REALIDADE | Soledade Martinho Costa

 

 

Olho em redor
Mal desperta
O dia acordou mais cedo do que eu.

Pela cortina entreaberta da janela
Vejo o céu
Onde as nuvens galopam
Sem dimensão nem tempo.

Navego os olhos
Pelo branco das paredes
E paro a imaginar-me
Estrela-do-mar ou búzio
Quando os meus olhos se perdem
Nas imagens
Por detrás dos vidros
Onde alguém pintou esses segredos.

E logo os pensamentos
Num tropel
Invadem o meu espaço
O meu refúgio
Como se fosse um mar em tempestade
A inundar de pranto o areal.

Visto-me então da força que resiste
Faço o retorno dos sonhos que são idos
E assim fico sem bússola, sem norte
Sem farol que me oriente os passos
A suster com o coração o temporal.

Soledade Martinho Costa

PARA QUE ME AMPARES | Rui Sobral

 

 

…e é tão mordaz que chego a sentir saudades de ser tudo aquilo que nunca fui…
Eu só quero morder-te como à vida beber, ferrar-te os lábios e agarrar-te sempre que te vejo cair porque num instante vejo-te viva, noutro sinto-te perto…de mim!
Beijar-te as mãos, acariciar toda a tua história porque hoje és ontem também e amanhã quero-te comigo incondicionalmente!
Tu não vês mas eu sou gordo desta dor que me sufoca, mórbido…sem amor…
Eu já nem quero que me abraçes – quero que te aconchegues a ti, que te amarres à lua, quero que voes sob as nuvens e que desamparadamente caias – porque sei que vais cair, nos meus fartos braços sedentos do teu cheiro, do teu calor, do teu cansaço amargurado, sedentos de ti.
Quero que me ouças berrar – berros escangalhados, na areia cultivados, com a forma dos nossos corpos despidos, corpos envergonhados, corpos mudos aos olhos do mundo – calados!, corpos colados e cansados de envelhecer.
Eu já nem quero que digas que me queres se me quiseres. Que me queiras! Se me quiseres aguardo-te nu, ansiosamente frio e com a louca vontade de te agarrar quando caires porque onde quer que estejas e para onde quer que vás eu quero que saibas que sempre terei força para te agarrar, para te segurar…não só por seres alguém mas também por seres a tal.
Minha querida ladra, eu estou pronto para te agarrar.

Rui Sobral

Soneto | Domingos da Mota

 

 

Um verso que desperta, inopinado,
dá passagem a outro, clandestino,
em busca dum terceiro, mais ousado,
ou dum quarto com ar de peregrino,

e seguem o percurso adequado,
por muito que o sexto, valdevinos,
reaja contra o sétimo, excitado,
e levante uns bramidos sibilinos.

Mas assentes as coisas, lá se vão,
até que aparece um que sublinha
o travão implacável que o terceto

impõe a quem avança em contramão:
um freio que provoca e desalinha
o derradeiro verso do soneto.

Domingos da Mota

[inédito]

Prêmio Galinha Pulando de Literatura abre inscrições | Valdeck Almeida de Jesus

 

Estão abertas inscrições para a edição 2015 do Prêmio Literário Galinha Pulando. Até 30 de maio serão aceitos poemas com até 25 linhas e minibiografia com até seis linhas para concorrer a uma vaga num livro. Há dez anos o poeta jequieense Valdeck Almeida de Jesus patrocina este concurso que já publicou mais de 1500 autores do mundo inteiro, com edições lançadas nas bienais do livro de São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Minas Gerais e na Feira do Livro e Imprensa de Genebra.

Mais informações no link http://www.recantodasletras.com.br/redacoes/2660465

De que serviria, de Rui Pires Cabral

DE QUE SERVIRIA

Aquilo que somos não é aparente,
não podemos explicar o sofrimento
de onde procede este amor.
Mas eu não vim para te dizer
como as sombras mistificam
o mundo: não me perguntes nada.
Tu já és a causa por detrás da máquina
dos dias, se eu for por essa terra fora
será para chamar por ti.

Morada – poesia reunida de Rui Pires Cabral, Assírio & Alvim 2015.

