Uma viagem à Índia – 2 … Quem é Bloom?

Bloom não é um herói divino, nem anti-herói, é um herói humano como tantos outros e luta com a sua própria ética. Luta freudianamente contra o pai, mata-o porque o odiou, pelo menos, e num impulso o suficientemente, mas o pai freudiano que se estende ao estado nacional e aos valores éticos que regem uma vida imperam sobre Bloom, e este regressa a Lisboa porque emocionalmente decide voltar.

                Ele não é um simples herói, tem características de anti-herói, de super-herói, mas não é nenhum dos dois. Talvez possa usar a descrição de um hiper-herói para o Bloom, considerando que hiper-herói me aponta para uma personagem que é etérea em relação aos restantes personagens da narrativa e situa-se algo acima do normal; Bloom poderá também ser hiper porque as características dele apontam, como um hiper-link, para um conjunto de critérios e ideias que definem os heróis – comuns, modernos e cosmopolitas.

                Bloom traz um tesouro em si: “E há outros, como Bloom, que, ainda antes do início da viagem, são já proprietários de uma temperatura de cidadão de sangue quente: paixões enormes, vinganças, lutas, modos venenosos e santos de entrar na paisagem. Bloom tinha de facto o inventário da existência inteiro: nele, sim, fazia sentido o homem ser dotado dessa faculdade de ouvir e ver para trás a que se chama memória.” (Canto II, 113).

(continua)

O mais rápido possível

Aquela rubrica, lembra-se? O mais rápido possível. O Banco quer saber quanto mede o fundo negro das suas olheiras, a percentagem de risco de suicídio, o conteúdo do seu cofre de memória. E escreva tudo, escreva dentro dos quadrados e o mais rápido possível. Desculpe, mas tem de ser, o impresso, o carimbo, a marca de fogo na sua testa, a impressão digital no seu passaporte caducado, a sua ida para nenhum lugar, a sua chegada a qualquer sítio temos de saber e é para ontem. Se tem par ou se não dança, temos de inserir no computador o mais rápido possível quanto tempo gasta a acordar, a lavar os dentes, a tomar banho, a dar aquele beijo, quando e como pretende fugir, isto com muita antecedência, para se poder amordaçar, amarrar, aprisionar e você vai implorar para que seja tudo o mais rápido possível. Deixe-se enterrar com missa breve, o caixão mal pregado, as lágrimas que se enxugam no gesto mais rápido da História. Depois, regresse, o mais rápido possível, o formulário, o carimbo, a coima, exigimos o seu peso, altura e massa gorda e a hipoteca, lembra-se? Acorde, vamos!, homem, ressuscite! Terá a sua vida de volta, prometemos, tudo será como dantes. O mais rápido possível e para toda a eternidade.

Marcela Costa

O mais maquiavélivo prefácio da literatura em Português

Foi Garcia de Resende quem teve a feliz ideia de reunir, nos princípios do século XVI, num Cancioneiro poético, o que havia sido escrito em obras de vários autores, “passados e presentes”. A ideia antológica dos cancioneiros andava na moda, sobretudo em Espanha. E foi em pleno momento de viagens e império, ou seja, corria o ano de 1516, que o Cancioneiro Geral saiu a público. Para além de compilador desta imensa publicação e de cronista, Garcia de Resende foi secretário particular dos reis do século de ouro, D. João II e D. Manuel I. Um verdadeiro Maquiavel ao serviço do seu príncipe (até mesmo pelas destacadas responsabilidades que assumiu na famosa viagem a Roma de 1514, quando o rei português brindou o papa Leão X com… um elefante).

O prefácio ou “prólogo” que Garcia de Resende redigiu para o Cancioneiro Geral fala por si. No final, ao ilustrar as intenções da obra, o autor revela claramente o devir maquiavélico: “E porque, Senhor, as outras coisas sam em si tam grandes que por sua grandeza e meu fraco entender nem devo de tocar nelas, nesta que é a somenos, por em algua parte satisfazer ao desejo que nem sempre tive de fazer algua coisa em que Vossa Alteza fosse servido e tomasse desenfadamento, determinei ajuntar alguas obras que pude haver dalguns passados e presentes e ordenar este livro, nam pêra por elas mostrar quais foram e sam, mas para os que mais sabem s´espertarem a folgar d´escrever e trazer à memória os outros grandes feitos, nos quais sam dino de meter a mão”.

É particularmente interessante o facto de o Maquiavel português se colocar numa posição algo platónica de quem nada sabe acerca do concerto das “cousas” que têm “grandeza”, dirigindo-se ao rei como o bom e fiel servidor que visou, com esta sua volumosa compilação, apenas contribuir para o seu “desenfadamento”. Por outro lado, para Garcia de Resende, não interessaria realmente que obras fossem (“nam pêra por elas mostrar quais foram e sam”), sendo bem mais importante o estímulo que viessem a suscitar em quem se dignasse escrever sobre os feitos portugueses. Aliás, é esse precisamente o tom do ‘incipit’ e de toda a primeira parte do texto: “Porque a natural condiçam dos Portugueses é nunca escreverem cousa que façam, sendo dinas de grande memória, muitos e mui grandes feitos de guerra, paz e vertudes, e ciência, manhas e gentileza sam esquecidos”.

Depois de ilustrar esta grande carência ‘comunicacional’ – como hoje se diria –, Garcia de Resende conclui do seguinte modo, no antepenúltimo parágrafo do “Prólogo ao Príncipe”: “Todos estes feitos e outros muitos doutras sustâncias nam sam devulgados como foram, se gente doutra naçam os fizera”. Faltara-lhe, de facto, esperar por Camões, João de Barros ou Fernão Mendes Pinto. Contudo, o Cancioneiro Geral acaba bem mais por ser uma recolha de poesia lírica e de “cousas de folgar”, do que de narrativa de teor épico ou até evocatório. Os temas do Cancioneiro reatam o século XIII trovadoresco (Rodrigues Lapa salienta “a súplica triste e apaixonada” ou “a coita de amor, em que o pobre poeta se revolve com sofrimento e com delicia”, caso de Duarte Brito: “Quanto mais vejo prazer/ tanto mais sinto o pesar/ já cansado de viver/ mas nunca de desejar…”) e acabam por estabelecer um contraponto interessante entre os chamados “espírito velho” e “espírito novo”.

Na abrupta passagem entre meados de quinhentos e o alvor intenso e descobridor de quinhentos, sente-se realmente a transição entre a verve bucólica que ‘salvaria o espírito’ e o escarnecer irónico que parece invadir o ambiente cosmopolita do Paço, tão bem expresso por Jorge de Aguiar: “Nam te mates cruamente/ por quem fez tam grande errada,/ que quem de si se nam sente,/ por ti nam lhe dará nada./ Vive, lançando pregam/ por u fores e vieres,/ que sam molheres, molheres!”. Hoje em dia, a incorrecção do “género” permite-nos ler estes versos com renovada sensação de “folgar”. Seja como for, no seu todo, o Cancioneiro Geral é uma obra seminal que situa diversas matrizes da poesia escrita em Português. Para além da função de “desenfadamento”, a obra é também, ao mesmo tempo, um alerta e um serviço prestados pelo Maquiavel lusitano a D. Manuel I. Raramente na história a literatura teve funções que apenas a si mesma servissem.

Citações a partir de Florilégio do Cancioneiro de Resende, Selecção prefácio e notas de Rodrigues Lapa, Textos Literários, Lisboa, 1960, pp. 9,10, 42, 43 e 44.

