Crise, literatura e abismos

 

 

1

Na sua origem, os “bárbaros” eram todos aqueles que não eram (ou que não falavam) como nós. A própria onomatopeia cartografa já o outro lado de lá da fronteira. Os estóicos aprenderam, no seu tempo, que existe uma grande instabilidade e uma razoável elasticidade entre o uso das nossas linguagens e aquilo que queremos exprimir, precisamente porque habitavam nas colónias gregas, local variado e difuso onde as línguas e os hábitos mais diferenciados se misturavam. Eles viam diante dos seus olhos os bárbaros e respiravam com eles a sua filosofia e o modo como esta explicava a vida e a significação. E apesar de tudo, a terra rodava. E havia o culto de qualquer coisa era, ou devera ser, comum a todos.

2

Existe uma certa redundância, quando Wittgenstein afirma que o sentido é aquilo que a explicação do sentido explica. Ou seja, o sentido só se refere àquilo que a partir dele se consegue explicar. Em certos casos é muito mais o que não se consegue explicar do que o que se pode explicar. Há épocas que acolhem esse tipo de casos, dir-se-ia mudos, do mesmo modo que um príncipe recebe a sua desejada princesa. Uma época de terrorismo que opõe uma compreensão primeira do mundo de tipo religioso a uma compreensão primeira do mundo de tipo não religioso é uma época que tende, naturalmente, a coabitar com alguma falta de sentido.
Apesar de tudo a terra roda. E o culto – o sentido do culto – deixou de ser uma respiração comum. A Europa sabe disso, pois essa é uma das máscaras da sua profunda crise (que não é apenas um episódio dos mercados).

3

Diz Fiona no início de Música do Acaso: “Estamos na América, Nashe, A casa da maldita liberdade”. Duas páginas depois, comena-se através da voz do narrador: “O dinheiro era responsável pela (sua) liberdade”. E épor causa disso que o destino de Nashe, o protagonista de Música do Acaso, também de Paul Auster, acaba por se fundir com o jogo, com o dinheiro, com o sacrifício e com uma fixação na prática da imolação. Em Leviathan, a prefiguradora saga (terrorista) da estátuas da liberdade e a queda física de Sachs, enquanto pontos de viragem da narrativa, mantêm e sustentam o princípio de uma fixação que é anterior à fruição da liberdade. De algum modo, em Paul Auster, encontramos materializado aquilo que Vattimo designou por “liberdade problemática”. Quer isto dizer que a liberdade, tal como é tratada por Paul Auster, se transforma quase sempre em algo insuportável, parte da curva de um labirinto maior onde a interpretação e o sentido acabam por esgotar-se.

Será a literatura a glosar o real? Ou será o real a reflectir-se, como poucas vezes terá acontecido, no coração da literatura?

Luís Carmelo
**

P.S.: O sítio PNETliteratura cumpre, no próximo dia 8 de Setembro, o seu quarto aniversário. Regozijo-me profundamente com o facto e aproveito a circunstância para daqui enviar os meus sinceros parabéns ao administrador da rede PNET e fundador do projecto, Eng. Vítor Coelho da Silva, e a todos os cronistas e colaboradores que têm sido, afinal, os construtores reais deste edifício consagrado a todos os oceanos da língua literária em Português.

IV

Lembro-me de Jesus, espinhos numa cruz, não que o conhecera. Identifico-me com santos, oxalás, iemanjás, totems e budas magros ou obesos e, no caso de Jesus, a impressão que guardo é da fotografia de sangue impressa no escapulário, os retratos de agora me aborrecem porque de nós dois velhos sentados neste banco de concreto posso dizer com precisão que milhares de fotografias são tiradas e ignoraremos por quem. Capturam-nos sob os holofotes exagerados, os helicópteros rasantes, os pombos buscam nos derrubar ao se aproximarem da minha e da tua testa para mordiscarem esta pele sem viço.

Kátia Bandeira de Mello-Gerlach

RE(-A)NUNCIAR O MESSIAS – Folhetim em Trinta e Quatro Episódios da autoria de Carlos Pessoa Rosa. – Vigésimo Sexto Episódio

O Senhor mudaria rumos, fosse da vontade, sem grandes tempestades ou furiosos temporais, que não é da natureza qualquer anima humano ou divino. Às leis naturais responde o universo, e o que plantamos no que vemos serve à poesia, não à vida. O delírio de rios e pastos secos como castigo faz parte de nosso imaginário. Quem poderia suportar um Deus enfurecido? Por que não me perguntei? O estar no que mais se parece com o pátio de um hospital psiquiátrico, estático como um demente, a ação e o movimento fixo em um instante de insanidade, não me surpreende. Nem a ira do Senhor, nem a nossa, desmorona montanhas. Ilusão! Desespero de quem vê tudo ao redor ruir sentindo-se impotente com a cegueira em torno. Como compreender que alguém que persegue, inclusive nas madrugadas, seja acolhedor? Que figura divina poderia, depois de prender os filhos, soltá-los das grades em perdão? Construímos um personagem à nossa imagem, não a de um Deus que deveria ser complacente, paciente e orientador.

 

(continua)

Carnaval em Agosto

Na vida onde sou quem canta a verdade, existem flores nocturnas que se abrem à luz dessa mesma verdade e tudo nos é ofertado por anjos. Neste lugar, não penso morrer em pleno Carnaval. Mas o que revelo ao mundo serve para desfilar neste carnaval interminável – o quotidiano dos sonâmbulos comandados pelo grande Rei Mercado e suas alegorias de tortura. Desfilo nas minhas vestes encomendadas nos subúrbios e minha boca finge entoar as barbaridades que, para meu grande pasmo, não chocam os púdicos nem enchem os depósitos dos depravados. Meus olhos, encobertos pela máscara, suam gotas de sangue. Esta vida de carnaval ferido valerá umas moedas de cobre? Farinha, grão, uns enlatados, azeite, pão, e alguns luxos. Sei lá, patê e vinho?

Marcela Costa

RE(-A)NUNCIAR O MESSIAS – Folhetim em Trinta e Quatro Episódios da autoria de Carlos Pessoa Rosa.

Tenho o olhar no desastre causado pelos insetos. A ira transformou-se em pedra. Meu silêncio é um rio de palavras em direção ao nada. O olhar recusa o campanário. Vê dentro. Vive o sangue coagulado na pedra. Caminha nas dobras e nos brotamentos que saem dos interstícios da matéria bruta. Não me pertence a natureza ao redor. Irrita-me o ruído ensurdecedor dos gafanhotos. Traz-me à memória, como ao combatente os cadáveres, a expressão infértil da terra, dos esqueletos de vinhas e figueiras. Qual o papel de um profeta, Senhor, se nenhum dos avisos foi ouvido? Olhando ao redor, tudo retornou. Mesmo o homem com sua embriaguez, surdez e cegueira. Já não há mais tristeza ou luto pela perda, mas festejos à sorte dos que sobrevivem. Hoje, morre-se de fome, apesar de os campos fartos. Os fazendeiros tomam vinho como se fosse o sangue e o suor de bóias-frias.

 

(continua)

Entrevista a Sérgio Nazar David

Sérgio Nazar David é Doutor em Teoria da Literatura (UFRJ, 2001), tendo efectuado um pós-
doutoramento (Coimbra, 2006) sob a orientação da Professora Ofélia Paiva Monteiro. É poeta,

professor de Literatura Portuguesa (UERJ) e integra, desde 2007, a directoria da Associação

Brasileira de Professores de Literatura Portuguesa. É membro da Equipa Garrett, do Centro

de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra. Publicou Onze Moedas de Chumbo

(poesia, RJ, 7Letras, 2001), Freud e a Religião (ensaio, Jorge Zahar, 2003), A Primeira Pedra

(RJ, poesia, 7Letras, 2006), O Século de Silvestre da Silva – Vol. I – Estudos sobre Garrett, A.

P. Lopes de Mendonça, Camilo Castelo Branco e Júlio Dinis (ensaio, Lisboa, Editora Prefácio,

2007) e O Século de Silvestre da Silva – Vol. II – Estudos Queirosianos (ensaio, RJ, 7Letras,

2007). Organizou a edição crítica de Cartas de Amor à Viscondessa da Luz (Edições Quasi,

2007) e de Correspondência Familiar (Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2012) de Almeida

Garrett. Colaborou e/ou tem colaborado em várias publicações: jornais, periódicos e cadernos

literários. Trabalha, neste momento, no volume Correspondência a Rodrigo da Fonseca

Magalhães (Imprensa Nacional – Casa da Moeda), de Garrett, a ser publicado em 2014.

 

MJC – Mais uma vez de volta a Almeida Garrett, Professor Sérgio Nazar David. O

que o atrai tanto neste autor?

 

SND – Hoje o que mais me atrai em Garrett é o estilo único, o grande escritor que

é. Em tudo que pega imprime a sua marca. Na poesia, na narrativa de ficção, como

orador político, como grande missivista, que também foi, sempre se descortina o

mestre da língua portuguesa em sua plasticidade moderna e inovadora, isto é, escreve

sem cabotinismo, e nunca sem elegância e graça. Também me apraz confirmar e

demonstrar, com bases documentais, a coerência (muito mais do que as contradições,

que a crítica literária tem, ao longo dos anos, feito por destacar) da trajetória do

intelectual, do escritor, do homem público que foi Garrett. Tudo mudou muito desde

os tempos de estudante de Leis em Coimbra (1816-1821) até a Regeneração (1851),

e ele foi mudando junto, comprendendo o processo dinâmico e complexo do devir

histórico português. Quem sabe os tremendos desafios que se interpunham àqueles

que queriam levar ao chão o Portugal velho para erguer um país mais democrático não

pode achar que quem muda (como Garrett mudou tantas vezes) é um vendido, um

dândi frívolo, ou um mundano qualquer. Isto Garrett nunca foi. Garrett nunca deixou

de escrever de forma absolutamente interessada em fazer algo – realmente algo eficaz

e não palavras ao vento – por Portugal.

MJC – O que me parece mais paradoxal é que o interesse pela organização da

correspondência de Garrett venha de um professor brasileiro. Como explica esse

facto?

 

SND – A organização da correspondência de Garrett envolve muitos problemas: a

transcrição dos documentos (quase nunca Garrett tem uma letra fácil); a ordenação

das cartas (a datação é quase sempre parcial); os vários assuntos que são tratados

(que não podem seguir sem anotação) e o sentido geral que tal documentação tem

para os estudos garrettianos. Desde o início, eu e a Professora Ofélia (coordenadora

geral da coleção Obras de Almeida Garrett, que vai no quarto volume, pela IN-CM)

temos tido o cuidado de dar organicidade a cada volume da correspondência. Não

queremos que se imprima um amontoado de cartas. As Cartas de Amor à Viscondessa

da Luz são 22. Lidas ao lado das Flores sem Fruto (1845), de Folhas Caídas (1853) e

de Viagens na Minha Terra (1843-1845-1846) ganham outra cor e feição: foi o que

procurei fazer. Já agora a Correspondência Familiar traz 105 cartas (48 inéditas).

Acrescente-se a estas dificuldades o fato de eu estar longe das fontes manuscritas

que são a matéria-prima do meu trabalho. Minha vida tem sido, desde 2004, entrar

de férias no Brasil e ir trabalhar em Portugal. Não acho que me ajuda ser brasileiro;

também não me atrapalha. O que me ajuda mesmo é ser um “devoto” de Garrett. É só

por isso que enfrento chuvas e tempestades.

 

MJC – Um dos aspectos mais interessantes, relativamente à organização da

correspondência de Garrett, é precisamente essa organicidade de que fala. Quando

se tem uma figura tão complexa (e completa) como Garrett, que se tornou conhecido,

não apenas pelo facto de ser o introdutor do romantismo e um impulsionador do

teatro em Portugal, mas também pelo seu lado mundano e público, é importante

o acesso à sua correspondência, para aprofundar lados mais ocultos da sua

personalidade, não lhe parece?

