RAIMUNDO | CONTO VIII | COLECTIVO NAU | Sónia Alcaso

Dizem que Raimundo conhecia muito mundo. Era um artista e, também dizem, que os artistas na medida em que pisam o chão e aspiram à eternidade é com os homens que têm de lidar e quantos mais homens conquistarem mais alto chegarão. Mas, e isto sou eu que digo, há saltos bruscos que os fazem perder o pé e quem nunca se teve firme, ao debruçar-se nas ameias de um qualquer castelo, atirar-se-á dali abaixo.

Conheci Raimundo pobre. Fomos amigos de infância e juventude, em Cuba, no Alentejo. Já em menino, Raimundo passava a vida a mentir, e a mentir bem. Era uma criatura estranhamente cativante. Quando aprendeu a ler, começou a decorar as histórias que lia e passava os dias a representar. Desde cedo, soube o que queria fazer na vida.

Trocou Cuba por Lisboa para estudar teatro e, quando saiu do conservatório, já estava noutra volta do caminho; tinha agora o melhor do seu lado: a técnica, a arte e a teimosia para vencer.

No início olhava com a mesma desconfiança as asas do futuro e os tamancos do passado, mas as oportunidades criaram-se e Raimundo tornou-se num grande actor. Actuou em palcos portugueses, russos, alemães, franceses e até foi a Hollywood. Vestia a pele dos outros e encantava a plateia com as suas representações. No seu carácter, na luz dos seus olhos, nas suas falas, estava uma força maciça e soberana, irresistível, disputada por grandes encenadores de teatro do mundo inteiro.

Mas, digo-vos agora: aquele à-vontade que toda a gente julgava ser um dom, na verdade era uma pobre defesa. Raimundo era um dos seres mais frágeis que existiu à face da terra. E não resistiu a essa malfadada meretriz, às graças da qual poucos escapam – a vaidade. Sim, asseguro-vos que a vaidade é capaz de destruir um homem. Raimundo tornou-se cego e obstinado como uma varejeira infernizada contra uma vidraça. Bastaria, talvez, ter um momento de serenidade e em qualquer fresta da janela poderia estar a liberdade. Mas, não! O demónio da mosca continuou a teimar, arreliando todos com o seu zunir e… zás.

O declínio de Raimundo começou no dia em que recebeu o primeiro não. Noites a passar em claro cenas inteiras e, no fim, foi preterido por um actor mais novo. Caíram sobre ele mil argumentos confrangedores.

Esse peso, Raimundo, está acima do pretendido!

É inútil combater a idade, Raimundo!

A tua memória já não é como era, Raimundo! 

Raimundo, com 70 anos, ainda não era convidado a aposentar-se, mas já não servia para a grande maioria dos papéis. E, esse facto, era para ele causa de mil inquietações.

Um actor é cheio de artifícios, tanto poderei ter 30 ou 50 anos, tanto mais que sou um actor de teatro, visto ao longe.

Já estás desactualizado, Raimundo, a arte tem esse preço! Sem atraiçoar o passado, recolhe o que ele tem de eterno e retira-te dignamente.

Não, a cena final, em que desanda tudo numa choradeira de funeral, ainda não chegara para Raimundo. Estava-se nas tintas para as tretas filosóficas e as opiniões dos outros e dizia a alta voz que, desde que o money circulasse, tudo se poderia comprar. Até uma personagem. Tornou-se ainda mais combativo, a berrar de um lado, a gritar do outro, com iguais doses de ousadia e pretensão. Seguiram-se muitas derrotas e desilusões. A exaltação foi dando lugar ao ridículo e até alguns dos seus inúmeros admiradores começaram a olhá-lo de soslaio. No palco, o corpo deixou de lhe obedecer; os músculos que lhe exigiam firmeza, amoleciam, a voz enfraquecia, a inspiração faltava-lhe. O mundo pedia a Raimundo para se retirar, dar a vez aos próximos, talvez voltar a Cuba e reencontrar a própria alma no chão que o viu nascer. Mas ele recusava-se a envelhecer como mais um ser incolor e anónimo. E continuou a somar frustrações, a embrenhar-se pelos atalhos negros da perdição. Era doloroso ver as mazelas de um grande artista assim expostas! Onde antes havia uma imagem luminosa, existia agora uma caricatura disforme e aterradora. A fortuna foi esbanjada em sexo e álcool; os casamentos-relâmpagos com jovens oportunistas sucederem-se. Até não sobrar nada. Até nem sobrar homem.

Dizem que Raimundo conhecia muito mundo. Duvido que o mundo o reconheça agora. Há quem diga que o viu, há pouco, numa rua de Lisboa, de mão estendida, com o sorriso habitual, de ironia, a almofadar-lhe o orgulho. Outros garantem que anda pelos jardins do Júlio de Matos, a declamar o Rei Lear. Já eu, iria jurar que o vi no Castelo de São Jorge, debruçado nas ameias, a olhar o longe e a deixar a alma, finalmente serena, sair do peito e voar feliz por baixo das nuvens.

Um derradeiro verso‏ | maria isabel fidalgo

 

 

Quando os meus olhos disserem adeus às coisas últimas
e atirarem um derradeiro aceno às palavras que me cercam
não sei se a consciência terá a lucidez para escrever ainda
um verso inteiro ou mesmo partido pelo ângulo agudo da vertente
onde me deitei sobre sonhos e sonhos.
Sei que gostaria, no adeus da despedida, ouvir a voz da aurora
a ressoar num cântaro junto à fonte
o encaracolar das rolas nas árvores quentes de ser estio
e o azul descansado do fim do sol numa carícia solitária de intimidade.
Quando os meus olhos se fecharem para a imensidão de ser eu
uma partícula ínfima de nada
uma voz de berço podia vir de mansinho
fechar-me os olhos como um beijo
para eu partir na ilusão de que mesmo na imensidão do vácuo
a música não cessa no corredor das rosas cerceadas.

maria isabel fidalgo

A TENDA | Soledade Martinho Costa

 

 

Na tenda
Feita de uns metros de plástico
Roto e transparente
Uma mulher
Um homem e o vento
Sob a noite de Inverno
Inclemente
Devassada pelas luzes dos faróis.

Como espectros
Sobre o terreno alagadiço e mole
Agitam-se num espanto
As velhas oliveiras.

Enquanto a noite rola
E o temporal
É para os dois a dobra do lençol.

