6º episódio – O BOM LADRÃO – Folhetim em setenta e cinco episódios

Os de preto comem com os poderosos e vomitam na cabeça dos pobres. É bom saber. Nem é bom colocar a justiça… Temos advogados para nos defender. Muitas formas de roubo deixam de ser latrocínio ou ladroeira da grande com concordância dos juristas. Roubar com pouco poder faz os piratas, com muito, os heróis da história. Nós somos os miseráveis a quem a pobreza e a vileza da fortuna condenou a este modo de vida. Nunca se esqueçam disso. Para nós não há céu ou justiça, apenas a possibilidade de sobreviver. Bom seria, houvesse um céu e um inferno e pudéssemos levar conosco muitos reis, mas justiça só existe aqui na terra, e vocês nunca saberão quem é o rei. Mas descobrirão rapidamente caso pisem em seu calo, o que é a morte…

Dimas fez uma pausa antes de terminar. Fitou cada um dos garotos. Agora é pegar ou largar. Se alguém der nos dentes, logo saberemos e acertaremos as contas. Quem ficar não tem retorno, começa logo cedo… Sorriu ao ver que ninguém se levantou para sair. Deu um Até amanhã e retirou-se, protegido por seguranças. Os companheiros que ficaram dariam as últimas instruções.

 

 

(continua)

Os Laços Que nos Unem de Linda Gillard (Europa-América)

“Capítulo Um

Uma mulher sozinha numa sala branca e luminosa. Um forno incandescente, uma gasta mesa de pinho. Não se vêem espelhos, relógios nem fotografias. Uma caixa de costura está aberta no soalho de madeira. Num peitoril, uma natureza-morta: destroços arrastados pela maré, conchas e o crânio de uma ovelha. A mulher — nem velha nem nova — pousa a caneta e mexe-se na cadeira. O rangido da madeira quebra o silêncio. Ela dobra cuidadosamente folhas de papel e as suas mãos ligeiramente trémulas guardam-nas num envelope.

 GrenitoteNorte de UistIlhas ocidentais

11 de Janeiro de 2000

 

Minha querida Megan,

 

Os dias são muito curtos e escuros e o vento é quase constante. A minha casa nova (a minha casa de bonecas!) é pequena mas gosto dela assim. (Para começar, há pouco para limpar.) Tenho uma sala de estar e um escritório no rés-do-chão, uma cozinha minúscula com vista para as traseiras, um quarto e uma casa de banho no primeiro andar. Tudo é de uma simplicidade monástica. Vejo o mar da sala de estar e do meu quarto. Quem compra casas de férias na ilha não quis esta porque está demasiado perto do mar, pelo menos é o que diz a minha vizinha Shona McAskill. (A minha querida Shona é uma fonte de sabedoria e de muitos provérbios gaélicos pouco recomendáveis. Parece haver um para todas as ocasiões e todos são deprimentes.) Consta que, se a maré subir inesperadamente, a água vai dar-me pelos tornozelos nesta casa, por isso, não me dei ao trabalho de arranjar uma carpete. O soalho de madeira está despido e cobri os móveis com colchas velhas e desbotadas para esconder as cores que agora me parecem berrantes e que herdei da minha vida anterior. (Agrada-me a ideia de ter uma Vida Anterior. Dá-me um ar misterioso e romântico, não achas? Ou pareço alguém que esteve na cadeia? Talvez fosse boa ideia dizer aos moradores da ilha que vim até cá para me emendar. De certa forma, até é verdade.) 

Esforço-me por dar um passeio todos os dias, mesmo quando o tempo está mau. Ou seja, desde que o vento não me derrube. Não me cruzo com muita gente nestes passeios. Não há turistas nesta época do ano e os sensatos habitantes ficam à lareira e vêem televisão durante o dia. (Não posso fazer o mesmo porque não tenho televisão.) O rádio tem sido o meu fiel companheiro e o boletim meteorológico para a navegação adquiriu um novo significado. Não vou fingir que o compreendo mas já percebo algumas coisas. Os prognósticos para «Mallin, Hébridas e Minches» parecem sempre vagos mas terríveis. (Tal como os provérbios da Shona.)

Hoje caminhei muito depressa para aquecer, depois sentei-me nas rochas e chorei quando vi os gansos-patolas a mergulhar. Sempre que vejo gansos-patolas não consigo deixar de pensar que ficam cegos na velhice e morrem de fome. Embatem na água só Deus sabe a que velocidade, com os olhos abertos, em busca de alimento. Como é que os olhos resistem ao impacto? E como é que os ornitólogos sabem que os gansos-patolas fecham furtivamente os olhos no último instante? (Talvez os gansos-patolas não tenham pálpebras. Vou perguntar à Shona. Tenho a certeza de que ela sabe.)

O silêncio e os longos momentos sem interrupções são divinais. Quando Deus criou o tempo, fê-lo em abundância.» O Evangelho segundo Shona.) Creio que já estão a afectar o meu trabalho. Tenho a impressão de que uso menos cor e mais textura e, quando uso cores, tendem a ser tons da natureza. Creio que este lugar será bom para o meu trabalho e para mim. Assim espero.

Exceptuando o facto de terem tornado bem claro que pensam que sou a) louca e que b) é pouco provável que aguente seis meses, os habitantes são a gentileza personificada. Estou certa de que consideram que é o seu dever de cristãos, embora duvide que o dever os impeça de repetir (e, provavelmente, romancear) todas as informações pessoais que sou suficientemente doida para deixar escapar. Mas não me importo. Não vim até cá a contar com privacidade. Tenho consciência de que sou uma novidade. Numa ilha das Hébridas praticamente desabitada passo por diversão. Causo estranheza. Sou uma mulher solitária, demasiado jovem para ser viúva mas velha para andar à procura de um companheiro. Moro num limbo entre a juventude e a velhice.

Não te esqueças de escrever, minha querida, ou telefona se puderes. Não me sinto só mas gostava muito de ter notícias tuas.

Beijos,

Mãe

P.S. Estou a aguentar-me. Não tive pesadelos e até agora não aumentei a dosagem. Não te preocupes comigo!

Soltando um suspiro, ela fecha o envelope e pega de novo na caneta. Olhando fixamente para o espaço branco e vazio, as suas memórias confundem-se e parecem escolher outro espaço igual. A caneta fica suspensa no ar, escrevinha um nome e depois desliza no envelope. Ela admite a derrota, põe a tampa na caneta e vai até à janela, onde encosta a cabeça ao vidro frio.”

 

Ficha Técnica:

Título: Os Laços Que nos Unem

Autora: Linda Gillard

Título original: Emotional Geology

Tradução: Maria Teresa Pinto Pereira

Colecção: Contemporânea

Preço: 20.51€

Pp.: 240

Formato: 15,5 cm x 23 cm

ISBN: 978-972-1-06088-3

Data de edição: Maio de 2010

A Margem

O que é que está à margem da poesia? A prosa? A mentira? A verdade? A honestidade? Talvez se soubéssemos o que se encontra à margem da poesia assim pudéssemos descobrir o que é a poesia.

