FIOS EMARANHADOS | Cecília Prada

Hoje quero escrever uma coisa assim, de fios. Dos fios detectados, dos que nos sustentam. Fantoches somos na mão invisível de alguém que nos manipula? Ou, simplesmente, falar dos múltiplos fios em que estamos todos enrolados, na imensa rede que não foi inventada pela indústria da comunicação virtual, como se poderia pensar numa simplificação – mas na enorme rede da vida. Pior: do cosmo. E que nós, pobres fiozinhos atormentados e complicados no nosso emaranhamento, temos a pretensão de querer entender, desenrolar. Enfim – ridículas formiguinhas.
Anos atrás inventei a pretensão de contar minha vida, para entendê-la um pouco. Se fracassei quanto ao livro pronto, amontoei quilômetros de entulho literário feito de coisas e loisas, e amores e desamores, e desesperos e retemperos, material que está todo por aí, pelas gavetas dos móveis, do micro, do Ser – um dia será amarrado em pacote, espero, e definitivamente selado e entregue.
Enquanto isso, indago consistente: que fio afinal usarei para amarrar esse pacote de mim? Que fios usarei para bordar a eterna tapeçaria que nós mulheres tecemos (desde aquela nossa protoavó Penélope) para deixar em legado à família ? – para que em mim não se cumpra o destino das mulheres silenciadas, tias-avós de diários bolorentos jogados fora pelo primeiro sobrinho aparecido após o enterro, versos escritos com aplicada letra de curso primário, indefectíveis rosas secas dentro de um livro esmaecido, e os murmúrios, e os lamentos que ressoam em todos os haréns, em todas as salas de todas as famílias.
Ou simplesmente morrerei de boca costurada, como foi durante tanto tempo o destino das mães e avós loucas?
Mas não é fácil contar esta história um tanto estranha, feita de tantos pedaços, te confesso. Não é fácil costurar seus elementos – que linha usarei, pois?
A linha da mediocridade, comprada na feira, parda e resistente, que minha avó italiana usava para cerzir eternamente, num ovo de madeira, as meias da família? Minha avó que nunca falava, que morreu silenciosamente aos 97 anos, doce e apagada velhinha de cabelos de algodão e olhos azuis.
A linha triste e discreta com que me costuravam os botões do uniforme azul-marinho do externato de freiras? Ou talvez eu deva escolher, por que não? algum dos fios mais brilhantes que me foram concedidos pela vida, tons rosa-salmão do meu primeiro vestido de baile? Ou o fio de cetim imaculado do vestido de noiva? Ricas nuanças de tapeçarias medievais? (não fui por acaso castelã e prisioneira?) Ou espargir pelo meu livro as cores, nunca reveladas, daquela imensa, interminável, milenar tapeçaria que nossa protoavó Penélope desdobrou sobre toda a humanidade?
– e cujo risco ninguém, nunca, se preocupou em saber qual era…
Não. Já sei. Usarei, para tão digno bordado, aquele fio de seda mista que as freiras já no primeiro ano primário queriam nos obrigar a usar, com paciência nos adequando para as exigências da vida: enfiar, e enfiar de novo, e mais uma vez, e sempre, uma linha enfezada e resistente na agulha fina de buraco que se esquivava manhoso em um trabalho de amostras de pontos de bordado, um paninho de linho branco que se queria – como tudo para nós – puro, imaculado. E que só eu, a menina má, amarfanhava num canto da pasta, retirando-o de má vontade, medrosa, na hora de trabalhos manuais. E minha linha, só a minha, parecia se obstinar em criar nós e complicações.
(Como estas urdidas – ardidas? – memórias de hoje.)
Irmã Louise, vermelhona, de pelos no rosto, me dizendo, vidente, talvez: “Mas isto não é um mostruário. É um monstruário.” Teria ela realmente seus dons? Veria já no paninho encardido, sujo de tinta, vergonhoso, de linhas emaranhadas, alguns dos lagartos, das serpentes, das complicações existenciais em que eu me veria mais tarde colhida?
Segredo: ah, no meio do pano encardido bordei uma tosca florzinha inventada, com linhas gloriosamente espalhafatosas, azul-real, verde-pavão, vermelho-sangue. Depois disse para a freira que tinha perdido meu pano de amostras – que me dessem outro, talvez tenham me dado, nem me lembro o que aconteceu com ele. Mas a aprendiz de bordadeira seguiu e segue vida afora emaranhada na teimosia de tantos nós, tantas linhas enfezadas alinhavando pontos impossíveis – tentando lembrar qual era aquela flor inventada com todos os tons brilhantes da esperança, um dia.

