25º Episódio – Folhetim (II sequência de novelas) – O MÊNSTRUO MÁGICO DAS ORQUÍDEAS GRÁVIDAS – Folhetim em Setenta Episódios por Carlos Pessoa Rosa

Observo-o enquanto abre o primeiro botão da camisa, percebo a umidade em suas axilas e costas, o quanto está cansado, dedos no teclado, ele pega a vasilha e sai na direção do animal, um gato envelhecido, rabo torto e pelo ralo. Nega minha presença. Nem sempre… Melhor respirar um pouco, fugir do mofo. A escuridão e a fumaça são companheiras do desvario. Faltam-me cigarros. Melhor sair para comprá-los. Os dedos merecem um descanso e aqui ninguém cobra pela nicotina alheia. Preciso terminar o texto, um mês de atraso. Há duas horas lendo o mesmo parágrafo, à procura de alguma ideia: Tinha a impressão de ter reconhecido o estranho. Não era só isto, porém. O pior era que sabia que o mundo o conhecia; conhecia-o até muito bem. Tinha-o visto noutra ocasião… Sim, tinha-o visto em algum lugar e não fazia muito tempo… Até sabia o seu nome completo. Sem dúvida, por preço nenhum deste mundo, diria aquele nome…

Estou saindo! Digo alto. Ninguém responde. Os últimos anos têm sido assim. Preciso trocar a lâmpada do corredor. De onde o som? O mesmo som lastimoso de sempre. Abro a porta de onde imagino vir o gemido. A esperança de reencontrar algo perdido. A luz vazante na janela do quarto da criança que ainda não acordou avança no piso. Ali foi o início. Nem fala, nem frases, apenas sons, cores e odores. Sabores… Saberia a que viera? Traria alguma inscrição secreta ou seria apenas mais um dentre tantos imbecilóides sorumbáticos que não conseguem preencher o vazio nem usufruir da alegria ao redor? Perdi a conta das vezes que me fiz tal pergunta. E a resposta encontrava nos velhos livros empoeirados no porão: O pequeno Oluf é um menino muito estranho: em sua pele branca e vermelha parecem conviver dois meninos de caráter oposto: num dia é bom como um anjo, no outro, mau como um demônio, morde o seio da mãe e arranha com as unhas o rosto da ama…

Teria feito novamente a pergunta não fossem a veladura e o luto que me envolvem. É preciso manter a tensão se o desejo é o novo. Mas a vontade de fumar… Sou mais um na matemática do criador. Isso lá é verdade, vítima do acaso interplanetário. Talvez, menos poético, fruto de uma rapidinha. Estou sempre a dizer asneiras para mim mesmo. Melhor fechar a porta. Enclausurar a luz. Proteger o mofoso do corredor. Piso com cuidado para não arranhar o silêncio, detesto o ranger do assoalho, grito dos antepassados, imagens que pensava perdidas, cada som tem um dono, uma alegria ou tristeza incrustada nele. Não toquem no computador, não quero perder o material! Último grito, último pedido, antes de abrir a porta e fechar os olhos protegendo-me do golpe de luz na retina. Para quem o recado? A mãe respira nos vãos da ausência, sente-se o hálito de sua intimidade e acolhimento. A companheira esgarçou-se na doença. É a elas que me dirijo, não importa onde estejam… E esse sujeito que me nega.

 

(continua)

24º Episódio – Folhetim (II sequência de novelas) – O MÊNSTRUO MÁGICO DAS ORQUÍDEAS GRÁVIDAS – Folhetim em Setenta Episódios por Carlos Pessoa Rosa

A esquizofrenia da filha de Joyce. O lugar onde arcanjos degradados lançaram as estrelas de suas fontes. Focinhos enlameados de porcos, mãos que fossam e fossam, agarram e arrebentam.

Devaneios oportunos… Alimento literário. Bachelard! Ah, companheiro das fantasias impossíveis! Inúteis, por que não? Do sonho quando o jovem ao entrar no mar encontra o crânio sem encéfalo. Onde foram parar os pensamentos tão bem guardados dentro da caixa óssea? Mas há registros, tatuagens sobre a ossatura, que permitem saber a origem do ser que habitava um quase cofre, não fossem as artimanhas da memória e os abalos sísmicos dos sentimentos. Viajou alguns quilômetros antes de ser encontrado. Pelos traços, podia-se definir a distância da origem. Talvez alguma vítima de hábitos canibais. Em que tempo? Pouco importa. No devaneio, todos os tempos coexistem. Na mudez e tortuosidade da massa encefálica encontraremos tantas cavernas quanto moradas, tantas histórias quanto personagens, tudo é transitório, passatempo. E resta o mar com sua voz quase inaudível, os arrecifes a quebrantar a impetuosidade das ondas, o céu invertido sobre as águas, o verde criado pelas algas, os pensamentos e o imaginário… O que é deles quando se morre? Não longe, um siri vira os olhos para trás. Não é o que fazemos quando dormimos? Mirar o traseiro, como contemplar de uma janela os fundos da cidade, com seus varais e intimidades, suas antenas e segredos. Que mundos nos visitam nas madrugadas? Ao agonizar a matéria, permaneceremos sonhos? O que de nós sonha? Qual é o real? Ser o outro, o que observa as facetas estéticas que habitam a insensatez onírica. Às vezes me pergunto de onde surgem estas idéias e frases semoventes. São tantos os personagens que não sabia dentro! Ainda há pouco um deles me ignorou, nem preciso dizer, todos perceberam. Dentro uma vontade louca de tragar. Também, de nada adiantaria pedir cigarros… A canseira e o catarro com cheiro de podre levaram-no a parar o vício. Depois disso, desinteressou-se pelos fatos da vida. As correspondências acumulam-se há meses sobre o móvel. O que haveria naquelas cartas? Curiosidade pertinente, elas provocam. Estamos sempre esperando por notícias de quem distante. Boas ou más. Não importa. Mas ele não liga. Necessidade nenhuma de sentir-se da tribo. Perceberia o bafo, não fosse o tempo a nos separar. Somos indiferentes, um à presença do outro. Nem sempre foi assim.

(continua)

23º Episódio – Folhetim (II sequência de novelas) – O MÊNSTRUO MÁGICO DAS ORQUÍDEAS GRÁVIDAS – Folhetim em Setenta Episódios por Carlos Pessoa Rosa

Saciada a sede, o animal vai ao alimento. Fica o ruído do gotejamento. O pequeno animal jamais saberá daquele mundo que assunta questões desconhecidas, olhos parados, regozijo só no pensamento, expressão a mirar estranhezas, lugares onde ausente a matéria, indiferente à sujeira ao redor, às formigas que avançam pelos cantos levando tudo que encontram pelo caminho, às baratas que já não têm preocupação com o local da desova, às lagartixas que encontram ali alimentação farta.

Adiante, sentada junto à mesa, um vulto, figura feminina, a observá-los em atroz privação de fala. Sorria? O ruído do gato em disparada fuga, pelos eriçados, como se diante de um fantasma, levou-o a desviar-se por um tempo da atenção dirigida à mulher. Quando retornou… Encontrava-se sozinho. Só e delirante. Amaldiçoou o animal. Levantou-se e abriu a geladeira. Tinha o gosto de outra mulher nos lábios. Saudade é esse materializar o extinto ou o distante; possuir os ausentes. Desvario que ainda o mantém preso à vida. Mas é a morte que o apavora; e atrai. O receio de não tocar mais o próprio corpo, os pertences, de ver sua história perdida na prateleira ou gaveta de alguma biblioteca pública, como personagens esquecidos de alguma obra ficcional. Ser o possuído pela lembrança do outro. Desvario, talvez…

A sala quase vazia. Uns poucos parentes. A mãe de preto, véu sobre o rosto, orando baixinho, nunca a vimos chorar, o cheiro de parafina queimando, as coroas ao homenageado real, mas fora da cabeça, não há mais poder a se exercer, o rei agora é carne morta, a vitória é de tânatos, a coroa ficará sobre o túmulo até a natureza levar ou alguém roubar para reaproveitamento. No centro, a imagem de um corpo estirado à visitação pública, narinas tapadas pelo algodão, encoberto por flores, o derretimento da vela e das horas, o defunto diante da euforia dos vermes, o paradoxo existencial entre a beleza da origem e o pavor do fim a tornar aterrorizante a vigília. É nossa própria morte que nos assusta. Viver travestido de motivos e aparências, de uma estética, fruição e linearidade oferecidas como alimento às bestas feras que dentro de suas togas vomitam erudição e saber. Nunca lhe serviu. Curtia o noturno, por atonal. Kafka? Autor predileto, sim, mas sem o peso da culpa. Com uma pitada de devaneio e embriaguez.

 

(continua)

Sobre a Academia Popular da Língua | Daniel de Sá

(A Vasco Graça Moura, pelo amor que tem à nossa Língua;
E a Malaca Casteleiro e Evanildo Bechara, que igualmente a amam.)

Houve um tempo em que muito mais que agora se estimava a Língua Portuguesa. Por isso no 2º Ciclo do Liceu se estudava a sua evolução e os seus autores mais notáveis, desde os gentis trovadores ao magnífico Aquilino. Mas nessa viagem que acompanhava a cronologia estava um dos tropeços do programa. O percurso teria sido mais fácil se feito ao contrário, começando na linguagem familiar dos contemporâneos e acabando no suave trovar dos antigos. E assim, sem mais penas que as necessárias, teríamos ido do morrer de amor de Ana e Simão até ao “moiro d’amor” de D. Dinis, passando pelo “moura e pereça” de Luís Vaz.
Faz parte da natureza da Língua evoluir. Nem o Latim deixou de mudar quando se tornou numa língua dita morta, pois continua vivo na herança directa das sete línguas latinas e seus dialectos, nas várias que receberam dele grande parte do léxico e até na taxonomia. Mas os legionários que Roma recrutara nos quatro cantos do Império, e que nos trouxeram uma língua já algo distinta da que se falava no Lácio, tê-la-ão feito evoluir? Ou corromperam-na, conforme pensava Vénus pela pena de Camões? E, se talvez nenhum deles falasse da mesma maneira que por esse tempo Cícero escrevia ao seu amigo Ático, ainda falariam Latim?
Foi nessa transfiguração da língua do Lácio que continuou a ser forjado o Português. De celtas e outros povos tinham ficado vocábulos que permaneceriam até hoje, e mais tarde se lhe iriam juntando muitos de árabes, guaranis, chineses, quimbundos, de todos os povos com quem aprendemos novidades, fosse a do ornamental azulejo ou a do exótico maracujá, a do reconfortante chá ou a da pobre senzala. E por onde íamos também íamos ajudando a cumprir esse fadário das línguas, o de serem mudáveis.
Mas se a Língua não é imutável no léxico, tão-pouco o são em si mesmas as palavras que o constituem, até porque desse pecado original é que todas nascem e se desenvolvem. E é também nessa inconstância que os apoiantes do Acordo Ortográfico encontram abrigo para a defesa das suas posições. Mas será legítimo impor regras politicamente legisladas ao que por sua natureza é património colectivo e responsabilidade partilhada da nação? A primeira grande intromissão do poder político nas leis que regem a Língua aconteceu com a iconoclasta República, que não se limitou a mudar de rei para presidente, mas mudou também a bandeira, o hino, a moeda e a própria ortografia, tendo tentado mesmo intervir no espírito religioso popular. Como se do Portugal com quase oito séculos nada pudesse ficar para memória futura.
Sim, esta língua tem vindo a mudar sempre, desde que o Latim perdeu as declinações e se adaptou ao rude falar dos legionários e dos povos conquistados, tornando-se no latim dito bárbaro ou vulgar. E todas essas mudanças e as que aconteceram depois se deveram à necessidade de facilitar a comunicação, a características naturais da fonação ou a erros dos falantes, que de tão repetidos passaram a ser norma. Mas esta alteração da norma não surgia por acaso nem por geração espontânea. Os portugueses enamorados não adormeceram numa qualquer noite morrendo de soydade pela mulher amada, para despertarem na manhã seguinte com a saudade tão viva como na véspera. Diferentes formas para a escrita, ou a própria prosódia, da mesma palavra têm coexistido sem conflito durante décadas, talvez séculos. Segundo os escrivães de D. Manuel I, o poderoso rei ora regulava o comércio do “assucar”, ora oferecia umas quantas arrobas de “açucar” a quem lhe aprouvesse. Ainda no mesmo século, o XVI, não faltou quem satisfizesse a gulodice com doces torrões de “assuquere”. Mas, no século XVII, já não havia dúvidas. E todas as palavras que em Árabe começassem como aquela (as’sukkar) haveriam de ficar no Português com o princípio em “aç”, como açucena ou açude. Por vezes, ao fim de muito tempo de tal coexistência, os dicionaristas – definitivos sancionadores do padrão da Língua –, vencidos pela persistência de diferentes grafias, registavam as variantes. E assim temos, por exemplo, “disfrutar” e “desfrutar”, ou “lâmpada”, “lampa” e “alâmpada”, todas elas de curso legal segundo os dicionários. (São vários os casos da prótese do artigo com o substantivo, alguns mesmo da preposição com o verbo. E foi muito comum a escrita de preposições, copulativas e artigos juntando-os às palavras que regiam. Ainda no século XVIII acontecia, v.g. “o padre tirando-o com toda areverencia, o entregava com toda a decencia” – Dietário do Mosteiro de São Bento da Bahia, transcrição de Alícia Duhá Lose. Ou “todas asindulgências que osenhor capelão”, “efoi corista en oanno demil equinhentos” – relatório do vigário do Cartaxo sobre o estado em que ficou o concelho depois do terramoto de 1755, transcrição do autor.)
Para a evolução da Língua, no princípio foi o povo, que nunca se demitiu dessa função. Para a fixação da norma, embora muitas vezes transitória, terão servido de modelo cronistas de El-Rei, poetas e escritores como Camões ou Vieira, Camilo ou Herculano. O século XX tornou-se sobretudo o tempo do império dos jornais, para a grafia, e da rádio e da televisão, para a prosódia. Acerca desta surge uma das polémicas do Acordo. Há os que dizem que a alteração da grafia talvez a altere também, e há os que o negam. Se do futuro nada se pode afirmar, do passado temos exemplos variados de como a grafia muitas vezes condiciona a pronúncia. Dois casos recentes são “paisagem” e “saudade”. Aquela, que deriva de “país”, embora por via do Francês, escrevia-se com trema para que a raiz fosse respeitada – “PAÏSAGEM”. E “saudade”, também para desfazer o ditongo, tinha direito a trema igualmente – “SAÜDADE”. Desaparecido um e outro, poucos são os que ainda dizem “pa-i-za-jem”, enquanto que alguns já pronunciam “sau-da-de”. A nossa “idéia” já foi assim, acentuada como ainda é a brasileira. O que se justificava pela diferença prosódica em relação ao mesmo ditongo, em “cheia” ou “areia”, por exemplo. Eis, pois, outro caso em que a perda do acento exerceu influência em alguns falantes do português de Portugal. E, se a pronúncia do Norte tivesse persistido na prosódia nacional, pois então o Porto certamente haveria de ser uma “NAÇAÕ”, tendo-se mantido o til sobre a vogal final, que aí era o seu lugar. Curiosamente, foi ainda assim que foi escrito no referido Dietário do Mosteiro de São Bento da Bahia.
Quanto ao “e” em sílaba inicial, tem-se tornado uma vítima do sistema… É frequente não ser lido com o som de “i” em casos em que assim deveria ser. Por exemplo “Emanuel” que, no entanto, já se escreveu “Immanuel” ou “Imanuel”, acontecendo o contrário com “igreja”, que já foi “egreja”. Prova de que “Emanuel” sempre foi para ser dito “IMANUEL” e “igreja” já seria assim, mesmo quando era “egreja” devido à sua origem greco-latina.
O grande argumento dos defensores do Acordo é o da conveniência de harmonizar o Português em todo o espaço onde se o fala. Mas não serão as ausências de uns velhinhos “pês” ou de uns inocentes “cês” que facilitarão a comunicação com quem tiver aprendido Português depois de adulto. A maior dificuldade está relacionada com a riquíssima diferença do léxico e da prosódia dos países lusófonos em relação a Portugal. Com essas características o Acordo, obviamente, não se atreve a bulir. E felizmente não poderia fazê-lo, ainda que o tivesse querido. Por isso apenas resolve uma ínfima e superficial parte do problema. Tanto mais que, permitindo grafias duplas, acaba por criar alguma confusão entre prosódia (pessoal ou de grupo social) e ortografia. Os jornais que aderiram de imediato às novas regras têm demonstrado isso mesmo.
Nenhuma mudança repentina é fácil de aceitar. Uma experiência curiosa, e de certo modo extravagante, foi feita por Juan Ramón Jiménez, que chegou a usar sempre a letra “z”, para representar a fricativa dental surda, e o “j” em vez do “g” gutural. E se isto não adulterou a qualidade da tradução de Tagore, feita por Zenóbia, sua mulher, e por ele, tão-pouco trouxe algo de novo à língua castelhana, que de modo algum se interessou por tal simplificação. O pior incómodo, no entanto, era de natureza estética. Porque a estética também é um hábito.
Enfim, a República, que tirou à Língua o “p” de Egipto e o devolveu em 1945, agora que o apagou novamente bem poderia voltar a pô-lo no seu lugar. Por razões muito faladas já. E que nos fosse permitido continuar a distinguir os olhos dos ouvidos (óptico e ótico), ou que o “c” segurasse o tecto, contra todas as dúvidas… Porque o que é novo nem sempre é melhor do que o antigo.

