O Texto

Sento-me com o papel em branco no tampo da mesa. Em repouso. É um tema gasto. Mas ainda assim tento. O papel pode representar exactamente o quê? A ausência de um mundo? A presença dos fantasmas? As letras – cuja conhecida metáfora pessoana não usarei aqui – não são apenas signos. Em rotação, claro. Penso nisto enquanto espero. Projecto imagens antigas à procura do tema e, obviamente, que o tema é exctamente isto sobre que escrevo no exacto momento em que o leitor lê o que escrevo (a repetição do advérbio «exactamente» é de propósito. Tem o efeito de uma respiração sincopada). Penso, por exemplo, no ano de 1993. Isto sem qualquer saramaguiana ressonância. Eu nem sequer conhecia o livro de poesia, híbrido livro, diga-se, em 1993. Do que me lembro é da origem da imagem. Do arquétipo. Era um andar permanente na cidade doente. Uma espécie de toada marítima dentro do sangue. Fluxos e refluxos de palavras novas («ódio», «amor», «solidão», «espera», «desejo», «velocidade», «eterno», «sangue», «paixão») naquele ano da minha revelação a mim próprio. Creio que a minha escrita nasceu de uma perda soberana e absoluta. Não foi uma perda total. Reconstruí, em certa medida, essa perda por meio da edificação de palavras. Há sempre fantasmas, na verdade. Seria Verão. Várias vezes regressei a esse labirinto corpóreo da poesia. A perda original foi a sensação terrível da inutilidade de tudo. Só a poesia podia restaurar uma genesíaca esperança. O peso das palavras de que fala Carlos de Oliveira. Rimbaud não me ajudou nada. E o verso de Mallarmé, sobre o eterno recomeçar do tempo, eis o que fabricou em mim esse movimento da escrita: fluxo verbal, refluxo da crença. E de cada vez que, hoje, recomeço a escrita sei que mergulharei mais fundo na certeza palpável do signo: perdida a capacidade simbólica – religatione – para ver o mundo, que nos resta (que me resta), senão encenar para sempre a impossibilidade possível de o poema ser o mundo que nos falta? O papel já não está, decerto, em branco. Também não é muito o que tem, o que diz. O peso das palavras existe: mas hoje é de uma força centrípeta que falo. Não sei se podemos falar em explosões de luz de cada vez que o signo cintila: é talvez uma outra operação – a perseguição dos arquétipos na noite escura do tempo?

António Carlos Cortez

O ser da literatura

Na última entrevista que Derrida deu em vida (Le Monde, edição de 19 de Agosto de 2004), o autor referiu-se à sobrevivência como um conceito vital da existência (do “Da-sein”). Sob este ponto de vista, o homem seria por natureza um sobrevivente marcado pela “estrutura do traço e do testamento”. O ponto mais interessante da consideração de Derrida situa-se no tempo, ou seja, no facto de a sobrevivência não dever ser encarada como algo que apenas se relacionaria com o passado e com a morte. Ao invés, a sobrevivência também deveria ser encarada como algo que se relaciona avidamente com o futuro. Por trás desta postulação está a noção de “desconstrução” – o reencontro de todos os possíveis que possam/poderiam gerar realidade – que é uma noção sobretudo afirmativa e que pressupõe, portanto, o radicalizar da oposição vida-morte (factor que Derrida considerou, em Parages – Galilée, 1986 –, como “afirmação incondicional da vida”).

A literatura é uma representação deste cenário que é, ao fim e ao cabo, um cenário do próprio homem. Mas uma representação por excelência. A literatura, mesmo antes de ser codificada pelos modernos como uma estética da escrita, sempre se reviu no apanágio do testamento, do vestígio e do traço. As literaturas orais que estão na base nos primeiros textos épicos ou revelatórios são disso exemplo. A recompilação dessas tradições (caso da actividade pós-exílica em torno do Antigo Testamento) e a fixação do discurso da crónica, dos panegíricos ou dos grandes feitos (toda a literatura que nasce a partir dos feitos de Alexandre-o-Grande, por exemplo) confirmam essa disposição. É sobretudo o ímpeto da literatura profética (que domina toda a alteridade islamo-cristã – em ambos os mundos – desde as Cruzadas até ao emergir Otomano) que, por outro lado, religa a dimensão da sobrevivência com o futuro. Na sequência do profético, o domínio utópico e ideológico (dos séculos XVI a XIX) envolvem já o enunciar literário moderno – de início romântico –, confirmando em pleno esta dupla face tão típica da sobrevivência.

Ao fim e ao cabo, a sobrevivência é o relato da vida para além da vida. Mas não do ponto de vista apenas do que resta, do que sobra e do que separa o que foi do que terá permanecido. A sobrevivência requer também um ponto de vista projectivo, associado ao que poderá restar, ao que poderá desaparecer e ao que sempre poderá ainda vir a acontecer. António Lobo Antunes confessou, um dia, a Ana Sousa Dias (numa entrevista ao Canal 2) que a Exortação aos crocodilos foi um “livro maldito”. Algumas das mortes aí relatadas aconteceriam depois tal e qual aos seus mais próximos (amigos e familiares). Também Cartas a Sandra de Vergílio Ferreira deu corpo a idêntica premonição que acabou por recair sobre o próprio autor. De um modo temático e não do mais estrito “self-fulfilling prophecy”, um romance como A Possibilidade de uma Ilha de Houellebecq é uma obra que, ao aventurar-se no território pós-humano, se propõe descarnar uma ferida sem fim – com incursões de dupla face (em direcção ao passado e ao futuro) –, através de um realismo e de um vitalismo inquietantes. Exemplos diversos de uma mesma prospecção.

A memória é uma espécie de anátema que a literatura realiza para contracenar com o desejo e com o futuro. Não é por acaso que a própria noção de trama (ou de “plot”) parte sempre de um ‘ter sido’ sobre o qual a complicação e o clímax constituem desafios e radicalizações que Derrida consideraria como “afirmações incondicionais da vida”. Tudo para que o desenlace (o apuramento dos possíveis sempre a germinar em aberto até aí) possa ser uma simulação funcional e apelativa do repto existencial que separa o mistério da sobrevivência. É por isso que os leitores adoram o suspense: puro modo de sobreviver – ao passado e ao futuro – de cada linha. É isso a literatura: uma vida que se crê para além da vida. Metáfora, ainda que contida, do maior dos desejos.

Luís Carmelo

Vozes (2)

03 de Setembro, 11.30

Enquanto se lê sobre o Bushido (renúncia, ascetismo zen), podem por vezes ocorrer histórias que não andam muito longe disso. Um velho característico, de boina e prótese auditiva:

– Isto é que vai uma crise. Nunca mais chove.

