reciclada e os rios ficarem livres de seus dejetos, então muita merda escorrerá a céu aberto, vísceras expostas alimentarão urubus durante anos, o cérebro último banquete, apenas ele guardado em embrulho ósseo pétreo, necessário preservar os registros do primeiro unicórnio, da primeira besta, confirmar a morte encefálica é afirmar o cadáver… Há corpo pensante nos viventes sob ação das máquinas? Nem ao criador ocorreria qualquer possibilidade de o homem reduzir o pensante a um pensar sem morada. Mas o absurdo cavalga de boulevard em boulevard, de genitália em genitália, o walkman e a internet fazem do sujeito um nômade de corpo fincado e sem raiz, transporta-o a lugares nunca os mesmos, a participar de aldeias sem cartografias, assim sempre a loucura com suas alucinações auditivas e visuais, os delírios, a levar o sujeito distante de seu clã, de sua tribo, órfãos em comoção. Na loucura, o psicótico é… O singular nunca será além de… Reclusos em cidades e casas, manicômio sem quadrado azul, com computadores, ansiolíticos e antidepressivos, bonecas infláveis, nem a morte a mesma, necessárias cinzas nômades, apagar de vez ideia cartográfica, cremar é o não lugar da matéria, é passar a borracha na escritura… As vísceras, nos dois, no psicótico e no singular, não negam a raiz territorial… Avisos para saciar a fome e cumprir ritual fisiológico para eliminação dos dejetos. Malditos remédios! A despertar o apetite como a maconha; a diarreia, como o rotavírus. Está no cérebro toda a central reguladora. Mas ela embriagada pelas necessidades consumistas e despropositadas. Teria falhado o chefão? Quem sabe não estaria na loucura, no marginalizado, na exceção, a estética da pós-crise… Na decadência dos espaços e das relações humanas a palavra deverá rearticular uma estética polissêmica e polifônica, produzida na insânia do caos e do vazio, da morte nas chamas pelo fogo vindo dos gases e óleos do gasoduto do império modernista, ao modo do experimentado por Marcelo Ariel, inspirado em Vila Socó: “Me enterrem com a minha AR-15”. O que a loucura faz de um simples ronco visceral? Particular sinalização de fome, nenhum motivo para uma diarreia acadêmica pensante, que poderá inspirar alguém a produzir um ensaio, desenvolver uma tese de mestrado, doutorado, pós-doutorado, ações reducionistas de sabidos simulando sábios, modo de acreditarem sãos ou curados… Não desejo nenhuma cura que me cegue, encolha e reduza o espectro, este olhar em branco e preto que simula o fingimento poético; preferível a desintegração total por multicolorida, não esta, surto que poderia me render status de um sujeito singular.

O fato é que se faz necessário saciar a fome para evitar hipoglicemia, o que me deixa sonolento e com dor de cabeça. Sou o sujeito mais covarde da terra diante de uma cefaléia. Único sintoma a me afastar da obsessão pelas palavras. Os prescritos pelos médicos, as bulas com letras invisíveis ao olho comum, jogarei no ralo tão logo a vizinhança encontre outro foco para compartilhar a culpa.

 

(continua)

No Outono

No outono, as árvores se transformam, disse ele, enquanto a guiava pelo parque deserto.

Transformam em quê?, ela perguntou, incrédula.

Quando chegar em casa, vou colocar Vivaldi para você escutar. Você vai entender. Às vezes, basta escutar para poder ver.

Lúcia Bettencourt

Adeus

As tuas imagens que fui recolhendo, flagrantes de um adeus anunciado, ao correr dos anos foram sempre dos mesmos lábios entreabertos, do mesmo olhar apreensivo frente à objectiva da câmara. Sempre do mesmo cabelo espesso e bárbaro e, nas fotos dos grupos do Verão, sempre do mesmo corpo: barro húmido por modelar pelo barro húmido de outros corpos.

Pois, agora resigno-me: chegou a hora de me obrigarem a entregar-te – à tua pele, músculos e ossos saudáveis, esquecidos como estão os aniversários com pais e mães a decorar o segundo plano, desfeitos os grupos de adolescentes nas gares dos aeroportos, obrigaram-me a entregar-te assim, tão inteiro e completo num gesto de reconhecimento final da tua ausência desde o primeiro disparo da minha máquina fotográfica.

Decidi desfazer-me de todas elas, das tuas imagens. Incapaz, porém, do desapego absoluto, guardei o que resta de ti num rectângulo minúsculo, a dita foto-tipo-passe – um “tu” reduzido ao mais comum e ao mais simples, sendo isto muito pouco ou até demais. Mesmo assim, ei-lo: o olhar bárbaro sobre a tentativa fútil de te apreender, os lábios suspensos na articulação da palavra: “adeus”. Mirada apreensiva sobre a ideia do quanto te quis imóvel, imagem da minha imagem, tão quieta a contemplar-te através do olho da minha máquina fotográfica.

Uma lucidez misteriosa desde há muito que mo fez saber: todas as molduras de retratos breve se esvaziam da ilusão de conterem espelhos.

