“A Queda dos Gigantes” de Ken Follett (Presença)

“…Uma porta conduzia ao patamar da escada, a outra ao quarto da frente, ao qual só se tinha acesso através deste. Era mais amplo e tinha espaço para duas camas. Era lá que os pais dormiam, e o mesmo se aplicara às irmãs de Billy, anos atrás. A mais velha, Ethel, saíra entre­tanto de casa, e as outras três tinham morrido, uma de sarampo, outra de tosse convulsa e a última de difteria. Houvera ainda um irmão mais velho, que dividira a cama com Billy antes da vinda do avô lá para casa. Wesley de seu nome, morrera no fundo da mina, atropelado por uma vagoneta desembestada que transportava carvão.

Billy vestiu a camisa. Era a mesma que levara para a escola na véspera. Hoje era quinta-feira, e ele só mudava de camisa ao domingo. Não obstante, tinha um par de calças a estrear, as suas primeiras calças compridas, feitas com um algodão grosso e impermeável chamado fustão. Constituíam um símbolo da entrada no mundo dos homens, e vestiu-as cheio de orgulho, deliciado com o pesado toque masculino do tecido. Depois de afivelar um cinto de cabedal grosso e de calçar as botas que herdara de Wesley, desceu a escada.

A maior parte do rés-do-chão era ocupada pela sala de estar aca­nhada, com uma mesa ao centro, uma lareira dum dos lados e um tapete de fabrico caseiro no chão de pedra. O pai estava sentado à mesa a ler uma edição atrasada do The Daily Mail, com os óculos empolei­rados na cana do nariz comprido e afilado. A mãe estava a preparar o chá. Pousou a chaleira a ferver, cumprimentou Billy com um beijo na testa e disse-lhe:

—    Então, e como é que está o meu pequeno homem no seu dia de anos?

Billy não lhe respondeu. O «pequeno» vexante, porque ele era de facto pequeno, e o «homem» não lhe ficava atrás, porque ele não era um homem. Dirigiu-se à cozinha, situada nas traseiras. Mergulhou uma taça de estanho no barril da água, lavou a cara e as mãos e deitou a água para o lava-louças raso de pedra. A cozinha tinha uma tina de cobre com uma grelha de ferro por baixo, mas era usada apenas na noite do banho, que calhava aos sábados.

Tinha-lhes sido prometida água canalizada para breve, e havia algumas casas de mineiros que já dispunham dela. Parecia um mila­gre a Billy bastar-lhe abrir uma torneira para ter um copo de água fresca e límpida, e não ser obrigado a carregar um balde até à coluna de água ao fundo da rua. Todavia, a água canalizada ainda não chegara a Wellington Row, onde os Williams moravam.

Voltou para a sala de estar e sentou-se à mesa. A mãe pôs-lhe à frente uma grande chávena de chá e leite, já com açúcar. Cortou duas fatias de pão de forma caseiro e foi buscar uma porção de banha de porco à despensa, que ficava no vão da escada. Billy juntou as palmas das mãos, fechou os olhos e disse:

—    Obrigado, meu Deus, por esta refeição, ámen.

Em seguida, bebeu um gole de chá e barrou a banha de porco no pão.

Os olhos azuis do pai espreitaram por cima do jornal. — Põe sal no pão — indicou-lhe. — Vais transpirar lá em baixo.

O pai de Billy era representante dos mineiros, ao serviço da Fede­ração dos Mineiros do Sul de Gales, que era o sindicato mais forte da Grã-Bretanha, como ele nunca deixava de salientar sempre que a opor­tunidade se lhe apresentava. Era conhecido por Dai do Sindicato. Muitos homens eram conhecidos por «Dai», abreviatura de David, ou Dafydd, em galês. Billy aprendera na escola que David era popular em Gales por ser o nome do santo padroeiro, à semelhança de Patrick, na Irlanda. Os Dais eram distinguidos entre si não pelos apelidos — na cidade, quase todas as famílias se chamavam Jones, Williams, Evans ou Morgan —, mas por meio duma alcunha. Os nomes raramente eram usados quando havia uma alternativa engraçada. Billy era William Williams, e por isso chamavam-lhe William Duas Vezes. As mulheres herdavam com frequência a alcunha do marido, de modo que a mãe era a Mrs. Dai do Sindicato.

O avô desceu ao rés-do-chão quando o neto já ia na segunda fatia. Apesar de o tempo estar quente, trajava colete e casaco. Depois de ter lavado as mãos, instalou-se diante de Billy.

—    Não faças esse ar tão nervoso — tranquilizou-o. — Eu desci ao poço aos dez anos. E o meu pai foi levado lá para baixo às costas do pai dele quando tinha cinco, e trabalhava das seis da manhã às sete da tarde. Estava de Outubro a Março sem nunca ver a luz do dia.

—    Eu não estou nervoso — assegurou-lhe o neto. Era mentira. Tinha um medo que se pelava.

O avô, no entanto, mostrou-se compreensivo e não quis insistir com ele. Billy gostava do avô. A mãe tratava-o como se fosse um bebé, e o pai era severo e mordaz, mas o avô era tolerante e falava com Billy de adulto para adulto.

—    Ouçam só isto — anunciou o pai. Ele nunca comprava o The Daily Mail, um jornaleco conservador, mas havia ocasiões em que trazia para casa um exemplar esquecido e punha-se a lê-lo em voz alta e trocista, ridicularizando a estupidez e a desonestidade da classe gover­nante. — «Lady Diana Boas Maneiras foi criticada por ter usado o mesmo vestido em dois bailes. A filha mais nova do duque de Rutland conquistou o prémio para a “melhor indumentária feminina” no baile do Savoy com o seu vestido de corpete rendado sem mangas e saia com­prida de balão, um prémio no valor de duzentos e cinquenta guinéus.» — Baixou o jornal e acrescentou: — Isso é, na melhor das hipóteses, o que tu hás-de ganhar em cinco anos, Billy, meu rapaz. — Retomou a leitura: — «Todavia, atraiu olhares de desaprovação dos entendidos ao usar o mesmo vestido na festa de Lord Winterton e F. E. Smith no Claridge’s Hotel. Tudo o que é demais enjoa, costuma dizer­‑se.» — Tornou a desviar os olhos do jornal. — É melhor ires mudar de vestido, mamã — declarou. — Não vá dar-se o caso de atrair olha­res de desa­pro­vação dos entendidos.

A mãe não lhe achou graça. Trazia um velho vestido de lã castanha, com cotoveleiras e nódoas de transpiração nos sovacos. — Se eu tivesse duzentos e cinquenta guinéus, andaria bem mais arranjada que a Lady Diana Lixo — retorquiu ela, não sem uma pontada de amargura.

—    Sem dúvida — intrometeu-se o avô. — A Cara sempre foi a mais bonita de todas… Tal qual a mãe dela. — Cara era a mãe. O avô virou­‑se para Billy. — A tua avó era italiana. Chamava-se Maria Ferrone. — Billy já estava farto de saber disto, mas o avô gostava de repetir histórias de família. — Foi a ela que a tua mãe foi buscar o cabelo preto luzidio e os lindos olhos escuros… e a tua irmã também. A tua avó era a rapariga mais bonita de Cardiff… e quem ficou com ela fui eu! — Fez um ar subitamente entristecido. — Bons tempos, aqueles — acres­centou num murmúrio.

O pai franziu um sobrolho desaprovador (conversas daquela índole evocavam desejos carnais), mas a mãe mostrou-se agradada com o elogio do avô e sorriu-lhe ao pôr-lhe o pão diante dele.

—    Ah, nem me diga nada, pai — assentiu ela. — Eu e as minhas irmãs éramos consideradas umas belezas. Tivesse eu dinheiro para sedas e rendas que mostrava a esses duques o que é ser uma rapariga bonita.

Billy foi apanhado de surpresa. Nunca pensara na mãe como sendo bonita ou feia, embora, quando se arranjava para ir à reunião na capela aos sábados à tardinha, ficasse de facto um deslumbramento, sobretudo de chapéu. Calculava que em tempos talvez tivesse sido uma rapariga bonita, mas custava-lhe imaginar isso.

—    E note-se bem — prosseguiu o avô —, a família da tua avó também tinha miolos. O meu cunhado era mineiro, mas abandonou a actividade e abriu um café em Tenby. Aquilo é que era uma boa vida… Os ares do mar, e não fazer nada o dia todo para além de servir cafés e contar dinheiro.

O pai começou a ler outro artigo: — «No âmbito dos preparativos para a coroação, o Palácio de Buckingham elaborou um livro de instruções com duzentas e vinte páginas.» — Espreitou por cima do jornal. — Não te esqueças de mencionar isto hoje lá na mina. Será um alívio para os homens saberem que nada foi deixado ao acaso.

Billy não estava muito interessado na realeza. Do que ele gostava era das aventuras que o The Daily Mail costumava publicar acerca de indivíduos duros que jogavam râguebi, tinham sido educados em colégios privados e deitavam a mão a espiões alemães traiçoeiros. De acordo com o jornal, não havia cidade na Grã-Bretanha que não esti­vesse infestada de espiões daqueles, embora, infelizmente, Aberowen parecesse constituir uma excepção à regra.”

Ficha Técnica:

A Queda dos Gigantes

Ken Follett

Título Original: Fall of Giants – The Century Trilogy – Book 1

Tradução: Alice Rocha

Páginas: 920

Colecção: Grandes Narrativas Nº 479

PREÇO SEM IVA: 28,25€ / PREÇO COM IVA: 29,95€

ISBN: 978-972-23-4428-9

Código de Barras: 9789722344289

50º episódio – O BOM LADRÃO – Folhetim em setenta e cinco episódios

Melhor seguir, antes que percebam que carrego algum valor. Os escritórios do departamento de água e luz ficam próximos. Viveria sem luz, mas não sem água. Insuportável a ideia de morrer sedento; ou afogado. O excesso e a falta de água sempre me assustaram, nunca desejei ser uma escultura ressequida, muito menos uma forma amorfa. E o que fui ou sou? Não muito para uma vida. Sempre apoiado num túmulo… Estes escritórios são tumulares. A jovem me atende segundo um protocolo de perguntas, preencho um vasto questionário, pago a conta e a taxa para religarem a luz, agenda a visita do técnico para o outro dia, não consigo convencê-la a enviar alguém ainda hoje, não foi muito com a minha cara, não pintou a química do cheiro, saio e atravesso a rua na faixa de pedestres, motivo de descrição barroca para um autor como Saramago, prefiro o tiro certeiro de Lobo Antunes, de Al Berto, desta vez o protocolo usado pelo funcionário é mais simples, também o questionário. Arrisco perguntar se ligariam a água ainda hoje. O senhor acredita em milagres? Entendi… Amanhã, talvez. Saio e acendo um cigarro. Sempre trago como se fosse uma última vez. Quando nem mais a morte, o prazer não fará sentido. Saídas técnicas sempre me cansaram. Estéreis. Pessoas com o mesmo semblante, a mesma respiração, as mesmas opiniões, caminhar no mesmo, na repetitiva programação da TV… Assim o tempo não passa, afugentar possibilidade de envelhecer. Preencher com vazios a angústia e a incerteza provocadas pelo caos. Não quero escrever sobre os conflitos ou violência urbanos, desejo ouvir os pensamentos dos caracóis. Não me apetecem as algemas do esperado nem a experiência do pronto. Não quero botões nem zíperes, talvez encontre outro modo de fechar a pele ao vento. O dia em que levar uma mulher ao gozo com única palavra não haverá mais guerras. Impossibilidade ao alcance da linguagem. Mas antes preciso suspender os remédios. Estrategicamente, necessito de alguns meses… Talvez dias sejam suficientes. Retornar ao não tão claro, ao nublado da estranheza, de viver com a possibilidade da peste, quando falamos nós nos apoiamos num túmulo, e esse vazio do túmulo é o que faz a verdade da linguagem, mas ao mesmo tempo o vazio é realidade e a morte se faz. Dar nome às coisas é um gesto de negação da morte. Não exijam de mim o nome da fonte, os textos como referências são meus cacoetes, a manifestação de meu TOC, depois de morta a autoria a obra adquire vida, cada pensamento, cada ideia, cada frase, tem nome próprio, como meu nome Samael, anjo da morte, linguagem a anunciar a morte, fruto da castração imagética, mas resistência ao assassinato em série e à redundância, da água-esgoto sempre a mesma, da fuga no pó branco, do calor provocado por engenhocas capitalistas.