Maia, São Miguel, Março de 2011
Daniel de Sá

POKER COM POSÊIDON … PARTE II

‘ Tirem os chapéus depressa” disse o saltitao que continuava com os olhos esbugalhados pelo susto, sabia por experiência que se a agua chegasse a borda do bote, este não havia de afundar-se por ser de Madeira mas também não iriam a lado nenhum. Tirou o chapéu da cabeça e começou a esvaziar o bote como podia, sendo imitado pelo Tchidinh e pelo rolex.

Continuava a chover e de vez enquanto o barulho dos trovões lhes martirizavam o tímpano e a apreensão, mas a tempestade comecou a amainar e meia hora depois, um raio de sol furou por entre as nuvens e o mar comecou a calmar. Continuaram a tirar a água do bote com os chapeus e finalmente comecarama ver o resultado do esforço enorme que faziam. devagar, a chuva ficou mais fraca e finalmente parou. O dia ficou mais claro e começaram a vislumbrar o horizonte. Saltitao estava ainda com os olhos fora da cabeça, mas tentava vislumbrar a posição do bote, todos olhavam para o horizonte a 360 graus, mas nem sinal de terra e o pior e que o sol estava no zénite e ninguém conseguia saber a posicao geografica onde se encontravam…agora e que sao elas disse o tchidinh, estamos perdidos. “Não” respondeu o saltitao “não, podemos perder, temos que voltar, amanha tenho que estar em santa Maria. E baixinho, “o jogo“…“jogo? Qual jogo? Perguntou o Tchidinh. “Que jogo homem?” Respondeu lhe, “mas quem e que falou de jogo?” Ali na àquele momento, Tchidinh teve o que se podia chamar de uma revelação, igual aos das historias da bíblia e encaixou todas as peças do cenário que tinha vindo a acontecer, pois ele tchidinh como a maioria dos notivagos de santa maria sabia do jogo de batota que teria lugar na segunda feira. ’ Filho da puta” disse o tchidinh com a cara disfigurada de raiva. “Trouxeste-nos à merda do canalinho, sem motor por causa de um jogo de batota?! seu batoteiro filho da puta, pois fique sabendo que se acontecer alguma coisa, Hei de matar te primeiro antes de ver o meu fim cabrão“ gritou -lhe. O bote andava a deriva com as velas rasgadas e nada que pudessem usar como remo. O que fazer? Tchidinh teve uma ideia, procurou pela embarcação ate encontar uma tabua que estava meio solta, na tabua vislumbrou  Pregos meio enferrujado. Pegou na tabua e deu um solavanco soltando-a da base, e na ponta surgiram dois pregos enferrujados. Com algum esforco conseguiu recuperar um dos pregos e disse aos outros ‘tirem as correias dos sapatos’ para que? perguntou o rolex. Tire a merda da correia, respondeu o tchidinh com uma mistura de raiva e impaciencia. Tiraram as correias e entregaram ao tchidinh que tirou as correias do seu proprio sapato. Depois baixou os dois pedacos da vela. Ajuda me disse ao rolex, no momento estava com tanta raiva do saltitao que o ignorava. Pegou nas partes da vela que tinha rasgado e comecou a fazer buracos simetricos de um lado e de outro’ espera que isto funcione disse para consigo. Depois comecou a cozer uma cozedura artezanal as duas partes com as correias do sapato. Passou umas duas horas a fazer aquilo e quando terminou as duas partes da vela estavam cozidas uma a outra e pareceu que ia funcionar. Pos a vela no lugar e icou a vela. O bote comecou a responder. Saltitao pegou no leme pelo que foi prontamente e rudemente espantado pelo tchidinh’ tira as maos dessa merda, ja causaste merda  por hoje que chegue’ disse lhe com rudeza. Pegou no leme e com o sol a por se no horizonte comecou a direcionar o bote para o Este. Tinha que compensar a deriva e sabia que como estavam a sul, se tivessem sorte iria navegar para este ate o sol se por e esperar pela noite e se anoite estivesse clara consegueria navegar para norte com ajuda das estrelas. Cthidinh agredeceu o pai que o tinha levado a tantas pescas e o tinha ensinado o Segredo de navegar com ajuda das estrelas. Saltitao estava sentado numa das tabuas do bote agora com a cabeca encostada aos joelhos e rolex estava deitado na proa do bote. Todos estavam com fome e sede e nao havia nada para comer ou beber, tinham perdido tudo. Chidinh aguentou o leme como pode em direccao ao Este, nao dizia nada, aliás estavam todos calados. A fome comecava a aperta los principalmente o chidinh que era bebedor mas comilao tb. Os pensamentos voavam martirizantemente da cachupa guisada do toi maozinha para o polvo guisado que a mae fazia, arroz de atum, lapa, o guisado de cabrito que tinha comido aquela vez que foram ao sítio do amilton na terra boa. Jesus que fome. Olhou para o saltitao e uma ideia terrivel o assaltou. Não, nao iria morrer de fome nao…se fosse preciso comia o sacana do saltitao…pois comia, ele tchidinh comia de tudo, nao era a toa que era conhecido entre a malta por lagosta estragada, tinha estomago de marinheiro e ja tinha comido de tudo, menos jente., haa mas iria exprimentar, se nao conseguisse chegar a snta maria dentro de um dia iria comer o sacana do saltitao. Apalpou o bolso da calca onde tinha guardado o Prego. Sabia o que tinha que fazer iria espetar lhe na garganta, no jugular como tinha visto naquele filme que foram ver no cinema do Espargos.

A noite comecou a cair sobre eles, os reflexos do por do sol davam um tom de azul com riscos avermehados ao ceu, tons bonitos nos olhos de chidinh… quando o sol desapareceu no horizonte, Chidinh vasculhou os ceus pela estrela que sabia estaria la, aquela enorme que era chamada de Ursula maior e que ficava junto com as outras estrelas que tinham a imagem de um papagaio, igual aos que lançava quando era pequeno ao vento, feitos de jornal e carico após uma boa meia hora e depois de ter confounded varias vezes, vislumbrou a estrela, encheu-se de alguma esperanca. Mantêm o rumo de forma que a estrela lhe ficasse pela esquerda, navegava assim em direcção a Este e manteria o curso dessa forma ate o sol aparecer de novo no horizonte a sua frente. Lutava contra a canseira e a vontade de fechar os olhos, e matinha sempre um olho na estrela, navegando e ajustando o curso como podia para manter o bote na direcção que queria, “ e se navegasse demais para o Este? Sera que a distancia de uma noite não seria demais e depois acabaria no meio do atlântico navegando agua baixo em direcção ao Brasil ou ao infinito? Martirizado por pensamentos de duvidas e incertezas, tentou desviar o pensamento,lembrou da anedota que o pai o tinha contado sobre o tio Julio que era capitão do veleiro que nos tempos antigos fazia a ligação entre o sal e saovicente e numa vez que traçou a rota errada quando vinha de são Vicente e passou pelo sal e foi agua abaixo, depois do tempo previsto para chegar ao sal e não tinha visto o sal, convocou a tripulação e disse lhes” vocês são todos testemunhas que o sal desapareceu do mapa”. Tchidinh decidiu que já era tempo de voltar o bote em direcção ao norte, ajustou o leme ate que a estrela ficou lhe de frente, navegando em direcção a estrela. Passou o resto da noite assim e quando a aurora apontou no horizonte, o sol apareceu lhe do lado direito como tinha previsto, agora restava saber se o bote estava na direcção certa. Com a aurora tambem despertaram o saltitao e o rolex, ambos com as caras desgastadas pela canseira, o desânimo, a fome e a sede. Rolex proximal-se do tchidinh e disse-lhe”o que vai acontecer com a gente? Achas que vamos morrer?”só Deus sabe’ respondeu-lhe”. “Sim, Deus e eu  pensou” pois antes de morrer vou comer os dois se for preciso”. Com lembrança da comida a fome voltou a apertar com mais força. Nisto com o balancear do bote que agora apanhava as vagas de lateral, vislumbrou o que no principio pareceu lhe a ponta de um poste, que logo desapareceu outra vez. Com a palma da mão fez uma pala sobre os olhos para proteger do sol e olhou outra vez com mais atenção, e la outra vez apareceu aquela pontinha e desapareceu outra vez. O coração due lhe uma descarga, mas mesmo assim disse para consigo, calma chidinh, cuidado para nao veres teres alucinações ópticas. Mas la outra vez apareceu a ponta outra vez e depois de algum tempo o rolex que estava na proa do barco disse com uma voz de espanto misturado com alegria’olha” ‘ vocês estão a ver? E la estava, o pesqueiro da ponta de serra negra. E todos começaram a gritar vivas e rolex caiu de joelhos agradecendo ao todo poderoso. Tinham aparecido no lado Este da ilha atrás da ponta de serra negra como foram lá parar não sabia, so sabia que mais tardar pela noite já estariam em santa Maria. Navegaram paralelo a costa ate saírem na igrejinha passou a praia do hotel russo e ao aproximarem do pontão um bote veio na direcção deles. Era o João papaia que vinha do pontão. Lançou lhes uma corda que amarraram no bote e rebocou-os em direcção ao pontão. Ao aproximarem do pontão repararam que o povo de Santa Maria estava em peso em cima do pontão, havia choros, risos e uma grande confusão de conversa e gritos, palmas etc. tchdinh so pensava numa coisa COMIDA. Chegaram ao pontão deitou as amarras e tchdinh subiu as escadas de ferro. Tinha os olhos arregalados e fundos. Quando subiu deu de caras com um cabeça de um atum que os Pescadores tinham cortado e deixado em cima do pontão. Não pensou em mais nada afastou todos os que queriam abraçá-lo ou cumprimenta-lo com uma forca de leão e atirou-se a cabeça de atum como uma hiena. Tchidinh entre grunhidos que pareciam mais de uma fera comeu toda a cabeça de atum crua, ate as bolas de olhos, sob o espanto horrorizado do pessoal que se encontrava no pontão. “Tchidinh enlouqueceu!!” foi o pensamento geral. Tchidinh depois de ter devorado a cabeça de atum e com cartilagens e sangue a escorrer lhe pela boca tentou levantar-se, foi quando foi atacado por uma terrível dor de barriga que o fez dobrar imediatamente sobre si mesmo. A dor vinha do baixo ventre e propagava-se pelo corpo todo tirando lhe toda a energia. Tentou mexer mas o corpo não reagiu, caiu por terra com os braços cruzados sobre a barriga e so conseguiu soltar um fraco “ui, a minha barriga”. “Hospital com ele’ alguém disse. Tchidinh foi prontamente içado sobre os ombros de varias pessoas que o carregaram como um mártir palestiniano em direcção ao posto de saúde de santa Maria, no caminho foi consenso dos carregadores que um carrinho de mão fosse usado como meio de transporte, para que fosse carregado mais depressa. Com um cortejo de varias pessoas, chegaram ao posto de saúde de santa Maria onde encontraram o enfermeiro jacinto. Um profissional de mão cheia quando no seu posto de serviço, mas tambem, um bebedor de grogue inveterado e com tendências a delirium tremens quando estava bêbado. Era habito dele, quando bebia andava sempre com duas pedras fechadas na mão atrás das costas, para no caso de malcriados quererem tomar vantagem do seu estado de um copinho amais. Quando chegaram com o tchidinh, o enfermeiro Jacinto diagnosticou in loco congestão. Pois já conhecia os sintomas e transportou-o para uma das camas do quarto colectivo e ministrou suor intra venoso.com o passar dos minutos tchidinh que tinha mantido num estado de torpor ate o momento reagiu. “Quero ir par casa” disse. ‘vais sim, mas daqui a uma semana pelo menos’ respondeu lhe enfermeiro…’ uma semana?” “ quero ir agora’ vais quando eu decidir” e fica quieto senão meto lhe uma injecção para “acalmar te‘. Debaixo da ameaça tchidinh sossegou, comecou a sentir a canseira de varios dias a tomar conta do corpo, devagar fechou os olhos e adormeceu quase instantanêamente.

