Lançamento do livro “Pregões de Esperança”, de D. Manuel Martins, com apresentação do General Ramalho Eanes‏

Ramalho Eanes apresenta livro de D. Manuel Martins, primeiro bispo de Setúbal
Ramalho Eanes, presidente da República de 1976 a 1986, vai apresentar o mais recente
livro do bispo emérito de Setúbal, D. Manuel Martins, intitulado “Pregões de Esperança”,
em sessão que decorre a 12 de novembro, no Porto.
Nascido em Leça do Balio, Matosinhos, no ano de 1927, D. Manuel Martins tornou-se
próximo do bispo D. António Ferreira Gomes aquando do seu regressou ao Porto, após o
exílio, ao ser nomeado vigário-geral da diocese portuense.
Em 1975, D. Manuel Martins foi nomeado primeiro bispo da diocese de Setúbal, tendo-se
notabilizado na defesa aberta e persistente das pessoas mais carecidas, bem como na
denúncia de situações de fome e pobreza no distrito.
«Nas mais variadas circunstâncias, tenho gritado mensagens de justiça. Fiz apelos de
solidariedade e de paz, chamei à esperança. (…) Aqui ficam para continuarem a alertar, a
incomodar e, se possível, a transformar», escreve o autor ao abrir o livro publicado pela
Paulinas Editora.
A 25 de abril de 2011, por ocasião do discurso que proferiu no âmbito das comemorações
do 37.º aniversário da “Revolução dos Cravos”, Ramalho Eanes recordou a figura do
prelado.
«Lembro, em 1983, o dramatismo da crise, social mesmo, com salários em atraso e fome,
situação que, aliás, suscitou muita intervenção da Sociedade Civil, entre elas, a justa e
ousada intervenção, quase ultimato à própria sociedade e ao governo de D. Manuel
Martins, então Bispo de Setúbal», afirmou o ex-presidente da República.
A sessão de lançamento do livro “Pregões de Esperança” realiza-se às 18h00, no Palácio da Bolsa

D. Manuel Martins

UMA NOITE A MAIS NA VIDA DA MULHER VIOLENTADA | Rui Sobral

Soma-se um dia. Uma noite a mais. O medo – feroz. Surgem-lhe memórias do que a vida lhe teria reservado se tivesse conquistado outras opções. Uma lágrima cai sob a almofada insossa e impávida. Ela aconchega os cobertores pesados sob o seu corpo cansado. A porta do quarto estremeçe – ele acabara de chegar. Ela estremeçe ainda mais que a porta. Descontroladamente supõe tudo o que ele lhe possa questionar e enfia-se numa gruta fria, sozinha e cheia de silêncio – estava apta à submissão.
Abre-se a porta do quarto. O odor a álcool toma conta do ar que ela irrespiravelmente respirava. Ela, pronta, despe a calça de pijama azul de algodão cardado de forma quase imóvel. Levanta a camisola até ao pescoço.
Num rasgo, ele mistura-lhe álcool e fluidos sem que uma palavra tenha sido pronunciada.

Soma-se um dia. Uma noite a mais. O medo – feroz. Surgem-lhe memórias do que a vida lhe teria reservado se tivesse conquistado outras opções. Uma lágrima cai sob a almofada insossa e impávida. Ela aconchega os cobertores pesados sob o seu corpo cansado. A porta do quarto estremeçe – ele acabara de chegar. Ela estremeçe ainda mais que a porta. Descontroladamente supõe tudo o que ele lhe possa questionar e enfia-se numa gruta fria, sozinha e cheia de silêncio – estava apta à submissão.
Abre-se a porta do quarto. O odor a álcool toma conta do ar que ela irrespiravelmente respirava. Ela, pronta, despe a calça de pijama azul de algodão cardado de forma quase imóvel. Levanta a camisola até ao pescoço.
Entre ofensas de uma só origem e ruídos animalescos, ele tinha-se apoderado do seu corpo – nunca da sua verdade.