 

(continua)

49º episódio – O BOM LADRÃO – Folhetim em setenta e cinco episódios

Observo tudo ao modo de um recuperado, no hospício o gerente seria o médico, indicaria o choque elétrico e para evitá-lo o sujeito não discutiria, não reclamaria, sabe que nada restaria de absurdo em seu pensamento, tudo ficaria em branco e preto, é assim que enxergo, linhas sem fundo, o entorno preto e o miolo branco, raras são as exceções, (des)razão sem emoção, há um incomodo muito distante em meu peito, como um brotamento de pânico, mas ficou no aguardo, a solução chega com a polícia, obrigam o homem a vestir a roupa, ameaçam prendê-lo, o povo começa a vaiar os fardados, todo uniformizado detém algum poder, no último escalão estão os de terno e gravata italianos, cheios de bravatas, território de estelionatários, já é tempo em que muitos psicóticos não são mais percebidos como tal, ser ou não louco dependerá de outros referenciais, no momento o louco não é o gerente, nem o segurança, nem a polícia, mas o homem que diz que não vai sair dali enquanto não tiver seu problema resolvido. Melhor andar um pouco mais até o caixa eletrônico, cansei da cena, inputs e outputs, seres em eterno recall cerebral e corporal, silicone, lipoaspiração, botox, com suas máquinas fazedoras de tumores fantasmas, a tomografia, a ressonância, o ultrassom… Qual a dimensão dessa massa metálica, cujo fetiche maior é o telefone celular e os bonecos insuflados, a se comunicar em rede, sem corpo, sósias apenas virtuais? Há os raros a curtir a maconha orgânica e desafiar a morte, financiados por créditos públicos e música javaneza. Não sou o único, também há fila, pessoas reclamando, espero a vez sem comentários, meu único sofrimento é ver tudo sem cor, não ter os meus fantasmas presentes, as gesticulações das pessoas para mim não tem o peso da irritação e da raiva, anestesia seria melhor que os choques e os medicamentos, mas devo suportar e demonstrar sociabilidade, um ser recuperado, principalmente ao André, as assistentes sociais irão consultá-lo em algum momento do tratamento, enfim a máquina diante de mim, a rotina das senhas, fico apreensivo quando erro duas vezes, na terceira bloquearão o que me pertence, felizmente acerto. Retiro o suficiente para pagar as contas atrasadas e sobrevive; e saio. Penso em parar na praça. Há um parque próximo. Em um parque, há pássaros, gatos. Em um parque a gente não está sozinha. Mas dentro da casa a gente fica tão só que às vezes se perde. Duras… Raro me lembrar dos nomes… Fora não há portas, nem entradas ou saídas, você está dentro sempre, prisão sem esperança de fuga, quer algo mais terrível que a impossibilidade absoluta? Sem rotas, como se no canto, impotente, diante de um predador invisível e poderoso. E na casa nunca me senti só como agora ao ver essas crianças, empilhamentos de ossos, brincarem em águas empoçadas e fétidas, corpos com suas úlceras pútridas nas calçadas aguardando um trocado ou o camburão do IML, jovens aspirando droga, só eu atento, tudo em branco e preto, o que atenua um pouco a dor, o líquido que escorre das feridas não é vermelho, mas preto, e as pessoas passam desinteressadas no que enxergo e continuam seus pesadelos, só eu fora, diante de mim um exército de cegos funcionais. Na casa, sem os remédios, reencontrarei meus parceiros, o outro de mim, a velha Remington Rand, quem escreve é sempre o outro, escrever é agora o interminável, o incessante, Blanchot, não esqueço nem na insanidade, é o outro de mim com suas mensagens sutis, as intermináveis cartas enviadas aos amigos, não há leitor nessa massa amorfa e repetitiva, não, na casa não me sinto só, desejo a solidão da casa, a ameaça do fascínio, a imprudência dos delírios, onde bastam alguns passos para sair do quarto, outros tantos para sair da vida… Dentro de casa permito-me fora, fora de casa não me permitem nada, nem esperança. O parque… Pássaros e gatos… Não lugar sem intimidade, sem interior oculto, impossibilidade de dizer Eu, sem literatura… O que vou ter depois da morte? Além do nome na lápide, nada! Samael… Anunciar a morte no nome e na linguagem.

 

 

(continua)

Reginaldo Pujol Filho*

1- No mundo tecnológico e instantanista em que vivemos, crê que a literatura, tal como a aprendemos a significar pelo menos desde o Iluminismo, ainda tem sentido?

Olha, às vezes parece que esse mundo quer nos levar a crer que não. Mas vou dizer o seguinte: talvez seja justamente nesse cenário que a importância e o sentido da literatura crescem. Não estou dizendo que isso seja uma percepção geral. Acho que é de poucos, mas é minha. Quero dizer assim: se é tudo cada vez mais imediato e instantanista, tudo o que não é assim deveria ser valorizado e ganhar um sentido maior. Ao responder esta pergunta começo a ver a literatura como uma ilha de pausa, de reflexão e de imaginação em um mundo de estímulos é-pra-já, de respostas prontas, de ansiedade e Google. Sim, a literatura, tem sentido e muito. Me parece que hoje nossas mentes estão ao mesmo tempo tão agitadas e anestesiadas por tantos e tantos e tantos estímulos. E a leitura concentrada de um bom romance, ou o simples pensar sobre um poema, por estarem tão na contramão disso tudo, podem ser, ao mesmo tempo, o repouso das mentes agitadas e o beliscão que vai acordar nossas cabeças que acreditam que todas as respostas estão no Google.

2- Qual foi o último acontecimento literário, independentemente da sua natureza, que mais lhe tocou? Por quê?

Essa é uma pergunta difícil. Mas pensando sobre o final dela, “que mais lhe tocou”, penso em sentimento, em fortes emoções, e aí o que me vem à lembrança é a participação do Lobo Antunes na Festa Literária Internacional de Parati de 2009. Não sei se isso se classifica como acontecimento literário. Mas Lobo Antunes, naquela ocasião, expôs tantas verdades íntimas dele sobre a literatura e, ao mesmo tempo, demonstrou um amor, uma paixão tal pela escrita, pelo que ele faz, que me abalou. Passei uns bons dias lembrando de frases dele, questionando minhas verdades sobre literatura e escrita. Aquela hora e pouco assistindo o Lobo Antunes foi daqueles momentos que parece que te colocam em um outro lugar na vida, te deslocam do centro e te fazem olhar para esse centro. Sei lá, acho que basta dizer que chorei.

3- Fale-nos resumidamente do seu último livro, como se estivesse a revê-lo em voz alta para um grupo de amigos.

Bom, não sei exatamente de que livro falar. Estou terminando um. Mas sobre o último publicado, tem o Azar do personagem – que é também minha estréia. É de contos. Costumo dizer que são 13 contos mais 1. E só lendo para explicar o que é isso, que não gosto de estragar o significado desse “mais 1”. Mas é um livro em que passeio por diversas formas e estilos de narrar com uma alta dose de humor. E é aquela coisa: em geral, se há humor, há alguém se dando mal, alguém tem que escorregar na banana para que a piada aconteça. E já que o livro tem tanto humor, o que acontece é que, nesses textos, pobres dos meus personagens, não tenho pena deles, me divirto às suas custas, de um modo que se pode dizer que, se o personagem caiu na minha mão, azar do personagem.

Mas tem também um outro livro que não é só meu, que saiu no ano passado no Brasil, e este ano em Portugal, o Desacordo Ortográfico. É uma antologia que organizei, reunindo 20 autores de língua portuguesa de Angola, Brasil, Moçambique, Portugal e São Tomé. Uma gente que só tem em comum o fato de escrever diferente, de ter um texto que não entra em acordo com acordo nenhum. Boa literatura, essa é a regra máxima ali. Não é o último livro que escrevi, mas é o meu último trabalho em livro, pelo qual tenho um carinho muito, muito grande.

4- Pensa que a literatura e a rede poderão vir a ter, de algum modo, um destino comum?

Não sei. É claro que literatura e internet coexistem, vão coexistir, isso é inevitável. Internet é um meio muito poderoso, isso é óbvio. Mas o que se quer dizer com “destino comum”? A internet vir a ser O meio da literatura? A literatura se modificar em função da internet? Haver uma literatura de internet? Sobre tudo isso não sei, sempre que surge a primeira pergunta sobre assuntos desse universo já me vem outras três ou quatro. Mas acho que “destino comum” talvez seja forte demais pra se pensar a relação da literatura e da web no futuro. Pressupõe uma união em muitos sentidos. Às vezes parece que se pensa na internet como um buraco negro que vai sugar tudo, não é? Que tudo nessa vida vai ter um destino comum que é a internet. Claro que ela vai abalar e está abalando uma série de coisas do nosso presente, modifica estruturas várias, mas espero que ela não venha a ser o centro do mundo, não quero que tudo esteja na internet. Gosto muito também do que a vida e a literatura podem ser no mundo off line, tátil, do contato real. Espero que nem tudo na vida venha a ser mediado apenas por computadores. Não acredito, por exemplo, que a internet possa criar rituais coletivos poderosos, como ir a uma sala de cinema, viver uma catarse coletiva, isolar-se do mundo durante duas horas, no escuro, envolvido por som e imagem. Tá, já deixei há horas de responder a pergunta e comecei a divagar. Paro por aqui.

5- Refira dois autores e duas obras que o tenham marcado na sua carreira.

Vou referir três:

– Luis Fernando Veríssimo com o Analista de Bagé (poderiam ser outras obras dele, mas o Analista é simbólico do todo);

– Gonçalo M. Tavares com o Senhor Henri;

– Amílcar Bettega Barbosa com Os lados do círculo.

BREVE NOTA BIOGRÁFICA

Reginaldo Pujol Filho nasceu em 30/03/1980 em Porto Alegre, no sul do Brasil. E lá vive e trabalha como redator publicitário. Publicou Azar do Personagem pela Não Editora em 2007 e tem contos em antologias, sites literários do Brasil e de Portugal, assim como em jornais, revistas, cartazes e no youtube. Reginaldo também organizou a antologia Desacordo ortográfico (Não Editora, 2009/Livrododia, 2010) e prepara seu próximo livro para o final de 2010. Mantém a duras penas o blogue Por causa dos elefantes.