Cecília Prada

NÃO SOU NORMAL | Carlos Bondoso

não sou a normalidade
porque não quero ser
a bestialidade e o obscuro

sou a serena chuva abundante
que nas margens
alimenta os parques selvagens que florescem

sou a selva mártir
que estilhaça
em sons inaudíveis
a misteriosa seiva dos anjos e dos medos

na terra dos mil sóis
calaram-se as árvores
e só cabe a luz dos cegos e dos certos

nada é silêncio
tudo galopa dentro da noite

pedras escuras e negras
alimentam a nudez dos fiéis
na serena escuridão
morre-se nas costas
das árvores caladas

POR CFBB

O INVENTOR DA PEDRA | Cecília Prada

Caro poeta Drummond: como é sabido, você deu à humanidade essa contribuição, fez esse favor: nos fazer notar que ela estava ali, na vida de cada um de nós. Que a devíamos ver, aceitar, a pedra – que pensávamos, antes, como coisa a ser ignorada por vergonhosa no heroísmo solitário, inglório, de ter de lutar com ela, chutá-la despedaçando o dedão, diariamente. Inutilmente.
O poeta só não disse como, exatamente, ela era, essa pedra.Como ele a via, a sua pedra pelo menos. Para nos dar mais conforto. Não – que comodismo, hein? Apenas nos disse: bem, ela está aí, a pedra, não há como negar, a pedra no caminho é parte integrante da condição humana. É a própria condição da humanidade. Disse, repetiu, “no meio do caminho tinha uma pedra/ tinha uma pedra no meio do caminho”, como se fosse apenas pedra à toa, arenosa, esfarelenta, areia na ampulheta (do Tempo?) vira prá cá vira pra lá tanto dá tanto faz. E se foi, acender seu cachimbo e ficar lá sentado – empedrado – no banco da orla, de costas para o mar. Parece que para não ver pedra tamanha logo ali plantada – Pão de Açúcar, chamada.
Que covardia, poeta.
E nós , como ficamos? Como viemos vindo vida afora imaginando tamanho peso cor e resistência da pedra drummoniana, da pedra consentida – ou pelo menos denunciada? Houve quem sacudisse os ombros: ora, quê pedra? Formação calcárea, com certeza. Friável. Não aguentará o primeiro aguaceiro do verão. Na presunção da juventude: a gente resolve, pode até tentar dissolvê-la entre os dedos, quer ver? Eu…E aí (agora confessamos) ficamos por muito tempo, anos, escondendo dedos escalavrados em luvas de precária utilidade. Guardando nas palmas o gosto perverso da pedra.
Ora, pedregulho com certeza. Calhau. Coisa de somenos. Chutado? – unha do dedão cindida ao meio, inflamada, purulenta, pela eternidade.
Questionado, o poeta deu seu sorrizinho de Gioconda e se refugiou em uma frase (sábia, convenhamos) : “Uma pedra no meio do caminho/ ou apenas um rastro, não importa.”

Cecília Prada

A Liberdade de Pátio, de Mário de Carvalho

Mário de Carvalho oferece-nos, na sua inconfundível escrita, um conjunto de narrativas curtas onde o insólito, a sua invulgar capacidade de observação e um apurado sentido de humor, são o fio condutor que nos prende à leitura. No primeiro conto, um jovem percorre a cidade com uma delicada missão: entregar a cabeça de Mânlio. A reação das pessoas muda quando se apercebem de que ele transporta a cabeça de Mânlio e, nesse momento, o discorrer dos seus dias, o que os ocupava até esse momento, parece esvair-se de sentido.

Continue reading

Fish – armadilha para um leitor ocasional

Quem não for dado a leituras e, portanto, não tendo cultivado um espírito crítico esclarecido, arrisca-se a ser surpreendido por certas obras, acabando por as transformar no “livro da sua vida”. O Principezinho e o Papalagui são dois bons exemplos disso. São livros fininhos, que nos embalam numa metáfora sobre coisas sérias e fundamentais e cuja apreensão terá o condão de alterar, definitivamente, as nossas vidas. Os livros de Lobsang Rampa ou de Augusto Cury são suscetíveis de produzir um efeito similar. Mas atenção, isso só resulta com um leitor ocasional e, portanto, desprevenido.