Soledade Martinho Costa
Do livro «A Palavra Nua»

Natureza morta | Domingos da Mota

 

 

Esgotado o filão, perdido o rasto
do veio que chegou até ao fundo,
no mais fundo poço, o ar nefasto
contagia os pulmões, torna-se imundo

e logo sufocante. E, ademais,
os gases venenosos, poluentes,
empestam as fissuras naturais
e corrompem o fio das nascentes.

Esboçado o quadro, eis a paleta
com as tintas sombrias do futuro,
uma vez que o presente nos afecta
quando infecta o fluxo de ar puro

que piora de forma inexorável,
até ser puramente irrespirável.

Domingos da Mota

[inédito]

‘Os ventos gemedores’: saga do Brasil arcaico | Adelto Gonçalves

I

No Brasil, sempre foi assim: a luta pela terra invariavelmente produziu heróis falsos e mártires verdadeiros. E o Estado sempre esteve ao lado dos mais fortes, aqueles que conseguiam pela força subjugar os demais. Para aqueles que venciam, nunca faltou a falsa pena dos escribas para legalizar suas conquistas nos papéis dos cartórios e incensá-los na História. Ainda hoje é assim: os mandões do sertão ganham placas e viram nome de fundações ou de ruas, avenidas ou rodovias. Já para os derrotados sobram – quando muito – uma vala sem lápide e o esquecimento eterno.
Sempre foi assim, desde os tempos dos chamados bandeirantes, homens mestiços, filhos de mães indígenas ou miscigenadas, que largavam tudo na cidade de São Paulo ou em vilas como Santana do Parnaíba e Taubaté para, a partir de Araritaguaba (hoje Porto Feliz), seguirem em canoas à frente de uma legião de índios carijós, mulatos e negros em busca de indígenas que pudessem ser escravizados, de ouro e pedras preciosas e mais terras. Como arrastaram as fronteiras do Brasil para além do Tratado de Tordesilhas, hoje, alguns desses régulos são homenageados com estátuas e monumentos em que aparecem como homens de feições brancas, bem trajados. Provavelmente, seguiam para os sertões descalços e quase semi-nus, como os indígenas e africanos que comandavam.
Ainda hoje é assim. Volta e meia, algum parlamentar é acusado de manter trabalhadores sob regime escravo em suas fazendas. De outros dizem que, em suas terras, ninguém entra sem autorização: se alguém entrar, ainda que involuntariamente, será recebido à bala por modernos jagunços bem armados, enquanto o mandão desfila sua onipotência em Brasília ou mesmo em congressos lusófonos em Lisboa. Os mandões modernos já não são grosseiros como os de outros tempos: afáveis, conquistam o interlocutor com muita simpatia e salamaleques.
E, assim, o mundo arcaico convive com o Brasil moderno sem maiores sobressaltos. É esse Brasil arcaico que o leitor vai encontrar no romance Os ventos gemedores, de Cyro de Mattos (1939), que acaba de ser lançado pela editora LetraSelvagem, de Taubaté-SP, em sua coleção Gente Pobre (narrativas). Ambientada nas terras do Sul da Bahia em época que se supõe que seja a de meados do século 20, a trama se dá no condado imaginário de Japará, à la William Faulkner (1897-1962), região onde a mata até então impenetrável começa a dar lugar às primeiras roças de cacau e pastos para bois e vacas. É o cenário de Terras do Sem Fim (1943), clássico romance de Jorge Amado (1912-2001), que, a rigor, inaugura a saga cacaueira do Sul da Bahia.

II

Aqui, a luta pela terra coloca, de um lado, Vulcano Brás, um régulo do sertão acostumado a mandar bater e até matar; de outro, o vaqueiro Genaro, escolhido como líder pelos explorados, gente envelhecida precocemente que traz a pele engelhada pelo trabalho de sol a sol. Como Almira, moradora de um casebre, que procura entender, numa espécie de monólogo interior, como o vaqueiro Genaro encontrou coragem para chefiar os homens no levante:
“(…) Ele havia dito que os homens estavam dispostos a enfrentar o despotismo de Vulcano Brás, “não tenha medo, dessa vez, a gente vai tirar o freio da boca, a argola da venta, o chicote das costas e a espora da barriga”. Deu-lhe em seguida a notícia de que os homens queriam ele como chefe do levante, ela então teve medo, pensou na morte a espreitar pelos cantos todos eles, de dia e de noite”.
Depois, Almira questiona: “Que adianta fazer esta revolta, Genaro? O lado de Vulcano Brás sempre foi mais forte”. Mas ele responde “A pior derrota é daquele que não luta”, acrescentando que “onde ninguém faz nada contra Vulcano Brás só a vontade dele é a única que impera, e os que se agacham permanecem assim mesmo o tempo inteiro, trabalhando, trabalhando, sem nunca ter nada na vida”.
Ainda hoje é assim não só Sul da Bahia, mas em todo o Brasil: aqueles que trabalham na terra só costumam se aposentar aos 65 anos de idade, isso quando conseguem apresentar papelada reconhecida pelos sindicatos rurais que comprove o tempo de trabalho na roça. Para ganhar salário mínimo.
O final deste livro conta a batalha corpo a corpo entre os jagunços de Vulcano Brás e os homens de vaqueiro Genaro e – ao contrário do que normalmente se dá na vida real – a vitória dos explorados, apesar das baixas de lado a lado. A vitória maior, porém, que se registra é da Literatura Brasileira que sai desse romance mais enriquecida.

