CASAR TEM MUITO DE TREPAR COM CADÁVERES – Folhetim em Oito Episódios da autoria de Carlos Pessoa Rosa. – Primeiro Episódio

Levantou-se, pegou as roupas e foi até a sala. Evitava qualquer ruído, não queria se prender a ninguém. Nem mesmo o brilho que viu nos próprios olhos refletidos no teto seria suficiente para mudar o destino. Talvez se a tivesse conhecido antes… Uma fatia de luz atravessava o vão deixado entre a porta e a soleira. O ruído de motores e buzinas diziam de um mundo que o aguardava. Não deixou a incerteza tomar vulto. No centro da porta, entre uma farmácia e uma padaria, apareceu um homem com roupas amarrotadas e cabelos desajeitados. Do outro lado, por ironia, um painel enorme dizia dos riscos do sexo. Deu com os ombros no vazio. Em certos momentos, toda ação torna-se suicida, sabia disso. Entrou na padaria à procura de café. Nenhum antibiótico adiantaria para o maldito vírus. Pagou com o dinheiro que a mulher havia deixado sobre a mesa. Riu da perda dos valores morais.

(continua)

A genuinidade do nosso habitat

Um dos meus presentes de Natal teve como origem o senhor Godard e deu pelo nome de História(s) do cinema. É um prazer rever a intensidade das imagens analógicas perdidas entre fragmentos de uma arte maior. Desde que emergiu do pasmo fotográfico até se tornar na reinvenção da mente, invadida por sonhos de carne e por vozes de sombra. Uma fantasmagoria apetecível, de massas. Como diz Godard, a certa altura, nada no cinema se funda numa realidade histórica. Tal como o cristianismo, o cinema cria uma narrativa, concede-a ao público e diz: “Acredita. Crê!”. Terá sido desta forma que os deuses se colocaram em fuga, entre as proezas variadas de Muybridge, Nietzsche, Freud ou Proust, enquanto outros tantos novos deuses singravam ou brotavam da alma das multidões, das revoluções e sobretudo das solidões.

O cinema-arte emergente há um século, a par de uma renovada literatura que ia rompendo e irrompendo das cinzas da Primeira Grande Guerra Mundial, talvez nunca tenha perdido inteiramente a sua inocência, apesar da brutalidade e da violência da primeira metade do século XX. E nem chegou a sucumbir diante da roda vertiginosa das variedades de estúdio. Uma arte maior e, porventura, nem sequer uma arte. Um lapso. E, porventura, nem mesmo uma técnica, como sublinha o génio Godard, omnipresente narrador desta sua longa saga que se vai deixando ver entre uma nuvem constante de tabaco. Augúrios e incorrecções muito provocatoriamente actuais. Este DVD, já com cinco anos – na época actual um passadismo incorrigível! – não é coisa que faça moda, hoje em dia, bem o sei. Mas brilha para além do tempo em que foi criado e que evoca.

Nestes dias que já quase removeram as memórias do Natal e Ano Novo (e em que o mundo aparentemente se imobilizou), vi, por acaso, o poeta Tolentino Mendonça no ecrã fugidio da televisão. Disse, com razão, que deixámos todos de perceber como se habita este ser que é o homem. Preenchimentos ininterruptos: é disso que é, realmente, feita a hemorragia televisiva. E era a isso que Tolentino se referiria. Ao invés, o cinema, aquele cinema que Godard persiste em entender como sobrevivente a todas as mortes, como ressurreição quase pura, terá – ou teria – sido, possivelmente, a par da literatura, a última arte a dar ao homem a sugestão do seu verdadeiro habitat, das suas sombras, dos seus pasmos e das suas figuras mais virtuosas. Resistiremos.

Luís Carmelo

Segunda Pele

A voz fremente. Verde, o fogo do seu olhar. A ardência no texto. A melancolia dos personagens: herói ansiado no exato momento trágico. Santo, algoz, assassino. Também ladrão. Prostituta feliz. Críveis como álibis incontestáveis onde nada de real há.

Ernane Catroli

Redenção

Acordei com os pulmões em brasa as axilas suadas a t-shirt colada ao corpo. Pressenti a sua presença no negrume do quarto, a respiração surda, a cabeça pousada no travesseiro e os cabelos emaranhados nos meus dedos. Deixei-me estar em silêncio na escuridão, deitado de costas a olhar o tecto e reparei em pequenas manchas escorregando em direção ao centro. Inspirei pelo nariz, expirei pela boca, tentando em vão controlar o excessivo estado de ansiedade que se tinha apoderado de mim na visão das borras de humidade que pareciam por algum estranho desígnio, estarem a expandir-se a cada vez que lhes lançava o olhar. Deixei passar algum tempo e os olhos começaram a captar pequenos fios de luzes esgueirando-se pelas frinchas das persianas. Ao meu lado, os lençóis brancos subiam-lhe pelas coxas maduras e pousavam-se dobrados sobre a cintura, deixando a descoberto um rosado umbigo, onde uma fina bola de cotão celeste se alojara; era apetitoso, um biscoito acabado de sair do forno. Remexeu-se no colchão e soltou um largo suspiro que me transportou de repente a manhãs passadas. Por fim controlei a perturbação que sentia, beijei-lhe a barriga e escorreguei pela cama. Não tenho ilusões, há muito que deixei de semear sonhos irrealizáveis, podeis argumentar que tal coisa não existe, mas ambos sabemos a verdade, por isso só me concedo ideias pragmáticos e racionais, esquivo-me da dor e só colho o que planto, mesmo assim, a imprevisibilidade da vida ainda me vai pregando algumas partidas. Podes alegar que esta maneira prática de viver me aproxima da morte e eu digo que sim, que fujo à vida vivendo em linha recta, eu continuo a concordar, e o único argumento que tenho, está enterrado no passado e tento não o despertar. Sei que não és tu deitada aqui ao meu lado, apenas um fantasma fruto de sonho revivalista, mas podíamos tentar, eu passeava pela tua intimidade num roupão quente e aquecia-te as mãos com o sopro do meu desejo. Podíamos fingir, sabes? Levava-te o pequeno-almoço à cama num tabuleiro cheirando a café fresco. Mas não posso, prometi a mim mesmo não fazer planos a longo prazo, não sonhar acordado com pesadelos, por mais agradáveis que possam parecer. Passo a palma do pé pela coxa quente de sono, ela estremece e balbucia sons sem nexo. Podíamos tentar se a luz teimosa não forçasse com mais tenacidade a sua presença e me devolvesse a tua cara por completo que não reconheço. Deixo cair a perna da cama, viro o corpo até o rodar ao extremo do colchão e num silêncio de caçador, pouso os pés despidos no chão frio e arrepio caminho até à casa de banho. Cheiro-me nos braços e no peito, não arrisco o barulho de um duche, molhos as axilas, o pescoço e esfrego os olhos no fio de água a correr. A louça da sanita está partida a meio e o espelho rachado num canto. Visto as calças, não encontro as cuecas nem as meias. Desligo a luz e abro a porta. Estou-te agradecido mulher, perdoa-me se não o consigo verbalizar, mas não tenho palavras para situações assim, nem vontade de as desenterrar. Estás tranquila dentro do sono e por agora é tudo que basta para mim. Lá fora o restolho da cidade entra em finas vagas pelos poros do quarto e uma estridente sirene despedaça a rua e desaparece aflita na próxima curva. A derradeira amante aguarda-me lá fora. Hesito em deixar-te uma prenda, não sei se deva, não faço ideia. Encosto a porta e encaro o corredor da pensão, tem os tapetes roçados e tinta desbotada nas paredes. Tudo me parece velho e decadente. Acendo um cigarro apesar dos avisos a vermelho e desço até à recepção. Odeio a expressão manhosa do homem atrás do balcão, quando lhe digo que ficastes ainda a descansar mais um pouco, odeio o sorriso cúmplice com que agarra nas notas que lhe entrego.