Eu não sei. Nem o que está à margem nem o que ela é. Sei apenas que a leio, que sobre ela escrevo e penso. Que me delicio. Não é pouco, convenhamos.

Sei também que não consigo dissociar de um texto o seu formato, suporte, existência física. Sei também que isto vai contra tudo o que ensinam nos Estudos Literários. Mas que eu, biólogo, não quero saber de Estudos Literários nestas crónicas.

Por isso, quando falo da margem falo de um dos primeiros livros que comprei. Foi na Leitura, ainda a Leitura era a Leitura sem palavras inglesas a acompanhar-lhe o nome. E não foi barato. Mas foi preciso.

É “Margem da Ausência”. E é poesia sem sê-lo. É um conto – depois o autor até veio a reuni-lo numa colectânea de contos – mas é poesia. Escrito por Urbano Tavares Rodrigues, editado pela ASA em 1998, com lindíssimas fotografias de Fernando Curado Matos e Carlos Melo Santos.

Sempre o senti poema. Sobre a ausência e sobre a chegada, sobre um escritor que encontra o amor juvenil numa jovem, quando esse escritor já é adulto e sapiente e caminhando para a velhice. Perdoar-me-á o Urbano esta leitura tão simplista, mas em cada palavra sinto a Ana Maria e imagino o seu rebento, agora com seis ou sete anos, acho. Terá sido este conto o relato de um passado que trouxe este futuro? Acho que sim.

Está escrito como Urbano Tavares Rodrigues sempre soube. Mas também em verso, mesmo que em prosa. E acrescentado pelos mares dos fotógrafos, tem um ar de álbum, pomposo, arrogante, simples, humilde, verdadeiro, que muito me agrada. Que sempre me agradou. Já o tive no meio dos versos, na estante. Trouxe-o um dia para a prosa, lá ficou até voltar a pegar nele hoje. Mas vai de volta para o seu primeiro sítio. Este livro é um poema e não merece ficar longe dos seus, assim como o Urbano não merecia a ausência da Ana Maria.

A bordo do KLICKESCRITORES

O KLICKESCRITORES (http://www.klickescritores.com.br) é um portal brasileiro com design eficaz e um conjunto vasto de conteúdos prontos para rápida consulta. As informações disponíveis integram dados biográficos, bibliográficos, fotografias, resenhas, textos seleccionados de poetas e escritores brasileiros contemporâneos e ainda uma secção reservada a autores estrangeiros de renome mundial. Para além deste leque de ofertas, é também possível seguir pistas associadas à edição, a e-books e à divulgação de novos talentos literários.

O Menu vertical da coluna da esquerda dá a ver uma lista (imensa) de escritores. A entrada é imediata e as caixas – com um fundo quente mas suave da cor do cobre – contêm o essencial da obra e vida do escritor com algumas remissões. As rubricas da coluna do meio (Escritores/ Imortais/ Mundo /Novos/Revista) condensam a restante informação, através de vias de grande abertura. A pesquisa, nestes campos, torna-se mais sinalizada, embora o mapa seja facilmente transitável. Só é pena que alguns dos links estejam desactivados, mormente o da “Oficina do Livro” (não confundir com o homónimo português).

Resta dar o seu ao seu dono e elencar os autores do Portal: O Coordenador Editorial é Rodrigo de Faria e Silva (FSEditor), o design é da responsabilidade de Mauris H. dos Santos, sendo o Conselho Editorial Formador integrado por Cláudio Willer, Cláudio Giordano, Domingos Pellegrini, Márcia Denser, Maria Eugênia Lafer Galvão e Nelson de Oliveira.

Extravagança Literária

Logo que me sento na primeira poltrona disponível, um pouco distante do palco, ouço, sem muito o querer, a conversa de dois velhos poetas: ela mora na Califórnia e ele, num subúrbio de Nova Iorque.  Ambos estão acima do peso e empenham-se no programa dos vigilantes, formaram-se em direito e ele ainda exerce a profissão, ela dá aulas.  Comentam sobre os filhos, trocam impressões sobre a programação do festival literário em seu sexto ano desde a fundação por Salman Rushdie e ele lhe revela segredos sobre o trabalho juvenil de John Irving (peças ridiculamente eróticas, uma reencarnação de Sade?).  Criticam escritores que se recusam a compartilhar um livro, a fazer uma declaração para uma orelha ou um prefácio.  Enquanto isto, os organizadores do evento desaprovam a iluminação do teatro, o tamanho das letras na tela gigantesca que reproduz os textos lidos no idioma do autor, o público ocupa todos os espaços e os dois poetas tentam ajeitar-se nas poltronas apertadas.  As vozes não me permitem pensar, relaxar antes que a cerimônia comece.  E lembro-me:  isto sim uma extravagança pretender relaxar nesta cidade.

Vamos ao que importa: os trechos literários lidos na noite de ontem.  Daniele Mastrogiacomo é um jornalista italiano que relata a sua experiência como vítima de sequestro no Afeganistão.  Yiyun Li, natural de Pequim, escreve uma prosa no estilo de Ha Jin, cobrindo o quotidiano dos chineses sob o regime comunista.  Vinda de Helsinki, Sofi Oksanen dá uma nova dimensão à Estônia, expondo a ocupação soviética na região e dramas familiares que, segundo a autora, chegam a tirar o sono do leitor.  Atiq Rahimi, afegão exilado em Paris, é autor de Syngué-Sabour:  Pedra-de-Paciência, ele aparece no palco com um chapéu e uma manta.  Mohsin Hamid vive em Lahore e o seu livro O Fundamentalista Relutante posicionou-se entre os finalistas do Man Booker Prize.  Andrzej Stasiuk apresenta-se, alguns na platéia gritam, e ele logo dá início à leitura de uma história triste, nota-se o espírito sombrio de um europeu do leste.  Alberto Ruy-Sánchez é o único escritor latino-americano na noite e a sua prosa não esconde o sabor dos trópicos na sua obra Los Jardines Secretos de Morgador, um palmo acima da superfície do realismo.  Miguel Syjuco não faz segredo da emoção de estar ali por causa da sua primeira novela “Ilustrado”, que começa com um crime em Nova Iorque e cobre cento e cinquenta anos da história filipina.  Patti Smith introduz o livro auto-biográfico Just Kids, após a leitura de um ensaio por Salman Rushdie.  Os fotógrafos ainda não podem ir para casa pois precisam ficar para os autógrafos.

Confesso que me custou a leitura na tela com as traduções.  As letras corriam sem que os olhos pudessem acompanhá-las na medida.  Alegrei-me quando Atiq Rahimi anunciou que leria em francês.  Havia pessoas saindo antes que o evento terminasse, descontentes com o lay-out da apresentação.  Os poetas ao meu redor logo partiram por esta razão.  A leitura de Andrzej Stasiuk me fascinou pelos detalhes descritivos, a enumeração sintomática dos objetos de um quarto, esforcei-me para captar em inglês o que ditava em seco o autor polonês.