Continue reading

SOU A FORMA DO INDEFINÍVEL | Carlos Bondoso

amar -te-ei sempre
mesmo que o céu se torne fogo
serás sempre o centro da viagem…
não escolho os dias nem os sonhos

corro pelos meandros de uma linha
torno-me em finíssima pedra de sal
sou a forma do indefinível
e só tenho olhos para além do invisível

amar-te-ei sempre em sonhos
e quero-te indefinível

Pátria | Maria Isabel Fidalgo

 

 

Menina minha pátria maresia

com salitre no rosto incandescido

dorme comigo

que minha mãe já foi

e estou sozinha.

Menina amor

traz o passado das romarias

de San simion de Vale de Prados

e uma canção

de candeias a arder.

Menina galega

flor

galga as marés

e traz-me novas do meu amigo

aqui

debaixo das avelaneiras floridas

onde me bailo fermosa

em cós

corpo velido

Eu esperando meu amigo.

Eu esperando meu amigo.

maria isabel fidalgo

Soneto das Horas | Domingos da Mota

 

 

aos queridos mortos

Durs Grünbein

E manda-o também esperar a hora
de dar à luz a sua própria morte (…)

Rainer Maria Rilke

Por tardia que seja, é sempre cedo
que se faz a viagem sem regresso,
não sei se aliviada, se com medo
da crença de que a vida tem um preço

a pagar no além, depois da morte.
Mas pior que a triste despedida,
seria apresentar o passaporte
da alma face a ausência doutra vida.

Outra vida haverá, havendo o ciclo
do carbono que muda e transmuda,
e mesmo que o faça em contraciclo
com a essência das coisas, talvez surda

um ácido, uma base – uma semente
que fecunde a matriz dum novo ente.

Domingos da Mota

Se eu fosse | Richard Zimler

Imagine ser capaz de voar como uma borboleta, saltar como um canguru ou espreitar o cimo das árvores como uma girafa. Todos sabemos que as crianças, frequentemente, fantasiam que conseguem adquirir as características extraordinárias dos animais, desde os mais pequenos aos mais majestosos. E é bom que o façam! Porque os mais jovens têm de “viver” estas transformações e ter aventuras libertadoras para ser tornarem adultos criativos e imaginativos, capazes de realizarem os seus sonhos.”Se Eu Fosse…” é um livro que encoraja as crianças (e talvez os seus pais também!) a ultrapassarem as suas limitações. Este livro convida os mais jovens a nadarem como um peixe tropical ou cantarem como um melro – ou até a afastarem os banhistas da praia com o “sorriso” de um tubarão!

Ciclo de sangue e interioridade | Gisela M. Gracias Ramos Rosa

 

 

O traço que desenhas
é o sussurro branco
da semelhança liberta

António Ramos Rosa, In O Centro Na Distância

 

 

Ciclo de sangue e interioridade

Tenho a promessa dos homens inscrita no sangue
o olhar e o medo sobre a pele quando não conhece a esperança.

Tenho a imagem de um poeta sentado a ler todos os livros do mundo
e assim o poeta e o mundo

Tenho nos olhos os poros que absorvem os fios do contexto.
Tenho o fluído do fluxo que emana ao tocar a superfície densa
Tenho a percepção dos espaços e do tempo num corpo de afecto.

E vejo em cada fragmento a vida que se repete,
por vezes no que ignora o sentimento do que cresce, no fruto
da planta erguida em silêncio, na árvore que abraça o fundo da terra
com raízes densas ramos leves,
sou o próximo nem sempre visível por a distância ser reflexo
e o invisível um rosto assente na construção de um texto complexo.

Não imprimas um parecer designado pelo poder do contexto.
Pensa nas faces do prisma onde encontrarás o teu rosto.

Venho das margens de um ciclo, onde tudo é dimensão e reflexo
Sangue transformado seiva de um ciclo que se repete
num incansável gesto, tenho em mim uma casa e um rosto
em amplexo.

Gisela M. Gracias Ramos Rosa, Julho de 2014
(Poema mencionado no Prémio de Poesia NOSSIDE 2014-Unesco e publicado em Antologia colectiva)

Breves notas sobre Arte | Gonçalo M. Tavares

Breves notas sobre Arte foi o título de uma extensa colecção de textos publicados por Gonçalo M. Tavares desde 08/09/2008 até 2012. A seu pedido foram retirados, em virtude de ter em preparação a sua publicação em livro.