            Uma corrente de ar frio atinge-me de chofre quando atravesso a porta de entrada. Uma chuva miudinha começa nesse instante a cair. O ruído é acolhedor, as abruptas paredes dos edifícios, regadas da luz eléctrica matinal, apresentam-se cinzentas mesmo desesperadas. És redentora cidade, porque todas o são, ao concederem despidas o dom da invisibilidade a quem por lá vagueia. Podemos falhar centenas de juízos, perder um amigo, autodestruímo-nos em espirais viciosas e mesmo assim ela oferece-nos oportunidade de voltar a tentar; há sempre um canto para todos no grande ventre urbano. Mais um recomeço para mim naquela manhã húmida, o homem que não sonha, arrastando atrás de si a razão em estado bruto, o 2+2 igual a quatro. Quero partir sem me mover, procuro um local ficcionado, mas não me dou ao luxo de imaginar, desenhar uma pequena porta na soleira do passeio e de gatas atravessar até ao meu país das maravilhas. Impossível, eu sei, a cidade é uma amante possessiva que dá mas pouco consente. Entrei na estação, gosto de ver comboios partir e chegar, gosto das massas fulgurantes de pessoas que pairam em lentas curvas pelos cais de embarque. Rodam sobre si mesmos em lentos bailados, como bandos de pombos em manhãs de domingos. Volto à ferida, sinto um certo prazer em remexer nela. Aqui é fácil ripostar argumentos, bem vistas as coisas só discutíamos e praguejávamos, atacavas-me com a minha inércia eu respondia com silêncio diamante. Já não dávamos as mãos nos passeios e o Amor furioso deixou de nos lamber as feridas e cicatrizar as nódoas negras que sempre as há. Acabei a dizer-te que não era uma planta, como se isso fizesse de mim um Casanova dos subúrbios. Riste-te claro e dentro da honestidade da tua expressão, pensei que o tempo tinha recuado até ao início. Tanta gente na estação, caras coléricas e duras, pontiagudas e aleijadas, sorrisos plácidos, serenos, olhares melancólicos, meditabundos, cansados, quem é quem no meio da multidão, não importa porque a cidade recolhe e esbate. Eu sei quem sou, sou aquele que deixou de sonhar com o que não pode, aquele que por isso, está abraçado à morte e de costas para a vida. Deixo a estação para trás e todo mundo parece à distância de um passo, nada é impossível na cidade, contudo e como sempre, retraio os pensamentos, encosto-os à parede, mas sei que naqueles milésimos de segundos que levo a aprisionar aquela emoção livre, me encontro pronto para recomeçar.

Nuno Vieira

CADERNO DE POEMAS DE CARLOS ROSA: dois poemas viscerais por semana, ao longo de dez semanas…

SOLITUDE

 

a pira em chama

a vela apagada

o átrio no escuro

a luz que espia

a raiva vulcânica

a paz é tímida

o latido canino

o silêncio formiga

a noite caída

a lua ilumina

o poema que afaga

o sono que apaga

o pesadelo que agita

a morte que finda

FEMININO

e o homem

plantou o gozo dentro da mulher

que nua

permaneceu na brisa do prazer

mão estendida na direção de seu homem

que colocava as meias e calçava os sapatos

como se o sexo não passasse

do expelir daquele sêmen que dela vazava

em solidão

 

MICROBIOGRAFIA elaborada pelo autor:

Carlos Pessoa Rosa, descendente de avós portugueses, de Leiria e Coimbra, nasceu em bairro operário, vizinhança formada por italianos, húngaros, africanos e japoneses. Cresceu ouvindo histórias de mulas-sem-cabeça, lobisomens e correntes sendo carregadas por almas de mortos nas madrugadas. Formou-se médico em 1976, na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, em cujos corredores habitavam fantasmas de irmãs de caridade que ali viveram. Metido a escritor na adolescência, por paixão, as palavras foram tomando forma, desvencilhando-se do ‘eu’ juvenil, avançaram com a idade, com as histórias ouvidas no dia-a-dia, sabenças populares, daí brotaram poemas e prosas, Bachelard contaminando o positivismo de formação, vieram os livros, Deleuze, Derridá e Habermas corrompendo a estrutura, portas foram se abrindo, PNET Literatura, uma delas, editor do site www.meiotom.art.br, tem trabalhos no site Cronópios e Germina, poemas publicados no Instituto Piaget, em Portugal, livro de contos fruto do prêmio UBE-CEPE, Mortalis: um ensaio sobre a morte, prêmio editora LivroAberto, selecionado no prêmio João-de-Barro e Mario Quintana com livro infanto-juvenil, contos publicados no projeto Dulcinéia Catadora, na Universidade de São Carlos, tem poemas correndo em ônibus e trens em Porto Alegre, curtas inspirados em seus contos…

E acabou-se a estória, passou por uma canela de um pinto e outra de pato; meu rei senhor manda dizer que conte mais quatro.

Manuel Brito (A Escolha do Editor)

A Editorial Estampa Lança em breve o segundo volume das obras completas de Florbela Espanca, numa edição que acredito virá a ser conhecida como a grande referência no domínio dos estudos florbelianos.

Trata-se de uma colecção que reproduz, título a título, as diversas obras de Florbela, tal como elas foram publicadas no tempo da autora. Acresce a que há neste volumes uma enorme preocupação com a fixação do texto e a sua revisão muito minuciosa.

Para além disso, cada um dos volumes é acompanhado por estudos desenvolvidos por um certo número de especialistas portugueses e brasileiros que o contextualizam devidamente e que lhe dão uma dimensão didáctica muito particular.

Os organizadores e responsáveis por esta edição das obras de Florbela são os professores e investigadores Cláudia Pazos Alonso e Fabio Mário da Silva.