Luís Carmelo

Três histórias de moral e proveito

História do marinheiro que não sabia nadar

Era uma vez um marinheiro.

História do aviador que não sabia abrir o pára-quedas

Era uma vez um aviador.

História do político que não sabia fazer nada

Continua a fazê-lo.

Daniel de Sá

O Atlas imaginário da nossa língua literária

No editorial de 4 de Abril passado, focámos a questão da genologia romanesca, ou seja, de tudo aquilo que está experiencialmente na génese do ficcional sem que, naturalmente, se confunda com o biografismo estrito. Vimo-lo a propósito de Sinais de Fogo de Jorge de Sena e de um texto de Maria Alzira Seixo publicado na Colóquio Letras há mais de um quarto de século. A questão evoluiu muito nas últimas décadas e superou, pelo menos pragmaticamente, os preconceitos relativos à imanência textual. Por outras palavras: as próprias indústrias culturais dão hoje grande importância ao património imaterial e é por isso que o público, para além da leitura dos textos em si, se interessa cada vez mais por roteiros de escritores, por acervos vivos de romances emblemáticos e até por lugares e topografias onde poetas tenham convivido com o seu imaginário criador.

A genologia diz, pois, respeito aos vestígios e indícios materiais da criação literária. Quem não seguiu já o roteiro pessoano da Baixa de Lisboa, o percurso eborense da Aparição de Vergílio Ferreira ou visitou a casa de Camilo em Seide, a de Régio em Portalegre ou tão-só reviu, em Constância, alguma fantasia camoniana? É óbvio que estes aspectos dizem respeito à significação literária e fazem parte intrinsecamente dela. A genologia está muito próxima da metáfora de Verona, cidade que é visitada por causa de dois personagens literários, sabendo-se perfeitamente, no entanto, que ali nunca existiu de pedra e cal uma casa como a que Shakespeare um dia criou.

Sempre dei, de maneira intuitiva, bastante importância a esta rede de vestígios não materiais. Raras foram as vezes, no entanto, que vi ou li reflexões ensaísticas assentes neste tipo de entendimento imaterial que não deixa de ser colateral à leitura e ao aprofundamento de obras literárias. Existe algum preconceito neste tipo de abordagem, embora ela seja portadora de uma autonomia e de uma relevância que não vale a pena esconder. É por isso que sublinho sempre, nas minhas leituras pessoais, aspectos que se situam no terreno dessa espécie de mitologia do ficcional e que, naturalmente, se relacionam de modo íntimo com quem um dia escreveu e com as atmosferas e idiossincrasias – nem sempre dizíveis – que terão envolvido a própria enunciação.

Como exemplo, deixo hoje dois retratos que Raul Brandão (1867-1930), nas suas Memórias, nos deixou de dois dos melhores artífices da língua literária portuguesa, seus contemporâneos de há um século: Fialho de Almeida (1857-1911) e António Nobre (1867-1900). Recorrendo à sua plasticidade descritiva (de que Os Pescadores é um símbolo porventura maior), eis os retratos que Brandão nos legou e que atravessam, num e noutro caso, quer uma visão de “macaco” herético, quer a de uma “inaturável” sobranceria:

“António Nobre usava uma abotoadura de cabeças e pregos e sorria com um modo e um ar de ternura e desdém. Fugiam dele antes de publicar o Só: os poetas do seu tempo odiaram-no depois de publicar o Só. Ser diferente dos outros é já uma desgraça; ser superior aos outros é uma desgraça muito maior” (…) “No fundo detestaram-no, detestaram-no todos. Não lhe puderam perdoar a impertinência, o desdém, o génio. Era um ser diferente. Não agradava a ninguém. Só as mulheres o amaram. Era um poeta. Desconheceu a vida prática. Tinha a consciência do seu valor, e uma superioridade que não se podia aturar. Estávamos todos mortos por nos desfazermos desse ser à parte, desse eterno cônsul sem consulado, desse estudante de Coimbra que os lentes reprovavam e que nos fazia sombra. Mas debalde o arredámos: houve uma coisa nova que passou no mundo e que ficou no mundo – que nos ficou na alma… Agora estamos apaziguados, todos podemos esquecer a superioridade, a afectação e o desdém infantil de António Nobre”.

“Está diante de mim aquela boca enorme, aquela figura de gabinardo e chapéu mole que nas noites de tristeza e abandono me dizia: – O que eu sofri! o que eu sofri!… – vejo-o sempre invejar o barqueiro louco e sardento de que fala nos Gatos, belo como um efebo à proa do seu barco. – Como eu queria ter saúde e ser forte! – Deu-lhe Deus o mais rico quinhão que imaginar-se pode, a língua incomparável para exprimir a quimera e a dor, e esse macaco sem fé esbanjou-a com o mais absoluto impudor: serviu-lhe para chacota. Transtornou tudo, engrandeceu tudo, riu-se de tudo.” (…) “ A sua obra só tem outra que se lhe compare, a de Camilo! Exigem-lhe um livro harmónico – Os Cavadores. Por que é que toda a gente reclama dos outros aquilo de que eles são incapazes? A obra de Fialho de Almeida não podia ser senão esta, aos arrancos e enorme.”.

No campo da lingua literária portuguesa, espraiando-se pelos muitos cantos do mundo onde se diz – do Brasil a África, da Ásia ao cantinho português –, estará ainda muito por fazer no sentido da construção de um Atla imaginário da nossa comum língua literária. A ideia fica aqui sucintamente exposta. Uma ideia genológica que se traduziria pela procura dos vestígios e indícios materiais da criação literária que mais teriam contribuído para espelhar e complementar a imaterialidade – sempre insaciável – da leitura. Creio até que esta ideia é, como agora se diz, “uma ideia com mercado”.

Luís Carmelo

Maria Alzira Seixo , Inferências genológicas na obra de Jorge de Sena,  em Colóquio Letras, número 90, Lisboa, Março de 1986, pp. 57-62.

Luís Forjaz Trigueiros (Org.), Fialho e António Nobre em Raul Brandão, Edições Panorama, Lisboa, 1960, pp. 62 e 63.

O Camelo

O camelo já havia passado metade do seu corpo pelo buraco da agulha quando disse uma mentira, as duas corcovas cresceram mais e ele ficou ali preso para sempre.

Do livro “La vida imposible” (editado por Emecé España y Emecé Argentina en 2002), de Eduardo Berti.

Tradução de Patrícia Melo

Patrícia Melo

Monólogo oftalmológico

A visão acromática de certos daltónicos é perigosa. Tende a ver na vida colectiva um interminável, estéril conflito entre o preto e o branco. Qualquer que seja a cor oculta sob o preto percebido pelo paciente, acontece que esta última, dominante, é a cor da fome e do ressentimento social – como ensinam os mais sábios e prudentes espíritos das nações. Daí a tornarem-se visíveis os potenciais indícios de anarquia e desagregação social resultantes de tão nefasta doença vai um passo. Convém, pois, manter debaixo de olho o olho do daltónico de visão acromática. De preferência, corrigir-lhe o enviesado olhar, convencendo-o de que é rica a realidade, diversa e matizada, plena de subtilezas que escapam a visão tão distorcida. A revelar-se impossível a correcção, impõem-se medidas drásticas, pois é sinal de que o paciente se tornou um ser inviável.