III

Nascido em Itabuna, ao Sul da Bahia, Cyro de Mattos conhece bem a região que retratou em seu romance. Foi ali que fez os primeiros estudos, concluindo o curso ginasial no Colégio dos Maristas, em Salvador. Depois, fez o curso de Direito na Universidade Federal da Bahia, concluindo-o em 1962. Hoje, é advogado aposentado, depois de militar durante mais de quatro décadas nas comarcas da região cacaueira na Bahia. Antes, atuou como jornalista no Rio de Janeiro, passando pelas redações do Diário de Notícias, Jornal do Comércio e O Jornal.
Contista, ensaísta, cronista e poeta, é autor também de livros de literatura infanto-juvenil e organizador de várias antologias. Já publicou mais de 50 livros e obteve numerosos prêmios literários. O principal foi o Prêmio Nacional de Ficção Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras, para o livro Os Brabos (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1979), romance elogiado por Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) e Alceu Amoroso Lima (1893-1983).
Sua estréia, porém, ocorreu em 1966 com o livro Berro de fogo e outras histórias, em que já se anuncia a sua preocupação em denunciar “a decadente engrenagem econômica cacaueira dominada pelo coronelismo”, como observa Nelly Novaes Coelho, professora titular de Literatura Portuguesa da Universidade de São Paulo (USP), autora do posfácio que constitui um texto-homenagem aos 40 anos (1966-2006) da carreira literária do autor. Para a professora, “a obra de Cyro de Mattos já conquistou seu lugar nos quadros da Literatura Brasileira contemporânea”.
Cyro de Mattos está incluído na antologia Narradores da América Latina, publicada na Rússia, ao lado do argentino Julio Cortázar (194-1984) e do uruguaio Mario Benedetti (1920-2009), entre outros. Seus poemas foram incluídos na antologia Poesia do Mundo 3, organizada por Maria Irene Ramalho de Sousa Santos, da Universidade de Coimbra, publicada em Portugal, que teve tradução para o inglês.
Em 2010, participou da Feira Internacional do Livro de Frankfurt, quando autografou a antologia poética Zwanzig von Rio und andere Gedichte, publicada pela Projekte-Verlag, de Halle, com tradução de Curt Meyer-Clason, tradutor de Guimarães Rosa (1908-1967). E em 2013, esteve presente ao XVI Encontro de Poetas Iberoamericanos da Fundação Cultural de Salamanca, na Espanha. Tem livros publicados em Portugal, França, Alemanha e Itália.
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Os ventos gemedores, de Cyro de Mattos. Taubaté-SP: Editora LetraSelvagem, 208 págs., R$ 30,00, 2014. Site: www.letraselvagem.com.br
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981), Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003) e Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

Chá de Abril !‏ | Maria Isabel Fidalgo

 

 

Ah tragam-me um chá
um chá urgente de menta
ou pimenta preta
ou cidreira ou tília
um chá de sabor a terra
de eucalípto ou oliveira
numa chávena de Abril.
Ah, tragam-me um chá
com aroma a cravo
também pode ser
um chá em clave de sol
ou em mi(m) maior
Ah tragam-me um chá
de todas as maneiras
com aroma verde
em vaso de esperança
também pode ser
Tenho sede
Ah tragam-me um chá
de aroma de maçã
que o chá aquece
a alma que fenece
no frio deste Abril
em que um cravo canta
esganado na garganta.

maria isabel fidalgo

Caminhadas… | Ercília Pollice

Assim que entrei no parque, meu coracao mudou.
Senti aquela coisa boa, de quando pensador e sentidor caminham num mesmo compasso.Os guestaltistas têm razão.
Tirei fotos das alamedas. Nao resisti.
Gosto de gente, gosto de plantas gosto de árvores, gosto de vida.
Pessoas caminhando sozinhas, como eu, outras aos pares, aos grupos. algumas patinando, outras pedalando, e como sempre a turma da corrida…ah! tambem os que trazem os caes, como pretexto de um texto com contexto subliminar, mas tao explicito a mim, observadora que sou.
Um som de ” Asa Branca” de Humberto Teixeira, em ritmo de jazz foi me puxando para perto.
E, enquanto meus pés me empurravam para a música , meus pensamentos voaram pra Maninha,( minha cunhada Margarida) tão querida, que com ele teve sua única filha- Denise, que teve um filho com Cláudio Marzo, que faleceu esta semana.ah! Pensamentos são como plumas ao vento, ninguém segura.
No lago, os patos e cisnes nadavam alheios ao tempo, a tudo , e a todos.
As árvores, todas minhas conhecidas, fui chamando pelo nome: espatodias, acacias,jacarandás mimoso, eucaliptos, quaresmeiras, tipuanas, seringueiras gigantes, todas lindas, cada qual a sua maneira.
Lá longe , no horizonte , os predios arrematavam a paisagem formando um lindo” skyline”.
Gosto de caminhar observando as pessoas e imaginando o que lhes vai na alma.
Nesta manhã me pareceram todas felizes, em sintonia com tao exuberante natureza.Coisa boa poder, nesta cidade maluca, caminhar sem medo neste parque.
Bom seria se houvesse mais lugares assim , bom seria se a cidafe toda fosse assim, pois Sao Paulo e uma cidade linda em muitos aspectos. se o feio fosse cuidado, se houvesse justica e equidade no administrar, se fossemos mais obrigados de tudo e de todos, teriamos uma cidade perfeita.
Meus passos ja estao mais lentos…hora de voltar pra casa…tão pertinho, basta atravessar a rua…
Mas antes atravessarei a alameda de ” damas da noite” , insuperáveis. Absorvo seu cheiro tal qual mulher cheirosa pronta pra amar.
Sei que quando retornar de Londres, elas não mais estarão cobertas com suas flores brancas e seu perfume efêmeros. Que importa? O grande feito é o efeito sentido no meu peito nesta linda manhã de um sábado de outono.
A vida é bela e sorri pra mim atravės do azul de uns olhos que me fizeram feliz.

SP, 28/03/2015

VIRGEM | Rui Sobral

 

 

Aii, triste vida esta a tua que
Morreste virgem, de impureza!
Foram tão longos, aqueles que muitos
Curtos os davam, os passos e
Foste tão longe, fugindo do sol…correndo
Para o escuro e morreste virgem…de impureza!
Olhas-me pálida, branca pelo teu escuro, teus
Lábios são incolor mesmo com essa cor extravagante,
Teu corpo engana o bom gosto e teus
Olhos…aii…teus olhos! Outrora inospitamente lindos
Que agora me olham por baixo,
Escuros e feios, servem de consolo
Para as lágrimas caírem e
Choro-te! Perdeste o coração, o peito e
Expressões, trocaste-as por arrependimento…
Tenho em mim viva a chama ardente
Que farei de ti boa gente, lutarei
Para que rias quando feliz e que chores pelo
Passado….só porque és a vida em parte minha!
Olho-te com repulsa, acaricio-te com pressão,
Beijo-te com sabor a lágrimas
E amar-te-ei para sempre!

Prêmio Jorge Amado de Literatura 2014 terá textos publicados | Valdeck Almeida de Jesus

 

 

Os textos premiados serão publicados em formato eletrônico. A solenidade acontece dia 08 de abril de 2015, a partir das 14 horas, no Centro Cultural da Câmara Muncipal de Vereadores, na Praça Tomé de Souza, ao lado do Elevador Lacerda e da Prefeitura Municipal de Salvador.

O Prêmio Jorge Amado de Literatura integra as ações da Secretaria Municipal de Educação e do Plano Municipal do Livro, da Leitura e da Biblioteca de Salvador – Decreto 24.590/2013.

O concurso Jorge Amado de Literatura é, hoje, uma das maiores premiações literárias do país além de ser uma das mais abrangentes, direcionada aos alunos da rede pública de ensino, envolvendo as categorias de poesia, conto, romance, dramaturgia – peça de teatro e histórias em quadrinho.