(sorri, jocoso)

– Há-de vir, há-de vir. – responde o condutor.

– Ah pois há-de. E aí há-de ser ai que frio, ai que frio. Agora é ai que calor, ai que calor, mas depois há-de ser ai que frio, ai que frio. Não estamos contentes com a natureza. – depois assobia, sopesando distraidamente o seu jornal desportivo.

(…)

Da série A Ronda

Paulo Bugalho

49º Episódio – Folhetim (II sequência de novelas) – O MÊNSTRUO MÁGICO DAS ORQUÍDEAS GRÁVIDAS – Folhetim em Setenta Episódios por Carlos Pessoa Rosa

O mundo ao redor mudou, poderia arrumar outro companheiro, oportunidades não faltaram, a gravidez mudou meu corpo, tornou-me mais mulher nos gestos, mas quando o medo tem sua raiz na infância há muito pouco a se fazer… É o passado repetindo-se infinitamente, em cada botão de camisa, em cada orgasmo, como se afirmasse a fragilidade da mãe, da fêmea que neguei pela falta de reação. Sei que meu terceiro período sofrerá poucas modificações, não desejo a experiência de outro homem, o amor conhecido apenas a Samael, mas é dúbio o que sinto, algumas vezes me lembra o irmão, outras, o marido, tem o nariz aduncado como o dele, a mesma sobrancelha, os pelos vazantes nas orelhas e no nariz. Sei que Samael é especial, sensível, tem um jeito muito particular dirigido às mulheres, as empregadas em casa sempre se deram bem com ele, até demais, acredito que Samael não saiba que conversei com Da Graça quando dispensada, o pai havia flagrado-o com a empregada.

Agora não sei o que será de nós… Samael falou qualquer coisa de preparar-se para concurso público, acho que não suportaria, mas ele nunca foi muito convicto das coisas que diz ou faz, parece sempre haver uma sombra ou fantasma ao lado dele, com quem conversa quando não há ninguém por perto, é assim desde criança, não precisava de parceiros de rua para se divertir, criava-os, tantas vezes trouxe o André para brincar com ele, mas Samael não suporta o vizinho, não sei se é ciúme, filho único, parece-me que não, nasceu para ser estrela, observar a lebreia vindo na direção da casa, ali tem o olhar do pai, mas introspectivo, Samael é mais pensamento, seu abraço é de mistura, tem o olhar dos símios enjaulados, a timidez própria dos animais maltratados, não quero dizer isso, mas sinto pena dele, como sentia de meu irmão, não suportaria ver um filho optar pela renúncia de viver. Daqui, ouço Samael teclando na velha Remington Rand, não por saudade de quem o gerou, está lá registrando suas histórias, tem as palavras somente para si, sem as críticas do pai, mas me preocupo, sempre em casa, sem amigos, sem namorada, não fosse o que aconteceu com a empregada pensaria no caminho de Anastácio, mas meu irmão já me disse que conhece um gay desde o nascimento, que Samael foi apenas um menino retraído e tímido, diz que sou muito preocupada com ele, o que é verdade.

Estou feliz… Agora posso até escrever o que sinto sem medo de ter minha intimidade invadida. Dizer que anulei tudo pela família seria hipocrisia, eu é que não fui capaz de superar o pai violento, agi como a mãe, covardemente, e continuei assim no casamento, o sujeito me apodrecendo por dentro, corpo e alma, e eu sem me posicionar, aceitando suas regras, pelo menos o pai não disfarçava, não usava de uma delicadeza safada e policialesca, não exigia de nós aparência. Perguntasse a Samael, também deve estar feliz, durante toda a doença do pai percebi que mudava, trazia de dentro alguém zombeteiro e que irritava o pai castrado de movimentos, percebi, mas não disse nada, nenhum comentário, para vencer a si próprio deveria enfrentar o pai, mesmo que fosse um pai impossibilitado de se defender, percebia-se no olhar o ódio dirigido ao filho teclando em sua máquina de escrever. Ainda me lembro da expressão de Samael ao ouvir o pai dizer Ninguém vive dessas besteiras… ao lhe entregar um escrito, todo feliz, mas o pai amassou o papel e saiu tão irritado que tropeçou no tapete, caindo de rosto no chão, o menino fugindo dali, sempre acreditou que provocou a queda do pai, não adiantava dizer-lhe que não, acho que ele precisava acreditar nisso, ter conseguido derrubar o gigante todo poderoso causava-lhe medo e prazer

 

 (continua)

48º Episódio – Folhetim (II sequência de novelas) – O MÊNSTRUO MÁGICO DAS ORQUÍDEAS GRÁVIDAS – Folhetim em Setenta Episódios por Carlos Pessoa Rosa

Isto quer dizer que ele saberá tão logo saia daqui. Não patrão, pode ficar sossegado… Só vou dizer se o senhor for para a máquina de escrever com uma garrafa de uísque ao lado. Fique sossegada Amélia, não vai acontecer tão cedo… Quer dizer, então, que vai voltar a escrever e beber!? Quem pode saber do futuro Amélia, não se preocupe, termine seu trabalho, e obrigado pela compra, depois acerto tudo. Não precisa não senhor, deixei pendurado na padaria, disse que o senhor passaria por lá para acertar. Tudo bem, Amélia, passo depois. Não sei o tempo que Amélia está comigo. Na verdade, não me lembro nada sobre ela. Dirijo-me ao quintal, sento-me no banco de madeira encostado no muro, sou capaz de jurar que havia uma jabuticabeira por aqui. Abro o caderno:

Quem sou eu? Pergunta feita por Tolstói aos 26 anos. A metade da idade que tenho agora, quase a de Samael. Acho que meu filho será a única pessoa a pegar o que escrevo, aprendi com ele o gosto pela leitura, lia escondido do pai que não permitia que entrasse na biblioteca, dizia que os livros eram para serem lidos pelos adultos, não pelas crianças; muito menos pelas mulheres. A biblioteca, quando não estava em casa, permanecia trancada, mas Samael, sempre encantador com as empregadas, conseguia lá permanecer um tempo, lendo algum livro. Eu não devia aceitar o rumo de meu casamento… Consegui terminar o curso normal, poderia dar aula, mas logo me casei. Nunca fui corajosa. Logo veio a gravidez. De uma relação entre dois desconhecidos, nasceu Samael. Quieto já no nascimento, jeito calmo de sugar o leite, mais a cara do pai, isto me incomodava, não vou deixar de registrar, não queria dois homens iguais em casa, suportar um já era difícil, nem um ano de casada para perceber onde me metera. Viriam outros não fosse a doença que me atingiu logo depois do parto. Hoje sei que foi adquirida de meu marido, trouxe da rua, mas foi melhor assim… Apesar de filho único, Samael preencheu a falta de carinho e companhia com personagens que ele mesmo criava, não era incomum encontrá-lo em longas conversas com personagens anônimos, maioria das vezes nos cantos, no quarto ou debaixo da jabuticabeira, o que me preocupava, meu irmão também agia do mesmo modo, até atirar-se de corpo e alma em delírio próprio; um dia, entregou-se à morte. Daí sofrer muito ao castigar Samael por alguma arte que tenha feito. O que meu irmão buscava ao adiantar a morte, ninguém nunca soube, nem mesmo eu que dividia com ele as alucinações de infância.