Vítor Coelho da Silva, Coordenador

2014.10.25

Noam Chomsky em conversa subversiva, sempre | por Vamberto Freitas in blog “Nas Duas Margens”

Numa sociedade democrática, na medida em que é uma sociedade democrática, o governo somos nós. São as nossas decisões. Mas o governo aqui é descrito como algo que está a atacar-nos, não como um instrumento para fazer o que decidirmos.

Noam Chomsky, Mudar o Mundo

Vamberto Freitas

Para mim, ler este recente livro de Noam Chomsky, Mudar o Mundo, que foi pulicado o ano passado nos Estados Unidos, e acaba de ser traduzido no nosso país, é como que sair à rua de uma casa fechada e infernal, respirar o ar fresco e sentir uma brisa de vida que promete levar consigo toda a nossa apatia e amordaçamento generalizado de corpo e alma. Um neo-fascismo, que a maioria de nós insiste em chamar de neo-liberalismo, subvertendo assim toda a linguagem para corromper em absoluto a realidade e o pensamento livre dos cidadãos, como nos avisou George Orwell, é a nova ideologia que tomou conta de quase todas as sociedades do Ocidente, e não só. Franklin D. Roosevelt diria um dia, quando a sua América se encontrava no fundo de poço lamacento a princípio dos anos 30, que quando um governo está dependente de uma única instituição financeira privada será, ipso facto, um governo fascista ou fascizante. Bem sabia ele quem tinha provocado a queda do seu país, e quem lucrava com a miséria de um povo deprimido, em todos os sentidos, e reduzido à miséria dos famosos acampamentos dos desabrigados em todo o território (de que John Steinbeck daria conta no seu magistral As Vinhas da Ira), ou tremendo de frio em filas intermináveis para uma sopa dos pobres bem no coração de Nova Iorque e de quase todas as grandes cidades do seu país. Ler Noam Chomsky sobre as nossas sociedades e sobre outras abordadas nestas páginas em forma de uma longa entrevista com um seu ex-aluno e simpatizante de nome David Barsman, é sermos lembrados de que o que nos está a acontecer, a nós portugueses, de alguns anos a esta parte, estará, mais cedo ou mais tarde, a acontecer a quase todos os outros, pois o regresso descarado do projecto para uma nova escravatura é global, um mundo totalmente governadopor “investidores” anónimos e bancos de todo vampirescos, esquecendo as populações mais indefesas e sugando o que resta da vida dos que ainda conseguem produzir alguma coisa à pequena e média escala, ou, como último recurso, “vender” o seu trabalho a preço mínimo. Há um conforto perverso em ler Noam Chomsky: ninguém está só, todos enfrentam o mesmo mundo reformulado conforme os interesses de minorias poderosas, pelo que a resistência ou é internacional, ou nenhum país sairá do pântano que para si criou e lhe foi criada, a suposta “saída” só quando os novos poderes financeiros permitirem. Aliás, quando lemos Noam Chomsky sobre os EUA – o movimento norte-americano Occupy significa muito, e há esperanças que não baixe os braços nem tenha medo algum dos seus algozes de fato e gravata e de pasta na mão, ali lado em Wall Street — e os caminhos escolhidos pelos novos usurpadores (as urnas não justificam a mentira, ou certas ideologias disfarçadas pelo nova linguagem) da nossa vida política e económica nestes últimos anos, quase esquecemos que não estamos a ler sobre Portugal, ou sobre qualquer um dos países que já sucumbiram.