O Concurso Jorge Amado de Literatura edição 2014 contou com a participação recorde de alunos da rede municipal de ensino – 771 inscrições; tal fato evidencia o alcance pedagógico desta ação de incentivo e valorização da produção literária dos educandos da rede municipal pública de ensino do Salvador.

salvador

Dados do Concurso Jorge Amado de Literatura – Edição 2014:

Comissão Organizadora: Célia Oliveira de Jesus Sacramento – Vice Prefeitura José Antonio Nascimento – Fundação Gregório de Matos (FGM) Lourdes de Fátima Santos Pinto – Plano Municipal do Livro, da Leitura e da Biblioteca de Salvador (PMLLB) Roseli dos Santos Andrade Araújo – Secretaria Municipal de Educação (SMED) Solange Sousa do Espírito Santo – Biblioteca Comunitária.

Comissão Julgadora: Antonio Alberto da Silva Monteiro de Freitas – Universidade Católica do Salvador (UCSAL) Antonio Luiz M. Andrade – Fundação Gregório de Matos (FGM) Daniel Dourado Nolasco – Universidade Federal da Bahia (UFBA) Elton Linton Oliveira Magalhães – Universidade Católica do Salvador (UCSAL) Jones Oliveira Mota – Universidade Federal da Bahia (UFBA) Liliane Vasconcelos de Jesus – Universidade Católica do Salvador (UCSAL) Lourdes de Fátima Santos Pinto – Plano Municipal do Livro, da Leitura e da Biblioteca de Salvador (PMLLB) Maria Clara de Luz Vasconcelos – Secretaria Municipal de Educação (SMED) Maria de Jesus Ribeiro B. Oliveira – Universidade Católica do Salvador (UCSAL) Norma Lúcia Reis Souza – Universidade Católica do Salvador (UCSAL) Tereza Cunha Sales de Almeida Fernandes – Secretaria Municipal de Educação (SMED) Vanda da Cruz Santos – Vice Prefeitura.

Concurso Jorge Amado de Literatura
PREMIAÇÃO

CATEGORIA – POESIA
1º LUGAR
TÍTULO DA OBRA: SER NEGRO
ALUNO: GIOVANA BISPO DOS SANTOS SILVA
ESCOLA MUNICIPAL CIDADE DE ITABUNA
PROFª ORIENTADORA: SHEILA AZEVEDO SILVA –

CATEGORIA – POESIA
2º LUGAR
TÍTULO DA OBRA: ZEZÉ ZEZÉ
ALUNO: MILENA DA SILVA DE JESUS BISPO
ESCOLA MUNICIPAL BAHA’I
PROFª ORIENTADORA: ALDA DIAS TRIGUEIROS –

CATEGORIA – POESIA
3º LUGAR
TÍTULO DA OBRA: DIÁRIO DE UMA CRIANÇA
ALUNO: LEVI XAVIER MONTEIRO DE OLIVEIRA
ESCOLA MUNICIPAL HIBERTO SILVA
PROFª. ORIENTADORA: JACILEIDE DANTAS DOS SANTOS – MATRÍCULA: 0871703

Concurso Jorge Amado de Literatura
PREMIAÇÃO
CATEGORIA – CONTO
1º LUGAR

TÍTULO DA OBRA: A BONECA MAL ASSOMBRADA
ALUNO: JESSICA FERREIRA OLIVEIRA
ESCOLA MUNICIPAL SENADOR ANTONIO CARLOS MAGALHAES

CATEGORIA – CONTO
2º LUGAR

TÍTULO DA OBRA: PORÃO
ALUNO: ADRIANO SANTOS DE SOUZA
ESCOLA MUNICIPAL SENADOR ANTONIO CARLOS MAGALHAES
PROFª ORIENTADORA: JAMILLE DA SILVA GONÇALVES ALMEIDA

CATEGORIA – CONTO
3º LUGAR

TÍTULO DA OBRA: O PESADELO DA FORMIGA
ALUNO: JOEL FERREIRA SANTOS NETO
ESCOLA MUNICIPAL ASSISTENCIA SOCIAL SÃO JOSE
PROFª ORIENTADORA: DANIELA MARIA SOUTO DE ASSIS

Concurso Jorge Amado de Literatura
PREMIAÇÃO

CATEGORIA – ROMANCE
1º LUGAR

TÍTULO DA OBRA: UM AMOR DE VERÃO NA TERRA DE SÃO SALVADOR
ALUNO: JONATHAM DE JESUS CAMPOS
ESCOLA MUNICIPAL ADROALDO RIBEIRO COSTA
PROFª ORIENTADORA: FABIANA PRUDENTE CORREIA

CATEGORIA – ROMANCE
2º LUGAR

TÍTULO DA OBRA: INESPERADO AMOR
ALUNO: MARILENE GARCIA DE SOUZA
ESCOLA MUNICIPAL MANOEL HENRIQUE DA SILVA BARRADAS
PROFª ORIENTADORA: ANTONIETA CONCEIÇÃO BONFIM

CATEGORIA – ROMANCE
3º LUGAR

TÍTULO DA OBRA:MEU PRIMEIRO AMOR
ALUNO: LAIS NALDAIL BARRETO SILVA
ESCOLA MUNICIPAL CENTRO EDUCACINAL CARLO NOVARESSE
PROFª ORIENTADORA: MARILDA RODRIGUES ANDRADE

Concurso Jorge Amado de Literatura
PREMIAÇÃO
CATEGORIA – DAMATURGIA (PEÇA DE TEATRO)
1º LUGAR

TÍTULO DA OBRA: O AMOR EM PRETO E BRANCO
ALUNO: VITORIA RAMOS DE SOUZA
ESCOLA MUNICIPAL OLGA FIGUEREDO
PROFª ORIENTADORA: LAIS DE PINHO DIAS

CATEGORIA – DAMATURGIA (PEÇA DE TEATRO)
2º LUGAR

TÍTULO DA OBRA: QUEM DISSE QUE DANÇAR É COISA DE MULHER?
ALUNO: REINA SILVA AZEVEDO
ESCOLA MUNICIPAL ADROALDO RIBEIRO COSTA
PROFª ORIENTADORA: EDVANIA LIMA

CATEGORIA – DAMATURGIA (PEÇA DE TEATRO)
3º LUGAR

TÍTULO DA OBRA: MARCADOS PELA COR DA PELE
ALUNO: ROBSON LUIS OLIVEIRA DE JESUS
ESCOLA MUNICIPAL ADROALDO RIBEIRO COSTA
PROFª ORIENTADORA: EDVANIA LIMA