Hoje, viúva. Há exatos dois dias. Não estaria escrevendo estivesse vivo… Não deixaria, faria um escândalo, até segredos evitei, mas ele percebia em minha expressão quando havia algum. Nunca dei justificativas para que se sentisse incomodado, respeitei-o, cuidei da casa, atuei o papel de esposa fiel e dedicada que os irmãos cobravam dos membros, mesmo sendo assediada por eles, nunca o trai, o que não era comum entre as outras mulheres, sei que meu silêncio e passividade prejudicaram Samael, mas agora não adianta sofrer, nós dois alcançamos a liberdade, a porta da biblioteca ficará definitivamente aberta, é estranho dizer isso nem dois dias depois do enterro, mas sei que saiu um peso grande de nossas cabeças, Anastácio, meu outro irmão, o mais velho, preencheu um pouco a figura ausente de um pai, mesmo sendo rejeitado pela sua opção sexual, com certeza Samael nunca se esquecerá do tio…

Devo registrar algo que me deixou muito feliz. Já na primeira noite sem o pai, Samael passou a noite na biblioteca teclando na Remington Rand. Quer ser escritor… O pai nunca concordou. Agora não sei o que vai ser de nós dois. Nada sei da vida particular de meu marido, nem mesmo onde tem conta bancária. Talvez Samael precise trabalhar. Pelo menos a casa é nossa… Acredito que sim. Depois da última vadia que apareceu em casa grávida, vai lá se saber… Não deve ser filho dele, também ficou estéril com a doença, fizemos exames, nunca aceitou que havia problema com ele. O que foi minha vida? Dividisse o passado ao modo de Tolstói, haveria apenas dois momentos: o primeiro nada diferente da vida do autor russo, poética, maravilhosa, inocente, esfuziante, apesar dos problemas em casa, até o casamento, aos dezesseis anos. O segundo, até a morte de meu marido, renúncia total do papel de mulher, como já disse, mas preciso reforçar, fui uma esposa preocupada em passar à sociedade as preocupações próprias de uma família, cumpri meu papel de companheira dedicada aos compromissos assumidos pelo marido, prestei assistência social, levei uma vida honrada e regular, fria como mármore, mas atuando o papel exigido.

 

 (continua)

Uma viagem à índia – 8

“Viajar não faz bem apenas aos homens, também é bom para os próprios percursos ter homens que os percorram. Um caminho é como uma casa, é preciso abrir a janela de vez em quando para que o ar circule. Precisa de ser arejado o caminho e os homens que o percorrem são os que utam esse ofício. São os homens e as mercadorias que conservam a estrada.”

Canto V, 10

“No campo de batalha – qualquer livro de estratégia o diz – ou se avança ou se foge muito rápido, hesitações demoradas transformam-se habitualmente na última ação de um soldado.”

Canto V, 46

“Mulheres insultadas são capazes de causar fendas num país, eis o facto.Mulheres com raiva levantam-se mais cedo que os galos e outros pássaros e preparam a vingança introduzindo-a na gastronomia do meio-dia dos seus inimigos. As mulheres conhecem bem o que é essencial no humano: comer, dormir, ver: e é aí que atuam. Envenenam a comida e os sonhos, e por vezes, terceira alternativa, cegam os homens através da sedução ou utilizando armas ainda mais cortantes.”

Canto V, 47, 48

“Em cálculo estatístico rápido [-disse o velho-] metade das guerras têm origem na invasão concreta a um compartimento mobilado de um país enquanto a outra metade devido à invasão do tédio. Eis, pois, por que razão a paz é praticamente no mundo um estado absoluto.”

Canto V, 49

“O homem [-disse o velho-] devia aprender a imitar o ímpeto lento das árvores que sem serem vistas e jamais parando, sobem sempre.”

Canto V, 53

“Cada homem tem, de modo telegráfico, as duas faces: tem medo e mete medo Um homem unilateralmente corajoso não existe, a não ser que seja unilateralmente pouco inteligente. É que o raciocínio começa no abc de estar vivo: quando vês o abismo, deves afastar-te cuidadosamente.”

Canto V, 55

“Só há um instante em que se tem realmente os sapatos apertados: é quando o corpo balança enforcado numa árvore; o resto são pequenos incómodos. As extremidades incham, como o próprio nome indica, apenas em situações extremas, e uma vida tranquila e burguesa não tem, ao longo de setenta anos, nenhuma extremidade: é feita de centro e esse centro é feito de nada.”

Canto V, 56

“Sozinho, um homem ganha espessura, em grupo, perde-a – e ganha apenas companheiros.”

Canto V, 57

“Quem vence nas armas, vence ao mesmo tempo na moral. E deixe-me ainda falar-lhe do papel da Natureza nisto tudo: o mundo natural não é bem-educado, é uma criatura semelhante a nada, não seleciona: uma porta que foi arrancada e deixou vazio o seu lugar: todos passam. Não contribuiu com um único diploma legal que equilibre as forças – eis a natureza. Uma fábrica muito poluente é mais civilizada que o rio límpido.”

Canto V, 67

“De vez em quando fazemos interrupções para que o ouvido descanse e o resto do corpo actue, mas nascemos para ouvir contar histórias, tudo o resto são profissões.”

Canto V, 69

“O sítio essencial de um corpo é o sítio por onde se começa a morrer ou por a doença é inaugurada. Cada morte diz qual o bocado do corpo que afinal deverias ter defendido..”

Canto V, 70

“Ninguém de facto se reconcilia com uma parte que lhe foi amputada e a natureza foi amputada aos homens.”

Canto V, 78

“Ninguém varre o que ama, e a natureza está a varrer a cidade.”

Canto V, 82

“Uma pedra incompreensível, se adormeceres tranquilo, ao lado dela, e se ao lado dela tiveres pesadelos, fica 100% humana; de carne e osso quase.”