Marcela Costa

Uma viagem à Índia – parte 4 – Amor de Bloom

O amor de Bloom é recontado na história como tendo sido um amor passional, tão passional que o  pai de Bloom assassina a sua amada e Bloom assassina o seu pai. O amor de Bloom aparece no enredo em narrativa retrospetiva. A memória que vive tão presente em Bloom é uma catapulta para a história daquilo que o herói deixou para trás, mas para onde deseja paradoxalmente voltar. A viagem à Índia constitui a ligação entre um ato e outro, viajando Bloom pela negação de si próprio, pelo medo, pela angústia, pela traição, pelo estranhamento de si. O assassinato do pai é o mote para o crescimento interior do protagonista, que de outra forma, se veria destinado a uma vida feliz e burguesa, estilo de vida criticado pelo narrador “. E tal não é humano. O amor de Bloom é um dos pilares deste romance epopeico e tematiza, por um lado, a mensagem de que o amor vence e é o mais forte da vida – na Carta de S. Paulo aos Coríntios: “restam a fé, a esperança e o amor. Mas o amor é o maior dos três” (cap. 13, versículo 13) – e, por outro, o drama de Ödon von Hórvath que se chama exatamente Glaube, Liebe, Hoffnung, mas que tematiza a vida de uma mulher, também ela vencida por primeiro acreditar, amar, ser traída e mentir, (logo, também cometer um crime moral); esta morre quando a esperança, a última das três, lhe cai por terra.

                A ideia de que primeiramente todos os crimes são crimes morais e da ética, e só depois são do domínio da justiça humana perpassa todo o romance. Pode-se ler muitas passagens sob este prisma. Por exemplo, o facto de Bloom cometer justiça pelas próprias mãos matando o pai, e desconhecer nesse ato a dimensão que a traição da sua escala da ética pode acarretar para si próprio, leva-o a percorrer um pathos, que se afigura todo contrário àquilo que teria sido a sua vida anterior ao ato criminoso, e que as suas excursões de memória nos transmitem: Bloom era um homem bom. E no melhor pano cai a nódoa. O seu passado reza a favor da remissão dos seus pecados, independentemente de quais tenham sido. A questão do amor norteia a desculpabilização do protagonista da história, fá-lo humano e íntimo com o leitor, de tal modo que este herói não é condenado pelo leitor, mas perdoado.

Susana Leite

Camilo, o autor exposto.

No prefácio à segunda edição de Memórias do Cárcere (1862), Camilo tentou ajustar a sua ainda recentíssima obra em dois volumes às expectativas, ditames e juízos do público. Por trás da gestação do livro estava a prisão de mais de um ano (de 1 de Outubro de 1860 a 16 do mesmo mês do ano seguinte) que, como se sabe, resultou de apuros amorosos que eram vistos à época como ilícitos sem qualquer tipo de saída. Nem a visita do rei Pedro V à Relação terá valido a Camilo uma solução mais expedita e razoável.

Não deixa de ser curioso reler alguns passos deste singularíssimo texto, até porque, pelo menos desde os anos setenta do século XX, a posição do leitor/receptor passou a ser entendida como factor vital da significação literária. O escritor começa por situar a natureza do enunciado: “As Memórias de Cárcere foram escritas na convalescença duma grande enfermidade moral”. Uma possível erupção fórica parecia querer anunciar-se. Mas não. O primeiro parágrafo encarrega-se, de imediato, de realçar a necessária contenção: “Consistiu a minha luta em fingir uma estóica serenidade, que, tão ao revés da minha índole, vinguei e dissimulei. Assim mesmo haviam relanços no livro em que o propósito não lograra sopesar o espírito. Esses relanços desagradam-me agora, e hei-de cancelá-los espontaneamente. Ainda bem que de mui pouco me incomoda o arrependimento.”

Este desafio entre a explosão iminente e a quietude “estóica” aparece depois como um breve sarcasmo que se projecta nas próprias expectativas do público leitor: “Este livro esteve a naufragar, quando eu cuidava que ia velejando em mar de leite. O título dera esperanças, que o texto desmentira. Afizera-se o venerando público à ideia de que as Memórias de Cárcere eram uma diatribe eriçada de injúrias, sarcasmos e glosas ao escândalo, que desgraçadamente as dispensava, tão à luz do sol se desnudara arrastado por praças e tribunais”.

Este desencantamento, ou seja, a placidez que afinal de contas as Memórias de Cárcere reflectiam, acabaria, na ironia de Camilo – quem havia de dizer! –, por não o inocentar: “Saiu o livro, mentindo às esperanças de muita gente, que o esperava à feição da sua vontade para ter o prazer de me condenar. O resultado foi condenarem-me, porque raras vezes estas páginas se enlamearam no assunto lastimável que as sugeriu.”. A dupla condenação que Camilo coloca agora em cena – uma potencial, outra real – passaria, no entanto, ao lado da questão pessoal que tanto marcou o autor: “Para contrafazer ao desconceito que algumas pessoas votaram ao livro, saiu-me favorável o parecer de outras, que mostraram desejo de ver esta obra expurgada de algumas manchas que lhe afeiam a continente placidez com que discorre quase sempre arredada a minha questão toda pessoal, e por isso mesmo odiosíssima.”