Mudar o Mundo (lembrando deliberadamente o conhecido dito de Karl Marx de que os filósofos se haviam limitado a interpretá-lo durante toda a história, mas era agora necessário agir) está organizado em oito capítulos, começando com “O novo imperialismo norte-americano” e terminando com “Aristocratas e democratas”. Nenhum leitor esquecerá que estamos perante um homem declaradamente da esquerda independente e não-sectária, alicerçado simultaneamente em leituras intermináveis tanto do passado como do presente, constantes visitas e experiências nos mais diversos países e regimes do mundo, e ninguém esquecerá que se trata de um dos mais distintos e consequentes linguistas do nosso tempo, que ainda hoje, com mais de 80 anos de idade, se mantém activo tanto nas salas de aula do prestigiado MIT (Massachusetts) como em constantes conferências de cariz político por todo o país e, uma vez mais, no estrangeiro. O seu entrevistado leva-o aqui a algumas páginas sobre o seu trabalho académico, mas o resto são as suas análises e reacções ao mundo contemporâneo, particularmente a partir de meados dos anos 60 e da guerra do Vietname. Fala de todos, americanos e outros, como se a sua vida estivesse dependente de qualquer decisão feita no mais recôndito lugarejo do mundo, se como a sua cidadania não tivesse passaporte ou fronteira. Se conhece muito bem a tradição judaica das suas origens, é para a subverter e falar de Israel tal como fala de qualquer país, pequeno e dependente da vontade dos grandes impérios do nosso tempo. Para Chomsky, a meu ver com toda a razão, deveremos falar, na maioria dos casos, em “protectorados” mais do que em “estados” soberanos. Se a queda do Muro de Berlim acabou com a guerra fria, a hegemonia de uns sobre todos os outros continua e aperta os laços ao pescoço de quase todos. O que se passa na Europa, para ele, não é novidade alguma, está dentro do caminho escolhido pelos novos donos da Terra, escondidos em linguagens perversas, corruptas e mentirosas. Chomsky, no entanto, nunca advoga outra acção que não a do diálogo, quando possível, e de denúncia quando necessária, as manifestações de rua essenciais à mensagem que de outro modo nunca será ouvida pelos que mandam e controlam. Como cidadão português e americano, não tenho rigorosamente nada a opor às suas ideias e propostas.

“Neste momento, – vira Noam Chomsky a sua atenção para o continente a leste de nós, comparando algumas das suas políticas com muito do que se passa no seu próprio país – assistimos a uma dinâmica levada a cabo de uma forma dramática na Europa, onde os bancos e os burocratas têm vindo a impor uma política de austeridade sob estagnação, o que quase de certeza piorá a situação e tornará mais difícil pagar dívidas. Têm sido duramente criticados por economistas, até pela imprensa económica, mas continuam a insistir na austeridade. É difícil encontrar uma fundamentação em termos económicos. Na verdade, penso que é impossível. Mas pode encontrar-se uma fundamentação. Na verdade, essa foi mais ou menos declarada pelo presidente do Banco Central Europeu, Mário Draghi, numa entrevista que deu ao Wall Street Journal e na qual afirmou que o contrato social na Europa está acabado. Por outras palavras, eles estão a aniquilá-lo”.

É claro que entre nós, as declarações públicas são precisamente o contrário, fazendo lembrar a estratégia dos Estados Unidos na guerra do Vietname, quando um dos seus generais declarou, nessa linguagem orwelliana que então começava a dominar o discurso das grandes potências, as mesmas que ainda controlam o destino da humanidade, que era “necessário” destruir algumas aldeias de um povo subjugado, para depois salvá-las, tal como ouvimos os nossos governantes dizer todos os dias que os cortes decisivos e destrutivos nos três principais sectores do Estado – Saúde, Educação e Segurança Social – são absolutamente essenciais à sua sobrevivência. De resto, Chomsky analisa ainda muitas das guerras em curso, relembrando que algumas delas, como se sabe, já têm também a ver com o acesso aos recursos naturais de zona global, e que ele prevê irem agudizar-se sob o regresso do sistema capitalista selvagem que domina praticamente em toda a parte. Surpreendentemente, para mim, pois trata-se de um país do qual raramente ouvimos alguma coisa, dado a sua aparente estabilidade e prosperidade, o Canadá é aqui mencionado de passagem, mas em termos que não poderemos esquecer. Depois de afirmar que o país a norte no seu continente está a tornar-se rapidamente num mero “protectorado” dos Estados Unidos (tal como somos e permaneceremos um protectorado da União Europeia, sem soberania integral ou poder de decisão independente), aponta os crescentes conflitos em volta das riquezas mineiras, por enquanto latentes ou fora das vistas do grande público, e insinua que podem tomar outra feição tal como estão a tomar já na América Latina e na Índia. É de um mundo tenebroso que nos fala Noam Chomsky — e durante décadas este proeminente intelectual público tem, infelizmente para nós todos, acertado.

Mudar o Mundo (re)apresenta-nos a uma voz “radical”, vinda do coração de um dos nossos impérios dominantes? Sim. A situação que vivemos na União Europeia, e muitos outros povos no mundo actual, perversamente repensado e reformulado, querendo construir e impor um futuro regresso reaccionário ao passado não é também “radical”?

_________

Noam Chomsky, Mudar o Mundo: Noam Chomsky e David Barsamian Analisam as Grandes Questões do Século XXI, Lisboa, Bertrand Editora, 2014.