Rui_Pires_Cabral

de perfume se fez o frio‏ | Maria Isabel Fidalgo

 

 

tomba um manto de frio sobre o corpo
um frio glacial sobre a cabeça
mais fria é a ausência que pica o ar como uma agulha dorida
estendo-me sobre um cobertor de palavras desarrumadas
e digo sílabas que beliscam a língua…
água sal o teu nome
o nome das coisas onde puseste as mãos
como um rastilho de pólvora em flor
sacudo a memória dos teus cabelos e uma joeira de luz ilumina-me os medos
os cantos da casa vertem uma canção de primavera
agora é de ouro a jarra que adorna a saia
a moldura do teu retrato é uma hélice de orquídeas verdes
que perfumam as lágrimas
e um farrapo de prata borda de amor o silêncio

maria isabel fidalgo

SEGREDOS | Soledade Martinho Costa

 

 

Dobaram-se nos anos das marés
Sem outra condição
Outro provir
Que das areias
Das conchas
E dos limos
Serem a hora exacta
O sal onde se afogam
As palavras
Que a voz
Deu aos sentidos.

Os nomes e os sinos
Que se escutam
A percutir de frio
Nos ouvidos
São a tormenta
O poema que se afunda
Nos dias que se arrastam
Pelas sombras
A dar ao coração
Maior vazio.

São mistérios
São ritos
São cristais
São lágrimas
São esperas
Emoções
Ou espadas
No recato de seus gumes.

Temporais
Onde o mar
Busca nas ondas
Bruxedos
Que os corais
Escondem na espuma
Roubados dos abismos
E das brumas
Que o Sol não atravessa
Com seus lumes.

Soledade Martinho Costa

Do livro a publicar «Ao Longo da Margem»

Quatro Cantos do Mundo, de Cristina Carvalho

Captar a essência do que se narra e transmitir o belo e o aterrador da vida sem que a escrita hesite ou se exalte. Porque tudo na natureza atinge esse momento em que a noite nos alcança no topo desse mundo branco. E sempre foi assim, mas de cada vez que o é, algo de mágico acontece. Não teremos vivido se não conhecermos estes quatro cantos do mundo. Um livro de Cristina Carvalho.

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UM PIANO AO FIM DA TARDE | Soledade Martinho Costa

 

 

O sopro da distância
Traz-me o som sem palavras
De um piano.

Em voos de borboleta
Que dedos afloram as suas teclas
Quem se debruça nelas?

Nas notas que se abraçam
Ao perfume verde da paisagem
Enquanto a tarde esfria
A melodia aquece o coração.

Sobrepõe-se e silencia
O rumorejar do arvoredo
E o marulhar das ondas
A oferecer uma orla de renda ao areal.

Mistério, segredo, magia
São as palavras certas
Os acordes têm asas e soltam-se
Talvez por uma janela aberta.

O momento torna-se irreal
Fecho os olhos e penso
Quanta perfeição, quanta harmonia
Entre a música e a natureza.

Fecho os olhos e tenho a certeza
De que alguém, ao longe
Toca para mim.

Soledade Martinho Costa
Do livro a publicar «Ao Longo da Margem»

OS TURISTAS | Lícinia Quitério

 

 

Os turistas de massas, presumíveis su¬cessores dos viajantes aventureiros, deslocam-se em autênticas hordas, mundo fora, obedien¬tes à bandeirinha, ao guia que os faz correr, suar, rápido, rápido, atenção às bolsas, não po¬dem fotografar, entra em igreja, sai de igreja, sobe à torre, não sobe à torre, atenção à hora, quem não estiver não embarca, habla español, english, português no, Bolivar you know, mind the step, signora, nice eyes madam, vamonos, vamonos, time is money, you know, o museu, numa corrida, um quadro, dois quadros, trezen¬tos quadros, uma angústia, quero lá saber de mais quadros, depois vejo na net, os pés, os pés, o calor, o suor, a bandeirinha do guia, não o podemos perder, Garcia Marquez, o tempo de cólera, a varanda de Fermina Daza, o trote do cavalo, pude ouvi-lo, vim de livro aberto, até o violino, sim, uma foto do balcão, e seguir, seguir sempre, a horda, as hordas, só assim eu poderia ver a rua, a varanda, ouvir o violino, sentir a asma da mulher do general, o restolhar das fo¬lhas, melhor, a hojarasca, fingir que que fui mais longe dentro dos livros, da mágica de Gabo, com a horda, graças à horda, apesar da horda, colo¬rida, suada, ululante, em movimento, sempre, mundo fora, mundo além.
Licínia Quitério