Neste suave jogo de dissimulações, a imprensa também não seria esquecida. E não deixa de ser interessante o facto de a referência ser tão benévola quanto virada para um talvez inesperado julgamento em causa própria: “A imprensa periódica foi benigna com este livro. Nenhuma crítica, ao menos das que eu li, me infamou de escandaloso o escrito. Grande número de censores notaram e louvaram a inofensiva contextura destas historietas, que, em geral, miravam a fazerem-me ler alegremente. Se o consegui, esta suprema violência, que eu fiz ao meu espírito, devera ser tida em conta, não de habilidade, mas de muitíssima força de alma.”. Por outras palavras, e tal como é referido no início do prefácio, as Memórias do Cárcere dão sobretudo corpo ao “orgulho de quem se alevanta superior às dores e às afrontas”.

As ligações expostas entre a literatura e o real mais imediato são sempre evidenciadas através de episódios sem fim (conotações que se expandem como marés vivas). Tal como uma fractura exposta vive de narrativas que se multiplicam: uma dor que adora conceber os possíveis que a não teriam gerado. Não há, pois, obra literária que escape ao peso e ao alicerce de tais ligações expostas. É da natureza humana agir e reagir em função do imediato, imaginando cenários ideais, sobrepostos ou labirínticos. E a literatura é, de facto, um óptimo manto para recobrir essa infinda teia a que pertence também o pulsar do leitor. Mas não só. Sobretudo porque o lugar do crítico é necessariamente o lugar imaginativo do leitor.

O mais admirável neste brevíssimo texto de Camilo, para além da modelação da sua escrita, é a capacidade que o autor de Amor de Perdição – romance escrito na prisão – demonstra ao prever e dominar a complexa teia da recepção à sua obra e às ‘perigosas’ relações que ela, à época, estabelecia com o vivido.

Luís Carmelo

38º Episódio – Folhetim (II sequência de novelas) – O MÊNSTRUO MÁGICO DAS ORQUÍDEAS GRÁVIDAS – Folhetim em Setenta Episódios por Carlos Pessoa Rosa

Nada disso Amélia, nunca estive tão singular, tão igual, tão normal… Não se preocupe. Isso é verdade, se o senhor fizer a barba e pentear o cabelo, ninguém vai desconfiar de onde veio, o senhor sabe, lá do hospital. Hospital não, Amélia, hospício. Não fale assim que agora o senhor está normal, ouvi bem o que disse do seu André, e tem razão. Fico imaginando o que diz de mim por aí… Nada não, eles é que dizem do senhor, acham esquisito o modo de vida que leva, mas aqui entre nós, cada um tem lá sua loucura, veja o seu André, vive lavando as mãos, sem motivo algum, Dona Heloisa carcome a unha como o rato faz com a madeira, as três irmãs da esquina, solteironas, vivem paparicando o padre, limpando as santas e adorando os anjos na paróquia, deram de vesti-los com roupas de renda que elas mesmas fazem, onde já se viu esconder o sexo dos anjos, que Deus me perdoe, ficam parecendo travestis, mas não vêm ao caso, elas gastam o rosário de tanto rezar, e que fique aqui entre nós, são virgens só na frente, o traseiro é ninho de cobra, conheço bem esse tipo de gente, e veja o seu Jacob do armazém, não dorme enquanto não conta e guarda as moedinhas conseguidas no dia, sempre levando uns juros dos mais pobres nos atrasos da conta… E a Amélia, qual a loucura da Amélia? Não pensei nisso, não senhor! Devo ter alguma… Respondeu e saiu rapidinho na direção do banheiro. Efeito dos remédios aguentar estas conversas inúteis, fosse outro o momento, não a teria deixado entrar… Melhor resolver os problemas comuns.

A carteira sobre o móvel. Levo minha mão até ela, olhar oblíquo nos livros nas prateleiras, nas cartas sobre o móvel. Não é possível escrever sendo apenas um, é preciso ser duplo, pelo menos ter um sósia, um olhar estrangeiro, não sinto necessidade de dizer o comum, melhor o outro a falar do mundo e de nós, diferentes modos de enxergar e pensar, mas os malditos remédios deixam-me só, sem o outro de mim e meus fantasmas, suturaram a fenda onde habitam, mas logo os libertarei… Voltar à velha máquina de escrever, vício e vida, a literatura é um jogo. Melhor sair, pagar as contas e solicitar que religuem luz e água. Amélia?! Estou saindo, retorno assim que resolver os problemas. Digo alto. Não se preocupe, quando voltar não vai reconhecer a casa, o senhor vai ver, responde do banheiro a empregada, a voz misturada ao som da vassoura esfregando o chão. Às vezes tenho a sensação de nunca nesta casa… São os malditos fármacos, com o sentido dúbio da palavra, que nada resolvem sem antes remexer em outras estranhezas. Já perdi muito tempo, quanto mais cedo resolver, melhor. Na porta, as pernas moles… Saio, apesar do suor e das mãos frias. Estou fora… É o que pensam. O fora é um dentro sem portas e janelas. Dentro nunca será o avesso do fora. Melhor fechar a porta, não é seguro deixá-la aberta. Maldita mangueira! Não vou conseguir… Também, não há o que roubar, que ladrão cometeria algum delito em um curral de porcos? Fique sossegado, eu olho para você. Assustaria a voz surgida do nada e a mão sobre meu ombro direito, não reconhecesse de André. Rosto de um bicho-preguiça querendo ver em mim algum sinal de que a doença ainda.