Alusões à lua e ao sol estavam presentes em quase todos os trechos lidos e apesar do impacto da crescente urbanização da literatura contemporânea, não se desfaz a conexão entre o homem e os sinais da natureza a cercá-lo.  Num parágrafo comovente, Alberto Ruy-Sanchez descreve uma cena de amor entre a protagonista e o sol.  Andrzej Stasiuk fez menção ao sol diversas vezes e encerrou a leitura com um sol tão vermelho quanto o do sagrado coração.  Yiyun Li abre um conto com o sol e as mudanças sazonais.  Em seguida a uma semana de dias cinzentos, Nova Iorque acedeu aos chamados dos escribas e hoje amanheceu o sol a resplandecer sob um vento sussurrante incansável.  Nem por isso, faltarei ao evento New York Stories a começar às sete!

Kátia Gerlach

Prémios literários da Estoril Sol

A Estoril Sol vai lançar novas edições dos prémios literários Agustina Bessa-Luís e Fernando Namora. O júri será comum aos dois prémios e será presidido pelo escritor e ensaísta Vasco Graça Moura. Refira-se que o Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís, no valor de 25 mil euros, vai ser lançado no quadro das comemorações do 50º aniversário da Estoril-Sol.

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AS PRAXES | A GRANDE E DESEJADA HUMILHAÇÃO

Falo das praxes. Falo dessa prática, muitas vezes desumana, gravemente humilhante, gravemente provocatória que os futuros “doutores”, os “encanudados” filhos da nação e futuros orientadores de futuros, gostam de praticar no lombo e no rosto dos jovens que vão pela primeira vez ingressar nas faculdades.

Falo destes comportamentos aberrantes, sádicos e monstruosos que dão um “gozo catarino” a quem os pratica. Eles sentam-se em cima dos “fracos”, atam-lhes cordas ao pescoço, chibatam-nos pelas ruas das cidades de modo a que todos os possam apreciar. Eles cospem-lhes nas caras, eles arrotam-lhes o resto do jantar de ontem, mordem-lhes, eles despem-nos, pintam-nos, urinam-lhes e defecam-lhes em cima. Ardem e fremem corações de pedra, rejubilam no sofrimento do jovem colega, quanto mais humilhado e amarfanhado melhor!

Que é que uma pessoa pode pensar disto? Que é um costume? Uma tradição a cumprir, obrigatória, na entrada do ensino superior? Esta violência acontece noutros pontos civilizados do planeta? O que é que uma pessoa pode pensar destas atitudes sabendo que as cabeças que prepararam tudo isto, gastaram uns dias da vida, umas preciosas horas da vida a engendrar torturas? O que é que uma pessoa pensa disto? Engendrar torturas e humilhações? Mas quem é esta gente que engendra torturas e humilhações? São os doutores? Os príncipes engalanados, pavões falantes trepadores de pódios desejados por toda a vida? São os futuros gestores e gerentes e políticos e nossos orientadores? Mas quem é esta gentuça? Donde vem? Quem os educou? Que sonhos têm na cabeça? Que prenda desejam no final dos cursos? Um gabinete com vista para a cidade? Um chicote com cabo de marfim? Um panelo sem fundo que aguente com as suas torpes idiossincrasias? Uns “sim senhores” que pretendem que a revolta se instale noutro tipo de espíritos? Que é que pretendem? Sofrimento?

Burgessos a cumprir o folclore fascista inculcado atavicamente nas suas pobres cabeças, ainda que dele não tivessem tido conhecimento, que apenas dele tivessem ouvido falar, mas que tão bem o aprenderam.

Faz lembrar as humilhações da história moderna das quais nem vou falar e que estão documentadas por fotografias.

Atenção que isto é “bullying” do mais perverso! E à vista de todos sem a menor pretensão de disfarce. E ninguém diz nada! As ruas de muitas das nossas cidades ontem, hoje e amanhã estarão enfeitadas com esta massa ululante e “brincalhona” que se diverte por palavras e por ações malévolas e ninguém lhes toca! Há gritos de revolta e de censura, isso há, como este meu aqui enquanto escrevo esta crónica. Meu e de muito mais pessoas, mas não passa daqui.

E são burgessos que eu sei lá! Falam mal, falam aos berros. Não é preciso sermos todos muito palacianos e muito mesuras e muito delicodoces, mas a tendência que há, que se nota, que se vê a olho nu, que se ouve a torto e a direito de algumas pessoas se acharam modernaças e jovens e giras e “práfrentexes”, de algumas pessoas que exibem uma certa brutalidade verbal, uma enorme agressividade no sentido da pior assertividade e que lançam, por tudo e por nada e nas mais vulgares ocasiões, sem fazer o menor sentido e sem terem a mais pequena noção de oportunidade, o chamado palavrão, tipo porra, xiça, fosga-se e mais não digo porque nada disto faz sentido. Ao proferir estas palavras a torto e a direito, as pessoas retiram até a fantástica sensação de alívio que, realmente, só um palavrão pode proporcionar na altura devida. Além de que é vulgar e abrutalhado estar constantemente com este tipo de vocabulário. Uma pessoa define-se facilmente! Julga essa gente dos palavrões e das praxes, que se cria uma determinada intimidade, que essa atitude corresponde a algo que toda a gente sente e aprecia. Não! A boçalidade educa-se, a distinção – no sentido de ser distinto – não se obtém pela vulgaridade. A distinção é a própria distinção.

Nunca perceberá isto, esta gentuça das praxes.

E voltando às alegres entradas na universidades termino dizendo, que aqui estaremos à espera, mansamente, que estes filhos da nação que hoje se entregam a estes “divertimentos” acabem por vir divertir-se connosco quando forem mais velhinhos.

A ver se a gente lhes acha graça…

Cristina Carvalho

Uma concepção literária da vida | Luís Carmelo

MAUNa brevíssima introdução ao seu Journal – edição de 1934 da Grasset – escreveu François Mauriac:

“Não se deverá procurar neste título um jogo de palavras. De facto, trata-se de uma recolha de artigos; mas eu concebo o jornalismo como uma espécie de diário meio íntimo; – como uma transposição, para o uso do grande público, das emoções e dos pensamentos quotidianos suscitados em nós pela “actualidade”. Neste plano, uma doença ou até uma simples leitura têm quase tanto valor como uma revolução; é a sua incorporação na nossa vida interior que acaba por definir a importância dos acontecimentos”.

Tão longe que estávamos ainda de uma concepção de espaço público mediatizado!