Soma-se um dia. Uma noite a mais. O medo – feroz. Surgem-lhe memórias do que a vida lhe teria reservado se tivesse conquistado outras opções. Uma lágrima cai sob a almofada insossa e impávida. Ela aconchega os cobertores pesados sob o seu corpo cansado. A porta do quarto estremeçe – ele acabara de chegar. Ela estremeçe ainda mais que a porta. Descontroladamente supõe tudo o que ele lhe possa questionar e enfia-se numa gruta fria, sozinha e cheia de silêncio – estava apta à submissão.
Abre-se a porta do quarto. O odor a álcool toma conta do ar que ela irrespiravelmente respirava. Ela, pronta, despe a calça de pijama azul de algodão cardado de forma quase imóvel. Levanta a camisola até ao pescoço.
Foi nessa posição, nesse semblante que ela deixou a vida. Ele hoje rendeu-se a algo de matéria crua. Foi num só disparo. O projétil atingiu-lhe o crânio. A ela. Finalmente a vida ofereceu-lhe um bilhete para a coragem gratuita.

Esta é a realidade de muitas mulheres. De muitos casais, de muitos lares. De muitos de nós.
Soma-se um dia e quando nada se faz, uma noite será sempre uma noite a mais.

Rui Sobral

O quotidiano “não” | Alexandre O’Neill

Estamos todos bem servidos
de solidão.
De manhã a recolhemos
do saco, em lugar de pão.

Pão é claro que temos
(não sou exageradão)
mas esta imagem do saco
contendo um pequeno «não»

não figura nesta prosa
assim do pé para a mão,
pois o saco utilizado,
que pode ser o do pão,

recebe modestamente
a corriqueira fracção
desse alimento que é
tão distribuído, tão

a domicílio como
o leite ou o pão.
Mas esse leitor aí
(bem real!) já diz que não,

que nunca viu no tal saco
o tal «não».
Ao que o poeta responde,
sem maior desilusão:

– Para dizer a verdade,
eu também não…
Mas estava confiante
na sua imaginação

(ou na minha…) e que sentia
como eu a solidão
e quanto ela é objecto
da carinhosa atenção

de quem hoje nos fornece
o quotidiano «não»,
por todos os meios, desde
a fingida distracção,

até ao entre-parêntesis
de qualquer reclusão…

Alexandre O´Neill
Poesias Completas

Foto :”Street Photography” – by Rui Palha

solidão

Crise Económica e Crise da Democracia em Tempos de Austeridade

3ª conferência do Doutoramento de Ciência Política, 2014-2015:
Dia 7 de Novembro das 18h às 20h. Local: Auditório C103 (Edifício II – ISCTE-IUL).
«Crise Económica e Crise da Democracia em Tempos de Austeridade:
Apresentação & Debate em torno dos livros Crónicas dos Dias do Lixo, de José Pacheco Pereira, e Austeridade, Democracia e Autoritarismo, de André Freire)».
Conferencistas:
José Pacheco Pereira (Historiador, Publicista, Colunista e Comentador em vários Jornais e TVs, Professor do ISCTE-IUL);
André Freire (Politólogo, Professor do ISCTE-IUL, Investigador do CIES-IUL, Colunista do jornal Público).
Discussão, comentário e moderação:
Fernando Sobral (Jornalista, Jornal de Negócios).
Debate aberto ao público, no final.

crónicas

J.M.W. Turner

Os últimos 25 anos de vida de um dos maiores pintores britânicos de sempre, o excêntrico J.M.W. Turner, dão corpo ao novo filme de MIKE LEIGH.
MR. TURNER, protagonizado por Timothy Spall (Prémio de Melhor Actor no Festival de Cannes), tem antestreia marcada no Lisbon & Estoril Film Festival no dia 8 de Novembro, às 21h30, no Cinema Medeia Monumental.