João Pedro Mésseder

«Do Longe e do Perto»

Romance? Talvez não. Novela? Não, não. Crónica? Dos dias, eventualmente. Narrativa? Sim, sem dúvida, ou breves narrativas. Ficção? Aqui e ali, uma pitada, embora não o possamos garantir. Diário? Com muito de. A dúvida, feitas as contas e as perguntas, não é senão saber como apelidar este dito em contracapa «romance quase um diário, ou diário quase romance». Venham eleitos, no mais e de resto, estabelecer as diferenças entre os géneros que aqui em pura liberdade de gozo narrativo se fundem e misturam. Aqui, entenda-se, no mais recente livro assinado por Yvette K. Centeno. Quanto a nós, somos pela permanência da dúvida que o texto encerra (ou desvela), tão saboroso e intrigante como o possa parecer o «K.» entre os dois nomes de guerra com que a autora assina. Valha a verdade, e permita-se o parênteses, na história da literatura, poucas letras terão mais sumo literário e história do que um K. Mas isso são outros kinhentos

«Do Longe e do Perto», que a Sextante edita, é um romance (ou quase…), e quase esquecíamos referi-lo, que recorta em muito igualmente os interesses da autora. Interesses no domínio de estudo, sobretudo aqueles que vão ao encontro das preocupações que Yvette K. Centeno vem expressando, ao longo dos últimos anos, no universo da blogosfera. Em concreto, nos blogs que alimenta: o literaturaearte.blogspot.com, o simbologiaealquimia.blogspot.com e o yvettecenteno-culturavisual.blogspot. Um mundo novo, portanto, cada vez mais do nosso reino quotidiano, na medida em que do espaço etéreo-abstracto da net chega ao velho mundo de papel em forma de livro. É a net a entrar no mundo real enquanto catalisadora de ficções – por mais paradoxal que possa parecer. A própria autora o refere a primeiras páginas, falando o espaço de «livre expressão» que representam os blogues, espaços «onde os outros podem entrar, concordando ou discordando». E também, dir-se-ia, contribuir para o desenhar de uma ideia de romance/ livro. Foi o caso.

E no caso, esses «outros» a que a escritora alude ganham nomes, ganham vida (ou vidas outras), corporizam uma narrativa que ao mesmo tempo que lhes dá vida as “despessoaliza” enquanto personagens – pelo menos aos olhos do leitor que na dúvida fica quanto à sua natureza. Certo é que as histórias, pequenas histórias, dessas personagens ganham relevo no cruzamento com a própria história, estórias, ideias e pensamentos (mesmo vida) da autora. E assim, aos poucos, vamos conhecendo Diotima, Galvão, sobretudo estas, mas também todas as demais, acessórias, que as suas vivências arrastam consigo neste para dentro das palavras escritas. E, claro, a narradora omnisciente, ela própria implicada nas vidas que traz para o papel impresso, com todas as suas perplexidades, questionamentos, afirmações, gostos, afectos, ódios de estimação também, com o seu olhar crítico-afectuoso, aqui, ácida e fulminante, ali, de recorte mais meditativo, filosófico, iniciático.

É, como corolário, um livro desassossegado este, cheio de um quotidiano que nos entra pelos olhos enquanto um real doente e de que Portugal é o todo-reflexo; um só exemplo: «Eu disse que Portugal estava a envelhecer? Portugal está em decomposição, apodrece, a luz que se é a da energia que se escapa e se perde…» País de fingimento, de silêncio, de cobardia, este o retrato impiedoso que a realidade, mais impiedosa, se encarrega de hoje nos gritar. E por aí este livro se revela também enquanto crónica dos dias, na medida em que parece, aqui e ali, ao toque das notícias, inventariar o mal de vivre global dos dias que passam, desde a menção a um golpe de Estado na Tailândia ao enforcamento de Saddam Hussein, desde o Chelsea de Mourinho até às crianças que morrem de fome no Darfur, entre o muito mais que fica na espuma do ver/ testemunhar/ dizer.

E assim a escrita de Yvette Centeno, lembrando, esquecendo, voltando, fugindo, alternando entre a rua e a página, numa espécie de «devaneio» melancólico, projecção talvez de uma alma ferida, tal como a da «Menina e Moça», de Bernardim Ribeiro, de que a autora se apropria ao longo do livro num contínuo de aproximações/ recuos (como um olhar que oscilasse entre o longe e o perto, o ontem e o hoje) como quem, entre sombras, se procura e ensaia lembrar num mundo onde triunfa o esquecimento e em que o progresso parece enredar-se a todo o instante nas malhas do passado – («O sentimento português aspira não ao progresso mas ao regresso»). Artificioso quanto baste, não deixa de ser curioso, contudo, pensar que o mundo que aqui se aponta (de dedo em riste), em que a arte parece ter-se afastado da vida, ou o contrário, seja também ele gerador de arte, no caso em forma de livro.

Pedro Teixeira Neves

Auto-entrevista de Mário de Carvalho

A par das “Mini-Entrevistas” (dependentes de um questionário fixo, sucinto e apropriado à rede), as novas “Auto-Entrevistas” passam, a partir de hoje, a assumir um formato inovador. A regra é simples: sempre que uma editora esteja prestes a – ou acabe de – lançar no mercado um novo livro, o autor é convidado a criar dez perguntas particularmente adequadas sobre a obra (e o processo de escrita) e a elas… responderá. Mário de Carvalho deu-nos a honra de encetar o novo desafio:

Auto-Entrevista:

 

1.

P. O Homem do Turbante Verde é, de novo, um livro de contos. Trata de quê?

R. Eis a típica pergunta da preguiça. Apetece sempre responder: «do que está lá dentro». Mas dada a consideração que tenho pelo perguntador, sempre direi que é um livro de contos de certa duração que se divide, não por acaso, em quatro partes. Na primeira percorrem-se mundos imaginários de guerra no deserto e aventuras na savana. Na segunda, faz-se a crónica duma juventude que honrou este país, com candura e generosidade, duma forma que mereceria maior reconhecimento (até mesmo pelos próprios, já crescidos). Na terceira, transtorna-se um quotidiano de rotina pela irrupção da estranheza e do fantástico. Na quarta, atravessa-se um mundo ameaçador de crueldade, delírio e paranóia;

2. 

P. Este título, O Homem do Turbante Verde não tem nenhuma aspiração a originalidade, pois não?

R. Não senhor. É um expediente pura e declaradamente literário. Um tributo à ficção. Ocorrem-nos logo O Homem que Via Passar os Comboios de Simenon, A Rapariga dos Fósforos de Cardoso Pires», A Mulher de Branco de Wilkie Collins, As raparigas de Sanfrediano, de Pratolini e, no cinema, O Homem do Fato Claro, O Homem do Fato Cinzento, A Rapariga da Mala, e um nunca mais acabar de homens, mulheres, raparigas e rapazes de que me lembrarei amanhã…

Como não é raro (e acontece, por exemplo, em A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho), um dos contos dá o nome ao livro.

O todo (pode ser impressão minha, o leitor dirá) articula-se num conjunto multifacetado que ele próprio faz sentido.

3.

P. Há quem diga que os vertiginosos tempos de hoje não permitem leituras prolongadas. Foi por isso que escreveste um livro de contos?

R. Essa afirmação, salvo o devido respeito, é um tremendíssimo despautério. Uma das incomodidades que tem este mester é ver fervilhar em volta as tretas, muitas vezes ditas por profissionais da área. Tenho prometido a mim mesmo escrever um dia, se tiver paciência, um Grande Livro das Lérias e das Tretas para que não faltará material. Quem se dedica à Física Nuclear, ao Direito, ou à Arquitectura está seguramente mais defendido dos dislates. Mas, ao que parece, todo o bicho careta se sente à vontade para proferir opiniões literárias.