Esta doce concepção de Mauriac é, com efeito, uma concepção essencialmente literária. Repare-se no facto de o autor se distanciar de “actualidade” (as aspas falam por si) e repare-se sobretudo no modo como a interiorização (o “retentissement”) personalista dos factos (lidos) acaba por moldar a sua real relevância. O esteio da emoção e de um dia-a-dia filtrado pelo fio solitário da palavra equivale a uma familiaridade que se impressiona, imagina e comove. Como se a leitura, para além de ser um jogo especioso, tivesse a força metafórica – e ao mesmo tempo actuante – de uma revolução.

A familiaridade desta concepção advém de uma experiência que ainda não ponderava o oceano encapelado pela intersubjectividade do nosso espaço público, pela hemorragia da informação e pelo universo dos “conteúdos”. Nos nossos dias, o difícil – ou às vezes o impossível – é estranharmos seja o que for. Haja imagens de incêndio, de guerra, de morte, de viagens espaciais e de acidentes de todo o tipo que uma indiferença massificada falará mais alto. O cenário de uma consciência a sós, silenciosa e imune a esta ininterrupta Via Láctea de imagens já hoje não existe. E era esse, precisamente, o cenário de uma sociedade vincada e moldada pela referência literária (mesmo no jornalismo). A mesma que colocou na pena de Mauriac o aceno de intimidade e de despojamento face à “actualidade” que, ao fim e ao cabo, ainda separava tão bem realidade de ficção.

Bataille escreveu há muitos anos que “a literatura não era inocente” e que, “por se sentir culpada” desse facto, teria um dia “que o confessar”. A catarse mediática dos nossos dias poderá corresponder, de alguma maneira, à confissão que Bataille prenunciou. Já a confissão terá ficado por realizar. Até porque a inocência que aparece no prefácio de Mauriac apenas o é, se entendida a partir do olhar dos nossos dias. Vista no seu tempo, uma tal inocência movia montanhas, digladiava valores, reflectia apologias, expunha manifestos e definia, por vezes, a relevância dos acontecimentos.

A literatura era na altura uma instituição central do mundo. E Mauriac, membro da “Académie Française”, era, nessa época, tão referenciado quanto hoje um novo Prémio Nobel obriga qualquer jornalista a sérios ‘trabalhos’ na Wikipédia.

Luís Carmelo

CRÉDITO foto: www.canalacademie.com/Accueil-du-jeudi-16-oct

«O Arquipélago da Insónia», de António Lobo Antunes Dom Quixote, 263 páginas

Texto (!) urdido nos interstícios da dificuldade experimentada em escrever sobre a

escrita de António Lobo Antunes, socorrendo-me da mesma em momentos diversos

de «O Arquipélago da Insónia», seu romance mais recente. Ou crítica «citacional», pós-
moderna se quiserem, de cujo resultado presumo intuir-se muito do que respira, esconde

e questiona, a literatura do autor – por outras palavras, o seu modo singular e sui generis

de estar à escrita.

«De onde me virá a impressão que (…)

aqui é o silêncio porque quase não tem sons lá dentro (…)

e eu a perguntar-me qual o motivo (…)

o que é isso? (…)

sem entender alguma coisa (…)

sem alcançar (…)

(depois explico melhor) (…)

e o lápis mais depressa (…)

no tom do costume (…)

a enredar-se nas pedras (…)

eu cá me entendo, pode parecer esquisito (…)

não se dirige a uma pessoa (…)

não acredito nestes fantasmas (…)

estarei morto? (…)

estou aqui não estou? (…)

não prometo nada vou ver (…)

pode ser que um dia (…)

meu Deus (…)

sei pouco de Deus (…)

e apesar de não saber quem sou (…)

Deus sabe que não era isto que eu queria (…)

deixei de conseguir comunicar com as coisas (…)

de maneira que fico aqui à espera porque com um bocadinho de sorte pode ser que

alguma coisa aconteça (…)

a tarde inteira engrossando o silêncio (…)

sentia o silêncio no interior do silêncio (…)

deixa isso (…)

a dizer frases sem jeito que era outra forma de silêncio (…)

o que se faz com isto? (…)

o que faço a isto? (…)

o que é que sinto? (…)

és tu quem escreve isto não és? (…)

e a caneta parada a fitar-me (…)

a emendar páginas inteiras, a desesperar-se com o livro (…)

o esforço a que isto obriga (…)

o que significa isto? (…)

uma pergunta tão injusta (…)

não sei (…)

acrescente meia dúzia de bocas aos retratos já agora (…)

desculpe perguntar (…)

não compreendo as vozes (…)

as lousas impossíveis de decifrar (…)

achas que dá para cozinhar isto? (…)

e o círculo de finados a discutir (…)

idiotas (…)

olha o idiota acolá (…)

(nota: (…)

não gosto nada disto (…)

hão-de ler tudo isto, não exa, não exagero (…)

(não estou a inventar) (…)

há algum médico por aí que me aconselhe? (…)

porque eu uma criatura sem importância (…)

ai doutor (…)

acha que ainda tem ossos para correrias senhor? (…)

qualquer dia pego na caçadeira (…)

injectaram-no? (…)

não digas aos outros é um segredo nosso (…)

comigo a imaginar um tiro e o mulo a vacilar de pé (…)

não leve a mal (…)

o Senhor tem manias que a gente não percebe (…)

e os papéis ofendidos (…)

acha que pode melhorar qualquer coisinha ao menos? (…)

se calhar (…)

já vai sendo tempo filho (…)

tem paciência rapaz (…)

daqui a nada é manhã (…)

e não será manhã nunca.

não me despeça patrão (…)

preferia mil vezes não me caber esta sina.»

Coração de Samurai

Eu sei que havia um bote no mar, o mar cheio de água, a água cheia de sal, eu sei, vi

a perna baloiçar por sobre a transparência veloz do bote-barco, um semi-rígido com

muitos cavalos, era a perna e o colete, era o riso esvoaçando nas alturas impróprias da

hora em que os peixes almoçavam e queriam sossego, era isso e mais o limo no fundo

do lago, o lago de mar aberto, saindo pela fissura de um canal de areias serenas. Havia

o homem inteiro e azul e a mulher semi menina dois quatros de velha e meia pessoa era

um ser periliquitante, parecia uma folha, saída de uma primavera.

 

Mas espera, não era bem assim, era um tipo e uma miúda, calhou definirem a mesma

ilha para se encontrarem, calhou dessa maneira pela razão coincidente de amarem

com o mesmo ouvido, a força das ondas batendo no seu coração. Quase assim,

estavam mais por ali sentados, cada um na sua ponta de areia, um com headphones a

outra mergulhada numa revista, cada um com o seu silêncio fermentado de barulhos

sonolentos, assim veio o skipper, assim ofereceu boleia, que venham dizia ele,

que venham conhecer o outro lado da ilha, tem muitas terras, muita natureza, tem

pescadores buscando peixe com o anzol, tem cabanas de caniço com TV a cores,

venham, mostro-vos como as nossas mulheres organizam os filhos na beira do lago, e

como o mar, o mar, canta músicas que batucam no centro de uma pessoa para nunca

mais sair. Extasiados, levantaram-se e seguiram o senhor do bote, um meio barco

valente que enfrentava o morno do sol sem calamidades, vestiram os coletes que não

salvam a vida de ninguém, nem protegem o coração de arder pela magia de um bruxo

simpático, ele aguentou-se de pé expectante, ela mais matéria de água, montou o bote

como quem monta um cavalo marinho, sorriu, a cabeça enrolada numa onda de alívios

insuspeitos. O pássaro súbito, cortou a nuvem e mergulhou no pé da moça, beijou um

limo verde, falhou de apanhar um peixe, a moça, tocou-lhe com uma asa, mal abriu de

regresso ao espaço.

