Ossos sem ofício

Andas sempre com as mãos a esgravatar na terra. Olha para as unhas, António. Não venhas para a mesa sem limpares as unhas, ouviste?

Olho a minha mão direita no movimento banal de dar uma, duas voltas à chave.

Os ossos salientes parecem querer furar a pele. Em tempos, eu carregava os ossos do ofício, levava-os para casa, enrodilhavam-se comigo na cama. Chegavam a formar montinhos pela sala onde era raro receber uma visita.

A mão, que me parece alheia, roda a chave para a direita, no buraco da fechadura, numa morosidade aflitiva, depois detém-se num gesto impreciso, suspenso. Não tenho pressa de entrar. A pressa ficou estilhaçada no consultório, com o médico afadigado em compor um ar que se encaixasse no momento.

A mão empurra a porta. Sinto o olhar fixo do vazio a cair sobre mim e vejo o reflexo do meu olhar. O desejo tardio de ter um cão, à minha espera, bate-me na mente, em pancadas secas.

Julieta Ferreira

Almeida Faria: o “Nostos” – I

Em várias obras de Almeida Faria, casos de Lusitânia, Cavaleiro Andante ou Vanitas, a figura do anfitrião é recorrente. Em todos estes percursos, alguém sai de casa e parte para algures (independentemente da finalidade). Chega depois a esquecer-se de si e do seu destino, como se comesse uma flor de lótus e a reimaginasse. Encontrar-se-á, a certa altura, com fantasmas. Enfrentará as forças da natureza que ninguém controla. Confrontar-se-á sempre com o imponderável. Por vezes, ficará imobilizado face a alguém que seduz e subjuga. Inquirirá o mundo dos mortos, o além e o futuro. Transgredirá e enfrentará a adversidade e o destino, desenvolvendo capacidades próprias e explorando reacções desconhecidas.

Mas o facto é que será sempre recebido por bons anfitriões, em ambiente benévolo – momento ómega! –, num lugar singular, metafórico e por vezes questionador. Contará a vida a si próprio e aos demais. Regressará ao seu ambiente original (a figura do ‘Nostos’), depois de ter mudado muito. Já não é tão certo que seja acolhido sem ser reconhecido. Já não é tão certo que viva intensamente o reencontro com os seus (o mundo dos heróis esvaiu-se!). Nem é certo que deseje vingar-se e recuperar o que é seu, a não ser a “quête”, a busca incessante, como única razão a apropriar.

Mas é um facto iniludível que, no fim de tudo, de modo mais ou menos sacrificial (lembro sempre o destino de André no final de Cavaleiro Andante), alguém acabe por regressar à vida comum, à margem da epopeia e da história. O final de Vanitas ilustra-o de modo soberbo: “E as noites de hoje, de amanhã e depois, como serão? Se ouvir passos, ponho tampões nos ouvidos e não ligo. O truque serviu para resistir às sereias de Ulisses; também funcionará contra um fantasma. Terão os astros enviado o reconstrutor desta casa só para me forçar a meditar sobre a Vanitas inerente a toda a arte?”

O anfitrião é – e continua a ser – na obra de Almeida Faria a metáfora da distância, do cosmopolitismo e da abertura ao universo. Embora exista uma fractura permanente nesta anunciada, mas nunca cumprida, completude. É como se o regresso de Ulisses, quase no final, fosse sempre prematuro; de tal modo que a voz de Circe ou de Tirésias se continuassem a misturar e a propagar indefinidamente no relato. No fundo, trata-se de um interessante reflexo da raiz contemporânea habitada pela oficina do autor, pela enunciação fragmentária e pelas circunstâncias criadas nos relatos que fazem conviver, de modo pendular, a memória, o diferido, o delírio e o iminente.

Luís Carmelo

“O peso da borboleta” – Erri de Luca – Bertrand Editora

“ Onde pousa a borboleta, ali é o centro” pag.32

Erri de Luca construiu um duelo poético entre dois seres dominados pela obsessão da perseguição e pela expectativa de um duelo.

Em O “peso da borboleta” há uma comunhão de entidades pertencentes a vários círculos existenciais: O animal, o homem, a natureza e o imaterial (a morte, os espíritos). Tudo se move em simultâneo e numa infinita conexão de causa-efeito.

A opção pela narração paralela da evolução dos dois personagens permite avaliar a comunhão da solidão, o avançar melancólico da idade e a perspectiva de finitude. Acompanhamos os caminhos que ambos trilham, a observação mútua e sentimos a aproximação do desfecho que adivinhamos dramático.

“ Chegou-lhe, a subir, o cheiro a homem e ao seu óleo. Pertencia ao assassino da sua mãe. Era ele, subia para abater gamos, sozinho, procurava o seu rei há anos” pág.14

A obsessiva perseguição remete, de forma explícita e implícita, para Ahab e Moby Dick. Tal como Ahab, ele é conhecido como o melhor caçador entre os homens, capaz e disposto a ir a locais onde ninguém vai. Chamam-lhe o “Rei dos Gamos” devido à quantidade que matou. No entanto, ele próprio sabe que é um ladrão que vai roubar alimento às montanhas e, ao contrário dos animais, está só de passagem pelo local. Por isso, prefere que o chamem de “ladrão de caça”. Apesar de conhecer as montanhas como nenhum outro caçador, ele não se considera pertencente àquele território. Aquelas montanhas são dos veados, dos cabritos montanheses e dos outros animais. Não são dele.