As mãos vazias | Lídia Borges

 

 

As mãos vazias de temporais,
de tragédias, de grandezas,
regressam da cidade
sem promessas de paz ou abundância.

Nos campos, a ondulação do pão
perdeu-se do vento e nas casas
portas e janelas batem
umas atrás das outras.

Tremulam borboletas de frio e sombra no silêncio
e os homens espalmam-se
contra as paredes a fumar e a navegar
azuladas ondas de fumo,
enquanto os cães vadios
devoram tudo ao longe.

A terra pesa debaixo dos pés
e a prosa, contra a minha vontade,
ganha limos e lodos como um bote carcomido
à beira de se afundar.

Arranco da poesia
um ramo onde canta um rouxinol
e com ele faço uma jangada para atravessar
o novo dia que já lá vem.

Lídia Borges, “Sementes Daqui”

ESTE ESCRITO NÃO TEM TÍTULO. NÃO SEI PORQUÊ. | Rui Sobral

 

 

O mundo parece-me o tronco de uma árvore, velho, onde passeio, vagueando de uma ponta à outra, voltando atrás repetindo o caminho vezes sem conta enquanto escorrego, por vezes, agarrando-me com mãos dormentes, mãos de braços tristes e choro! Estou tão farto, tão cansado de magoar ou outros que me apetece não ver mais primaveras nem outonos, caminhos e pessoas! Tão cansado de percorrer esperanças que acabam fazendo com que volte ao início, tão cansado desta vida curta, desta vida farta e eu tão farto dela. Tão cansado de não ser entendido, de não ser compreendido, tão farto de não ter fé nem coragem em mim, tão cansado de ter pena de mim na esperança que de mim tenham pena sem que queira que tenham pena de mim, tão cansado de aguardar riqueza sem a procurar quando sei onde ela está. Ando tão cansado que pensem que é uma fase o motivo pelo qual me sinto cansado. Estou tão cansado de estar cansado! Tenho objetivos e sonhos que não cabem neste mundo vendido, que é também o mundo onde vivo, são sonhos que cabem na mente minha que vive neste mundo vendido que é também meu. Sonho matar a minha alma, a minha mente, conseguir arrancar as dores tatuadas no meu pensamento como se de um dente se tratasse e sem repulsa ficar vazio, oco, cheio de nada. Viva o nosso mundo vendido! Fui tão afortunado que não sei sequer governar-me, tenho amor a rebentar com as costuras do meu coração, tenho um motor na cabeça que não para de pensar nem se esquece do que pensei, é uma fábrica de pensamentos que assombram o meu viver e que rebentam o meu crânio. Não cabem mais! Ajuda! Desta sorte, o mundo parece-me o tronco de uma árvore!

in “a nu” de Rui Sobral

Poema «Bicho»‏ | Vera de Vilhena

 

 

«(…)

Não há o desplante de uma grande frase

Quando somos bichos roedores, de barriga cheia,

A quem não importa a chuva, o vento, o frio, a tempestade.

Ela ali está, do lado de fora, mas não nos atinge,

Já que andamos assim, como esquilos regalados.

Tudo pode ser até mais do mesmo, a vida,

Os frutos que já tínhamos na mão sem vontade de comer,

Sem ver; e é agora um pequeno manjar, um doce paraíso crocante,

O corpo leve, no torpor, na protecção de uma fina cúpula

Que a felicidade tece à nossa volta.

É dia 5 e ando nisto.

Tenho a casa do avesso e a alma organizada,

No desarrumo de gavetas e salinhas invisíveis,

No festim dos sentidos, na celebração de um lado luciferino

E narcisista que não permite o desconforto da consciência.