 

Há coisas, que molham a alma, levam um homem a virar uma lavadeira, segurar o seu

coração pela gola, batê-lo na pedra do rio e espremê-lo. É preciso um homem ter um

cão que lhe guarde, garanta ao coração que pode ganir, se cair molhar no bico de um

pássaro, se cair molhar nos pés de uma mulher. Pudessem os cães cheirar anjos de prata,

pudessem luas enfeitiçar-se de lobos morenos, pudesse um homem ter, o coração de um

samurai.

Foi isso, o que aconteceu. Ela cimentou o homem por causa do pássaro.

 

Vanessa de Oliveira Godinho

O secretário de Mário

Houve também aquele dia, no início de 1988, em que fui entrevistar

José Bento Faria Ferraz, o antigo secretário de Mário de Andrade. Mário

estava morto havia 43 anos e já era o mito em que se transformou. O velhinho

que me abriu a porta naquela manhã paulistana também resplandecia de uma

mitologia própria, ainda que de empréstimo, por ter servido durante anos

ao chefe famoso e pelas menções que este lhe fez em suas cartas a Manuel

Bandeira, Drummond, Pedro Nava, Fernando Sabino e outros. Por exemplo,

numa carta de Mário a Murilo Miranda, encontro esta referência: “Tenha

paciência com o meu secretário, este mui ilustre zebentinho cabeça de água”.

A primeira coisa que Zé Bento me mostrou foi uma carta inédita de

Mário dirigida a ele, Zé Bento. Estava datada de 26 de novembro de 1943.

Mário derramava-se em confidências ao jovem secretário. Sentia-se doente e

não viveria mais que dois anos. Na carta, contabilizava os sinais inequívocos

de seu declínio: “Me desculpe, mas ando de uma fragilidade, não sei se moral,

se intelectual incrível”. Estava agastado com umas críticas que recebera de

Sérgio Milliet e de Luís Martins. Dormia mal. “Teve um momento, na noite de

quarta para quinta, em que passei apenas por um entressono leve, de repente

me acordei, fazia uma hora, pouco menos que me deitara. E foi horroroso,

palavra, porque não dormi nem mais um segundo a noite inteira, sem poder

mudar meu pensamento de lugar”.

José Bento lia a carta para nós e parecia voltar no tempo. A voz era

melodiosa e os olhos vivos ainda deixavam adivinhar o jovem que morou

neles e que por dez anos freqüentara a Rua Lopes Chaves 42, um dos

endereços mais célebres da crônica literária brasileira. Eu tinha me preparado

para uma entrevista centrada na personalidade de Mário (pretendia confrontá-

la com a de Zeferino Vaz, fundador da Universidade de Campinas, de quem

Zé Bento também foi secretário na década de 50), mas eis que encontro

um homenzinho escoltado por um imenso gravador (gravava as próprias

entrevistas) e que empostava a voz ao falar de si e de seus dois patrões.

— 13 de janeiro de 1988. Estão aqui o sr. Sidraque Matias e seu

fotógrafo, o sr. Antoninho Perri, para uma conversa-depoimento sobre as ricas

personalidades de Mário de Andrade e Zeferino Vaz.

Já aí compreendi que não arrancaria dele grande coisa. Por mais que me

esforçasse para obter particularidades da vida de seus dois chefes, só recebia

de volta respostas consabidas. Às vezes, para fundamentar melhor sua tese

(porque eram teses, não informações o que ele me dava) buscava num fichário

uma citação de Mário, um verso, um trecho de carta. Terminei a manhã

manuseando uma pasta alfa-zeta gorda de poemas inéditos, poemas dele, Zé

Bento.

— Mostrou alguma vez estes poemas ao mestre?

— Não, respondeu. São poemas de após a maturidade. Mário já estava

morto há muito. No tempo de Mário eu não pensava em escrever poesia.

No final, à custa de cutiladas, pode ser que a entrevista não tenha

resultado de todo má. À saída, Zé Bento, generoso, quis me dar de presente

uma cópia da tal carta, escrita de uma fazenda em Araraquara. Mário era

capaz de se derramar inteiro para o rapaz que lhe enchia os tinteiros: “Me

sinto desalentado, mesmo desarvorado, destituído de resistências”. Nem

mesmo o ipê florido da entrada da fazenda conseguia levantar seu ânimo: “De

um roxo violento dado a vermelho, imenso, no meio do céu. Já fiz essa

viagem a Araraquara só pra ver ipê. Teve outra que fiz só pra escutar cigarras.

Fico horas tomando sol, os olhos presos no ipê, não sinto nada. É horrível,

meu Zé Bento”.

Dona Sônia, a esposa, fora aluna no conservatório onde Mário era

professor. Conheceram-se ali, ela e Zé Bento. Desde então trazia o pobre em

rédea curta, ciumenta de sua marioandradina mania:

— Vai invadindo a casa toda com livros. É uma vergonha.

Na obscuridade da biblioteca, ele me sopra no ouvido: “Sempre que

trago uma estante nova, mando subir com ela desmontada para a velha não

perceber. Quando descobre, já está montada e cheia de livros”. Quando dona

Sônia se aproxima, pergunto a ela como era Mário.

— Um homem feio, responde.

— Tanto assim?

— Muito feio. Mas bastava conhecê-lo um pouco para se começar a

achar ele bonito.

Mário, diz Zé Bento, era louco por bananas-maçãs. No tempo em que

dirigia o Departamento de Cultura do município de São Paulo, interrompia

reuniões para mandar comprar pencas de bananas no mercado. O contínuo

voltava com uma cesta cheia e depositava na mesa do diretor. Enquanto as

reuniões avançavam, Mário distribuía bananas aos participantes e já ia

comendo as primeiras para dar logo o exemplo.

Zé Bento desce a escadinha em caracol com a carta na mão, eu atrás

dele, e o Perri mais atrás ainda. Saímos para fotocopiá-la numa papelaria

próxima. Ele passa de uma calçada a outra com a agilidade de um gato,

caminhando sempre à nossa frente, flutuando na maré de veículos, como se

Mário o esperasse do outro lado, em meio às espirais de fumaça. De repente

pára, abre a carta e lê mais um trecho enquanto o sinal se fecha:

— “Eu sei que as compensações são muitas e são enormes. Mas a

tragédia dos indivíduos apaixonados que nem eu… As pessoas que a gente

consegue conquistar, assim que conquistados como que não nos interessam

mais, pelo menos é certo que não nos contentam. E a gente vive como

cachorro sem dono, lambendo o rabo dos que não nos compreendem. É feroz,

Zé Bento.”