“O homem na montanha é uma sílaba no vocabulário” pág. 36

A postura do homem em relação à natureza, à sociedade e a Deus é de apropriação, observação e de cinismo. O movimento de ruptura pertence-lhe.

A relação com o Divino é de desconfiança e incompreensão. Ele interroga-se constantemente sobre o papel do “Patrão” na aceitação da morte dos animais através da espingarda. Por que razão Ele não intervém quando as suas criaturas são mortas pela caça? O caçador interpreta-se como algo que corrompe o que Deus criou.

Por sua vez, o vínculo entre homem e gamo, mais do que um confronto com o objectivo de anulação, é de interdependência, onde um complementa o outro.

Eles têm os caminhos cruzados desde muito cedo. O sangue foi derramado pelo caçador e jamais o seu odor saiu das narinas do animal.

“Nas suas narinas de cria entranhou-se o cheiro a homem e a pólvora” pág.7

Em consequência, o gamo torna-se um solitário, inadaptado às regras existentes entre a sua espécie. O desajustamento é um ponto comum a ambos. Nenhum dos dois se insere no colectivo. O homem posiciona-se à margem da sociedade. Frequenta diversos abrigos ocultos nas montanhas, onde se abriga das intempéries e se esconde do guarda-florestal. Eles são almas gémeas que aprenderam a viver sozinhos.

“Em todas as espécies, são os solitários que tentam experiências novas. São uma percentagem experimental à deriva. Atrás deles, o rasto aberto volta a fechar-se” pág. 28

Mas se o caçador se considera um intruso, o animal vive em perfeita comunhão com a natureza. Enquanto nas tempestades, todos se refugiam nas cavernas, debaixo das árvores, ou em casa, o verdadeiro “Rei dos gamos”  adopta a postura inversa.

“ Estava em segurança lá onde todas as criaturas pressentem ameaças. Estava em aliança com o vento, o seu coração batia leve carregando-se da energia arremessada do céu para a terra” Pág. 50

Numa belíssima frase, o autor sublinha a total integração do animal na natureza; algo que não está acessível à limitada capacidade de observação do ser humano.

“ No verão, as estrelas caíam em fagulhas, ardiam em voo apagando-se nos prados. Então, ia para junto das que tinham caído mais perto, para as lamber. O Rei provava o sal das estrelas” pág. 27

II

“Era um dia perfeito, de fronteira nítida entre um tempo caducado e outro desconhecido” pág. 57

Desde o princípio do livro que assistimos à interacção entre o mundo tangível e o intangível. Ao decifrar a representação da borboleta podemos interpretar a Vida como diversamente contínua. A pluralidade de entidades existente no texto é parte integrante de uma Criação una. E observamos, desta forma, a simbiose entre a carne e o espírito.

A borboleta está sempre presente porque representa o espírito viajante e anuncia uma visita ou morte de alguém próximo. Entre os Aztecas, por exemplo, a borboleta é o símbolo da alma, do último sopro que sai da boca do agonizante. É, também, o símbolo do regresso à terra das almas dos guerreiros mortos.#

Assim se compreende a contínua presença anunciadora da borboleta e o seu peso no destino dos dois personagens.

Na primeira batalha pela supremacia dentro da manada, o gamo, após a morte do seu adversário, vê diversas borboletas brancas. Uma pousa no chifre ensanguentado e lá fica por gerações de borboletas.

Noutra ocasião, quando se prepara para disparar, uma borboleta pousa sobre a espingarda, desconcentrando-o e impedindo-o de disparar. Ela anuncia o fim, mas impede-o por não ser ainda o momento adequado.

No duelo final entre os dois, os chifres do animal sacodem uma borboleta que nele havia pousado.

“O Rei dos gamos soube de repente que o dia era aquele” pag.59

A borboleta é o prenúncio da morte. É o centro. E é ao pousar no chifre que vincula, definitivamente, os seus destinos. Duas almas que, em essência, são partes integrantes de um todo, unem-se finalmente.

Erri de Luca conta-nos uma história de obsessão, duelo, limites e eminente tragédia. Mas é, principalmente, uma história de dependência entre personagens, de demanda, de simbiose e transformação final.

Ahab e o caçador ficam amarrados às respectivas obsessões. E terminam com elas. Mas há uma pequena variação quando comparado a “Moby Dick”: a ligação com o animal é a única aliança que o homem consegue obter. Ficam juntos de forma definitiva. A carne, a natureza e o espírito.

Mário Rufino

Literal

Trazia as filigranas dos dias aureolados de irrealidades. Dádivas bastantes. Imerecidas. O indizível, uma quase dor. Depois, o núcleo do êxtase. E mais o que não ousei. Aqui, onde mais este remorso se adensa. E não decanta.