Manuel Brito

REDENÇÂO – Folhetim em Dez Episódios da autoria de Carlos Pessoa Rosa. – Quarto Episódio

No local pernoitaram os maiores negociantes de ouro e prata, políticos e banqueiros de todos os estados. Os negociantes bancavam as orgias, atraíam assim os clientes e pessoas influentes no governo. Acompanhou grandes decisões comerciais e negociatas entre eles. A riqueza atraía compradores estrangeiros e a cidade crescia. Chegou a aprender algumas palavras em inglês e francês. O ouro, a prata e o dólar eram moeda corrente. Atualmente, bem que Madalena gostaria de sair daquele inferno. Mas a vida toda sobrevivendo com o aluguel do corpo… Carcaça amarfanhada e tísica. Vendido por uns trocados que mal dão para comer. Carrega o vírus no sangue. Mas os clientes atuais não se preocupam. Já vivem no limite em que a morte começa a ser mais simpática que a vida. O jogo passou a ser a roleta-russa. São homens frustrados pelo garimpo fraco ou viciados sem noção de tempo e espaço. Tourear o que carrega a foice passou a ser o único prazer real.

 

 

 

(continua)

REDENÇÂO – Folhetim em Dez Episódios da autoria de Carlos Pessoa Rosa. – Terceiro Episódio

O quarto arranjado como sempre apreciou. Exigência desde o primeiro dia de trabalho. A cama de casal refletida nos espelhos que ela mesma mandara colocar nas paredes. Sobre o lençol branco, uma colcha de renda feita a mão. Luz, somente a indireta e lilás. Batom vermelho. Deitava com roupa transparente sobre o branco nácar e entregava-se ao cliente. Para ela, a nudez e a luz deviam oferecer a névoa mística dos ciganos. Excitava os homens, tornava-os mais bondosos. Algumas vezes, a inspiração associada à dose certa de uísque rendia-lhe algum diamante.

 

Mas agora… A rua empoçada pelas falhas no leito de pedra. Cachorros cheios de pestes e carcomidos pela fome vagam à procura de alimento nos lamaçais onde barro, merda e restos de alimento confundem-se. Bichos, homens e lixo vagueiam na miséria. Multiplicam-se a cada ano. Compartilham a doença, a leishmaniose e o piolho. Cidade-luz transformada em cidade velha. A prostituição, fruto de necessidade, não de vocação, que há de se ter sentido também para ser mulher da vida. Famílias negociam as filhas adolescentes nas ruas a preço de ferro. Nunca a concorrência foi tão acirrada. E o Grande Hotel, antes referência pelas festas e jogo, transformado em uma pocilga de curta permanência, um cortiço a alguns reais a hora. Conseguiu manter o quarto particular, pelo menos o que resta dele, com rachaduras nas paredes e banheira, os lençóis amarelentos.

 

 

 

(continua)

Diálogo da eternidade

O percorrido ao contrário é a Eternidade

Erimanto de Eléia.

Subi os gastos degraus de mármore da escadaria, passei pelas colunas dóricas que suportavam o frontão triangular, onde, em alto relevo, ninfas coroavam poetas e guerreiros, pelas grandes portas de madeira maciça, entalhada com motivos florais, e entrei no edifício. De imediato, o silêncio quase que absoluto envolveu-me como um manto. Segui por um corredor, cuja passadeira vermelha, já puída, amorteceu meus passos e cheguei numa sala, iluminada apenas por um abajur de mesa, que tinha como base a estátua de bronze de uma mulher nua. Dentro dela, dois homens conversavam: o que parecia mais velho, sentado a uma escrivaninha escura, levantou os olhos, fitou-me de modo indiferente, mas logo os baixou, continuando a conversa. Pude distinguir na penumbra estantes atulhadas de livros, cortinas de veludo, poltronas de couro e, nas paredes, quadros de assuntos mitológicos, em tons sombrios, com molduras trabalhadas em ouro.

Sentei-me num sofá, diante da porta da sala, e esperei pela minha entrevista. O tempo parecia estagnado – só a conversa ciciada é que me dava a impressão de que algo ali se escoava. Os dois homens continuavam a falar lentamente, escandindo as palavras e produzindo um zumbido quase inaudível. Quando se despediram, o visitante, um homem magro e lívido, passou por mim sem fazer qualquer ruído e desapareceu numa curva do corredor. Então, o velho senhor levantou-se como que fazendo um grande esforço e fez um sinal para que me aproximasse. Entrei na sala, ele deu-me a mão, ao mesmo tempo em que sussurrava “Doutor Archibaldo, um seu criado”. Ao contato com pele marcada de manchas e veias azuis, tive sensação de frio. O velho senhor voltou a seu lugar e, com um aceno, me convidou a sentar. Fitou-me demoradamente sem dizer nada. A luz diáfana do abajur recortava-lhe as feições, de maneira que ele parecia um fantasma. Um relógio carrilhão, que me passara despercebido, deu as horas – e o som enferrujado provocou-me arrepios. Depois de me observar por algum tempo, disse-me numa voz cheia de catarro:

– Qual a sua graça?

– Zenir Matos Reis – disse, adiantando o corpo.

Escreveu bem devagar, esculpindo cada letra numa ficha. Em seguida, pediu-me outras informações: endereço, idade, grau de instrução, fontes de referência. Recostando-se na poltrona de alto espaldar, cruzando as mãos, perguntou-me afinal o motivo de meu interesse pela Sociedade Amigos dos Clássicos.

Disse-lhe que soubera da existência da sociedade por meio de um periódico, na Biblioteca Municipal. A leitura dos estatutos, explicando os fins da entidade, e a fotografia do prédio neoclássico, entalado entre edifícios de concreto, haviam me acendido a imaginação. Disse-lhe também da minha paixão pelos clássicos e, entusiasmado, enumerei-lhe as leituras: Anacreonte, Horácio, Pompilius, Camões… Ele interrompeu-me:

– Camões, ahn?

O doutor Archibaldo tamborilou os dedos sobre a mesa, como se escandisse versos, limpou a garganta e perguntou:

– …o senhor dizia… ahn… Camões. Pois o bardo luso não lhe parece um tanto inovador?

– Inovador? – perguntei, espantado. – Mas não seguiu ele os preceitos de Virgílio, de Petrarca?

– Um tanto sedicioso… – como se eu não estivesse ali diante dele, o doutor Archibaldo completou com uma voz soturna: – moderno demais… Ao contrário de Pompilius em que a clareza dos epítetos, o rigor, a pertinência das metáforas, o amor à ordem, à harmonia indicam estrita obediência às convenções. Não há por que ler os sediciosos, os que aviltaram a Língua-Mãe em busca de novidades!

E eu que andara lendo os modernos! Como que me adivinhando o pensamento, o doutor Archibaldo perguntou de chofre:

– E os modernos, ahn?