Canto V, 95

“Hábitos satisfazem o que em ti não é forte.”

Canto V, 96

“Se te vires obrigado a parar, não recomeces na mesma direcção. Tropeça, levanta-te, fecha os olhos e avança. No mundo, o sofrimento ensina mais do que cem professores bem-intencionados. Fugir do sofrimento que impede o recomeço, sim, mas não dos outros. Os sofrimentos não são todos da mesma espécie animal: de uns sais aperfeiçoado, […] de outros canino e obediente.”

Canto V, 97

“[…]quem acumular, não escava. O solo sobe (nunca desce) quando amontoas experiências, como se cada acontecimento fosse uma peça de roupa suja que ficou suja.”

Canto V, 99

Aderências

Foi muito concorrido o Colóquio Internacional «O Trânsito de Vénus e o desaparecimento da Atlântida».

A aderência do público, dizem os jornais, foi de tal ordem que os participantes acabaram colados uns aos outros.

In Que paisagem apagarás (Publiçor, 2010)

Urbano Bettencourt

47º Episódio – Folhetim (II sequência de novelas) – O MÊNSTRUO MÁGICO DAS ORQUÍDEAS GRÁVIDAS – Folhetim em Setenta Episódios por Carlos Pessoa Rosa

Entro e fecho a porta, giro a chave duas vezes em sentido horário até o ruído da trava, coloco-a no prego, estranha sensação que me toma, déjà vu, única palavra que me recordo em francês, o longo corredor, o piso gasto, a parede tem várias camadas de tinta, sei disso, mas não de quando ou de onde, piso de leve, a não provocar ruído, sigo até o quarto, coloco a mesma roupa de ontem, hoje há luz, Amélia acertará os últimos detalhes, passará a roupa, não há muita, o necessário para um solteirão à porta da morte, arrasto os pés até o banheiro, escovo os dentes com a água deixada no copo pela Amélia, olhando as linhas de meu rosto, preciso cortar o cabelo, rapar a barba e aparar as unhas, fazer todas essas coisas que qualquer sujeito faria para manter a aparência de normalidade, não sei se vou fazer a barba, talvez melhor deixá-la formar-se, ocupar o rosto todo, como os personagens e escritores russos, mas lá tem utilidade, faz muito frio, aqui o melhor é ter todos os pelos do corpo rapados, a negritude ao redor dos olhos não tem como disfarçar, melhor esvaziar a bexiga antes que a incontinência urinária assuma a responsabilidade, o pinto escondido, acompanhando a retração da mente, fico mais tempo até sair o que considero a última gota, na verdade nunca é, vou até a cozinha sem saber o que fazer lá, não comprei nada, mas a sacola de Amélia sobre a mesa, ao lado há pão, manteiga, leite e café solúvel, preparo uma xícara de café com leite, passo manteiga no pão enquanto o café esquenta no micro-ondas, mastigo ouvindo a cantoria de Amélia, quase me esquecia, os remédios… Engulo os três comprimidos de única vez, hoje não vou ao escritório, evito um pouco a compulsão de escrever, sigo na direção da escada que dá no sótão, Amélia passa roupa debaixo da escada, ameaça dizer alguma coisa… Bem, o senhor que sabe. Sabe o quê, Amélia. Nada! Vamos, desembucha! Nunca vi o senhor entrar no sótão, vai se sujar todo, a última vez que pediu para eu limpar foi antes da internação. Me deu vontade… Essas vontades são um perigo para o senhor… Não sei não! Fique tranquila, Amélia, vou procurar algo que me lembre do passado, só isso, os medicamentos me deixam sem memória… Sem memória, mas normal, o senhor devia se livrar das coisas que têm no sótão e que servem apenas para ninho de ratos e baratas. Vamos ver…

Não há chave nem fechadura, apenas uma tranca de madeira na porta. A luz que entra de fora mais das telhas de vidro são suficientes para desnudar os objetos e as teias de aranha. Ao fundo, um baú. Sou atraído por ele sem mesmo saber o motivo. O fecho está enferrujado. Pronto! Não foi difícil abri-lo. Amélia deve ter bisbilhotando, daí a facilidade. O que é isso? Um caderno. Empoeirado e cheirando a mofo. Retiro-o e fecho o baú. Bato com a mão em sua superfície para retirar o excesso de pó: Clara. O nome em letra de normalista, de alguém que estudou para ser professora. Não me lembro de tê-la visto escrevendo. Acho que me servirá, terá alguma utilidade. O restante são tranqueiras pessoais, não me interessam. Quero saber de mim… Aqui talvez alguma coisa. Mesmo tentado esconder, Amélia percebe que levo o caderno comigo. Vai voltar a ler? Pode ser, Amélia. Seu André não vai gostar nadinha disso. É só você não bater nos dentes! De minha boca pode ficar sossegado. Jura!? Amélia vacilou. Não carece.

 

 (continua)

De copas

A mulher senta-se na esplanada a ver as outras mulheres. Altas, carnudas, decotes profundos, o cliché da américa latina porque, felizmente, há clichés que são bons. Por isso se ri. Só para si. Pede um copo de rum e outro de água, para ir alternando. Um homem senta-se à sua esquerda, um puro nos dedos, um telemóvel, nada de especial. De repente, num espanhol rápido que não consegue perceber na íntegra, o homem desfaz-se ao telefone: cariño.. no, no, por Dios. A mulher volta a rir. Paga e quando começa a andar em direcção à praça sente-se alta, enorme, capaz de abraçar tudo e todos, os desgostos e as traições, as felicidades e as saudades. Atira uma moeda a uma fonte por superstição europeia, quase ridícula, considera, e continua na sua colecção de recortes, a ver a multidão, a guardar este e aquele para mais tarde. Quem sabe se não me sairá um romance, pensa. Quando, no fundo da mala, o telemóvel apita, ela afasta o som, desculpa-se com o rum e segue. A vida aqui pode não ser bela, mas é outra.

Patrícia Reis

Grandes Esperanças

Desencantado com a vida, a família e os amigos, disse adeus ao mundo e refugiou se na adega com vista sobre o mar do Canal.

Ao fim de sete dias e sete noites de muito beber, começou, finalmente, a ver uma luz ao fundo do tonel.

In Que paisagem apagarás (Publiçor, 2010)

Urbano Bettencourt

Mini-entrevista à escritora Sônia Coutinho*

PERGUNTA1: No mundo tecnológico e instantanista em que vivemos, crê que a literatura, tal como a aprendemos a significar pelo menos desde o Iluminismo, ainda tem sentido?

