“A Queda dos Gigantes” de Ken Follett (Presença)

Créditos de imagem: http://www.presenca.pt.

“…Uma porta conduzia ao patamar da escada, a outra ao quarto da frente, ao qual só se tinha acesso através deste. Era mais amplo e tinha espaço para duas camas. Era lá que os pais dormiam, e o mesmo se aplicara às irmãs de Billy, anos atrás. A mais velha, Ethel, saíra entre­tanto de casa, e as outras três tinham morrido, uma de sarampo, outra de tosse convulsa e a última de difteria. Houvera ainda um irmão mais velho, que dividira a cama com Billy antes da vinda do avô lá para casa. Wesley de seu nome, morrera no fundo da mina, atropelado por uma vagoneta desembestada que transportava carvão.

Billy vestiu a camisa. Era a mesma que levara para a escola na véspera. Hoje era quinta-feira, e ele só mudava de camisa ao domingo. Não obstante, tinha um par de calças a estrear, as suas primeiras calças compridas, feitas com um algodão grosso e impermeável chamado fustão. Constituíam um símbolo da entrada no mundo dos homens, e vestiu-as cheio de orgulho, deliciado com o pesado toque masculino do tecido. Depois de afivelar um cinto de cabedal grosso e de calçar as botas que herdara de Wesley, desceu a escada.

A maior parte do rés-do-chão era ocupada pela sala de estar aca­nhada, com uma mesa ao centro, uma lareira dum dos lados e um tapete de fabrico caseiro no chão de pedra. O pai estava sentado à mesa a ler uma edição atrasada do The Daily Mail, com os óculos empolei­rados na cana do nariz comprido e afilado. A mãe estava a preparar o chá. Pousou a chaleira a ferver, cumprimentou Billy com um beijo na testa e disse-lhe:

—    Então, e como é que está o meu pequeno homem no seu dia de anos?

Billy não lhe respondeu. O «pequeno» vexante, porque ele era de facto pequeno, e o «homem» não lhe ficava atrás, porque ele não era um homem. Dirigiu-se à cozinha, situada nas traseiras. Mergulhou uma taça de estanho no barril da água, lavou a cara e as mãos e deitou a água para o lava-louças raso de pedra. A cozinha tinha uma tina de cobre com uma grelha de ferro por baixo, mas era usada apenas na noite do banho, que calhava aos sábados.

Tinha-lhes sido prometida água canalizada para breve, e havia algumas casas de mineiros que já dispunham dela. Parecia um mila­gre a Billy bastar-lhe abrir uma torneira para ter um copo de água fresca e límpida, e não ser obrigado a carregar um balde até à coluna de água ao fundo da rua. Todavia, a água canalizada ainda não chegara a Wellington Row, onde os Williams moravam.

Voltou para a sala de estar e sentou-se à mesa. A mãe pôs-lhe à frente uma grande chávena de chá e leite, já com açúcar. Cortou duas fatias de pão de forma caseiro e foi buscar uma porção de banha de porco à despensa, que ficava no vão da escada. Billy juntou as palmas das mãos, fechou os olhos e disse:

—    Obrigado, meu Deus, por esta refeição, ámen.

Em seguida, bebeu um gole de chá e barrou a banha de porco no pão.

Os olhos azuis do pai espreitaram por cima do jornal. — Põe sal no pão — indicou-lhe. — Vais transpirar lá em baixo.

O pai de Billy era representante dos mineiros, ao serviço da Fede­ração dos Mineiros do Sul de Gales, que era o sindicato mais forte da Grã-Bretanha, como ele nunca deixava de salientar sempre que a opor­tunidade se lhe apresentava. Era conhecido por Dai do Sindicato. Muitos homens eram conhecidos por «Dai», abreviatura de David, ou Dafydd, em galês. Billy aprendera na escola que David era popular em Gales por ser o nome do santo padroeiro, à semelhança de Patrick, na Irlanda. Os Dais eram distinguidos entre si não pelos apelidos — na cidade, quase todas as famílias se chamavam Jones, Williams, Evans ou Morgan —, mas por meio duma alcunha. Os nomes raramente eram usados quando havia uma alternativa engraçada. Billy era William Williams, e por isso chamavam-lhe William Duas Vezes. As mulheres herdavam com frequência a alcunha do marido, de modo que a mãe era a Mrs. Dai do Sindicato.

O avô desceu ao rés-do-chão quando o neto já ia na segunda fatia. Apesar de o tempo estar quente, trajava colete e casaco. Depois de ter lavado as mãos, instalou-se diante de Billy.

—    Não faças esse ar tão nervoso — tranquilizou-o. — Eu desci ao poço aos dez anos. E o meu pai foi levado lá para baixo às costas do pai dele quando tinha cinco, e trabalhava das seis da manhã às sete da tarde. Estava de Outubro a Março sem nunca ver a luz do dia.