– Os modernos… – hesitei antes de continuar – …a falar a verdade, os modernos não me agradam. Apenas um que outro verso que leio sem enfado.

O relógio deu as nove badaladas. O doutor Archibaldo parecia refletir, as pálpebras piscando sem parar. Afinal, disse:

– Os modernos, salvam-se deles um que outro verso. O senhor está com a razão. No mais, são uns bárbaros! Os parnasianos ainda tentaram resgatar a poesia do vulgo. Mas foram incompreendidos, vilipendiados!

O velho exaltava-se. Desviei minha atenção para um conjunto de retratos sobre a mesa. Reconheci sem esforço alguns poetas parnasianos: Olavo Bilac, Alberto de Oliveira, Raul de Leôni. Mas havia figuras que eu não podia saber quem fossem, entre elas, a de um homem de bigodes caídos ao longo da boca. Mais à direita, havia um retrato do próprio doutor Archibaldo. Fiquei intrigado com o tom envelhecido da fotografia, que parecia da mesma época das demais.

– Vilipendiados! – tornou a dizer o doutor Archibaldo. – Mas os grandes gênios – não falo desses rebotalhos que impingem lixo como poesia – os grandes gênios, os Bilac, os Raimundo Correia, os Lecomte de L’Isle viviam numa época de decadência de valores morais. Um que outro verso… Mas mesmo eles eram igualmente modernos… Louve-se-lhes, contudo, a pertinácia.

Estaria o doutor Archibaldo ainda se referindo aos parnasianos? O que entendia então por moderno?

– Mas isso tudo não tem importância. Quem vilipendiou o vernáculo cavou a própria sepultura. A Eternidade ama os que se repetem!

Embora o doutor Archibaldo falasse pausada e claramente, não pude compreender tudo o que me dizia. Só mais tarde é que vim a descobrir o sentido pleno de nossa conversa. Mas então era tarde, e eu já havia cometido meu erro fatal. Mas naquela noite ainda falamos de Pompilius. O velho exaltou-se, recitando em latim as estâncias do poeta. Fiz coro com ele. Terminou por me dizer com entusiasmo:

– Ah, como a eterna Beleza remoça!

Seus olhos incendiaram-se, e eu seria capaz de jurar que um leve rubor cobrira-lhe a face. Vendo-o tão contente, pus-lhe minhas dúvidas acerca de Pompilius, sobretudo aquelas a respeito de suas “Máximas e Aforismos”. Escutou-me com grande paciência e teceu comentários sobre a métrica, a rima e o rigor das figuras:

– Mas vamos ao fundo da questão, meu jovem… – voltou os olhos para o forro e disse, saboreando cada palavra: – Apollo et Stygius Pluton unum et idem sunt.

Ruminei o enigma: como Apolo podia ser Plutão? E veio a ciciada voz junto à badalada das dez horas:

– “É morte para as almas, que são fogo, transformarem-se em água”, já dissera o divino Heráclito.

Esperei em vão que explicasse o enigma. Não o fez, entanto. Continuamos em silêncio por algum tempo, até que ele se mexeu na cadeira.

– Deu-nos muito prazer esta visita. É raro encontrarmos jovens interessados na cultura clássica hoje em dia. Embora sua idade não o recomende, vejo em si apreciáveis qualidades. Talvez o Conselho leve isto em consideração. Quarta-feira, o mais tardar, terá uma resposta. Passe bem.

Levantei-me, despedi-me e segui pelo corredor até a saída. Bastou chegar entre as colunas dóricas, para que os ruídos do trânsito me apanhassem em cheio. O vaivém daquela gente atropelando-se, empurrando-se nas calçadas causou-me náuseas. Então, senti falta da sala do doutor Archibaldo, de sua voz ciciada, de nossa palestra tão cheia de subentendidos.

A carta de admissão da Sociedade Amigos dos Clássicos apanhou-me em meio ao desalento, que era a minha vida, a cada dia mais vulgar. De maneira que, ao contemplar o envelope, onde, no alto, à esquerda, havia o rosto de Minerva e o dístico de Erimanto de Eléia, “O percorrido ao contrário é a Eternidade”, fui tomado por grande euforia. A missiva rezava que eu fora aceito pelo Conselho e, ao mesmo tempo, convidava-me para a cerimônia de posse da minha cadeira de sócio.

O doutor Archibaldo introduziu-me no salão oval, circundado por colunas, onde as cadeiras dos frequentadores estavam dispostas, como num anfiteatro, frente à mesa de conferências localizada sobre um pequeno púlpito. Do centro do teto apainelado, cheio de afrescos, pendia um lustre de cristal. Atrás da tribuna, no alto da parede, vinha inscrito o dístico de Erimanto de Eléia, em letras douradas, encimado por um alto-relevo com a figura de Minerva.

– Eis nosso novel agremiado – disse o doutor Archibaldo, apresentando-me.

Cumprimentei o doutor Severiano Alves Sequeira, “eminente filólogo”, o doutor Erimanteu Bustamante, “jurista ilustre”, o doutor Alexandre Gouveia Azevedo, “latinista emérito”, o doutor Heráclito Ponciano Rezende, “insigne helenista”, o doutor Euclides Fogaça, “preclaro humanista”, além de outras sócios de que não mais lembro o nome. Quando soou a sineta, sentamo-nos, e o doutor Archibaldo dirigiu-se à tribuna para dar-me as boas vindas. Disse que eu estava ali para ajudar a manter acesa a chama da cultura, do saber e para dar continuidade às tradições. Bastante aplaudido, foi substituído por outro sócio que discorreu sobre o valor da tradição e sobre o dever da casa em preservá-la. Ao término dos discursos, houve brindes com champanhe.

Muito requisitado, entabulei conversação com os sócios. Entrei numa roda que discutia a influência de Horácio sobre os árcades portugueses, entre eles, José Anastácio da Cunha e Paulino Antônio Cabral. Perguntaram minha opinião. Não me fiz de rogado:

– A meu ver, ambos foram lidos do bardo latino. Tal se faz notar no rigor da métrica e dos epítetos.

Os velhos balançaram a cabeça aprovando. Um deles, já corcunda, apoiado numa bengala de castão dourado, deu um estalo com a língua e exclamou:

– O jovem tem talento!

A reunião terminou com a leitura de Cartas de Eco a Narciso, de Castilho. Os velhos ouviam extasiados, bebendo as palavras. Não sei se era o efeito da taça de champanha, mas o caso é que eles, para minha surpresa, pareceram-me muito animados, como se naquele instante vendessem saúde. Tanto era assim que, ao término da reunião, saíram em grupo, falantes, rindo-se e dando-se tapas nas costas.