António Lobo

21º Episódio – O MÊNSTRUO MÁGICO DAS ORQUÍDEAS GRÁVIDAS – Folhetim em Setenta Episódios

Deu um primeiro passo. Caminhou pelo velho e conhecido corredor de madeira corrida, pé direito alto, com lentidão pegajosa, pés enraizados em inquietações. Seguiria de olhos vendados, sem dar um tropeção ou desviar-se do destino, não precisaria das pernas para alcançar o escritório, bastaria a imaginação, estão todos onde não mais, apesar de único sobrevivente. Habituara-se ao ranger dos dentes e aos passos ásperos de seus fantasmas, rastros pálidos da história dos personagens que passaram por ali, o mofo a resenhar acasos na umidade da parede, vontade nenhuma de retornar à rua, fechar a porta representava dizer não às bestas sérias que infestavam a repartição pública onde trabalhava; e as ruas. Atravessou o longo corredor de luz pouca como se penetrasse a própria solidão, um retorno aos brotamentos ocorridos na escuridão uterina. E não havia nada de trágico ou sinistro no trajeto. Não portava arrependimento, rancor ou doença. Ao contrário, a atmosfera ali posta permitia-lhe tocar os afetos, ser tocado por eles, experimentar a estranheza fronteiriça no tegumento, nos pelos que fugiam pelas narinas e ouvidos. Modo de reconhecer e experimentar certa alegria revolucionária. Rir e sentir-se alegre, sem os preconceitos intelectualistas, não dos sábios, que estes trabalham com o sentido de justiça, verdade e razão, mas dos sabidos que preenchem o vazio acadêmico com teses inúteis. Alcançar o enganoso e o falso, por poético. Sem culpas. Nunca se deixou afetar por elas, nem viveu sustentado pelas falsas verdades coletivas e engajamentos políticos. Agia como um molusco dentro de seu invólucro calcário, acomodando-se à intimidade e ao passado; aproximando-se do escritório.
Às bestas sérias, o veru! Disse a um professor de ciência. Arrojo adolescente. Custou-lhe dois dias de suspensão e o sermão passado pelo pai. Mas não se arrependera. Bastaram para que a frase se transformasse em bandeira e lema. Dizia um não às simplificações e aos artifícios que tentavam tornar a vida suportável. Daí deixar-se levar pelo piso esgarçado, como se adormecido, pronto a receber as representações do inconsciente. Sonhar acordado… Sem consolos a simular garantias à existência. Fechada a porta, rompia-se com os delírios da linearidade, com a noção de tempo e espaço, mergulhava-se no fortuito e casual, investia-se, por instinto, no sacro e no profano, no longo corredor da individuação, que terminava em um amplo salão abarrotado de livros.
 
(continua)

20º Episódio – O MÊNSTRUO MÁGICO DAS ORQUÍDEAS GRÁVIDAS – Folhetim em Setenta Episódios

Dois guardas conversam próximo, um cão passa perto da mulher queda, fareja o corpo, levanta a pata traseira e urina, dá uma última olhada e vai embora. Também não liga, o sósia transformou-se em gelo, tem os passos pesados, são sessenta nas têmporas, o corpo discretamente envergado, pescador de solidão, não há mais ninguém, fala sozinho pelos cantos, a porta com o animal no frontão. Pegamos a chave do bolso do casaco. A sineta agitada, pego as cartas, olho os remetentes, sem curiosidade, alguém tecla no escritório, ouve-se um teclar lento, ele já lá, sempre apressado, falta inspiração, olho os aposentos, passados que pesam repensar, entro no escritório, separo-me da maleta e do casaco, folgo a gravata e desabotoo a camisa. Procuro o gato, dois olhos assuntando, ele pula, dá uma volta completa ao redor de meu corpo e segue na direção da cozinha para onde também vou, ruído da velha Remington Rand cada vez mais distante, coloco a ração no recipiente que carrego do escritório, o gato beberica água na torneira, sento-me à mesa, sozinho, ouço gemidos no corredor, o sacana se masturba, talvez imaginando Carol viva, entra suado, abre a geladeira, pega um ovo, mas não tem onde colocar, não há sopa, não há caldo, o felídeo foge em disparada pelo corredor, o chão imundo, mais ainda com o ovo quebrado no chão, sente muita raiva, uma lágrima desce do rosto dele, raridade nos últimos meses, o corpo vai entrar em putrefação e ninguém perceberá que na casa habita um defunto, na tela do computador a história incompleta (e que nunca será finalizada). O marido atravessa o corredor segurando o suspensório, alisando-o com os dedos, retira os sapatos, Clara entrega-lhe os chinelos, depois segue para a cozinha para colocar o caldo verde na mesa, eu sentado em um canto, o outro de mim espiando, e lá vinha mais um bofete, a correria para o quintal, debaixo da jabuticabeira, a copa despejando gotas grossas e frias sobre nossas cabeças, eu ainda tentava alegrá-lo fazendo micagens, imitando o velho, transformando-o em um diabo, era o que atenuava um pouco a revolta contra um pai que nasceu para não ter filhos.
Entre nós, só os contornos são semelhantes, um contagiando o outro, mas aos olhos de Carol não há distinção, ela admira a resultante da loucura, um sujeito dentro de uma armadura, protegendo-se dos contatos e dos afetos, criar podia ser uma saída, desconstruir, dar forma e consistência a novas representações, identidade na loucura, único modo de o não-sentido apressar a viagem final, mas ainda restam os delírios alimentados na esfera do absurdo, equilibrar-se na tênue linha que nos separa do desvario, como em Paul Klee, em O Saltimbanco, somos mais linhas que planos ou patamares, fina casca onde rupturas ocorrem a um simples sopro, e nós, eu e o outro de mim, sentados diante da tela, em crise criativa, resta muito pouco a representar, todos se foram, e não, de um modo ou de outro. Aqui o não-lugar, nem dentro nem fora, as janelas sempre fechadas. Não vivi Balzac… Terminar a obra é morrer e enterrar-se. O livro será obra nunca terminada, nunca definitivamente, ponto final será a última viagem do autor, depois que todos não mais presentes, a porta com animal no frontão, escancarada, o cheiro de podre nas narinas de quem matou tio Anastácio, cheiro mortiço a desvendar o segredo que habitava aqueles aposentos, não haverá herdeiros, apenas fantasmas, o outro de mim a testemunhar e endossar tudo que escrevo, quero o corpo cremado, as cinzas deverão ser jogadas debaixo de uma jabuticabeira, quero atapetar de sorriso negro o tronco da árvore, ser luto suculento e atraente, dizer às crianças que a morte é um fato, mas não um fim, como a obra.
 
Capítulo IV: Às bestas sérias, o veru!
17h30. Enfiou a mão no bolso do capote. Remexeu com os dedos até pegar o que procurava. Retirou-a. Trazia uma chave antiga. Somente a pega lisa e brilhante. Os dois detalhes, lado a lado, esféricos, pareciam os olhos de lagartixa. Sorriu com a lembrança de infância. O restante era de uma aspereza rústica e apresentava pontos de ferrugem. Afastou a chave da visão e encaixou-a na fechadura. Demorou um tempo, como se estivesse diante da possibilidade de desvendar um grande mistério. Rodou-a duas vezes. Ouviu-se o estalo de abertura da trava. Retirou a chave da fechadura e apertou-a fortemente contra a palma da mão. Devolveu-a ao bolso. Abraçou a maçaneta com a mão livre e movimentou-a o suficiente para sentir a porta sem resistência. Abriu-a com cuidado, às caladas. Não queria incomodar. Talvez evitar a sineta… Perseverou durante alguns segundos nos ruídos ao redor. Quando ficaria livre deles? Atritou a sola do sapato no capacho colocado na soleira da porta. Clara não deixaria o limpa-pés neste estado… Mas Clara apenas memória. Entrou. Ouviu-se um longo suspiro a ocupar o silêncio. Cessação dos ruídos de fora… Adquirira o hábito da surdez quando bem desejasse. Abandonou qualquer tentativa de compreender a obscuridade e o caráter fortuito da vida. Nem os sons e as vozes que não dependem da audição e que tanto o atormentaram, hoje fazem sentido. Aprisionado em vozerio próprio, toca o sentido oculto dos sonhos, o adensamento das pausas, mas sem a ansiedade da juventude. Tudo não passa de um jogo… Um jogo com regras variáveis ao infinito. Pior, o adversário um ditador e trapaceiro. Não importa a tática, não venceria uma única partida, o homem não passa de um perdedor, esboço no escuro, como o experimentado ao fechar a porta, vaga luz indireta, corpo vazio, espelho sem imagem, sombra.
Retirou novamente a chave do bolso do casaco, ajeitou-a na fechadura, bastam duas voltas para o travamento, depois dependurar a chave em um prego colocado ao lado do cabide. O alívio ao romper com a hostilidade de fora, com o maneirismo hipócrita das relações que antes resolvia com uma dose de ironia, mas hoje nem isso alivia; entranhar-se no avesso. Descansou o chapéu e o casaco na estaqueira que fora do pai. Esvaziado de qualquer tentativa de consolo, aproveitou-se da teimosia da luz que espiava a escuridão por debaixo da porta para pegar as correspondências esparramadas no chão. Repassou-as uma a uma diante da arandela com mortiça luz e, sem acrescentar novas linhas ao rosto ou ater-se a alguma em particular, voltou-se para o interior da residência. Ninguém que observasse a frente da casa, parede mal conservada, com o rosto de um leão fuliginoso como adorno no frontão, construiria na mente aquele labirinto interno, tantas eram as portas e dobras ao alcance da vista. Viria do escritório o som do teclar da máquina de escrever? Um retângulo de luz vazava no meio do corredor, vinha de lá o som batido e caótico da velha Remington Rand que tanto o incomodou, não se livraria mais dos vestígios que marcaram o passado, materializando-se, dos fantasmas vivos que habitam a memória e caducam ainda hoje.
(continua)

19º Episódio – O MÊNSTRUO MÁGICO DAS ORQUÍDEAS GRÁVIDAS – Folhetim em Setenta Episódios