 

SND – Sim. Mas alguém poderá dizer “não interessa a personalidade, interessa a

obra”. A estes eu respondo que a correspondência integra a obra do Escritor. Esta

correspondência traz dados novos, que podem modular ou modificar a compreensão

da obra. Dou um exemplo: a correspondência confirma que Garrett integrou mesmo

a Maçonaria. Mais ainda: o tio, Frei Alexandre da Sagrada Família, também poeta, foi

igualmente maçom. Isto dá maior relevo a um pilar da vasta e multímoda produção

garrettiana: que se funda na defesa da Ilustração, de um catolicismo eivado de

racionalismo, disto derivando as bases de uma sociedade mais democrática, que

idealmente defende, e pela qual luta, tendo, porém, que ceder – já que não quer viver

no Porto Pireu – e aceitar melhoramentos contingentes e quase sempre bastante

relativos e modestos. Considerando o mundo que ia ficando para trás, Garrett sabia

que o pouco era muito!

 

MJC – E a ligação à Maçonaria fica bem clara, nas cartas que dirige ao irmão, onde

precisamente descreve a possibilidade de conciliar a Maçonaria com a Religião. Isso

não lhe parece contraditório?

 

SND – Não é contraditório. É justamente disto que procura convencer o irmão,

Alexandre José, de que há bons católicos maçons. A Maçonaria, segundo Garrett, nada

tem a ver com Religião. Fica claríssima: está lá, com todas as letras, uma carta com um

apelo ao irmão para que entre na Maçonaria, “ordem augusta”, etc.

MJC – Ofélia Paiva Monteiro tem desenvolvido uma obra importante, relativamente

a Almeida Garrett, sobretudo os apectos da sua formação, o acesso à cultura inglesa

e francesa, que tanto o influenciaram, as suas viagens e os exílios. Quão importante

foi o contributo da obra de Ofélia Paiva Monteiro no seu trabalho e em que medida o

ajudou?

 

SND – A Professora Ofélia publicou A Formação de Almeida Garrett em 1971. Já se

passaram 41 anos. Este livro continua fresco, como se tivesse sido escrito agora há

pouco. Lá estão os laços familiares de Garrett, que tanto contribuíram para forjar-
lhe a personalidade; as amizades e vicissitudes do tempo de Coimbra; os primeiros

escritos, em que já se anuncia o polemista, o “Alceu da Revolução de 1820”; os exílios

com suas lutas e misérias; as obras escritas nesse tempo (1823-1826 e 1828-1832), que

vivamente preparam o espaço para a campanha que culminará com a vitória liberal em

1834; o período da Bélgica, de pouca produção e de tanta humilhação. É a formação

de Garrett, sob a ótica da daquela que se tornaria a intérprete maior de sua obra.

Depois disto, vieram outros estudos enfocando os vários aspectos da obra de Garrett:

o teatro, a narrativa, o estilo inigualável, o Garrett pedagogo, os escritos inacabados,

etc. Tudo isto foi reunido agora pela Professora Ofélia em Estudos Garrettianos,

publicado em 2010, pela EdUERJ, no Rio de Janeiro. É uma obra completar a A

Formação de Almeida Garrett. A compreensão mais madura que passei a ter da obra

da Professora Ofélia mostrou-me que é preciso ler Garrett com enquadramento,

com conhecimento o mais aprofundado possível de seu tempo e das relações que foi

travando ao longo de vida. É com este esquadro (das “relações”) que o comprendemos

melhor, com visão crítica (ou seja, algum distanciamento), sem ceder às simplificações

anacrônicas (que fariam dele um “conservador”, como querem alguns).

 

MJC – Na introdução à obra, refere-se a Almeida Garrett como alguém que procura

o muito aristotélico “justo meio” (p. 41). Como é que alguém que participou em

acontecimentos políticos tão “radicais” fala em “justo meio”? Será que a idade e a

experiência lhe amaciaram os impulsos? Ou haverá outras razões?

 

SND – O “justo meio” vem-lhe já em 1834, quando acaba a guerra civil. Está entre os

vencedores, mas não aprova, por exemplo, as perseguições aos católicos no Norte

movidas pelos amigos de D. Pedro (os devoristas). Elege-se deputado em 1839 e logo

vai às Cortes pugnar pela liberdade religiosa. Está, portanto, nesse momento, contra

os liberais. O “justo meio” de Garrett pode ter outro nome também: independência de

opiniões. Já nos anos 40, trava uma luta contra a ditadura cabralista. Mas não aprova

a aliança dos patuléus (que também lutam contra os Cabrais) com os miguelistas.

Garrett quer uma união da família liberal em torno de princípios democráticos

(ordeiros) porque sabe o que são as guerras fratricidas e os exílios. Está lá nas Viagens

na minha terra: “toda guerra civil é triste”. Está nas cartas ao irmão o temor que tem

de ter de viver um terceiro exílio, o que afinal não se deu, porque evidentemente fez

por evitar.

 

MJC – Sei que estão publicadas no Brasil as Cartas de Amor à Viscondessa da Luz e

creio que até foram publicadas primeiro no Brasil e só depois em Portugal. O que

acontecerá com a Correspondência Familiar? Também já tem edição prevista no Brasil?

SND – Sim, a Correspondência Familiar vai sair no Brasil, mas não agora. Também

porque uma edição brasileira exigiria adaptações que não posso fazer neste momento,

por absoluta falta de tempo. Tenho prazos a cumprir: entregar a Correspondência a

Rodrigo da Fonseca Magalhães em 2014 à IN-CM.

 

MJC – Então esse é o próximo projecto? E como fica a actividade poética no meio de

todos esses projectos?

 

SND – Sim. As 68 cartas (todas inéditas) do Garrett ao Rodrigo comporão o próximo

volume. Tenho um livro de poemas já quase pronto, intitulado Tercetos Queimados,

que devo publicar em 2013. Preparo agora uma OFICINA de poesia, na Estação das

Letras (Rio de Janeiro), que começa dia 10/9. Vou trabalhar com leitura e escrita. Só

poesia contemporânea brasileira e portuguesa! Estou animadíssimo!

CADERNO DE POEMAS DE CARLOS ROSA: dois poemas viscerais por semana, ao longo de dez semanas…

EMBRENHAR-SE

caminho

de terra embrenha-se na mata

mata

que se embrenha na natureza

natureza

que se embrenha nos olhos

olhos

que se embrenham no poema

poema

que se embrenha no amarelo do Ipê

ESPIÃ

na várzea

uma estrada vermelha

no cotovelo

uma árvore espia

: folhas atraem uma leve brisa

algumas pousam

outras se agitam agonizantes

e a brisa se recolhe

em desconhecida dimensão

na várzea

a estrada vermelha

no cotovelo

uma árvore espia

: um carro passa

puxa um rastro de pó vermelho

que se agita

e logo repousa sobre os esquecidos

na várzea

uma estrada vermelha

no cotovelo

uma árvore espia desconfiada de tanto silêncio

e a tarde acesa

MICROBIOGRAFIA elaborada pelo autor:  

Carlos Pessoa Rosa, descendente de avós portugueses, de Leiria e Coimbra, nasceu em bairro operário, vizinhança formada por italianos, húngaros, africanos e japoneses. Cresceu ouvindo histórias de mulas-sem-cabeça, lobisomens e correntes sendo carregadas por almas de mortos nas madrugadas. Formou-se médico em 1976, na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, em cujos corredores habitavam fantasmas de irmãs de caridade que ali viveram. Metido a escritor na adolescência, por paixão, as palavras foram tomando forma, desvencilhando-se do ‘eu’ juvenil, avançaram com a idade, com as histórias ouvidas no dia-a-dia, sabenças populares, daí brotaram poemas e prosas, Bachelard contaminando o positivismo de formação, vieram os livros, Deleuze, Derridá e Habermas corrompendo a estrutura, portas foram se abrindo, PNET Literatura, uma delas, editor do site www.meiotom.art.br, tem trabalhos no site Cronópios e Germina, poemas publicados no Instituto Piaget, em Portugal, livro de contos fruto do prêmio UBE-CEPE, Mortalis: um ensaio sobre a morte, prêmio editora LivroAberto, selecionado no prêmio João-de-Barro e Mario Quintana com livro infanto-juvenil, contos publicados no projeto Dulcinéia Catadora, na Universidade de São Carlos, tem poemas correndo em ônibus e trens em Porto Alegre, curtas inspirados em seus contos…

E acabou-se a estória, passou por uma canela de um pinto e outra de pato; meu rei senhor manda dizer que conte mais quatro.

RE(-A)NUNCIAR O MESSIAS Folhetim em Trinta e Quatro Episódios da autoria de Carlos Pessoa Rosa. Décimo Terceiro Episódio

Tenho no rosto o olhar incrédulo e apático de um alienado perdido no deserto. Os ventos vividos trouxeram uma linha grossa que divide meu rosto. Separa os olhos dos lábios. Aqui não tenho Gômer, a esposa. Nem Jezreel, Troque e Ruhamah, os filhos. Feito de carne, com as qualidades e defeitos humanos, aceitei como profeta o Vá, Oseias, e case-se com uma jovem que seja prostituta, uma mulher que dará a você filhos de outros homens. Isso servirá para mostrar como o meu povo tem sido infiel a mim, cometendo adultério abertamente, adorando outros deuses. Acreditei nas boas intenções do Senhor ao reservar um lugar para mim no tempo concebido. Hoje, quando me falta articulação nos lábios, a consciência segue tempestuosa à procura de respostas.

(continua)

NO E DE FORA DO PRESENTE: ANTONIO CICERO, UM POETA DO AGORAL (II)

Retornando a Alguns Versos, não parece, portanto, sem sentido que “as letras brancas de alguns versos me espreitam”. De fato, é o poema que espreita o poeta e não, primeiramente, o inverso; cego para seu ego, cego para aquilo que é o mais arraigado na individualidade do poeta, cego para um fundo positivo de si, cego para, como diz outro poema, qualquer visceralidade que faria dele um poète de merde que daria ao mundo, ao invés de poemas, merde de poète, o poeta simplesmente reafirma o que, caçando-o, o tomou, trabalhando a seu favor. É o mesmo o que Antonio Cicero afirma em Sobre Pearblossom Hwy., um ensaio a partir de uma colagem de fotografias de David Hockney: “Na relação entre o poeta e a poesia, esta é o fim daquele. Ora, dado que o fim subordina os meios, e não vice-versa, o poeta é um servo – um servo voluntário e apaixonado, é verdade, mas um servo – da poesia. Nessa relação, não é ela que se inclina às conveniências dele, ao contrário do que querem os que pretendem usar a poesia como um veículo para se exprimir, mas é ele que deve dobrar-se às exigências e aos caprichos – inclusive aos silêncios – dela”. Em Alguns Versos, em que aparece a experiência da criação, a que o poeta, espreitado pelo poema em fazimento, voluntária e apaixonadamente, serve, para servir à poesia? Que experiência é essa, a poética? Qual é o poético que, nas linhas que espreitam o poeta, quer caçá-lo? O que o poema guarda para o poeta e, consequentemente, para o leitor, que refaz a abertura do caminho do poeta? Qual é o espanto proporcionado pelo poético desse poema? Retomemos o poema:

As letras brancas de alguns versos me espreitam,

em pé, do fundo azul de uma tela atrás

da qual luz natural adentra a janela

por onde ao levantar quase nada o olhar

vejo o sol aberto amarelar as folhas

da acácia em alvoroço: Marcelo está

para chegar. E de repente, de fora

do presente, pareço apenas lembrar

disso tudo como de algo que não há de

retornar jamais e em lágrimas exulto

de sentir falta justamente da tarde

que me banha e escorre rumo ao mar sem margens

de cujo fundo veio para ser mundo

e se acendeu feito um fósforo, e é tarde.