Por algum motivo renasci incólume por entre humores tépidos e fino sangue. E agora conto.

Ernane Catroli

Requiescat in pace

Estou zangada. Queria ser tradutora literária, adoro o meu trabalho, quando estou a traduzir passo a habitar num outro universo, o do livro no qual mergulhei, o do processo mental de construção desse universo na língua do meu país (por mais que queiram, nunca na vida hei-de escrever espetador em vez de espectador! – Ah! Este parêntesis é mesmo grande: talvez tenha de deixar de escrever nessa língua, quando o meu país deixar de existir ou deixar de ter sobreviventes). Mas, como estava a dizer, crio esse universo, um processo fascinante, umas vezes delicioso, outras doloroso – em suma, traduzo literalmente (isto aplica-se obviamente à expressão e não à forma como traduzo, cruzes canhoto!) com o coração nas mãos, na ponta dos dedos, com o coração tão agarrado ao cérebro, e o cérebro aos dedos, que toda a família se queixa de que eu mudo de feitio consoante o livro que estou a traduzir. Claro que isto não é razão para estar zangada. Mas passar dois meses (em teoria, e já explico porquê) a fazer isto e depois esperar um ou dois meses porque o contrato estipula um pagamento a 30 ou 60 dias e, a seguir passar dois, três meses, um ano, um ano e meio (!!!!) a telefonar a sugerir que me paguem, a dizer que gostaria que me pagassem, a pedir que me paguem, a implorar que me paguem, a diminuir a quantidade de cafés que bebo por dia, a ir ao Minipreço em vez de ir ao Continente ou a ficar com dívidas ao fisco – isto, reconheçam, já é razão para ficar zangada.

Esta história não é só minha, é de certeza de quem tem a veleidade de querer ser tradutor literário. E, então, lá vem um laboratoriozinho farmacêutico ou um contratozinho intragável salvar a pele do tal tradutor utópico. E essas traduçõezinhas – que acabam por lhe dar de comer – fazem atrasar as tais traduções que ele gosta de fazer.

É um filme, não é?

É a crise? Ou é o aproveitamento da crise para ficar a dever? Se não pagam, é porque não vendem livros e, se não vendem livros, como é que publicam tanto, tanto, tanto?

Sabem o que é que eu acho? Que mais dia menos dia vou mesmo ficar sem país. R.I.P.

Maria do Carmo Figueira

71º Episódio – Folhetim (II sequência de novelas) – O MÊNSTRUO MÁGICO DAS ORQUÍDEAS GRÁVIDAS – Folhetim em Setenta Episódios por Carlos Pessoa Rosa

Eu muito próximo do lugar onde não há mais para onde ir, a morte será sempre o presente do futuro, só quem conseguir o livro conhecerá a obra de Samuel F., mas não saberá quem sou nem onde tudo ocorreu, não há corpo nem cartografias nesse putrefato sentado em uma cadeira, diante de uma velha máquina de escrever, ao lado um pacote ainda virgem de papel reciclado, obra por se (des)fazer, na parede a fotografia com Carol, Clara e Samael F.; e chegamos a um não-lugar, não há mais para onde ir…

 

 FIM

A minha experiência entre os Abokowo #1

Os Abokowo acreditam que existe uma árvore infinita, a Dagafagé  (literalmente,que não tem fim) que, ao pensar, cria os pássaros.  Quando pensa de noite nasce uma coruja, mas quando pensa de dia nasce um falcão.

Quando  lhes perguntam onde está essa árvore que não acaba, eles dizem que  não sabem. Pode ser qualquer uma e é por isso que os Abokowo nunca  abatem uma árvore e os seus abrigos são construídos com madeira morta.  Para não haver a possibilidade de, sem querer ou por ignorância, matarem  a árvore que imaginou todos os pássaros.

Afonso Cruz

Vertigens

Gostava de ser mais nova.

Não lhe perguntei porquê. Era um esforço estéril. Eu sabia a resposta. Todos querem ser mais novos. Não me lembro de querer ser mais novo. Acho mesmo que nunca fui novo. Cortei a fala à minha mãe, sentada a um canto, de xaile atravessado no peito seco e manta nos joelhos. Eu via a minha mãe a tricotar a manta de quadrados de muitas cores, nas noites gastas de Inverno, junto ao lume sem chama. A manta cobria o colo e as pernas, caindo muito direita sobre os chinelos coçados. As mãos rugosas da minha mãe tremiam sobre a manta. Quis sair depressa daquele asilo. Tudo cheirava a velho. Não gostava de velhos nem dos seus cheiros. São cheiros particulares. Nem maus nem bons. Não é sujidade. É desgaste. Cheiros de corpos a desgastarem, de peles a encolherem. São cheiros que nos agarram. Calei a minha mãe para calar o tempo a esgueirar-se, rápido na sua descida para a morte, único desaguar da espera que se arrastava pelos dias alagados de silêncios perniciosos escondidos na sombra. Não desejava ser levado para o precipício com ela. Sofria de vertigens quando me encontrava em lugares altos. Tinha medo de cair e não conseguir levantar-me. A minha mãe resvalava. Cada dia resvalava mais. As pernas paradas, debaixo da manta, inúteis. A ligeireza das pernas dela, quando subiam as medas e os cerros, nos nossos passeios pelo campo. A minha mão a fugir para a porta. E eu a pensar no calo no dedo do meio, onde o lápis e a caneta se apoiavam, com firmeza. O calo já tinha desaparecido.