Turner

«Fenistrigalva – corpo de brisa e alma de fogo» | Dalila Moura Baião

Rompia o mês de Maio, por entre manhãs cálidas, embriagadas de tímidos sóis, rasgando verdes sorrateiros que iam adornando a natureza, sulcando orvalhos matinais.
Campos adormecidos despertavam mais uma vez da letargia de um sono invernal.
Eram como rufares de tambores que aos poucos, vindos de longe, se aproximavam para a grande festa do Renascer.
Em mais de mil pares de olhos, renascia também a esperança que Fenistrigalva emergisse de novo, do local onde era esperada com ansiedade e, mais uma vez, rodopiasse na sua dança, que dança e encanta, que cansa e descansa, de tremor e esperança.
Ano após ano ela era esperada. Ano após ano era desejada, nunca possuída, mas sempre ansiada.
Cada vez que voltava, com ela trazia a vida. Por isso, em cada Maio, era esperada com sofreguidão.
Se Maio partisse e ela não chegasse, era presságio de maus agoiros: o sofrimento, a fome, a destruição.
Maio caminhava. O seu percurso já ia em meio e de Fenistrigalva, nem sinais.
Os mais velhos diziam que viria, que nunca tinha falhado desde que se conheciam como gente.
Os mais jovens e adultos maduros, já duvidavam que ela aparecesse e antecipavam estratégias para abrandar a sua fúria.
A criançada desenhava no chão a sua imagem e colhia pequenas flores fugidias que iam salpicando a planície, dizendo querer fazer uma coroa, para enfeitar os seus cabelos.
E que cabelos ornamentavam Fenistrigalva!
Eram como trigais que ondulavam ao vento e gritavam liberdade, como quem apregoa: – Vida, eu te possuo!
Nunca ninguém a tocara ou pudera sentir o calor daquela pele, mas todos pressentiam a maciez do seu corpo (será que era um corpo)?
Falar do corpo de Fenistrigalva, era tentar adivinhar se as chamas que irrompiam de si, eram línguas de fogo que se soltavam no ar, ou labaredas que a prendiam na tal dança feiticeira que a tornara tão especial.
-Não podes faltar, Fenistrigalva! Pareciam gritar as bocas mudas de silêncios.
– Tens que arder e dançar; voar e rodopiar! Imploravam os olhos atentos dos que a esperavam.
De Fenistrigalva, nem sinais e Maio continuava a ser tempo, num Tempo. Nunca assim tinha demorado!
Será que viria? Será que a vida continuaria no ritmo cadenciado a que cada um já estava habituado?
Por certo não haveria eclosão de vida, a maldição a que fora destinada, prendeu-a para sempre.
O fim parecia estar próximo. Era a destruição.
Por Maio tinham passado trinta noites enluaradas, trinta manhãs ensolaradas, trinta esperas delirantes, confiantes, desesperadas.
Em mais de mil pares de olhos, a dúvida castrava.
Resolveram fazer fogueiras num círculo, onde espigas de trigo foram deitadas em molhos enlaçados, embebidas de luar.
Sentaram-se à volta. Era a última noite de Maio.
As estrelas faiscaram. A lua enviava pedaços de cetim.
Ao longe, muito ao longe, algo acontecia, que ainda não era possível adivinhar.
De repente… Que foi feito das estrelas? Do luar?
O céu escureceu! Na terra, os corpos tremiam.
Era a maldição! Não viria mais Fenistrigalva.
Um trovão! Um rufar de tambor, outro trovão. Rufam tambores, que inundam de sons fortes, o círculo mítico onde as espigas aguardam. É a maldição dos deuses que se avizinha.
Nisto, rasgou-se a terra, romperam-se sulcos, beberam-se luares.
Fenistrigalva apareceu! Majestosa e imponente.
Dançou e encantou, numa dança inebriante que convidava à vida e ao amor; à paz, ao fulgor.
No seu fogo fez arder as espigas de luar, com os seus cabelos enlaçou os homens e fê-los acreditar. Todos a sentiram, ninguém a pode tocar.
Ela era a Vida, a própria vida que renascia em cada Maio que acontecia.
Desta vez demorou mais; fê-los duvidar mas renasceu e no último dia, a 31 surgiu e desapareceu, levando para os confins da Terra a maldição, que no seu fogo queimou.
E Maio adormeceu! Descansou!
Não ficaram cinzas; ficou a Vida, para ser conquistada em cada dia, abençoada por Fenistrigalva que partia e ressurgia.

Dalila Moura Baião

Sobre a escrita de Ana Cristina Silva

Ana Cristina Silva, nos seus dois mais recentes romances, brinda-nos com um interessante confronto entre duas personalidades masculinas. Em ambos os livros, esse confronto desenrola-se ao nível do pensamento, em diálogo omitido, mas não menos doloroso se tivesse lugar ao nível físico, de corpo contra corpo.