48º episódio – O BOM LADRÃO – Folhetim em setenta e cinco episódios

Muda alguma coisa tantos ósticos? Não! André é mais um sujeito normal como tantos outros e que cultiva a amizade dos vizinhos, faz favores, olha de modo pedinte, já tem convênio com a funerária e terreno no cemitério, sujeito morrente, ao mesmo tempo arcaico, já não deixam que invada tanto assim as casas, conversa só na rua ou no bar, do outro lado do muro, das câmeras de segurança, dos fios eletrificados, dos cães amestrados para matar, o que frustra André, começa a transparecer nas linhas do rosto, traços por mim conhecidos, mas ele resiste à depressão, não conhece território que não o oferecido pela máquina de fazer humanóides, da escola, da família, agora acordar com casais em orgia no muro da empresa que refina o milho, saber que a polícia não virá para repreendê-los, o sexo a céu aberto e o cheiro desagradável de milho, e os lábios diante de mim, digo que vou pedir para ligarem a luz e a água, antes passar no banco para pegar o dinheiro, depois falo com você, a mão saindo do ombro, então até mais, tome cuidado com os ladrões, a calçada em movimento como esteira rolante, eu longe dali o mais rapidamente possível, sei que me observa na esperança de um indício de insânia, não sabe estar doente, então esperança no outro o surto, surto que também lhe pertence, mas não percebe, a normalidade projetiva, personagem do reality show, mas a dobra da rua, dobraduras ao infinito, tal circunvoluções cerebrais, tortuosidades infinitas, a tentativa do homem de uma lógica no caos, mas ao cair os dados todas as ocorrências são possíveis, em algum momento os seis números da mega sena podem mudar rumos, destinos, fraturar a ordem presente, como alguma bala perdida ou algum terremoto… Mas no corpo, tatuagens sem totens, pearcing sem raiz, ausência de fantasmas, lobisomens, conteúdos imagéticos… Sem medicamento sou mais um entre tantos speakers hipnotizados pela luz da telinha na sala, no quarto, no banheiro…

Caminhar lento entre sonâmbulos, seres ameaçados pelo existir, pelo desejo, pela vontade. Todos tão estranhos que sinto certo alívio. Não aceitei a família, a escola, os padrões… A subjetividade reducionista da ciência com sua falsa ideia evolucionista. Torne frágil o Estado, estaremos em um hospício a céu aberto, sem quadrado azul, sem muros, apenas estas bestas soltas a lutarem pela sobrevivência. E falta pouco… Muito pouco. Esgotada a água e a comida restará a selvageria. Mutantes apenas na tela que os engole diariamente. Lá esta o banco. Visual novo, os banqueiros enriquecem às bancadas. Há um tumulto na porta. Procuro me aproximar. Um homem de cuecas, meias e sapatos, na rotatória de vidro. Discute com o segurança. Pergunto o que há para um sujeito franzino que a tudo assiste com atenção. O homem não consegue entrar, já faz uns quinze minutos, a porta dispara o alarme, começou deixando a chave com o segurança, agora não tem além da cueca e das meias e sapatos, e ameaça tirar a cueca, diz ter prótese na perna, mas o segurança e o gerente não o deixam entrar.

 

(continua)

“Grácia Nasi – a judia portuguesa do século XVI que desafiou o seu próprio destino” de Esther Mucznik (Esfera dos Livros)

“Foi na economia que o contributo judaico foi mais importante, graças ao conhecimento da realidade europeia, à rede de contactos familiares e comunitários que os judeus aí detinham e às línguas que dominavam. Eram muito activos no comércio, nomeadamente nos tecidos, onde serviam de intermediários entre os mercadores europeus e orientais, tendo sido igualmente pioneiros na indústria têxtil otomana. O seu poder financeiro permitiu‑lhes a entrada na administração fiscal, nomeadamente alfandegária. Bernard Lewis conta que a presença judaica nas alfândegas era tão importante que os arquivos de Veneza conservam até hoje numerosos documentos escritos em caracteres hebraicos, na sua maioria recibos passados a mercadores venezianos que negociavam com o Levante.

Muitos sefarditas ocuparam também as funções de «homens de negócios» de altos funcionários otomanos, gerindo as suas finanças quando aqueles eram nomeados governadores provinciais. Segundo alguns testemunhos, os refugiados da Península também foram úteis na arte da guerra. Nicolas de Nicolay, viajante famoso que visitou o império em 1551, escreveu: « …Marranos há pouco banidos e expulsos de Espanha e de Portugal… em detrimento e grande dano para a cristandade ensinaram ao Turco vários inventos, artes e máquinas de guerra, como fazer artilharia, arcabuzes, pólvora para canhão, balas e outras armas.»

Tolerância ou pragmatismo?

De uma forma geral o mundo muçulmano e, em particular, o otomano mostrou mais clemência do que a cristandade no seu comportamento face aos judeus. Mas esse comportamento nada tinha a ver com o que hoje apelidamos de tolerância, conceito que, aliás, não existia na época. Estava mais relacionado com a necessidade pragmática de lidar com as numerosas minorias existentes no seu vastíssimo império multiétnico e multirreligioso e com as suas próprias necessidades económicas e administrativas. Um ditado turco exprime essa ideia com clareza: «Não há Estado sem exército, não há exército sem dinheiro, não há dinheiro sem bons súbditos, não há bons súbditos sem justiça e sem justiça não há Estado.». À sua chegada a Istambul, Dona Grácia teve de providenciar imediatamente um empréstimo de dez mil ducados. A minoria judaica e nomeadamente os sefarditas da Península representavam na época numerosas vantagens para o império: traziam com eles capitais necessários ao país, o que lhes permitia gerar riqueza, dispunham de conhecimentos e qualificações em importantes domínios como a medicina, a tipografia, a artilharia e a navegação, conhecimentos úteis para a guerra por terra e por mar. Conhecedores dos assuntos europeus, eram conselheiros necessários e leais nas relações do império com as potências do Ocidente. A família Mendes/Nasi reunia grande parte dessas características. Quando Dona Grácia se instala na Turquia, reinava então…”

Ficha Técnica:

Autora:Esther Mucznik
Título: Grácia Nasi – a judia portuguesa do século XVI que desafiou o seu próprio destino
Colecção: História Biográfica
P.V.P: 23 €
ISBN: 978-989-626-244-0
Páginas: 208 + 16 extratextos
Formato: 16 X 23,5 / Cartonado
Data de lançamento: Setembro

44º episódio – O BOM LADRÃO – Folhetim em setenta e cinco episódios

Melhor sair, dar uma volta. Mostrar à plateia que estou bem. A chave na fechadura. O ruído seco. A porta destravada e aberta. O céu carregado. Atravesso a rua na faixa. O bar aberto. O caixa pergunta como estou. Não posso lhe dizer que o vejo em branco e preto. Respondo, então, estar bem, só me falta o cigarro, digo, pegando o dinheiro enquanto ele um maço de cigarros e uma caixa de fósforos. Ainda bisbilhoto o fundo. Frustração. Não está lá. No lugar, uma mulher com seus cinquenta anos. Ela sorri. Não é hora para isso, digo a mim mesmo, mas três meses não é pouco, mesmo anestesiado pelos remédios, volto-me para a rua, acendo um cigarro, trago profundamente, o sujeito comentará com os fregueses meu retorno, procuro afastar a ideia de que alguém me segue, atravesso a rua na faixa, com a luz verde acesa para pedestre, paro diante da porta de casa, observo o animal no frontão, retiro a chave do bolso, encaixo-a na fechadura, dou uma volta, ouço o ruído do destravar, sinto um bafo quente no pescoço, não pode ser Carol nem Clara, nem o outro de mim, o efeito do choque demora semanas, abro a porta, entro, ao me voltar a figura feminina que estava no bar me empurra para dentro, pega a chave de minha mão e tranca a porta. Você não se lembra de mim? Em branco e preto não… Ela ri com o que ouve. Acenda a luz… Não há energia, cortaram. Então vamos para um lugar mais claro. Não tem… Vamos abrir uma janela… Estão emperradas. Ela segue pelo corredor apalpando a parede. Gosto deste lugar… Encontra a porta do quarto, faço menção de não deixá-la entrar… Quando vejo está esparramada na cama, zebrada pela luz que atravessa a veneziana, em branco e preto, as pernas abertas, atiro-me sobre seu corpo, preciso apalpá-la, perceber o volume, o cheiro, lambê-la, o pescoço, os seios, o sexo… Três meses. Enfiar o pau no corpo sem cor até o gozo, não o meu que nada sinto além atrito, somente o dela, depois tocá-la diversas vezes, verificar se não é um surto, não tenho certeza, mas ela é carne, mesmo sem cor, um pouco volumosa nos seios e nas nádegas, silicone, ela me diz, quatro, dois nos seios e dois nas nádegas, continua, apalpo um pouco mais, não sinto diferença, estranha meu modo, como se fosse um cego, é a falta de luz, digo, sem ao menos saber quem é, não usei camisinha, ninguém mandou me seguir, vai ver também é portadora… O banheiro? No fundo, respondo, mas não tem água… Paciência, me limpo com papel higiênico. Não sei se tem… Pelo menos foi bom, melhor que da outra vez… De que vez falava? Melhor não perguntar. Arrumou-se e saiu sem se despedir. A luz cortando o assoalho do corredor. Fecho a porta. Amanhã providencio a ligação da água e da luz. Quem seria? Nem vaga lembrança… Por que teria feito referência ao marido morto? Gosto do brincar irresponsável e infantil, da ausência de regras, desse estilo aberto aos acasos e à morte.

 

(continua)

Mário

Não fui um dos imediatamente convertidos à poesia de Mário Cesariny. Não sou um dos amantes incondicionais de tudo o que o Surrealismo foi e, de alguma maneira em alguns autores (lembro-me da Adília Lopes e do Daniel Maia-Pinto Rodrigues, que me parecem muito filhos – netos, talvez – dessa escrita dita automática), ainda é. Adília e Daniel – sim. O’Neill – claro. Cesariny – ainda mais. Mas há muitos surrealistas que se perderam nas brumas do tempo e que não fizeram o que fez Mário Cesariny (ou O’Neill, já agora): ultrapassaram-no.

Mário Cesariny dizia-se um surrealista e de O’Neill um “surrealista amigo”. Mas ambos são também muito grandes poetas. Os jogos de linguagem mais ou menos inócuos, mais ou menos automáticos, mais ou menos inconsequentes, são isso mesmo: jogos de linguagem. Tiveram o seu tempo, ramificações levadas a extremos necessários no Experimentalismo, mas perdem-se no artifício, dando pouca importância ao conteúdo. (Sim, acho que há pontos de contacto entre o Experimentalismo e o Surrealismo: o Surrealismo é um Experimentalismo automático, por muito que esta expressão se pareça contradizer devido aos termos conceptuais do segundo.)

Às vezes (Um gato partiu à aventura, de Risques Pereira; Dia de Descanso de Fernando Lemos; A Cidade de Palagüin de Carlos Eurico da Costa), um surrealista conseguiu num poema dizer do Surrealismo o seu âmago e levá-lo longe, tão longe que o ultrapassa.

Ora, Cesariny (e O’Neill nos seus melhores momentos) é um poeta que é muito maior do que o surrealismo que professou. Viveu surrealista, não o nego. Professou o surrealismo como modo de vida, como filosofia, como existência. Mas a sua poesia, a sua Obra, o seu génio colocado em versos é exactamente tão belo – mesmo quando impregnado de fealdade, claro – porque ele era um escritor que não se deixou enredar no meio dos versos por aquilo que tão fortemente defendeu toda a vida: a liberdade livre e sem qualquer vigia. (Diz-se, e acredito, que ele sabia de cor grande parte da sua obra – que tem isso de automático?)

“Ama como a estrada começa”

Mário Cesariny

Jorge Reis Sá

Duras e o fim do verão

Este é o último editorial de um verão que, como todos, foi rápido, vertiginoso e sobretudo construtor de nostalgias futuras (geralmente difusas e sem objecto, prontas a conceder à memória um registo de evocação estética). Para que a circunstância seja celebrada com chave de ouro, relembro hoje aqui um livro que tem três décadas certas de vida, intitulado O Verão 80. Trata-se de uma recolha de crónicas de Margerite Duras escritas, no verão de há trinta anos, depois de um convite de Serge July do então fulgurante Libération para que a escritora escrevesse, entre Junho e Setembro, uma série de textos “que não tratassem da actualidade política ou outra, mas de uma espécie de actualidade paralela”, onde se enquadrassem acontecimentos de eleição e não forçosamente ligados à “informação corrente”.