 (continua)

O Senhor W.

Nas manhãs, o senhor Winkel toma o ônibus às dez e um quarto.  Espera no ponto porque não lhe custa viver antecipado.  Fita o par de sapatos de couro marrom brilhoso sob os raios expansivos. O lustre é uma de pequenas manias que o satisfazem.  O menino o encontra através da janela do ônibus em movimento.  Seriam bolas de gude, os olhos do senhor Winkel, amigo da Mary Poppins em vôo rasante sobre as casas de tijolos?   Objetos de brincadeira celestial.  O senhor Winkel coça a calvície com as pontas dos dedos cobertas por unhas transparentes devidamente lixadas.  Ele sobe pelo degrau rebaixado porque o motorista apertou o botão automático da máquina fantástica.  O senhor Winkel acotovela-se entre os passageiros enfileirados, prefere uma ordem natural que o favoreça.  Nota-se, em seu rosto, a pele emborrachada e a amarelidão da dentadura.  Nos dois braços delgados,  resta a goma enegrecida dos esparadrapos que o senhor Winkel não conseguiu esfregar da pele.  Enfermidade, temeridade, isto tudo o que vem na rima.  O menino lhe sorri, sem que o senhor Winkel retribua a larga alegria viajante de alma para alma.   Planta parasita, é o sangue enroscado nos olhos marítimos do velho cuja bondade é um fiasco.  A voz nasalada do homem o diminui conforme se aproxima, de todos nós transeuntes.  Luminosa centelha, trovoada inesperada, é o senhor Winkel a espantar o menino sorridente para os assentos traseiros do ônibus.  Vá, menino, lá para os fundos.  Aqui estão os lugares reservados para idosos.  O senhor Winkel nem é tão de idade quanto se proclama e reclina-se do lugar conquistado para passar cuspe na mancha estampada sobre o couro do sapato polido à potência infinita.  Cada um sabe onde o sapato lhe aperta.

Katia Bandeira de Mello-Gerlach

A repetição

Minha existência é muito curiosa: todo o fato volta a me acontecer, não importa sua relevância. Condenado à repetição, espero outra vez pelo bons momentos e temo o retorno daquelas desgraças que tive que suportar. Na minha vida, há um só fato que não se repetiu: meu nascimento, embora eu pareça lembrar de outro parto e de outro ventre que não é o da minha mãe. Poucas vezes esperei em vão para que um episódio voltasse a ocorrer. Em tais casos, se algo não consegue se repetir, descubro logo minha obtusa confusão: aquele acontecimento que eu supunha ser o primeiro renova, na verdade, algum fato esquecido. Este texto, por exemplo, às vezes penso que voltarei a escrevê-lo, outras vezes creio que é a cópia de outro.

Do livro “La vida imposible” (editado por Emecé España y Emecé Argentina en 2002), de Eduardo Berti.

Tradução de Patrícia Melo

Patrícia Melo

Uma viagem à Índia – 3

As representações como ponte para a memória individual e coletiva

                Seguindo Theroux, o que distingue um romancista de um escritor de viagens é que “um romancista é treinado para lembrar, para acordar a memória, e, memória é, nessa perspetiva, imaginação. Um romancista sabe escrever um diálogo, descrever uma paisagem, a fisionomia de alguém. O que distingue um novelista de um escritor de viagens é a memória, fazer o leitor ver, ouvir, cheirar, no seguimento de Joseph Conrad, que nos seus livros sobre o Congo queria que as pessoas vissem, e essa autodefinia o autor como a sua missão.”

Representações do mundo

                Apesar de “[…]os homens se corresponde[re]m, entre o Ocidente e o Oriente, com cartas ininterruptas; falam a mesma língua antiga, a de qualquer predador.” (Canto X, 50), e ainda, ” Do início da Europa ao fim do mundo o mundo é igual: ambíguo como tudo o que noja e atrai.” (Canto ). Esta posição básica do homem é a única forma de entender prática e teoricamente o que distingue moralmente os homens. As pertenças nacionais não o fariam certamente, como bom apanágio do homem cosmopolita. Contudo, há diferenças, “Porque há países onde as paixões se desenvolvem mais (produtos mais adequados ao tipo de solo e humidade [existentes], outros onde se chega para enriquecer. Em raros países se entra para aperfeiçoar a alma.” (Canto,). Supostamente na Índia far-se-o-á, mas eis a constatação que “Este país [Índia] é igual aos outros: belo e bruto.”.

Representação de Portugal

“O vento (de certos países) maltrata a cabeça de quem acabou de cair e massaja os pezinhos de quem está no topo.” (Canto I, 16)

O que importa, caro amigo parisiense, é localizar-me. Não sou o sitio onde estou agora, isso é claro.