O outro de mim. Segue no corredor, na direção do escritório. Ouve-se a Remington Rand. A mesma história escrita a quatro mãos, memória dupla, jogo de espelho, o desejo não realizado e o real não sonhado, da luta restou uma película, um privado exposto ao público. Mas não somos todos assim, uma mentira, resultante matemática do preço de se viver em uma sociedade que põe o individual à mercê do social? Mas por favor! Herrmann com as dobras barrocas, por aqui, não! Mas já está na tela… É do desejo. Plano em que o medo do real não interfere, é uníssona a decisão. Já está na tela, no texto. Você não tira o olho do escritório? É Carol percebendo a pausa diante do prato. É que estou com algumas ideias. Você precisa se cuidar, para tudo há um limite. Não se preocupe… Não digo, apenas olho para seus olhos, bolinhas de vidro. É o que tenho dela: os olhos. Tardes jogando com o outro de mim, os quatro buracos no terreno de casa, feitos com tampa de refrigerante, duas bolinhas, dois jogadores, duas táticas, dois resultados, uma única criança visível. Você precisa de amigos. A voz de Clara nos lábios de Carol… Ou de Carol nos lábios de Clara? E o ruído da Remington Rand. Compulsivo. Bem diferente de mim, horas pensando para escrever apenas um parágrafo. Quanto suor e sofrimento! Para isso… Nada. A literatura não é nada! Caminhar na tênue linha que nos separa da psicose. O não-dito arquivado no inconsciente, esvaziado pelos atalhos da insânia, através de palavras, tentáculos alegóricos da desconstrução do mistério. Agrada Carol, apesar da preocupação, mas somente ela, o velho quando pegou um primeiro escrito torceu o nariz e queimou o papel com o fósforo. Não há de se viver dessas idiotices! Lembramos bem disso… Você dobrou a margem do tapete e o velho caiu com o texto na mão. Nenhum gesto meu a ajudá-lo a se levantar. O pai assomando na nossa frente, a sombra da mão em movimento, o tapa no rosto, a queda, você ria. Os passos… Clara entrando e ajeitando meu rosto no seu peito, o velho saindo em resmungos, a sineta, o bater da porta… O silêncio. Estou saindo, volto logo! De onde a voz? Clara não responde, nem Carol. Eu na cozinha, fantasma, o gato arrepiando-se todo ao perceber minhas mãos na direção dele. A velha Remington Rand silente. Deve ter saído, talvez para comprar cigarro, suicida-se com o alcatrão, mais as substâncias radioativas, mais os metais pesados, mas haveria algo mais dramático do que a própria vida? O corpo podre por dentro, o gosto de sangue na boca, a dor na coluna, mas os dedos teclando, até o último momento, poetizar é simular essa podridão interna, dar ares sublimes ao infecto.
O duplo, nariz aduncado, entra no bar, olha na direção onde me encontro, ignoro-o, compra um maço de cigarros, não espera o troco, acende um, insiste em me olhar, eu sou o vazio, deixo-o sair e sigo atrás, vontade nenhuma em continuar, mas ele insiste, quer terminar uma grande obra, não com minha ajuda, não mais, a ficção foi nossa vida, o mundo é essa ressaca ao redor, lugar onde os pés criam raízes e a cabeça tem os neurônios vaporizados pela luta para sobreviver, no canto uma mulher caída no chão, mas a situação não chama a atenção de ninguém, se morta, é um fato irreversível, viva, levantará e seguirá o interrompido.  (continua)

13º Episósio – O MÊNSTRUO MÁGICO DAS ORQUÍDEAS GRÁVIDAS – Folhetim em Setenta Episódios

Há uma mulher, Carol, ainda nem projeto, lembra um pouco a mãe, mas só no visual, nos cabelos ondulados e acastanhados, no nariz e lábios delicados, mas de fala e comportamento decididos, impulsiva, nem imaginar esse outro meu lado assumir as rédeas, Carol não prega um botão e não faz nada que não seja de sua vontade. Foi dela a voz… Não de Clara. Mas nenhuma das duas aqui… O que foi menino? Mania de ficar atrás da porta! A fala vem com um bafo quente, como o mormaço que o vento carrega junto à poeira no verão. Não há mais sombras, não há devir, as pernas amolecem e o coração acelerado, entonação que por si expulsa a criança do lugar, mas o sintoma permanece, saio em disparada pelo corredor, atravesso a cozinha, a ouvir minha mãe perguntar O que foi, viu Satanás? e ver Da Graça, a empregada, traçar com o dedo uma cruz no rosto dizendo Cruz-credo, dona Clara, não diga isso!. Distante, sentado debaixo da jabuticabeira, ainda apalpo o silêncio na esperança de novas geografias, não ouço nada, nenhuma ordem, junto de você esse outro de mim desfiando o medo como se fosse um novelo, acalmando a palpitação no peito, fazendo palhaçada, me levando à gargalhada, nervosa é verdade, imitando o pai bravo, colocando um galho no traseiro como se fosse o rabo do diabo, e os pingos frios da garoa acumulada sobre a copa da árvore molhando nossas cabeças. Lebreia… Origem desconhecida. Talvez variação de neblina. Mas a palavra tem o rastro do ébrio, apesar de curta o decrescente final dá ideia de algo infinito, ‘a’ final que não se esgota. O estranho prazer pelas palavras. De onde? Vamos?

Retornamos… Havia uma criança espiadora que se escafedeu no corredor, túnel do tempo, deve estar debaixo da jabuticabeira, o outro a lhe dizer que haveria a desforra, que o sofá e a velha Remington Rand seriam nossos, Carol na janela ajeita a cortina, nem pensar nessa duplicidade, criança sempre assustada, mas o velho não mais aqui, mas presente o cheiro do cachimbo impregnando cada móvel, cada dobra, cada tristeza. Os mortos não morrem nunca! Talvez por lembrar a nossa própria morte.

 

 

 (continua)

«Os Pretos de Pousaflores», de Aida Gomes; «Inveja», de Mário Avelar

Vejamos. As práticas não ajudam. Falar de literatura africana em Portugal equivale a contar pelas mãos. O resultado é parco, sabe, sobretudo, a pouco. Não em qualidade, antes em quantidade. Os ditos novos são sempre os mesmos, logo velhos. O que é paradoxal, sem dúvida, tanto mais que tanto por aí, aos ventos, se apregoa a lusofonia, a sua urgência, tal como para outros azimutes se clama e decretam acordos ortográficos que está ainda para se ver que bem trazem a um pretenso maior conhecimento das literaturas irmãs em terra outrora mãe. Adiante, isto para dizer que «Os Pretos de Pousaflores», de Aida Gomes, é uma verdadeira oferenda. E, espanto maior: primeiro romance! Apetece perguntar, o que andou a fazer Aida Gomes todos estes anos? Saibamo-lo, atentando na resposta biográfica que, indirecta, surge em badana. Aida Gomes nasceu no Huambo, Angola. Viveu (vive?) na Holanda desde 1985 onde cursou Ciências Históricas e fez mestrado sobre processos históricos e políticos na África sub-sahariana. Depois, viajou e trabalhou no Cambodja, Moçambique, Suriname, Angola, Libéria, Sudão e Guiné-Bissau, desenvolvendo actividade em projectos comunitários para jovens, na formação de jornalistas e na construção de paz e diálogo político, isto alternando com, ou no âmbito de missões de paz da ONU. Em suma, fez aquilo que talvez mais faz falta a um escritor: viver. E, no fundo, é isso que bem está expresso neste soberbo romance, vida, ou antes, muitas vidas. Vidas contadas a várias vozes, extremamente bem (auto-)delineadas, percebidas e entendidas no âmago dos sentimentos e emoções, mas também no modo como percepcionam o outros, ou os outros que de fora as vêem e com elas interagem. A história, num muito curto resumo: Silvério Prata, português de gema, da aldeia de Pousaflores, perto de Coimbra, rumou outrora às Áfricas portuguesas a fazer vida e ganhar o mundo. Não correram os planos como a família prevera e os primos lhe faltaram, acabando ele por, após participar numa campanha de pacificação de uma tribo, a esta se juntar, devindo, excepto que não pela cor da pele, um dos seus. Longos anos fica em África. Tem três filhos de três mulheres diferentes. Um dia, já com o processo de independência angolana em marcha, volta a casa, à pátria onde, passados quase quarenta anos, já ninguém o esperava, sequer a irmã que o vê chegar descalço de fortuna e com três filhos negros, aqueles a quem mais tarde chamarão na aldeia os «pretos de Pousaflores». Depois vem a adaptação vista pelos olhos de cada uma das personagens, quer aqueles de regresso, quer aqueles que os acolheram – um notabilíssimo concerto de vozes e perspectivas da vida, diga-se, naquilo que de mais notável encerra a escrita polifónica de Aida Gomes. Paralelamente, entre idas e vindas do passado para o presente e vice-versa, há ainda a história de Deodata, uma das suas mulheres deixadas para trás que não desiste de procurar a sua filha por entre destroços de um país em guerra fratricida, e há ainda a curiosa, verdadeira e por conhecer história do encontro de Livingstone com Silva Porto, que sobremaneira interessa a Silvério. O passado colonial como se visto num postal antigo, de cores e memórias desmaiadas, o presente num colorido rude e tépido de um Portugal pobre e à deriva nos anos 70 e 80, são estes os panos de fundo deste romance singularmente bem escrito, singularmente original e bem-humorado (magníficos, por exemplo, o solilóquio da Dona Bela para com Belmira, tal como as reflexões “existenciais” de Justino), tão sóbrio quanto comovedor. Em suma, mais uma (grande) autora a escrever em português.

Pedro Teixeira Neves

«Inveja», de Mário Avelar, Assírio & Alvim,  176 pp.

A inveja, tal como a poesia, bem poderia dizer-se ser apanágio português. Não sei se seria exagero chegar ao ponto de dizer que somos um país de invejosos, mas que por aí muito poeta na matéria abunda, parece ser bem provável. Pelo menos é o que em parte ressalta da leitura do mais recente romance de Mário Avelar, justamente de sua graça «Inveja». É um livro muito curioso, muito bem escrito, muito bem-disposto ou irónico, muito interessante e, de certa forma, corajoso. Sim, porque não é todos os dias que somos capazes de nos ver ao espelho! Sobretudo para nele vermos os nossos defeitos. No caso, a inveja, pecado que, lido o romance, assaz praticamos sem que inferno algum nos pareça ferver o suficiente para nos assustar ao ponto de nos redimirmos em sãos comportamentos conforme a uma qualquer moral. Ora bem, posto isto, a história: tudo se passa em cerca de meia-hora, o tempo qb para uma investidura ou uma tomada de posse (e muitas pomadas para a tosse, diria O’Neill…). Situemo-nos: um palacete alfacinha no qual o respeitoso Instituto Camões procede à supracitada investidura de um novo presidente. Que presidente? – eis a questão, fundamental, de resto. Isto porque Francisco Villa-Verde, outrora Vila apenas com um l, outrora também mais conhecido pelo nome de guerra Xico-Xicão, escapa, pelo seu passado “errante”, aos trâmites do que é normal decorrer no âmbito académico em matéria de progressão profissional e social. Na verdade, Francisco, aos olhos dos seus pares invejosos, não é detentor de predicados curriculares dignos de lembrança. Ora é durante o rame-rame burocrático da tomada de posse, que, entre olhares e pensamentos cruzados que vagueiam pelos circunstantes ao acto, que se vai delinear um quadro histórico do país, morais e costumes, ao longo das últimas décadas. Verdadeira crónica de costumes, aos nossos olhos perpassa um cortejo de figuras, figurantes e figurões que bem atestam o país de onde viemos e que hoje somos. E, sobretudo, que bem atesta o meio comezinho, intriguista, interesseiro, de pose e parecença, que é aquele dos movediços corredores de poder nas mais variadas áreas da sociedade, da política à cultural. Jocoso, sarcástico, irónico, este romance de Mário Avelar assume diversas qualidades, entre elas a coragem de pôr tudo isto a nu, sobretudo num meio literário como o nosso em que um estranho apelo pelo cinzentismo auto-contemplatório parece fazer submergir a generalidade das almas criativas. «Chega de Saudade», apetece por vezes dizer ao país de poetas cuja literatura parece ter desaprendido o riso. Valham as excepções, como esta. Mas atenção, não nos enganemos: o riso é uma arma. E aqui, por via do humor, fala-se a sério de muitas coisas sobre as quais seriamente devíamos pensar ou que nos deviam deixar a pensar a sério!

Pedro Teixeira Neves

A literatura, a rede e os livros: novos desafios

Faz no próximo mês de Abril um ano que uma versão improvisada e actualizada do clássico Romeu e Julieta, de William Shakespeare, está a ser enunciada através do Twitter. O projecto é da Royal Shakespeare Company* e conta com seis actores que dão corpo aos mais diferentes personagens da trama, escrevendo diariamente sobre as suas vidas e os acontecimentos do mundo em tempo real. Um desafio realmente contemporâneo e sobretudo aberto aos olhos de todos. Sem vestes platónicas, nem tempos de pose à Disderi.

É um facto que na rede nada culmina e tudo se processa, já que nela não existem pontos nevrálgicos ou zonas de clímax. O que surge, logo se remove e reconverte. A narrativa criada deste modo, por mais grelha ou guião para que remeta, não necessita de uma retórica baseada em analepses e prolepses (flash-backs e antecipações): o que nela conta é o registo que acompanha a mais pura imobilização do instante. O que nela cativa é a duração, a iminência imediata, o ‘estar lá’.

A propósito do caudal a que a rede convida, refira-se um outro facto interessante: o ano passado, Heloisa Buarque de Hollanda reuniu, na publicação Enter, 37 novos autores que se revelaram na rede. Ramon Mello, que colaborou com Heloisa Buarque da Holanda nesta edição, referiu, em Dezembro passado, ao Portal Literal o que o motivou na organização deste volume: “Há uma produção literária muito intensa na rede. Logo após conhecê-la, recebi o convite para embarcar nesta viagem, que resultou em Enter“(…). “Pesquisei mais de 300 autores que têm relação directa com a rede, num trabalho que mistura texto, áudio e vídeo. O momento mais difícil é a selecção final. Muita gente interessante fica de fora.”. Seja como for, trata-se de um dos momentos editoriais do ano a reter e sobre o qual valerá a pena reflectir.

Este tipo de consideração a que Ramon Mello deu recentemente voz (no Portal Literal**) ou o formato de um projecto como o da Royal Shakespeare Company deixarão muito em breve de ser notícia. O mesmo se poderá dizer de todos os factos ligados à progressiva insolvência das livrarias clássicas. Os fenómenos ligam-se. À medida que os livros electrónicos vão dominando o mercado, também a edição tenderá a migrar do sigilo íntimo do papel para novos interfaces com duas características essenciais: mais proximidade entre enunciadores e leitores, mas, por outro lado, mais impessoalidade. Dir-se-ia estarmos face a um paradoxo inteligente.

Do mesmo modo que um LP ou uma cassete já são, hoje em dia, uma coisa aberrante para os jovens – e até para os menos jovens –, também, dentro de poucos anos, a ideia de um livro encadernado e de uma livraria com balcão de madeira tenderão a ser uma espécie de ‘desvario animado’. Apesar disso, a literatura continuará a sonhar. Tal como antes do livro o fazia. Tal como depois do livro o fará. Oralmente ou ancorada digitalmente – ou até na luz –, a literatura continuará a legitimar os desafios da existência quando confrontados com a esfera do indizível. Uma tempestade é sempre a inscrição de uma bonança.