Uma moça emparelhada conosco se interessa, dobra um lábio

admirativo e comenta: “Poxa, é isso aí”. Zé Bento ri e o faz como se Mário de

Andrade, redivivo, também risse e mostrasse as gengivas em plena Paulicéia

da década de 80. Nunca mais vi José Bento Faria Ferraz. Busco seu nome na

Web. Há uma única nota sobre ele, aliás, sobre sua morte. Morreu em março

de 2005, aos 92 anos.

 

Eustáquio Gomes

 

Eustáquio Gomes, jornalista, é autor dos romances A febre amorosa e Jonas

Blau, entre vários outros. Em 2007 publicou Viagem ao Centro do Dia – um

Diário.

O porão

Agora penso que este porão se parece com aquele outro, remoto, do palácio

episcopal de Luz, onde quiseram me fazer padre. Não é tão amplo, mas é mais

alto e entra uma luz coada que lá não havia. Recordo: tão logo morreu o velho

bispo, nonagenário, o bispo novo, quadragenário, autorizou que saqueássemos

o misterioso aposento onde o falecido, quando vivo, guardava suas tralhas.

Como um bando de hunos entramos e rompemos todos os ferrolhos.

Alguns já estavam abertos e apodrecidos pelo trabalho da oxidação. Cenário

de campo de batalha: baús e caixotes escancarados e repletos de voluminhos

devocionais, mas também de empoeiradas coleções de revistas já extintas,

como a picante Careta ou a plácida Flama, editada em Lisboa. Aquelas

velharias, levadas para nossos armários, passaram a iluminar nossas noites.

Havia também surrados almanaques ilustrados do começo do século,

digo o 20, trazendo os primeiros poemas de Olegário Mariano e fotos de

multidões na Praça Paris, tendo ao fundo a pedra do Pão de Açúcar, tão

imperscrutável quanto hoje. O fato de que aquelas compactas multidões

estivessem já sob sete palmos, separadas de seu mar de chapéus e bengalas,

causava-me vertigens. Pareciam tão animados e sequiosos de vida, esses

senhores paralisados em 1900, que custava acreditar que fossem agora

monturos de ossos debaixo da terra. Gerações inteiras banidas da superfície

planetária. Outras multidões tinham tomado o seu lugar e também já haviam

partido.

Depois disso nunca mais pude ver uma multidão reunida num comício

ou num estádio qualquer sem pensar no seu destino coletivo, que é o

grupamento dos destinos individuais. O espetáculo das multidões se tornou

para mim, desde então, patético. Braços e pernas movendo-se com a confiança

que o presente confere, bocas abrindo-se para vociferar, comer ou rir, como se

o instante durasse para sempre e se perpetuasse no plano do eterno,

embalsamado pela realidade bruta. Pensar nisso ajudava a atenuar as paixões e

a manter certa indiferença pelo burburinho.

À rápida dissolução do tempo histórico (porque o tempo individual, este

é subjetivo) corresponde a permanência da geografia, dos rios e mares, dos

maciços de pedra e dos astros no cosmo. Claro que nem mesmo isso é para

sempre, mas impressiona pensar que a Lua de nossas noites claras é a mesma

que um dia foi vista pelos faraós, pelos fenícios e por gente como Copérnico,

Galileu, Gutenberg, Napoleão e Freud; Lua que, aliás, iluminou os caminhos

de Cristo e Buda. Sob essa luz, que é apenas uma refração dos raios solares,

os fios do tempo se juntam para aproximar entre si as gerações, da última à

primeira, todas unidas pela experiência de terem visto a mesma Lua no

mesmo Céu.

E os espelhos? As pessoas não se dão conta de que, dentre os calhaus

domésticos que as gerações preservam e passam adiante, os espelhos deviam

vir em primeiro lugar. São eles que melhor testemunham a passagem do

tempo nos rostos vincados, mas não apenas isso: seu valor está sobretudo nas

imagens dissipadas. Mirar-se num espelho que refletiu os rostos de nossos

antepassados pode ser uma experiência mágica. Se os espelhos pudessem reter

suas antigas imagens refletidas, devolvendo-lhes a alma dos movimentos, que

rumorejo humano não sairia dessas relíquias emolduradas pelo passado, que

turbilhão de vidas canceladas, que névoa de sonhos esfumados.

Em certa época, pensando em tais coisas, pareceu-me que tudo era

inútil e que dava no mesmo entrar à direita ou sair à esquerda. Tornei-me

niilista. Depois fui seduzido pela sensação de que, sendo o mundo

inexplicável porém às vezes intensamente belo, tudo nele pertence à categoria

do fantástico. Pensamento salvador! Convinha não deixar que se gastasse no

atrito com o cotidiano. Atrás de tudo estava o tempo, abstrato e rude, sempre o

tempo com seus baús e ferrolhos oxidados. Durante anos conservei aquelas

antigas revistas, sempre na esperança de que um dia elas me revelassem a

chave do enigma que eu buscava decifrar. Mas isso nunca chegou a acontecer.

Tal chave, suspeito, levou-a no bolso aquele bispo nonagenário, que em seus

delírios falava com Deus e discutia com o Diabo.

 

Eustáquio Gomes

 

Eustáquio Gomes, jornalista, é autor dos romances A febre amorosa e Jonas

Blau, entre vários outros. Em 2007 publicou Viagem ao Centro do Dia – um

Diário.

A biblioteca no porão

Tomado de repentina animação, consagro o sábado à arrumação

das prateleiras. Descubro que o porão é mais espaçoso que o pequeno

aposento que ocupava antes, e que agora é habitado por Vovô. Antes os

livros ameaçavam sair porta afora, a tal ponto de ser preciso arranjá-los

em fila dupla. Não havia estantes para todos. O resultado é que os livros

colocados atrás há muito não viam a luz do dia; e os da frente se ressentiam

dos companheiros resfolegando em sua nuca. Retirar aqueles de onde estavam

significava remover a fila da frente, operação não muito diferente de um ato

de demolição. Para não ter de fazê-lo eu passava meses sem ver a turma da

retaguarda; e os da vanguarda já iam me cansando.

Agora, com um pouco mais de espaço, reencontrar a turma dos sem-
prateleira e devolver a eles a alegria da berlinda equivale a uma reforma

agrária das letras. Esses amotinados sabem invadir um lar e depois não

querem mais sair; que fiquem. Mas, sem um método e uma organização, não

se prestam a muita coisa.