Os textos do Harry Potter ou de O Senhor dos Anéis (para mencionar sucessos recentes) são túrgidos como bíblias. Alguns desses autores kitsch que vejo por aí a querer vender desmesuradamente são autênticos empilhadores de páginas.

Escrevi contos porque é um dos meus trilhos, porque sempre escrevi contos, porque me apeteceu, porque chegou a altura, e porque sim, quia leo nominor. Não para condescender com a suposta vertigem-dos-tempos em que ouço falar desde miúdo.

Aliás, um dos efeitos estranhos desta deliberada ablação da memória a que o capitalismo tem procedido ultimamente é que nos são sistematicamente apresentadas como novidades coisas que já eram decrépitas antes de nascermos.

4. 

P. Mas, afinal, Quem é que lê contos hoje em dia?

R. Toda a gente. Algumas das grandes obras da literatura mundial são contos. Um dos maiores autores do século XX que nos deixou a todos encantados quando alguns dos seus textos foram conhecidos, entre nós, nos anos sessenta, Jorge Luís Borges,  nunca escreveu romances. E Checov? E Flannery O´Connor? Queres que comece a enumerar outros casos? Dropping names?

5.

P. Isto de turbantes verdes e aridezes e armas automáticas não terá que ver com acontecimentos em marcha, nestes dias de hoje?

R. Sim e não. Se no conto O Homem do Turbante Verde aparece um drone é óbvio que remete para a tecnologia actual. O turbante verde também tem um carácter simbólico que é hoje reconhecível. Bem como certo tipo de tropa… Mas, por outro lado, eu cresci entre milhentos livros de aventuras e de viagens por distantes areais em que figuravam ferozes «rebeldes», não se sabia bem contra quem, nem em nome de quê.

6.

 P. Porquê tanta crueldade num conto como A Longa Marcha?

R. Não conheces o meu lado sinistro? Lê o Conde Jano.

7. 

P. Esses jovens que fazem a sua aprendizagem da vida militando na resistência existiram mesmo?

R. Eu não escrevo memórias, escrevo ficção, mas nem sempre esqueço as normas aristotélicas da verosimilhança e causalidade. Estes jovens foram imaginados, mas podiam ter existido. O quadro em que se movem, esse sim, existiu e é tratado numa aproximação realista. Eu sei as implicações que o uso de vocábulos como «ficção» e «realista» têm, mas prefiro ser directo e deixar as congeminações para outro dia.

Devo dizer que graças à generosidade desses jovens de então que, muitas vezes aprenderam sua custa o que era «o povo», nós não vivemos hoje no país sombrio, agachadinho, aviltado que era o do fascismo do meu tempo, com as paredes à escuta e porrada na polícia.

A gente acomodada e oportunista dessa altura era muito parecida com esta que está agora nos partidos do poder, o «arco da tranquibérnia» que vampirizou o país e o levou ao desastre? Sem dúvida, em certos casos até se tratava das mesmas famílias. Mas foram-lhes indisponibilizadas (até mais ver) algumas armas de sujeição: a polícia política, o partido único, a censura, a ordem corporativa, a legislação regressiva, a fraude sistemática, a cooptação no poder, o analfabetismo generalizado, a hierarquia da igreja cúmplice e a guarda republicana por conta.

Mesmo em situação desesperada, é doutro país que se trata, graças também ao efeito repercussivo da acção corajosa de uns poucos milhares de jovens. Derrotado, abatido, defraudado, mas ainda no primeiro mundo.

8.

P. Porque é que és tão assertivo? Por exemplo, há bocado usaste uma fábula de Fedro, que é uma óbvia reminiscência do latim do liceu. Acontece que não falas latim, a maior parte das pessoas não fala latim, o latim está reservado a meia dúzia de heroínas e heróis, que transportam o lume santo na cova das feras. Não parece arrogante, ou peneiroso?

R. Ainda bem que me fazes essa pergunta. Gosto de lembrar que não nascemos ontem. Se escrevo Setúbal, é porque arribaram cá uns fenícios que adoravam um deus a que chamavam Bal. Se escrevo livro é porque uns romanos me entregaram esse vocábulo. Se escrevo guerra, é porque por aqui andaram uns povos germânicos que deixaram a palavra. Se escrevo azeite, é porque estiveram por cá uns mouros… O recurso ao latim/latão mais do que ostentar uma erudição que nem tenho é um apelo à cumplicidade do leitor, lembrando-nos em conjunto de que há alguma espessura nesta civilização.

Quanto a ser «assertivo», não ligues. Também é um fingimento.

9.

P. Estamos a terminar e reparo que ainda não ironizaste a respeito da técnica da auto-entrevista. É um ponto de honra para todos os perpetrantes, não é?

R. Quando aceitamos um jogo, respeitamos as regras. Outro dia, uma estagiária de um tablóide fez-me perguntas absolutamente inacreditáveis a que eu não pude responder por uma questão de decoro.

Assim, ao menos sei com quem estou a falar e qual o grau de instrução do meu interlocutor.

As auto-entrevistas fazem parte daquelas ideias cíclicas que vão ressurgindo, como os folhetins, as mesas-redondas, os cadáveres esquisitos, e os relatos sobre o naufrágio do Titanic. Em si, não têm nada de mal. O grande risco é o entrevistado cair na tentação de se armar em engraçado, seguindo um pouco o espírito do tempo, em que os destinatários destas coisas se arrogam o direito de ser entretidos. Devo dizer que li de esguelha as auto-entrevistas publicadas no JL aqui há uns anos. O autor escreve-se sob a fórmula de diálogo. Podia-se optar por uma conversação entre Filorodos e Anatropos, que dava na mesma.

10. 

P. Alguma coisa de que eu me tenha esquecido e que quisesses ainda dizer?

R. São três e tal da manhã. Depois falamos.

Mário de Carvalho

A literatura e os níveis da ilusão

Tenho-me muitas vezes confrontado, em sessões e debates ao longo dos anos, com certas perguntas que geralmente remetem para o sorriso silencioso, para o tabu ou até para o irrespondível. Não, não se trata da clássica “Por que escreve?”; trata-se de uma outra formulação que surge também amiúde: “O que distingue um escritor de um não escritor?” (por outras palavras: o que distingue um romancista de alguém que ‘apenas’ escreve romances?). É óbvio que separar generalidades como ‘arte’ e ‘não arte’ é algo relativamente fácil, pois remete para um domínio histórico. Uma noção como a arte adquiriu o sentido que lhe atribuímos ainda hoje numa determinada altura e o percurso dessa noção é, enquanto generalidade, facilmente localizável. Mas nem sempre é fácil, de facto, enquadrar a questão mais pessoal: “O que faz alguém que escreve não coincidir com alguém que pratica a arte da escrita?”.

Há realmente perguntas que se repetem, porque são sintomas de coisas bem mais profundas. Vejamos: a escrita é, hoje em dia, um acto generalizado. O mundo moderno fez da escrita uma prática dessacralizada e sujeita a regras estritas, conforme as áreas de actividade. A arte da escrita, em concreto, surgiu, desde os românticos, como criação pessoal que transcenderia o domínio da simples experiência. E que se afirmaria com autonomia radical e com valia e vida próprias. No fundo, é como se a arte da escrita tivesse ousado recuperar, ainda que subliminarmente, a velha oposição ‘escrita-Escritura’, apropriando-se do segundo pólo como valor intrínseco e espiritual, e aproveitando a tradição do primeiro pólo como motor e técnica.