FONTE: http://vambertofreitas.wordpress.com/2014/06/20/noam-chomsky-em-conversa-subversiva-sempre/

Moralistas, perdoai! Obedeci… | Olavo Bilac

Nua, mas para o amor não cabe o pejo
Na minha a sua boca eu comprimia.
E, em frêmitos carnais, ela dizia:
– Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo!

Na inconsciência bruta do meu desejo
Fremente, a minha boca obedecia,
E os seus seios, tão rígidos mordia,
Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.

Em suspiros de gozos infinitos
Disse-me ela, ainda quase em grito:
– Mais abaixo, meu bem! – num frenesi.

No seu ventre pousei a minha boca,
– Mais abaixo, meu bem! – disse ela, louca,
Moralistas, perdoai! Obedeci….

Olavo Bilac

Isso, o Aquilo, o Sem Nome, O | Vicente Franz Cecim

O que faz a árvore, o que faz o vento, o que faz eu me perguntar essas coisas?

– Lá.

Vê: aquela árvore, lá, se movendo.
Vês, vendo?
Parece coisa de sonho, não é? Aquela árvore longe, no horizonte se movendo.
O que move a árvore?
Para isso a gente tem uma resposta humana na ponta da língua: o vento. Outro Verbo.
Mas, ah, o que sopra o vento?
Para isso, eu não tenho a resposta.
Tu tens?
Ninguém tem, te digo.
É o Isso, o Aquilo, o Sem Nome,
e de onde vindo ninguém sabe, pois só sabemos que ao chegar aqui vai logo se escondendo de nós sob muitas formas, as Várias: aves, estrelas, insetos, peixes, e de vento vento
Pois se até sob a forma humana se esconde, em nós.
E se aquela árvore, lá, parar de se mover?
Para onde terá ido?
Diz-se disso: o vento sopra em toda parte, o vento: o Vento.
Da minha boca, agora mesmo ele está soprando para ti sob a forma destas palavras, onde também está e se mantém, escondido. Abro a boca, sopro um pensamento, e eis: ele aparece, mas desaparecido, pois só percebes as palavras.
Ouve, assim, com a tua mão roçando a minha boca.
É a voz do vento das palavras.
Sentes?
Ah, olha: agora a árvore parou de se mover.
Vês? Não-vendo¿
Ele terá ido embora dela, ou se mantém lá, nela, até a próxima brisa, ventania, sopro disso que nos sopra? Escondido¿
São muitas as perguntas que nos fazemos só de olhar as coisas, não é?
Então, essa que eu me faço agora: esse vento que sopra pela minha boca sob a forma das palavras com que estou te perguntando isto: ele é o mesmo vento que, antes, soprava lá aquela Árvore, longe, no horizonte, e agora veio soprar em mim, através de Mim?
Pudesse, pois se Isso sopra os ventos um só, se dispersando em vários istos, vários ventos, peixes, homens
Ou será que depois que deixa de ser o Isso ele é, em cada isto, um Isto que não se compara a nenhum outro?
Então, são muitas as perguntas que fazemos a elas, sós, olhando as coisas
As Coisas.
Elas, de Lá, nos olhando.
Aqui.
E aqui: um tU e um eU. Peixes homens
Ah, somos mesmo dois homens conversando, ou só um? O Mesmo.

O Um¿

Romance Passageiro – Paulo M. Morais

O Apolo é capaz de falar dias seguidos sobre o amor. Nunca teve dificuldades na retórica; é um poço de teoria acumulada sobre o assunto. Mas a prática ficou-lhe sempre aquém das palavras. Quando me negava um simples abraço, ele transformava-me numa Venus mal-amada. O desamor pelo Apolo foi uma morte lenta, um desespero contínuo, mas não foi uma vontade. O nosso ocaso sentimental foi uma fatalidade pregada pela incúria, pelo imprevisto ou, como temos nomes de deuses, talvez pelo destino.

«Romance Passageiro» é a viagem de Apolo e Venus pelo amor e desamor. Após o término da relação, ambos partem em busca do que foram, são, e anseiam ser. O mundo será o cenário desta caminhada, sem destino definido no tempo ou na narrativa.

Ficção interactiva, «Romance Passageiro» está aberto a participação dos leitores como personagens secundárias. Para tal, basta contactar o autor Paulo M. Morais.