(Canto III, 19)

“Chego, pois, ou a minha voz em meu nome, chego, dizia, finalmente, ao sítio de onde parti: Portugal, Lisboa, Rua Actor Isidoro, n.º 31, 1º direito. É um bairro simpático, com uma mercearia em casa esquina. Mesmo estando no centro da cidade, barulhenta e com fumos de carros, se tens laranjas e maçãs na tua rua então estás praticamente no campo.” (ibidem, 20)

 “Ausência de indústria e de fábricas significativas, eis a higiene de um país como o nosso.” (ibidem, 21)

“Colectivamente os homens amam-se, ou seja: negoceiam. Individualmente, sim, surgem os piores dissabores. Muitos homens na família vi eu humilharem-se – disse Bloom – apenas por uma côdea de dólares; a realidade é uma coisa que pode ser comprada.” (ibidem, 39)

“É evidente que o meu pai teve muitos adversários, mas nesse tempo os inimigos eram quase artesanais; tinham a tentação de se juntarem todos no mesmo sítio para que a bomba que caísse sobre eles não privilegiasse ninguém.” (44)

“O meu pai, John Bloom, era um homem de fé. E madrugador.” (45)

“O meu pai lutou então pela herança com um sistema complexo que misturava balística e crença religiosa.” (46)

“A minha família, como vê, é dura – disse Bloom ao parisiense que continuava a escutá-lo – mas, além de espancar pessoas com alguma regularidade, também pinta quadros. Nesses três dias após a rixa – continuou – o meu pai, John Bloom, pintou um quadro abstracto que misturava falhas de consistência com falta de habilidade técnica, mas o certo é que essa tela teve grande êxito numa das galerias da cidade. O importante, no fundo, é o simbolismo das coisas, e, claro, o dinheiro. O certo é que o meu pai ganhou a batalha legal – os advogados dele eram tão perfeitos que pareciam ter sido feitos à mão.” (55)

“Todos os terrenos e prédios que tinham pertencido aos meus avós passaram assim para o meu pai. Poderá sofrer críticas, mas o materialismo é, no fundo, aquilo que nos alimenta. Sem ele, o nada ocuparia o espaço todo.”

“Os Bloom são gente que por tradição avança: ligeiramente diabólicos, portanto.”

“Só não foge das grandes tragédias aquele a quem antes de fugir lhe foge a vida, escreveu Camões no séc. XVI. O meu pai, John, observaria ainda que um Bloom só não avança se antes, sobre ele, tiver avançado a morte.” (82)

“É como se a família Bloom tivesse sido empurrada para a frente e esse impulso inicial ainda não se tivesse esgotado. Sou filho desse primeiro impulso. E de tal me orgulho.”(83)

“As várias gerações são egoístas, sem dúvida. Porque se os dias emperrassem numa geração específica – como roldana sem óleo que não avança -, estaríamos diante de uma magnífica raça eterna. O que muito faria contentes uns e incomodaria outros: aqueles que ainda não nasceram.” (84)

O simbolismo dos eventos da história de John Bloom recontados pelo filho aludem à história da transição de Portugal para a democracia, e misturam-se lindamente com o efabulado.

 

Representação da Europa

                “Venho da Europa, sou europeu e português. Quando levanto os olhos para o céu levo comigo o que recordo da História. Os pulhas e os santos, transporto-os todos comigo na memória. Uma casa antiga cheira pior, cai com mais facilidade – mas tem livros mais valiosos. Eu venho da velha Europa e nela tenho orgulho: ainda tem futuro, nem tudo nela está já visível.” (Canto VIII, 71)

                “No Inverno ou no Verão, na Europa sofre-se mais no corpo que no espírito. E neste particular o século XXI nada mudou. O continente em espírito afunda-se, é certo, mas ainda tem montanhas. Afunda-se, é certo, mas ainda tem helicópteros. Afunda-se mas ainda se consegue colocar em bicos de pés e ainda existem pelo menos dez pessoas vivas que merecem ser ouvidas. Na Europa, na velha Europa, ainda há cabeças imprevisíveis.” (Canto VIII, 73)

Susana Leite

Por Este Mundo acima (romance)

A obra é lançada hoje, dia 23 de Maio, às 18.30, na Livraria Leya na Barata, Av. Roma, Lisboa.

“Depois eu regressava ao trabalho e ela ficava ali na poltrona de couro, a olhar pela janela, vendo a paisagem, os carros, as pessoas a fugir da chuva ocasional, táxis, um cão vadio, uma mãe a passear a criança, o par de namorados de mão dada, o homem do casaco a falar ao telemóvel, o polícia diminuído pela presença das outras forças de autoridade. Sofia via tudo pela janela e já não lhe restava esperança. Passara da meia-idade embora não o confessasse. Ninguém o diria. Tomava conta de si. Fizera pequenos retoques, malabarismos da estética. Todas as semanas espiava-se num espelho de um estúdio de Pilates ao Chiado e, depois, numa máquina, puxava molas e respirava pelas costas, alongando o corpo até a um limite em que a dor era ainda suportável. A professora dizia-lhe muitas vezes que a elasticidade que possuía, com aquela idade que ninguém lhe dava, era invejável. Os pés enfiados nas pegas, as molas a fazer contra-peso e a professora

As pernas direitas, na diagonal, para a janela, inspira, as pernas

para o lado, expira para as trazeres de volta à posição inicial. Traz as

pernas pela força da barriga, quero esses músculos internos a trabalhar.