* http://suchtweetsorrow.com/

** http://portalliteral.terra.com.br/artigos/heloisa-buarque-de-hollanda-reune-em-site-37-novos-autores

Cr.: http://media.photobucket.com/image/Shakespeare%20%25252B%20pop/onegirlcreative/POP%20ART/shakespeare.jpg?t=1218473804

12º Episósio – O MÊNSTRUO MÁGICO DAS ORQUÍDEAS GRÁVIDAS – Folhetim em Setenta Episódios

Isto mesmo, retirar o corpo, ele estava incomodando, ocupando o lugar de outro, minha Carol no não-lugar, sempre viveu assim, descompromissada, permaneci com o sinal de ocupado no ouvido, lembrança da mãe quando do aviso do derrame do pai, da existência de palavras fraturadas e do desejo de o tempo retornar a um pouco antes do dito, mas não houve engano, o telefone ficou mudo depois do aviso, nem sei como cheguei ao hospital, o corpo de Carol frio e marcado por manchas roxas nos braços e pernas, uma vontade enorme de ter relações com ela, mesmo morta, misturar-me ao corpo morto, ouvir seu gemido de gozo, ter sua língua na minha boca, seria o modo de me despedir, mas não conseguiria, mesmo sabendo que Carol concordava com todas as minhas maluquices, o que fazer com o corpo? Gelado… Não podiam ficar com ele por muito tempo. Foi você que me levou à funerária, sempre foi mais forte que eu, negociou o caixão, ficamos os dois velando Carol madrugada afora, puta não tem amigos, mas clientes como os médicos, enterrada na mesma cova que nosso pai e mãe, pelos menos cuidaram para que tivéssemos a última morada, sobramos, eu e você, dois nômades em um, como essas propagandas de sabão em pó, carregamos o caixão, leve, muito leve, você pediu para eu falar, então eu discursei, tangenciei as qualidades de Carol, dissertei sobre a importância e a responsabilidade de uma puta, os homens ao lado aguardando minha ordem para enterrarem de vez a morta, não havia mais ninguém além deles e dos fantasmas que ainda não retornaram ao lar. Você se lembra? Era uma sexta-feira de junho. Claro que se

Bombaim

“Apesar de ser madrugada, dentro do coração de Bhima estava escuro.

Virando-se para o lado esquerdo sobre o fino colchão de algodão estendido no chão, senta-se abruptamente, como todas as manhãs. Ergue a mão ossuda acima da cabeça, boceja e espreguiça-se. Um odor forte a mofo sobe dos sovacos e assalta-lhe as narinas. Por um momento, senta-se, ociosa, na beira do colchão com os pés calejados no chão de terra, os joelhos dobrados, e apoia a cabeça nos braços cruzados. Naquele instante, sente-se quase em paz, o espírito em branco e grato, esvaziado dos problemas que a aguardam nesse dia, e no seguinte e no outro… Para prolongar aquele estado de graça despojada, estende distraidamente o braço para a lata de tabaco de mascar que guarda ao pé da cama. Enfia uma tira na boca, fazendo-a sobressair no rosto esquelético qual bola de críquete.

O idílio de Bhima dura pouco. À luz esbatida e delicada do novo dia distingue a silhueta de Maya que se agita no colchão, ao fundo, do lado esquerdo da cabana. A rapariga murmura baixinho, adormecida, uns sons lamurientos e, contra sua vontade, Bhima sente o coração amansar e amolecer, como acontecia havia tanto tempo, quando dava de mamar a Pooja, a mãe de Maya. Instigada pelos lamentos de Maya, que faziam lembrar um cachorrinho, Bhima levanta-se do colchão com um gemido e encaminha-se para onde a neta dorme. Todavia, no segundo que leva a atravessar a pequena cabana, algo se modifica no seu coração, transformando o sentimento maternal e langoroso de há pouco num outro, impie­doso e duro, um sentimento de raiva que se instalou dentro de si faz algumas semanas. Agiganta-se sobre a rapariga adormecida, que agora ressona levemente, afortunadamente inconsciente da raiva que luz nos olhos da avó, quando esta contempla o ligeiro inchaço da barriga de Maia.

«Um pontapé rápido», diz Bhima para si própria, «um pontapé rápido na barriga, seguido de outro e de outro, e acaba tudo. Olhem para ela, ali a dormir, qual puta desavergonhada, como se nada a preocupasse. Como se não tivesse dado cabo da minha vida.» O pé direito de Bhima estremece de desejo e os músculos da barriga da perna retesam-se ao levantá-lo ligeiramente. Seria tão fácil. E, com­parado com o que outras avós fariam a Maya — um encontrão brusco para dentro de um poço sem protecções, uma lata de querosene e um fósforo, ser vendida a um bordel —, aquilo seria tão humano. Desta forma, Maya viveria, continuaria a ir à uni­ver­si­dade e poderia escolher uma vida diferente da que Bhima conhe­cera. Era assim que devia ser, como fora até a estúpida da rapariga, com o seu grande coração e agora uma grande barriga, se ter dei­xado engravidar.

Maya solta de súbito um pequeno ronco e o pé erguido de Bhima regressa ao chão. Agacha-se ao lado da rapariga adormecida para lhe sacudir os ombros e a acordar. Quando Maya ainda frequentava a universidade, Bhima deixava-a dormir até ser possível, fazia-lhe gaajar halwa todos os domingos, dava-lhe a dose maior do jantar todas as noites. Se Serabai oferecia qualquer coisa a Bhima — por exemplo, um chocolate Cadbury, ou aquele doce branco com pistácios que vinha do Irão —, guardava-a para a trazer para Maya, embora, verdade seja dita, Serabai lhe desse também um pedaço para Maya. Porém, desde que Bhima des­co­brira a ver­gonha da neta, passara a acordá-la cedo. Nos últimos domingos, não houvera gaajar halwa e Maya não pedira a sua sobre­mesa pre­fe­rida. No princípio daquela semana, Bhima até mandara a rapariga ir para a fila a fim de encher os dois cântaros na torneira comu­nitária. Maya protestara, afagando inconscientemente a barriga, mas Bhima desviara o olhar e dissera que, afinal, em breve toda a gente do basti saberia da sua desonra e, portanto, não valia a pena esconder.

Maya vira-se no sono, e o seu rosto fica apenas a milímetros do ponto onde Bhima se agacha. A mão jovem e rechonchuda toca na mão magra e engelhada e aconchega-se contra ela, segurando-a entre o queixo e o peito. Um fio de baba cai na mão cativa de Bhima e a mulher mais velha enternece-se. Maya sempre foi assim desde bebé — carente, afectiva, confiante. Apesar de toda a dor que viveu na infância, não perdera a doçura e a inocência. Com a mão livre, Bhima afaga o cabelo luxuriante e sedoso da jovem, tão dife­rente do seu, já escasso.

O som fraco de um rádio invade o quarto e Bhima pragueja baixinho. Normalmente, quando Jaiprakash liga o rádio, ela está já na fila da água. Significa que está atrasada e que Serabai vai ficar furiosa. Aquela rapariga estúpida e preguiçosa atrasou-a. Bhima afasta bruscamente a mão, sem se importar que o gesto acorde Maya. A rapariga, porém, continua a dormir. Bhima põe-se de pé num salto e a sua anca esquerda produz um estalo audível. Imo­bi­liza-se por momentos, à espera da onda de dor que se segue ao estalo, mas aquele é um bom dia. Nada de dor.

Pega nos dois cântaros de cobre e abre a porta da frente. Curva­-se para conseguir passar pela porta baixa e fecha-a. Não quer que os jovens lascivos que vivem no bairro-de-lata espreitem a neta adormecida ao passarem. Um deles deve ser o pai da criança… Abana a cabeça para dissipar os pensamentos tenebrosos e tortuosos que a invadem.

Os seus intestinos dão sinal e Bhima solta um som de desagrado. Agora tem de se dirigir à casa de banho comunitária antes de ir à torneira e a fila será ainda maior. Normalmente, tenta controlar os intestinos até chegar a casa de Serabai, que tem uma casa de banho a sério. Contudo, ainda é suficientemente cedo e as condições talvez não estejam muito más. Mais algumas horas e quase não haverá espaço para caminhar por entre os inúmeros montes de caca que os residentes do bairro-de-lata deixam no chão de terra da casa de banho comunitária. Após tantos anos, as moscas e o cheiro ainda dão voltas no estômago de Bhima. Os habitantes passaram a pagar à mulher Harijan que vive na extremidade do bairro para recolher a caca todas as noites. Bhima vê-a por vezes, agachada no solo, a varrer os montículos de merda com a vassoura para um cesto de verga forrado com jornais. Por vezes, os seus olhares cruzam-se e Bhima faz questão de lhe sorrir. Ao contrário da maioria dos habitantes do bairro-de-lata, não se sente superior à pobre mulher.

Bhima termina o que tinha a fazer e dirige-se à torneira. Geme ao ver a longa fila que serpenteia para lá das barracas negras e desali­nhadas, com os seus telhados de lata remendada. A luz matinal torna a sordidez do bairro-de-lata ainda mais marcante. Os esgotos a céu aberto com o seu cheiro acre e húmido, as filas sinistras de barracas de telhados inclinados, os homens esqueléticos, de bocas escan­ca­radas, que preguiçam por ali num estupor alcoólico, tudo aquilo parece pior à luz límpida do novo dia. Con­travontade, o espírito de Bhima relembra os velhos tempos em que vivia com o marido, Gopal, e os dois filhos, num chawl, onde a água gorgolejava da tor­neira da cozinha e partilhavam a casa de banho com apenas duas outras famílias.

Bhima está prestes a juntar-se ao fim da fila da água quando Bibi a avista.

—    Ae, Bhima mausi — cumprimenta-a. — Vem cá, na. Tenho estado a guardar um lugar especialmente para ti.

Bhima sorri, agradecida. Bibi é uma mulher gorda e asmática que se mudou para o bairro-de-lata há dois anos e que adoptou de imediato Bhima como sua velha tia. Enquanto Bhima é calada e reservada, Bibi é ruidosa e gosta de dar nas vistas. Ninguém con­segue ficar zangado com ela por muito tempo. A sua vontade de ajudar, o apoio que dá a velhos e novos fazem dela uma das resi­dentes do bairro mais populares.

Bhima dirige-se para junto de Bibi.

—    Pronto — diz a outra, tirando-lhe um dos cântaros, apesar de já carregar com dois. — Vem para aqui.

O homem que está atrás delas sente-se obrigado a protestar.

—    Ho, Bibi, isto não é o Expresso de Deccan, onde há reservas para ranhosas de primeira classe — resmunga. — Ninguém pode passar à frente desta maneira.

Bhima sente o rosto corar, mas Bibi ergue uma mão apa­zi­gua­dora e dá meia-volta, enfrentando o detractor.

—    Wah, wah — brada. — Aqui o Sr. Expresso de Deccan está preocupado com os que passam à frente, mas daqui a uma ou duas horas, enquanto a mausi Bhima trabalha no duro, ele vai direitinho ao taberneiro cá do sítio. E, se hoje houver falta de bebida, que Deus nos proteja, veremos então se ele passa ou não à frente dos outros. — Em seu redor, a multidão solta risos abafados.

O homem arrasta os pés.

—    Pronto, pronto, Bibi, não vale a pena atacares-me assim — resmunga.

A voz de Bibi soa ainda mais alto.

—    Arre, bhaisahib, quem é que te está a atacar? Só disse que és obviamente um homem ocioso, um homem com uma grande fortuna. Se queres passar os teus dias no taberneiro, é lá contigo, mas aqui a pobre da Bhima não tem um belo marido como tu para a sustentar. Todos sabemos como sustentas bem a tua mulher. Por­tanto, seja como for, a mausi Bhima tem de chegar a horas ao emprego e pensei que um cavalheiro como tu não se importaria que ela enchesse os cântaros antes de ti.

Agora a multidão grita, deliciada.

—    Ae, Bibi, és demais, yaar. És mesmo o máximo — declara um jovem vadio.

—    Quem precisa de armas nucleares? — pergunta alguém. — Se querem saber, yaar, deviam soltar a Bibi em Caxemira. Até a neve se derrete com o fogo da língua dela.

—    Esperem, esperem — diz Mohan, um rapaz de dezassete anos que vive na barraca um pouco abaixo da de Bhima, do outro lado. — Sei a canção perfeita para a ocasião. Ei-la:

Esqueçam a bomba atómica, diz a Índia

A nossa nova arma destruirá o Paquistão

Tal como o fez ao Sr. Expresso de Deccan

Bibi deixá-los-á numa confusão.

Um outro homem, que Bhima não conhece, dá uma palmada nas costas de Mohan.

—    Arre, ustad, és o máximo. O poeta da corte aqui do nosso bairro. Com o teu ar de estrela de cinema, devias estar a escrever e a cantar as tuas próprias canções. Imaginem, com o físico de um Sanjay Dutt e a voz de um Mohammad Rafi. No Filmfare de hoje à noite serias, sem dúvida, o único vencedor.

Bhima sorri, um pouco contrariada.

—    Pronto, seus palradores — diz Bibi com um sorriso aberto. — Agora, deixem-nos em paz.