Arrumá-los pelo gênero? É o tipo do arranjo clássico: romance, conto,

ensaio, poesia, filosofia, biografia, memórias, diários, cartas etc. Por esse

esquema há também que ordená-los segundo o autor e, havendo paciência,

conforme a literatura a que pertencem. Mas isso já não parece satisfazer meu

atual estado de espírito nem meu desejo de organização. Nossa relação com

os livros se modifica com o tempo. Pensemos então numa forma diferente

de classificá-los, algo mais próximo dos sentimentos que temos em relação a

Qualquer coisa assim:

1) Livros que precisam ser relidos de vez em quando, no todo ou em

parte, para a gente voltar a sentir que ainda é capaz dos grandes sentimentos

de antes.

2) Romances que nos marcaram a adolescência e que agora, relidos, se

recusam a mostrar o mesmo encanto.

3) Clássicos que todo mundo diz ter lido e que nos derrotaram entre as

páginas 50 e 84, deixando em nós uma sensação de incompetência e de falta

de sintonia com a opinião universal, isto é, com o cânone.

4) Livros que separamos para ler nas férias e que jamais foram tocados

pra valer.

5) Livros que compramos impelidos pelo desejo de adquirir cultura ou

mesmo erudição mas que logo nos repeliram e desconfio que para sempre.

6) Livros que simulamos ter lido e dos quais até citamos uma frase ou

outra (não necessariamente recolhida deles, mas de seletas de citações) e que

agora nos encaram como se fôssemos estelionatários.

7) Livros que nos interessam pouco ou nada mas que conservamos

conosco na esperança (ou no temor?) de que venhamos a precisar deles mais

tarde, ou quem sabe venhamos a mudar de gosto ou de temperamento.

8) Livros adquiridos em sessões de lançamento, com autógrafo

garranchoso, e que agora nos pesam porque a cada dia que passa somos

obrigados a fugir do autor para não ter de justificar nosso silêncio.

9) Livros que certamente leríamos com prazer se tivéssemos várias

vidas pela frente.

10) Livros de coleção que corríamos a comprar sempre que um novo

número aparecia mas que agora, perfilados na estante, com suas lombadas da

mesma cor, têm o hábito de acusar nossa tendência à compulsão.

11) Cartapácios enaltecidos pela crítica mas cujo sentido e utilidade nos

escapam, e que, emboscados nas estantes, não cessam de disparar contra nós

seu dardo de funesta hostilidade.

12) Livros que na vitrine da livraria nos pareciam do maior interesse

mas que, a caminho de casa, sob a crua luz da realidade, sofrem uma súbita

mutação e escarnecem de nosso terrível engano.

13) Livros que nós próprios escrevemos, movidos por alguma obscura

intenção, e que agora nos olham como se não nos reconhecessem ou tivessem

sido escritos por outro, produtos talvez do sonho de algum autor com cara de

fuinha cuja existência nem mesmo é um fato absolutamente certo.

 

Eustáquio Gomes

 

Eustáquio Gomes, jornalista, é autor dos romances A febre amorosa e Jonas

Blau, entre vários outros. Em 2007 publicou Viagem ao Centro do Dia – um

Diário.

De Guadalajara à Casa Mateus

António Lobo Antunes ganhou mais um prémio. Desta vez foi o Prémio da Feira Internacional de Literatura de Guadalajara que será entregue, no próximo dia 29 de Novembro, na cerimónia de abertura. O júri internacional considerou a obra de Lobo Antunes, não apenas como uma reflexão sobre a complexidade da experiência interior dos seres humanos”, mas também como reveladora das “potencialidades expressivas da palavra”. Ler mais aqui – LINK a integrar: http://www.fil.com.mx/prensa/pren_mbol.asp?id=720

Entre nós, Manuel Alegre ganhou o Prémio D. Diniz. O livro premiado, Doze Naus, foi editado pelas Publicações Dom Quixote em 2007. Ler mais aqui – LINK a integrar:http://www.casademateus.com/actividades_dinis.htm

Pais e filhos, o conflito

“Travessias singulares – Pais e Filhos” é um livro sobre o qual os grandes jornais ainda não

falaram. Mais um livro no silêncio, para todas as redações, poderia ser dito. É para romper

essa paz dos cemitérios que alinhavo aqui algumas linhas.

“Travessias Singulares – Pais e Filhos” é uma antologia que reúne escritores grandes,

magníficos, e, dói-me dizê-lo, pequenos. De Machado de Assis a J. J. Veiga, passando por

Moacyr Scliar, Carlos Heitor Cony, Antonio Torres, Wander Piroli, Silviano Santiago,

Raimundo Carrero. Todos unidos pelo tema da relação entre pai e filho, de norte a sul do

Brasil, do século XIX ao XXI. Essa é uma relação que interessa a todos os brasileiros, de

pais que faltamos a um companheirismo, até os filhos que não guardam com os seus algum

amor. Um terreno de conflito, mágoa e afeto, já se vê. Nem precisamos associar o livro a

Édipo, o Rei, que matou o rival para dormir com a mãe, nem precisamos lembrar aquela

turbulência de Os Irmão Karamazov. Bastaria a referência do eterno Kafka, em Carta ao

Pai.

Não tínhamos no Brasil até aqui algo sequer parecido. Não por falta de conflito, ternura ou

guerra nessa relação, é claro. Não por falta de escritores que aqui e ali não se furtaram a

essa coisa tão íntima quanto a relação com o útero materno. Uma relação-correspondência

que nem sempre chega ao destinatário, fundamental para a definição da identidade, do

caráter que somos. Fundamental até na sua falta. Lembro que na entrevista com Ubirajara,

o sem-teto que virou funcionário do Banco do Brasil, ele chegou a dizer que a falta do pai,

que o rejeitara, lhe doía mais que a fome.

Nesse livro agora vindo à luz participei de duas pequeníssimas maneiras. Na primeira

delas, quando localizei o escritor Renard Perez, que muita gente tomava como perdido,

desaparecido ou morto. Aos 80 anos, no Rio de Janeiro, Renard só se comunicava com o

mundo pelo telefone, que nem sempre atendia. Estava sozinho, imagino que em depressão,

porque havia perdido a esposa há poucos meses. Quando lhe pedi algum contato, algum

email de amigo, ele me respondeu, “eu não tenho amigos”. Localizei-o com muita

felicidade, em razão da sorte e da alegria que senti na sua voz, ao me dizer que há muito

não ouvia uma voz nordestina. Renard é natural de Macaíba, no Rio Grande do Norte. Para

saber o valor da sua força, recomendo a leitura do seu conto, presente nessa antologia, “A

morte do pai”. É um soco, uma lição e uma denúncia.

Na segunda maneira, participo do livro com o texto “A casa de meu pai”. É o relato de

um certo pai, brutal, brutalizado e brutalizante, cuja máxima pedagógica era “bato num

filho como quem bate num homem”. Os poucos leitores agora compreendem por que

disse lá no começo que escritores pequenos também estão nessa antologia. Entre esses

não se encontram Domingos Pellegrini, Aluísio de Azevedo, nem o grande e até há pouco

esquecido Renard Perez.