Concurso Jorge Amado de Literatura
PREMIAÇÃO
CATEGORIA – HISTÓRIA EM QUADRINHO (HD)
1º LUGAR

TÍTULO DA OBRA: MARIA EM DIAS DE BATALHA
ALUNO: DAVI COSTA DA SILVA
ESCOLA MUNICIPAL DEPUTADO GERSINO COELHO
PROFª ORIENTADORA: MARIA CLAUDIA CONCEIÇÃO MARES

CATEGORIA – HISTÓRIA EM QUADRINHO (HD)
2º LUGAR

TÍTULO DA OBRA: UM SONHO IMPOSSÍVEL
ALUNO: ISRAEL CONCEIÇÃO BONIFÁCIO
ESCOLA MUNICIPAL ALLAN KARDEC
PROFª ORIENTADORA: LUZILEIDE DE AGUIAR ARAGÃO

CATEGORIA – HISTÓRIA EM QUADRINHO (HD)
3º LUGAR

TÍTULO DA OBRA: O ISOLADO ENCONTRA SEU AMOR
ALUNO: JOÃO PEDRO DA SILVA LIMA
ESCOLA MUNICIPAL GOVERNADOR ROBERO SANTOS
PROFª ORIENTADORA: JULICE VIEIRA DE JESUS

Fonte: http://pmllbssa.blogspot.com.br/2015/03/premio-jorge-amado-de-literatura-2014.html

Colo da minha infância‏ | Maria Isabel Fidalgo

 

 

No colo da minha infância
havia uma só verdade
ser eu olhar inocente
esquecida da idade

E era tudo tão longe
do meu olhar de hoje aqui
que olhando essa criança
quase dela me esqueci

Bate no calor da alma
uma asa dessa era
mas o olhar que me visita
hoje é só uma quimera

maria isabel fidalgo

RIO EMIGRADO | Soledade Martinho Costa

 

 

Sobre o líquen dos seixos
Patrício do rumorejo das alfarrobeiras
Um rio avança a solidão do nome.

Por entre o tojo
À transparência líquida do corpo
Sua pergunta corre:

Onde os olhos nas manhãs das minhas águas?
Onde as vozes nas margens do meu leito?
Respondei os mais não regressados
Quem rompe este silêncio?

E segue
Ao rés das rosas-albardeiras
Fantasma de mil segredos
Sem se saber lembrado
Longe
No coração dos homens.

Soledade Martinho Costa

Do livro «Poemas do Sol e da Cal»

AH! COMO FOI BOM! | Ercília Pollice

Como foi bom tê-lo, de novo , aqui comigo,

Como foi bom ouvir, de novo, a sua voz.

Como me fez feliz , sentir, outra vez, seu beijo,

Que bem me fez ,ouvir seu respirar.

Ah! meu amor, compartilhar algumas horas com você,

Embora poucas, e passem tão depressa, perduram em mim…

Quisera eu aprisionar essas horas no tempo,

Quisera eu, pudesse mantê- lo aqui comigo.

Quisera eu, ter uma mágica varinha, e dizer:

Volte sempre! Volte mais ! Volte pra mim!

Eu tenho todo amor do mundo pra lhe dar!

Uma Estátua no meu Coração | Soledade Martinho Costa

 

 

Excerto do prefácio
«[…] coração é que não falta nesta prosa escorreita por onde Soledade Martinho Costa nos convida a passear, seguindo-lhe o rasto e correndo com ela aqueles caminhos que foi traçando em cada página, em cada episódio, em cada memória passada ao papel. E assim vamos conhecendo as suas palavras, fazendo amizade com elas, ouvindo as suas histórias, rindo ou chorando com elas, como fazem os amigos. Assim vamos descobrindo todo um mundo novo, recordado aqui, vivido ali, desejado, sofrido, o mundo fascinante das palavras desta autora […] nas entranhas de um livro que é simultaneamente uma aventura, uma grande aventura de descoberta atrás de descoberta, não só para nós, leitores, mas também para a própria autora, que vai tropeçando em novidades de si mesma, à medida que vai escrevendo. E assim se vai expondo, desnudando, revelando mais e mais e mais…Tem momentos de rara beleza, este livro. Tem outros, de uma ingenuidade tocante, porque se percebe sincera. Outros, ainda, de uma tristeza pungente, porque mascarada de esperança […]. Soledade Martinho Costa uma escritora […] que um dia descobriu que para escrever o tal livro […] só tinha de se sentar, escutar o que lhe dizia o coração e escrever, nada mais. Só escrever.
Bem bom que o fez, finalmente.»

Rui Vasco Neto

esta 01

 

Espera‏ | Ercília Pollice

 

 

Esperei todos esses dias
Por uma palavra sua:
Nada!
Nem esçrita, nem falada!
Silêncio total,
Espera fatal.
Conclusão angustiante…
O que eu sinto não conta,
Minha saudade não interessa,
Ora essa, só sua saudade tem voz
A minha só tem paciência.
Até que a sua alcance tal impaciência,
E você volte a me procurar.
Ciência inexata !
Só se eu tivesse coração de barata,
Não percebe?
Não se dá conta que a ausência sentida,
É tanto sua, quanto minha?
E que a mesma vontade que o toma,
Me toma a mim, também?
Meu bem, meu zen, meu mal …

 

Ercilia Pollice

Oh! | Domingos da Mota

 

 

Da leveza das pernas, oh, o vértice;
oh, a boca do corpo, se a vertigem
alucina o desejo sem um óbice,
um óbice que seja duma virgem;
do vértice do corpo, dessa boca
que incendeia a volúpia, de tão ávida
e entumece os poros, de tão sôfrega
e afogueia os lábios, de tão cálida;
do vértice, da boca, do seu vórtice,
do frémito orgástico, e depois
do fogo que se veio, ardeu e foi-se,
deixando revolvidos os lençóis,
as pernas pensativas, e, num ápice,
o ciúme que gela e turva o cálice.