Essa, a consciência, anda algures, soterrada

Num montículo de nozes descascadas e,

Se não se acautela, o diabo ainda a come também.

(…)

As horas não cabem na cova de um dente.

E, na beatitude destes dias, escuto, ao longe,

O eco dos queixumes mais patéticos –

– Não da verdadeira miséria humana, que essa,

Sendo pobre, não tem voz – e fujo

A enfiar a cabeça no conforto da minha toca…

Porque ando assim, como bicho,

E os bichos não mordiscam o caroço às filosofias.»

(Vera de Vilhena in “Fora do Mundo”, Poética Edições, Dez 2014)

PAULA REGO | Soledade Martinho Costa

 

 

Nas formas retratadas

Os segredos.

 

Em matizes

Em assombros

Em fulgores

Sem aviso

Sem final

Sem começo.

 

A mulher por modelo

É escolha tua.

 

Mítica lua

Intemporal e nossa

Em nossa Língua

Feminina e nua

A dar-se inteira

Lida do avesso.

 

 

Soledade Martinho Costa

Do livro a publicar «O Nome dos Poemas»

eterno é este momento | Maria Isabel Fidalgo

 

 

longe do mar. está fria a noite na sua nudez de mármore. não preciso de nada e falta tudo. falta o brilho dos peixes buliçosos junto aos búzios e o pulsar do mar lento e calmo , respiração tranquila na vastidão da água. faltam os barcos ao longe desafiando a distância. e mesmo os de perto com babas das ondas. Tenho os olhos verdes entupidos de algas onde as escondi para me surpreender no manto do inverno. e ainda as telas marinhas- beijos de água com tinta azul e outras de mistura. sorvo-as desde o tempo de catraia inquieta, onde julgo ter existido no mar do norte. agora estou velha, mas o mar é o mesmo e dá à vida uma dimensão de eternidade, ainda que fictícia. mas eterno é este momento em que te inscrevo na orla marítima para que fiques nela gravado e sobre ela o meu nome num degrau da falésia.

Maria Isabel Fidalgo

Chico Buarque e Carlos do Carmo colaboram nas novas edições da obra de José Saramago

Ensaio sobre a Cegueira e Que farei com este livro? regressam às livrarias no ano em que celebram 20 e 35 anos. Em 2015 celebram-se os 20 anos da publicação de Ensaio sobre a Cegueira e os 35 anos da publicação de Que farei com este livro?, uma efeméride que fica marcada com as novas edições que a Porto Editora lança no dia 6 de fevereiro. Estes dois livros de José Saramago contaram com a prestigiada colaboração do escritor e músico Chico Buarque e do fadista Carlos do Carmo, que escreveram, com a sua caligrafia, o título para a capa de Ensaio sobre a cegueira e Que farei com este livro?, respetivamente.

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A Conversa de Bolzano, de Sándor Márai

Casanova, um nobre de Veneza, encontra-se em fuga da temível prisão dos Piombi. Percorre hortos e florestas com cautelas de lobo, deixando atrás de si um rasto de conversas de regozijo por alguém da sua cidade ter enganado o poder. A sua evasão, a provar ser o homem mais forte que o braço do carrasco, é recebida com júbilo e por toda a parte onde a notícia chega, existe quem sorria. Outra, é a forma como os senhores de Veneza, os que tinham por ofício manter os homens subjugados ao poder, encaram essa fuga. Porque não há nada mais perigoso do que um homem que não é capaz de se submeter à tirania.

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O tempo | Maria Isabel Fidalgo

 

 

hoje o dia encheu-se de horas pequeninas
e eu fiz uma viagem dentro delas encolhendo-me toda
para ver o tempo na sua intimidade.
nunca tinha olhado para dentro do tempo com esta curiosidade
bisbilhoteira.
estava todo arrepiado enrolado nos ponteiros do relógio
transido nas articulações empenadas
de forma que parei a corda
calaram-se as horas
sucumbiram os segundos.
saltei para fora e ao espelho vi um rosto de maçã vermelha
da cor das cerejas.
fiquei então fora do tempo a enfeitar-me para um qualquer assobio
e saí devagarinho pelas traseiras
como uma serpente de flanela verde
trepando à arvore do paraíso.