Julieta Ferreira

69º Episódio – Folhetim (II sequência de novelas) – O MÊNSTRUO MÁGICO DAS ORQUÍDEAS GRÁVIDAS – Folhetim em Setenta Episódios por Carlos Pessoa Rosa

Se não, os filhos cresciam dormindo no quarto dos pais, depois na sala, os mais felizardos ganhavam um quarto, nós pertencíamos a esse grupo, André não, como não havia homem em casa, demorou para a mãe construir um quarto somente para ele e para a irmã… Lá estão André e nós, descendo de carrinho de rolimã, apostando quem era o melhor, desviando dos buracos, o breque um pedaço de pau, a manhã quente, vento bom para pipa, aqui fica a escola, barracão de madeira, o diretor mora na casa construída de alvenaria, tem dois filhos, Pedro e Paulo, mas eles não se misturam com os moleques da rua, estão sempre limpos e arrumados, ficam na mureta da casa olhando o proibido, que mal poderia haver em passar a infância na rua?

 

(continua)

Boa-educação

Já há muito que o Doutor não via o amigo. Sentado, o Doutor esperava-o na mesa daquele café histórico no centro daquela histórica Vila Real. O amigo aproximou-se. Saudaram-se. O amigo sentou-se e pediu “um café”. Nisto, por obra do destino, o amigo virou-se e viu, junto do balcão, a pagar uma caixinha de covilhetes (uns folhados muito bons), uma senhora. Então, disse ao Doutor: “Olha aquela! Já a comi!” O Doutor ficou vermelho. O Doutor ficou envergonhado. O Doutor pôs-se de pé e gritou ao amigo “Repete lá!” E o outro, atónito: O que se passa contigo? “Repete” ordenava-lhe o Doutor. O amigo repetiu e logo o Doutor o esmurrou. E o Doutor disse-lhe: “Nesta terra, um cavalheiro se come não arrota.”

Paulo Reis Mourão

LETRAS – A vida vista pelas margens

LETRAS 

A vida vista pelas margens 

Adelto Gonçalves (*) 

Qual é o papel do intelectual na questão da exclusão das grandes massas do campo da cultura? Há legitimidade naquela literatura que procura representar os marginalizados, que estão afastados dos espaços sociais de produção discursiva e assim são sempre apresentados por meio de um olhar externo, de quem, bem posto da vida, procura se passar por um dos excluídos? É o que procuram discutir os 14 ensaios reunidos em Pelas margens: representação na narrativa brasileira contemporânea, de Regina Dalcastagnè e Paulo C. Thomaz, organizadores (Vinhedo-SP: Editora Horizonte, 2011). 

Escritos por pesquisadores do Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, da Universidade de Brasília (UnB), liderado pela professora Regina Dalcastagnè, estes textos debruçam-se sobre questões que “envolvem a teorização crítica do que entendemos por representação, papel do intelectual nos domínios do exercício desta exclusão e os modos discursivos literários que formulam novas cenas para a ficção contemporânea”, como observam os organizadores na apresentação que escreveram para este livro. 

A própria professora Regina Dalcastagnè, no segundo capítulo do livro, “Contas a prestar: o intelectual e a massa em A hora da estrela, de Clarice Lispector”, discute essa questão que, na literatura brasileira, vem desde que Machado de Assis (1839-1908) escreveu Dom Casmurro, criando um narrador altamente suspeito, pouco merecedor de crédito, em substituição à antiga figura do narrador todo-poderoso que tudo sabia e comandava. Para a ensaísta, um narrador suspeito sempre exige um leitor compromissado. E disposto a questioná-lo, acrescente-se. 

A professora lembra que, em A hora da estrela, seu último livro, Clarice Lispector (1920-1977) preferiu esconder-se atrás de um narrador homem, Rodrigo S.M, para contar a história de Macabéa, uma nordestina pobre e sem atrativos. Talvez porque até àquela altura, ou seja, 1977, ano da publicação do livro, ela era ainda tida como praticante de uma literatura intimista, pois, afinal, suas protagonistas eram, em geral, mulheres da classe média ou da burguesia. Assim, Clarice coloca seu narrador dizendo que a existência de uma migrante nordestina no Rio de Janeiro só podia ser descrita com objetividade e clareza, o que só poderia ser feito por homens. Portanto, há aqui uma denúncia não só do preconceito contra a mulher e a escrita feminina como contra o pobre e sua presença na literatura, observa Regina Dalcastalgnè. 