RESPOSTA: As formas podem mudar, mas a literatura continuará a ter sentido para além de todos os questionamentos, porque é uma das coisas que nos tornam o que somos: humanos.

PERGUNTA2: Qual foi o último acontecimento literário, independentemente da sua natureza, que mais lhe tocou. Porquê?

RESPOSTA: No início dos anos 2000 estive às voltas com um grave problema de saúde e isto me levou a parar de ler literatura. O grande acontecimento literário foi voltar à leitura, após recuperada.

PERGUNTA3: Fale-nos resumidamente do seu último livro, como se estivesse a revê-lo em voz alta para um grupo de amigos.

RESPOSTA: Não gosto muito de falar do que escrevo e dificilmente descreveria algum trabalho meu para um grupo de amigos. Mas cito aqui, sobre meu livro mais recente, o volume de contos “Ovelha negra e amiga loura”, uma frase do poeta Carlito Azevedo: “embora corrosivo, é um livro que estimula para a vida”.

PERGUNTA4: Pensa que a literatura e a rede poderão vir a ter, de algum modo, um destino comum?

RESPOSTA: Já experimentam esse destino comum. A “geração do blog”, no Brasil, começou a escrever literatura na rede e isto continua. Através da rede vem sendo feita aqui, mais do que pela imprensa escrita, a divulgação de livros e autores. E estamos observando uma já bem perceptível entrada do livro digital.

PERGUNTA5: Refira dois autores e duas obras que o tenham marcado, em sua carreira.

RESPOSTA: Clarice Lispector, “A hora da estrela.” Marguerite Duras, “Le ravissement de Lol V. Stein.”

*Sônia Coutinho (Itabuna, Bahia) é escritora, jornalista e tradutora. em onze livros publicados e traduziu três dezenas. Entre as suas obras mais conhecidas, estão O último verão de Copacabana, Atire em Sofia, Os seios de Pandora, Uma certa felicidade e O Jogo de Ifá. Conquistou por duas vezes o Prêmio Jabuti de Literatura (em 1979 e 1999).

Contacto e Org.: Katia Bandeira de Mello-Gerlach

45º Episódio – Folhetim (II sequência de novelas) – O MÊNSTRUO MÁGICO DAS ORQUÍDEAS GRÁVIDAS – Folhetim em Setenta Episódios por Carlos Pessoa Rosa

Quase me esqueço… Retiro a chave do bolso, coloco-a na fechadura, dou duas voltas até ouvir o ruído do trinco. Suspiro fundo. Filho de uma anta! Ler meus textos! Melhor tomar os medicamentos, está na hora. Tranco a porta, retiro a chave da fechadura e a dependuro no prego. Observo o longo corredor. Gostaria de enxergar, mas os medicamentos só me permitem olhar. Nada além do vazio e do silêncio, morada sem passado. Sigo lentamente como se arrastasse uma bola de ferro presa aos tornozelos. Paro na porta do quarto. Dos móveis, apenas o esboço. Com os remédios tudo se torna raso, bordas, não há volume, profundidade, perde-se o barroco. Logo tudo será uma escuridão só, ontem nem percebi tamanho o cansaço. Se não jogaram no lixo, tenho umas velas na gaveta do armário… Os azulejos que restam na parede da cozinha rebrilham entre as falhas cimentadas e opacas. Aqui estão… Entre ovos de barata e talheres. Melhor retirá-las, são três, uma para o banheiro, outra para o quarto e a derradeira para o escritório. Escurece rapidamente. Da janela da cozinha nada se vê, os prédios ocuparam o horizonte. O fora, nem quadrado azul… O início da noite me carrega uma agonia estranha no peito. Haverá renascimento para o homem? Um dia não mais as janelas acesas nos prédios; o som da alma. Único ruído atravessa a madrugada, vem da casa de André, parede de meio tijolo, é a televisão a alimentar insônias, raramente sinal do telefone, conversas curtas, nem os filhos suportam seu jeito abelhudo, de quem depois da aposentadoria descobriu-se vácuo, sem entusiasmo para recomeçar, apenas um entre milhões no aguardo implacável do fim, sem possibilidade de desdobramentos, que perdeu o mundo e se perdeu na possibilidade de dizer, como eu sob efeito dos medicamentos, hora de tomá-los, antes que as cores retornem, não é momento, é preciso evitar sons que alertem André, procura algum sentido a mais para continuar vivo, um entre tantos gestos inúteis que adota como salva-vidas, três comprimidos circulando no sangue até o cérebro, inundando neurônios, me mantêm enjaulado, quando vou voltar a ler estes livros que agonizam nas prateleiras? Nunca mais… O tempo que resta é para escrever, não ler, já li o suficiente, doarei os livros a alguma biblioteca, venderei a algum sebo, lugar de visita de sujeitos esquisitos, ritual nômade de quem procura uma frase perdida, algo raro ou um ultimato… Mesmo vazias, haverá rastros dos livros nestas prateleiras, como na velha Remington Rand, das escrituras, melhor me sentar na poltrona, deixar a noite enfurnar-se no escritório, não tenho dificuldade alguma para dormir, exercito todos os dias a morte, ao acordar vejo se agarro algo do último sonho, pode ser uma estrada recapeada que me leva a lugar nenhum, asas-delta sobrevoando o vale, eu a apagar registros na lousa, gritos de enclausurados na memória, mas o negro ocupando tudo, acendo a vela, chama negra e branca bruxuleante, o cheiro sem ligações aparentes, as sombras, mas nenhum fantasma, nenhuma associação com algo que poderia chamar de passado, sei que a mãe escrevia um diário, deve estar no sótão, nunca mais entrei lá, coloquei as coisas dela do jeito que deixou, nem vaga lembrança do rosto, talvez pudesse construir uma história para mim, com início, meio e fim, não me importo, ninguém se importaria comigo além da mesma atenção que dedicariam a uma sombra no chão, você pode dizer, mas que dramático, mas não digo nada disso para ser dramático, apenas relato, não carrego culpa, ao contrário, curto cada instante, os medicamentos é que mudam um pouco isso, prefiro a sonoridade da insânia, com ela é possível recriar ouvindo Apelo, Baden Pawell, com Yo Yo-Ma, os medicamentos roubam minha cinestesia, os personagens que habitam a música, mas nem pensar no choque em tempo tão curto, melhor curtir a abstinência do Ser, mesmo em branco e preto, agir sem as nascentes existentes nos sonhos, no delírio, no amor, na criação…

 

 (continua)

Alexandra Malheiro, autora de “Luz Vertical” (prefácio de Pedro Abrunhosa); edita-Me, Editora, Lda

Questionário PNET/Literatura :

1- No mundo tecnológico e instantanista em que vivemos, crê que a literatura, tal como a aprendemos a significar pelo menos desde o Iluminismo, ainda tem sentido?