RomancePassageiro

TABULA RASA | Festival Literário de Fátima | 1ª edição em 2015

Confirmado. Comissão Organizadora realizou hoje, dia 23 Outubro de 2014, a sua primeira reunião.

O Patrono do Festival é a Junta de Freguesia de Fátima, com o apoio e patrocínio da Câmara Municipal de Ourém.

O Director do Festival é o Dr. Eugénio Lucas. O Coordenador do site “Das Letras” integra a Comissão Organizadora, com o pelouro das relações institucionais com os Escritores, Críticos e Editoras.

O Festival Literário de Fátima – TABULA RASA – terá periodicidade anual.

A VIAGEM | Licínia Quitério

Há quanto tempo morrera aquilo a que chamara A Viagem? Sabia exactamente o dia, a hora. Quatro da tarde, o sol perigoso, o abrigo do guarda-sol de riscas rosa e laranja. A mão na testa suada dele, em toque leve, hesitante. Vamos então? Posso marcar com a agência? Sentiu-lhe o estremecimento. Total, da raiz à copa. Disse não, já marquei. Levantou-se, pegou na toalha, nervoso. Sabes com quem vou. E, quase num grito, é melhor acabarmos com isto de vez. Foi no dia de Verão em que a noite se fez mais cedo, mais escura.
Olhou o relógio. Eram duas da tarde naquela terra em que o sol chegava uma hora antes. À mesa do almoço, incluído no pacote A Viagem, com mulheres que umas às outras se acompanhavam. As pernas pesadas, cruzadas com esforço. A Viagem estava a ser dura e o calor mordia-lhe as pernas dantes tão bonitas, a soltarem assobios nos olhos dos homens. Fitava a das argolas faiscantes, poderosa ainda. Se fosse como ela, quem sabe pensaria em, como se diz, refazer a vida, desfazer os anos, inaugurar, porque não, uma nova paixão. Foi um relâmpago de desvario que lhe trouxe os olhos azuis, magníficos, estuporados, de Donald Sutherland, no rosto fechado do jovem empregado que lhe atirava “Vous voulez quoi, Madame?” A carne. Estava mal passada, rosada no interior que ela exibia, de garfo e faca assestados na ferida.
A Viagem é também aquilo. Decidir, exigir, protestar, silabar Ca-pa-dó-ci-a quando dizem Palma de Maiorca, calar-se quando se erguem os Himalaias na voz maiúscula do Homem-que-já-deu-duas- -voltas-ao-mundo.
Tanto cansaço, tantas horas, tão longe o chapéu-de-sol às riscas, tão sem sabor A Viagem finalmente ressuscitada, tão diferente da outra, tão mal passada a carne.

Licínia Quitério, em Disco Rígido

Ourém vai receber projeto dedicado a Hans Christian Andersen

“Hans Christian Andersen… o rapaz que queria ser actor, cantor e bailarino…” é o nome do projeto do artista plástico Niels Fischer que vai estar em Ourém entre os dias 31 de outubro e 30 de janeiro de 2015.

Sem fins lucrativos, esta mostra inclui uma exposição permanente de quadros, livros ilustrados de artistas plásticos portugueses, recortes de papel de Hans Christian Andersen, esculturas, cerâmicas, jóias, filmes, literatura, medalhística, selos postais, quadros e instalações de crianças, jovens e adultos anónimos de todo o país.

Segundo uma nota de imprensa da Câmara de Ourém, “o projeto conta com a participação de 38 instituições do concelho e artistas plásticos de várias áreas educativas, culturais e sociais, que dinamizarão atividades ligadas à literatura, às artes plásticas, escultura, instalações de rua, tapeçarias, teatro, música e dança, entre outras”.

A exposição em vários locais da cidade, a Praça D. Maria II, a sala de exposições dos paços do concelho, no museu municipal (galeria municipal e casa do administrador), na biblioteca municipal, jardim Le Plèssis-Trevise e na praça Dr. Agostinho Albano de Almeida.