—    Eu não estou nervoso — assegurou-lhe o neto. Era mentira. Tinha um medo que se pelava.

O avô, no entanto, mostrou-se compreensivo e não quis insistir com ele. Billy gostava do avô. A mãe tratava-o como se fosse um bebé, e o pai era severo e mordaz, mas o avô era tolerante e falava com Billy de adulto para adulto.

—    Ouçam só isto — anunciou o pai. Ele nunca comprava o The Daily Mail, um jornaleco conservador, mas havia ocasiões em que trazia para casa um exemplar esquecido e punha-se a lê-lo em voz alta e trocista, ridicularizando a estupidez e a desonestidade da classe gover­nante. — «Lady Diana Boas Maneiras foi criticada por ter usado o mesmo vestido em dois bailes. A filha mais nova do duque de Rutland conquistou o prémio para a “melhor indumentária feminina” no baile do Savoy com o seu vestido de corpete rendado sem mangas e saia com­prida de balão, um prémio no valor de duzentos e cinquenta guinéus.» — Baixou o jornal e acrescentou: — Isso é, na melhor das hipóteses, o que tu hás-de ganhar em cinco anos, Billy, meu rapaz. — Retomou a leitura: — «Todavia, atraiu olhares de desaprovação dos entendidos ao usar o mesmo vestido na festa de Lord Winterton e F. E. Smith no Claridge’s Hotel. Tudo o que é demais enjoa, costuma dizer­‑se.» — Tornou a desviar os olhos do jornal. — É melhor ires mudar de vestido, mamã — declarou. — Não vá dar-se o caso de atrair olha­res de desa­pro­vação dos entendidos.

A mãe não lhe achou graça. Trazia um velho vestido de lã castanha, com cotoveleiras e nódoas de transpiração nos sovacos. — Se eu tivesse duzentos e cinquenta guinéus, andaria bem mais arranjada que a Lady Diana Lixo — retorquiu ela, não sem uma pontada de amargura.

—    Sem dúvida — intrometeu-se o avô. — A Cara sempre foi a mais bonita de todas… Tal qual a mãe dela. — Cara era a mãe. O avô virou­‑se para Billy. — A tua avó era italiana. Chamava-se Maria Ferrone. — Billy já estava farto de saber disto, mas o avô gostava de repetir histórias de família. — Foi a ela que a tua mãe foi buscar o cabelo preto luzidio e os lindos olhos escuros… e a tua irmã também. A tua avó era a rapariga mais bonita de Cardiff… e quem ficou com ela fui eu! — Fez um ar subitamente entristecido. — Bons tempos, aqueles — acres­centou num murmúrio.

O pai franziu um sobrolho desaprovador (conversas daquela índole evocavam desejos carnais), mas a mãe mostrou-se agradada com o elogio do avô e sorriu-lhe ao pôr-lhe o pão diante dele.

—    Ah, nem me diga nada, pai — assentiu ela. — Eu e as minhas irmãs éramos consideradas umas belezas. Tivesse eu dinheiro para sedas e rendas que mostrava a esses duques o que é ser uma rapariga bonita.

Billy foi apanhado de surpresa. Nunca pensara na mãe como sendo bonita ou feia, embora, quando se arranjava para ir à reunião na capela aos sábados à tardinha, ficasse de facto um deslumbramento, sobretudo de chapéu. Calculava que em tempos talvez tivesse sido uma rapariga bonita, mas custava-lhe imaginar isso.

—    E note-se bem — prosseguiu o avô —, a família da tua avó também tinha miolos. O meu cunhado era mineiro, mas abandonou a actividade e abriu um café em Tenby. Aquilo é que era uma boa vida… Os ares do mar, e não fazer nada o dia todo para além de servir cafés e contar dinheiro.

O pai começou a ler outro artigo: — «No âmbito dos preparativos para a coroação, o Palácio de Buckingham elaborou um livro de instruções com duzentas e vinte páginas.» — Espreitou por cima do jornal. — Não te esqueças de mencionar isto hoje lá na mina. Será um alívio para os homens saberem que nada foi deixado ao acaso.

Billy não estava muito interessado na realeza. Do que ele gostava era das aventuras que o The Daily Mail costumava publicar acerca de indivíduos duros que jogavam râguebi, tinham sido educados em colégios privados e deitavam a mão a espiões alemães traiçoeiros. De acordo com o jornal, não havia cidade na Grã-Bretanha que não esti­vesse infestada de espiões daqueles, embora, infelizmente, Aberowen parecesse constituir uma excepção à regra.”

Ficha Técnica:

A Queda dos Gigantes

Ken Follett

Título Original: Fall of Giants – The Century Trilogy – Book 1

Tradução: Alice Rocha

Páginas: 920

Colecção: Grandes Narrativas Nº 479

PREÇO SEM IVA: 28,25€ / PREÇO COM IVA: 29,95€

ISBN: 978-972-23-4428-9

Código de Barras: 9789722344289