A Literatura é uma arte, é estética, é uma transfiguração do real onde o real deixa de o ser e toma uma vida e uma realidade autónoma. A Literatura apela aos sentidos e à sua provocação bem como à provocação dos paradigmas que cada um transporta consigo, é uma oportunidade de interioridade e reflexão e ao mesmo tempo um apelo ao sonho e à sublimação.

Assim sendo creio que apesar de instantista e cada vez mais tecnológico o mundo que vivemos não tem menos lugar à Literatura, esta serve, aliás, como uma forma de reestruturarmos o nosso equilíbrio mental, permitindo tantas vezes uma fuga à realidade e à realização pela sublimação. Não creio que a Literatura seja menos necessária e urgente hoje do que foi em épocas passadas.

2- Qual foi o último acontecimento literário, independentemente da sua natureza, que mais lhe tocou? Porquê?

A recente atribuição do Prémio Camões, o mais alto galardão da língua portuguesa, ao Manuel António Pina deixou-me muito contente. O Manuel António Pina é um escritor completo, que domina os vários géneros literários desde a escrita jornalística, a crónica – onde eu tanto o admiro – a poesia, a escrita para crianças, o teatro, enfim, é completo e o que salta à vista no Manuel António Pina é a extraordinária capacidade de observação do seu redor e a capacidade que tem, também, de de forma muito clara e em poucos caracteres transfigurar toda essa realidade, dando-lhe vida literária, tão só pelas palavras que usa para o fazer. Fiquei muito satisfeita, como aliás também tinha ficado com a escolha de Ferreira Gullar, que é um poeta que aprecio, no ano anterior.

3- Fale-nos resumidamente do seu último livro, como se estivesse a revê-lo em voz alta para um grupo de amigos.

“Luz Vertical” é um livro de poemas. É pequeno porque gosto de livros portáteis que possam viajar connosco e porque entendo que um livro de poemas, não sendo um romance, não contanto nenhuma história, deve ter coerência, um fio condutor e não ser uma amalgama de poemas sem nexo ou norte.

Chama-se “Luz Vertical” fazendo referência àquela luz vertical e fria que abre clareiras na neblina do Porto e que fere os olhos. A poesia, como toda a arte, deve também conseguir ferir os olhos, os sentidos, para que depois possamos sentir melhor.

O livro divide-se em duas partes antagónicas ainda que complementares – “A vertigem” primeiro, onde os poemas são mais secos, pretendem abanar o leitor, são uma espécie de ascese que culmina na segunda parte “A conciliação” que visa isso mesmo, acalmar a vertigem, são poemas mais conciliadores, alavancados por outros mais curtos a que chamei “apontamentos”. É, parece-me, um livro coerente, assolado pelo fogo, pela luz e pela  sombra que esta projecta.

São 42 poemas antecedidos do prefácio escrito por Pedro Abrunhosa. O Pedro acedeu, com enorme generosidade, assoberbado que estava com a finalização do seu último disco, a escrever-lhe o prefácio, coisa que eu acho dificílima, escrever um prefácio a livro de poesia, e fê-lo tão bem, que costumo dizer que é o primeiro dos restantes 42 poemas.

4- Pensa que a literatura e a rede poderão vir a ter, de algum modo, um destino comum?

Literatura e rede têm já, inexoravelmente, os seus destinos entroncados. Com o avançar dos tempos e da tecnologia a literatura tem de migrar também para esse campo. Acredito que durante muitos anos a nós actuais leitores, nos faça falta o tacto e o cheiro dos livros, a sua sensualidade pelo toque, mas certamente senão os nossos filhos, pelo menos os nossos netos ou bisnetos talvez não tenham já essa apetência, porém é sempre mais importante o conteúdo do que o continente e a Literatura seja sob que formato for ser-nos-á sempre necessária e  pode ser tão simples como dizer “Ama, como a estrada começa.” A veiculação da Literatura pela net pode até torná-la mais democrática pelo fácil acesso embora possivelmente mais confusa por tão difusa, mas a isso, como a tudo o mais, o ser humano se adaptará.

5- Refira dois autores e duas obras que o tenham marcado na sua carreira.

Encontro muito mais do que apenas dois autores e dois livros que me tenham marcado, é muito difícil restringir essa escolha a um par…

Como autores terei de nomear Eça de Queirós e Eugénio de Andrade. Eça foi a minha grande descoberta estética na escrita ainda muito jovem, o discurso absolutamente fluente, a elegantíssima ironia acutilante, as descrições apuradíssimas do ambiente e dos caracteres, extraordinário. O Eugénio é mais ou menos o correspondente em formato poético, uma simplicidade de linguagem usada de forma tão absolutamente perfeita que quando ele diz “rio” podemos quase ouvi-lo correr e sentir-lhe o frescor, é impressionante a sua capacidade de apelar ao sensitivo. No que toca aos livros a escolha é ainda mais complicada. Borges dizia que somos as pessoas que amamos e os livros que lemos e eu acredito que sim, por isso terei de ter em mim muito mais do que apenas dois livros, vai daí que já que tive de deixar de fora o José Gomes Ferreira nos autores vou penitenciar-me escolhendo o seu “Poeta Militante” (os 3 volumes) como um dos livros que me marcou e que releio periodicamente, o Zé Gomes é o poeta da espantação e esse seu livro, que abarca várias épocas, é quase uma epopeia poética, é um livro cheio de sangue e entranhas, cheio de pele e garra, é imprescindível. Por fim, tal é a dificuldade em escolher um outro livro, vou escolher antes um disco que vale tanto como pequeno livro de poemas (são 13 poemas magníficos) como vale no seu todo. Toda poesia não pretende senão ascender à condição de música porque é na música que reside a verdadeira poesia e aqui o conjunto música-poemas-interpretação é soberbo, falo do “Silêncio” de Pedro Abrunhosa, não se fica igual depois de o ouvir, é um abalo estético, é poesia pura. Escolher o seu autor para me prefaciar o livro não foi casual.

Haiku em prosa (1)

02 de Setembro 9:00

(…)

Num dos prédios, já quase no Areeiro, existe uma cadeira solitária,

numa das varandas viradas para o resquício de um morro que fica junto à paragem de autocarro – cadeira de onde, presumo eu, talvez se veja o pôr do sol, acontecendo entre os restos das árvores.