A partir daí, não perdi uma só reunião, cujo estilo era sempre o mesmo. Alguém proferia uma palestra, a que se seguiam apartes e discussões, algumas bastante acaloradas. Embora os sócios mantivessem um ar de afetada cordialidade, percebia-se que qualquer tópico era motivo para contendas que tomavam grande parte da noite. Eu costumava seguir as palestra com muita atenção, e meu maior sonho era ser aceito definitivamente como sócio. Mas, para isso, era preciso, como me aconselhara o doutor Archibaldo, ter paciência e, sobretudo, prudência. Fora numa conversa, logo após minha admissão, no escritório de cortinas de veludo. Lá, reconheci, afinal, entre os retratos, a figura do doutor Heráclito Ponciano Rezende, com os bigodes caídos ao longo da boca. Senti vontade de perguntar ao doutor Archibaldo se era ele mesmo (embora quase tivesse a certeza de que só poderia ser um seu antepassado, porque a fotografia tinha um tom bastante esmaecido). Mas, achando que não convinha ser indiscreto, sofreei a curiosidade. E deixei o doutor Archibaldo falar, em sua voz ciciada, que parecia vir de outra era:

– …o Conselho, na verdade, queria alguém de mais idade, mais maduro. Seu nome foi aceito com reservas, devo confessar. Mas achamos que já era tempo de difundir nossa filosofia junto às gerações mais novas. Sua afeição pelo imutável foi o que mereceu o voto de Minerva.

Em seguida, disse-me que eu vinha preencher a vaga deixada por um sócio, que cometera insuportável heresia para as normas da casa e fora expulso da Sociedade. Que eu tivesse humildade e bom senso e, dentro de algum tempo, seria premiado em definitivo com o título de sócio.

Segui com bastante escrúpulo os conselhos do doutor Archibaldo e, em breve, conquistei a confiança e o apreço dos sócios. Mas não demorou muito, levado pela vaidade e pelo ímpeto da juventude, com meus apartes inoportunos, acabei não só ganhando inimigos, como também criando situações embaraçosas. E os pequenos incidentes evoluíram assim para os incidentes mais graves, como o da malfadada palestra sobre Filinto Elísio.

Os velhos bebiam as palavras do doutor Cordeiro, cuja palestra tinha por assunto: “Apontamentos à margem de uma epístola de Filinto Elísio – Preceitos aos poetas – Estilo. – Pintura de Idéias. Variedade e Propriedade.” A discussão acendera-se, a partir da leitura dos primeiros versos da composição:

Lede, que é tempo, os clássicos honrados;

Herdai seus bens, herdai suas conquistas,

Que em reinos dos romanos e dos gregos

Com indefeso estudo conseguiram.

O que provocara a discussão fora o seguinte tópico: a quem se dirigia Filinto? A que clássicos precisamente? E, à medida que recrudescia a polêmica, os velhos ganhavam força e cores: os olhos baços do doutor Heráclito pareciam brilhar com intensidade, a palidez do doutor Euclides dera lugar à vermelhidão das faces, e o doutor Sequeira deixara de lado a bengala e estufava o peito de tísico, fazendo intervenções a todo instante. Mesmo a voz do doutor Archibaldo, sempre ciciada, crescia, reboando no teto apainelado do salão.

Terminada a primeira parte da palestra, ainda se discutiam os quatro versos iniciais da epístolas de Filinto. Um ponche foi servido: os velhos bebiam as taças, rindo à vontade. E o estranho é que eu parecia ser o mais velho entre eles. De onde lhes vinha a força e a vitalidade? Não entrara o doutor Sequeira às sete e trinta arrastando-se, arrimado à bengala? Não tossira, ofegando, o doutor Euclides no salão? E as mãos do doutor Heráclito Rezende não tremiam sem parar até perto das oito? E não sei se era efeito do ponche, mas seria capaz de jurar que os cabelos deles estavam mais negros, os olhos mais vivos, e a pele da tez e das mãos mais elástica e corada.

A sineta encerrou o intervalo. Os velhos voltaram à discussão ainda mais animados. Já cansado da lengalenga que parecia não ter fim, esqueci-me do conselho do doutor Archibaldo e resolvi intervir:

– O ilustre conferencista não acha que tal controvérsia é inócua?

– Inócua?! – a voz do doutor Azevedo reboou indignada.

Ouviram-se murmúrios. Mesmo assim, continuei:

                – Penso que ter Horácio, Homero, Virgílio como referencial é secundário no texto. Filinto Elísio, a meu ver, dirige-se aos clássicos em geral.

Um oh de reprovação correu o plenário. O doutor Archibaldo começou a mexer-se desconfortavelmente na poltrona. O doutor Heráclito Rezende e o doutor Euclides Fogaça trocaram sorrisos irônicos. E o doutor Azevedo, adotando ar paternal, disse-me:

– O jovem está nos chamar de fúteis? O jovem então julga que o divino Filinto não sabia distinguir entre os clássicos?

Não se ouvia uma mosca no auditório. Sem me deixar intimidar, continuei:

– Pelo que saiba, não me utilizei do termo “fúteis”. Disse apenas que achava a discussão inócua, o que é bem diferente.

– O que vem a dar no mesmo – aparteou o doutor Euclides Fogaça.

Fingi não escutá-lo e argumentei:

– Longe de mim contestar a Filinto, mas que diferença faz ele dirigir-se a fulano ou a beltrano?

O doutor Fontoura deu uma risadinha de escárnio. Engasgado, pôs-se a tossir. Mas logo recuperou o fôlego e, como se fosse um mestre dirigindo-se a um discípulo ignorante, começou a discorrer:

– Em primeiro lugar, um imortal não pode e nem deve ser chamado de fulano ou beltrano. Devemos-lhe os cimos da Beleza! Em segundo lugar, há clássicos e clássicos. Alguns indignos de privar de nosso convívio. Quiçá, o poeta de Metamorfoses, que se insurgiu contra o soberano, quiçá, aquele nefando autor de tragédias inglesas. É mister distingui-los. Mesmo o épico imortal da Língua incorreu em deslizes. É, pois, mister distingui-los!

O conferencista foi delirantemente aplaudido. Envergonhado, recolhi-me, mas o doutor Fontoura não deixou por menos e voltou à carga:

– O jovem foi muito apressado em seu juízo. Lembre-se de que o falar é prata e o calar é ouro.

O doutor Sequeira, por sua vez, achou de encerrar a questão dizendo com autoridade:

Callido sanguine fervens, in levitate juventutis morbus.

Naquele dia, voltei arrasado para casa. Não bastasse a lição que o doutor Fontoura me dera, ainda por cima tivera de engolir a irônica intervenção do doutor Sequeira, que me achatara com a citação latina, referente à “moléstia dos jovens”. Passei a noite em claro, imaginando minha vingança.