Domingos da Mota

[inédito]

Na morte de Herberto Helder | Adelto Gonçalves

I

Se Fernando Pessoa (1888-1935) foi a figura de proa da poesia portuguesa na primeira metade do século XX, na segunda esse espaço foi ocupado por Herberto Helder (1930-2015), um poeta fascinado pelo poder encantatório da linguagem, decorrente do uso ritual da palavra, como observou Maria Estela Guedes num dos dois livros que escreveu sobre essa personagem mítica, Herberto Helder, o poeta obscuro (Lisboa, Moraes Editores, 1979).
De fato, como observa a autora no segundo livro que dedicou à produção do poeta, A obra ao rubro de Herberto Helder, publicado em 2010 pela Escrituras Editora, dentro da Coleção Ponte Velha, em edição apoiada pelo Ministério da Cultura de Portugal e pela Direção-Geral do Livro e das Bibliotecas (DGLB/Portugal), em todos os seus poemas, está presente um tipo de magia fundada no trabalho poético sobre as palavras. E que, especialmente, procura imagens na Natureza. Esse trabalho pode ser sintetizado nestas palavras de Herberto Helder, que estão no o prefácio de seu livro As magias (1987): (…) Mas as palavras não são apenas palavras. Tem longas raízes tenazes mergulhadas na carne, mergulhadas no sangue, e é doloroso arrancá-las.
Arrancar palavras da alma parece ter sido a obsessão desse poeta que, a exemplo de José Saramago (1922-2010), único Prêmio Nobel da Literatura Portuguesa, não colocou na parede diploma de nenhuma universidade. Se Saramago, que também foi bom poeta, além de excepcional romancista, não freqüentou os bancos de nenhuma faculdade, Herberto Helder chegou a matricular-se na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, mas não concluiu nenhum curso. Formou-se, isso sim, na universidade da vida. Sem contar que sempre foi um ávido leitor, não só de poetas e romancistas europeus, como de poetas latino-americanos como o mexicano Octavio Paz (1914-1998), o argentino Jorge Luís Borges (1899-1986) e o chileno Vicente Huidobro (1893-1948).
Como se lê na biografia Herberto Helder, a obra e o homem (Lisboa, Arcádia, 1982), que escreveu a professora Maria de Fátima Marinho, vice-reitora da Universidade do Porto, o poeta, nascido no Funchal, sempre esteve na contramão da sociedade bem comportada. Por isso, sua figura, a partir da notoriedade de seus versos, passou a ganhar uma aura mítica, que só aumentou nos últimos anos, depois que se refugiou num pretenso anonimato, recusando-se a receber prêmios literários, como o Fernando Pessoa, na década de 90, e a conceder entrevistas e até a deixar-se fotografar.
Em linhas gerais, viveu uma vida em construção, sem muito apego a valores burgueses: foi propagandista de produtos farmacêuticos, redator de publicidade e outros ofícios. Sabe-se também que viveu precariamente como imigrante em países como França, Holanda e Bélgica, onde igualmente desempenhou trabalhos que os naturais do lugar se recusam a fazer. Em Antuérpia, teria sido guia de marinheiros e turistas nos meandros da zona do meretrício. E até cantor de tangos.
Só em 1960, depois de voltar a Lisboa, conseguiu um emprego mais estável como encarregado das bibliotecas itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian que viajavam pelas vilas e freguesias. Foi ainda repórter e redator por dois anos de uma revista em Angola, às vésperas da derrubada do regime colonial. Em Lisboa, atuou também em TV e Rádio.
Morto o poeta, naturalmente, agora abundam os elogios das fontes oficiais, mas a verdade é que Herberto Helder, ainda que tenha publicado uma vasta obra, foi um poeta marginal e desconhecido nos meios criadores de arte em Portugal por muito tempo – e mais ainda pelo público e até mesmo pelos acadêmicos brasileiros. Só nos últimos tempos passou a ser mais reverenciado e seus livros procurados – um ou outro chegou a alcançar tiragem de cinco mil exemplares, o que é surpreendente em se tratando de poesia. Se sua poesia transcendeu a de Fernando Pessoa, ainda não se pode dizer. Se não chegou a tanto, passou perto.

II

Em A obra ao rubro de Herberto Helder, Maria Estela Guedes, além do fascínio do poeta pelo misticismo, destaca a sua atração pelos aromas. E cita um verso de seu primeiro livro, O amor em visita (1958), em que ele põe no papel uma de suas mais espantosas imagens: Dai-me uma mulher tão nova como a resina / e o cheiro da terra. E destaca outro do mesmo poema em que vai buscar na Natureza e nos aromas a matéria-prima de seu fazer-poético: E as aves morrem para nós, os luminosos cálices / das nuvens florescem, a resina tinge / a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
Maria Estela ressalta a liberdade de expressão de Herberto Helder que, em A faca não corta o fogo (2008), ultrapassa os limites do bom gosto burguês, com imagens insólitas, experimentalismo contínuo, mundo mágico, que o aproxima da poesia surrealista. E lembra de um poema constante desse livro em que o poeta pede que, quando de sua morte, antes de alguém se preocupar com cerimônias fúnebres, “deve certificar-se de que está realmente morto, matando-o”.
O livro de Maria Estela Guedes analisa também os textos que o jornalista Herberto Helder escreveu para o Notícia, de Luanda, assim chamado no masculino, embora fosse uma revista semanal, até então nunca estudados nem inventariados. Sob a rubrica Mesa da Redacção, o autor publicou notas e comentários de livros, exposições, filmes e outros temas, em que se destacam a leveza e informalidade dos textos. Há textos também em que se assina com pseudônimo porque aquela era uma época em que todas as edições só saíam a público depois de visadas pela Comissão de Censura do regime salazarista.
Não se pode deixar ainda de citar a afinidade que Maria Estela assinala em Herberto Helder com a geração beat, especialmente no livro de ficção Os passos em volta (1963), em que, aparentemente, o autor valeu-se de sua experiência como viajante ao léu por países da Europa, bem ao estilo da contracultura das décadas de 60 e 70.
Como se vê, para quem no Brasil ainda pouco conhece da obra de Herberto Helder ou o descobriu agora, quando a sua morte ofereceu a oportunidade aos jornais e à mídia digital de reverenciar o seu nome, uma boa partida é ler este livro de Maria Estela Guedes, que desde a década de 70 dedicou-se em boa parte a estudar a sua produção. Aliás, o texto deste livro e de outros trabalhos de Maria Estela sobre o poeta podem ser acessados no site www.triplov.com.