(…)

Da série A Ronda

Paulo Bugalho

A balsa

A balsa tem um nome estranho, fora do sítio: extraterrestre III. Observo-a todos os dias. Leva as pessoas das margens da lagoa, ali onde o mar espreita já.

Dizem que os golfinhos entram por aqui.

Vejo-os uma manhã, recortes escuros no mar, dorsos que correspondem ao nosso imaginário.

Estar de férias é isso: uma sombra de paz, uma ideia que construímos de sossego e outros desvios ao caminho.

Não queria voltar para casa à beira do rio.

Preferia ficar a ver a balsa a ir, devagar, evitando o remoinho e as correntes.

A balsa que se chama extraterrestre III.

Patrícia Reis

Café às cores | Cristina Carvalho

Desde que se democratizou o consumo do cafezinho nas nossas próprias casas, quem não tiver uma maquineta de tirar bicas, daquelas que engolem cápsulas de várias cores – cada cor seu paladar como os “rajás fresquinhos” – não tem nada! Você pode não ter mais nada, mas uma maquineta de tirar cafés, tem, com toda a certeza. Tem-na na sala, naquela mesita baixa ao pé da televisão, tem-na na cozinha ao lado do micro-ondas, até a tem no vestíbulo da entrada se já não tiver cabimento em mais lado nenhum. Tem-na.
Começa porque a máquina é bastante cara. Mas isso não tem, realmente, grande importância. Faz parte daquelas aquisições que o vão fazer sobressair no seu estado social, mais não seja porque é yesssss! Máquina de café mais o estojozinho ou sem estojo, uma coleção de cápsulas brilhantes e eficazes. Um problema: que fazer com as cápsulas usadas? Fora? Lixo? E o ambiente… Mas já inventaram um capsulão, a verdade é essa! E desde que o capsulão apareceu no bairro, é tudo muito melhor, muito mais limpo. Mais o preço das cápsulas e a estafa, a demora inacreditável, a espera submissa na asséptica loja onde ali e só ali – a não ser que um cristão tenha internet e faça a encomenda – se pode comprar o aveludado cafezinho.
Tudo isto se desculpa porque oferecer a um amigo, uma visita ou o próprio tomar este aromático líquido, é compensador.
Não é de todo desagradável estar em pé numa daquelas lojas lindas, educadas tempos e tempos sem fim! Esperar longos minutos com uma senha na mão e observar demoradamente os empregados tão aromáticos como o próprio café e parece que quase não falam, parece que os seus pezinhos deslizam sobre nuvens de algodão doce quando saem por detrás do balcão e gentilmente nos estendem os braços e nos entregam o saco com o que acabámos de comprar. Atendimento altamente! Nada tem já a ver com aquelas lojas de café que existiam no Martim Moniz ou na Praça da Figueira onde homens enormes, gordíssimos, de batas brancas manchadas com riscos e sombras acastanhadas que eram a mancha desenhadas por vestígios de pó de café, suportavam o peso duma existência inteira dedicada à delicada composição dos lotes de café. E uma pessoa saía com um pacote de papel pardo na mão, atado por um cordel, nas extremidades.
Hoje, nestas novas lojas, há ar condicionado e um balcão para provas de café e altas colunas coloridas onde estão inequivocamente arrumadas milhares e milhares de cápsulas que apresentam as tais cores variadas conforme o nome e a proveniência e há esperas e sorrisos e desejos e vinganças e encontros e desencontros, tudo num certo espaçar de tempo com determinada ideia: eu não sou qualquer um. Eu gasto deste café. E mesmo que se esteja ali vinte, vinte e cinco, trinta minutos ou mais à espera de ser atendido, não existe um esgar, um azedume, qualquer tom de impaciência nessa espera desgastada. Há uma sobranceria qualquer, uma ideia, uma máscara, um enfeitar, um regozijo, satisfação, enlevo, um gozo premeditado, um prazer que se imagina por se receber mão na mão, olhos nos olhos, o impulso quase triste de se caminhar na direção da porta de saída ostentando um saquito ufano recheado de caixinhas multicores cheias de pó de café comprimido e burguesote.
E finalmente, quem sabe, ó céus! ó enlevo máximo! ó sublime visão de categoria, de grande categoria: à nossa espera, ali encostado rente ao passeio a fervilhar de gente cheia de saquitos de cápsulas, para cá e para lá, rua acima, rua abaixo, um automóvel cor de prata e lá dentro, óóóóó!!! John Malcovitch empoado, sentado, de sorriso cândido, John com asas, John sem asas, John nas nuvens mais o seu amigo, o Clooney, aquele rapaz que tresanda a café do bom, do requintado, o George nas alturas a subir uma escadaria celeste, degraus de algodão, fato branco, luminoso, imaculado.
Ah se todos os Johns e todos os Malcovitch’s e todos os Georges e todos os Clooneys do mundo inteiro soubessem o sacrifício que um mortal passa para beber e ter acesso a uma só cápsula, uma só indestrutível cápsula de café…

Cristina Carvalho
Junho 2011

Do “Livro das Pequenas Coisas”

815

Abandono a sombra da minha árvore e parto, vou dar a volta ao mundo, ao mundo que se movimenta — mas nem sempre vejo — na folhagem da minha árvore,  no branco da minha casa, no sexo da minha mulher.

Casimiro de Brito

Literatura e pensamento: um salto, dois devires

Escrever um ensaio é caminhar na tensão entre teorias: entre caminhos já soletrados, entre clareiras ainda por dizer. Escrever um ensaio é reinventar as ordens com que a realidade disputa o que a diz. A lenda designou por ‘Ovo de Colombo’ a disposição – ou a possibilidade – de nomear aquilo que os pontos cardeais do olhar humano, por intuição, já conheceriam. Assim sucedeu com os pintores do paleolítico, quando empurravam a sua frágil tinta por veios aparentemente aleatórios, mas, ao fim e ao cabo, seguindo sempre as falhas, as fendas e as distensões geológicas já inscritas nas rochas das grutas.

Pensar é dialogar com os traços que desenham a obscuridade do cenário. Pensar é decantar o que, um dia, coube em palavras como o ‘tempo’, a ‘natureza’ ou na irrealidade que nos terá levado a supor que era possível fixar duradouramente ‘categorias’ e ‘mediações’. Pensar é rasgar um véu onde se deslocam esboços de intenção, estruturas pré-formadas, fracturas e voragens sem definição própria.