Sofia cultivava uma vaidade disfarçada com uma meninice que lhe permitia prolongar uma certa ideia de si mesma. A traição chegava-lhe apenas nas mãos; cheias de manchas, sinais inesperados, irregulares,  meias à mostra. Teria gostado de viver um pouco mais. Era nisto que ponderava enquanto olhava pela minha janela, ouvindo-me teclar no computador. Alguém lhe dissera que o prédio da editora fora construído à prova de tudo

Sismo

Fogo

Terramoto

Inundação

Bomba

Era uma mulher atenta aos acontecimentos. Sabia o resultado de todas as operações combinadas. Intuía-o. Era, afinal, filha de militar, um homem grande que fizera a guerra em países distantes e em todos os sítios para onde o mandaram: uniforme impecável, rações limitadas, bacalhau pelo Natal, quinze dias de licença. Uma folha de serviço de fazer inveja. Era só a vida de um homem dedicado a obedecer. O pai de Sofia reformara-se tarde, aos setenta e oito anos, cravejado de medalhas e outras distinções. Rumara à província e deixara-se ficar a ver o mar. Até ao fim, avisara a filha dos inúmeros perigos, do quadro alargado de tensões mundiais que levariam, um dia, por fim, à destruição de tudo o que conhecíamos como construção do Homem. O pai de Sofia dizia

Será sempre pior que Guernica, pior que o nazismo, que os genocídios

africanos, que todos os 11 de Setembro, que a Guiné e o Darfur juntos,

pior que todas as ditaduras derrubadas ou por derrubar. Prepara-te,

filha, ainda será no teu tempo de vida.

Sofia ouvia, calada, e desvalorizava. O pai estava a ficar senil, pensava. Confundia-se e perdia objectos. Desenvolvera uma fixação, súbita no entender da filha, pela história do Partido Comunista. Uma organização datada, que historicamente perdera o interesse e razão de ser. Era assim que definia o partido para quem quisesse ou não quisesse ouvir. Era capaz de falar várias horas de seguida e, depois, adormecia. Não era o mesmo homem. Mirrara. Sofia observava o pai com alguma ironia. Fora sempre um pai severo, cheio de regras, apesar de terem, entre si, apenas duas décadas de diferença. Sofia cedo se tornou rebelde, contestatária, libertina e até, porque não dizê-lo?, perversa. Na verdade, como ela afirmava, era apenas um clássico dos cânones da psicologia.

Vê bem a minha falta de originalidade. Segui o modelo: pai castigador,

filha rebelde. O que dizer? Nada. Nada a dizer.

Quando o pai foi a enterrar, Sofia chorou como uma criança.

Na ausência do pai, Sofia compilava informação e, nessa medida, passou a estar ciente da velocidade dos acontecimentos. Não se admirou com a chegada dos militares. Não pestanejou quando começaram os ataques. Queria ter ficado à janela do meu

escritório, mas tão-pouco previu a violência que a atingiu no dia em que, oficialmente, o inferno devastou a Terra.

Aconteceu como sempre dissera: acabou sozinha. Quando tudo rebentou, Sofia decidira passar uns dias na aldeia. Levava consigo umas folhas impressas a preto e branco, uma coisa tirada da net sobre o sistema de cura havaiano Ho’oponopono. Eu brincara com o nome e considerei que a minha amiga corria o risco de perder o pé. Sofia explicou que estava fascinada com o poder da auto-cura, com a ideia de todos serem um e ainda com uma pequena oração interior capaz de remeter o Mal para a Luz.

 

Quando me sinto mal, digo o Ho’oponopono: sinto muito, perdoa-

me, amo-te, obrigada. É como um mantra, se quiseres. Dá-me paz

e acredito que tenha efeitos à minha volta.

Dois dias depois desta conversa, na véspera do fim, num assalto interior de coragem, Sofia mandou um e-mail

Escrevi isto. Desculpa. Deve ser uma merda. Mas é um conto e tu és editor, por isso to deixo. Acho que vais gostar. Se for muito mau, não mo digas, não aguento qualquer espécie de dor, mesmo as do ego. Beijos de amor S”.

Patrícia Reis

Patríca Reis, Por Este Mundo acima (romance)

A obra é lançada hoje, dia 23 de Maio, às 18.30, na Livraria Leya na Barata, Av. Roma, Lisboa.

Im.: PPPPP

Cr.: http://www.domquixote.pt

Ficha Técnica:

Título: Por Este Mundo acima

© 2011, Patrícia Reis e Publicações Dom Quixote

Edição: Cecília Andrade

Revisão: Nuno Carvalho

Este livro foi composto em Rongel,

fonte tipográfica desenhada por Mário Feliciano

Capa: Maria Manuel Lacerda

Fotografia da capa: © Christophe Dessaigne / Trevillion Images

Fotografia da autora: © Daniel Mordzinski

Paginação: Filipa Gregório | Atelier 004

1.a edição: Maio de 2011

Depósito legal n.o 325 206/11

ISBN: 978-972-20-4634-3

Ernesto Gregório, clássico

Leitor compulsivo de Borges, o seu sonho era tornar-se um outro Pierre Menard. E, num acesso de patriotismo (pouco moderno, hélas!), pôs-se a escrever o Livro da Enssynança de bem cavalgar toda sela. Ao dar por concluído o trabalho, verificou com bastante folgança que se havia transformado na coisa cavalgada. À boa maneira clássica.