Na primeira metade do soneto, o mundo atualizado do poeta em trabalho, ou seja, o cotidiano presentificado em torno da mesa do escritório onde a tela de computador se apoia, se revela retratado e feliz. A simetria é envolvente, fazendo todos os elementos convergirem para o ponto em que, lugar de nascimento e realização do poema, tudo está em concordância: a tela do computador. Um poeta escreve um poema, o que, agora, é o mesmo que dizer que um poeta é escrito por um poema. O quadrado ou o retângulo da tela do computador, na qual o poema é escrito, se mostra concretamente; e, logo atrás dela, também quadrada ou retangular, colocando-as em relação, encontra-se uma janela que o poeta vê ao levantar ligeiramente o olhar das linhas que escreve. Aumentando a correspondência, é curioso lembrar que, em inglês, janela é window, palavra que, no plural, denomina o sistema operacional mais usado em computadores de todo o mundo. Ajudando a possibilidade dessa analogia, há o fato de que em Ignorant Sky, a ambivalência entre o sentido de janela e o do sistema operacional Windows já existia: “So you made a cockpit of your bedroom/ And opening electronic windows up/ You scan the universe for kicks, and zoom/ A distant face to get a fake close up”.

Continuando a simetria, pela janela do escritório e, simultaneamente, pelo Windows em funcionamento na tela do computador, uma acácia se mostra iluminada pelo sol, que leva seu tom amarelado para as folhas da árvore. Tendo em conta que a acácia dá grandes cachos de flores amarelas, ela também se mostra, de algum modo, como um sol. Em suas folhas amareladas pela luz da tarde e cachos dourados potenciais, a acácia preserva e duplica o sol. Filtrada pela árvore, a luz do sol adentrando a janela não é demasiadamente forte nem exageradamente fraca: ajudando a compor a naturalidade da tarde, é uma “luz natural”. Com o sol amarelo e a “luz natural” do dia, a acácia adentra pela bela e tranquila janela e pelo Windows, pela tela do computador. Marcelo, a pessoa amada que recebe a dedicatória dos dois livros do poeta e do segundo do filósofo, tema explícito de Elo e Declaração, está para chegar, fato que, trazendo o amor para o poema, acrescenta a cotidianidade serena, alegre e venturosa que envolve o poeta.

Em Declaração, é dito que o amor do poeta a seu amado é declarado, entre outras coisas, por “os meus olhos felizes quando o vêem chegar/ feito um presente e de repente elucidar/ a casa inteira que, conquanto iluminada/ permanecia opaca sem você”. Em mais uma simetria que faz tudo convergir para o poema, a pessoa amada traz em si o sol (mais do que iluminador) elucidante já presente no céu, na acácia e na luz natural que adentra a janela e a tela. Se a acácia é o segundo sol do poema, Marcelo é o terceiro, sem que haja nessa magnetização poética qualquer perda de luz entre esses elos que preservam e desdobram o primeiro sol. Importante observar que, total ou parcialmente, “tela”, “janela”, “amarelar” e “Marcelo” reiteram entre si o segmento fonético final de cada uma dessas palavras, continuando a conformidade geral do poema. Em Balanço, poema inédito, Marcelo aparece explicitamente como alvo do desejo de felicidade, da mesma felicidade que o poeta sente ao vê-lo chegar, bem condizente com o afeto que Alguns Versos quer transmitir ao leitor: “Que ao menos/ os deuses façam felizes e maduros/ Marcelo e um ou dois dos meus futuros versos”. O amor feliz e maduro também se mistura aos versos do poema. E, no divertido Canção de Paulo, de A Cidade e Os Livros, o vínculo entre a pessoa amada e a luz, mais uma vez, se faz presente: “eu quis fazer um poema/ que fosse a fotografia/ do meu amor: o problema/ é que quando ela sorria,/ posava, dizia “agora”/ e a terra se iluminava/ toda do lado de fora,/ do lado de dentro a lava,/ não cabendo mais no centro,/ provocava um terremoto/ gostoso, tendo o epicentro/ em meu sexo, e aí tremia/ tudo na hora da foto,/ ou melhor, da poesia [o grifo é meu].

Com “fundo azul e letras brancas”, a tela do computador é o lugar para o qual converge a totalidade manifesta e contingencial que diz diretamente respeito ao poeta: o céu aberto, o sol, a “luz natural”, a acácia, o vento, a janela, a expectativa de encontro com o amor, o trabalho da escrita em realização, a felicidade, o mar e o fundo do mar (que ainda aparecerão)… Do céu aberto ao fundo do mar, tudo se presentifica no poema, nos fazendo lembrar a “estranha devoção” do poema Ignorant Sky, já mencionada. Com “fundo azul e letras brancas”, a tela do computador reúne em si a totalidade explícita do mundo desde o céu até o fundo do mar, com os quais, pela cor, mantém a simetria. Aliás, em mais uma simetria reveladora da totalidade aparente, em Elo, Marcelo, a pessoa amada, é “Esse horizonte azul assim sem reta” que estabelece o elo entre ar, mar, céu, nome, ser e não ser. Tal elo é a indiscernibilidade entre todos esses termos. Na tranquilidade inicial feliz de Alguns Versos, apenas a situação de “alvoroço” do vento soprando na árvore indica que uma intensidade maior, irrompendo, está por vir. E vem. Pela tela do computador, aproxima-se um acontecimento que não é apenas do que já está evidenciado enquanto o atualizado para o poeta. Chega um novo acontecimento ao poeta. Exatamente no meio do poema, condensando, nesse momento, sua maior voltagem, eclode, subitamente, uma experiência de alegria extática capaz de, tirando o poeta de si mesmo, fender o tempo atual expondo-o a um “fora do presente”. Eis a experiência poética central, à qual o poema e o poeta servem: “[…] E de repente, de fora/ do presente […]”. Se, desde Platão, sabe-se que o poeta descobre um “fora de si” que o constitui, se, desde Keats, sabe-se que o poeta “não tem Identidade” nem um “si mesmo” e se, desde Rimbaud, este fora de si ganha o estatuto de “um outro”, dando sequência a estes acontecimentos tão flagrados por inúmeros poetas e pensadores, Antonio Cicero faz, no poema, uma experimentação extática de sair de si saindo do tempo presente. A escrita mesma do poema parece trazer à tona a possibilidade dessa saída – desse despencamento súbito, desse salto inesperado, desse afundamento repentino, desse deslocamento imprevisto – de si e do tempo.

Há um modo dito de se surpreender fora de si e do tempo presente: “de repente”. É “de repente” que o poeta se surpreende fora do presente. Contrariamente a muitas expectativas, “de repente” não é um jeito de se estar no tempo, mas, antes, uma maneira de se pegar “fora do tempo”. Dizendo com outras palavras: se “de repente” é, por exemplo, associado em geral ao instantâneo ou ao momentâneo ou ao átimo do agora, ou seja, a uma porção mínima do tempo que corre e no qual eucronicamente estamos, o poema nos mostra que o “de repente” diz respeito a um fora de toda e qualquer determinação temporal. “De repente” é, isto sim, uma determinação do atemporal, do acrônico ou do extemporâneo que faz aparecer uma força de irrupção a, impondo-se, enviada sabe-se lá de onde, levar tudo de roldão. Quando ele ocorre, ou quando “de repente” o acontecimento eclode, é como marca de um salto súbito que, na mudança de um estado anterior, concretiza o que, antes do acontecimento, se supunha intangível, uma pura abstração sem qualquer penetração corporal. Não que, em sua emergência, ele perca sua estranheza, se torne apreensível, domesticado, banal, mas sim que, em seu acontecimento, a própria estranheza, a própria inapreensibilidade, o próprio selvagem, o próprio extraordinário ganham corpo – incorporam-se. “De repente” é o mostrar-se do real a quem a ele, como o poeta, se entrega com total devoção. Não à toa, em poema já mencionado, Antonio Cicero pode se declarar a seu amor por “os meus olhos felizes quando o vêem chegar/ feito um presente e de repente elucidar/ a casa inteira que, conquanto iluminada/ permanecia opaca sem você”. “De repente” é o modo amoroso de o real, mais do que se iluminando, elucidando-se, presentear quem, convivendo em intimidade com ele, o ama; “de repente” é o modo amoroso de o real, elucidando-se, presentear quem o ama enquanto “casa inteira”, mostrando, em seu excesso de luz que, quando de seu acontecimento, o que antes parecia iluminado, estava, ainda assim, opaco. A luz repentina do real faz com que tudo que antes, mesmo iluminado, pareça opaco, sendo, de fato, elucidado, ou seja, realizando-se, saia de si e do tempo presente, habitando uma nova morada.

Essa saída injeta uma porosidade no cronológico. Através dela, o poeta passa para outra dimensão, extemporânea ou “agoral”, desde a qual, em lágrimas de exultação, parece apenas lembrar saudosamente da beleza passageira da tarde emque antes estava imerso e que, de “fora do presente”, intempestivamente, “agoralmente”, contempla. Fazendo o poeta sair de si e do tempo presente, a urgência dessa cisão entre o presente e seu fora, entre o poeta na tarde contemplado e o fora do tempo contemplador, revela o próprio presente de um modo jamais imaginado por quem está inteiramente fixado nele. Contemplando o que era atual como algo que jamais retornará, ele vê a tarde ir embora e, com ela, levá-lo em seu tempo presente em direção ao mar extemporâneo, em direção ao mar agoral. O poeta é o ponto nevrálgico que vive a diferença tensiva entre os polos do presente e do fora do presente, transitando pelas maiores voltagens dessa passagem. Suportando as excitações que, convocando o poeta para um novo despertar, o chamam para fora de si e de seu tempo atual, as fibras de seus nervos conduzem os impulsos de uma parte a outra. A vida do poeta o coloca exatamente nessa passagem, nas fissuras e nos liames, nas desarticulações e nas articulações, que aproximam e afastam os extremos do temporal e do intempestivo “agoral”. Estando colocada no presente, dele, ela é arrancada, através de uma brecha qualquer indispensável, através de uma rachadura qualquer que subitamente se anuncia. O intempestivo ou extemporâneo ou “agoral” irrompe de repente no seio do temporal levando-o a um fora de si que o transforma. Sem dúvida, a poesia é uma artrologia, mas, por isso mesmo, é igualmente uma arte do deslocamento e da desarticulação. Nessa duplicidade tensiva, vive o poeta. Passando por fora do presente (fora, entretanto, que não haveria sem o presente), escapando dele, o extemporâneo “agoral” é vivido enquanto uma pulsação – nada abstrata – do real que se apresenta na dissolução do atual. Sair do presente sem sair para um exterior do real, ou melhor, sair das atualizações do presente para, desde um fora do cronológico, mergulhar no mais fundo do real, no diluidor das formas que é também manancial ou, ainda mais, socavão, de onde nascem e se iluminam todas as atualizações para fazerem o mundo e a história dessa e de outras tardes, manhãs, noites, madrugadas…

Em seu caráter faltoso, o atual é o ausente que não mais retorna para que, fazendo sua experiência, o extemporâneo ou o “agoral” possa comparecer. A nostalgia exultante sentida pelo poeta é decorrente do acontecimento súbito que faz com que não seja o anteriormente vivido que, de sua ausência, voluntária ou involuntariamente, retorne em sua lembrança, mas, antes, é um não vivido, um fora do presente, um fora do passado, um fora do futuro, um fora de todo e qualquer tempo determinado que, de seu esquecimento, eclode, guardando nele o poeta. Intempestivo, “agoral”, o poeta é aquele que, em todo vivido e em todo presente, lida com o não vivido e com o esquecimento. Acontecendo o acesso inesperado, o não vivido se revela contemporâneo do vivido, o esquecimento se revela contemporâneo do presente, o extemporâneo se revela contemporâneo do atual. Estão certas as pessoas que chamam Antonio Cicero de um poeta clássico, mas erram nos motivos: ele não é clássico por alguma razão formal ou temática de seus poemas (o que seria muito pouco), mas por ter a força de criar desde a descoberta poética de um fora do presente, para repetidamente interferir na atualidade de seu tempo, fendendo-a, fazendo esguichar nela uma potência a que estratégias de poder da atualidade não querem deixar se ter acesso. Se a poesia lírica é vista, desde seu começo, como a do aqui e do agora nos quais o poeta se anuncia, o fato é que, também desde seu começo, os vetores temporais, locais e individuais se apagam, descobrindo os foras de si de suas demarcações – estes, sim, poetados, estes, sim, os motivos dos poemas, estes, sim, os que pensam o poema. Não sendo primeiramente do passado nem do futuro, a poesia lírica é a que parte do presente para cantar (desde) sua cava, (desde) sua implosão, por onde emerge o fora do presente, o extemporâneo. Muito mais do que objeto do poema, a abertura entre o presente e o extemporâneo, a passagem do atual para o intempestivo, a imersão no “agoral”, é que se pensa no poema.