Este pacto entre um instrumento que todos podem exercitar e uma aura que todos percepcionam (mas a que nem todos dão forma) está, efectivamente, na base do paradoxo que percorre a realidade da escrita nos últimos dois séculos e meio. E é por isso que a questão – “O que distingue um escritor de um não escritor? – é recorrente e mesmo pertinente. Ela é, ao fim e ao cabo, sintoma de um entendimento que tende a aferir e a localizar onde acaba a parte instrumental e material da língua e se inicia a parte da sua herança espiritual (veículo profético, verbo inicial, ou, já no mundo moderno, fruto e revelação da ‘poiesis’).

Quando as pessoas colocam em sessões e debates este tipo de questões, apenas pretendem perceber qual é o papel da “Escritura” no imaginário actual de um escritor. Como se um escritor fosse uma espécie de sacerdote do imaginário e esse facto tivesse que ser explicado com uma dada racionalidade. Ao fim e ao cabo, a própria pergunta pressupõe já uma separação que ela mesma não desejaria aceitar. E essa separação é a que obviamente distingue aquele texto que transcende o registo do que terá sido e acontecido (o que acontece ao lerem-se passagens de Borges, de Pessoa ou de João Cabral de Melo Neto) e o que apenas acompanha e mimetiza esse registo (facto que se verifica em 90% dos milhares e milhares de textos que o ‘cash flow’ editorial publica em cada ano que passa).

Há anos, quando morava na Holanda, lembro-me de ouvir um amigo sírio dizer que jamais o Alcorão podia ter sido escrito pelo homem. O curioso é que ele dava exemplos sobretudo retóricos, discursivos e alegórios para fazer de tal afirmação algo definitivo e irremissível. No Ocidente, o nível da ilusão saltou – do século XVIII para cá, da imagem de deus para a imagem da arte. A ideia da “Escritura”, como algo ‘incriado’ e superior, passou desde então a projectar-se na literatura e os próprios textos sagrados começaram a ser analisados – na academia e não só – como a mais pura literatura.

Luís Carmelo

31º Episódio – Folhetim (II sequência de novelas) – O MÊNSTRUO MÁGICO DAS ORQUÍDEAS GRÁVIDAS – Folhetim em Setenta Episódios por Carlos Pessoa Rosa

Alguns morrem dependurados na cerca, vítimas de alucinações, quando o louco avança em territórios arcaicos com seus manjaléus, deradelfos, dicéfalos e tricéfalos, em orgia imaginária grega, e encontram as armadilhas criadas pelos guardas e funcionários. Há quatro guaritas, uma em cada ângulo do muro, mas nem sempre há guardas ali. Aqui ninguém se estranha além do instante, o território do demente é fistuloso, repetição do improvável, ilha desarvorada do caos, é estar na fenda ou apossar-se dela, mas de um modo marginal e fronteiriço a outro surto que pertence à maioria formada no ritual cuja fenda é ninho de alguma religião, filosofia ou ciência, que instrumentalizam a repetição do provável, eco que mantém o sistema e a normalidade, essa neurose possessiva e de comportamento único do convívio comum. Repetir-se e submeter-se diariamente aos trajetos do emprego, da igreja, da escola, de shopping center, aos prazeres da carne, ao consumo, diante de um mundo definido por regras e placas, mas já nem tanto, todo psicótico surta quando desaparecem as referências e o caos invade as relações, os surtos estão em cada esquina, nas balas perdidas, nas casas noturnas, nas viagens terrestres ou virtuais, no biográfico, respiro balzaquiano de personagens petrificados em hospício coletivo a céu aberto, com horizontes e lebreias, como se houvesse tempo e espaço únicos, qualquer lógica ou razão, essa poética de estrelas e astros perenes… E a cidade passa a hospício, as casas a celas, todo o resto um enorme pátio sem muros e guaritas… A tarde se prolonga como o alcançar em dor o infinito. A tarde se estende sem vibração para nada. Mulheres iguais – guardas – monotonia – cotidiano – dor: HOSPÍCIO (voltei, meu deus. Voltei.). Todos os dias retornar e acordar sem aperceber-se dentro de um surto. Talvez pela ausência de muros e guaritas. Mas há os indícios, as crianças a esmolar nos cruzamentos, moradores de rua carbonizados durante as madrugadas, os chistes políticos, a imitação nas galerias, nos jornais, nas editoras, arte como repetição do mesmo, de pensamentos sem tradução, sem pensar, nem imaginar o buraco negro de uma Maria Lopes Cançado, ou a arte de um Rosário Bispo, a doença nas fotografias da explosão provocada pelo encontro das galáxias, da imprevisibilidade além do instante, fuga…

(continua)

30º Episódio – Folhetim (II sequência de novelas) – O MÊNSTRUO MÁGICO DAS ORQUÍDEAS GRÁVIDAS – Folhetim em Setenta Episódios por Carlos Pessoa Rosa

As mesas enfileiradas. Passar o tempo carimbando documentos, redistribuindo processos, observando as cabeças à frente, ser o último da fila. Sempre foi assim. Se não por opção, por ordem do professor. Desejavam humilhar, mas não sabiam ser do agrado agir como o último. O primeiro representava ser o melhor do mesmo. Singular… Preferia ser único, por mais que isso doesse aos outros. A quem a vida pertencia? Ao Estado, é claro! Voz de algum lugar que não o mesmo. Tanto fazia se pertencesse a Deus ou ao Estado. Não lhe incomodava. O trabalho, por mais rotineiro que fosse, permitia viver sem favores. Até 16h00. Nem um minuto a mais. Colocar o capote, pegar a maleta e sair. Ajeitar-se no vagão do metrô, maleta no colo, observar as pessoas através dos reflexos nos vidros das portas e janelas. Não sabendo observadas, conhece-se o sósia, rompe-se com o jogo de sedução. O mesmo… Entrar no bar para fazer um pouco de hora. Sempre no mesmo canto. Em algum tempo e espaço. Não sentir estranheza ao ver o sujeito entrar para alimentar o vício. Todos ali fazem o mesmo. Chegar em casa anestesiado e adormecido. Não pensar no dia, não pensar o dia, não pensar na existência. Morrer todas as noites. 17h30. Hora de alimentar o gato. De abrir a memória. O leão no frontão da casa. Símbolo vazio. A sineta…