Das peripécias do convite – e foram muitas –, Duras acabou por optar por uma longa crónica semanal. Daí que o livro (em Portugal editado pelos Livros do Brasil) publique todas as dez crónicas que evocam, com visão e discorrer apaixonados, factos variados como as colónias de férias de Antifer, a indústria mimética do turismo, os tristes jogos olímpicos de Moscovo, o “governo da morte” do Irão, a questão afegã e, já no final, o eclodir das greves de Gdansk – e sobretudo o silêncio forçado que então as envolveu. Mas para além do pulsar imediato do mundo, Duras também lucubra sobre a fuga de Montaigne do parlamento de Bordéus, a previsível morte do Xá da Pérsia, as cartas de Aurélia Steiner e a fome no Uganda. O texto reflecte uma verdadeira arte de composição que se joga entre níveis muito diversos de observação, informação e comentário.

No entanto, algo excede o simples – mas rico – território da crónica. Há nestes textos um vislumbre permanente de poética que testemunha o embraiar da palavra, a liquidez estética da corrente e a sintaxe solta mas povoada de uma intemporalidade dir-se-ia plena. Mas uma plenitude a saber a mar: “O mar está alto, parado, a sua superfície é lisa, perfeita, uma seda debaixo do céu pesado e cinzento” (crónica 5). Ou: “O mar é de um azul leitoso, não há vento que arrebate a história da jovem monitora (da colónia de férias de Antifer), outras crianças alertadas vêm escutar também, os veleiros dormem, uma bruma afoga a linha do horizonte e a procissão dos dinossauros de quatrocentos e doze metros de comprimento, de setenta metros de largura, das minhas longas e doces baleias de petróleo quebradiças e cegas como anguinhas de vidro, tão perigosas como o fogo, o vulcão, o diabo” (crónica 2). Duras fala das tempestades “que rebentam sobre a Mancha” ou do rosto entediado de Sadate, mas fá-lo com um prazer contagiante que torna a leitura deste volume num fluir doce que rapidamente se consuma. Tal como o próprio verão.

Para terminar, há um detalhe interessante a que não posso deixar de me referir. Trata-se da decisão de Duras em transformar estas crónicas em livro. Como a ideia de livro sofre de uma sacralização de fundo, que ultrapassa vontades, análises e juízos glaciais, a escritora como que se viu obrigaa a explicar a razão que a levou a decidir coligir estes textos em livro. Um psicanalista à francesa – um Lacan palavroso – enquadraria muito bem este ponto específico. Escreve Duras a propósito destes dez textos: “… era difícil resistir à atracção da sua perda, não deixá-los lá onde estavam editados, em papel de um dia, dispersos em números de jornais votados a ser atirados fora” (…) “Disse para comigo que já chegavam assim os meus filmes em farrapos, dispersos, sem contrato, perdidos, que não valia a pena seguir a carreira da negligência a um tal ponto”. Ora… e digo eu para comigo: se tu, Marguerite – posso tratar-te por tu… por uma vez? –, tivesses vivido no tempo da rede, onde tudo é dispersão, perda, fragmento e “negligência”, como irias fundamentar essa tua decisão? Enfim, um verdadeiro detalhe. O importante é a perenidade, o fulgor e o “laço” memorial deste teu belíssimo livro.

Correspondência especial de S. Petersburgo – Helena Golubeva – a menina, o destino e a constante partida para uma nova viagem

Helena Golubeva, uma das maiores especialistas em língua e literatura de expressão portuguesas na Rússia, faz esta terça-feira, 21 de Setembro, 80 anos. Filóloga, tradutora, professora de línguas e literaturas espanhola, romena e portuguesa, chefiou desde 1972 até 1996 a Secção de Português da Cátedra de Filologia Românica da Universidade Estatal de São Petersburgo (até 1991 Leninegrado), a primeira na Rússia onde se começaram a formar especialistas em Língua Portuguesa e Literatura de Expressão Portuguesa, e da qual foi co-fundadora em 1962. Em 1995-1996, foi eleita membro académico correspondente estrangeiro da Academia Internacional da Cultura Portuguesa, tendo posteriormente contribuído para o boletim daquela academia com dois detalhados artigos sobre a história da divulgação e do ensino das letras luso-brasileiras em São Petersburgo no século XX.

É, desde o início, vice-presidente do Centro de Estudos Lusófonos da Universidade Estatal Hertzen, inaugurado em 1999 e apoiado pelo Instituto Camões. No decorrer da sua visita de Estado à Rússia em Outubro de 2001, o então Presidente da República, Dr. Jorge Sampaio, prestou pública homenagem à Professora Helena Golubeva no início do discurso que proferiu na Universidade Estatal de São Petersburgo, frisando o valioso contributo que a Secção de Português tem dado para a divulgação da língua e da cultura portuguesas. Hoje, Helena Golubeva continua a traduzir e a dar aulas a alunos finalistas e mestrandos, tanto dos cursos de Português como de Romeno.

Chegou à língua portuguesa pelas mãos da perpétua curiosidade pelo Novo e do destino que nos vai revelando como tudo está inextricavelmente ligado. “Ainda criança, ficava muito impressionada pelas conversas que ouvia sobre a Guerra Civil em Espanha, e aquele país parecia-me muito romântico e heróico, um país que luta pela liberdade… (…) A  minha Mãe comprou um manual de espanhol, um dicionário e o primeiro volume do D. Quixote. Eu acho que foi um signo do destino.” Depois, já adolescente, o romance, traduzido para russo, de Ramón María del Valle-Inclán “A corte dos milagres”, despertou o seu interessse pela Galiza, que se viria também a reflectir mais tarde nos seus estudos de Filologia Galega. Um dia, ao arrumar os seus livros, encontrou o manual de língua espanhola esquecido, e começou a estudar. A autora desse manual, Olga Vassilieva-Schvede (1896-1987), espanhista e lusista muito conhecida, viria a ser sua professora, orientadora e amiga até ao fim da sua vida. Helena Golubeva formou-se em Filologia Espanhola pela Faculdade de Filologia da Universidade Estatal de Leninegrado, onde começou a trabalhar. “Mas eu tenho uma particularidade. Eu não posso ocupar-me muito tempo com a mesma coisa!” E começou a estudar romeno. “Um amigo dizia-me que era preciso aprender romeno, porque nós vivíamos na União Soviética, e os países onde se falavam línguas românicas eram para nós inacessíveis. Mas a língua romena e a língua moldava praticamente são a mesma língua, e a Moldávia era um país onde nós podíamos ir, viajar, falar com as pessoas”. Mais tarde, quando foi inaugurada na cátedra a Secção de Filologia Romena, foi convidada para ensinar língua romena. “Entretanto, as nossas relações com a Roménia melhoraram tanto que eu recebi a proposta de participar nos cursos de Verão de língua Romena, na Roménia.” É aí que trava conhecimento com o filólogo, linguista e professor português Venâncio Peixoto da Fonseca (1922-2010), que lhe oferece o seu livro “História e situação da Língua Portuguesa no mundo”. “Regressei a casa com este livro e comecei a estudar português. E o destino também me ajudou nisso. Porque entre os nossos estudantes da secção de Espanhol do primeiro ano daquele ano apareceram alguns repatriados da América do Sul, entre eles um brasileiro, Anatólio Gach, e eu pedi-lhe para me dar lições particulares de português.(…) E depois, Olga Vassilieva-Schvede teve a ideia de inaugurar na nossa cátedra uma Secção de Filologia Portuguesa, com Anatólio Gach, que entretanto se tinha formado em Filologia Espanhola, e comigo. Porque tínhamos já secções de Filologia Francesa, Italiana, Espanhola, Romena – mas não tínhamos Português! Isto foi em 1962. E desde então sou lusista.” Helena Golubeva publicou um manual de Fonética da Língua Portuguesa para estudantes russos (1981). A sua tese é dedicada à Gramática Histórica da Língua Portuguesa: a forma Futuro do Conjuntivo desde o século XIII ao século XX.

Começou a traduzir literatura portuguesa nos anos 60, a convite de Valeri Stolbov (1913-1991), da editora “Literatura Artística” de Moscovo. “Olhe com atenção o livro que tem nas mãos. É um livro histórico. É a primeira tradução de literatura portuguesa depois de uma pausa de muitos anos. E todos os autores que nele figuram são publicados pela primeira vez em russo.” Este livro de contos de escritores portugueses, entitulado “Escura era a noite”, foi editado em 1962. E as primeiras traduções de português de Helena Golubeva  aparecem nesse livro. “Traduzi um conto de Aquilino Ribeiro, “O soldado que foi à guerra”, e alguns contos de um escritor que então era muito jovem, José Augusto França, “Três contos de África” e “Um homem feliz.” Tive muita sorte. Não foram escritores quaisquer! Grandes figuras.” Em 1968 surge “Sob o Céu do Cruzeiro do Sul”, antologia de novelas brasileiras dos séculos XIX-XX, organizada e parcialmente traduzida por Anatólio Gach e Helena Golubeva. Nela aparecem, pela primeira vez em russo, Bernardo Guimarães, Machado de Assis, Tristão de Alencar, Lúcio de Mendonça, Garcia Redondo, Artur Azevedo, Aloísio Azevedo, José Veríssimo e Valentim Magalhães. Em 1974, aparece a antologia “Poesia Portuguesa do Século XX”, organizada e prefaciada por Helena Golubeva. “O livro já estava pronto, e saiu em 1974, foi uma coincidência.” Aqui aparecem pela primeira em russo Fernado Pessoa e Sophia de Mello Breyner Andresen, traduzidos por Helena Golubeva, e ainda José Terra, Miguel Torga, Papiniano Carlos, José Gomes Ferreira, Álvaro Feijó, José Régio, António Gedeão, Tomaz Kim, Mário de Sá-Carneiro, Daniel Filipe, Luís Veiga Leitão, Egito Gonçalves, Jorge de Sena, Carlos de Oliveira, Raul de Carvalho, Eugénio de Andrade, João Apolinário, António Borges Coelho, Sebastião da Gama, Manuel da Fonseca, Mário Dionísio, Mário Cesariny, Herberto Helder, Fernando Namora, Alexandre O’ Neill e Óscar Lopes. Como escreveu o professor e tradutor William P. Rougle em 1975 na revista Colóquio/Letras, “(…) com tiragem de 25 000 exemplares, [esta é] uma das mais amplas antologias de poesia portuguesa moderna jamais publicadas em tradução. (…) Nenhuma outra nação, ao que supomos, demonstrou ainda tão grande e sincero interesse pela poesia do século XX dum país cuja literatura passada e presente tem sido longamente ignorada no Ocidente.” Entre outros trabalhos, Helena Golubeva também prefaciou e traduziu parcialmente “Retalhos da vida de um médico” de Fernando Namora (1968) e contos de Alexandre Herculano (1974), co-organizou a primeira antologia de poesia dos trovadores Galaico-Portugueses e escreveu o posfácio da mesma, tendo traduzido D. Dinis e Mendinho (1995), traduziu poesia de Casimiro de Brito e Fernando Pinto do Amaral na antologia “Poesia Portuguesa Contemporânea” (2004), “O homem duplicado”, de José Saramago (2006) e “O pequeno livro do grande terramoto. Ensaio sobre 1755”, do jovem historiador Rui Tavares (2009). Aguarda publicação uma antologia de contos de escritores portugueses contemporâneos, já praticamente pronta, de entre os quais traduziu Lídia Jorge. Mas, dos planos futuros não gosta de falar.

Com os portugueses partilha o gosto pela liberdade e pelas coisas novas.“Eu acho que nisso sou parecida com os portugueses – os portugueses gostam tanto de coisas novas que descobriram meio mundo. Eu gosto de ver coisas novas, de conhecer coisas novas. Nisso, sinto algum parentesco espritual. E também no fatalismo.” Grande admiradora do Brasil, vê com grande entusiasmo a possibilidade de aproximação que começa agora a esboçar-se entre aquele país e a Rússia. “Eu acho que a Rússia e o Brasil – embora nós sejamos um país do norte e eles um país tropical – têm muitos pontos em comum. Por exemplo, a floresta Siberiana e a floresta Amazónica são pulmões verdes do nosso planeta. Também o carácter russo, bastante pouco disciplinado, é parecido com o carácter brasileiro. Eu acho que nós, os russos, somos pessoas de talento, mas nem sempre o sabemos aproveitar. Os russos são pessoas interessantes, são sonhadores, gostam de fantasia. E os brasileiros também.”