Para a ensaísta, o narrador de Clarice Lispector é duplamente suspeito – primeiro porque é um intelectual falando de uma mulher do povo e a reafirmando o seu preconceito e, depois, porque usa a miséria de sua protagonista para não parecer, ele mesmo, tão miserável. “É claro que essa suspeição não existe por si só, ela vai sendo construída junto e no discurso de Rodrigo. Ele é quem se denuncia, quem chama a atenção do leitor para suas contradições, seus temores. Ao lhe dar fala, Lispector o incumbiu também de ser humano: forte o suficiente para esmagar o outro, fraco o bastante para deixar cair a própria máscara (ou seria o contrário?)”, questiona. 

II 

Em “O escritor-personagem: considerações sobre um centro instável”, Igor Ximenes Graciano cita uma pesquisa feita pelo grupo de estudos dirigido pela professora Regina Dalcastagnè que traça o perfil do escritor brasileiro contemporâneo: na maior parte, homem, branco, com diploma universitário e morador num grande centro urbano e que, portanto, parte com seu olhar de uma perspectiva privilegiada. Depois, citando Leyla Perrone-Moisés, segundo a qual o “o escritor não tira suas histórias de si mesmo nem usa a pobreza e a marginalidade como temas de impacto documental, colocando-se na pele de personagens bem diversas de si mesmo”, conclui que a autorrepresentação é um recurso largamente utilizado na narrativa brasileira atual. 

Já Bruna Paiva de Lucena preferiu discutir as obras de dois outsiders da literatura brasileira do século XX: Antônio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré (1909-2002), autor de Inspiração nordestina, e Carolina Maria de Jesus (1914-1977), autora de Quarto de despejo. Como se sabe, ambos não eram intelectuais nem pessoas bem formadas quando irromperam na cena literária brasileira. Patativa era um homem do povo, autor de folhetos de cordel, como tantos outros que nunca mereceram uma linha ou citação em estudos acadêmicos. 

Já Carolina Maria de Jesus, moradora numa favela em São Paulo, era uma catadora de lixo que registrava suas emoções em cadernos escolares, até que, um dia, foi “descoberta” pelo jornalista Audálio Dantas. Ambos tiveram livros publicados, que se inscreveram no circuito normal das livrarias, mas continuaram a ser recebidos pela academia e por aqueles leitores mais refinados com ressalvas, como autores de “literatura popular que não está em seu devido lugar”, diz Bruna Lucena, acrescentando, em suas conclusões, que “a literatura de Patativa e Carolina desafia os valores estéticos dominantes da tradição culta e letrada, bem como coloca em xeque os cânones literários dominantes”. 

No ensaio “O espaço social da voz: preconceito e literatura”, Susana Moreira de Lima preferiu concentrar seu estudo em Carolina Maria de Jesus, definindo Quarto de despejo, livro publicado na década de 1960, como “um grito através do qual se ouve a voz legítima do excluído”. Mas observa que, ainda que haja autenticidade no relato, a narradora optou por tentar se aproximar do referencial canônico, buscando uma identificação com a linguagem aceita pela sociedade. 

Diz a autora que, no romance, nem sempre as concordâncias (verbais) acompanham a elegância que Carolina procura dar ao discurso de sua personagem, caprichando no uso, às vezes correto, da colocação dos pronomes oblíquos. Seja como for, acrescenta, Carolina ousou fazer algo somente permitido a quem teve acesso à educação formal elitizada, a escrita. Ou seja, “Carolina acreditou que um dia seus escritos seriam lidos e não deixou de concretizá-los, ainda que de modo precário no uso da língua do ponto de vista da gramática tradicional”. 

Para Susana Moreira de Lima, essa precariedade nas condições da escrita da autora denuncia a precariedade de sua vida e a de milhões de pessoas iguais a ela, com menos condição ainda, pois a maioria não é capaz de ler ou escrever nada. “Esse é o retrato de um país de excluídos. Um país que, como a própria personagem de Carolina diz, abriga uma parcela privilegiada de sua população na “sala de visitas” e grande parte de seus cidadãos vivem à margem, não só do conforto e do bem-estar, mas do processo de alfabetização integral, da educação formal adequada, enfim, do acesso aos bens culturais”, observa. 

III 

Por seu lado, no ensaio “A literatura negra no Brasil”, Cíntia Schwantes aborda uma questão ainda pouco discutida: a pouca visibilidade do escritor negro no Brasil. E lembra que, no País, literatura negra refere-se à produção de autores engajados que passaram a publicar de forma coletiva na esteira da organização do Movimento Negro Unificado, exatamente pelo pouco (ou nenhum) espaço que encontravam em editoras tradicionais, diga-se de passagem. Foi a partir de 1982 que o movimento Quilombhoje passou a publicar os Cadernos Negros, reunindo prosa e poesia de escritores afrobrasileiros, tendo à frente o escritor e jornalista Oswaldo Camargo. 

Hoje, há um número expressivo de autores negros que estão publicando e pertencem a uma classe média ilustrada, diz a autora, mas sem especificá-los. Seja como for, a verdade é que esses autores ainda pouca visibilidade têm na mídia, da mesma forma que escritores afrodescendentes de expressão portuguesa pouca receptividade têm em editoras brasileiras – exceção, praticamente, para a Editora Ática com sua coleção Autores Africanos (1970-1980). Tanto que o moçambicano Ungulani Ba Ka Khosa, um dos maiores escritores africanos de expressão portuguesa das últimas décadas, continua inédito no Brasil. 