A objectividade é uma acumular de dados que se realiza porque nos reconhecemos, ao pensar, enquanto sujeitos: como agentes que representam, agem e se redescobrem no objecto desse acto e, também, dessa prévia representação. Escrever um ensaio é lutar pela clarificação das diferentes objectividades com que nos vamos confrontando no decurso do fazer e do acontecer. Escrever um ensaio é ordenar o caos a partir do qual o saber diz as suas relações, implicações, pactos impensados, inferências e inevitáveis juízos (os padrões neurais de Damásio, ou os actantes posicionais – Petitot – da teoria das catástrofes ilustram o imprevisível e o quase ilegível que chegam a preencher o mundo interior da pesquisa).

Pensar é porventura tentar objectivar (pôr em cena, apresentar – a Darstellung de Kant, o Bilt de Wittgenstein) essa atmosfera dispersa, do mesmo modo que, com a compulsão silenciosa de uma fotografia, se objectivam as intrincadas relações entre realidades e ilusões, ligando entre si aqueles segredos ou aparentes mistérios que a parecem dominar. Pensar é saltar pela montanha. Escrever um ensaio é descobrir o relevo e a cartografia incerta que a diz.

Há sempre um momento em que agir é já o próprio esquecimento em vez do acto que se esperaria: o personagem que se cala diante do choque, do abismo, do vórtice. A nuvem de pedra. A ‘poiesis’ reaparece sempre no local onde o pensamento calcorreia entre pó e visões. E assim nos cumprimos e chegamos a ser, talvez para cuidar da matéria do esquecimento (e da culpa). E esse caminho que leva, a dada altura, a ter que fazer e a ter que sobreviver é, provavelmente, o que faz do homem um ser homem.

Pensar e literatura: um dilema afinal com algumas saídas. Uma tensão estriada que cresce, porque a palavra que pensa resiste a entrar no jogo que faz a linguagem ser estética. Um alívio em suspenso que irrompe, porque a palavra que sabe conotar resiste à segmentação que permitiria concluir ou encerrar. Nada que não partilhe o mesmo encanto: superar, traduzir o que não seria traduzível e, enfim, inscrever para além da ordem previsível do que poderia ser dito. Há um aceno de surpresa nas etapas de um pensamento, tal como existe um aceno se surpresa na pulsão que permite à palavra literária vibrar. Um mesmo salto, dois devires.

Luís Carmelo

Pizzicato

1949. A meio caminho para a América, vai a meio a noite. Em Paris já é madrugada de 28 de Outubro. O Constellation da Air France voa sobre São Miguel, rumo a Santa Maria para a escala de abastecimento. Ginette Neveu sonha. Quase um pesadelo. Quando toca pela primeira vez o fá da 1ª corda, a corda parte-se. Um ligeiro som de pizzicato, uma leve ferroada na face. A mão esquerda desce no braço do Stradivarius e na 2ª corda. Ninguém dá por nada. Nem a mais subtil alteração do timbre. Quando Sibelius lhe impõe o fá mais grave, o contacto das cerdas faz rebentar a 3ª corda. De novo o pizzicato, de novo a ferroada na face. Agora os dedos procuram na 4ª corda as notas que lhe faltam na 3ª. De repente, suspenso o arco numa breve pausa, rebentam a 2ª e a 4ª cordas.

Havia uma montanha a meio do caminho.

Daniel de Sá

42º Episódio – Folhetim (II sequência de novelas) – O MÊNSTRUO MÁGICO DAS ORQUÍDEAS GRÁVIDAS – Folhetim em Setenta Episódios por Carlos Pessoa Rosa

o posso fazê-lo enquanto estiverem no meu pé, fiscalizando meus passos… Depois, retomar à escrita caótica e desejante… Precisam de algum tempo ou alguma desgraça provocada pela natureza para me esquecerem. Enquanto isso, suportar meus dedos trêmulos, a salivação incontrolável diante da velha Remington Rand, a abstinência provocada pela falta da escritura, não sei quantas madrugadas mais aguentarei, o que de mim escritura é atraída pelas desoras, quando se ouve os ossos dos fantasmas estalarem junto aos arrotos estrelares, o riso sardônico da morte, o medo latido dos cães, os gritos histéricos dos bêbados, o serrilhar dos segundos…

A víscera já não ronca, grita! Boteco sujo! Há uma vantagem, sem viva alma. Entro. Um sujeito mal encarado palita os dentes, pano encardido sobre o balcão. Peço pão com manteiga na chapa e café com leite. Limpa as mãos no avental que devia estar branco… No alto, a televisão ligada, não há espaço privado, a violência da cidade verborrágica pela audiência. Enquanto aguarda o calor da chapa, o homem olha as imagens que vão se repetindo, o apresentador sabe que o ritornelo hipnotiza, na calçada vejo as pessoas da cintura para baixo, pernas longas, pernas curtas, passos rápidos, o que constrói alguém com transtorno obsessivo compulsivo eu já sei de cátedra, mas qual será o resultado desse transtorno quando o cérebro do coletivo um abismo, um vazio, uma escuridão, mutilado? Pronto! Diante de mim duas olheiras negras, o prato com o pão e o copo de café com leite. Primeira refeição… Nem me lembrava mais. O pão quente e macio, o café de máquina queimando a ponta da língua. Para quem comeu alimento com vermes cozidos… Mastigo curtindo cada dentada, deixando o pão derreter na boca, sabor que acorda sensações antigas, de épocas em que o pão embebido no café com leite e manteiga não trazia o peso da ejaculação precoce de uma ciência empobrecida pelos interesses corporativistas, da verdade do sabido que vomita trabalho acadêmico para direcionar e manter o vício consumista… Agora é a outra víscera que reclama. Melhor esvaziar a bexiga, aproveitar para deixar de vomitar essas idiotices, Amélia nem imagina como são os banheiros dos manicômios, muito pior que os dos bares e dos postos de gasolina… Quem se importaria com o resto, o repugnante produzido dentro de nós e que contamina a atmosfera com seu odor pútrido? A merda produzida pelo homem é autofágica, assim como os frutos do pensar. Um alívio a bexiga vazia… Grávida, a mulher deve sentir a mesma coisa no limite da expulsão. Dos machos, o cavalo-marinho é o que me consta engravidar, expulsa centenas de clones nas águas do mar. Sinaliza alguma questão que não alcançamos. O ser humano, dos animais, é o que mais dedica tempo aos filhos, mas tempo não é qualidade. Quem se diz dono do conhecimento, não alcança o dito. Nada atinge o singular quando sem as âncoras de um tempo partido, roto, fragmentado. Aproveite como autoajuda. Deixo o dinheiro sobre o balcão e saio. O homem continua anuviado, dentro de uma lebreia criada por ele próprio e que vem da tela, trazida pela luz hipnotizadora.

Fico confuso quanto ao rumo a tomar, foi assim a vida toda…

 

(continua)