Todos aqueles que amam a língua portuguesa estão-lhe gratos, e desejam deslumbrantes e sempre renovados horizontes.

A. L. Simões Gamboa, em São Petersburgo

Al berto: a dramaturgia do silêncio

Lêem-se versos como – “A memória é hoje uma ferida onde lateja a Pedra do homem, hirta como uma sombra num sonho” – e a questão que imediatamente se coloca é esta: que fronteiras traçam estas imagens? Porventura, delimitarão espaços onde se digladia o teor que faz esta escrita ser uma poesia que diz, mas que diz, mostrando, ao mesmo tempo, a carne viva que dita a urgência de ter que dizer. Daí que não haja, muitas vezes, tempo para instalar os andaimes da retórica e a voragem – o ritmo largo – acabe por se sobrepor à lentidão estudada e depurada da sintaxe e das imagens límpidas, noutras atmosferas sempre muito polidas, trabalhadas e determinadas pela pose literária.

Al berto está longe dessas oficinas almofadadas onde o arear da poética é um moldar quase solene da prata. Mas isso não significa que o tom filigrânico não ressurja no meio do impetuoso caudal:  “tuas mãos de neve”, “luas incendiadas”, “os lábios incendeiam-se com vinho” – ou ainda – “cintilam peixes pelas paredes do quarto” – são disso óptimo exemplo. Imagens com figurações da intimidade, figuras de fogo, fisionomias do excesso.

Se aliarmos a disposição pioneira e “vitalista” de Al berto – tal como seria chamada no final dos anos noventa – a textos como os de “obsessividade íntima”[1] de Herberto Helder ou da “art brut[2] de Joaquim Manuel Magalhães, entramos num mundo de metamorfoses e de abismos matéricos. Os exemplos de Mar-de-Leva (1980), que continuamos a revisitar desde o “Ponto de Mira” de há duas semanas, falam por si: “O sal tornou-se rubro e cospe flores…”, “na memória ficaram os sinais dos bosques ceifados…”,  “para que possamos sobreviver ao estrondo da pólvora…”,  “da água enfurecida irromperá o desasatre” – ou, num tom de glorificação trágica: “na boca ficou-me um gosto a salmoura e destruição”.

Esta glória semeada no coração do abismo dita uma outra característica de Al berto: o propósito dramatúrgico que envolve o relato como um água que se insinua, revolta, num aquário em permanente clímax. As vozes realmente interpelam, interrogam e contracenam com a densidade crua do Eu. Vozes de segunda e da primeira pessoas debatem-se no palco, ao mesmo tempo, sacrificial e narcísico que se vai enunciando: “onde estarão as tâmaras maduras das tuas palmeiras?”,  “que murmúrio terão as pedras do teu silêncio?”,  “sabes, as aves aquáticas…” ou “é  tarde meu amor, estou longe de ti…”. Este relacionar íntimo e questionador parece indiferente à asserção que o corpo ininterruptamente veicula: “apenas possuo o corpo magoado destas poucas palavras tristes que te cantam”, “não consigo dormir com esta ferida” – ou – “levanto-me e saio para a rua”.

Seja como for, à moda de um coro que se levanta do silêncio de fundo, nos finais, a intemporalidade acena para superar a catástrofe. Esta estratégia de (verso de) ouro surge, de maneira clara, nas seis anáforas do final do poema 7 de Mar-de-Leva. As seis imagens que aí se desdobram são regidas pelas formas verbais “Acostam”, “Agitam-se”, “Se abandona”, “Pernoita”, “Cresce” e “Perdem” – e colocam em evidência o ‘não dito’ matricial dos poemas do livro: a perenidade que subjaz à transformação e que se imporá para além do tempo da história e das narrativas que o iludem. Daí, também, o apelo da infância como signo de pureza e perspicácia de um tempo que parece viver fora da respiração do tempo comum: “encolho-me no leito estreito, no fundo dele, onde o linho já não fulgura”, “por onde andará o Cabecinha? E a Tia Clementina? E o Cisisnato?” – ou ainda, em jeito de ‘quête’ sem fim – “procuro no fundo das algibeiras os bonecos da bola”.

[1] Como escreveu o poeta e ensaísta, Joaquim Manuel Magalhães, em Rima Pobre (Editorial Presença, Lisboa, 1999, p. 143).

[2] Como assinalou Fernando Guimarães em A Poesia Portuguesa Contemporânea (Quasi, Vila Nova de Famalicão, 2002, p.157).

40º episódio – O BOM LADRÃO – Folhetim em setenta e cinco episódios

O que mais fazer aqui entre estas paredes enormes que não dar ouvidos à insânia, aceitar essa flatulência de ideias selvagens, esse temporal híbrido de palavras, esse avesso retorcido e fora de lugar? Que os homens de branco não ouçam além da linha melódica do comum, dos normais, caso contrário, ficarei mais tempo entre estes muros de pedra… Fizeram muros altos, cinzentos – esconderam a terra. Mas o quadrado azul está presente: Sempre. Não sei a autoria, a doença leva de roldão a memória, permanecem rastros, vestígios, por enraizados em terreno árido da insânia. Mas o quadrado azul sempre presente e mutável, como a tela grande do cinema, movimentos de aves e nuvens. Estamos na época de os pássaros migrarem com seus cantos roucos. Atravessam em bandos. Aqui ninguém migra além do possibilitado pelo delírio, alucinações e ilusões. O pátio está abarrotado, há disputa pelo ensolarado. As táticas curativas como as reuniões de grupos e terapia através da arte ocorrem à tarde. Como falar em arte se o pensante amordaçado pelas pílulas coloridas aviadas pelos doutores? Apenas os surtados são internados. O que parece um avanço não passa de um discurso humanista embalado em diminuição de custos pelo Estado, o que abriu os portões dos hospícios, a maioria caminha como zumbis pelas estradas, dormem nas ruas, morrem esquecidos nas macas dos hospitais. Mas a fábrica lá fora tem linha de montagem própria, a família e a escola continuam a desrespeitar a individualidade, a cobrar o retorno na pura imitação e identificação, mas é preciso esquartejar na diferença e dissolver-se na identidade para abrir-se ao estilo, todos os dias o portal vomita novos internos nas celas, muitos jovens delirantes pelo uso de drogas, cerceados em suas liberdades por muros altos e arame farpado. Para evitar fugas… Mas continuam tentando. Alguns morrem dependurados na cerca, vítimas de alucinações, quando o louco avança em territórios arcaicos com seus manjaléus, deradelfos, dicéfalos e tricéfalos, em orgia imaginária grega, e encontram as armadilhas criadas pelos guardas e funcionários. Há quatro guaritas, uma em cada ângulo do muro, mas nem sempre há guardas ali. Aqui ninguém se estranha além do instante, o território do demente é fistuloso, repetição do improvável, ilha desarvorada do caos, é estar na fenda ou apossar-se dela, mas de um modo marginal e fronteiriço a outro surto que pertence à maioria formada no ritual cuja fenda é ninho de alguma religião, filosofia ou ciência, que instrumentalizam a repetição do provável, eco que mantém o sistema e a normalidade, essa neurose possessiva e de comportamento único do convívio comum. Repetir-se e submeter-se diariamente aos trajetos do emprego, da igreja, da escola, de shopping center, aos prazeres da carne, ao consumo, diante de um mundo definido por regras e placas, mas já nem tanto, todo psicótico surta quando desaparecem as referências e o caos invade as relações, os surtos estão em cada esquina, nas balas perdidas, nas casas noturnas, nas viagens terrestres ou virtuais, no biográfico, respiro balzaquiano de personagens petrificados em hospício coletivo a céu aberto, com horizontes e lebreias, como se houvesse tempo e espaço únicos, qualquer lógica ou razão, essa poética de estrelas e astros perenes… E a cidade passa a hospício, as casas a celas, todo o resto um enorme pátio sem muros e guaritas… A tarde se prolonga como o alcançar em dor o infinito. A tarde se estende sem vibração para nada. Mulheres iguais – guardas – monotonia – cotidiano – dor: HOSPÍCIO (voltei, meu deus. Voltei.). Todos os dias retornar e acordar sem aperceber-se dentro de um surto. Talvez pela ausência de muros e guaritas. Mas há os indícios, as crianças a esmolar nos cruzamentos, moradores de rua carbonizados durante as madrugadas, os chistes políticos, a imitação nas galerias, nos jornais, nas editoras, arte como repetição do mesmo, de pensamentos sem tradução, sem pensar, nem imaginar o buraco negro de uma Maria Lopes Cançado, ou a arte de um Rosário Bispo, a doença nas fotografias da explosão provocada pelo encontro das galáxias, da imprevisibilidade além do instante, fuga… O olhar muito distante, lá longe, onde nem pássaros habitam.

 

(continua)

O segundo aniversário do PNETliteratura

No dia 8 de Setembro, depois de amanhã, o site PNETliteratura cumpre o seu segundo aniversário. Há um ano, levámos a cabo aquele tipo de festejos que são desejados e merecidos após a excelente maturação de um primeiro ciclo. Neste ano e nos anos a vir, a passagem do tempo exigirá de todos nós – equipa editorial, escritores residentes, colaboradores, administração e correspondentes – a mesma festa (é preciso saber tocar com a mão aberta nas estrelas!), mas sobretudo a certeza de que estamos a testemunhar, no dia a dia, o legado da persistência, a exigência de qualidade e a confirmação de um espaço de referência na literatura que se vai escrevendo em Português por esse mundo fora.

 

Se em 2009 o site PNETliteratura fez do patrocínio de Paraty uma questão particularmente simbólica, este ano estivemos no Correntes d’Escritas da Póvoa do Varzim, entre 24 e 27 de Fevereiro; na Feira do Livro de Leipzig, entre 18 e 21 de Março e ainda no Pen Word Voices Festival of International Literature de Nova Iorque, entre 26 de Abril e 2 de Maio. Apesar das dificuldades dos mercados, continuamos apostados em promover um prémio literário inovador que, a seu tempo, será divulgado. Ao longo deste ano, a galeria de escritores residentes aumentou e muitos foram, portanto, os nomes que se vieram juntar à singular inscrição do PNETliteratura, nomeadamente Germano de Almeida, Cecília Prada, Filipa Melo, João Moreira e Sá, Patrícia Reis ou Vítor Burity da Silva. Uma palavra para Eustáquio Gomes, nosso colaborador da primeira hora das terras do Recife que, em Julho passado, foi acometido de doença súbita. Que se recomponha inteiramente… são os nossos votos nesta altura de comemoração!

No capítulo das parcerias, todo o destaque da rentrée em que agora entramos – e do ano de 2011 que já se avizinha – vai para a preparação do “Balanço Literário da Década no mundo lusófono”, iniciativa que o PNETliteratura reparte com o Centro Nacional de Cultura com apoio do Ministério da Cultura. O balanço terá lugar, todas na última quintas-feira de cada mês, a partir de Setembro 2010, nas instalações do CNC em Lisboa ao Chiado. Guilherme de Oliveira Martins abrirá  o ciclo com uma conferência subordinada ao tema “A expressão literária como esteio da lusofonia”. Seguir-se-ão: em Outubro de 2010, “O romance português” por Miguel Real; em Novembro, “O romance brasileiro” por Maria Aparecida Ribeiro; em Janeiro de 2011, “A poesia do século XXI em Português” por Eduardo Pitta; em Fevereiro de 2011, “Os desafios da tradução” por Maria do Carmo Figueira; em Março de 2011, “O papel da crítica literária” por José Mário Silva; em Maio, “A Literatura na África lusófona” por Ana Paula Tavares; em Junho 2011  – “O acordo ortográfico e a literatura no espaço lusófono” por Vasco Graça Moura; em Setembro 2011 – “A ilusão (da) crítica: os estudos literários africanos e a ordem eurocêntrica” por Inocência Mata; e em Outubro de 2011, “O mundo editorial na primeira década do século” por Jorge-Reis Sá. O balanço literário da década encerrará com uma mesa redonda, na última quinta-feira de Novembro de 2011. O primeiro ano da nova década promete!