Quando Bhima regressa à barraca, Maya está levantada e pôs a água a ferver para o chá no fogão a parafina. Enquanto a rapariga acrescenta as folhas de menta, Bhima sente o estômago protestar. Do lado de fora da barraca, ambas lavam os dentes rapidamente. Maya usa uma escova, mas Bhima limita-se a mergulhar o dedo indicador no pó dental e esfregar vigorosamente os dentes que lhe restam. Cospem para o esgoto a céu aberto que corre perto do seu lar. Rapidamente e com eficiência, Bhima enche um copo de plástico num dos cântaros de cobre e lava-se por debaixo da roupa. Arde-lhe o rosto ao reparar no homem da barraca em frente a olhar para ela ao pôr a mão debaixo da blusa para lavar os sovacos. «Badmaash sem vergonha», murmura para si própria, «a portar-se como se não tivesse nem mãe, nem irmã.»

Quando volta a entrar na barraca, Maya está a servir o chá em dois copos. Agacham-se, de frente uma para a outra, e sopram o chá quente, enquanto molham um pão na infusão.

—    Bom chá — comenta Bhima. São as primeiras palavras que dirige a Maya naquela manhã. Depois, como se não conseguisse suportar o ar de gratidão da rapariga, acrescenta: — Parece que, pelo menos, não esqueceste tudo o que te ensinei.

Maya retrai-se e o ar prudente e cauteloso assoma-lhe de novo ao rosto. Ao reparar nisso, Bhima arrepende-se, sentindo, porém, uma estranha satisfação. Domina-a a necessidade de fazer correr sangue.

—    E então, que vais fazer durante todo o dia?

Maya encolhe os ombros.

O gesto enfurece Bhima.

—    Oh, é verdade, esqueci-me de que a memsahib já não vai à uni­ver­sidade — declara, falando para as paredes. — Não, agora limita­-se a ficar sentada durante todo o dia, como uma rainha, alimen­tando-se, a ela e ao bastardo do filho, enquanto a pobre da avó trabalha como uma escrava na casa dos outros. Tudo para poder alimentar o demónio que cresce na barriga da neta.

Se queria sangue, conseguiu. Maya geme ao erguer-se do chão, afastando-se para o canto mais recuado do pequeno quarto. Encosta­-se ligeiramente à fina parede de lata, abraçando a barriga com as mãos, e soluça baixinho.

Bhima tem vontade de puxar a rapariga em lágrimas de encon­tro ao peito, de a abraçar e acariciar como costumava fazer quando Maya era criança, de a perdoar e de lhe pedir perdão. Mas não consegue. Se sentisse apenas raiva, conseguiria escalar esse muro e chegar junto da neta. A raiva, porém, é apenas o início. Por detrás da raiva vem o medo, um medo tão infinito, vasto e cinzento como o mar Arábico, medo por aquela rapariga grávida, estúpida e ino­cente, ali a soluçar na sua frente, e por aquele bebé por nascer que virá ao mundo e terá uma mãe que não passa de uma criança e uma avó velha e cansada até aos ossos, uma avó farta de perder, de amar e de perder, que não suporta a ideia de mais outra perda e de mais outro ser para amar.

Assim, contempla, entorpecida, a rapariga em lágrimas, for­çando o coração a não receber as setas dos seus soluços.

—    Até as lágrimas são um luxo — afirma, sem a certeza de ter falado em voz alta ou para si própria. — Invejo as tuas lágrimas.

Quando volta a falar, fá-lo conscientemente.

—    Se te sentires suficientemente bem, mais tarde passa pela casa de Serabai. Ela está sempre a perguntar por ti.

Todavia, por entre as lágrimas, Maya abana a cabeça numa negativa.

—    Já te disse, ma-ma — declara. — Não saio de casa o dia inteiro, enquanto estás fora.

Bhima desiste.

—    Muito bem, então fica sentada, enquanto a tua velha avó tra­balha todo o dia — diz, pondo-se de pé. — Engorda o teu bebé com o meu sangue.

—    Ma-ma, por favor — soluça Maya, tapando os ouvidos com as mãos, como costumava fazer quando era pequena.

Bhima sai e fecha a porta. Tem vontade de bater com ela, mas controla-se. Não vale a pena toda a gente do basti ficar a saber os seus problemas familiares. Em breve saberão da desgraça que Maya arranjou para si própria e, então, atacá-la-ão como abutres. Não vale a pena apressar esse dia.

Ao iniciar a sua caminhada até à casa de Serabai, a brisa fresca da manhã sopra contra ela e Bhima arrepia-se. Pelo ângulo do Sol, vê que já é tarde. Serabai estará ansiosa por saber o que se passou no dia anterior. Bhima apressa o passo.”

Cr.:http://www.presenca.pt

 

Título: Bombaim

Autor: Thrity Umrigar

Editora:Presença

9º episódio – O MÊNSTRUO MÁGICO DAS ORQUÍDEAS GRÁVIDAS – Folhetim em setenta episódios

Mas qual o motivo de tanta fuga e racionalização? Pensava no encontro com Carol… Ela diante de mim, pornográfica, me fez descobrir a poesia no que virgem e selvagem, nas umidades e nos ruídos provocados pelo atrito, separar sensualidade da pornografia é obra de quem mergulhado em excesso de culpa, nesse coletivo cuja subjetividade é substituir árvores por prédios, cobrir a terra com asfalto, isto sim é pornográfico, matar a natureza… Seria negar a paixão pela mãe? A natureza é feminina, mesmo nas tempestades. Mas Carol não precisa matar ninguém. É livre e sem culpas. Olá, você sabe onde fica… Sábado, eu sozinho, Ipiranga com São João. Se permitir, posso levá-la, é meu caminho. Aceitou o convite. Deixei-a na porta do local procurado, um prédio de três andares. Agradecida, cedeu um sorriso que eu fiquei a contemplar, a mão de longos dedos e esmalte vermelho nas unhas segurando a minha, até arrancá-la e entrar no prédio, eu torcendo, um último olhar, mas ela desapareceu no corredor, eu ali estonteado, Carol, deixou o nome no ar, agora diante de mim… Já vou, é só terminar o parágrafo. Mentira. Parágrafo nenhum, ideia nenhuma, nem Carol mais aqui. O menino aguarda um gesto meu, eu fantasma dele, no presente do futuro, muito antes de estar, o pai gesticulando, irritado, pela expressão o menino sabia o pai irado, eu incomodado, fujo amedrontado pela emoção presente e refugio-me na voz de Carol. E se o pai voltasse a ser o mesmo de antes? Era a preocupação. Nunca mais, disse o médico, mas ele sempre presente, aí está toda poética da retomada, esse brincar com o tempo. As cartas sem leitura… O corredor com os fantasmas, a sineta, a louça por lavar, acumulando, Carol… Fantasmas não ficam paraplégicos ou dementes.

A mesa vazia, o pão amanhecido, é só umedecê-lo, o resto fica por conta do micro-ondas, disfarça o envelhecimento, com manteiga fica mais macio, a casa é quase sepulcro, eu quase cadáver, a velha Remington Rand tecla sozinha, as palavras tem vida própria, são polifônicas, permitem meus sopros e ventos, sei disso, você aceitaria um ovo, mas eu estou saturado de comer ovos, sejam fritos ou cozidos… Sou o que está diante de mim – e não sou; ele é o que sou – e não é. Que ruído será esse? É você que me pergunta. A marcha ceifando o assoalho. Corro na intenção de ver e ouvir sua dor. Não me reconhece nem me vê. Tem os olhos na direção da criança de cócoras e assustada no canto, mas há outra criança que ri da desgraça, quer vê-lo longe da casa, mas esse ele também não percebe, ou finge que não, e as duas crianças correm ao percebê-lo caído no chão. Eu nada posso daqui, nem ali poderia fazer alguma coisa, Clara sentada na cadeira, mãos segurando o rosto, o que seria de nós? Carol, que é de você? O jantar na mesa… Os meninos mortos-vivos. O outro de mim na repartição, o ruído da velha Remington Rand vindo do escritório… De quando? Quem? Eu aqui na cozinha, o gato na pia bebericando água na torneira, só ossos, é preciso um de nós sair para comprar ração, senão será mais um cadáver dentro da casa, mais um fantasma, como eu, o cheiro de fezes e urina do animal, a ferrugem na geladeira e no fogão, a porta da cozinha e que dá no quintal, emperrada, mas a jabuticabeira lá onde não mais, carregada, os lábios e língua na vulva de Carol, fruto suculento, fruto perpétuo, só a morte tem direito a uma última degustação, saudade apenas, das pernas, do gozo e das mãos de dedos longos de Carol, os mesmos dedos que retorcidos junto ao desvio dos olhos e aos movimentos do corpo, convulsão tardia disse-me o doutor, precisamos investigar, chegou-se à condenação, seis meses, Carol deixou de ser, foi outra coisa, ficou agressiva no início, depois entrou numa apatia extrema até morrer afogada pela própria secreção. Ficamos, eu e meus outros fantasmas, no aguardo do retorno de Carol, demorou mais, surgiu sem menos, atravessou a porta de madeira maciça, perambula pela casa junto aos meninos, Clara e o pai.

 

 (continua)

“Os Pretos de Pousaflores” de Aida Gomes (Publicações Dom Quixote)

“No Heilongo a Ercília não pára de perguntar, alguma vez viste o mar?

«É assim, o mar tem telhas de zinco azul transparente e paredes de nuvens. Os peixes têm camisas prateadas e casacos de lapelas douradas. Os lagartos jardineiros alisam a areia para que nas águas dancem flores de sal colorido.»

(As histórias que ela me obriga a inventar.)

«Viste onde, o mar?»

«Vi no rio Sulo, onde é que havia de ser?»

Ali o mar é mesmo grande. A água tem sabor a esponja ácida de frutos do mato que crescem nas margens. O corpo afunda-se em verde. Saltam fragrâncias de erva-sabão.

A mãe Geraldina dizia que os brancos escrevem nos livros e nós, os de Quelingeli, escrevemos no peito. Deixa ver se me lembro.

Faz muito tempo. Era muito cedo. Acerquei-me das margens do rio e afastei as plantas. Fiquei à espera de que os insectos de asas grandes notassem a minha presença.

(Dá licença?) A respiração contida. Um suspiro. (Pode entrar.)

Saltaram em torvelinho milhares de aranhas brancas num sapateado transparente. Uma névoa de fumo agitou a superfície da água. A mãe Geraldina vestia o seu melhor pano, o da vegetação em profusão. Agora o meu vestido era, como posso explicar?

Naquele tempo não tinha palavras. Os bichos passavam, abelha, percevejo, mosquito, gafanhoto, tudo a voar (já ali está!), olhava, zonza de tanto ver, brincava na lama, gafanhoto, mosquito, mosca passava, abanava a cabeça daqui para lá e seguia o voo (já foi lá!).

O chão de terra vermelha. Fazia cabelos de lama com os dedos.

Espalhava nos braços e no próprio vestido. O que quero dizer é que esse vestido vinha desde há muito tempo. Custava a entrar na cabeça. Apertava no peito. Era curto na manga, mas era o meu único vestido de ocasião.

A mãe esfregou-me com ervas que crescem à beira do rio. Mergulhou-me na água, desatou o pano e enxugou-me dos arrepios de frio. Faltava ainda amanhecer. Tudo era orvalho e gotas no dia em que a mãe me entregou ao meu pai no Heilongo.

Entrámos na primeira loja da povoação. Os meus olhos nas flores do vestido.

«Levanta a cabeça. Tem o quê aí, no chão?»

Esta é a minha mãe a falar, ela é assim. Não gosta de hesitação. Trazia maçarocas de milho e uma galinha para oferecer. O pai, nem bom-dia, nem boa-tarde. Eu também não disse nada. A Deodata beijou-me na cara. O Justino, que é o meu outro irmão, estava fora em Sá da Bandeira. A Ercília perguntou, tu na sanzala comias o quê?

«Gafanhoto, mosca, larva e macaco, mas comia rato, lagarto e cobra também.»

Coloquei dois dedos na garganta e fingi que engolia um bicho comprido.

«Glup.»

Inventar é fácil. (Difícil é escrever com as palavras do peito.)

Esta minha irmã é muito criança. Acredita tudo. Agora, que estava entregue, a mãe despediu-se e falou, o senhor seu pai vai ensinar a filha a escrever. Então um dia escreve uma carta que começa assim, eu, Belmira, mando cumprimentos para o meu avô Chingandji, o meu irmão João Sotomaior Guerra e para a minha mãe Geraldina, lá no Quelingeli, prometes?”

Ficha Técnica:

Título: Os Pretos de Pousaflores

Autora: Aida Gomes

Editora: Publicações Dom Quixote

Edição: Maria do Rosário Pedreira

Fotografia da capa: Yoram Diamand

Paginação: Joaquim Santos

8º episódio – O MÊNSTRUO MÁGICO DAS ORQUÍDEAS GRÁVIDAS – Folhetim em setenta episódios

E o chamado. Antes de atender ao telefonema, olhou na direção do mostrador do relógio. Fora de hora, suspirou no ar. Boa notícia não seria. A criança como que por intuição interrompeu o que fazia. O que fazíamos… Entreolharam-se. A criança e o outro dela. Quase um monólogo. Sim… Não! Não é possível… Duas vozes em único corpo. A mãe vacila diante do telefone, mas atende. Sei, sim. Pausa. Mais fragmentos, palavras fraturadas. Hoje sei o significado dos filhos bastardos da gramática. São como fendas rochosas, nos apropriamos delas ou elas se apropriam de nós. Aí a diferença entre a normalidade e o desvario. Em alguma dose elas se apropriaram de nós. A expressão da mãe era de alguém larvado, diante de alguma catástrofe, paralisada em alguma fenda, a mão lentamente caindo com o fone até o aparelho. E assim permaneceu, uma eternidade, talvez negando ou digerindo o que ouvira, talvez acredite que o telefone tocará novamente, alguém pedirá desculpas, dirá que foi um engano, mas o telefone quieto, nenhum chamado além do que trouxe a notícia. Olhar nas penumbras do inominado. Aprendi que doença e morte carregam rostos com essa expressão que vivencio ainda criança.