Capítulo V: Moída a memória

Sol no rosto. O astro maior, a lua e as nuvens são as únicas coisas do mundo de fora que nos visitam sem impedimentos de qualquer ordem. Sem visão do horizonte, não há lebreias e as águas, quando chove, caem como se apenas nesse quadrado, ora serenas, ora agitadas, empoçam no pátio, onde raramente granizos, mas o ruído da água caindo do telhado enclausura mais o doente dentro de si, como faz com as crianças adensadas no quarto de dormir, muitos diante das janelas como viajantes nos trens, mas sem devir, não devemos falar em esperança se não há medo, estão no não-lugar pelo fato de a chuva chamar pela estranheza ou por abrir novas portas ao delírio. Não recebo visitas, não tenho parente vivo. Nem sei como cheguei aqui. Com certeza algum acesso. Mas eu sozinho… Não fossem os medicamentos e os choques, teria companhia de Carol, Clara, Da Graça, o outro de mim… Estariam aqui ao pé de jabuticaba que a vontade plantou. Não nasce fruto no deserto. Tem razão. Aqui é a morada do desabitado, nem sapo enterrado no chão aguardando a época das águas. O alheado sempre estará atolado em perífrases incompreensíveis cochichadas no abismo. Apesar de penosa a fome e a dor, nem na primavera Dionísio arriscaria entrar nesta jaula. As ideias, enquanto pensante, por aqui são confusas e mutiladas, e não há de se falar em adequadas ou inadequadas, nem de ações ou paixões, alguns internos conseguem arrulhar como os pombos ou fantasiar-se de Adão, outros usam a mão para dar algum sentido aos restos deixados no chão, a arte sendo fruto do pensar no limite, que não há criação sem ato pensante, mesmo que ideias fragmentadas, atuação de sonhos enquanto delírio ou da embriaguez. Não confundir com o embriagado, o embebido em álcool, ou o sonhador da realidade. Estes têm os pensamentos sem cismar, as vísceras em fogo-fátuo e as mãos trêmulas. São os que caminham com seios e barrigas avantajados, pelo nenhum no tronco, as veias latejantes na pele, balbuciantes, a baba escorrendo no canto da boca, dementes. Entre os sonhadores da realidade, os psiquiatras são os mais adestrados, dionisíacos no entusiasmo, débeis nos resultados. Aqui o pensante é caos, o que permite um devir particular. O que mais fazer aqui entre estas paredes enormes que não dar ouvidos à insânia, aceitar essa flatulência de ideias selvagens, esse temporal híbrido de palavras, esse avesso retorcido e fora de lugar? Que os homens de branco não ouçam além da linha melódica do comum, dos normais, caso contrário, ficarei mais tempo entre estes muros de pedra… Fizeram muros altos, cinzentos – esconderam a terra. Mas o quadrado azul está presente: Sempre. Não sei a autoria, a doença leva de roldão a memória, permanecem rastros, vestígios, por enraizados em terreno árido da insânia. Mas o quadrado azul sempre presente e mutável, como a tela grande do cinema, movimentos de aves e nuvens. Estamos na época de os pássaros migrarem com seus cantos roucos. Atravessam em bandos. Aqui ninguém migra além do possibilitado pelo delírio, alucinações e ilusões. O pátio está abarrotado, há disputa pelo ensolarado. As táticas curativas como as reuniões de grupos e terapia através da arte ocorrem à tarde. Como falar em arte se o pensante amordaçado pelas pílulas coloridas aviadas pelos doutores? Apenas os surtados são internados. O que parece um avanço não passa de um discurso humanista embalado em diminuição de custos pelo Estado, o que abriu os portões dos hospícios, a maioria caminha como zumbis pelas estradas, dormem nas ruas, morrem esquecidos nas macas dos hospitais. Mas a fábrica lá fora tem linha de montagem própria, a família e a escola continuam a desrespeitar a individualidade, a cobrar o retorno na pura imitação e identificação, mas é preciso esquartejar na diferença e dissolver-se na identidade para abrir-se ao estilo, todos os dias o portal vomita novos internos nas celas, muitos jovens delirantes pelo uso de drogas, cerceados em suas liberdades por muros altos e arame farpado. Para evitar fugas… Mas continuam tentando. 

 (continua)

A Associação Portuguesa de Tradutores está viva!

A Associação Portuguesa de Tradutores ganhou fôlego, vida e começou a organizar sessões sobre tradução. Depois de uma primeira sessão em Fevereiro, da qual infelizmente não tive conhecimento, realizou-se uma nova sessão no passado dia 15 de Abril, na FNAC do Colombo sobre “A Tradução dos AUDIO-VISUAIS”. Apesar de este tema já ter sido objecto de uma crónica anterior, a brilhante apresentação feita pela Professora Alexandra Assis Rosa da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa referiu uma série de novos aspectos, como a legendagem para surdos e a legendagem intralinguística, entre outros, que mostram que este é um campo cheio de possibilidades e onde há ainda um longo caminho a percorrer, nomeadamente a nível de investigação.

A oradora, que começou a trilhar este caminho na RTP, a única instituição onde era possível aprender esta “arte”, dedicou-se depois ao aprofundamento deste tipo de tradução, coordenando actualmente vários cursos de 2º e 3º ciclo sobre legendagem.

É importante salientar o papel que a legendagem pode ter na literacia, sendo Portugal um país onde a esmagadora maioria dos programas de televisão é legendada. Infelizmente, o controlo de qualidade desta área é muito deficiente, pelo que também aqui há uma área a explorar, por forma a salvaguardar a qualidade do português que aparece nas legendas.

A próxima sessão, agendada para 17 de Maio de 2011, às 18h30m, na Universidade Lusófona, com o tema “Tradução: uma Aventura de Vida ou uma Vida de Aventura”, terá a participação de das tradutoras Fernanda Portela (antiga Professora  do Curso de  Pós-graduação em Tradução da Universidade Nova de Lisboa), Maria Trigoso (Professora do Instituto de Estudos Orientais da Universidade Católica de Lisboa) e Marya do Carmo Cary (tradutora free-lancer da UE). A não perder!

Maria do Carmo Figueira

29º Episódio – Folhetim (II sequência de novelas) – O MÊNSTRUO MÁGICO DAS ORQUÍDEAS GRÁVIDAS – Folhetim em Setenta Episódios por Carlos Pessoa Rosa

Você ainda está aí? Mamãe sofria com essa mania… Ovos! Agora, pouco importa. Só o fantasma dela presente. E o seu… Vim pegar a garrafa de uísque. Você não leu as cartas. Faz meses que não lê as correspondências. Estão todas sobre a escrivaninha. Acho que não foram avisados… Foi tão rápido. Lembra-se de papai? Não! Você não tem memória. Ele comia a pera. Abria a boca para mordê-la. Não nos demos conta. Ver tudo quedo: a fruta, o braço, a cabeça, o corpo. Não respira… Mamãe diante de alguma sombra que não vemos, sussurrando frases desconexas, você deixa o pão sobre a gema do ovo e corre a socorrê-la. Eu continuo sentado. Descobrimos que morrer é essa pausa no espanto. Deixamos mamãe na agonia do instante e nos fechamos no escritório. De nada adiantou a porta fechada, as sutilezas do passamento transpassam as frestas, os vãos e as paredes. Você colocou-se no canto, rosto virado para a parede e tapou os ouvidos. Não me lembro se chorou. Pouco importava o que eu lhe dissesse. Só saiu dali levado pelas mãos do tio Anastácio. Não quis ir ao velório. Ficamos em casa. Esta mesma casa. De nada adiantou… Tem razão. A imaginação nos colocou em outro velório. Ou não! Talvez estivemos presente, não há ninguém para nos confirmar… Você está ouvindo? Maurerische Trauermuzik. Papai gostava tanto de ouvi-la! Mozart. Cheio de verdades. Como se a ordem do mundo fosse de sua competência. Chegava a casa, enfurnava-se no escritório de onde saía já tarde da noite, dormíamos, acho que nos odiava. Juntos, apenas às refeições e nos eventos da Loja quando nos apresentava com certo ufanismo. Éramos uma família… Melhor voltar, tomar mais umas doses. A euforia é que me encanta. Fique aí com seus ovos! Com os ovos e os testículos. É o que teria dito. O pai ali, sentado, expressão severa, no aguardo de qualquer reação do filho que diante da variedade de um prato de comida pensava na gema e na clara, no ovo frito, o olhar aflito da mãe, como se dissesse Coma, vamos!, a criança em soluços e lágrimas. Marcava, assim, o momento na alma deles, como uma escara, perversidade atroz por infantil, o rosto do pai, o rosto da mãe, a comida, o mastigar nauseento, o prato vazio, o homenzarrão de costas no corredor, a entrar no escritório, fechar a porta, abraçar a mãe, cabeça entre suas pernas, em soluços, o cheiro adocicado, ter as mãos dela acariciando os cabelos, ouvir os conselhos sussurrados, que evitassem irritar o pai, que comesse de tudo, que ovo e pão não alimentam, mas ganhava sua flagrância, suas carícias, suas histórias contadas no entreato do palpitar no peito. Nós carregamos ruídos dentro do corpo. Confabulações com nossos monstros e fantasmas…
 