Até que chegou a vez do doutor Sequeira falar. Sua palestra intitulava-se: “Salada de conjecturas: a originalidade da expressão ‘cozinhando o galo’, no romeno, sua permanência e divulgação entre os falares galaico-português, esloveno e provençal”. Os apartes não demoraram a acontecer, porque a matéria era polêmica. Alguém achou que a ave era desconhecida no norte da Rumânia. O doutor Erimanteu citou o romanista Constantin Eliaescu que, em Prolegômenos à filologia românica, desenvolvera a tese original da influência eslovena, e não o contrário, sobre o romeno. O doutor Heráclito Rezende e o doutor Euclides Fogaça tomaram o partido do aparteante, eles que não morriam de amores pelo doutor Sequeira. Até o doutor Archibaldo, sempre tão ponderado, achou de intervir:

– O preclaro colega, a quem prezo e admiro, há-de convir que a expressão na Rumânia devera ser alienígena.

O doutor Sequeira suava em bicas, agarrando-se à bengala, como se ela fosse uma tábua de salvação e olhava para todos os lados esperando socorro. Os velhos animavam-se, discutiam entre si, indiferentes à sorte do palestrante. Em vão, o doutor Archibaldo fazia soar a sineta, pedindo ordem. E quando maior era a confusão, resolvi atacar o conferencista no ponto que me parecera mais falho. Enquanto os aparteantes insistiam em derrubar a tese da origem da expressão, decidi enveredar pela da permanência, porque sabia que ali é que estava mesmo a questão mais controversa:

– Vossa Excelência, julgo eu, confundiu alhos com bugalhos – gritei em meio à balbúrdia. – Como pôde falar em permanência, se não considerou os aspectos diacrônicos da questão?

Fez-se um silêncio brutal no plenário. Triunfante, avancei:

– Vossa Excelência esqueceu-se de que, cronologicamente, o sentido denotativo adquiriu conotações: “cozinhando galo” passou também a ter o sentido de “demorar-se”, “atrasar-se”, como, aliás, vem explicitado em qualquer compêndio escolar.

O doutor Sequeira começou a tremer e cairia se não tivesse se apoiado firmemente na bengala. Sentei-me vitorioso. Mas um berro cortou o ar. Era do doutor Erimanteu, o jurista:

– Blasfêmia! Blasfêmia!

Outras vozes apoiaram-no:

– Blasfêmia! Fora com o heresiarca! Fora!

Um velho, dobrado em dois, engasgou em catarro, outro levou a mão ao coração. Mas qual não foi minha surpresa quando eles avançaram contra mim, o doutor Sequeira à frente, com a bengala erguida. Sem compreender por que meu aparte provocara tanta ira, vi-me de repente empurrado pelo doutor Heráclito e pelo doutor Euclides. Um sopapo atingiu-me a face. Alguém arriscou um pontapé contra minha perna. Então, a voz do doutor Archibaldo se fez ouvir acima do alarido:

– Tenham-se, senhores! Respeitem, ao menos, o nome e as tradições da Casa!

Os velhos soltaram-me acabrunhados. Pareciam frágeis, tossicando, arrastando-se, sem a jovialidade de antes. Mesmo o doutor Archibaldo permanecia de pé com dificuldade, apoiando-se ao espaldar da cadeira. Terminou sentando-se e, com a mão trêmula, apontou-me a saída:

– Quanto ao senhor, retire-se! Não é digno de privar de nosso convívio.

Corrido de vergonha, saí apressado. Quase à porta, ouvi o doutor Archibaldo levantar a débil voz:

– Voltemos à doce companhia de Horácio, Castilho, Bilac…

Ainda pude vê-lo, os olhos brilhantes, entoar os versos de “Profissão de Fé”:

Não quero o Zeus Capitolino

      Hercúleo e belo,

Talhar no mármore divino

      Com o camartelo.

Subiu um oh de contentamento. O doutor Sequeira, ao lado do doutor Archibaldo na tribuna, aprumara-se de novo, já livre da bengala. Ganhei, então a noite, muito pequeno entre as colunas dóricas da entrada.

Uma semana depois, recebi uma carta lacônica da Sociedade, pedindo que comparecesse à sede para acertar minha situação. Reli a carta. Depois, sem saber bem por quê, contemplei o dístico de Erimanto de Eléia, que encimava o papel: “O percorrido ao contrário é a Eternidade”. Deu-se um estalo dentro de mim e tudo me ficou claro como a água.

No dia combinado, lá estava eu às sete em ponto, à porta do escritório do doutor Archibaldo. Com um aceno, pediu-me que entrasse. Sentei-me na ponta da cadeira, e ele continuou a tratar da correspondência. Só o ruído da espátula abrindo os envelopes corria a sala junto ao deslizar enferrujado do pêndulo do relógio. E, de novo, entre as cortinas de veludo, tive a sensação de que o tempo ali não se escoava, parecendo estagnado. Um pigarro do doutor Archibaldo quebrou o silêncio. A voz veio ciciada, como que continuando antiga conversa:

– …de modo que o senhor não se portou – é meu dever infelizmente dizer-lhe – à altura das tradições da Casa…

O doutor Archibaldo abriu mais um envelope, leu com vagar a carta e a depôs ao lado das outras.

– Não lhe recrimino a atitude. São próprios da juventude tais descuidos… – e, contemplando-me por cima dos óculos, completou: – aliás, também erramos em nosso juízo, ao admiti-lo…

– O senhor creia, eu…

O doutor Archibaldo, como se não me ouvisse, continuou:

– Mas vamos ao que interessa. Sem mais delongas. Estamos a vinte, não? Como o senhor pagou escrupulosamente a mensalidade, somos-lhe devedores… Pois o senhor tem direito a mais uma sessão, desde que se comprometa a assistir a ela em absoluto silêncio.

O doutor Archibaldo estendeu-me o pedido de demissão. Antes de assiná-lo, porém, fiz-lhe um pedido:

– Sei que me portei de maneira indigna. Para reparar meu erro, ainda que já me saiba fora da Casa, queria proferir umas palavras de agradecimento aos membros da Sociedade e brindá-los com a leitura de alguns singelos versos.

Impaciente, o doutor Archibaldo resmungou:

– Mas o senhor conhece as regras da Casa: só podem subir à tribuna os sócios cabalmente aceitos pelo Conselho.

– Compreendo, doutor Archibaldo. Mas considere: se foi um desastre minha breve passagem pela Casa, apenas um ato de sua magnanimidade exemplar poderia apagar tal nódoa.

A adulação pareceu surtir efeito: um sorriso aflorou os lábios do doutor Archibaldo.

– E o que o senhor pretendia dizer ao plenário?

Entreguei-lhe um manuscrito.

– Perdoe-me o senhor a ousadia de trazer o discurso pronto. Mas tinha a certeza de que sua generosidade estaria à altura de sua sabedoria.

O doutor Archibaldo correu a vista pelas laudas.