De resto, o site – ou o sítio – PNETliteratura continua igual a si próprio, nas suas finalidades e no seu âmbito. Resumiria em sete pontos esta disposição que nos anima há já dois anos: Uma estratégia: tomar o pulso à lusofonia literária. Um devir: transformar os inéditos em acervo aberto na rede. Um pressuposto: respirar o quotidiano sem repetir a agenda. Uma preocupação: analisar os legados literários do nosso tempo. Uma necessidade: estar nos quatro cantos do mundo. Uma impulsão: problematizar o fazer literário. Um desejo : Reatar o espírito de ludema literário. Respiremos fundo, que há pelo menos mais um século pela nossa frente.

Termino este editorial comemorativo, transpondo o último parágrafo do editorial que redigi há precisamente dois anos: “Neste tempo de crise criativa – a crise significa cada vez mais o nosso dia-a-dia –, passámos a viver num universo sem quaisquer receitas paternalistas. O alívio que tal pressupõe é, sem dúvida nenhuma, também, uma imensa importunidade. É por isso que, neste novo site sobre literatura, o que essencialmente se joga é a capacidade radical de a poder e saber inventar, criar e problematizar”. Para que não nos acomodemos nunca, confesso-vos com toda a sinceridade: não retiro uma única linha a este quase manifesto.

38º episódio – O BOM LADRÃO – Folhetim em setenta e cinco episódios

Sozinho na cozinha… As mulheres e o gato ausentes. Pensamento no longo corredor do que foi. Criança na teimosia do ovo e a mãe em estalada possibilidade de perda por inanição: Ovo outra vez?! Nem imaginar que a ilhota amarela no oceano nácar excitava o verme erótico ainda sem endereçamentos na geografia corpórea. Mais esse lado literário que sempre negou. Ainda pureza, pernicioso é o futuro, construído na necessidade de expurgar uma culpa que nunca lhe pertenceu, o garfo acarinha fronteiras até ruptura liberalizante de magma sorvida em gozo pelo miolo de pão, boca em orgasmo salivar, sêmen-semente do vindouro, curtido na perversidade de fêmea cativa em fantasmas de finalidades. No entreato digestório, fome saciada, os dentes expunham-se à rua, aos movimentos barrocos do vento, cada vez mais distante os ruídos de louça; e a perversidade. Agora, mais ovos aninhados na geladeira. Mexidos dão menos trabalho. Não se faz mais necessária a poesia do magma. É para saciar a fome. Modo animal de adulto banido das extensões fluídas da origem. Misturar clara e gema, gesto masturbatório, o menino na câimbra reinante no momento do gozo, assuntando a face materna na possibilidade de um fim, enclausurado nos mistérios do silêncio e das paredes. Nascia ali um enamorar perverso, curtido nos deslumbramentos assimétricos das desoras.

Você ainda está aí? Mamãe sofria com essa mania… Ovos! Agora, pouco importa. Só o fantasma dela presente. E o seu… Vim pegar a garrafa de uísque. Você não leu as cartas. Faz meses que não lê as correspondências. Estão todas sobre a escrivaninha. Acho que não foram avisados… Foi tão rápido. Lembra-se de papai? Não! Você não tem memória. Ele comia a pera. Abria a boca para mordê-la. Não nos demos conta. Ver tudo quedo: a fruta, o braço, a cabeça, o corpo. Não respira… Mamãe diante de alguma sombra que não vemos, sussurrando frases desconexas, você deixa o pão sobre a gema do ovo e corre a socorrê-la. Eu continuo sentado. Descobrimos que morrer é essa pausa no espanto. Deixamos mamãe na agonia do instante e nos fechamos no escritório. De nada adiantou a porta fechada, as sutilezas do passamento transpassam as frestas, os vãos e as paredes. Você colocou-se no canto, rosto virado para a parede e tapou os ouvidos. Não me lembro se chorou. Pouco importava o que eu lhe dissesse. Só saiu dali levado pelas mãos do tio Anastácio. Não quis ir ao velório. Ficamos em casa. Esta mesma casa. De nada adiantou… Tem razão. A imaginação nos colocou em outro velório. Ou não! Talvez estivemos presente, não há ninguém para nos confirmar… Você está ouvindo? Maurerische Trauermuzik. Papai gostava tanto de ouvi-la! Mozart. Cheio de verdades. Como se a ordem do mundo fosse de sua competência. Chegava a casa, enfurnava-se no escritório de onde saía já tarde da noite, dormíamos, acho que nos odiava. Juntos, apenas às refeições e nos eventos da Loja quando nos apresentava com certo ufanismo. Éramos uma família… Melhor voltar, tomar mais umas doses. A euforia é que me encanta. Fique aí com seus ovos! Com os ovos e os testículos. É o que teria dito. O pai ali, sentado, expressão severa, no aguardo de qualquer reação do filho que diante da variedade de um prato de comida pensava na gema e na clara, no ovo frito, o olhar aflito da mãe, como se dissesse Coma, vamos!, a criança em soluços e lágrimas. Marcava, assim, o momento na alma deles, como uma escara, perversidade atroz por infantil, o rosto do pai, o rosto da mãe, a comida, o mastigar nauseento, o prato vazio, o homenzarrão de costas no corredor, a entrar no escritório, fechar a porta, abraçar a mãe, cabeça entre suas pernas, em soluços, o cheiro adocicado, ter as mãos dela acariciando os cabelos, ouvir os conselhos sussurrados, que evitassem irritar o pai, que comesse de tudo, que ovo e pão não alimentam, mas ganhava sua flagrância, suas carícias, suas histórias contadas no entreato do palpitar no peito. Nós carregamos ruídos dentro do corpo. Confabulações com nossos monstros e fantasmas…

As mesas enfileiradas. Passar o tempo carimbando documentos, redistribuindo processos, observando as cabeças à frente, ser o último da fila. Sempre foi assim. Se não por opção, por ordem do professor. Desejavam humilhar, mas não sabiam ser do agrado agir como o último. O primeiro representava ser o melhor do mesmo. Singular… Preferia ser único, por mais que isso doesse aos outros. A quem a vida pertencia? Ao Estado, é claro! Voz de algum lugar que não o mesmo. Tanto fazia se pertencesse a Deus ou ao Estado. Não lhe incomodava. O trabalho, por mais rotineiro que fosse, permitia viver sem favores. Até 16h00. Nem um minuto a mais. Colocar o capote, pegar a maleta e sair. Ajeitar-se no vagão do metrô, maleta no colo, observar as pessoas através dos reflexos nos vidros das portas e janelas. Não sabendo observadas, conhece-se o sósia, rompe-se com o jogo de sedução. O mesmo… Entrar no bar para fazer um pouco de hora. Sempre no mesmo canto. Em algum tempo e espaço. Não sentir estranheza ao ver o sujeito entrar para alimentar o vício. Todos ali fazem o mesmo. Chegar em casa anestesiado e adormecido. Não pensar no dia, não pensar o dia, não pensar na existência. Morrer todas as noites. 17h30. Hora de alimentar o gato. De abrir a memória. O leão no frontão da casa. Símbolo vazio. A sineta…

 

(continua)

” A Casa dos Sete Pecados” de Mari Pau Dominguez (Editorial Presença)

“A morte, num instante

e num lugar qualquer

 

Madrid, Rua das Infantas, número 31, finais de 1882

 

Diante da morte, a vida assume contornos de estranheza. Mas a morte não tem quaisquer direitos e não tem outro remédio senão suportar o olhar insolente da vida.

Ser contemplada. É tudo o que a morte permite, já que não pode ser vivida.

E era isso o que faziam, contemplá-la, aqueles que rodeavam a macabra descoberta naquela manhã fria em Madrid, cidade que ainda estava a acabar de acordar de um longo sonho. Ou talvez de um pesadelo.

 

Faltava pouco para o breve descanso do almoço. O grupo cavava a toque de caixa. Os sete operários que o constituíam não dis­punham de tempo suficiente para que fosse possível inaugurar a nova sede do Banco de Castilla no início do ano, mas tinham que fazer o melhor que podiam. Aquelas obras visavam ampliar uma ala da Casa das Sete Chaminés, propriedade que fora adquirida, nos finais de Setembro, por Dom Segundo Colmenares, conde de Polentinos. A casa fora cons­truída em 1570 sobre um terreno com alguns campos agrícolas adja­centes, nas traseiras do Convento del Carmen, convertido naqueles dias na Praceta do Rei, um nome que não era casual, já que o seu impul­sio­nador fora o próprio Felipe II. Ou pelo menos era o que diziam. Porque na verdade, como tantos outros acontecimentos rela­cionados com aquele palacete, não se sabia ao certo o que acontecera.

Um dia estranho de Inverno, aquele, em que os sonhos esvoaça­vam pelo telhado, por entre os buracos das sete chaminés, à procura que alguém lhes estendesse uma mão para que descessem ao mundo real, já cansados de se esconderem durante tantos séculos. E eram esses sonhos de dono desconhecido que ninguém esperava que se pudessem materializar ao serem removidos por uma simples pá de cavador, ou que explodissem num grito que parecesse nascer da terra. Quem o lançou afinal foi um dos trabalhadores da obra. Os outros seis formaram uma roda em torno do colega que cravara a pá num montículo de terra e ficara imóvel, com ar pálido. O medo manteve-o paralisado com o pânico estampado no rosto, tal era o choque perante o que acabara de descobrir. Não conseguiu deixar de olhar para o que parecia ser um osso amarelado, semienterrado.

Aproximaram-se também transeuntes curiosos, alertados pelo grito, para compartilhar a surpresa, não propriamente agradá­vel. Ao revolver o terreno, entre os escombros de um muro que esti­vera a ser demolido nessa manhã, encontra um esqueleto em muito boas condições. Dir-se-ia que não lhe faltava nada, e parecia ser de mulher. O mais velho do grupo reparou que os ossos da mão direita estavam apertados e entre eles vislumbraram-se várias moedas de ouro. Contou-as: eram quatro. Então, o trabalhador responsável pela sinistra descoberta pôs-se de joelhos e, com as próprias mãos, continuou a escavar. Apareceram mais três moedas, que perfi­ze­ram um total de sete, mais um anel. Eram sete, as moedas de ouro encontradas, como eram sete as chaminés que coroavam a casa. E eles, o grupo de trabalhadores, também eram sete. Um medo irra­cional pareceu invadi-los, como se tivessem combinado entre eles, ainda que ninguém tivesse pronunciado palavra, com medo que aquilo fosse alguma maldição oculta. O mais impressionante era a caveira. Entre os seus dentes corria um ar antigo que só Deus saberia de onde poderia vir. E nas cavidades dos olhos abrigavam­‑se perguntas de resposta incerta.

 

Um vento gelado irrompeu no silêncio dos mistérios da Casa das Sete Chaminés, agora expostos. Uns mistérios que pareciam falar de desgraças inconfessadas, de desgraças ainda semivivas e que resistiam a morrer completamente, de angústias que tinham sobre­vivido ao prazer que poderia ter-se acolhido entre os seus muros.

Levaria tempo a saber-se que as moedas eram do século xvi e que poderiam ter sido as arras matrimoniais dadas por Felipe II a uma estranha dama. Espectro ou realidade… Apesar de não haver documentos que o comprovassem, havia quem estivesse conven­cido de que fora o monarca quem mandara acrescentar as sete cha­minés ao telhado, como símbolo dos sete pecados mortais. Pecados que ninguém confirmou que ele tivesse expiado.