Maria Isabel Fidalgo

Mulheres que fizeram História | Adelto Gonçalves

I

A História do Brasil, como a de tantos países, até hoje tem sido escrita sob uma ótica masculina. Neste país, quando se lê livros da época colonial, é como se as mulheres sempre tivessem vivido numa penumbra social, limitando-se a reproduzir. Até mesmo nesta função sua presença tem sido relativizada. Basta ver que os chamados bandeirantes até hoje são idealizados em gravuras e estátuas como se fossem brancos, bem vestidos, embora nos séculos XVII e XVIII a presença de mulheres brancas na América portuguesa fosse insignificante. Na imensa maioria, os bandeirantes seriam filhos de indígenas, de africanas ou de miscigenadas, pois poucas mulheres brancas enfrentaram o desafio de atravessar o Atlântico.
Foi preciso que o historiador Luciano Figueiredo, doutor em História Social pela Universidade de São Paulo (USP) e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), escrevesse dois livros basilares sobre o assunto – O avesso da memória: cotidiano e trabalho da mulher em Minas Gerais no século XVIII (Rio de Janeiro, José Olympio, 1993) e Barrocas famílias: vida familiar em Minas Gerais no século XVIII (São Paulo, Hucitec, 1997) para que se descobrisse que, no século XVIII em Minas Gerais, parte significativa das mulheres negras e mestiças atuou no comércio, contribuindo decisivamente para o crescimento da economia da capitania.
Muitas dessas mulheres eram conhecidas como as negras de tabuleiro, enquanto outras eram proprietárias de vendas, as vendeiras. Neste caso, sua importância foi inegável para o abastecimento das zonas mineradoras. Outras se envolveram com ofícios mecânicos, sozinhas ou, às vezes, lado a lado com seus maridos ou concubinos em padarias, tecelagens ou alfaiatarias. Se assim foi em Minas Gerais, com predominância de mulheres negras, em outras regiões, como em Goiás, a presença maior teria sido das indígenas e miscigenadas.
Nenhuma delas, porém, ao que se saiba, chegou a se afirmar em patamar de igualdade no jogo do poder, embora muitas tenham tido papel relevante nas questiúnculas palacianas, valendo-se provavelmente da atração física para barganhar favores junto a governadores e outras autoridades. Na Antiguidade, porém, há alguns exemplos de mulheres que se celebrizaram em épocas, espaços e sociedades distintas, exibindo em comum a força e a ousadia do enfrentamento com os homens e o poder instituído, de que a Rainha de Sabá talvez seja o exemplo mais clássico, até porque aparece na Bíblia (I Reis, 10:1-13). Mas há também os casos de Elisa, Cleópatra e Zenóbia, que se destacaram na História por sua sagacidade e inteligência, personagens do livro Rainhas da Antiguidade: sedução e majestade, ensaio de História do mundo antigo da professora Dirce Lorimier Fernandes, doutora em História Social pela USP, que acaba de ser lançado pela editora Letra Selvagem, de Taubaté-SP.

II

A princesa fenícia Elisa é a Dido, a imortal musa de Virgílio (70ª.C-19a.C), aquele que foi escolhido por Dante Alighieri (1265-1321) para descer ao Inferno em A divina comédia. No livro II da Eneida, Dido acolhe Eneias em Cartago e lhe pede que conte a tragédia da derrocada de Troia. Tornam-se amantes e o idílio vai até o livro V, quando o destino obriga Eneias a seguir viagem para fundar o reino da Itália. Amargurada, a rainha africana atira-se a uma pira funerária.
A segunda personagem deste livro é a rainha egípcia Cleópatra (69a.-30a.C), aquela que subjugou pela paixão os imperadores romanos César (62a.C-14d.C) e Marco Antônio (82a.C-30a.C). Era descendente de Ptolomeu (366-283a.C), general de Alexandre, o Grande (356a.C-323a.C), que depois da morte do comandante macedônio, resolveu criar um império no Egito. Cleópatra não desempenhou apenas o papel de princesa romântica, lasciva e pérfida que as lendas e o cinema lhe impuseram, mas foi uma militante política, obcecada pela restauração do reinado ptolomaico.
Já Zenóbia (século III d.C), a Rainha do Deserto, três séculos adiante das duas personagens anteriores, tornou-se soberana absoluta na pequena Síria, então reino de Palmira. Apoiou o judaísmo, patrocinou poetas e pesquisadores e lançou-se a uma aventura expansionista, desafiando o poder de Roma. Proclamando-se parente de Cleópatra, conquistou o Egito, mas sucumbiu diante do exército de Aureliano (214-275).