O feliz editor é Rosel Bonfim, da Casarão do Verbo. O livro está nas boas casas do ramo.

Mas se em algum lugar do Brasil ou do exterior não chegar, escrevam para o email do

editor, roselbonfim@hotmail.com . Se um livro salva um escritor, do nível de Renard

Perez, deve ser lido e saudado. Se uma antologia nos fala dessa relação de guerra e

paz, merece a nossa estima. Para nos lembrar que um dia fomos filhos, e seria bom que

não repetíssemos os pais que recebemos. Por uma questão de consciência. Deus ou a

humanidade condenam.

 

Urariano Mota

Linguagem e Matemática

Contra-linguagem. Pensemos no simétrico nos números, como

o número negativo –2 em relação ao número positivo +2. Em

primeiro lugar, poderá parecer que há números negativos, mas

nunca palavras negativas.

Porém, podemos pensar nisto, por exemplo: existe a palavra terra

e poderá existir a palavra negativa –terra.

 

+terra – terra = zero (0)

-cão + água + copo = copo com água sem cão.

(Ou: copo com água à espera de cão).

Explicando: -cão não é igual a zero ou a silêncio. Significa, sim,

que o cão está ausente. Isto é: ameaça estar presente. Designar

uma ausência específica, particularizá-la, é designar uma possível

presença.

Portanto: qualquer palavra, afinal, pode ser pensada como tendo

um negativo:

 

mesa e -mesa (retirámos a mesa da sala)

– palavras (depois da conversa começou o silêncio)

Números negativos e palavras negativas.

E por que não pensar também em palavras fraccionadas (já que

existem números fraccionários)?

O que será uma palavra fraccionada?

Por exemplo:

 

terra/2

Pensar numa palavra que identifica um espaço como podendo ser

fraccionada é fácil, é dividir o espaço que essa palavra representa:

terra/2 é metade da terra para cada lado.

Porém: um verbo, uma acção?

Por exemplo:

 

correr/2

ou: correr/6

Correr/6 significaria que o acto de correr é distribuído por seis

pessoas, ou seja: seis pessoas correm? Ou é uma corrida de fraca

intensidade? Correr/6.

 

Outros exemplo de palavras fraccionadas:

 

publicidade/3

essência/5

experiência/4

Será que isto significa: 1⁄4 da experiência? 1/5 da essência?

Ou seja: António não teve uma experiência, teve 1⁄4 de experiência

(foi uma experiência pequenina, foi um fragmento de experiência,

uma fracção de experiência – palavra fraccionada).

Ou: o Sr. João não ligou a luz, ligou a luz/35. Ou seja: ligou

uma luz pequeniníssima, uma pequena lanterna, uma luz de ver

moscas.

Portanto: a utilização das palavras fraccionadas é muito

útil. A fracção representa uma diminuição da intensidade: é

aquela substância e é aquela acção, mas diluídas. As palavras

fraccionadas substituiriam assim expressões como: luz muito

reduzida.

Em vez de se escrever luz muito reduzida passar-se-ia a escrever

luz/35.

Parecem assim evidentes as vantagens da introdução da

linguagem fraccionada (das palavras fraccionadas). A vantagem

maior seria a imposição da exactidão matemática à frase

intempestiva.

 

(continua no próximo mês)

 

Gonçalo M. Tavares

Mini-entrevista a Valter Hugo Mãe

1– No mundo tecnológico e instantanista em que vivemos, crê que a literatura, tal como a aprendemos a significar pelo menos desde o Iluminismo, ainda tem sentido?

Não creio que as artes percam sentido. Poderão passar por entusiasmos diferentes, mas exercerão sempre fascínio. Fala-se muito na hipótese de morrer o romance. Em Portugal, quando se começou a levantar essa questão, apareceu o Saramago, o Lobo Antunes, o Mário de Carvalho, a Lídia Jorge e tantos outros, alguns dos quais dignificaram e popularizaram o género como nunca antes. O instantâneo está a criar uma literatura mais instantânea, uma boa e outra má. A maior parte talvez seja má, mas na história também não ficaram a maior parte dos escritores.

2- Qual foi o último acontecimento literário, independentemente da sua natureza, que mais lhe tocou? Porquê?

Várias coisas literárias ou para-literárias me emocionaram nestes últimos tempos. Saber do estado de saúde de Agustina Bessa-Luís foi um choque. Ver, no sempre imprescindível youtube, o José Saramago sensibilizado depois de assistir ao filme que adapta o seu livro foi muito belo. Ler “A Sala Magenta”, de Mário de Carvalho, foi mais uma grande recompensa por gostar de livros.

3- Fale-nos resumidamente do seu último livro, como se estivesse a revê-lo em voz alta para um grupo de amigos.

o apocalipse dos trabalhadores conta a história de um grupo de pessoas que, sem muito se consciencializarem disso, encostam a democracia para o lado de lá da vida, para o momento em que são pedro abre ou não as portas do paraíso. É um texto feito de uma boa dose de ironia, com algum humor, que pretende, acima de tudo, chegar aos valores mais básicos do que será isso de se ser humano.

4- Pensa que a literatura e a rede poderão vir a ter, de algum modo, um destino comum?

De alguma forma já vão tendo. Muitos escritores fazem-se hoje nos blogues e há cada vez mais livros, inclusive inéditos, disponibilizados online. O futuro do livro é virtual, no sentido em que acredito que rapidamente deixaremos de usar o papel para imprimir textos e imagens a uma escala mirabolante como se faz agora.

No dia em que toda a gente começar a ter uns belos ipods, iphones ou produtos idênticos e os livros forem bem produzidos para leitura nesses ecrãs de luz, não vejo como não caminharmos, e a passos largos, para um mundo em que os livros se multiplicarão aos milhões com o esforço de cliques e não com o abate de árvores e toda a indústria pesada que depois disso se segue.

5- Refira dois autores e duas obras que o tenham marcado na sua carreira.

Quando li “A Metamorfose” de Franz Kafka era miúdo ainda e não estava à espera que se pudesse criar um universo tão visível só com palavras e, ao mesmo tempo, falar de coisas tão sérias com aquele aparato global de historinha da carochinha. Fiquei para sempre fascinado com Kafka e admito que toquei na porta dele com profunda emoção, quando a sorte me levou a Praga com o Jorge Listopad há uns anos.

Num aniversário ofereceram-me “O Medo”, do Al Berto, eu teria dezassete anos. Foi uma revolução na minha cabeça e, na verdade, foi onde encontrei, pela primeira vez, uma permissividade formal que me descomplicou muitos constrangimentos académicos. As minúsculas que hoje uso nos meus livros são todas devido às minúsculas que o Al Berto usa em tantos dos seus textos. Se é de marcas no meu percurso que se trata, esta é uma muito incontornável.