 

A chuva, que começara a cair, afugentou os curiosos e fundiu a terra com os restos da inquietante descoberta até os ter tingido de uma cor escura que se aproximava, temível e dolorosamente, do preto.”
Ficha Técnica:
Autor: Mari Pau Dominguez
Título: A Casa dos Sete Pecados
Editora: Editorial Presença
Saída a público: 2 de Setembro de 2010.

A bem da literatura

Em Março passado, a imprensa tratou com singular carinho a destruição em massa de livros. O caso surgiu associado a uma editora que não carece de publicidade. Na altura, a ministra da cultura recorreu ao termo “massacre” para descrever a situação e um dos senadores do nosso espírito mais ou menos desprevenido, Manuel Alegre, confessou-se profundamente “triste”. O cenário não deixa de ser patético. Com todo o respeito pelos estados de alma próprios e alheios.

O clímax ressoou nas quase mitológicas palavras de Gabriela Canavilhas, quando referiu que a “importância do livro ultrapassa a noção de mercadoria”. É um facto que herdamos culturalmente uma visão sagrada do livro. A ministra terá, pois, toda a razão. Confessemo-lo.

Em Ezequiel (3,1), o profeta ingere um rolo escrito que é imune aos sentidos e à impureza dos humanos e recebe depois ordens para comunicar o sentido dessas letras junto à “Casa de Israel” (3,4). O Apocalipse canónico do Novo Testamento apresenta-se como o duplo terreno de um Livro celeste, recebido por João através de um anjo intermediário (Ap 5,1). Na variante islâmica, a revelação é traduzida pelo “Tanzíl” (5,52) que remete para a ideia de ‘descida do céu’ do Livro eterno e único (a raiz do verbo “descer” é precisamente /NZL/).

Enfim, uma mercadoria não tem alma mas o livro, esse, seguramente tem. Aliás, basta ir ao grande banco do estado para aferirmos dos resultados de uma recente campanha de recuperação de livros usados. Eles ali estão a dormir nos seus escaparates, entregues ao desinteresse e à impaciência dos clientes e aforradores, muitas vezes carregadinhos e pó e de irremediável solidão. Não era melhor fazer aquilo por que, hoje em dia, mais se clama que é… a reciclagem? Sim, ser-se íntimo das causas do ambiente. E ser-se, em primeiro lugar, racional.

Num mercado em que a produção de livro é a todos os títulos irracional, quase um livro por hora, o que se poderia esperar? Que as empresas se endividassem com milhares de metros quadrados de armazéns apenas por causa de Ezequiel? Creio que não. Quem tem uma empresa sabe o que significa a palavra despesa. O que acontece bem menos nos corredores do estado e sobretudo na arejada brisa das mentes que herdam, desde finais de setecentos, o impoluto selo de “intelectual”.

As pessoas lêem se lhes apetece, quando precisam e se gostam. A liberdade vive por cima e nos antípodas das cinzas das inquisições, por mais veladas que sejam. De qualquer modo, o consumo de livros é, hoje em dia, desproporcionado face aos níveis de leitura. Ao mercado cabe resolver os desajustes e irracionalidades por si criados. E os novos livros, esses que não necessitam do papel para posterior destruição, já aí estão por todo o lado e cada vez em mais formatos. A bem da literatura.

LC

Al berto e o barco que diz a água

O poeta Al berto foi um poeta singular. Morreu muito cedo, mas mesmo em vida a sua singularidade nunca esteve em causa. Não é muito comum ser-se de um tempo e adoptar o que esse tempo lega, no dia-a-dia, reciclando o que é matéria de código, moda, linhas reconhecíveis ou marcas – como hoje se diz em cada vez mais e imprevistos “mainstreams”. À correcção da época, ou seja, à incorporação destes aspectos que se tornam apelativos pelo espesso denominador comum que suscitam, Al berto preferiu fascinar pela incontenção rítmica do momento, pela captação rude e crua da vaga, pela inscrição – em jeito de levada – dos elementos puros, embora sem queda alguma para encenar o poético, de modo forçado, na arena estética.

Releio sete poemas de Mar-de-Leva de Al berto, publicados pela primeira vez, em 1980, em edição de autor. Como que se torna audível na errância a que os poemas convidam – sete que são um único – um rumor de águas que convoca a inquietação dos ventos. Como se desta poesia se visse o mar, ou melhor, se pressentisse a cosmogonia que terá transformado uma espécie de vácuo num lugar que se deseja enunciar: “a cidade que vem das águas”, “escuto o lamento das águas” e “em mim a lama… e o visco inocente dos teus náufragos”. Este testemunho telúrico é permeável a uma agitação maior; é essa a guarida que faz dos ventos letras sem molde: “uma cidade que eu suspeito ter sido construída com vento suão”, “os ventos varrem, os ventos ainda uivam em todas as frestas…”, “lugares distantes e sombrios, habitados pelo último cavaleiro dos ventos” ou ainda – “A noite chega-me irrequieta de cícliocos ventos”.

A terra, o barro do verso, cobre depois esta matriz de teor líquido e plena de inquietude. Tudo começa pela mais óbvia antropomorfização: “paisagem irreconhecível do teu rosto”, “quando cantas saem-te sons puros da boca e sorrisos…” – ou – “as pedras acendem-se por dentro, reconhecem-me”. Da antropomorfização à empatia com a dor profunda da terra, vai um passo: “alastra-me em redor do coração…”, “lembro-me das pedras mortas dos teus pulsos”, “o  peito rasga-se-me”, “sobem-me vozes calcárias à garganta” – ou ainda, fundindo elementos – “em meu peito doído ergue-se esta raiva dos mares-de-leva”.

Muitas vezes os pronomes possessivos (e os pessoais reflexos) obliteram a clareza e turvam a leitura, mas a verdade é que as depurações típicas de uma oficina cirúrgica nunca preocuparam Al berto, para quem a voz profunda era um geocorpo em toda a sua genuína expansão. A fusão sexual do Eu, que na poesia de Al berto quer tão-só sinalizar um Eu real – e não outras normativas da teoria –, é clara nestes poemas seminais do autor. Ora leia-se: “teu olhar é o mosto dos nossos desejos” , “teu corpo adquire o sabor misterioso das algas” ou – “diluíste-te  nas veias das marés, na saliva do meu corpo sofrido”. E mesmo quando o afastamento do objecto amado – metaforizado pela “terra” – se prefigura, idêntico aceno da pele extravasa a voz impaciente do sujeito que parece cantar: “tentei ser teu, amar-te e amar o falso ouro”, “(tentei) enfeitar-me com tuas luas brancas, pratear a voz…”, “aceito o desafio do teu desdém” – ou ainda – “cremalheiras da noite ressoando no limite do corpo”.

Uma poesia destas não pode ser regional. É uma poesia que fala dos abatimento do mundo, das fissuras do ser ou da nevralgia de um olhar fragmentário, mas universal. Al berto, grande poeta do ‘fatum’, partilhou na sua poesia a ‘Via Dolorosa’ a que escapou o ‘pathos’ da palavra, o disfarce retórico, o programa literário, o manifesto localista ou a performance ‘explicada às crianças’. Uma genuinidade não se declara, nem se acopla em legenda sob a imagem que refere. Uma genuinidade vive do barco que diz a água, da terra que diz a mão que a teceu, do tear que diz o tecido refeito, escrito e rescrito. Esse encantamento, próprio da ilusão profética, cabe, se não por inteiro em vasto caudal, na múltipla obra que Al berto nos deixou. Mas em Mar-de-Leva, convenhamos, pressente-se já tudo isso.

35º episódio – O BOM LADRÃO – Folhetim em setenta e cinco episódios

Devaneios oportunos… Alimento literário. Bachelard! Ah, companheiro das fantasias impossíveis! Inúteis, por que não? Do sonho quando o jovem ao entrar no mar encontra o crânio sem encéfalo. Onde foram parar os pensamentos tão bem guardados dentro da caixa óssea? Mas há registros, tatuagens sobre a ossatura, que permitem saber a origem do ser que habitava um quase cofre, não fossem as artimanhas da memória e os abalos sísmicos dos sentimentos. Viajou alguns quilômetros antes de ser encontrado. Pelos traços, podia-se definir a distância da origem. Talvez alguma vítima de hábitos canibais. Em que tempo? Pouco importa. No devaneio, todos os tempos coexistem. Na mudez e tortuosidade da massa encefálica encontraremos tantas cavernas quanto moradas, tantas histórias quanto personagens, tudo é transitório, passatempo. E resta o mar com sua voz quase inaudível, os arrecifes a quebrantar a impetuosidade das ondas, o céu invertido sobre as águas, o verde criado pelas algas, os pensamentos e o imaginário… O que é deles quando se morre? Não longe, um siri vira os olhos para trás. Não é o que fazemos quando dormimos? Mirar o traseiro, como contemplar de uma janela os fundos da cidade, com seus varais e intimidades, suas antenas e segredos. Que mundos nos visitam nas madrugadas? Ao agonizar a matéria, permaneceremos sonhos? O que de nós sonha? Qual é o real? Ser o outro, o que observa as facetas estéticas que habitam a insensatez onírica. Às vezes me pergunto de onde surgem estas idéias e frases semoventes. São tantos os personagens que não sabia dentro! Ainda há pouco um deles me ignorou, nem preciso dizer, todos perceberam. Dentro uma vontade louca de tragar. Também, de nada adiantaria pedir cigarros… A canseira e o catarro com cheiro de podre levaram-no a parar o vício. Depois disso, desinteressou-se pelos fatos da vida. As correspondências acumulam-se há meses sobre o móvel. O que haveria naquelas cartas? Curiosidade pertinente, elas provocam. Estamos sempre esperando por notícias de quem distante. Boas ou más. Não importa. Mas ele não liga. Necessidade nenhuma de sentir-se da tribo. Perceberia o bafo, não fosse o tempo a nos separar. Somos indiferentes, um à presença do outro. Nem sempre foi assim. Observo-o enquanto abre o primeiro botão da camisa, percebo a umidade em suas axilas e costas, o quanto está cansado, dedos no teclado, ele pega a vasilha e sai na direção do animal, um gato envelhecido, rabo torto e pelo ralo. Nega minha presença. Nem sempre… Melhor respirar um pouco, fugir do mofo. A escuridão e a fumaça são companheiras do desvario. Faltam-me cigarros. Melhor sair para comprá-los. Os dedos merecem um descanso e aqui ninguém cobra pela nicotina alheia. Preciso terminar o texto, um mês de atraso. Há duas horas lendo o mesmo parágrafo, à procura de alguma ideia: Tinha a impressão de ter reconhecido o estranho. Não era só isto, porém. O pior era que sabia que o mundo o conhecia; conhecia-o até muito bem. Tinha-o visto noutra ocasião… Sim, tinha-o visto em algum lugar e não fazia muito tempo… Até sabia o seu nome completo. Sem dúvida, por preço nenhum deste mundo, diria aquele nome…

Estou saindo! Digo alto. Ninguém responde.

 

(continua)

As Rotas do Sonho – Tiago Salazar

O autor andarilho publicou em Junho passado sonhos em forma de caminhos percorridos. As rotas escolhidas trilham a continuidade do universo deste autor: exotismo, luxo, hedonismo. A cada vez que fecho o livro para o admirar – a sua capa é uma absoluta marca de bom gosto – esta escrita  de exigência cosmopolita, cujas palavras nos levam rapidamente a entrar no devaneio dos miraculosos spas, dias de paz e vitalidade, mimos e cuidados femininos, não relega para número dois a aventura que percorre as linhas. As reflexões são, muitas vezes, como se pode ler no capítulo da Turquia, piamente imbuídas daquilo a que Salazar não se pode furtar, a sua masculinidade.