Segundo a mesma nota, desde 2005, o projeto foi apresentado em 58 localidades e 39 bibliotecas, tendo já mais de 300 mil visitantes.

hanschristianandersen-500

in http://www.rederegional.com/ (FONTE)

Um Pouco Acima da Miséria de Amadeu Baptista | por José do Carmo Francisco

Prémio de Poesia «Cidade de Ourense» em 2013, este livro de 99 páginas e 27 poemas é uma longa reflexão de Amadeu Baptista (n.1953) sobre a Vida, a Morte e o Mundo – entendido por «Mundo» um verso da página 64: «religião, história, lógica, razão, honra ou justiça». Basta um verso da página 77 para perceber o alcance da mensagem. Erguendo a voz como se fosse o poeta Nazim Hikmet, Amadeu Baptista, que publica regularmente poesia desde 1982 («As passagens secretas»), afirma – «serei poeta continuadamente» – depois de no verso anterior ter definido Ataturk: «de cabo-de-guerra a paxá, Mustafá Kamal será Ataturk /herói dos Dardanelos, pai dos turcos, genocida dos arménios». De modo hábil, o autor inventa no poema sobre Nelson Mandela o que poderia ter sido a sua fala ao sair da prisão em Robben Island: «Não sei se na generosidade o acaso existe, / mas tenho para mim que foi bondosa a vida / que me coube viver, tão cheia de obstáculos / e dissabores, tão dentro dos covais que só a luz / poderia enfim surgir no termo da jornada em que inicio / uma outra caminhada sobre a qual agora me ergo, / por um planalto de cânticos / um sortilégio de irmãos / uma savana de rosas.» De poema em poema, há no livro uma revisitação aos vários tempos da Guerra e da Paz, do Mundo e dos Homens, há gente que mandou matar (Rasputine, Hitler, Trotsky, Mussolini, Lumumba) mas, nas sucessivas máscaras convocadas, o ponto alto está na máscara do próprio poeta. Começa numa adversativa: «A soletrar um verso, não obstante / os centros comerciais e os bancos ingleses / vem a máscara de novo à cena / dizer que a vergonha engendra mais vergonha». Mas conclui afirmando: «A máscara do amor: a secreta paisagem / que nos traz aqui em busca da nossa própria máscara. /Adeus penumbra e imensidão de lágrimas / cabe ao poeta a máscara da ternura». Escrito para António José Queiroz, dedicado à memória de Aristides de Sousa Mendes e abrindo com uma citação de Manuel António Pina, este é um livro de excepcional qualidade poética a partir de uma ideia insólita, inesperada e inovadora. (Editora: & etc, Capa: Alex Gozblau)

in: http://transportesentimental.blogs.sapo.pt/um-pouco-acima-da-miseria-de-amadeu-163662

Pedro Maciel | Percursos

Lancei o romance Previsões de um cego, ed. LeYa, em agosto de 2011. Para o escritor e crítico Silviano Santiago, “a ambição da prosa inovadora de Maciel afirma-se fora do ritmo e do compasso disto a que classificamos nas salas de aula e nos manuais como Literatura brasileira ou ocidental. A prosa inspirada e utópica do autor vai levar o leitor a deslocamentos súbitos e sucessivos do eu por esferas celestes nunca dantes navegadas”. Segundo o escritor José Eduardo Agualusa, “o escritor brasileiro Pedro Maciel possui uma virtude rara entre os novos escritores de língua portuguesa: a originalidade.” Em 2010 lancei Retornar com os pássaros, ed. LeYa. Segundo Ferreira Gullar, “Retornar com os pássaros é muito bonito, inteligente e instigante”. Em 2009 lancei o romance Como deixei de ser Deus, Ed. Topbooks. Segundo o filósofo e poeta Antonio Cícero, “de certo modo, é o tempo o verdadeiro tema desse livro, que pode ser considerado uma espécie de Bildungsroman, isto é, de romance de educação ou formação. Pode-se dizer que é justamente a intensa capacidade de instigar a sensibilidade, o pensamento e a imaginação que constitui um dos maiores encantos de Como deixei de ser Deus”. Já o escritor Moacyr Scliar diz que, “Como deixei de ser Deus foi para mim uma gratíssima surpresa, pela originalidade, pela profundidade e pela transcendência do texto”. Segundo o poeta e tradutor Ivo Barroso, “Pedro Maciel nos faz acreditar que a literatura brasileira possa ainda apresentar alguma coisa de novo que, curiosamente, remonta à própria arte de escrever: o estilo. O seu primeiro romance A hora dos náufragos (Ed. Bertrand Brasil, 2006) perturba pela força da linguagem. O que há de mais próximo desse livro seriam os famosos fusées de Baudelaire”.
Autor dos romances “Previsões de um cego” (2011), ed. LeYa, “Retornar com os pássaros” (2010), ed. LeYa, “Como deixei de ser Deus” (2009), ed. Topbooks e “A hora dos náufragos” (2006), ed. Bertrand Brasil.