– Este poeta de que fala – Tolentino Bracarense – devo confessar, não é de meu conhecimento.

– É João Tolentino de Almeida, obscuro, porém, talentoso árcade português – menti descaradamente.

Na verdade eram odes de Ricardo Reis, as menos sediciosas que havia encontrado. A conferência fazia parte de um plano que consumira minhas noites. Fiquei com o coração batendo, em pânico, receoso de que ele descobrisse meu ardil. Mas o doutor Archibaldo terminou de ler o manuscrito e disse:

– Está nos jovens descobrir os gênios olvidados.

Balançou a cabeça.

– …pena que não soubesse como sofrear o ímpeto…

O doutor Archibaldo levantou-se com dificuldade, como se as juntas lhe doessem. Pareceu-me alquebrado, apoiando-se à mesa. O estranho era que eu também me sentia cansado. Talvez fosse o efeito da noite passada em claro.

– Julgo que seja o tempo úmido…, a pressão arterial – queixou-se ele. – Quanto a seu discurso, tenho de consultar o Conselho. Mas não creio que haverá problemas.

Uma semana depois, recebi nova carta da Sociedade com o nihil obstat, marcando para uma sexta-feira a minha despedida.

Foi o doutor Archibaldo, como sempre, quem abriu a sessão. Em seguida, o doutor Erimanteu falou sobre “Marcelino de Albuquerque, acontecimentos pitorescos de sua vida e a gênese de Opalinas”. A mão no bolso do colete, as folhas de papel firmemente empunhadas, leu, numa voz gorda:

E quis o mortal imitar a Zeus;

Do mármor bruto extraiu Beleza,

Criou ua Deusa, como se fosse um Deus

D’ Olimpo descido na Natureza!

O doutor Sequeira ria-se deliciado, e as letras de ouro do dístico de Erimanto de Eléia brilhavam intensamente. E a voz continuava ressoando na abóbada, numa sonoridade mórbida, doentia, tomando meu corpo, me deixando enlanguescido. O doutor Archibaldo, com os olhos cerrados, gozava em êxtase, as cores do rosto revigoradas.

No intervalo, foi servido o champanhe. Os velhos, cheios de consideração para comigo, nem pareciam que há uma semana atrás haviam me agredido. Até o doutor Sequeira aproximou-se e deu-me tapinhas amistosos nas costas. Retribuí-lhe a gentileza com o melhor dos meus sorrisos. Pedi-lhe desculpas pelo estouvamento. Generoso, abriu os braços:

– Ora, vamos! Águas passadas não movem moinhos.

A sineta soou. O doutor Archibaldo tomou a palavra. Disse que eu, infelizmente, tinha de deixá-los, mas que soubesse que só deixava amigos na Casa. Em seguida, chamou-me à tribuna, apertou-me a mão e foi sentar-se.

Não fui menos retórico na introdução – os velhos, de desconfiados que estavam, pouco a pouco, foram-se deliciando com as frases de efeito, com os ornatos que, redundantemente, ajuntava, compondo o topos da falsa modéstia, para conquistar a benevolência, a docilidade dos meus ouvintes. Citando Cícero, Quintiliano e Leo, acentuei minhas deficiências – excusatio propter infirmitatem –, minha falta de preparo – si nos infirmos, imparatos… dixerimus, a pobreza de minha linguagem diante da grandiosidade do assunto – matéria vincor et quia lingua minor. Os lábios, rubros, as calvas, luzidias, deixavam escapar murmúrios de admiração. Por fim, fechando meu discurso, com a reafirmação de minha insignificância – mea exiguitas, pullitas, parvitas -, disse que, para poupá-los de continuar a ouvir meu medíocre discurso, ia dedicar-lhes momentos de sublime prazer com a leitura de algumas odes de Tolentino Bracarense.

Comecei pela de número 436: Sob a leve tutela/Dos deuses descuidosos… Em seguida, segui pela 414a adentro: Para ser grande, sê inteiro; nada/Teu exagera ou exclui. Enquanto lia, à margem, tecia comentários descompromissados, esperando o momento exato para atacar. Aqueles versos, ainda que aparentemente inofensivos, provocaram sonolência na platéia. Os velhos ficaram como que hipnotizados, à medida que as palavras saíam de minha boca, numa melopeia que os entorpecia. E continuei a ler, até que, num determinado instante, me saiu dos lábios a ode 376: O rastro breve que das ervas moles/Ergue o pé findo, o eco que oco coa… Mal disse o cacófato, um murmúrio fez-se ouvir. O doutor Archibaldo ameaçou levantar-se, mas não lhe dei tréguas e gritei um verso todo de Pessoa: O que em mim sente ‘stá pensando. O murmúrio cresceu, transformando-se em protesto. Até que no plenário irrompeu um grito:

– Blasfêmia!

O doutor Archibaldo, com muito esforço, levantou-se afinal, seguido pelo doutor Heráclito Rezende e pelo doutor Euclides Fogaça, e veio em minha direção, os dentes da dentadura cerrados de ódio. Mais que depressa, comecei a amontoar os versos que havia decorado: Passam de longe, bondes, ônibus, rio de aço de tráfego; então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax? na praça Antônio Prado são 10 horas azuis, e os lábios, branca, do carmim desflora; mulher ao vento, aqui, é nome de raiz e estame. Ouvi, então, um urro de fera ferida:

– Fora…, fora com o heresiarca!

Era o doutor Sequeira, que se apoiava todo trêmulo na bengala. Os demais tentaram acompanhá-lo, mas tropeçaram nas cadeiras e caíram embolados no chão. O doutor Heráclito e o doutor Euclides aproximaram-se da tribuna, as mãos feito garras. O doutor Archibaldo arquejava, gotas de suor banhando-lhe o rosto. Encarei-os e, com um sorriso de vitória, fui enunciando outros versos: Onde quer que certos homens se sentam, sentam bandos ferrenhos, de colégio; o Idiomaterno, o a duras penas, o em outros tempos, o ainda um dia; o que sou hoje é o terem vendido a casa, e a câmera muda, e a sala muda, muda…; suas puras unhas, no alto, desdenhando seu ônix, a brotar (esta manhã) a flor da ignorada alegria, ponte pênsil entre as polpas da memória, o dardo flutua pendurado ao cordão.

E minha voz cresceu, reboando no teto. A inscrição de ouro da parede começou a desbotar, enquanto o lustre tremia tilintando. A mão do doutor Euclides aproximou-se de meu pescoço, mas ficou a meio do caminho. O doutor Archibaldo caíra perto da tribuna, o corpo em transe, a boca escancarada, respirando num sibilo. O doutor Sequeira, a língua de fora, a cara roxa, arquejava, e flocos de espuma escapavam-lhe dos lábios. Os outros velhos tentavam fugir e atropelavam-se nos corredores entre as cadeiras, mas, gritando, eu os alcançava. Este permanecia duro, a face encostada no chão, aquele, ainda em convulsões, dava o último suspiro. Fatigado, diminuí o ritmo da recitação, a voz soando quase em surdina.