Então ele em casa, nós diante de um corpo desprovido, mutilado, que carece de movimento, sem possibilidade de sermos alcançados e repreendidos. Não tem como reagir, o que nos agrada. Mas você abusa. Estivesse ao alcance dele… Sempre fui eu o castigado. Você é esse meu lado invisível, que age no encanto, no feitiço. Agora ele não passa de um nome fraturado, lasca do que era; inútil. Rosto torto e uma metade paralisada. Permanece o dia todo em casa… Dependente em tudo, a mãe cuidando. Lá vem ela, trazendo a sopa ainda quente. Ajeita a cabeça dele em seu peito. A colher na pausa e no sopro dos lábios para esfriar. Metade do conteúdo vaza pelo lado paralisado. Irritado, ele agita o braço e derruba a sopa, faz maior a sujeira, a mãe repousa o prato no móvel, limpa calmamente o pescoço e o peito do marido. Você olhando, curioso, eu evito a cena, a mãe nos descobrindo próximos, devia saber desse outro de mim, mais levado e capeta. Vai, vai fazer alguma coisa! Não diria nunca vão fazer alguma coisa, mesmo sabendo de mais um na mesma carcaça. Corremos pelo longo corredor de pé direito alto. Ainda nenhum fantasma visível. O sino já na porta. A rua de terra batida. A mãe nos esqueceu. Passamos o dia todo na rua sem ver seu avental. Duas olheiras achegaram-se ao redor de seus olhos. Duas jabuticabas chupadas lentamente pelo velho que morria aos goles e tentava levá-la junto. Do quarto, quando tudo na casa dorme: soluços. Ainda ouço os ruídos tristes vindos de lá. Você não vem jantar? Na porta do escritório, Carol. Não mais a porta da cozinha com Clara. Nem Carol… De repente, lembranças. Do dia em que ouvi Clara dizer ao pai de seu receio quanto ao destino do filho, das preocupações que tinha pelo meu jeito quieto de ser, muito parecido ao comportamento do irmão que deu cabo da própria vida e que eu não conheci, preocupação que nunca a deixou, muito mais tarde, diante da morte dela, o pedido para que eu procurasse ajuda, ironizei seu medo, a morte estava diante de nós, não me preocupava com ela, mas com o modo que ela me pegaria, se fosse para sofrer apressaria o final, disse-lhe, e ela calou de vez em meu colo, deixou comigo a expressão que fazia quando me flagrava falando sozinho, preocupação inútil que carregava, suicídio fazia parte de meus propósitos quando no surto, o que me apavora até hoje, mas não seria capaz, há algo em mim que apesar de não pertencer a nenhuma tribo ou clã prende-me a um território muito pessoal, caótico e imaginário, não possuo raízes além das plantadas nesta casa centenária, cartografia do abismo, não acredito em cura psicanalítica quando as referências se perderam, não faço parte desse exército de burocratas e intelectuais que se voltam para o trabalho em casa e para os esportes, cozinham e cuidam do jardim, jogam tênis e vôlei de praia, como se agindo ao modo tocassem alguma existência, mas ela abandonada em alguma dobra da história, meu território pertence às palavras, a suas ligações e afetos, e que me arrastam com suas máscaras e simulacros, seus cantos, danças e rituais; quando morrer será delas a existência.

 

(continua)

5º episódio – O MÊNSTRUO MÁGICO DAS ORQUÍDEAS GRÁVIDAS – Folhetim em setenta episódios

Da Graça começou a me olhar como um homem, até o dia em que me convidou a dormir com ela, papai e mamãe saíram para compromissos sociais, você me empurrou para lá, não se omita, vivia me dizendo que gostaria de conhecer a floresta da empregada, o quarto apertado, ela abriu as pernas e enfiou a minha cabeça entre suas coxas, não parava de se movimentar, segurou o clitóris entre os dedos e pediu que eu o lambesse, nunca vi mulher gozar mais alto, a figura de São Jorge na parede acima da cabeça da empregada tremulava, tudo se repetiu durante meses, até… Obra do santo você disse rindo. O velho chegou antes da hora, não ouvimos a sineta, Da Graça nua, eu perdido em seus pentelhos, o velho puxou-me pelo braço, saí correndo e me prendi no quarto, ele não apareceu, não saí nem para jantar, vi quando a empregada fechou o portão e olhou na direção de meu quarto, soube depois que a dispensara, deixou que pegasse apenas as coisas mais pessoais, nunca mais a vimos, a mãe nunca soube, acho que não, você duvida, eu sei, mas ele não contaria, acreditava que não seria coisa para falar à mulher, justificou dificuldades para pagar a empregada, a mãe nunca questionou decisão dele, só não aceitou o caso que teve com a jovem. A gravidez teria chegado ao final? Sempre penso nisso, talvez um irmão ou irmã… A mãe nunca mais a mesma com ele, o que também o afetou, envelheceu rapidamente, para nós nada mudou, ou melhor, mudou sim, mulher passou a ser uma necessidade, lembra-se? É como se elas olhassem para nós e descobrissem o quanto éramos experientes. Não parou nunca, vizinha mal amada nunca faltou, marido alcoólatra, machão corno, e um vazio que não termina e que continua conosco, neste escritório empoeirado, túmulo sem cadáver ainda, mas um quase, quase morto, de sexo morto faz tempo, ninguém quer entrar neste labirinto, você seria a única solução, trazer alguém da repartição, mas também não tem vontade, passada a fase de afirmação resta encarar o fim próximo, a estranheza e o mistério da morte, nem o Diabo nem Deus, tudo incomoda, a próstata, o estômago, o cheiro, o aprisionamento na própria sombra, apareceu um rato por aqui, tem papel roído no chão, é só o que faltava, precisamos de um gato, mais um, todos os outros se foram, não esse animal escondido na prateleira, está morto, é necessário um vivo, se queremos preservar os livros vamos providenciar um, a rua está cheia deles, gatos sem dono, não só, também crianças sem dono, homens e mulheres sem esperança, repetições, não há arte na corte, mas apenas artesanato, e nós aqui acreditando na salvação, caçando as articulações, os gestos e as mímicas das palavras, como se elas pudessem construir corpo e alma perdidos, ser um organismo inteiro, e a surpresa em cada canto, a estranheza e rejeição ao tocar a multiplicidade, a onda é caçar, transar e trancar as portas, como os pássaros marcam território, não mais de três cantos, três vozes, uma para marcar território, outra para atrair parceiros para o sexo e a última para avisar da chegada de predadores, ler livros biográficos e romances lineares, nada de fluxos, marés, rupturas, nem pensar ser o olhador de Duchamp, participar da atmosfera, mas tudo self-service, servido no mesmo embrulho, diante da luz hipnotizadora das telas que se multiplicam nas escolas, nos escritórios, nos quartos e nos barracos, aqui também o computador última luz, mas para incomodar, bifurcar, tatuar, mascarar e dançar, tempo nenhum, apenas instantes, a mulher perdida em alguma dobra, o tesão perdido, a repartição não mais, aposentadoria, último apontamento, aguardar o furor uterino da mãe natureza, retornar à vagina primordial, há um vácuo-extrator a cobrar o retorno ao início, não há fim, apenas um tempo-espaço que procuramos preencher, mas dia menos dia estaremos diante da única possibilidade verdadeira: a morte.

 

(continua)

A terceira imagem

O cinema faz-se a partir de imagens fixas, passadas a uma velocidade tal que parecem ter sequência – ainda para mais uma sequência fluída. Sendo assim, o paradoxo inicial a qualquer questão metafísica – pode uma imagem representar o transcendente – é ultrapassado.

Porque o vazio está lá sempre, o cinema não é imagens em movimento. O cinema é constituído por imagens paradas que o nosso cérebro interliga. O verdadeiro filme acontece na nossa cabeça, não no ecrã.

Aquilo a que chamamos cinema é, na verdade, constituído por uma terceira imagem: a que se forma, no nosso espírito, entre as duas que lá estão e a que a nossa cabeça cria a interligá-las.

Fernando Pessoa diz uma coisa parecida mas diferente:

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

Diferente porque, na literatura, não há imagens, há palavras. Tudo é, desde logo, transmutação.

Parecida, porque  o processo é similar: o leitor “inventa” o que julga estar a ler. Ou seja, o leitor que se julga passivo é, na verdade, agente. Tal como o espectador de um filme ignora que está a co-laborar no que está a ver.

É bom de vez em quando fazer estas separações às palavras, porque nos permite relembrar a sua essência primórdia. Co-laborar é partilhar o labor com alguém. Se há coisa que me irrita são as pessoas que pensam que a literatura é uma actividade solitária. Não é. Tão pouco como ler é uma actividade solitária. Solitária?!? Pois se uma pessoa tem um livro na mão, caramba!

Com o filme, ao menos, não se cai nessa asneira. Todos sabemos logo à partida que é a arte de colaboração por excelência.

Sabemos também que é a arte do movimento. Imagens que se movem, não é essa a ideia? Gente em acção.

Essa dependência da acção é, aliás, o ponto fraco do cinema. E, por contraposição, o ponto forte da literatura. Um livro continua a ser a melhor forma de descrever – de escrever – as turbulências da vida interior.

O cinema tem, no entanto, uma forma de dar a volta a essa sua fragilidade: porque, é certo, um filme tem de acompanhar os movimentos externos de uma personagem, mas essa é também uma forma perfeitamente legítima de representar a vida interior, a busca metafísica. Afinal, o que é uma peregrinação senão uma viagem? E que outra forma estética representa melhor a viagem do que… pois, precisamente, o cinema?  

Não por acaso, os filmes que mais me comovem são aqueles que assumem a forma de uma viagem. Obviamente, podemos teorizar que todas as histórias são, desde logo, isso: passagens de um ponto X a um ponto Y. Viagens. Era uma vez um cavaleiro que foi em demanda do Santo Graal… Etc.

Certo. Mas admitamos que há um consenso de que a viagem – a peregrinação – é mais eloquentemente representada no cinema do que noutras formas de arte. Há de resto um certo tipo de filmes que, mais do que outros, interpretam a viagem. Os americanos inventaram mesmo a expressãoroad movie, não?

Curiosamente, não me comovem por aí além os filmes bíblicos ou as revisitações directas de temas religiosos. Infelizmente, muitas dessas, mesmo as mais bem intencionadas, ou até as vagamente provocatórias (estou a lembrar-me de Quo vadis de Mervin LeRoy, 1951, ou d’A última tentação de Cristo de Martin Scorcese, 1988), deixam-me tão frio como um filete de peixe (um douradinho) esquecido no congelador.

Esses filmes fazem a caricatura do que o cinema é: apresentam os passos, tintim por tintim, da componente mais ou menos histriónica do que possa ser uma epifania. Não me serve.

Em contrapartida, servem-me filmes que, como quem não quer a coisa, querem a coisa. Filmes que buscam retratar, a partir da presentificação de movimentos externos (o corpo, sempre o corpo – o corpo no mundo, sempre o corpo no mundo), o processo, sempre doloroso, sempre imprevisível do encontro do humano com a centelha divina. Ou, se quisermos, do encontro do humano com a condição divina. Ou, melhor ainda, o encontro de alguém com a condição humana.

Um dos meus favoritos, e que sugiro com gosto para visionamento ou discussão, é o Andrei Rublyov (1966), do grande cineasta russo Andrey Tarkovsky. Uma maravilha. A partir de trechos soltos da vida de um monge pintor de ícones do século XIV, Tarkovsky não só agarra um tempo russo como constrói, em forma de colagem, um retábulo da busca do divino através de uma longa peregrinação – que ao próprio aparece, quase até ao fim, como mera errância.  

É quase uma evidência: uma verdadeira peregrinação parece quase sempre ao próprio, suspeito, uma errância sem sentido. “Até ao lavar das cestas é vindima” – este provérbio tem mesmo muito que se lhe diga.

Por acaso, esse filme – Andrei Rublyov, ou Rublev – tem a melhor descrição do processo de realizar um filme. A cena do sino, com a qual de resto esta obra-prima de três horas termina. A ver e, está bem, depois a discutir. Não antes, não antes.

Outro filme de Tarkosvky que me enche as medidas é o maravilhoso Stalker (1979), baseado numa novela maliciosa de dois russos malandrecos, os irmãos Strugatsky (Piquenique à beira estrada, Caminho, 1979), mas despojado – Tarkovsky oblige – da malícia e do humor destes. Um acidente nuclear, ou a queda de uma espaçonave, ou outro factor qualquer, tornaram uma Zona num lugar especial, onde os nossos desejos podem ser satisfeitos. Um Guia conduz um Cientista e um Poeta a esse terreno estranho. O que acontece depois é também para discutir depois de se ver.

Só o divino faz sentido discutir antes de ser vislumbrado. Um filme, por mais artístico que seja, é, para todos os efeitos, um objecto. Um filme pode ser alugado numa loja, o transcendental não – pelo menos por enquanto. Valha-nos isso.

Mas não gostava de me despedir sem falar antes de, pelo menos, um filme mais recente. A minha sugestão é Little Miss Sunshine, de Jonathan Dayton e Valerie Faris. Digo o título em inglês porque o português é pavoroso, embora compreenda que é difícil traduzir o original, que fala de um concurso de beleza para crianças (um triste pesadelo americano) inexistente (por enquanto) em Portugal. A tradução é: Uma família à beira de um ataque de nervos.  Trata-se, a meu ver, do mais encantador filme de 2006. E, sim, é um filme familiar. De uma família em viagem. Ou, se preferirmos, de uma viagem em família.

E também do objecto fílmico que, este ano, mais me aproximou duma ideia possível de Deus.  