N’ O Rei do Monte Brasil, Gungunhana revive a sua ascensão e glória, até à queda em desgraça, aprisionado às mãos de Mouzinho Albuquerque. O rei africano acaba por desfilar na Praça do Comércio como um troféu, uma curiosidade exótica. Gungunhana dedicou também muito das suas reflexões ao arqui-inimigo, Mouzinho. Quando soube da sua morte, escreve-lhe em pensamento, uma carta póstuma. Muito do que nos é revelado sobre a personalidade do militar português assentará nessas palavras. É através de Gungunhana que entramos num mundo interior bastante rico e na exposição desassombrada de si próprio. O régulo traz no olhar e na alma as imensidões das planícies africanas. No seu último momento, prisioneiro que era, será com esse olhar que se despede do mundo. Mouzinho é um homem reprimido pela sua educação e sentido de honra. Será dos dois, o que vive mais aprisionado. É um militar ao serviço de um rei e de um império; do conceito de um império que se perdeu nas intrigas e movimentações da corte.

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«NOVAS CARTAS PORTUGUESAS» EM ESTUDO NA SUÉCIA

A revista sueca «lambda nordica», no seu primeiro número deste ano, dedica a capa a «Novas Cartas Portuguesas», numa demonstração da importância e actualidade do livro, cuja publicação em 1972 levou as autoras – Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa – a tribunal por imposição do Governo fascista de Marcelo Caetano. A capa da revista remete para o artigo «Hifenizações: As Outras Vidas dos Conceitos Feministas e Queer», da autoria do prof. João Manuel de Oliveira, detentor de um PhD em Psicologia Social, e que coordena a linha de investigação Género, Sexualidades e Interseccionalidade no CIS-IUL (Instituto da Universidade de Lisboa). No artigo, João Manuel de Oliveira, sustenta que «o texto é extremamente importante como um marco precoce nas tentativas de repensar possíveis estrangulamentos que estavam nesse tempo em larga medida ausentes da teoria feminista internacional». E cita, a propósito, Ana Margarida Dias Martins, para quem a obra das Três Marias «advogava construções teóricas que antecipam, por exemplo, textos feministas franceses actualmente canónicos». Ao tempo em que foi publicado – conclui o autor – o livro «tornou-se uma “cause célèbre”, e todavia os seus conceitos não obtiveram a atenção das feministas». E mesmo hoje – acrescenta mais à frente o investigador universitário João Manuel de Oliveira – «estas áreas do conhecimento em Portugal (e também no estrangeiro) tendem a ser classificadas num espaço intermédio entre aceitação e rejeição, com um reconhecimento mal digerido revelador da ambivalente aceitação pela academia do trabalho feminista.»

CURIA | Cristina Carvalho

Caminhávamos sempre de mão dada ao começo da manhã e a cada final de tarde.
Havia uma estrada de terra que atravessava todo o parque e que rodeava o lago. O meu pai dizia sempre que me ia mostrar coisas nunca vistas: cabelos de árvores, animais extravagantes, lagostins da terra, pássaros com voz humana e ao longe, se parássemos a escutar poderíamos até ouvir o rei Lumumba que vivia lá na África mas que tinha uma voz tão poderosa, tão poderosa que chegava até aqui ao lago plano e metálico do parque da Curia. E assim parávamos e assim escutávamos, eu e ele, olhando-nos nos olhos, incrédulos, eu por uma razão, ele por outra. A voz profunda de Lumumba ouvia-se distintamente no meio do lago da Curia quando ao fim da tarde, aqui neste canto ignorado do planeta, os jovens casais de namorados pedalavam nas gaivotas, entrelaçando as pontas dos dedos das mãos, deixando um rasto de beijos a desenhavar amores líquidos.
Assim passei muitos meses de Agosto, eu e o meu pai, a caminhar, a caminhar de mão na mão por infinitos chãos de terra, num sonho verde sem fim, atravessando uma linha de pensamento que nos conduziria, incansavelmente, a um espaço secreto e intransponível.

Eu e ele fomos, muitas vezes, um só.