(continua)

28º Episódio – Folhetim (II sequência de novelas) – O MÊNSTRUO MÁGICO DAS ORQUÍDEAS GRÁVIDAS – Folhetim em Setenta Episódios por Carlos Pessoa Rosa

Adiante o longo corredor no viés de um dos tempos possíveis. Frio. Faz frio. Piso forte para contaminar o silêncio. Preciso de ruídos para me sentir vivo. É assim quando estou irritado. Ser ignorado me inerva. Neste estado misturo todos os tempos, todas as imagens possíveis. Sinto vontade de urinar, o banheiro uma bagunça, mijo fraco, maldita idade que dizem ser a melhor idade, não quero perder o clima, o caminhar dos personagens, sei que a história não terá um fim, na vida real nada tem um final, melhor voltar à história, deixo as cartas sobre a mesa, acumulam-se, procuro a maleta, rio de minha distração, já não tenho mais a maleta, torço o resto do cigarro no cinzeiro, teclo, o som da sineta… Seria possível? 17h30. Só pode ser… Sempre pontual. Mantenho-me quieto. Coloca o chapéu e o casaco no cabide. Abaixa para pegar as cartas esparramadas no chão. Uma pausa para a leitura dos remetentes. Um reclamo pela luz pouca. O ruído mortiço de passos no piso. Tomo o que sobrou do uísque que há no copo. Imitamos o pai, de um modo ou de outro. Entra no escritório e acrescenta as cartas de hoje às dezenas de correspondências fechadas e que se acumulam há meses sobre a mesa. Procura algo… Os olhos do bichano entre os livros na prateleira da biblioteca. O animal pula, gira o corpo ao redor de algum fantasma e foge para a cozinha. Persevero no silêncio abismal que vem de dentro, vasculho o interior como olho de siri: 17h30, no relógio de parede.
Sozinho na cozinha… As mulheres e o gato ausentes. Pensamento no longo corredor do que foi. Criança na teimosia do ovo e a mãe em estalada possibilidade de perda por inanição: Ovo outra vez?! Nem imaginar que a ilhota amarela no oceano nácar excitava o verme erótico ainda sem endereçamentos na geografia corpórea. Mais esse lado literário que sempre negou. Ainda pureza, pernicioso é o futuro, construído na necessidade de expurgar uma culpa que nunca lhe pertenceu, o garfo acarinha fronteiras até ruptura liberalizante de magma sorvida em gozo pelo miolo de pão, boca em orgasmo salivar, sêmen-semente do vindouro, curtido na perversidade de fêmea cativa em fantasmas de finalidades. No entreato digestório, fome saciada, os dentes expunham-se à rua, aos movimentos barrocos do vento, cada vez mais distante os ruídos de louça; e a perversidade. Agora, mais ovos aninhados na geladeira. Mexidos dão menos trabalho. Não se faz mais necessária a poesia do magma. É para saciar a fome. Modo animal de adulto banido das extensões fluídas da origem. Misturar clara e gema, gesto masturbatório, o menino na câimbra reinante no momento do gozo, assuntando a face materna na possibilidade de um fim, enclausurado nos mistérios do silêncio e das paredes. Nascia ali um enamorar perverso, curtido nos deslumbramentos assimétricos das desoras.
 
(continua)

Lisboa, assalto às 16h07

A mulher não percebeu os gestos. Ocorreu-lhe um fado e uma cena de tiros de um filme. Pensamentos em segundos. Uma espécie de sonho. Imaterial e exterior a ela. Quando ouviu o seu grito não percebeu. Depois um pombo pousou perto de um quiosque de rua. É tudo. Não se recorda de mais nada.




Patrícia Reis

Fragmento – “Livro das Pequenas Coisas”

6
Hotel no Funchal. O dia começou a brilhar. Vim sozinho mas alguém passeia no meu terraço. Vou ver, pé ante pé. Uma gaivota. Será a mesma que nos visitou há 15 anos? Talvez queira perguntar-me por ti.


Casimiro de Brito

Sob a sigla de Bandeira…

Escreve César Cardoso no seu conhecido blogue “Patavina´s” (http://cesarcar.blogspot.com/):

“Quando a indesejada das gentes chegar”, disse Manuel Bandeira cantando a morte. Cantamos como quem sempre canta: para espantar os males, no caso o Mal Maior? Cantamos para conhecê-la? Por que cantamos desde sempre a Morte? Essa a pergunta que é preciso fazer mas desnecessário responder. As tantas respostas podem surgir na leitura desses textos que vêm desde a Roma clássica. E continuarão, enquanto houver traço humano sobre a Terra.

O PATAVINA’S lançou em meados de fevereiro sua primeira edição de poemas sobre a morte. Mas o material foi tamanho que se fez possível essa segunda edição (e não falo aqui de uma pesquisa exaustiva mas apenas de um trabalho com a rapidez da internet). Nesta nova edição há um livro que se destaca: Poesia Alheia. São 124 poemas traduzidos pelo escritor e poeta Nelson Archer e lançado pela Editora Imago em 1998. Um grande trabalho literário e uma delícia de leitura, que mostra como os poetas – humanos que são – pensam e repensam a morte.

Repare-se agora nos autores que irão ser publicados nesta anunciada segunda edição: W. H. Auden, Luís Pimentel, Hilda Hilst, Catulo, Petrarca, Juan Gelman, Joaquim Cardozo, Sóror Violante do Céu, Paulo Leminski, Álvaro de Campos, Torquato Neto, W.B.Yeats, Manuel Bandeira, e.e. cummings, Álvares de Azevedo, Joachim Du Bellay, Mario Quintana, Guillaume Apollinaire, Alexei Bueno, Quevedo, Henriqueta Lisboa, John Ashbery, Ronaldo Santos, Cesar Cardoso, Carlos Drummond de Andrade, Moacir Amâncio, Fernando Pessoa, Carlos Nejar, Alice Barreira, Raphael Ganz, Lélia Coelho Frota, Alphonsus de Guimaraens, Líria Porto, Salvino Pires Sobrinho, Paulo Henriques Brito, Antonio Cícero, Janus Vitalis, Yehuda Amichai, Leopoldo Maria Panero, Giuseppe Ungaretti, Augusto Massi, Gonçalves Dias, Allen Ginsberg, Cacaso, Jean Tardieu, Valéria Tarelho, Rafael Cansinos-Asséns, Helinand de Froidmont, Horácio, Derek Walcott, Ferreira Gullar, Heitor Ferraz, Castro Alves, Vinícius de Morais, John Donne, Ivan Junqueira, José Paulo Paes, Goethe, Mia Couto e Dorothy Parker.  

Respiremos fundo! 

Vale, pois, a pena encomendar “A INDESEJADA DAS GENTES” – NOVOS POEMAS SOBRE A MORTE! Parabéns, caro César Cardoso!