Já qualquer escritor lusodescendente nascido em África não enfrenta dificuldades para encontrar editora em Portugal e no Brasil e ganhar espaço generoso na universidade e na mídia, independente da qualidade de sua produção. Mas esta é uma discussão que ainda não ganhou força. Talvez porque aqueles que denunciam essa situação continuem também à margem dos espaços sociais de produção discursiva, enfim, dos meios de produção. E só agora com a Internet é que esse processo começa (ou pode) se reverter. 

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PELAS MARGENS: REPRESENTAÇÃO NA NARRATIVA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA, de Regina Dalcastagnè e Paulo C. Thomaz (orgs.). Vinhedo-SP: Editora Horizonte, 263 págs., 2011, R$ 39,00. 

Site: www.editorahorizonte.com.br E-mail:contato@editorahorizonte.com.br 

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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: marilizadelto@uol.com.br

Clandestino

Surgiu do fundo do palco e o ocupou por inteiro. A sua fala. O seu gingado. O destemor em movimento. O seu olhar abrasado. A desafiar a plateia. E aqui, o que nele se me assemelha. Ou me tenta. Ou apaixona. A cismar. Um mar revolto a fantasia. O que nasce e renasce.

E esta cortina aberta. A minha imagem. Estas vestes. A minha voz. Desusada a minha voz. E este outro que me exige e clama. Hoje rezei por ele.

Ernane Catroli

67º Episódio – Folhetim (II sequência de novelas) – O MÊNSTRUO MÁGICO DAS ORQUÍDEAS GRÁVIDAS – Folhetim em Setenta Episódios por Carlos Pessoa Rosa

Clara diz ser Mozart, tocaram no velório dele, último pedido junto ao de não deixarem encomendar o corpo ao modo cristão, passei a apreciar Mozart ao escrever, a me acompanhar nos surtos, é a bisa, adora passar os dias sentada na pequena varanda da casa, não demora e aparece o bisa, usa uma bengala para se manter em pé, tem a perna torta, problema no joelho, Não tem lição para fazer?, pergunta que nos dirige sempre, não importa a hora, Férias…

 

(continua)

Haiku em prosa (3)

13 de Setembro 9.00

(…)

3. Ao passar a passadeira junto à praça, olhei para a avenida cheia de carros. Dia prudente por entre os prédios, o sol manifestando-se como um disco muito pálido por de trás da neblina e depois, por segundos, desaparecendo, tapado provavelmente por uma nuvem mais escura. Mas era como se de facto tivesse deixado de existir. Depois parecia uma lua, distante, indiferente e correcta, ou um astro inesperado, desses que aparecem nos céus de planetas distantes, nos filmes de ficção de científica.

(…)

Paulo Bugalho

Insónia insidiosa

Eu cumprira todos os conselhos para vencer a insónia. Chá de tília, leite quente, cavar terra, acartar pedra, contar carneiros… Até recorri ao curandeiro da Fajã, que já fora promovido a ervanário. Mas acabei por ir parar ao consultório de um psiquiatra. Falei, falei, falei… e o homem sem dizer nada. Quando acabei, ele rabiscou qualquer coisa num papel, entregou-mo e disse: “Dez contos.” Paguei calado e saí mudo. Do papel onde eu esperava encontrar a salvação apenas constava: “Diagnóstico – insónia nervosa. Terapêutica recomendada – dormir bem.”

Daniel de Sá

Onde moram os estranhos?

Depois de tanto ouvir falar dos estranhos e das repisadas advertências para estar de sobreaviso e se afastar deles, a criança indagou: “Onde moram os estranhos?”

A resposta seria vaga ou nula, como quase sempre que o adulto fala com a criança. Tanta sabedoria e experiência derrubadas de uma assentada, qual pirâmide de blocos que oscila ao mais pequeno

sopro. O adulto não quer perder tempo a pensar.

E a criança, na sua ingenuidade incomodativa, continuou: “Quem são os estranhos?” Sem ter aprendido ainda as regras das conversas dos adultos, insiste em saber se o pai do menino que vive no segundo andar é um estranho. É que a criança nunca o tinha visto e não sabia onde ele morava.

O adulto fez um trejeito de enfado e apressou-se a desviar a atenção da criança para os brinquedos abandonados no meio da sala. O adulto não tem tempo para explicações.

Mais tarde, no jardim, o adulto diz à criança para não falar com aqueles que não conhece. A criança olha em volta tristonho porque não conhece ninguém. Decide aí que jamais irá ser um estranho.