III

Maria Estela Guedes (1947) nasceu em Britiande, Lamego, onde mora hoje, mas viveu na Guiné Bissau de 1956 a 1966, ao tempo do colonialismo que coincidiu também com o de sua formação pessoal. Reuniu seus poemas evocativos dessa época e de uma Guiné-Bissau que já não existe no livro Chão de Papel (Lisboa, apenas Livros, 2009). Diretora do site Triplov, um dos mais significativos de divulgação das literaturas de expressão portuguesa, faz parte da Associação Portuguesa de Escritores, da Sociedade Portuguesa de Autores, do Centro Interdisciplinar da Universidade de Lisboa e do Instituto São Tomás de Aquino.
Entre seus livros, estão também SO2 (Lisboa, Guimarães Editores, 1980); Eco, Pedras Rolantes (Lisboa, Ler Editora, 1983); Crime no Museu de Philosophia Natural (Lisboa, Guimarães Editores, 1984); Mário de Sá Carneiro (Lisboa, Editorial Presença, 1985); O Lagarto do Âmbar (Lisboa, Rolim Editora, 1987); Ernesto de Sousa – Itinerário dos Itinerários (Lisboa, Galeria Almada Negreiros, 1987); À Sombra de Orpheu (Lisboa, Guimarães Editores, 1990); Prof. G. F. Sacarrão (Lisboa, Museu Nacional de História Natural-Museu Bocage, 1990); Tríptico a solo (São Paulo, Editora Escrituras, 2007); A poesia na Óptica da Óptica (Lisboa, Apenas Livros, 2008); Quem, às portas de Tebas? – Três artistas modernos em Portugal (São Paulo, Editora Arte-Livros, 2010); Tango Sebastião (Lisboa, Apenas Livros Editora, 2010); Arboreto (São Paulo, Arte-Livros, 2011); Risco da terra (Lisboa, Apenas Livros, 2011); Brasil (São Paulo, Arte-Livros, 2012); e Um bilhete para o Teatro do Céu (Lisboa, Apenas Livros, 2013), entre outros.
Como teatróloga, escreveu O Lagarto do Âmbar, levado à cena em 1987, no Acarte, na Fundação Calouste Gulbenkian, com direção de Alberto Lopes e interpretação de João Grosso, Ângela Pinto e Maria José Camecelha, e cenografia de Xana; A Boba, levado à cena em 2008 no Teatro Experimental de Cascais, com encenação de Carlos Avilez, cenografia de Fernando Alvarez e interpretação de Maria Vieira.
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A obra do rubro de Herberto Helder, de Maria Estela Guedes. Organização e prólogo de Floriano Martins. São Paulo: Escrituras Editora, 190 págs., 2010, R$ 20,00. Site: www.escrituras.com.br
E-mail: escrituras@escrituras.com.br
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981), Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003) e Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

Autores gaúchos divulgados na Itália | Adelto Gonçalves

I

Maior divulgador da literatura de expressão portuguesa na Itália, o professor Brunello Natale De Cusatis, titular da cadeira de Língua e Literatura Portuguesa e Brasileira da Universidade de Perugia, esteve no Brasil ao final de 2014 para divulgar os últimos lançamentos da coleção Letteratura Luso-Afro-Brasiliana da Morlacchi Editore, de Perugia, e algumas reedições de obras de autores brasileiros, todas traduzidas e editadas por ele.
Além de dar conferências e cursos na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), campus de Assis, De Cusatis participou da Feira do Livro de Porto Alegre, promovendo o lançamento dos livros Nel Dolore Sconfinato (Nos Gerais da Dor), de Maria Carpi (1939), e Racconti, antologia bilíngue (Contos Completos), de Sergio Faraco (1940), e da terceira edição da novela policial Il caso del martello (O caso do martelo), de José Clemente Pozenato (1938), autores gaúchos descendentes de italianos.
É de notar que a primeira edição italiana de Il caso del martello é de 2008, o que mostra o interesse do leitor italiano pelo Sul do Brasil, onde se concentra a maior população de oriundi fora da Itália. Hoje, no Brasil, existem cerca de 25 milhões de descendentes de imigrantes italianos, metade dos quais se concentra no Estado de São Paulo e os demais no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.
Responsável por diversas traduções para o italiano, como, por exemplo, obras do poeta Fernando Pessoa (1888-1935) e da biografia La vita plurale di Fernando Pessoa (Milão, Edizioni Bietti, 2014), do espanhol Ángel Crespo (1926-1995), De Cusatis começou a se interessar pela divulgação da literatura do Sul do Brasil na Itália há cerca de 20 anos, quando conheceu o escritor gaúcho Armindo Trevisan (1933). Começou, então, uma amizade que o levou a traduzir Versi puri e impuri, antologia poetica (Versos puros e impuros, antologia poética), de Armindo Trevisan, próximo lançamento da coleção Lettetatura Luso-Afro-Brasiliane de Morlacchi Editore, de Perugia, em nova edição ampliada.

II

Maria Carpi, nascida em Guaporé-RS, filha de um italiano da Reggio Emilia, formou-se em Direito em 1962 pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Exerceu a profissão de advogada do Estado na Defensoria Pública, além de atuar como professora na Faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica (PUC), de Porto Alegre. Atuou também como membro do Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente. Atualmente, é membro efetivo da Comissão de Paz e Justiça, repartição regional da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
Revelou-se como poetisa já na idade madura, aos 50 anos, quando publicou Nos Gerais da Dor, em 1990, pela Editora Movimento, de Porto Alegre, que lhe valeu o Prêmio Revelação da Poesia/1990da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA). Entre outros livros, é autora do originalíssimo Abraão e a Encarnação do Verbo (Porto Alegre, AGE Editora), 2009), interpretação poética de uma passagem bíblica. Seu último livro é O Senhor das Matemáticas (Porto Alegre, AGE Editora, 2012), livro de prosa poética. De 2011, é A Chama Azul (Porto Alegre, AGE Editora), traduzido na França como título La Flamme Bleu (Paris, Lês Arêtes Editions, 2013).