Cristina Carvalho

NOVAS MORTES ANUNCIADAS | Lícinia Quitério

Eles matam-nas e matam também os filhos.
Elas calaram-se, esperaram que eles mudassem, não fugiram porque têm os filhos e não sabiam para onde ir.
Elas fugiram e pediram abrigo e continuaram com medo deles.
Elas voltaram para eles que prometeram não tornar a bater-lhes, mas bateram, cada vez com mais força.
Elas não suportaram, pediram o divórcio, eles saíram de casa, elas julgaram-se a salvo, mas eles apanharam-nas na rua e mataram-nas e também mataram os filhos que tentaram protegê-las.
Elas têm vergonha que a família saiba, que os vizinhos saibam, elas gostam deles, elas sentem-se culpadas porque falaram com outro homem, elas sentem-se culpadas porque pensaram em fugir.
Eles têm ciúmes, eles não aceitam perder o processo de divórcio, eles vivem com outras mulheres, mas querem matar aquela.
Os políticos sabem, os vizinhos sabem, as famílias sabem, na polícia sabem, no hospital sabem.
Todos esperam a tragédia, todos sabem que um dia eles as matarão. Todos esperam as mortes anunciadas.

Licínia Quitério

03.01.14

NO MEIO DO CAMINHO | Carlos Drummond de Andrade

“No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.”

Carlos Drummond de Andrade

Citando Lídia Jorge

«… É diferente ser-se uma escritora ou um escritor. Não queria ir por aí, não vale a pena as mulheres brandirem essa bandeira. Mas um homem escreve e tem na sua família um exército de gente que ajuda à volta. A mulher tem um exército de gente que impede a escrita. Há meses em que não há uma pessoa que fale comigo do universo que escrevo. As mulheres dos escritores homens sabem o que eles estão a escrever, ajudam-nos. E se não são as mulheres, são as amantes, as secretárias. Mas tomei como princípio não usar a estratégia do lamento ou da distinção. Só podemos mudar isto através da nossa competência, do valor, da seriedade, da deontologia, da ética. A sociedade vai-se fazendo. Hoje vemos os jovens homens terem muito mais respeito pelo trabalho das mulheres, pela criação das mulheres. Há uma partilha de mundos mais equitativa.»

FONTE … http://www.sol.pt/noticia/116395

TKNT | Crowdfunding: 5 euros e mudamos o mundo

Se for a www.tknt.pt percebe que existe uma plataforma que tenta verdadeiro serviço público. Plataforma de vídeo, áudio e texto. E se até agora foi feito sem fundos, cruzando a sociedade artística com a sociedade civil – mesmo -, imagine o que com os seus 5 euros esta Televisão K Não É Televisão poderá ser?! Uma revolução de que vão ser donos. Vocês e Nós: Todos somos a TKNT

“Invocação” | Ivone Mendes da Silva

Encontro por vezes ao sair
um pequeno deus encostado ao umbral da minha porta.
É um deus mestiço, linhagem de faunos e de anjos, algum
encontro casual de uma deusa com um pastor arcádico.
Em todas as teogonias havia de lhe encontrar ascendência,
até nas árvores-espelho onde o tempo se remira
ou no último fio de nevoeiro que se levanta tardio,
se a procurasse com afinco
e fosse disciplinada e metódica. O pequeno deus mestiço
tem um olhar de exílio onde agoniza aquela incómoda condição
de quem já está no mundo para ficar
e, sem remédio, apanha com todo o frio dos acasos
na ombreira de uma porta que não dá para parte alguma.
E como se fosse mortal, creio que sofre, o cálice da indiferença
não lho deram a beber. Enternecem-me as asas nas sapatilhas
estafadas dos caminhos etéreos que o trouxeram aqui
e o amarraram na circunstância. Se eu escrevesse poemas úteis
teria vinho e rosas para lhe dar, o recorte estudado
de um verso bem burilado. Assim, procuro no fundo do saco
dois verbos mais duráveis. E estendo a mão sobre os séculos
e o meu braço atravessa a fome, a peste, os ventos do Levante,
tudo o que li e por isso vi,
as mulheres troianas rasgando com as unhas as paredes
do palácio de Príamo saqueado, o rei dos Rútulos a pedir clemência.
Canta-me, ó pequeno deus mestiço, como caem todos os anjos,
diz-me se há rota por onde voltem a casa os dias dissipados.