In Que paisagem apagarás (Publiçor, 2010)

Urbano Bettencourt

Auto-entrevista | Cristina Carvalho

1 – Qual a primeira pergunta que devo fazer a mim própria?

CC – Devia começar por tentar, através desta auto-entrevista, esclarecer os leitores acerca de mim própria, alguns aspectos que eu considero realmente importantes, aspectos da minha vida, da minha obra, dos meus desejos literários, das minhas opiniões e, ao mesmo tempo, revelar as minhas relações com os leitores, o que é que os leitores pensam de mim e o que é que eu penso dos leitores. Trata-se de um exercício difícil porque uma entrevista, normalmente, pressupõe desde logo duas pessoas: uma que pergunta e a outra que responde. Não a mesma pessoa a perguntar coisas a si própria e isto é que é engraçado e insólito. Espero, pois, que os leitores compreendam a dificuldade disto mesmo.
Não irei revelar absolutamente nada a respeito da minha pessoa enquanto pessoa, mas sim alguma coisa relacionada com aquilo que escrevo, porque escrevo e para quem escrevo.

2 – Como se iniciou o processo de escrita que terminou com a publicação deste livro “A Casa das Auroras”?

CC – Penso muito na humanidade em geral. Interesso-me por homens e por mulheres. Não há uma terceira espécie, infelizmente. Muitas vezes sinto que não chega, que somos poucos. Que o sistema não está completo. Que há uma falha, um esquecimento. Mas depois, olho à minha volta e sinto a Natureza, os bichos, as florestas, os penhascos, a água do mistério do mar e a luz do mistério do céu e acho que estou a ser injusta, que afinal o planeta é perfeito, que não falta nada e que se mais houvesse seria impróprio e absurdo. Sendo assim, debrucei-me por histórias variadas de mulheres variadas, desde uma velha muito velha a uma criança passando por histórias de outras mulheres com outras idades. As mulheres são seres extravagantes, complexos e inesperados. A par das abelhas, não sei quem é mais eficaz e inteligente. Já vivi o bastante para recolher muito material, situação absolutamente indispensável para se escrever sobre semelhantes seres. Comecei a escrever este livro quase como uma brincadeira. Verifiquei, dia após dia, que já me seria muito difícil não ficcionar mais e mais e mais, cada vez mais. Senti que teria de viver mil milhões de anos ou mais ainda para falar sobre mulheres. Fiz o que sentia. Mas nunca lá chegarei. Nem eu nem ninguém. Ninguém alcança ninguém.

3 – O que é que a levou à escolha deste tipo de personagens e como as caracteriza?

CC – Como disse na resposta anterior mas que vou estender agora mais um pouco: quis falar de mulheres com várias idades, com diferentes experiências, com vidas em diferentes locais. São personagens femininas de contornos claros, claríssimos. Tudo o que elas dizem e fazem está no seu pensamento. O que acontece é que devido às condicionantes da vida, muita coisa, muita atitude não pode nem deve ser tomada. Há travões, como sabemos. As mulheres desta história são, talvez, umas “selvagens” porque dizem tudo e fazem tudo o que lhes apetece. São seres que não estão condicionados a coisa nenhuma. Nasceram livres e conseguiram manter-se livres toda a vida. No fundo, é tudo uma questão de liberdade individual. E tudo isto tem um preço muito alto. Normalmente, a morte.

4 – Qual a ligação que existe entre as 7 mulheres que compõem este livro?

CC – A única ligação é o facto de serem mulheres e com esta condição assim tão natural já têm muito com que aguentar. Eu tenho dito – as mulheres -. Na realidade, neste livro só existem fantasmas de mulheres. É uma conversa entre pessoas que já morreram e que se encontram num certo sítio com o único propósito de conviver – se é que isso é possível – e contar parte das suas vidas. A única viva é a narradora que desempenha um papel importante mas desinteressante o que me leva a pensar que depois, mais tarde, quando tudo adormecer, quando a noite for uma certeza, ou seja, para além dum outro além, vai ser tudo mais engraçado.

5 – O que é esta Casa das Auroras na realidade?

CC – A Casa das Auroras é o nosso pensamento. Apenas. Onde tudo acontece, onde há uma vida eterna, onde uma pessoa pode deambular à vontade, sem medos, sem constrangimentos, sem vergonha, onde tudo pode ser dito e feito. A Casa das Auroras é a nossa única morada. É lá que, um dia, fomos felizes.

6 – Acredita em fantasmas?

CC – Em princípio, não. Sou incompetente para acreditar seja no que for. Nem sequer sei se os vivos estão bem vivos!! Nem sequer acredito em mim própria! Esta resposta é difícil! Talvez a mais difícil! Posso considerar que nada é nada ou que tudo é tudo. Sou muito ambígua e incrédula. Acredito nas nuvens, apenas. Naquelas que me trazem água, muita água e que, quando se afastam me deixam ver o Sol.