4º episódio – O MÊNSTRUO MÁGICO DAS ORQUÍDEAS GRÁVIDAS – Folhetim em setenta episódios

O velho tinha razão, sobreviver de literatura só com sacanagem, e pare com esse rizinho escroto, vão pensar que agia assim com Carol, que imaginem, não é proibido, enquanto a grana acrescentar à aposentadoria… Caso a Vilma venha a ler poderá pensar que é o objeto de desejo e delírio descrito, terá razão, mas seus pentelhos não são alourados, ela também não rapa a vulva, só o jeito de pegar no cacete igual, mas qualquer profissional agirá assim, faz parte da performance, do desempenho, transar virou arte, de Carol não coloco nada, bem que você gostaria de relembrar os momentos mais quentes… Havia um terceiro olhar, sempre. Melhor não recordar. O olho do velho até hoje presente, nos persegue com seu silêncio sepulcral, nenhum diálogo em casa, para não complicar calávamos, não você, você maltratava meus ouvidos, reclamava, chiava, gritava, eu quieto, o pai muito longe da família, a mãe consentia, só Da Graça matreira e falante, trombeta, tudo para ela era motivo para esticar as ideias e a fala, ela nos ensinou, sabemos disso, aprendemos com ela, você nunca foi muito a favor desse meu lado literário, puxo a trama ao máximo, o leitor pode ou não gostar do texto sem diálogo, curtir ou não a excitação provocada pelas imagens, que nada do escrito me provoca, não mais, é pelo mercado e bolso, o homem precisa de fantasia, gozar com a história alheia, órfãos que estão de rastros e raízes, não passam de indícios sem corpo, placas vazias, nem pensar o pai e a mãe lerem estes textos, quem sabe não o fazem de onde se encontram, Carol junto, a mulher que me ensinou a ser homem, não esse merda que fica de pau duro e molhado com o que lê, que não fode sem ver um filme pornô por necessitar de distância do corpo presente, este sim precisa de um corretivo, de uma aula sobre ser, mas a pergunta: quantas como Carol existem nas casas e nas ruas? Não canse a cabeça com respostas inúteis. Lembra-se das reuniões de família? O velho reunia todos em casa nas festas juninas e no Natal. Mesa farta, muito vinho, carne de coelho, de carneiro, frango que a mãe criava no quintal, ainda me lembro do pescoço da ave sendo torcido pelas mãos dela, da faca cortando o pescoço, do sangue esvaindo-se no prato. Nunca entendi o pinto duro ao ver a cena… Não me provoque! Depois na mesa. Do meu lado, Dora… Lembro, como não? A filha da tia Noêmia, adolescente, nós não mais que oito, ela me queria nu, atrás da jabuticabeira, acariciava meu pinto, enfiava na boca, fazia dele um pirulito de sobremesa, eu com o corpo retesado, você do outro lado rindo de minha inibição, foi dela a primeira vulva conhecida, já peluda, mas não permitia a mão no corpo dela, dormia no mesmo quarto, a mãe pedia que ela cuidasse de mim, não percebia o olhar sacana da sobrinha, amendoados você me disse um dia, devia ser, não prestava atenção nos olhos dela, era apagar a luz do quarto para ajeitar o corpo no meu, com a mão enfiava meu pinto dentro dela, eu sentia a umidade, quente, ela brincava um tempo, pedia para eu também brincar com ela, gemia baixinho com a minha língua em sua boceta, voltava a colocar o pinto dentro dela, depois me abraçava e adormecia, eu assustado, é um dos cheiros que levo até hoje, não me lembre, foi o fato mais triste vivido pela família, morreu antes de completar dezoito anos, leucemia, ficou da cor da palha, foi quem me iniciou no sexo, depois vê-la ali no caixão, pensei ter piscado para mim, você rindo de minha reação, achegou-se do corpo dela e a beijou, foi o primeiro beijo em um cadáver, havia me esquecido dele, os lábios frios, eu olhando para os lados, como se pudessem flagrar meu pensamento e construir a imagem, mas somente o gato levantou o rabo e rodeou o vazio, como se percebesse suas pernas, e correu, pelo eriçado, fugia dali pelo corredor, pé direito alto, você realizando minha fantasia de trepar com um cadáver, velório era em casa naquela época, agora fora, Carol não voltou mais para casa, alugamos espaço na funerária, hoje vela-se em qualquer lugar, nunca na moradia, a tia nunca mais recuperou a saúde, o tio atirou-se na bebida, perdemos a promissora professora, ela nos iniciou nas questões do sexo, debaixo das cobertas do quarto de onde surgem os gemidos como ebulições da memória e que me levam a abrir a porta e ver muito tempo antes, a luz zebrando o assoalho, a mãe descobrindo a felação, nunca mais a prima em casa, no quarto, em meu pau, só quando morta, todos choravam, mesmo Clara, a morte dilui as desditas familiares,

 

(continua)

A poética da ascensão: memória vs. presente

No início de 2004, por sugestão de um cineasta, transpus o romance O Bolor de Augusto Abelaira em guião para um filme que nunca viria a realizar-se. Adaptação solitária e sem ecrã à imagem da larga maioria dos textos e da larga maioria do vivido. Nem sempre a vida é um texto e nem sempre um texto emerge da nossa própria vida. Parece ser o caso, quando, por mera coincidência dos arquivos do ‘Word’, voltei a ler há dias este texto particular (por mim já sinceramente esquecido).

Um texto desta natureza – centena e meia de páginas, imagine-se! -, obliterado da consciência e apeado de qualquer destino, não passa de um texto morto, embora o cadáver seja de teor realmente diferente do cadavre exquis de que os surrealistas se serviram para refinados cocktails. Há neste texto, no entanto, algo de singular: como que se dá a ver como oferenda sacrificial a si próprio, numa espécie de antropofagia em ilha deserta. As frases, nuas por natureza da escrita guionista, atropelam-se como que a tentarem descobrir para si próprias algum resto de sentido.

Os acontecimentos da história pessoal reflectem muitas vezes os acontecimentos imersos numa comunidade. O efeito surpresa de algo que se enunciou com fins instrumentais e que depois surge como um alerta no curso da existência não é algo assim tão incomum. Durante anos estudei textos que foram escondidos, no final de quinhentos, dentro de alvenarias no levante aragonês. Apenas no final do século XIX viriam a ser descobertos. Nesses textos, havia heranças (textos meramente instrumentais) e registos poéticos luminosos. Um misto que faz hoje ainda arrepiar quem os consiga a ler (trata-se, no breve exemplo que transcrevo aqui em baixo, de um excerto do Manuscrito 774 da Biblioteca Nacional de Paris):

“!- Ainda se levantará (fol.302v), no dia do juízo, um homem da minha comunidade (alumma) na ilha da Andaluzia que fará guerra santa (aljihâd) no caminho de Deus (fí sabíli Allah)./ Não se especificará, nem se saberá (sabrán) quando se levantará o dia do juízo, daqui até que se vejam os montes que (entretanto já) se tenham aplanado (ke se abrán ap(a)lanado)./ Foi relatado pelo mensageiro de Allah, salla Allahu ‘alayhi wa sallam (Deus o abençoe e o salve), que disse:/ – Andaluzia tem quatro das portas do paraíso (aljannat). Um porta a que chamam (fol.fol.303r) Faylonata e outra porta (chamada Lorca), e outra porta a que chamam Tortosa e outra porta a que chamam Guadalajara.”

Da sombra mais profunda da gruta à luz mais impiedosa, dir-se-ia. Como se estivéssemos face a uma poética de ascensão: do subterrâneo da História à lisura do olhar do presente que lê.

Contudo, o exemplo do meu guião não é realmente similar ao exemplo aragonês que acabo de dar. Devo mesmo dizer que, há uma década, redigi um outro guião que deu origem a um filme e, para ser sincero, se o reler hoje, desvendarei nele o mesmo tipo de anatomia de Grey sem qualquer sentido. Ao fim e ao cabo, não é o facto de um texto chegar às filmagens que determina o seu cariz de coisa inócua, insípida e deslavada. Todos os guiões, com a excepção para o brilho raro das grandes safras, são afinal textos que morrem na praia.  Talvez porque são concebidos, não para emocionarem, não para brilharem, não para levantarem voo, mas para servirem. Sim: para servirem com espírito de missão na lucubração dos planos. Pondo de parte o cinema que se fez como ser a pensar em obra de arte, a palavra nasceu para morrer.

Os textos aragoneses que referi não eram guiões concebidos apenas para servir. Mas neles pressente-se, de qualquer modo, um apelo de uma História que já não existe e é esse enigma que constitui a poética que, no meu caso pessoal, também continuo a sentir ao reler o pretenso guião de O Bolor. Ternino este editorial, partilhando, em jeito de mero excerto, a sensaboria dessa escrita sem futuro:

“13. LOCAL DE TRABALHO DE MARIA DOS REMÉDIOS INT/DIA

 

Gabinete de MARIA DOS REMÉDIOS no Laboratório Nacional de Engenharia Civil. ANA, a secretária, pára na frente de MARIA DOS REMÉDIOS e não consegue deixar de perguntar.

ANA

O que é que a senhora doutora tem?

MARIA DOS REMÉDIOS

Não sei Ana, não sei.

ANA

Mas o que se passa?

 

ANA, a secretária, senta-se diante de MARIA DOS REMÉDIOS. E, de repente, cortando com a habitual frieza profissional, MARIA DOS REMÉDIOS começa a chorar e diz frases intermináveis, enquanto a secretária a tenta apoiar.

MARIA DOS REMÉDIOS

Sofremos todos por não termos uma casa fora de Lisboa, ou um Jaguar, ou uma máquina fotográfica com célula fotoeléctrica! E sei lá quantas máquinas mais que fatalmente não podem corresponder ao que há de mais profundo, de mais verdadeiro, de mais puro nas nossas almas. E não nos envergonhamos de sofrer…”

2º episódio – O MÊNSTRUO MÁGICO DAS ORQUÍDEAS GRÁVIDAS – Folhetim em setenta episódios

O vento balança a cortina, deixa escapar fragmentos de fora, a mãe prende a roupa no varal, eu ao lado, cesta com pregadores nas mãos, ela percebe que desvio o rosto quando prende a calcinha. Ao retornar da clausura encontro seus olhos rindo de mim, de minha vergonha, de meu rosto vermelho. Não gostava nenhum pouco da reação dela, não sabia que pensamentos levavam-me àquela reclusão vergonhosa, encolhendo meu corpo como tatuzinho-de-quintal. Era o desejo, sentia-se atraído pelas calcinhas, você adora cheirá-las, roçar o rosto com elas. Sempre foi sua tese… E deve ter razão, ressuscitasse a conheceria pelo cheiro. E pela panturrilha, fugia da calcinha encontrava a barriga das pernas… De Greta Garbo. Depreciação chamar aquilo de barriga. E os cabelos? Ondulando na testa, a escorrer rente ao olho. Que olhar de tristeza e gozo era aquele? Que sonhos continham e que não eram alcançados? Mas não era sueca como essa… Talvez fosse. Esta mulher tem algo de nosso passado… Pervertido! Não, apenas falo de nosso primeiro amor, nossa primeira paixão, do cheiro percebido ainda na fase pré-verbal. Não posso aceitar isso… Então fique com as cuecas samba-canção do velho, se é o que deseja. Vá à merda! Do velho sempre quis distância. Lembra quando doente? Foram os melhores tempos… Não tivemos pai, talvez um tirano, constituíamos um agregado, e o modo como ele a tratava… O ar de Greta esvaindo-se lentamente, a sensualidade dando lugar à melancolia, mas os lábios simetricamente resenhados, leves como poeira, majestosos no caixão, única parte dela que na morte manteve a alma. Como os lábios de Carol… Um beijo à distância, lembra-se? Melhor se calar! Você ao lado querendo beijá-la, mas o que pensariam de um filho que beija o cadáver da mãe? Ninguém nunca soube… Você foi até ela, eu tremia, abaixou a cabeça e me fez sentir os lábios dela nos meus. Nem me lembrava… Tem muitas coisas que faz questão de não recordar. Não entenderam nosso repentino interesse pelo cinema depois da morte dela. Não perceberam que a atração era por Khata. Foi um gozo encontrar aquela fotografia, não largava dela por nada, passava de livro em livro… Continue! Até o velho descobrir e fazer picadinho da foto. Mas a imagem até hoje interferindo nas escolhas… As outras foram surgindo ao acaso, Claudia Cardinale de 81/2, Catherine Deneuve… Você adquiriu a mania de nomear as mulheres que cruzavam nossas vidas. E esta se parece com quem? Laura Dern… Desabou, ronca baixinho. Veja como ela para de respirar ao ter o clitóris acariciado, ele endurece, botão intumescido… O clitóris com formato de coração. Também pulsa. O sonho nos traz cada imagem! O coração verdadeiro deve estar no clitóris e na glande, não no tórax. Fruto… No quintal fazíamos sexo oral com as frutas. Lembra-se? Adorávamos brincar com o figo e a manga-rosa. Viemos da mãe dos homens, modo de dizer de Da Graça, expulsos pelo furor uterino. A empregada sabia da malícia carregada pela metáfora. Flagrada nua por diversas vezes. Pelos negros em abundância, os seios em rigidez militar, o bico emergente como um pêssego. Quando nos via, escondia tudo com os braços. Adorava aquele Seus safados! que nos dirigia, desejosa. Você assustado com a floresta. E você tirando sarro de minha reação. Ela sabia sendo espiada. Conhecia esse duplo voyeur. Fugíamos para o quintal, atrás da mangueira, um dia descobrimos não precisar dos frutos, era só massagear, lentamente, depois bem rápido, para cuspir o líquido esbranquiçado e sentir aquela coisa prazerosa e inexplicável no corpo. Veja! O clitóris está durinho, baba secreção pela vagina. E o cheiro de cio.

 

(continua)