O poema flagra uma ambiência cindida entre o temporal e o extemporâneo, de tal modo que o temporal (as configurações mundanas do presente) é violentado pela chegada do extemporâneo, do “agoral” como o real enquanto a possibilidade dos mundos, sendo mesmo uma passagem, uma abertura, uma entrada, um acesso, uma cavidade para tal potência. Se essa abertura pode estar na materialidade do mundo, é porque, ao lidarmos com o mundo, já estamos na linguagem, sendo nela que lidamos com ele. Enquanto abertura para o ilimitado real do extemporâneo, a linguagem se faz poema, fazendo do poema a manifestação do extemporâneo no tempo, do imaterial na matéria, do incorporal no corpo, do ilimitado no limite, do fora de si em tudo o que há. Talvez a força maior do poema seja a de levar o presente, que não pode se consolidar em uma história, para um fora de si, para um horizonte dinamizador do tempo presente e, consequentemente, dos outros tempos e da história. Talvez a força maior da arte contemporânea seja passar pelo presente para, em alvoroço, arrastá-lo ao extemporâneo; talvez a força maior da arte contemporânea seja, lidando com o presente, fendê-lo, atravessá-lo, perfurá-lo, cavá-lo, até encontrar seu fora; talvez a força maior da arte contemporânea seja revivificar a vida dos viventes na sobrevivência do extemporâneo que lhes cabe. O extemporâneo leva o presente a se fazer contemporâneo do latejo da origem de qualquer e de todos os tempos, da pulsação mesma dos movimentos inapreensíveis da história. É desde o presente que podemos sentir melhor essa palpitação da origem, já que ele é o tempo no qual estamos lançados e que faz coexistir todos os outros tempos. Como já mostrado, a poesia de Antonio Cicero é uma poesia de todos os tempos e de todos os lugares, de uma heterocronia e de uma heterotopia. Da mesma forma, escapando da antinomia do antigo e do novo, a poesia de Antonio Cicero é de tempo nenhum e de nenhum lugar, de uma acronia e de uma atopia. A poesia de Antonio Cicero se coloca no intervalo enigmático entre o tempo presente, a acronia e a heterocronia, entre o lugar atual, a atopia e a heterotopia. A poesia de Antonio Cicero descobre um princípio de intercambialidade ou de conversibilidade entre tais termos.

Enquanto a atualidade implica uma noção qualquer de delimitação topográfica e temporal, a poesia, experimentação privilegiada da linguagem, descobre uma fenda no espaço e no tempo (uma atopia e uma acronia), criando neles justaposições inesperadas de espaços e tempos, simultaneidades do próximo e do longínquo ou do antigo e do novo. No lugar de um espaço e de um tempo quantitativos, juntando o disperso e dispersando o reunido, a poesia cria encruzilhadas qualitativas – intensivas – possibilitadoras de encontros de forças espaciais e temporais imprevisíveis. Em suas configurações desenraizadoras, há na poesia uma diagonal de desprovincianização que, através da deslocalização do localizado, engendra vizinhanças heterogêneas impossíveis fora dela. Desenraizadora, a poesia é cosmopolita, cosmopolita, a poesia é contemporânea, contemporânea, a poesia impõe uma força de atração para fora de nós, de nosso tempo, de nossa história, de nosso lugar… A partir de nós, ela cria outros fora de nós, de nós, ainda que supostamente em nós, ela cria um fora, ela obriga nosso tempo a fugir sabe-se lá para que fora dos tempos, ela exerce tal força sequestradora nos espaços em que estamos que subitamente dá neles um sumiço total ou parcial, desespacializando-os. No que diz respeito à poesia, a todo momento, trata-se de uma heterogenia espacial e temporal, de uma heterotopia e de uma heterocronia que coloca os tempos e lugares demarcados em suspensão. Contrariamente ao que parece, a poesia neutraliza a rigidez do quem somos, onde estamos, em que momento vivemos. Por isso, ela sabe como ninguém quem (não) somos, onde (não) estamos, em que (fora do) tempo vivemos. Em vez de, utópica, inventar ideiais de tempos e lugares irreais desejosos de um dia serem alcançados enquanto tempos e lugares que, melhores, se tornem reais, a poesia está antes do lado da atopia, da heterotopia, da acronia, da heterocronia, em poucas palavras, do real enquanto seu movimento de escape em direção ao que nunca se deixa ser manipulado. A poesia é real exatamente no escape imanipulável que ela faz comparecer em sua realidade; não à toa (e isso não é apenas um jogo de palavras), contrariamente a quase tudo que é vivido no cotidiano, contrariamente a quase tudo que é vivido, a poesia é hiper-real. Sua hiper-realidade lhe permite conter o que contêm o cultural, o contracultural e, mais do que tudo, o selvagem desde onde nascem o cultural, o contracultural e o que deles escapa. Seu lugar é o lugar de todos os lugares e de lugar nenhum, seu tempo é o tempo de todos os tempos e de tempo algum, sua pessoa é a pessoa de todas as pessoas e de pessoa alguma. O lugar da poesia é lugar sem lugar, o tempo da poesia é tempo sem tempo, a pessoa da poesia é pessoa sem pessoa. A poesia nos oferece a possibilidade de nos olharmos desde esse sem pessoa, de olhar nossos lugares desde esse não lugar, de olhar nosso tempo desde esse fora do tempo, de olhar a gente, nossos lugares e tempos como passageiros e precários, ainda que passíveis de alegrias e comemorações ou, passíveis de alegrias e comemorações justamente porque, em exultação, a poesia flagra, neles, a beleza do passageiro e do precário. Como nos mostra Antonio Cicero, a poesia celebra a festa da beleza do passageiro desde a encruzilhada do tempo e dos lugares com o fora do tempo e o fora dos lugares. No que diz respeito à celebração do passageiro, indico aqui a força que o carpe diem da Ode I,II, de Horácio, traduzida, inclusive, por Cicero e postada em seu blog em 18/05/2009, teve sobre muitos de seus poemas, como, só para citar poucos, Segundo a Tradição e o estupendo Buquê.

No gozo de sua “agoralidade” poética, o poeta, então anônimo, está em “lágrimas”, a tarde “banha” sua vida diária, nominal e pessoal que “escorre” em direção ao “mar”. Tudo o que, nele e em torno dele, era sólido se liquefaz no ambiente líquido do mar. Não, entretanto, em um mar qualquer (de Ipanema, Arpoador, Copacabana, Leme, Urca, Botafogo ou Flamengo, por exemplo), mas num “mar sem margens”. Poderia dizer: num mar sem mar, num mar sem o elemento água, num mar sem a substância líquida da água: na imensidão de um mar ilimitado – lar do poeta (“Ah, se eu fosse marinheiro/ seria doce meu lar/ Não só o Rio de Janeiro/ A imensidão e o mar”). Se mar é a palavra poética para que o ilimitado se exponha, tudo o que está no temporal se dilui no ilimitado de um extemporâneo, ele mesmo inesquecível, ele mesmo retornante, ele mesmo reivindicado. Em vez de seu contrário, o extemporâneo é a falta ou o excesso necessários e constitutivos das atualizações do contemporâneo: isso porque o contemporâneo não precisa demandar a presença exclusiva de sua atualidade (já dada), podendo lidar mais livremente com as potências de seu tempo e, consequentemente, de todos os tempos. Tornar o mundano real, reintegrar o atual ao campo do possível, absorver o acabado no inacabado sempre por se fazer, garantir a existência do ilimitado, do informe, é a realização maior do poema e das obras de arte de modo geral, da mesma maneira que o poema e as obras de arte insistem em guardar em suas atualizações as maiores voltagens da extemporaneidade que, com eles, mantêm uma relação de imediaticidade.

Enquanto a filosofia cartesiana parte da experiência de uma dúvida hiperbólica, a poesia nos leva a vivenciar uma exultação hiperbólica. A exclamação tem por objeto a tarde e tudo o que diz respeito a ela e ao seu tempo presente, mas a exclamação, admirativa, está fora do tempo corrente, não podendo, de modo algum, ser objetificada. Se Antonio Cicero, morador da Rua David Campista, no Humaitá, no mesmo prédio em que eu moro, pode ser objetificado, com a exclamação ou a exultação, o poeta perde qualquer possibilidade de objetificação, mostrando-se desde o avesso do que, nele, é pessoal, individual. Não é a pessoa particular quem pensa ou escreve um poema e, pensando-o e o escrevendo, atravessa a experiência poética, mas quem pensa ou escreve um poema é a exclamação, a exultação, o êxtase: quem pensa ou escreve um poema, pensa e escreve de fora de si, de seu tempo e de seu lugar, ainda que veja e lide consigo, com seu tempo e com seu lugar. Extática, exultante, exclamativa, admirativa, espantosa, a existência do poeta se confunde, então, com o fora de si e de todas as outras coisas. Nesse sentido, o Antonio Cicero, meu vizinho, é um sujeito alienado do poema e, como tal, não sendo o poeta, se mostra para este como qualquer outro objeto que o circunda e que se encontra disponível ao poema. O poeta é o impessoal fora do tempo que toma o meu vizinho enquanto mais uma particularidade do mundo arrastando-o, com tudo o que é contingencial, para a experiência poética da imensidão do ilimitado que o habita. Antonio Cicero é uma assinatura que designa um heterônimo do anônimo poético. Nessa cisão que há em quem é poeta, fazendo-o ser bifronte, tendo um lado pessoal e uma dimensão poética, impessoal, extática, exultante, exclamativa, ao longo dos tempos, foi dito que quem poetava era: a Musa, os deuses, a Natureza, Deus, entre outros. Na modernidade, não se deseja colocar nenhum outro ente em seu lugar, mantendo-o enquanto negativo. Na famosa frase, “Je est un autre”, Rimbaud o chamou de outro. Um outro aberto, é claro, e não substantivado. Em seus ensaios, Antonio Cicero chama esse movimento “entre os entes e a essência negativa do ser de apócrise”, mas, aqui, o que me interessa é flagrar um movimento do pensamento de seus poemas.