Pergunto-me sempre que começo a ler um livro de viagens qual é o projeto ou linha condutora que liga os destinos visitados, tantas vezes aliatórios. Apesar de não ter descoberto nada mais que o trabalho do autor como jornalista de viagens, tal não me impede de fazer uma prazeirosa co-viagem literária na qualidade de leitora. E vou, por isso, fazendo por aqui o check-in dos aspetos que me parecem ser de honrosamente mencionar.

Nota-se, assim, neste livro preocupações diferentes de algumas exprimidas n”A Casa do Mundo”, mormente a auto-reflexão sobre o seu trabalho, sobre as técnicas que aprendeu e as que escolheu usar, mas que o acaso não ajudou a implementar. No capítulo da Malásia é notório este percurso reflexivo, que justifica perante o leitor a complicação emocional em que o andarilho escritor se envolve, quando aceita visitar o paraíso com um plano de redação científica! Penso que o leitor não se importa de em vez de ler o plano científico, ter lamentavelmente de aceitar a contra-proposta do destino do viajante, render-se ao que o momento deleitosamente lhe propicia. Conforme a rota introdutória já avisara, “O importante não é passarmos o tempo, mas vivermos a viagem e as suas emoções., p. 16”, coisa que dilemas éticos tão bem podem fazer evitar. Assim como na viagem, na literatura, ora!

Ao mesmo tempo, o intimismo com que fala do amor em Fernando de Noronha, parece-me uma continuação do eu e de onde venho, para o nós, o eu e a minha significante cara-metade, um nós que percorre mormente a América Latina e que entretanto esvanece no resto do mundo. Por outro lado, a inscrição do autor-pessoa e suas características no livro e na história é a cada passo evidente. No capítulo da Índia, por exemplo, conhecem-se três pistas do autor: que é esquerdino, calça 42 e que faz anos no tempo das castanhas. (ex: “Da cama até ao mar são são cinco passos curtos e de medida certa (pé 42) sobre areia de filigrana.”(p.83))

Denota-de, de facto, menos observações diretas com o seu eu português que no anterior livro. Uma forma perspicaz de Tiago Salazar se revelar de uma casta original, porventura a do poeta, à Almeida Garrett, e mostrar que a identidade portuguesa e as viagens do autor são apenas uma mera coincidência, razão pela qual, seguindo Homi Bhabha, se justifica escrever a história de um destino cosmopolita “in medias res”. Ao ser, por isso, interpelado na Índia, em Siquim,  por “um dos membros da comitiva, um indiano bochechudo mordaz e ofegante […], se os portugueses ainda choram por Goa, Damão e Diu. [Diz]-lhe que devem chorar, aqueles a quem os países e lugares atravessam os corações. (p. 78)”.

Apesar das anteriores experiências transnacionais claras, talvez a grande viagem literária deste autor do eu-Portugal, a um eu-Europa e agora a um eu-Mundo. E revelou-se um mundo de rotas de sonho!

A escrita de Tiago Salazar reveste-se de um vocabulário luxuoso, remetendo o leitor atento para apreciar o cuidado da linguagem e para a construção de um discurso feito de frases tão arabescas, quanto transparentes de intertextualidade discursiva: interpreta-se óptima informação proveniente de fontes locais e uma interacção com os nativos que estimula o interpretado pelo jornalista informado cientificamente, decididamente antes da própria viagem. O autor apoia-se em figuras literárias de renome que ilustram os seus capítulos e mergem com o universo de referencialidades do leitor (Hemingway em Cuba, Rudyard Kippling na Índia, Thomas Mann em Veneza ou Orham Pamuk em Istambul, etc.).

Quanto ao trabalho de edição deste livro, é notável a melhoria na revisão, em relação ao “A casa do Mundo”, onde abundavam gralhas, que me desencantaram fortemente no contraste com a capa de um estilo gráfico excelente. Quanto ao conteúdo da revisão, só em Marrocos é que fiquei à espera de saber quais eram afinal os “ditames do dirham”, li e reli o capítulo em modo de leitura, ora seletiva, ora compreensiva, mas nada…e agradeço que me mostrem, se lá estão, no meio do discurso mouro! Mesmo assim, o modo subtil de o narrador se referir a D. Sebastião, sem passar deveras por Alcácer-Quibir, ao fazer a ponte entre Agadir e Taroument, vale bem a pena ler.

            O resultado é uma fabulosa viagem por países escolhidos com equilíbrio de número pelos quatro continentes, com humor e aventura suficiente, experiências humanas e bem escolhidas aquelas que fazem bem ao espírito! Tudo isto mesmo sem se sair do sofá! Sonhe-se!

Salazar, Tiago (2010). As Rotas do Sonho. Oficina do Livro

Susana Leite

O pacto das próximas décadas

Actualizar corresponde, hoje em dia, à ideia iminente de tornar presente todo o mundo à nossa volta. É este desafio de quase permanente ‘antecipação’ que está na base da expressão errática, vacilante, descontínua – e rica – da rede. No nosso tempo, actualizar já não quer dizer ‘fazer passar da potência ao acto’ ou ‘realizar o que é potencial’, mas sim “refrescar”, omnipresentear ou tornar visível todo o ilimitado leque de opções que se processam. Actualizar é virtualizar em cadeia, em cascata, em encadeamento ininterrupto.

A palavra está, pois, a deixar de ser o eco fresco de uma presença, ou o resultado de um jogo de imagens lentas e silenciosas, para passar a ser uma espécie de arrebatamento febril que liga a dupla ‘presença-ausência’ (ou ‘ausência-presença’) a um empenho sôfrego e vital, na medida em que a actualização consiste na ‘tentação’ de um presente que está, a todo o momento, a chegar ao próprio coração do ‘agora-aqui’. Uma pulsão acelerada que se contrapõe, cada vez mais, à exposição histórica das imagens ao nível da parábola ou da metáfora.

Este tempo de arrebatamentos instantanistas derroga aquilo que exprime e exprime aquilo que derroga, tal como escreveu Peter Sloterdijk: “O que é de ontem é incessantemente desactualizado pela sua mobilidade; é a partir do próprio gesto de desactualização que é lançada a nova actualidade, para cair logo no projecto: uma transitoriedade expulsa a outra”. A literatura nasceu, tal como a entendemos ainda hoje, num outro mundo e com horizontes de significação diversos dos actuais. Vai ser interessante, nas próximas décadas, observar o modo como a febre da actualização e a tentação da palavra literária irão pactuar uma com a outra. Adorava viver mais cem anos apenas para seguir de perto a lógica deste pacto!

LC

Poemas ou Letras?

Uma das questões que mais se coloca quando se pensa em poesia e música é da diferenciação entre o que é uma letra de canção e um poema. Uma visão simplista diz que aquilo que foi escrito para uso numa melodia já previamente existente é uma letra, aquilo que foi escrito autonomamente e depois musicado é um poema. Esta visão é isso mesmo: simplista. Primeiro argumento contra: e quando se não sabe o que foi feito primeiro, quando são ambas as coisas feitas sem simultâneo? Atira-se a moeda ao ar? (Ver por favor o filme, imperdível “Musica & Lyrics” com Hugh Grant como, digamos, Andrew Ridgeley – não sabe quem é? Exactamente.) Para além de que os exemplos que fazem desta possível regra um disparate são mais do que muitos. Quantos grandes poemas deram grandes letras de canções porque foram fantasticamente musicados? Quantas grandes letras de canções são grandes poemas, com ou sem melodia que as limite mas foram escritas propositadamente para uma música? Quantos poemas pouco brilhantes se tornaram outra coisa porque musicados? E claro, quantas letras não são mais do que letras e nunca na vida poderiam sonhar vir a ser consideradas poemas?

Pensemos: “Pedra Filosofal” de António Gedeão e “Ser Poeta” de Florbela Espanca. Dois poemas interessantes, é certo, mas longe de serem brilhantes. Mas não ganharam um novo sentido como letra de canção? Não existem bem mais na nossa memória na voz de Manuel Freire e Luís Represas, respectivamente? Dois exemplos de poemas que se realizam bem mais na voz de um cantor do que no texto. “Senta-te Aí” do João Monge (cantada pelo Jorge Palma nos Rio Grande) e “Voar como Jardel” de Carlos Tê (para o seu de sempre Rui Veloso). (Podem dizer-me, concedo: não compares dois poemas de recorte clássico (um mais do que outro, é certo) com duas letras muito contemporâneas. Não comparo os méritos absolutos de cada texto, apenas os uso como exemplos. Mas podia comparar. Porque nós somos o nosso tempo e eu gosto de ser o tempo que somos.) “Senta-te Aí” e “Voar como o Jardel”, dizia. Não serão grandes poemas mesmo sem qualquer música com eles? “Tu querias perceber os pássaros / Voar como o Jardel sobre os centrais. / Saber porque dão seda os casulos / Mas isso já eram sonhos a mais”; “Está na hora de ouvires o teu pai / Chega para aqui essa cadeira / Cada um é que sabe aonde vai / Hora a hora e durante a vida inteira.” É certo que o Jardel já não voa sobre os centrais – o peso não deixa. Mas em absoluto, não são textos lindíssimos? São. E foram escritos para serem musicados, ou escritos sobre melodia (no caso do Tê com toda a certeza a segunda hipótese, que é assim que ele trabalha). E não é por isso que deixam de ser bons poemas.

Um exemplo acabado desta não distinção é o poeta Antonio Cicero, que tive a honra de editar nas Quasi. No seu primeiro livro de poemas (“Guardar”) já publicado com mais de cinquenta anos de idade, coloca poemas que foram escritos para letras de canções – principalmente para Adriana Calcanhotto. Um exemplo: “Inverno”. Como exemplo acabado de que esta distinção não deve existir e de que o que verdadeiramente importa é o texto, deixo-o aqui, seguido de outro, já mais antigo, e que ele não recuperou para nenhum livro (e as razões porque não). São dois grandes poemas.

Inverno

No dia em que fui mais feliz

Eu vi um avião

Se espelhar no seu olhar até sumir

De lá pra cá não sei

Caminho ao longo do canal

Faço longas cartas pra ninguém

E o inverno no Leblon é quase glacial

Há algo que jamais se esclareceu

Onde foi exatamente que larguei

Naquele dia mesmo

O leão que sempre cavalguei

Lá mesmo esqueci que o destino

Sempre me quis só

No deserto sem saudade, sem remorso só

Sem amarras, barco embriagado ao mar

Não sei o que em mim

Só quer me lembrar

Que um dia o céu reuniu-se à terra um instante por nós dois

Pouco antes de o ocidente se assombrar

O Último Romântico

Faltava abandonar a velha escola

Tomar o mundo feito coca-cola

Fazer da minha vida sempre

O meu passeio público

E ao mesmo tempo fazer dela

O meu caminho só

Único.

Talvez eu seja

O último romântico

Dos litorais

Desse Oceano Atlântico…

Só falta reunir

A zona norte à zona sul

Iluminar a vida

Já que a morte cai do azul…

Só falta te querer

Te ganhar e te perder

Falta eu acordar

Ser gente grande

Prá poder chorar…

Me dá um beijo, então

Aperta a minha mão

Tolice é viver a vida

Assim, sem aventura…

Deixa ser

Pelo coração

Se é loucura então

Melhor não ter razão…

(Um doce para quem disser qual o cantor que celebrizou a segunda. E some inside information: Cicero nunca a colocou em poema algum porque o crédito é – diz esse mesmo cantor, erradamente – dado a outro colaborador também.)

Quem foi alguma vez ao Rio de Janeiro, sabe da utopia que é “reunir a zona norte à zona sul”. E da loucura de dizer que “o inverno no Leblon é quase glacial”. Perguntei-lhe, um dia, se tinha sido figura de estilo, de tão mentira. Cicero riu como só ele sabe rir e retorquiu: “Mas é que é mesmo!”

Jorge Reis-Sá