(2014)

Apresentação | EM AGOSTO… A LUZ DO TEU ROSTO | António Bondoso

O mais recente livro de António Bondoso. Apresentação a cargo da Professora e Poetisa REGINA CORREIA. Sábado, 22 de Novembroàs 17:00. Na
Associação dos Antigos Alunos do Ensino Secundário de Cabo Verde – AAAESCV -, na Rua Manuela Porto, 12 A/B, em Carnide/Lisboa (mesmo ao lado da esquadra da PSP de Carnide, à saída do Metro de Carnide, bem perto da Casa do Artista).

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Tematização linguística na literatura angolana realizada em Paris | Vitor Burity da Silva

Os aspectos linguísticos da produção literária de Luandino Vieira e Uanhenga Xitu foram o realce de uma palestra proferida recentemente em Paris pela Professora Universitária Ana Mafalda Leite.
A palestra sobre “Tematização linguística na literatura angolana” foi organizada pela Fundação Calouste Gulbenkian de Paris sob proposta da Professora Agnès Levécot da Universidade Nova Sorbonne (Paris 3).
Durante a sua apresentação, a Professora Ana Mafalda Leite da Universidade de Lisboa, especializada em literatura africana, escolheu estes dois escritores angolanos, por melhor encarnarem a transgressão na maneira de escrever a língua portuguesa que constitui uma especificidade da literatura angolana.
Em sua opinião, essa transgressão é manifestada não só pelo aportuguesamento de palavras e expressões de línguas africanas de Angola, sobretudo o Kimbundu, mas também pela transposição de estilos de expressão próprios da oralidade para a escrita, tendo Luandino Vieira descrito episódios da vida urbana em Angola enquanto Uanhenga Xitu se consagrou fundamentalmente a acontecimentos ligados ao meio rural ou semi-urbano.
Para ilustrar o trabalho de Luandino Vieira, Ana Mafalda Leite escolheu a sua obra “Luuanda” que lhe valeu um polémico prémio da Sociedade Portuguesa dos Escritores em 1964.
Luandino Vieira não foi o primeiro a utilizar as línguas locais na literatura em português, tendo de alguma maneira recuperado uma tradição do século XIX, cujo representante mais ilustre foi Cordeiro da Mata que até tinha concebido um manual, uma gramática e um dicionário em kimbundu, na tentativa de atribuir a esta língua africana a mesma dignidade que o português. Alfredo Troni foi outro dos precursores através da sua novela Nga Muturi.
A também poetisa e ensaísta indicou que autores angolanos de gerações muito mais jovens como Ondjaki garantem a continuidade desse estilo que muita caracteriza a moderna literatura angolana.
No que diz respeito a Uanhenga Xitu, Mafalda Leite escolheu para ilustração “Mestre Tamoda” que considerou um exemplo da comédia trágica representada muitas vezes pelos africanos de Angola no contexto da política de assimilação.
Citou outras obras do mesmo autor como “Manana” e “Makas na Sanzala” através das quais episódios da vida das populações de aldeias da Angola colonial são descritos, transpondo estilos de expressão próprios à oralidade para a escrita.
Outros escritores angolanos contariam histórias sociais utilizando línguas locais no português de maneira mais discreta como é o caso de Boaventura Cardoso e Arnaldo Santos, enquanto outros utilizam na escrita a linguagem falada dos jovens urbanos, como o Manuel Rui ou então recuperam apenas uma lógica determinada na maneira de contar estórias, como o Pepetela – disse.
Ao longo da exposição foram lidos extractos de obras dos escritores angolanos a que se fazia referência, com destaque para “Mestre Tamoda” recentemente traduzido em francês na antologia de contos angolanos editada pela Présence Africaine para a UEA com o título “Chasseurs de rêves” e que muito divertiu a assistência.
Na sala de conferências estavam expostos exemplares de livros de escritores angolanos, entre os quais, Luandino Vieira, Rui Duarte, Victor Burity da Silva, Agualusa, Pepetela, Paula Tavares, Ondjaki e Manuel Rui.
A conferência contou com a presença de participantes franceses, portugueses e de diferentes países africanos de expressão portuguesa, além dos angolanos.

“A reinvenção da Europa” de Vasco Graça Moura | por Vamberto Freitas

É claro que, considerando a construção de uma unidade europeia política, não podemos deixar de falar das tentativas imperiais dessa construção, aliás impostas pela força, de cima para baixo, e pontuadas pelo fracasso ao longo dos séculos.