Preservando a simetria do soneto, que tem sua experiência repentina de quebra do cotidiano e do próprio poema exatamente no sétimo verso, demarcador de seu centro, e mostrando seu jogo de espelhamentos, pode-se ver que o penúltimo verso, desdobrando a origem ilimitada (do “mar sem margens”), repete, também em desdobramento especular, uma palavra presente no segundo verso: fundo. O “fundo” do “mar sem margens” para onde tudo dessa tarde escorre e de onde tudo desta tarde provém confunde-se, assim, com o “fundo azul de uma tela” onde “as letras brancas de alguns versos” espreitam o poeta. Para esse fundo azul do mar sem margens e sem fundo de uma tela, a própria tarde vai; desse fundo azul do mar sem margens e sem fundo de uma tela, a própria tarde veio e “se acendeu feito um fósforo”. Esse fundo azul do mar sem margens e sem fundo de uma tela é trazido do oculto para a superfície por “alguns versos”, que fazem a tarde se acender e se apagar. Esse fundo azul do mar sem margens e sem fundo de uma tela é inteiramente abissal. Seu abismo se confunde com as palavras poéticas. Essa dimensão originária da linguagem (o ilimitado para onde e desde onde, dando a medida do acender e do apagar de todas as coisas, tudo converge) leva o poeta em sua necessidade de renascimento fora de si e de seu tempo a lágrimas de exultação. De um modo mais simples, isso também se coloca em O Emigrante, cujo personagem, ao fim, “Chegou chorando assim como quem nasce/ E o mundo alumbra um segundo e assombra”. Visto desde a origem, tudo que ganha qualquer tipo de individuação é uma “criatura de um só dia, que, bela porque gratuita, És festa/ Serás luto”.

Em um Poema inédito, igualmente revelador do motivo pelo qual em outros versos o poeta se mostra “Herdeiro das superfícies e das profundezas” ou, ainda, como quem aprende que “no fundo de mim/ sou sem fundo”, essa origem oculta, ilimitada e extemporânea, que se diz guardada em cada fonema, em cada sílaba, em cada vocábulo, em cada verso que a manifesta, está escrita da seguinte maneira:

Segredo não é, conquanto oculto;

mas onde oculto, se o manifesta

cada verso, cada vocábulo,

cada sílaba, cada fonema?

E se o trecho opaco como um muro

valerá nossas noites em claro

e não raro justo o mais obscuro

resplandecerá mais que o mais claro?

O poema é o limite que guarda o ilimitado oculto da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é uma forma que guarda o informe oculto da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é o corpo que guarda o incorporal oculto da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é o determinado que guarda o indeterminado oculto da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é alguma coisa que guarda o nada oculto da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é uma evidência que guarda o incerto oculto da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é um exterior que guarda o infundado oculto da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é uma clareza que guarda o breu oculto da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é o amarrado que guarda o desamarrado oculto da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é a lembrança que guarda o esquecimento oculto da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é uma beleza que guarda o mistério oculto da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é um aire que guarda a imensidão oculta da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é um finito que guarda a infinitude oculta da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é um conteúdo que guarda o vão oculto da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é uma miragem que guarda a verdade oculta da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é uma identidade que guarda a não-identidade oculta da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é uma contingência que guarda o absoluto oculto da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é uma luminosidade que guarda a escuridão oculta da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é o chão que guarda o abismo oculto da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é um nome que guarda o anônimo oculto da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é uma solução que guarda a dissolução oculta da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é um amparo que guarda o desamparo oculto da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é um dado que guarda o nunca dado oculto da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é um acessível que guarda o inacessível oculto da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é a extensão que guarda a intensidade oculta da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é um mortal que guarda a imortalidade oculta da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é um ser que guarda o não ser oculto da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é uma ordem que guarda o caos oculto da poesia na resplandecência de sua superfície…

O poema guarda o tempo atualizado e, nele, subitamente, instaura o obscuro do extemporâneo. Essa tensão ou essa conversibilidade (de ver o ilimitado desde o limitado e este desde aquele, o informe desde a forma e esta desde aquele, o incorporal desde o corporal e este desde aquele, o extemporâneo desde o temporal e este desde aquele…) é a contemporaneidade (ou o “agoral”) engendrada pelo poema. Contemporaneidade que comporta ser ao mesmo tempo recôndita e radiante para designar com as palavras, e só com elas, “o caos arreganhado a receber-me incontinente”. Por esse caos, por essa abertura, por esse ilimitado, por esse incorporal, por esse indeterminado… por esse extemporâneo que, no contemporâneo, abarca e transforma o temporal, o poema, que “está na confluência da miragem e da verdade”, ainda preserva em si o espaço possível onde se pode respirar, “pois todas as cidades encolheram,/ são previsíveis, dão claustrofobia/ e até dariam tédio, se não fossem/ os livros infinitos que contêm”… Se não fossem “os livros infinitos” e, sobretudo, se não fosse o infinito de cada livro, se não fosse o infinito que cada poema traz consigo, nos oferecendo um balão de oxigênio para que possamos – ainda – respirar da melhor e mais livre maneira. Não à toa, a epígrafe do livro A Cidade e Os Livros é um poema de Rose Ausländer, que diz:

Ainda há espaço

para um poema

Ainda é o poema

um espaço

Onde se pode respirar.

Alberto Pucheu

NO E DE FORA DO PRESENTE: ANTONIO CICERO, UM POETA DO AGORAL (II)

Retornando a Alguns Versos, não parece, portanto, sem sentido que “as letras brancas de alguns versos me espreitam”. De fato, é o poema que espreita o poeta e não, primeiramente, o inverso; cego para seu ego, cego para aquilo que é o mais arraigado na individualidade do poeta, cego para um fundo positivo de si, cego para, como diz outro poema, qualquer visceralidade que faria dele um poète de merde que daria ao mundo, ao invés de poemas, merde de poète, o poeta simplesmente reafirma o que, caçando-o, o tomou, trabalhando a seu favor. É o mesmo o que Antonio Cicero afirma em Sobre Pearblossom Hwy., um ensaio a partir de uma colagem de fotografias de David Hockney: “Na relação entre o poeta e a poesia, esta é o fim daquele. Ora, dado que o fim subordina os meios, e não vice-versa, o poeta é um servo – um servo voluntário e apaixonado, é verdade, mas um servo – da poesia. Nessa relação, não é ela que se inclina às conveniências dele, ao contrário do que querem os que pretendem usar a poesia como um veículo para se exprimir, mas é ele que deve dobrar-se às exigências e aos caprichos – inclusive aos silêncios – dela”. Em Alguns Versos, em que aparece a experiência da criação, a que o poeta, espreitado pelo poema em fazimento, voluntária e apaixonadamente, serve, para servir à poesia? Que experiência é essa, a poética? Qual é o poético que, nas linhas que espreitam o poeta, quer caçá-lo? O que o poema guarda para o poeta e, consequentemente, para o leitor, que refaz a abertura do caminho do poeta? Qual é o espanto proporcionado pelo poético desse poema? Retomemos o poema:

As letras brancas de alguns versos me espreitam,

em pé, do fundo azul de uma tela atrás

da qual luz natural adentra a janela

por onde ao levantar quase nada o olhar

vejo o sol aberto amarelar as folhas

da acácia em alvoroço: Marcelo está

para chegar. E de repente, de fora

do presente, pareço apenas lembrar

disso tudo como de algo que não há de

retornar jamais e em lágrimas exulto

de sentir falta justamente da tarde

que me banha e escorre rumo ao mar sem margens

de cujo fundo veio para ser mundo

e se acendeu feito um fósforo, e é tarde.

Na primeira metade do soneto, o mundo atualizado do poeta em trabalho, ou seja, o cotidiano presentificado em torno da mesa do escritório onde a tela de computador se apoia, se revela retratado e feliz. A simetria é envolvente, fazendo todos os elementos convergirem para o ponto em que, lugar de nascimento e realização do poema, tudo está em concordância: a tela do computador. Um poeta escreve um poema, o que, agora, é o mesmo que dizer que um poeta é escrito por um poema. O quadrado ou o retângulo da tela do computador, na qual o poema é escrito, se mostra concretamente; e, logo atrás dela, também quadrada ou retangular, colocando-as em relação, encontra-se uma janela que o poeta vê ao levantar ligeiramente o olhar das linhas que escreve. Aumentando a correspondência, é curioso lembrar que, em inglês, janela é window, palavra que, no plural, denomina o sistema operacional mais usado em computadores de todo o mundo. Ajudando a possibilidade dessa analogia, há o fato de que em Ignorant Sky, a ambivalência entre o sentido de janela e o do sistema operacional Windows já existia: “So you made a cockpit of your bedroom/ And opening electronic windows up/ You scan the universe for kicks, and zoom/ A distant face to get a fake close up”.

Continuando a simetria, pela janela do escritório e, simultaneamente, pelo Windows em funcionamento na tela do computador, uma acácia se mostra iluminada pelo sol, que leva seu tom amarelado para as folhas da árvore. Tendo em conta que a acácia dá grandes cachos de flores amarelas, ela também se mostra, de algum modo, como um sol. Em suas folhas amareladas pela luz da tarde e cachos dourados potenciais, a acácia preserva e duplica o sol. Filtrada pela árvore, a luz do sol adentrando a janela não é demasiadamente forte nem exageradamente fraca: ajudando a compor a naturalidade da tarde, é uma “luz natural”. Com o sol amarelo e a “luz natural” do dia, a acácia adentra pela bela e tranquila janela e pelo Windows, pela tela do computador. Marcelo, a pessoa amada que recebe a dedicatória dos dois livros do poeta e do segundo do filósofo, tema explícito de Elo e Declaração, está para chegar, fato que, trazendo o amor para o poema, acrescenta a cotidianidade serena, alegre e venturosa que envolve o poeta.

Em Declaração, é dito que o amor do poeta a seu amado é declarado, entre outras coisas, por “os meus olhos felizes quando o vêem chegar/ feito um presente e de repente elucidar/ a casa inteira que, conquanto iluminada/ permanecia opaca sem você”. Em mais uma simetria que faz tudo convergir para o poema, a pessoa amada traz em si o sol (mais do que iluminador) elucidante já presente no céu, na acácia e na luz natural que adentra a janela e a tela. Se a acácia é o segundo sol do poema, Marcelo é o terceiro, sem que haja nessa magnetização poética qualquer perda de luz entre esses elos que preservam e desdobram o primeiro sol. Importante observar que, total ou parcialmente, “tela”, “janela”, “amarelar” e “Marcelo” reiteram entre si o segmento fonético final de cada uma dessas palavras, continuando a conformidade geral do poema. Em Balanço, poema inédito, Marcelo aparece explicitamente como alvo do desejo de felicidade, da mesma felicidade que o poeta sente ao vê-lo chegar, bem condizente com o afeto que Alguns Versos quer transmitir ao leitor: “Que ao menos/ os deuses façam felizes e maduros/ Marcelo e um ou dois dos meus futuros versos”. O amor feliz e maduro também se mistura aos versos do poema. E, no divertido Canção de Paulo, de A Cidade e Os Livros, o vínculo entre a pessoa amada e a luz, mais uma vez, se faz presente: “eu quis fazer um poema/ que fosse a fotografia/ do meu amor: o problema/ é que quando ela sorria,/ posava, dizia “agora”/ e a terra se iluminava/ toda do lado de fora,/ do lado de dentro a lava,/ não cabendo mais no centro,/ provocava um terremoto/ gostoso, tendo o epicentro/ em meu sexo, e aí tremia/ tudo na hora da foto,/ ou melhor, da poesia [o grifo é meu].