III

A escolha dessas três mulheres incomuns pela historiadora Dirce Lorimier Fernandes para personagens de seu livro mostra, segundo Joaquim Maria Botelho, autor do texto de apresentação publicado nas “orelhas”, a admiração da autora “pelas mulheres fortes – mesmo as que pereceram, vitimadas pelas próprias fraquezas”. Para Botelho, “este livro é uma composição narrativa de verdades e mitos, descortinando informações que ultrapassam a frieza histórica”.
Na introdução, a historiadora explica que o enfoque do trabalho é “o papel dessas mulheres na História, especialmente na vida pública, fora da oika (casa), ambiente que as mulheres do entorno da nobreza continuavam dirigindo, ao mesmo tempo em que algumas privilegiadas atuavam em vários setores do saber”. Ela lembra que foram raras as civilizações antigas, com exceção do Egito, em que a mulher alcançou postos sociais importantes.
Fora do círculo de Elisa e de Cleópatra, diz, na Grécia a situação feminina era ainda mais degradante, pois, não tendo personalidade jurídica nem política, sempre estava à sombra da figura masculina que se encarregava de tratá-la como uma possessão em todos os sentidos. “Esta dependência gerava o analfabetismo e, em muitos casos, as mulheres deviam se conformar com a educação recebida de sua mãe”, acrescenta.
Segundo a professora, quanto ao matrimônio, a mulher era objeto de troca, não somente do possuidor senão que geralmente se dotava com propriedades por parte do pai ao prometido para assegurar o acordo matrimonial, mais parecido a uma transação econômica. Aliás, um comportamento que ainda valia para o século XVIII em Portugal e suas possessões ultramarinas, pois foi só com o Romantismo que o casamento passou a ganhar outro foro com a valorização do amor, da fé, do sonho, da paixão e da intuição.

IV

Dirce Lorimier Fernandes é professora universitária, licenciada e pós-graduada em Letras pela Universidade São Judas Tadeu (USJT) e doutora em História Social pela USP, além de crítica literária e ensaísta, além de membro da diretoria da União Brasileira de Escritores (UBE) e da Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA). É, ainda, coautora dos livros: Meu Nome é Zé (São Paulo, Ideograma Técnica e Cultura), contos, Antologia de Contos da UBE (São Paulo, Editora Global, 2009) e Inquisição Portuguesa – Tempo, Razão e Circunstância (Lisboa, Prefácio, 2007). É organizadora e coautora do livro Religiões e Religiosidades – Leituras e abordagens (Arké 2008).
É também autora de A literatura infantil (Edições Loyola, 2003), A Inquisição na América Latina (Editora Arké, 2004) e Rainhas da Antiguidade: entre a realidade e a imagem do poder – Teodora, a imperatriz de Constantinopla, Urraca e Teresa, duas rainhas obstinadas (São Paulo, Clube dos Autores, 2012), entre outros.

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Rainhas da Antiguidade: sedução e majestade (Elisa, Cleópatra e Zenóbia), de Dirce Lorimier Fernandes. Taubaté-SP: Letra Selvagem, 160 págs., R$ 25,00, 2014. Site: www.letraselvagem.com.br
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981), Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003) e Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

RAIMUNDO | CONTO IV | COLECTIVO NAU | Carla M. Soares

 

 