Vasco Graça Moura, A Identidade Cultural Europeia

Vamberto Freitas

Não, não estou tão fora das minhas áreas habituais e de eleição nestas páginas. Eventualmente, a literatura abrange tudo que é humano, eventualmente tudo que é humano abrange a literatura. Ao contrário do que (me) diziam os últimos dos New Critics americanos a fins dos anos 60 e durante a década seguinte, quando foram desaparecendo de cena na academia, a história fora do texto tem importância na nossa apreensão de significados, a ignorância reduz definitivamente o prazer do texto, a absorção de contextos que nos clarificam a mais leve insinuação de um narrador ou narradora, que, juntamente com o tom da sua voz, pode virar todo o sentido de um passo, ou mesmo do texto no seu todo. Diziam muitos deles o mesmo sobre os desnecessários conhecimentos biográficos de um escritor sob a nossa atenção – ou a sua obra se “auto-segura” sem mais referências exteriores às suas palavras, ou não vale nada. Tudo isto para vos dizer, sem nunca deixar de prestar homenagem aos meus antigos mestres, que um conceito de cidadania e o tentar perceber um pouco melhor o nosso tempo e tudo o que influi quotidianamente nas nossas vidas é material legítimo para análise e comentário, é fonte de esclarecimento na leitura de qualquer narrativa, para lá da forma ou do género. Quando um conjunto de textos aborda o tema primordial da nossa identidade, e de identidades-outras, próximas ou distantes nos nossos destinos, teremos uma parte fulcral do que é feita a melhor literatura, desde os gregos aos nossos dias. Quando esses ensaios compõem um livro da autoria de um escritor como Vasco Graça Moura (falecido bem pouco depois de alguns destes escritos terem sido publicados por outros meios), que cultivou praticamente todos os géneros literários entre nós e nunca descurou as suas obrigações de intelectual público, regressando sempre à História para contextualizar arte e opções ideológicas da nossa contemporaneidade, as suas e as dos outros, lê-lo, para mim, tanto é um acto obrigatório como de prazer, de confronto com novas perspectivas e olhares sobre uma realidade europeia em suposta construção. Tudo o que determina e influencia a vida do nosso país, desde o mero gesto na compra seja do que for, à cultura que nos molda ou nos tenta orientar em determinada direcção, à arte essencial que daí já brota em toda a sua inevitável multidimensionalidade, o autor comenta directa ou implicitamente nestes seus escritos.

Ler Vasco Graça Moura, neste seu A Identidade Cultural Europeia, é continuar a ter, repita-se, uma das mais significativas referências intelectuais dos nossos dias. Esqueçamos por agora a sua obra poética, ficcionista e de tradutor dos clássicos e outras peças fundamentais da literatura ocidental, e lembremos as suas intervenções regulares na nossa imprensa. Na defesa das suas opções ideológicas nunca se escondeu sob um palavreado ofuscador tão da nossa tradição intelectual, de vozes que parecem cheias de medo e calculismo. Lei-o precisamente por estar nos antípodas das minhas próprias lealdades políticas e mundividências, por saber que em cada questão de cultura ou cidadania haverá, felizmente, outros pontos de vista, outras crenças que interpelam as nossas, nos poderão sugerir a necessidade de as rever, ou então de reafirmar o que pensamos e defendemos. Tenho de confessar que a questão da Europa interessa-me só na medida em que poderá conduzir o nosso país, as nossas vidas, o nosso futuro, numa ou noutra direcção. Nestes anos mais recentes, falar da Europa entre nós é falar de dinheiro e crise, da má fé de uns e de outros, de interesses bancários obscuros, de tentativas hegemónicas dos mais fortes no continente, da perda de soberania e auto-estima nacional, da nossa casa atlântica e dos afectos históricos a sul, da expansiva geografia da nossa língua em todos os outros continentes e algumas ilhas circundantes. Vasco Graça Moura não ignorou nenhuma destas áreas de questionamento essencial numa sociedade bem formada, com uma suposta e activa elite consciente das suas obrigações colectivas, o que nem sempre, como se sabe, tem sido o nosso caso. Creio que a pergunta do autor que subjaz a este magnífico conjunto de ensaios é simples – o que é a “cultura europeia” e como nos temos integrado, e nos integramos, nesse espaço da mente criativa e da tradição cívico-cultural? Por outro lado, quase parágrafo a parágrafo, Vasco Graça Moura reafirma que sem essa componente de todo o projecto em construção de uma União Europeia autêntica, pouco ou nada vai restar que valha a pena a longo prazo, ou para além dos interesses imediatos e da troca comercial de coisas. É nas resposta às primeiras questões que este pequeno livro brilha, e, para quem quiser, acrescenta muito mais ao nosso saber da arte em geral, e que hoje está firmemente espalhada pelo resto do globo, o Ocidente sendo aqui definido como estando geograficamente localizado neste continente e na sua expansão e forte presença nas Américas, de norte a sul. Vasco Graça Moura reafirma aqui repetidamente a aliança especial com os Estados Unidos, tanto como defesa da paz entre nós como no restante mundo, como de partilha de prosperidades ou no confronto com realidades inesperadas de toda a natureza, e vindas de fora dessa esfera de poder e influência. Como pessoa de dupla cidadania, não tenho nada a dizer, só apoiar sem reticências tudo o que, a esse respeito, ficou escrito pelo seu autor. Traçando a história das muitas tentativas de se “unir” a Europa pela força das armas e não da razão, e agora, finalmente, através de uma persuasão que inclui o argumento das nossas raízes culturais (greco-romanas) e religiosas (judaico-cristãs), Vasco Graça Moura reconhece o buraco negro – estas palavras são minhas – que aparentemente estancou todo o projecto, se bem que as suas possibilidades continuam bem vivas, mesmo após ou nesta grave crise financeira e do inegável conflito norte-sul, a noção da essencialidade de defesa comum, no entanto, tornando-se muito mais do que teórica num mundo violento e frontalmente ameaçador ao nosso bem-estar e à nossa paz. As suas advertência sábias, esperemos, não poderão nunca ser esquecidas ou ignoradas por quem lidera o processo em curso.