Julieta Ferreira

65º Episódio – Folhetim (II sequência de novelas) – O MÊNSTRUO MÁGICO DAS ORQUÍDEAS GRÁVIDAS – Folhetim em Setenta Episódios por Carlos Pessoa Rosa

daí André viver a vida dos outros, não a dele, mas ela ali, dependurada no muro, eu torcendo para que caísse, muito mais tarde quis bolinar comigo, o irmão de castigo no quarto, a mãe passando roupa, ela no quintal levantando o vestido do outro lado da cerca de arame, sem calcinha, ainda sem pelo, só penugem, eu ainda cheguei perto, mas saí correndo, nem pensar a húngara flagrar alguma coisa, poderia me surrar como faz com o filho, a rua sem sombra, agora tudo blocos vazios, eu jogando pedra sobre pedra,

 

(continua)

Chave

O homem passeava pela floresta, apreciando as árvores e toda a sua imponência, chegando mesmo a dizer que gostaria de ali estar, em tão boa companhia, todos os dias. Porém, a meio do seu trajecto, notou que uma fera se escondera, atrás de uma árvore, pronta para atacar. No papel de presa, o homem correu o mais depressa possível, contornando as árvores que se apresentavam no caminho, como que tentando mantê-lo naquela floresta, para sempre. Perdeu todo o respeito pelas árvores. “Se saíssem da frente…” Ao longe, já via o carro, o meio de salvação, naquela situação tão perigosa. Mas, assim que chegou ao carro, levou a mão ao bolso, e foi aí que percebeu: a chave ficara na sua mochila. Que estava bem longe, naquele momento.

João Nogueira Dias

HISTÓRIA DO DIREITO – A luta pela posse da terra, por Adelto Gonçalves

I

            Ainda há muito que se desvendar a respeito da história da propriedade no Brasil e o livro O Direito às Avessas: por uma história social da propriedade (Vinhedo: Editora Horizonte, 2011), de Márcia Motta e María Verónica Secreto (orgs.), ajuda a jorrar luz sobre um tema que, depois dos pioneiros trabalhos na década de 1980 da professora Maria Yedda Leite Linhares, doutora em História Moderna e Contemporânea pela Universidade do Brasil (1954) e professora emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e pesquisadores como Ciro Flamarion Santana Cardoso e Francisco Carlos Teixeira da Silva, caiu no limbo à medida que as expectativas por uma reforma agrária foram defraudadas e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e suas reivindicações perderam força e visibilidade, ainda que no poder, nos últimos anos, tenha estado um partido que se apresentava como representante dos oprimidos e injustiçados.

            Conjunto de estudos e pesquisas originais, de vários autores e de universidades e instituições distintas, este livro reconstitui os embates pela terra desde o século XIX em várias partes do Brasil, de Minas Gerais, com certeza hoje a região mais contemplada por trabalhos de pesquisadores, ao Rio Grande do Sul, passando pela província do Rio de Janeiro, especialmente a região de Valença, e a Bahia, até o Pará, onde ainda hoje a situação no campo, senão é explosiva, pode se assemelhar a um barril de pólvora à espera de uma faísca.

            Na maioria dos casos, como observa a professora Elione Silva Guimarães, doutora em História pela UFF e pesquisadora do Arquivo Histórico de Juiz de Fora e do Núcleo de Referência Agrária, em seu ensaio “Propriedade e pobreza: os dilemas do Império do Brasil”, que analisa as batalhas judiciais pela posse da Fazenda da Tapera, em Juiz de Fora, as histórias recuperadas denunciam o divórcio entre propriedade e pobreza, ou seja, a falta de recursos de homens do campo para enfrentar nos tribunais de justiça os homens poderosos – política e economicamente – que freqüentemente invadem as terras dos mais pobres, forjam títulos de compra e de muitas maneiras os destituem de suas propriedades.

            Isso não exclui a própria história que a pesquisadora resgatou nos arquivos a respeito do filho de uma família de proprietários que, sem talento para os negócios ou pródigo, perde sua fortuna e com ela o prestígio e o crédito que lhe permitiriam contratar bons advogados para defender seus interesses no Tribunal de Justiça e, quem sabe, reaver parte das terras e bens perdidos. Dessa maneira, é levado a hipotecar suas propriedades para pagar os honorários de seu advogado.

            Já no ensaio “Sendo senhor: eu grilo. A desconstrução das cadeias sucessórias”, o professor Cristiano Luís Christilino, doutor em História pela UFF e pós-doutor pela Universidade Federal de Pernambuco, destaca as irregularidades que marcaram a distribuição de terras no Rio Grande do Sul, em que muitas das próprias autoridades se valeram do poder momentâneo para açambarcar propriedades alheias. Foi o caso de D. Luís Teles da Silva Caminha e Meneses, quinto Marquês de Alegrete, que foi governador da capitania do Rio Grande do Sul de 1814 a 1818, período em que incorporou entre seus bens pessoais vastas áreas da Coroa.

            Sem contar burocratas que se valeram dos seus cargos e influências para se apropriarem de terras devolutas, ou alheias, que eram vendidas depois da obtenção das concessões, como denunciou Antônio Gonçalves Chaves, político e charqueador em Pelotas, em suasMemórias ecônomo-politicas sobre a administração pública do Brasil, de 1822 (São Leopoldo: Unisinos/Copesul, 4ª ed. 2004).