Dizem que Raimundo conheceu muito mundo. Que andou por muitas terras e conheceu muitas gentes, viu as bestas marinhas e os homens-cão, essas coisas de reverso do mundo que nunca ninguém encontrou em todos os anos de navegação na terra e no espaço, mas vivem na imaginação e a imaginação, todos sabem, é o princípio e o fim de todas as possibilidades.
Eu cá não sei. Sei que andou no mar, adivinhei pela cor da pele e pela grossura dos braços como cordame de vela, pelo ar de quem ao chegar já partiu, olhos no horizonte mesmo que o horizonte seja rectângulo de janela, mas quando me cruzei com ele era bicho silencioso e pouco me contou das suas andanças. Tinha voz rouca, imaginei-a a comandar atenção se a levantava, ouvi-la, ouvi a pouco, até o copo de vinho pedia erguendo o vidro vazio. Preferia sentar-se calado como o vi nesse dia e noutros, com o olhar longe dali, a quietude de um mar lá dentro a levá lo dali para outras partes. Talvez pensasse em terras de ninguém com seres que eu nunca vi, isto imaginei eu, nunca mo disse, e se lhe perguntava alguém encostado ao balcão,
– Ó Raimundo, o que é que achas,
Raimundo encolhia os ombros. Nunca lhe conheci outro amigo senão eu, e eu era seu amigo mas ele não sei, eramos companheiros de mesa e copo e absoluto silêncio.
– Não quero peso de gente,
foi o que me disse quando me sentei pela primeira vez ao seu lado ao fundo da taberna, onde estava mais escuro. Não respondi, porque não podia, que ninguém me levaria consigo porque eu não tinha nome para oferecer. Homem sem nome não chega a homem. Nem teria as minhas histórias porque não tinha voz para contá-las. Abri em vez disso a boca para ele ver o espaço vazio onde devia estar a minha língua. Também não lhe contaria a história de como a perdera em moço, por tê-la demasiado comprida e dizer o que não devia. Negra história. Nunca mais diria nada, porque me repugnavam os sons que a minha boca vazia agora deitava ao mundo. Era mudo, pois, surdo não.
– Sou de Cuba no Alentejo,
acrescentou, como se isso o redimisse do olhar aguado debaixo das sobrancelhas sem cor e do cabelo comprido e louro e espesso, o ar de viquingue perdido em terras mouras, homem grande, grande, o topo da cabeça quase a tocar na trança de cebola suspensa do tecto feito a pensar nas estaturas comedidas dos homens alentejanos. Vi no olhar azul desse mar caribenho da TV, mar de piratas, ou se calhar vi foi em mim, mas é certo ter visto que no primeiro dia em que os abriu e fixou os de sua mãe, antes mesmo de saber o que era ser gente, soube que trazer consigo os nomes e o amor dos outros era trazer o peso das suas vidas. Calou-se, pois, criança de pouco choro, adulto sem palavras, para não deixar nem levar nada de si e consigo.
– Se vais à procura de conversa, não a encontras aí, ó mudo,
riram-se todos da graçola do taberneiro,
– Que esse aí desde que veio da guerra não abre a boca. Um bicho qualquer levou-lhe a perna e comeu-lhe a língua em Angola. Quem te comeu a tua, alguma gaja,
e riram-se todos outra vez, como se não soubessem que o marido ofendido que ma arrancara numa noite escura, prometendo livrar-me de outros dos meus pesos mais preciosos se apontasse o caminho de sua casa à Polícia, me espreitava duas mesas adiante, arreganhando os dentes podres na alegria do poder do medo. Olhei para Raimundo com outro mundo nos olhos, a perguntar-me sobre o seu medo, e vontade de espreitar para debaixo da mesa, para saber se teria perna de pau como algum pirata de outra era. Pirata de Caraíbas nos olhos, conchas nas orelhas, areia nos cabelos. Em vez disso segurei-lhe o silêncio com o meu silêncio e intersectamos os nossos mundos, o dele fora de si, o meu dentro de mim, fechados num copo de vinho.