“Embora o primeiro encontro – escreve ainda o ensaísta em ‘Símbolos de Uma Identidade’ – que reuniu todas as nações europeias tenha sido o Congresso de Viena, em 1815, só a partir do fim da Primeira Grande Guerra Mundial e, em especial, de meados do século XX, é que o princípio da concórdia entre os povos europeus sucedeu ao princípio do conflito e foi assumido como tal no discurso oficial, muito embora dificilmente se possa dizer que tenha sido interiorizado como devia por parte dos cidadãos. Com a passagem do tempo, vê-se com uma nitidez cada vez maior que a identidade europeia corresponde a uma construção intelectual muito mais do que a um sentimento interiorizado do cidadão comum, que, todavia, durante muito tempo viu na Europa politicamente organizada, sob as formas de CEE ou de União Europeia, uma fonte de financiamento mais ou menos ‘inesgotável’ de necessidades básicas e até das necessidades supérfluas”.

A Identidade Cultural Europeia oferece muitíssimo mais aos leitores do que uma dissertação sobre a problemática histórica e actual que envolve a construção de uma Europa unida. A vasta erudição de Vasco Graça Moura abrange tanto a literatura como as outras artes mais presentes nas nossas vidas, a pintura e a música. Não encontramos apenas referências ou citações ocasionais numa pretensiosa demonstração de saberes. Cada nome mencionado, cada obra referida neste contexto específico do seu tema, interliga pensamentos, mostra a ligação entre os povos e as suas criações ao longo dos tempos, mostra como as artes reflectiram sempre o seu tempo, as suas origens e influências recuadas até à Antiguidade, as suas “mensagens” e a suas estéticas intimamente ligadas a um espaço geográfico preciso, ou cultural, adentro do continente no seu todo, oferece-nos interpretações e reinterpretações de um complexo e diversificado passado de povos que “existem” lado a lado mas não convivem, e ignoram ou menosprezam as tradições multi-seculares uns dos outros. Estas são páginas que carregam em si com naturalidade um certo optimismo quanto a um outro futuro e entendimentos no que conhecemos, uma vez mais, por Ocidente. No mínimo, é intelectualmente uma divergência bem-vinda nestes dias de turbulência generalizada e ausência de rumo global.

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Vasco Graça Moura, A Identidade Cultural Europeia, Lisboa, FFMS/Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2014.

FONTE: http://vambertofreitas.wordpress.com/2014/11/01/a-reinvencao-da-europa/