                                                           II

            Em “Entre a lei e sua aplicabilidade: a gestão das terras devolutas na região do Rio Grande do Sul durante a Primeira República (1889-1925”, Marcio Antônio Both da Silva, doutor em História pela UFF e professor adjunto do curso de História da Universidade Estadual do Oeste do Paraná, citando artigo da professora Márcia Motta, que consta de Desvelando o poder: histórias de dominação: Estado, religião e sociedade, de Ângelo Adriano Faria de Assis et alli (Niterói: Vício de Leitura, 2007), lembra que a palavra posseiro só existe no português falado no Brasil, pois está vinculada ao processo de apropriação de terras no País e ao conjunto de leis que, ao longo da história, procuraram regular a questão, mas que, de certa forma, acabaram por beneficiar os grandes proprietários.

            Segundo Márcia Motta, enquanto os fazendeiros ricos eram identificados como desbravadores e tomados como cúmplices do enriquecimento das províncias, o que, entre outras coisas, é resultado de sua proximidade com o Estado e a sustentação que davam ao governo em troca de benefícios camuflados, os lavradores pobres eram apontados como “invasores” ou “intrusos”. Estes, geralmente, eram identificados na documentação da época como “nacionais”, ou seja, um grupo formado por uma população luso-brasileira de camponeses pobres, também conhecidos como homens livres pobres, brasileiros, caipiras, caboclos e outros termos.

            Como assinala Both da Silva, também os imigrantes e seus descendentes, a partir de um dado momento, quando começam a se dirigir para as zonas de fronteira agrária sem a intervenção dos organismos do Estado responsáveis por gerenciar o povoamento, passam a receber o qualificativo de “intrusos”. De ressaltar também, diz o pesquisador, é que os conflitos por terra não se resumiam ao embate entre fazendeiros e lavradores pobres, mas aconteciam também dentro desses grupos, inclusive entre potentados.

                                                           III

            Em seus 17 capítulos, O Direito às Avessas não deixa de abordar questões que continuam polêmicas, mas que remontam aos primeiros séculos da colonização. Em “No jogo das identidades: terras indígenas e conflito no oitocentos”, Marina Monteiro Machado, doutora em História pela UFF e professora da Fundação Getúlio Vargas, conta como o aldeamento de Nossa Senhora da Glória de Valença, criado para “pacificar” os índios            que vinham sendo denunciados como uma “ameaça” à ocupação dos sertões, vira, mais tarde, motivo de disputa entre moradores e sesmeiros. Segundo a autora, a utilização da noção de uma identidade indígena tornou-se uma estratégia de moradores/posseiros para assegurar o acesso à terra.

            Em “Os que têm fome e sede de justiça: conflitos rurais na mesa de Getúlio Vargas”, Vanderlei Vazelesk Ribeiro, doutor em História pela UFF e professor de História da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), expõe a correspondência encaminhada à presidência da República no período Vargas (1930-1945) que mostra como os pobres do campo escreviam ao presidente, tomando-o como “justiceiro”, capaz de defendê-los diante do poder local ou estadual, que estaria comprometido com os interesses dos patrões ou dos mandões provincianos.

            Por fim, no último capítulo, Mariana Trotta Dallala Quintans, doutora pela Unversidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), em “Constituição cidadã! Direito à terra e conflito nas leituras da Carta-Magna”, analisa os conflitos mais recentes pela posse da terra no Brasil, lembrando que os últimos governos apenas fizeram desapropriações em áreas de conflitos, com a política agrária sendo implementada de forma compensatória.

            Segundo o balanço que a professora Mariana procurou fazer, as decisões judiciais a partir da Constituição Federal de 1988 têm apresentado conteúdos diferentes: algumas entenderam as ocupações coletivas pelas organizações de trabalhadores rurais sem terra como ilegais, enquanto outras as consideraram como forma legítima de pressão popular. Ou seja, umas entenderam o direito de propriedade como absoluto e incondicional; e outras foram ditadas a partir do princípio da função social da terra. Seja como for, a reforma agrária no Brasil ainda está em gestação e não se sabe se, um dia, ainda haverá de ser feita. O que se tem como certo é que muitas disputas ainda haverão de ser travadas.

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O DIREITO ÀS AVESSAS: POR UMA HISTÓRIA SOCIAL DA PROPRIEDADE, de Márcia Motta e María Verónica Secreto (orgs.). Vinhedo-SP: Editora Horizonte; Niterói: EDUFF, Guarapuava: Unicentro, 479  págs., 2011, R$ 45,00.

E -mail: contato@editorahorizonte.com.br Site: www.editorahorizonte.com.br

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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail:marilizadelto@uol.com.br

Novo Mundo/Novo Tempo

Num mundo que se desmedia, imensificando-se, o cartógrafo nos apaziguava transformando continentes em ilhas. As caravelas, enormes, apareciam em cada mapa como deusas conquistadoras, onde antes as bochechas infladas dos ventos se estampavam. Era o nosso momento. Sim, todos nos sentíamos maiores que o mundo, capazes de colocar nossa marca em cada recanto. Hoje, apequenados, procuramos refúgio nas estrelas…

Lúcia Bettencourt