7 – O que distingue este livro dos outros que já escreveu?

CC – É a forma e a construção narrativa. À primeira pode parecer um livro de contos mas não é. Tudo está ligado entre si. Elas não vivem umas sem as outras. É como que um cordão intemporal e imenso, um imenso cortejo de desejos e confissões. Quando escrevi “O Gato de Uppsala” por exemplo, livro que não tem nada a ver com este, senti-me nas nuvens, senti-me fora de órbita. Com este livro, estive ali agarrada à cadeira a fazer pinos e contorções a ver se conseguia ir fundo, muito fundo. Não sei se consegui.

8 – Qual a expectativa que tem em relação à aceitação deste livro?

CC – A minha expectativa é enorme! Precisava muito de reacções do público leitor. Queria continuar a “escavar” nas mulheres, no seu miolo, no seu profundo. Não sei, não faço a menor ideia do que vai acontecer o que me deixa bastante ansiosa. As reacções que tenho tido até agora foram excelentes e, curiosamente, normalmente de homens! As mulheres gostam!! Tenho a obrigação de dizer que esta história, “A Casa das Auroras” já provocou trejeitos de incómodo nalgumas pessoas. Mas a verdade dói. Vamos ver.

9 – Qual é a sua relação pessoal com esta narrativa?

CC – É uma relação complicada. Li o livro muitas vezes porque lhe fiz três versões. A primeira estava bastante diferente. A segunda foi muito emendada e a terceira foi para fazer os últimos “bordados”. De todas as vezes que o lia com olhos de ler apetecia-me emendar tudo outra vez! Tornar a escrever e mais uma vez e mais outra e outra e outra. É complicado! Um livro leva muito tempo a escrever e a sair da cabeça. Muito! E quando se está a escrever estabelece-se sempre uma relação com o assunto: ou se ama ou se odeia e mesmo assim, vai para a frente! Nada é fácil! São horas e dias e meses e anos de trabalho se é que se pode chamar trabalho a uma questão vital.

10 – Está a escrever algum novo livro?

CC – Estou sim. Estou a escrever uma outra história de mulheres mas que nada tem a ver com esta. Passa-se na véspera do dia 25 de Abril, ou seja, no dia 24.
Estou também a escrever, a esboçar uma outra história “para todos” passada só com animais. Com alguns animais.

CRISTINA CARVALHO – 20 de Maio de 2011

BECKETT

Ao fim de Esperando Godot, uma senhora virou-se, dizendo: “Você gostou disso? É horrível! A gente sai de casa para se divertir e tem de ver uma coisa dessas… Me diga, você gostou disso?” Imediatamente, ao meu lado, um casal nos 20 anos confrontou-a: “É demais! A senhora é que não entendeu nada!” Aliviado da necessidade de dar qualquer resposta, achando que o filme havia sido tão terrível para a senhora justamente porque, de alguma maneira, ela o entendera, e que os jovens o adoraram justamente por não o terem compreendido tanto quanto imaginavam, ou seja, por não o terem tão cravado na carne, pensei apenas – como é bom não ter mais 20 nem ainda 75 anos… E poder permanecer em silêncio.

Alberto Pucheu

RETORNO

Agora até parece mentira, mas naquela altura ele   ainda não sabia o que era isso de   bookcrossing.  Num golpe de  linearidade   linguística,  calculou que se tratasse de uma forma apurada de ler. De atravessar um livro em todas as direcções, folheá-lo, revolvê-lo até ao âmago dos sentidos, persegui-lo até ao fundo das entranhas.  Mas não passaram muitos dias que o assunto não ficasse esclarecido.  Em vez de se  atravessar o livro, era o livro que atravessava o espaço, andando de mão em mão.  Então, conta ele, a ideia pareceu-lhe romântica  e resolveu pôr-se em acção. Acabava  de escrever um livro com 538 páginas, o que pode acontecer até  aos menos  incautos, e  resolveu fazer uma experiência. Um dia de manhã, depois do pequeno almoço,  avançou  pela avenida afora, com o tijolo debaixo do braço e procurou um banco de jardim onde deixá-lo. Não foi necessário muito tempo.  Por ali passavam pessoas a caminho da Universidade, alguns a caminho de cafés, outros a caminho de casa, outros a  caminho de rixas, outros a caminho das árvores, tanta era a variedade de transeuntes que fácil seria  alguém reparar no objecto.  Assim foi. Ele conta que apenas deu uma volta ao quarteirão, espreitou e  o livro já lá não estava. Então começou a imaginar por quantas  mãos iria andar  o seu livro.  Na primeira página, havia simulado um leitor – Faça  bookcrossing, não deixe este livro parar, uma data e uma assinatura.  Estava lançado o desafio, e assim passaram sete anos.  Por onde andaria o livro? Teria saído da cidade,  teria viajado para outros países?  Em que mãos longínquas se encontraria, agora? Na semana passada, aconteceu o improvável – O correio trouxe o livro de volta. O livro havia sido esquadrinhado, apresentava notas por todos os cantos, insultos, troças,  desenhos das personagens,  resumos,  comentários, sinónimos, interrogações.  O livro havia estado todo aquele tempo nas mãos de um único leitor.

Lídia Jorge