Sabia portanto dele muitas coisas que não me disse, sei lá se as viveu, eu podia sabê-las todas porque não lhas perguntaria nem ele mas negaria e ficariam na minha memória como se verdadeiras. Sabia que guardava cheiros em vez de nomes, mas não de gente, só o dos seus passos nas terras por onde passara. A viagem de autocarro de Cuba para Lisboa cheirava-lhe a fumaça de escape e suor, Lisboa era pressa e pombos, o cheiro do mar era sal denso e peixe, às vezes tempestade. Havia lugares com cheiro a asfalto e a pó de chão, e lugares com o perfume verde das folhas, com o aroma do côco, com o fedor das lixeiras, das latrinas, com o picante adocicado do caril, com a leve fragrância de flores, com o odor quente de grandes bichos. Da gente, achei eu, se trazia algo era o fedor do sangue, das vísceras. Eu não tinha ido à guerra, um homem sem língua não servia para a morte dos outros, a guerra podia pois ser o que eu quisesse. Nos olhos de água de Raimundo, ela era a bala que subia pelo cano da arma num odor chamuscado e ia enterrar-se na carne preta. Era a que, de regresso, levava um olho a um companheiro, a vida a outro. Era o cheiro do mato e do capim, tinha ouvido dizer que podia ser alto como um homem, mesmo assim via a cabeça loura de Raimundo sobressaindo como um farol entre as ervas, os mouros lusitanos todos mais pequenos que os seus ombros. Talvez isso lhe tivesse custado a perna. Decidi que não. Fora um jipe de combate derrubado por uma mina, tombado à beira da estrada, o gigante Raimundo berrando os seus últimos berros antes do silêncio, de espanto, de dor, ele perdia a perna, era pouco, outros perdiam para sempre o fôlego. Vira fotos assim, um soldado agarrado à barriga que se vertia para fora, outro inteiro como se dormisse, dois ou três acocorados em redor dos que punham nessa madrugada fim a todas as batalhas.
– Ó Raimundo, diz aí qualquer coisa ao mudo, olha dois doidinhos,
Os homens riam-se porque era fácil rir de quem não lhes levantaria a mão e nem sequer a voz. Raimundo levantou em vez disso o copo e abriu um sorriso de dentes brancos, o da frente lascado.
– Falo com a tua mulher,
rosnou, ouvi-o eu, o taberneiro de costas rodava a torneira da pipa para outro copo. E eu vi Raimundo com as fartas carnes da mulher de outro entre as mãos, silencioso no ofegar ansioso do sexo como era na vida, mulheres muitas, nunca uma sua para não perder a alma como perdera a perna.
– Tenho fome, queres comer,
pensei, toquei-lhe no braço e fiz sinal, podiamos comer juntos agora que o conhecia melhor do que ao meu pai, dele nem a cor do cabelo lembrava e não lhe queria imaginar voz nem intenções, não fosse encontrar desamor por mim na raíz da sua partida intempestiva, a salto fronteira afora para terras de França,
– Mulher, vou ganhar a vida,
parece que disse a minha mãe, mas e se ao pensar nisso em vez dessas palavras, outras,
– Mulher, estou farto desta vida,
razão suficiente para se ter feito invisível desde esse dia. A Raimundo via-lhe eu a forma e criara-lhe eu um feitio, mas não me feriam as causas da sua ausência, mesmo enquanto ainda ali estava, menos ainda quando não estivesse.
– Então, queres comer ou não,
mas da inexistência da minha língua só se ouviu «hum, hum». Ele soltou um grande suspiro, tanta impaciência num bocadinho de ar, estendeu a mão para uma muleta de pau encostada à parede, que pena, uma muleta em vez de pirata da perna de pau, levantou-se pesado e enorme e saiu em passo largo de perna e amparo.
Esse foi só o início. Depois tive Raimundo muitas vezes à minha mesa, só um copo de vinho até a estranheza se fazer costume e se habituarem na taberna e na aldeia que mudo e perneta se sentavam juntos, dois círculos de vazio com uma mesa no meio. Vazio para eles, que silêncio não é vácuo. O meu pequeno espaço passara de cheio para atravancado, agora que trazia comigo não só a minha vida mas um mundo alheio que crescia a cada dia. Não havia mundo melhor, no que de mais feio e mais belo, por ser todo só meu com outra pessoa dentro. E na verdade, se Raimundo vira muito mundo eu não sabia, mas, olhando para dentro, via-o eu todinho pelos olhos que ele nunca virava para mim.

Carla M. Soares