LC

O Livro de Eros de Casimiro de Brito

O Livro de Eros de Casimiro de Brito está ser publicado no PNETliteratura praticamente desde o seu início. A edição está agora muito perto de atingir os seiscentos aforismos (embora, segundo informações do autor, a obra se cifre já em 2698 fragmentos!). Nem sei, sinceramente, se a designação “aforismo” corresponderá à substância do discurso iluminado que Casimiro de Brito projecta ao mesmo tempo nas estrelas e na terra, colocando de braço dado a contemplação apolínea e a nocturnidade dionisíaca. Há neste vasto e belo texto poético um metatexto sem fim e há neste vasto e intrincado ensaio uma liquidez poética também sem fim. Um corpo que se diz a arder e que merece constantemente ser lido e relido..

O discurso que explode em Livro de Eros não inibe nem esconde um ‘eu’ e um ‘tu’ que se disputam e que se alcançam, ainda que a alteridade seja o grande precipício da saga evocada. Trata-se, por outras palavras, de um discurso que vinca e salienta o sexo como aquilo que ele é: uma carne que evola e que rompe, um grito que derrama e que dá ao clímax o seu gesto, um alento que faz da pele a sua glória e do aquém imediato o paraíso mais vivo e irremediavelmente mais único. Um corpo que arde ao dizer-se.

Mas esta poética muito singular de Casimiro de Brito também convoca o mito, o logos e o longo intertexto literário. E o outro. O outro e a outra. E revolve todas as palavras que se prendem à árvore da grande membrana do ser. O desejo surge, nesse interface de narrativas, como algo que é declarado, mas também como algo que sempre encarnou nessa declaração: uma imagem que ascende até ao que mais nos poderá silenciar e que simultaneamente nos segrega e alimenta. Querer o outro, entrar na outra, perceber o rio que se une. E que é a própria falésia do fogo que enuncia o poema de ponta a ponta.

Em Livro de Eros, o prazer entende o pasmo como uma lama, mas deseja-a mesmo assim. Para que o fogo continue sempre a semear a distância entre os amantes que não se sabem ainda como amantes. Personagens do pasmo, pretextos do poema que se reproduz como estrelas a meio da noite de onde nunca saímos. Nem sairemos. Tocar a pele: entrar no corpo, dar a carne ao mar como uma areia fina que se quer continente. Um continente sem idade e ainda assim sabendo-nos – todos e todas – jovens, velhos ou a meio curso do olhar que vive na carne que rasga a outra carne. E que geme. Como a tal falésia que nunca sacia, que nunca basta, que nunca nunca.

O Livro de Eros de Casimiro de Brito está a ser publicado no PNETliteratura há quase dois anos e meio. Estamos a viver com essa publicação uma espécie de aventura e de alegria maior que merece todo o destaque. Não apenas pela fecunda obra e viagem e vida do poeta – densidade que este editorial não conseguiria de modo nenhum explorar –, mas também pelo que este Eros muito particular acrescenta a tudo o que já foi dito sobre o amor, o desejo e o sexo que quer sexo. De facto, o aceso magma desta aventura permite-nos reverberar o sentido do nosso ponto de partida mais elementar: Ser para o Eros. Eis a divisa que uma filosofia do desejo ilimitado poderia recolocar como sua. Pela sua verdade e pela sua abismada – e informe – beleza.

Nota: Os primeiros fragmentos de O Livro de Eros de Casimiro de Brito foram editados numa revista do Porto ligada à Fundação Eugénio de Andrade. Mais tarde, os primeiros fragmentos foram editados em Itália numa revista de poesia e espiritualidades e, logo a seguir, em Espanha. No entanto, Casimiro de Brito encontrou no PNETliteratura o espaço adequado para uma publicação gradual e contínua. De referir ainda que, neste mês de Abril, vai ter lugar um acontecimento poético em Santo Tirso a que foi dado o belíssimo título erótico de “Nove semanas e meia” (curioso intertexto fílimico). Casimiro de Brito irá participar no encontro para falar do seu “Livro de Eros” e também do “Amar a Vida Inteira” (volume de poesia que sairá a público muito em breve).

Luís Carmelo

26º Episódio – Folhetim (II sequência de novelas) – O MÊNSTRUO MÁGICO DAS ORQUÍDEAS GRÁVIDAS – Folhetim em Setenta Episódios por Carlos Pessoa Rosa

Retiro chapéu e casaco da estaqueira e os visto. Pego a chave dependurada no prego na parede. Olhos de lagartixa. Comparação do outro de mim, em algum momento. Ajeito-a no buraco da fechadura. Duas voltas provocam o ruído seco da trava. Ajeito a palma da mão na maçaneta fria, forço um pouco para baixo, uma claridade abre-se em leque e ocupa parte do corredor da casa. Protejo-me da luz com a aba do chapéu, assim entra obliquamente, sem agressividade. Há barro no limpa-pés… Afasto a estranheza. Não desejo mais respostas. Pego a chave, puxo a porta pela maçaneta até ouvir o ruído de travamento, e tranco-a. Fora, um barulho ensurdecedor. Irrequieto, adianto alguns passos. Cabisbaixo, refugio-me nas sombras. Depois mergulho nos rostos. Carcaças a proteger a mesma enunciação de palavras, ideias e opiniões. Não preciso de espelhos no entorno, meus outros me bastam, nos suportamos, vestimos a mesma máscara. Como arquicêmbalos, com suas infinitas notas musicais em cada oitava. Eu me enclausuro em um grande espelho que adorna a loucura. O boteco fica a um quarteirão e está cheio. Ninguém suporta o crepuscular sem usar alguma espécie de droga. Ele também está lá… O sósia. O conflito contínuo entre a lucidez e a embriaguez. A luta com o duplo: Em mim, tu vivias – e, em minha morte, verás, nesta imagem que é também a tua, quão completamente assassinaste a ti mesmo…

Eu me encontro onde ele estava antes de entrar em casa, às 17h30. Está lá, em um dos cantos, o que dá para os fundos do bar. Desde criança, revisitamos os vértices, lugar de esconderijo do imaginário, só assim possível o passado do futuro. Criança, de cócoras, é o espaço predileto para curtir a raiva e chorar escondido, construir diversidades intemporais. O cheiro de naftalina… Nenhum gesto ou aceno. Eu cá, ele lá. Era como se habitássemos dois mundos diversos. Quem do outro lado, ilusão imagética provocada pelo espelhado da memória. Talvez seja o contrário. O mesmo nariz aduncado protegendo-se nas dobras das paredes de um bar: Enfim senhor… o senhor não é meu próprio nariz?

Não e sim… Vagar na ausência é quando a ilusão da presença torna-se mais intensa. Repetir sem compartilhar. Cada qual em uma circunvolução encefálica, esconderijo sem pontuações dos segundos. A tosse depois de cada trago, o lenço emporcalhado com a podridão que vem de dentro. Jogo o dinheiro sobre o balcão e observo minha mão ao abrir o maço de cigarros. As pontas dos dedos ferruginosas. Nem morto perde-se o maldito vício. Ninguém é livre de alguma tendência. Não é da voz popular, de modo jocoso, que o cirurgião é o cidadão que encontrou um modo socialmente aceito de cometer seu crime? E foi assim que a notícia chegou. A cirurgia foi perfeita, mas… Percebi algo de prazer nos olhos de quem nos dava a notícia. Ou não? Talvez a necessidade de adotarmos um culpado. Encontramo-nos logo ao sair do hospital.

 

(continua)