Com “fundo azul e letras brancas”, a tela do computador é o lugar para o qual converge a totalidade manifesta e contingencial que diz diretamente respeito ao poeta: o céu aberto, o sol, a “luz natural”, a acácia, o vento, a janela, a expectativa de encontro com o amor, o trabalho da escrita em realização, a felicidade, o mar e o fundo do mar (que ainda aparecerão)… Do céu aberto ao fundo do mar, tudo se presentifica no poema, nos fazendo lembrar a “estranha devoção” do poema Ignorant Sky, já mencionada. Com “fundo azul e letras brancas”, a tela do computador reúne em si a totalidade explícita do mundo desde o céu até o fundo do mar, com os quais, pela cor, mantém a simetria. Aliás, em mais uma simetria reveladora da totalidade aparente, em Elo, Marcelo, a pessoa amada, é “Esse horizonte azul assim sem reta” que estabelece o elo entre ar, mar, céu, nome, ser e não ser. Tal elo é a indiscernibilidade entre todos esses termos. Na tranquilidade inicial feliz de Alguns Versos, apenas a situação de “alvoroço” do vento soprando na árvore indica que uma intensidade maior, irrompendo, está por vir. E vem. Pela tela do computador, aproxima-se um acontecimento que não é apenas do que já está evidenciado enquanto o atualizado para o poeta. Chega um novo acontecimento ao poeta. Exatamente no meio do poema, condensando, nesse momento, sua maior voltagem, eclode, subitamente, uma experiência de alegria extática capaz de, tirando o poeta de si mesmo, fender o tempo atual expondo-o a um “fora do presente”. Eis a experiência poética central, à qual o poema e o poeta servem: “[…] E de repente, de fora/ do presente […]”. Se, desde Platão, sabe-se que o poeta descobre um “fora de si” que o constitui, se, desde Keats, sabe-se que o poeta “não tem Identidade” nem um “si mesmo” e se, desde Rimbaud, este fora de si ganha o estatuto de “um outro”, dando sequência a estes acontecimentos tão flagrados por inúmeros poetas e pensadores, Antonio Cicero faz, no poema, uma experimentação extática de sair de si saindo do tempo presente. A escrita mesma do poema parece trazer à tona a possibilidade dessa saída – desse despencamento súbito, desse salto inesperado, desse afundamento repentino, desse deslocamento imprevisto – de si e do tempo.

Há um modo dito de se surpreender fora de si e do tempo presente: “de repente”. É “de repente” que o poeta se surpreende fora do presente. Contrariamente a muitas expectativas, “de repente” não é um jeito de se estar no tempo, mas, antes, uma maneira de se pegar “fora do tempo”. Dizendo com outras palavras: se “de repente” é, por exemplo, associado em geral ao instantâneo ou ao momentâneo ou ao átimo do agora, ou seja, a uma porção mínima do tempo que corre e no qual eucronicamente estamos, o poema nos mostra que o “de repente” diz respeito a um fora de toda e qualquer determinação temporal. “De repente” é, isto sim, uma determinação do atemporal, do acrônico ou do extemporâneo que faz aparecer uma força de irrupção a, impondo-se, enviada sabe-se lá de onde, levar tudo de roldão. Quando ele ocorre, ou quando “de repente” o acontecimento eclode, é como marca de um salto súbito que, na mudança de um estado anterior, concretiza o que, antes do acontecimento, se supunha intangível, uma pura abstração sem qualquer penetração corporal. Não que, em sua emergência, ele perca sua estranheza, se torne apreensível, domesticado, banal, mas sim que, em seu acontecimento, a própria estranheza, a própria inapreensibilidade, o próprio selvagem, o próprio extraordinário ganham corpo – incorporam-se. “De repente” é o mostrar-se do real a quem a ele, como o poeta, se entrega com total devoção. Não à toa, em poema já mencionado, Antonio Cicero pode se declarar a seu amor por “os meus olhos felizes quando o vêem chegar/ feito um presente e de repente elucidar/ a casa inteira que, conquanto iluminada/ permanecia opaca sem você”. “De repente” é o modo amoroso de o real, mais do que se iluminando, elucidando-se, presentear quem, convivendo em intimidade com ele, o ama; “de repente” é o modo amoroso de o real, elucidando-se, presentear quem o ama enquanto “casa inteira”, mostrando, em seu excesso de luz que, quando de seu acontecimento, o que antes parecia iluminado, estava, ainda assim, opaco. A luz repentina do real faz com que tudo que antes, mesmo iluminado, pareça opaco, sendo, de fato, elucidado, ou seja, realizando-se, saia de si e do tempo presente, habitando uma nova morada.

Essa saída injeta uma porosidade no cronológico. Através dela, o poeta passa para outra dimensão, extemporânea ou “agoral”, desde a qual, em lágrimas de exultação, parece apenas lembrar saudosamente da beleza passageira da tarde emque antes estava imerso e que, de “fora do presente”, intempestivamente, “agoralmente”, contempla. Fazendo o poeta sair de si e do tempo presente, a urgência dessa cisão entre o presente e seu fora, entre o poeta na tarde contemplado e o fora do tempo contemplador, revela o próprio presente de um modo jamais imaginado por quem está inteiramente fixado nele. Contemplando o que era atual como algo que jamais retornará, ele vê a tarde ir embora e, com ela, levá-lo em seu tempo presente em direção ao mar extemporâneo, em direção ao mar agoral. O poeta é o ponto nevrálgico que vive a diferença tensiva entre os polos do presente e do fora do presente, transitando pelas maiores voltagens dessa passagem. Suportando as excitações que, convocando o poeta para um novo despertar, o chamam para fora de si e de seu tempo atual, as fibras de seus nervos conduzem os impulsos de uma parte a outra. A vida do poeta o coloca exatamente nessa passagem, nas fissuras e nos liames, nas desarticulações e nas articulações, que aproximam e afastam os extremos do temporal e do intempestivo “agoral”. Estando colocada no presente, dele, ela é arrancada, através de uma brecha qualquer indispensável, através de uma rachadura qualquer que subitamente se anuncia. O intempestivo ou extemporâneo ou “agoral” irrompe de repente no seio do temporal levando-o a um fora de si que o transforma. Sem dúvida, a poesia é uma artrologia, mas, por isso mesmo, é igualmente uma arte do deslocamento e da desarticulação. Nessa duplicidade tensiva, vive o poeta. Passando por fora do presente (fora, entretanto, que não haveria sem o presente), escapando dele, o extemporâneo “agoral” é vivido enquanto uma pulsação – nada abstrata – do real que se apresenta na dissolução do atual. Sair do presente sem sair para um exterior do real, ou melhor, sair das atualizações do presente para, desde um fora do cronológico, mergulhar no mais fundo do real, no diluidor das formas que é também manancial ou, ainda mais, socavão, de onde nascem e se iluminam todas as atualizações para fazerem o mundo e a história dessa e de outras tardes, manhãs, noites, madrugadas…

Em seu caráter faltoso, o atual é o ausente que não mais retorna para que, fazendo sua experiência, o extemporâneo ou o “agoral” possa comparecer. A nostalgia exultante sentida pelo poeta é decorrente do acontecimento súbito que faz com que não seja o anteriormente vivido que, de sua ausência, voluntária ou involuntariamente, retorne em sua lembrança, mas, antes, é um não vivido, um fora do presente, um fora do passado, um fora do futuro, um fora de todo e qualquer tempo determinado que, de seu esquecimento, eclode, guardando nele o poeta. Intempestivo, “agoral”, o poeta é aquele que, em todo vivido e em todo presente, lida com o não vivido e com o esquecimento. Acontecendo o acesso inesperado, o não vivido se revela contemporâneo do vivido, o esquecimento se revela contemporâneo do presente, o extemporâneo se revela contemporâneo do atual. Estão certas as pessoas que chamam Antonio Cicero de um poeta clássico, mas erram nos motivos: ele não é clássico por alguma razão formal ou temática de seus poemas (o que seria muito pouco), mas por ter a força de criar desde a descoberta poética de um fora do presente, para repetidamente interferir na atualidade de seu tempo, fendendo-a, fazendo esguichar nela uma potência a que estratégias de poder da atualidade não querem deixar se ter acesso. Se a poesia lírica é vista, desde seu começo, como a do aqui e do agora nos quais o poeta se anuncia, o fato é que, também desde seu começo, os vetores temporais, locais e individuais se apagam, descobrindo os foras de si de suas demarcações – estes, sim, poetados, estes, sim, os motivos dos poemas, estes, sim, os que pensam o poema. Não sendo primeiramente do passado nem do futuro, a poesia lírica é a que parte do presente para cantar (desde) sua cava, (desde) sua implosão, por onde emerge o fora do presente, o extemporâneo. Muito mais do que objeto do poema, a abertura entre o presente e o extemporâneo, a passagem do atual para o intempestivo, a imersão no “agoral”, é que se pensa no poema.

O poema flagra uma ambiência cindida entre o temporal e o extemporâneo, de tal modo que o temporal (as configurações mundanas do presente) é violentado pela chegada do extemporâneo, do “agoral” como o real enquanto a possibilidade dos mundos, sendo mesmo uma passagem, uma abertura, uma entrada, um acesso, uma cavidade para tal potência. Se essa abertura pode estar na materialidade do mundo, é porque, ao lidarmos com o mundo, já estamos na linguagem, sendo nela que lidamos com ele. Enquanto abertura para o ilimitado real do extemporâneo, a linguagem se faz poema, fazendo do poema a manifestação do extemporâneo no tempo, do imaterial na matéria, do incorporal no corpo, do ilimitado no limite, do fora de si em tudo o que há. Talvez a força maior do poema seja a de levar o presente, que não pode se consolidar em uma história, para um fora de si, para um horizonte dinamizador do tempo presente e, consequentemente, dos outros tempos e da história. Talvez a força maior da arte contemporânea seja passar pelo presente para, em alvoroço, arrastá-lo ao extemporâneo; talvez a força maior da arte contemporânea seja, lidando com o presente, fendê-lo, atravessá-lo, perfurá-lo, cavá-lo, até encontrar seu fora; talvez a força maior da arte contemporânea seja revivificar a vida dos viventes na sobrevivência do extemporâneo que lhes cabe. O extemporâneo leva o presente a se fazer contemporâneo do latejo da origem de qualquer e de todos os tempos, da pulsação mesma dos movimentos inapreensíveis da história. É desde o presente que podemos sentir melhor essa palpitação da origem, já que ele é o tempo no qual estamos lançados e que faz coexistir todos os outros tempos. Como já mostrado, a poesia de Antonio Cicero é uma poesia de todos os tempos e de todos os lugares, de uma heterocronia e de uma heterotopia. Da mesma forma, escapando da antinomia do antigo e do novo, a poesia de Antonio Cicero é de tempo nenhum e de nenhum lugar, de uma acronia e de uma atopia. A poesia de Antonio Cicero se coloca no intervalo enigmático entre o tempo presente, a acronia e a heterocronia, entre o lugar atual, a atopia e a heterotopia. A poesia de Antonio Cicero descobre um princípio de intercambialidade ou de conversibilidade entre tais termos.