III

Sergio Faraco nasceu em Alegrete-RS, mas vive em Porto Alegre desde 1971. Na juventude, de 1963 a 1965, viveu em Moscou, onde frequentou o Instituto Internacional de Ciências Sociais. Em 1964, depois de expressar publicamente sua contrariedade com as restrições de comportamento impostas pela direção do Instituto, ficou internado três meses num hospital psiquiátrico. Narrou essa experiência sob o regime comunista no livro Lágrimas na chuva: uma aventura na URSS (2002). Ao voltar ao Brasil, em razão de sua estada na União Soviética, ficou preso por um breve período, à época do regime militar de direita (1964-1985). Formou-se em Direito em 1980 no Instituto Ritter dos Reis de Canoas, cidade da região metropolitana de Porto Alegre.
Contos completos é de 1995 (Porto Alegre, L&PM), com reedição em 2004 e 2011. Cronista do jornal Zero Hora, tem sete livros de crônicas publicados. É também tradutor e ensaísta. É autor também dos contos “Travessia” (2002), ‘A dama do Bar Nevada” (2005) e “Um aceno na garoa” (2006), que foram levados à tela em produções regionais. Tem mais de 20 livros publicados entre os gêneros contos, crônicas e ensaios. Seu livro mais famoso é A Dama do Bar Nevada (Porto Alegre, L&PM, 1987), de contos. Seus contos foram publicados nos seguintes países: Alemanha, Argentina, Bulgária, Chile, Colômbia, Cuba, Estados Unidos, Paraguai, Portugal, Uruguai e Venezuela. É autor ainda do ensaio Tiradentes a alguma verdade (ainda que tardia), publicado pela Civilização Brasileira, em 1980.
Organizou uma antologia de poemas de autores brasileiros e portugueses que levou o título Livro dos poemas, publicado em 2009. Sergio Faraco recebeu por três vezes o Prêmio Açorianos de Literatura (1995, 1996 e 2001), principal premiação cultural do município de Porto Alegre-RS. Em 1999, recebeu o Prêmio Nacional de Ficção da Academia Brasileira de Letras. Em 2008, foi agraciado com a Medalha Cidade de Porto Alegre.

IV

Filiado à tradição do romance negro, O caso do martelo, de José Clemente Pozenato, conta as peripécias de um delegado provinciano para chegar à autoria do assassinato de Nàne Tamànca, solteirão de mais de 60 anos, que vivia sozinho num lugarejo perto de Caxias. Quem matou Nàne Tamànca? – a resposta para essa questão leva o comissário Hilário Pasúbio a duvidar de tudo e de todos, até chegar a um final surpreendente, como em toda boa história policial que é capaz de prender a atenção do leitor até a última linha.
Na novela, o autor até reproduz na fala de seus personagens algumas expressões do dialeto vêneto, ao mesmo tempo em que faz uma descrição inesquecível não só da paisagem gaúcha como das pequenas comunidades em que se movimentam personagens ligadas à colonização italiana no Rio Grande do Sul. De Cusatis diz que a linguagem de Pozenato, embora simples, apresenta certo hibridismo, pelo dialeto vêneto falado na colônia italiana do Rio Grande do Sul
José Clemente Pozenato nasceu em Santa Teresa-RS, filho de um imigrante italiano, Girolamo, que fez questão de romper com o seu passado. Sem nunca ter ouvido do pai um palavra do dialeto vêneto, Pozenato viveu uma infância adaptada exclusivamente à realidade brasileira e, aos 12 anos, mudou-se para Caxias do Sul, onde entrou num seminário. Só mais tarde, já como professor de Literatura Brasileira da Universidade de Caxias do Sul, aprofundou-se no estudo da cultura italiana..
Sua carreira literária começou em 1967 com a publicação de um livro de poesias, Matrícula, que dividiu com Oscar Bertholdo, Jayme Paviana e Ary Trentin. Em 1993, já grande conhecedor da cultura de suas origens paternas, publicou outro livro de poemas, Cantos rústicos / Cànti rùsteghi, em português e em dialeto vêneto. Sua obra poética completa até 2000 foi publicada em Mapa de viagem.
Foi em 1985 que publicou a novela policial O caso do martelo, que teve uma adaptação para a televisão de muita repercussão. O sucesso, porém, veio mesmo com o romance histórico O quatrilho, publicado em 1985 e, mais tarde, transposto para o cinema pelo diretor Fábio Barreto. Em 1996, o filme concorreu ao Oscar como o melhor longa-metragem estrangeiro.

V

O professor Brunello destaca a tradução que fez de quatro autores gaúchos, dois de prosa e dois de poesia. O interessante é que os textos nos livros são em italiano, acompanhados do original em português. Por isso, destaca, “têm também função didática”. Assim, os que se interessam particularmente por tradução têm a oportunidade de observar as particularidades de cada idioma, na comparação entre os dois.
Além da coleção Letteratura luso-afro-brasiliana, que dirige desde 2007, De Cusatis cuida, desde 2010, de mais duas coleções: Pessoana e Saggistica luso-afro-brasiliana (Edizioni dell’Urogallo, Perúgia). Publicou ainda Fernando Pessoa. Scritti di sociologia e teoria politica (Settimo Sigillo, Roma, 1994); Fernando Pessoa: Politica e profezia. Appunti e frammenti 1910-1935 (Antonio Pellicani Editore, Roma 1996); O Portugal de Seiscentos na «Viagem de Pádua a Lisboa» de Domenico Laffi. (Editorial Presença, Lisboa 1998); Fernando Pessoa, Alla memoria del Presidente-Re Sidónio Pais. (Edizioni dell’Urogallo, Perugia 2010); Fernando Pessoa. Economia & commercio. Impresa, monopolio, libertà. (Edizioni dell’Urogallo, Perugia 2011), entre outros.
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Nel Dolore Sconfinato (Nos Gerais da Dor), de Maria Carpi, a cura di Brunello Natale De Cusatis. Perugia:Morlacchi Editore, 107 págs., 2014.
Racconti antologia bilíngüe, de Sergio Faraco, presentazione, selezione e traduzione di Brunello Natale De Cusatis. Perugia: Morlacchi Editore, 160 págs., 2014.
Il caso del martello (O caso do martelo), de José Clemente Pozenato, presentazione, selezione e traduzione di Brunello Natale De Cusatis. Perugia: Morlacchi Editore, terceira edição, 2014.
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981), Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003) e Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

Rumorosas asas | Licínia Quitério

 

 

Rumorosas asas, as mãos, na palidez do rosto.
O meu rosto em frente à pedra, na lembrança viva da pedra, o sangue quente atravessando o corpo, do levante ao ocaso.
Dias e noites trepidantes, com a febre nas têmporas, um vidro vermelho no candeeiro, uma canção de embalar, as sombras, as sombras na parede.
Um morcego, uma borboleta, as orelhas do coelho, as asas, altíssimas.
As nódoas no tecto, os mapas dos países de ida e de volta, uma dor sem princípio, a pedra enegrecida pela fuligem que fica nas mãos quando um amor morre.
Santas mãos, miraculosas, berços, catres, esquifes, doçura tanta, mágoa infinita, viandantes mãos sem corpo, no meu corpo de antes, no meu corpo presente, no meu corpo futuro, no meu copo, no teu copo, no nosso copo de todos os dias, agora e em todas as horas, vazio e pleno, ofertado e recusado.
Só as mãos nos acodem, no negrume e na alvura, na cupidez e na devassa, na sede e na embriaguez, no primeiro dia, no último dia.

Licínia Quitério, em “O LIVRO DOS CANSAÇOS”