Enquanto a atualidade implica uma noção qualquer de delimitação topográfica e temporal, a poesia, experimentação privilegiada da linguagem, descobre uma fenda no espaço e no tempo (uma atopia e uma acronia), criando neles justaposições inesperadas de espaços e tempos, simultaneidades do próximo e do longínquo ou do antigo e do novo. No lugar de um espaço e de um tempo quantitativos, juntando o disperso e dispersando o reunido, a poesia cria encruzilhadas qualitativas – intensivas – possibilitadoras de encontros de forças espaciais e temporais imprevisíveis. Em suas configurações desenraizadoras, há na poesia uma diagonal de desprovincianização que, através da deslocalização do localizado, engendra vizinhanças heterogêneas impossíveis fora dela. Desenraizadora, a poesia é cosmopolita, cosmopolita, a poesia é contemporânea, contemporânea, a poesia impõe uma força de atração para fora de nós, de nosso tempo, de nossa história, de nosso lugar… A partir de nós, ela cria outros fora de nós, de nós, ainda que supostamente em nós, ela cria um fora, ela obriga nosso tempo a fugir sabe-se lá para que fora dos tempos, ela exerce tal força sequestradora nos espaços em que estamos que subitamente dá neles um sumiço total ou parcial, desespacializando-os. No que diz respeito à poesia, a todo momento, trata-se de uma heterogenia espacial e temporal, de uma heterotopia e de uma heterocronia que coloca os tempos e lugares demarcados em suspensão. Contrariamente ao que parece, a poesia neutraliza a rigidez do quem somos, onde estamos, em que momento vivemos. Por isso, ela sabe como ninguém quem (não) somos, onde (não) estamos, em que (fora do) tempo vivemos. Em vez de, utópica, inventar ideiais de tempos e lugares irreais desejosos de um dia serem alcançados enquanto tempos e lugares que, melhores, se tornem reais, a poesia está antes do lado da atopia, da heterotopia, da acronia, da heterocronia, em poucas palavras, do real enquanto seu movimento de escape em direção ao que nunca se deixa ser manipulado. A poesia é real exatamente no escape imanipulável que ela faz comparecer em sua realidade; não à toa (e isso não é apenas um jogo de palavras), contrariamente a quase tudo que é vivido no cotidiano, contrariamente a quase tudo que é vivido, a poesia é hiper-real. Sua hiper-realidade lhe permite conter o que contêm o cultural, o contracultural e, mais do que tudo, o selvagem desde onde nascem o cultural, o contracultural e o que deles escapa. Seu lugar é o lugar de todos os lugares e de lugar nenhum, seu tempo é o tempo de todos os tempos e de tempo algum, sua pessoa é a pessoa de todas as pessoas e de pessoa alguma. O lugar da poesia é lugar sem lugar, o tempo da poesia é tempo sem tempo, a pessoa da poesia é pessoa sem pessoa. A poesia nos oferece a possibilidade de nos olharmos desde esse sem pessoa, de olhar nossos lugares desde esse não lugar, de olhar nosso tempo desde esse fora do tempo, de olhar a gente, nossos lugares e tempos como passageiros e precários, ainda que passíveis de alegrias e comemorações ou, passíveis de alegrias e comemorações justamente porque, em exultação, a poesia flagra, neles, a beleza do passageiro e do precário. Como nos mostra Antonio Cicero, a poesia celebra a festa da beleza do passageiro desde a encruzilhada do tempo e dos lugares com o fora do tempo e o fora dos lugares. No que diz respeito à celebração do passageiro, indico aqui a força que o carpe diem da Ode I,II, de Horácio, traduzida, inclusive, por Cicero e postada em seu blog em 18/05/2009, teve sobre muitos de seus poemas, como, só para citar poucos, Segundo a Tradição e o estupendo Buquê.

No gozo de sua “agoralidade” poética, o poeta, então anônimo, está em “lágrimas”, a tarde “banha” sua vida diária, nominal e pessoal que “escorre” em direção ao “mar”. Tudo o que, nele e em torno dele, era sólido se liquefaz no ambiente líquido do mar. Não, entretanto, em um mar qualquer (de Ipanema, Arpoador, Copacabana, Leme, Urca, Botafogo ou Flamengo, por exemplo), mas num “mar sem margens”. Poderia dizer: num mar sem mar, num mar sem o elemento água, num mar sem a substância líquida da água: na imensidão de um mar ilimitado – lar do poeta (“Ah, se eu fosse marinheiro/ seria doce meu lar/ Não só o Rio de Janeiro/ A imensidão e o mar”). Se mar é a palavra poética para que o ilimitado se exponha, tudo o que está no temporal se dilui no ilimitado de um extemporâneo, ele mesmo inesquecível, ele mesmo retornante, ele mesmo reivindicado. Em vez de seu contrário, o extemporâneo é a falta ou o excesso necessários e constitutivos das atualizações do contemporâneo: isso porque o contemporâneo não precisa demandar a presença exclusiva de sua atualidade (já dada), podendo lidar mais livremente com as potências de seu tempo e, consequentemente, de todos os tempos. Tornar o mundano real, reintegrar o atual ao campo do possível, absorver o acabado no inacabado sempre por se fazer, garantir a existência do ilimitado, do informe, é a realização maior do poema e das obras de arte de modo geral, da mesma maneira que o poema e as obras de arte insistem em guardar em suas atualizações as maiores voltagens da extemporaneidade que, com eles, mantêm uma relação de imediaticidade.

Enquanto a filosofia cartesiana parte da experiência de uma dúvida hiperbólica, a poesia nos leva a vivenciar uma exultação hiperbólica. A exclamação tem por objeto a tarde e tudo o que diz respeito a ela e ao seu tempo presente, mas a exclamação, admirativa, está fora do tempo corrente, não podendo, de modo algum, ser objetificada. Se Antonio Cicero, morador da Rua David Campista, no Humaitá, no mesmo prédio em que eu moro, pode ser objetificado, com a exclamação ou a exultação, o poeta perde qualquer possibilidade de objetificação, mostrando-se desde o avesso do que, nele, é pessoal, individual. Não é a pessoa particular quem pensa ou escreve um poema e, pensando-o e o escrevendo, atravessa a experiência poética, mas quem pensa ou escreve um poema é a exclamação, a exultação, o êxtase: quem pensa ou escreve um poema, pensa e escreve de fora de si, de seu tempo e de seu lugar, ainda que veja e lide consigo, com seu tempo e com seu lugar. Extática, exultante, exclamativa, admirativa, espantosa, a existência do poeta se confunde, então, com o fora de si e de todas as outras coisas. Nesse sentido, o Antonio Cicero, meu vizinho, é um sujeito alienado do poema e, como tal, não sendo o poeta, se mostra para este como qualquer outro objeto que o circunda e que se encontra disponível ao poema. O poeta é o impessoal fora do tempo que toma o meu vizinho enquanto mais uma particularidade do mundo arrastando-o, com tudo o que é contingencial, para a experiência poética da imensidão do ilimitado que o habita. Antonio Cicero é uma assinatura que designa um heterônimo do anônimo poético. Nessa cisão que há em quem é poeta, fazendo-o ser bifronte, tendo um lado pessoal e uma dimensão poética, impessoal, extática, exultante, exclamativa, ao longo dos tempos, foi dito que quem poetava era: a Musa, os deuses, a Natureza, Deus, entre outros. Na modernidade, não se deseja colocar nenhum outro ente em seu lugar, mantendo-o enquanto negativo. Na famosa frase, “Je est un autre”, Rimbaud o chamou de outro. Um outro aberto, é claro, e não substantivado. Em seus ensaios, Antonio Cicero chama esse movimento “entre os entes e a essência negativa do ser de apócrise”, mas, aqui, o que me interessa é flagrar um movimento do pensamento de seus poemas.

Preservando a simetria do soneto, que tem sua experiência repentina de quebra do cotidiano e do próprio poema exatamente no sétimo verso, demarcador de seu centro, e mostrando seu jogo de espelhamentos, pode-se ver que o penúltimo verso, desdobrando a origem ilimitada (do “mar sem margens”), repete, também em desdobramento especular, uma palavra presente no segundo verso: fundo. O “fundo” do “mar sem margens” para onde tudo dessa tarde escorre e de onde tudo desta tarde provém confunde-se, assim, com o “fundo azul de uma tela” onde “as letras brancas de alguns versos” espreitam o poeta. Para esse fundo azul do mar sem margens e sem fundo de uma tela, a própria tarde vai; desse fundo azul do mar sem margens e sem fundo de uma tela, a própria tarde veio e “se acendeu feito um fósforo”. Esse fundo azul do mar sem margens e sem fundo de uma tela é trazido do oculto para a superfície por “alguns versos”, que fazem a tarde se acender e se apagar. Esse fundo azul do mar sem margens e sem fundo de uma tela é inteiramente abissal. Seu abismo se confunde com as palavras poéticas. Essa dimensão originária da linguagem (o ilimitado para onde e desde onde, dando a medida do acender e do apagar de todas as coisas, tudo converge) leva o poeta em sua necessidade de renascimento fora de si e de seu tempo a lágrimas de exultação. De um modo mais simples, isso também se coloca em O Emigrante, cujo personagem, ao fim, “Chegou chorando assim como quem nasce/ E o mundo alumbra um segundo e assombra”. Visto desde a origem, tudo que ganha qualquer tipo de individuação é uma “criatura de um só dia, que, bela porque gratuita, És festa/ Serás luto”.

Em um Poema inédito, igualmente revelador do motivo pelo qual em outros versos o poeta se mostra “Herdeiro das superfícies e das profundezas” ou, ainda, como quem aprende que “no fundo de mim/ sou sem fundo”, essa origem oculta, ilimitada e extemporânea, que se diz guardada em cada fonema, em cada sílaba, em cada vocábulo, em cada verso que a manifesta, está escrita da seguinte maneira:

Segredo não é, conquanto oculto;

mas onde oculto, se o manifesta

cada verso, cada vocábulo,

cada sílaba, cada fonema?

E se o trecho opaco como um muro

valerá nossas noites em claro

e não raro justo o mais obscuro

resplandecerá mais que o mais claro?

O poema é o limite que guarda o ilimitado oculto da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é uma forma que guarda o informe oculto da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é o corpo que guarda o incorporal oculto da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é o determinado que guarda o indeterminado oculto da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é alguma coisa que guarda o nada oculto da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é uma evidência que guarda o incerto oculto da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é um exterior que guarda o infundado oculto da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é uma clareza que guarda o breu oculto da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é o amarrado que guarda o desamarrado oculto da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é a lembrança que guarda o esquecimento oculto da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é uma beleza que guarda o mistério oculto da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é um aire que guarda a imensidão oculta da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é um finito que guarda a infinitude oculta da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é um conteúdo que guarda o vão oculto da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é uma miragem que guarda a verdade oculta da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é uma identidade que guarda a não-identidade oculta da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é uma contingência que guarda o absoluto oculto da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é uma luminosidade que guarda a escuridão oculta da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é o chão que guarda o abismo oculto da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é um nome que guarda o anônimo oculto da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é uma solução que guarda a dissolução oculta da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é um amparo que guarda o desamparo oculto da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é um dado que guarda o nunca dado oculto da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é um acessível que guarda o inacessível oculto da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é a extensão que guarda a intensidade oculta da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é um mortal que guarda a imortalidade oculta da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é um ser que guarda o não ser oculto da poesia na resplandecência de sua superfície. O poema é uma ordem que guarda o caos oculto da poesia na resplandecência de sua superfície…

O poema guarda o tempo atualizado e, nele, subitamente, instaura o obscuro do extemporâneo. Essa tensão ou essa conversibilidade (de ver o ilimitado desde o limitado e este desde aquele, o informe desde a forma e esta desde aquele, o incorporal desde o corporal e este desde aquele, o extemporâneo desde o temporal e este desde aquele…) é a contemporaneidade (ou o “agoral”) engendrada pelo poema. Contemporaneidade que comporta ser ao mesmo tempo recôndita e radiante para designar com as palavras, e só com elas, “o caos arreganhado a receber-me incontinente”. Por esse caos, por essa abertura, por esse ilimitado, por esse incorporal, por esse indeterminado… por esse extemporâneo que, no contemporâneo, abarca e transforma o temporal, o poema, que “está na confluência da miragem e da verdade”, ainda preserva em si o espaço possível onde se pode respirar, “pois todas as cidades encolheram,/ são previsíveis, dão claustrofobia/ e até dariam tédio, se não fossem/ os livros infinitos que contêm”… Se não fossem “os livros infinitos” e, sobretudo, se não fosse o infinito de cada livro, se não fosse o infinito que cada poema traz consigo, nos oferecendo um balão de oxigênio para que possamos – ainda – respirar da melhor e mais livre maneira. Não à toa, a epígrafe do livro A Cidade e Os Livros é um poema de Rose Ausländer, que diz:

 

Ainda há espaço

para um poema

Ainda é o poema

um espaço

Onde se pode respirar.

 

Alberto Pucheu

Culta, educada

Culta, educada, sempre bem vestida e penteada, Ana Maria destacava-se entre as mulheres da próspera cidade onde vivia. Participava dos eventos culturais, exercia com desvelo seu dom filantrópico nas quermesses da Igreja, nas festas que angariavam fundos para escolas e asilos. Aos domingos, depois da missa, desfilava na praça, ao lado do marido e da filha única, elegantemente trajada, cumprimentava uns e outros, cheia de simpatia.

Ana Maria, assim sem mais nem menos, começa a se esquecer de nomes, feições e fatos. Eram as primeiras manifestações de uma doença degenerativa da mente. Com o passar do tempo não mais reconhecia as pessoas, nem mesmo as mais próximas. Perdeu os movimentos, a fala, vontades e desejos. Há quinze anos, divide as horas entre a cadeira de rodas e a cama. Os olhos perderam o brilho. Os dentes se foram. As mãos não levam uma colher à boca.

Não está mais ali a Ana Maria de outrora. Outra alma ocupou seu corpo e, como erva daninha, suga-lhe o resto do tronco.

Sônia Bonzi

RE(-A)NUNCIAR O MESSIAS Folhetim em Trinta e Quatro Episódios da autoria de Carlos Pessoa Rosa. Oitavo Episódio

Nasci sonhador. Tão tênue é a linha que separa o devaneio da loucura! A visão da ventania, com a nuvem carregada de fogo e criaturas de quatro rostos e quatro asas, fez com que me calasse diante dos outros. Quando O vi e Ele me disse Filho do homem, alimenta teu ventre e sacia as entranhas com este rolo que te dou, eu sabia que, alucinação ou não, Ele me oferecia a sabedoria como alimento e bebida. Então, comi o rolo. E era doce como mel em minha boca. O mesmo sabor destilado dos lábios de uma virgem, ou daquele que nutriu Emmanuel, segundo as previsões de Isaías. Seja sedutor com as palavras, Ezequiel! Acho que uma voz também pedia que assim agisse, mas avisava que não me escutariam. Somente um demente, além do sonhador, aceitaria uma missão marcada pelo fracasso. Deveria endurecer as dobras do rosto. Tornar a face rija. A testa dura como diamante. Modo de me defender da violência alheia… Escondendo o medo. Seguindo a voz que me guiava, dirigi-me aos exilados e compatriotas. Segui, de delírio em delírio, entorpecido pelo mel e pelo conhecimento, ouvindo ruído de asas de seres vivos que batiam umas nas outras, e o ruído de rodas junto deles, a mão do Senhor sobre meu ombro.

(continua)

Cerimônia de Ausentes

Produz-se um salão de paredes nas cores da bandeira, em outros tons e texturas. As cortinas de veludo de um jaune totalmente gauche aquecem com a inquietação dos convivas entre as paredes esverdeadas. Era como se não houvesse por detrás das janelas sinuosas:

1. uma fila de taxis de leve amarelidão e motoristas anêmicos de corpos apoiados nas capotas

2. trabalhadores em angst compulsiva indo e vindo do ponto A ao B para depois fazerem do B ao A

3. uma avenida larga e de sentido concreto, onde o semáforo enlouqueceu como um homem apaixonado

4. crianças nuas ou em trapos, lambuzadas de chuvas de três dias passados, abrem sorrisos apodrecidos pelos doces que vendem para viver e comem para morrer

5. a urbes tropical do pseudo savoir vivre

Neste salão ilustre ilustríssimo frequentado pelos ilustres sob lustres de cristal da Boêmia (supõe-se), cabe vir-se admirar os senhores e senhoras nas cadeiras de espaldares altos há cento e quinze anos. Os moços sonhados de Machado em seu discurso de abertura da casa, estão sentados, dormentes,preservam as mãos acordadas para segurança das cabeças em risco de tombo vertiginoso.

O senhor do lado esquerdo compareceu. O vampiro de Curitiba e o poeta maior, ausentes. Apesar do esforço de invisibilidade, o tradutor de Tolstói para o português encontrava-se.

Em alguma hora, falou-se de uma ilha de letrados em um mar de analfabetos. Os três bustos testemunharam embora não se alterassem.

Tratou-se de São Luís do Maranhão como Atenas brasileira e estética audaciosa, em contextos distintos.

Prêmios e medalha entregues, cerimônia encerrada, o entardecer deixou a noite tombar veloz como se próxima ao Equador, e as buzinas trouxeram a cidade à lembrança.

Kátia Gerlach

As palavras de que ele gostava mais

Era 6ª-feira. Eu pedira aos alunos que escrevessem as palavras de que mais gostassem. Expliquei o melhor que pude que não me referia ao significado mas à beleza fonética. Um dos que não perceberam foi o Fernando. (Quando ele nasceu, o pai disse-me: “Sou pai de doze. Morreram dois, tenho nove.) No domingo seguinte, uma onda inesperada levou-o. O mar nunca o devolveu. Na 2ª-feira, estávamos todos menos vivos. Fui ver que últimas palavras escritas teriam sido as suas. Nem sequer fizera ponto final nem assinara o nome na folha. Estava lá isto: “As palavras de que eu gosto mais são pai mãe irmãos amigos e vida”

Daniel de sá

Biografia

No seu tempo de universitário, exibia uma índole rebelde e proclamava-se ateu e anarquista. O que, nos seus círculos, lhe granjeou popularidade. Adulto já, e atenta a evolução da vida, começou a sentir-se próximo da social-democracia. Não o assumia publicamente, pois gostava de reiterar a sua condição de independente, com sólidas convicções de esquerda. Após um bom jantar, uns whiskies, costumava partilhar com os conhecidos lembranças dos excessos da juventude. E terminava, nostálgico: «Bons tempos…». Cultivava, mesmo assim, a tirada anarquizante, que em ocasiões sociais lhe assegurava, em troca, alguns sorrisos. Noutras conversas, mais sérias, afirmava-se agnóstico.

Em matéria de transcendência, assim se manteve largos anos, bem entrado já na chamada maturidade. Com uns acidentes morais de percurso (nada de mais, achava), conquistou emprego estável, adequadamente remunerado – um dos sonhos que no fim da juventude acalentara. Olhando à sua volta, começou então a sentir-se um liberal, um pouco céptico porém em relação aos destinos da humanidade. Viajou, refinou gostos, ganhou mundo.

Não obstante a estabilidade económica, chegou a avô mergulhado em receios e perplexidades. Amigos e familiares estranhavam-lhe, agora, as inclinações místicas. Acautelando o fim, arrancou à família uma promessa: antes de soltar o derradeiro suspiro, teria garantida a extrema-unção.

Olhar atónito, arquejando, acabou por morrer nos braços da igreja. Ainda o padre não dera por concluída a administração do último sacramento, era já cadáver.

 João Pedro Mésseder

Folklíricos & Cia.

«Eis que,  passados  alguns dias após a nossa chegada, nos deparámos com os folklíricos, a mais curiosa espécie das ilhas.»

Quem assim escreve (ressalvando-se, embora, os tropeços da tradução) é o capitão John B. Walkman, autor desse estranho e extravagante livro A Happy Summer in the Azores, em que entendeu deixar registo da sua passagem por algumas ilhas do arquipélago, a bordo do Seamaster.

Das razões e espantos do Capitão, erudito em demasia para a patente que ostentava, não cuidará aqui o leitor e  talvez faça mesmo por esquecer alguma sobranceria com que, às vezes, esta escrita nos olha; mas não deixará de anotar o intuito estilizador de Walkman, a tendência para alegorizar-nos a história e os seus  fantasmas: 

«Os folklíricos  chegaram com os primeiros colonos. Desembarcaram trazendo na bagagem o enorme arsenal da paz construída já sobre os mortos do futuro. Depois, através dos tempos, revelaram-se  de uma importância incalculável no processo de contra-subversão levado a efeito na história destes lugares: nos anos de seca, quando o mar se atirava à terra ou as montanhas subvertidamente vermelhas se derramavam sobre as gentes, eles sentavam-se, Missionários da Ordem, nas tardes incertas lendo poemas importados, declamando literaturas mais do que duvidosas às multidões que, rebentando de fome e  de rezas não ouvidas, se deixavam entontecer até ao sono.»

De resto, há nesse livro uma irreprimível tendência para a transfiguração do real observado, ora submetendo pessoas e lugares ao filtro de um olhar subjectivo e à visão previamente definida de um mundo originário, povoado de vozes primitivas, não contaminadas pela história, ora transformando homens e mulheres em figuras trágicas e impotentes, vítimas do tempo e de forças obscuras. Em certa medida e nalguns aspectos, o autor inglês antecipa em algumas décadas a perspectiva de outros escritores não açorianos, cuja passagem pelas ilhas se traduziria em grandes produtos turístico-estilísticos para consumo embasbacado, como aconteceu com aquela autora que deambulou pelas ilhas armada da sua incomensurável retórica da tontice para falar da paisagem açoriana, «onde a pedra branca e negra joga com o verde a perder de vista.»

Não voltou John Walkman a dispor de outro feliz Verão como esse nos Açores: um automóvel  atalhou-lhe o passo na primavera imediata, numa tarde em que levava à tipografia as provas revistas do seu livro.

Nunca pôde, por isso, saber em que medida o nosso olhar se reconheceria ou não no olhar que sobre nós lançou.

 

Urbano Bettencourt

 

O LUTO NÃO TEM IDADE

Batem-me devagar sonhos idos, vindos, ou que sejam, esta maresia ambulante de livros à beira-mar lubrifica-me, ainda que com sons de espuma, ver partir tardes e vidas confunde, ver fins assim tambem, mas não me morro nas mãos desse dia em hospitais da cidade confundida com os meus choros quotidianos. Hoje, desci à baixa das iras difusas onde te queria num abraço, onde um sorriso ao balcão da brasileira de que chiado, onde que praça do comércio ver Pessoa recitar-te num

guarda-napos de brandy, nem que fim este dia seja, nem que finde viver vivo, sinto ainda vibrar em mim este sangue de glória sem que a glória me convide a ver-te ou a confidenciar-te. Batem-me devagar sonhos mas com sonhos a viver em mim, comigo. Vou calar-me uns segundos meu amor.

O luto não tem idade.

Vítor Burity da Silva

Circunscrever

O homem pançudo assomou ao patamar abobadado do edifício e disparou para o céu.

Um pássaro caiu redondo, no exacto centro da rotunda. Intrigado com a geometria do  facto, o homem inspeccionou a boca da arma. E a concluiria da mesma natureza do orifício entretanto entre olhos, se acaso houvesse sobrevivido à acidental  coincidência desta prosa circunscrita.

Augusto Baptista

O visionário

Há uma zoada de coisas que se amontoam, arrastadas como vestuário longo sobrando do tamanho do corpo. Um ruído surge do serem compelidas até ali e soa como o estrépito já em lama que está fixado às solas dos soldados mortos. Alguém está a varrê-las devagar dentro da minha têmpora ora esquerda ora direita. Parecem-me conversas perigosas os seus altos e baixos de coisas sob a minha pele. Alinho os olhos como o faço aos pés quando pretendo andar, aludindo-os a um propósito. Há um límpido avoaçar de pó, ao fundo do meu cérebro. Devem ser as girafas.

Gabriela Ludive

O Trabalhador

Os administradores da Direcção do Serviço de Obras, do Aeroporto de Santa Maria, estavam reunidos para decisões difíceis: o despedimento de trabalhadores. O critério escolhido foi o de optarem por aqueles que tivessem famílias mais pequenas. Um dos primeiros nomes falados foi o do José Moniz, que só tinha uma filha e um filho. Mas o Miguel Figueiredo Corte Real interveio em sua defesa, argumentando que ele se sacrificava muito, e também a mulher, que era costureira, para que o filho pudesse estudar. Estavam nesta indecisão quando chegou um funcionário a informar: “O José Moniz morreu.”

(O José Moniz era meu pai.)

Daniel de Sá

I

O poeta disse que há muito de novo sob o sol, o que não muda é sob a pele, as borboletas não interrompem o vôo por estarem enamoradas, o piano suscita a imagem do operador na madeira envernizada, estaremos à mercê de um músculo que contrai, a medida de seus movimentos conta-se no pulso. O que será de nós de frente a este oceano gris aberto para travessia?

Kátia Bandeira de Mello-Gerlach