E foi que um fedor começou a crescer no ar. A mão do doutor Heráclito, pousada na tribuna, tomava uma coloração amarelo-esverdeada. Bolhas formavam-se sobre sua pele, pipocando, e um líquido cheio de vermes escorria. Asfixiado com o cheiro nauseabundo, levei o dedo ao nariz. Mas continuei a falar. Os corpos contorciam-se em estranha dança, putrefazendo-se. Quase às escuras, pois muitas lâmpadas haviam estourado, vi que o ouro da inscrição de Erimanto de Eléia escorria pela parede. O rosto de Minerva, sem o olho e o nariz, assemelhava-se a uma caveira.

O cheiro nauseabundo diminuiu de intensidade, pois os corpos, já quase sem forma, começavam a se desfazer numa poeira fina. Cansado, sentei-me, minha voz quase rouca. Caliça caía do teto, e janelas e portas despregavam-se dos batentes. Uma ventania entrou, levantando pó do chão, e levando de cambulhada papéis, peças de roupa, óculos, cintos e fivelas. O murmúrio de minha voz misturava-se ao sibilo do vento, que tentava me arrastar consigo. A fadiga crescia, as pálpebras teimando em fechar. Reparei, então, horrorizado, que havia rugas em minhas mãos e que um tremor tomara-me o corpo. Quis me calar, mas a língua continuou a mover-se como que independente de minha vontade. Em desespero, mordi-a, e a dor fez que aquele fluxo cessasse de vez junto com a ventania. Os olhos cheios de lágrimas, o corpo dolorido, vagarosamente desci da tribuna. Segui por entre as cadeiras desmanteladas. No meio do caminho, tropecei em algo: era a bengala do doutor Sequeira. Apanhei-a e apoiei-me nela. Embarafustei pelo corredor, passei pela porta e pelas colunas dóricas, que pareciam tremer frente à tempestade. Desci com dificuldade a escadaria e já ganhava a rua, quando, às minhas costas, tombou, em ruínas, o prédio da Sociedade Amigos dos Clássicos.

Álvaro Cardoso Gomes

A Virgem do Valado

O Valado da Conceição orgulhava-se de ser ali que o Natal começava mais cedo – na festa da padroeira, a 8 de Dezembro, com a representação de um presépio vivo, que se repetia a 25, no Ano Novo e no Dia de Reis. A aldeia já tivera uma equipa de futebol e uma banda de música, mas agora mal conseguia figurantes para a encenação. Nem sequer ovelhas, que, antes, eram trazidas para as colinas ao redor do Valado, sendo de lá que vinham pastores verdadeiros adorar o Menino. E, neste ano da graça de 2012, pela primeira vez não havia uma criança em idade de fazer de Jesus. O Menino seria substituído por um boneco, mas o boi e o burro, ao contrário do habitual, não sairiam do estábulo do Pedro “São Pedro”, onde passavam a maior parte do Inverno, a uns cinquenta metros da igreja, porque constava que o Papa os retirara do presépio.

Mas Maria da Luz, o anjo do Valado, era a ausência mais sentida. Bela como se tivesse saído de um quadro de Murillo, e pura como uma Imaculada, havia cinco anos que representava o papel de Maria. Uns meses antes, porém, causara surpresa e desgosto em toda a gente. Ficara grávida, não se sabia de quem, e fugira da aldeia antes de haver sinais aparentes da sua queda em tentação. E, muito pior, dizia-se que fora para longe não pela vergonha de ser mãe solteira, que era do que mais se via por este mundo de Deus, mas por não querer que o filho nascesse. Apesar disso, a festa foi preparada com o que restou de entusiasmo.

*           *            *

O povo do Valado da Conceição ao menos não teria sofrido o desconcerto da prevista ausência do boi e do burro se soubesse o que muitos jornalistas pareceram ignorar – que a palavra presépio, antes de ser o nome dado à representação do Natal, significava apenas estábulo. Bento XVI não fizera mais do que lembrar que Lucas não alude a animais na presença do Senhor, e que a tradição de serem postos aqueles dois a velar o menino resulta de uma interpretação do que disse Isaías: “O boi conhece o seu dono e o burro o estábulo do seu senhor, mas Israel não me conhece e o meu povo não compreende.” E disse ainda que “nenhuma representação da natividade renunciará ao boi e ao burro”.

Se um presépio fosse uma lição de história, não poderiam constar nele nem igrejas, nem bandas no coreto, nem ranchos folclóricos, nem mulheres pastoras, nem o mais que é costume haver e não havia…

*            *            *

Não foi só a saudade que fez Maria da Luz voltar à aldeia no primeiro dia do presépio, mas também o desejo de que o povo visse como o seu menino estava vivo, lindo e saudável. Chegou envergonhada e temerosa, mas ninguém a censurou. O filho foi mesmo recebido triunfalmente, e não lhe pareceu que o entusiasmo fosse apenas por ele poder servir de Menino Jesus. E se a criança chorasse muito por não ver a mãe ao pé de si?… Pois então faria ela mesma de Maria, se a Fátima, escolhida para o papel, e o padre João o permitissem. A Fátima seria mais fácil de convencer, com certeza…

Afinal, nem ela nem o padre resistiram à ideia. Porque “todos são filhos de Deus”, disse ele. Só faltavam a vaca e o burro, mas o padre João, velho, e cada vez mais surdo e teimoso, embora nunca teimasse com má intenção, não se deixara demover. Era preciso respeitar o papa, dizia, sem que ninguém tivesse podido ou sabido convencê-lo de que não havia mal nenhum em seguir a tradição, que o pontífice não negara sequer. E muitos tinham crescido ouvindo a história de que o burro que trouxera a Virgem estivera no presépio de Belém, e que um boi aquecera o Menino bafejando sobre o seu corpinho mal agasalhado.

O início da encenação era anunciado com o canto do “Adeste Fideles”. Então, atraídos por aqueles sons a que estavam habituados, o burro e o boi do Pedro “São Pedro” deixaram o estábulo, que o dono se esquecera de fechar, e foram calmamente cumprir o seu papel, pondo-se de um lado e outro da manjedoira.

Daniel de Sá

REDENÇÂO – Folhetim em Dez Episódios da autoria de Carlos Pessoa Rosa. – Segundo Episódio

Domingo de Páscoa. E a mulher na janela sonha. Seios pensos. Desobrigada. Há muito não comunga, nem na Páscoa nem em qualquer outro dia. Antes, tudo cheirava à fartura. O corpo cobiçado. A jovem da cidade-luz. Assim a chamavam os aventureiros. Pagavam com jóias em ouro e prata. Adorava as pérolas barrocas. Irregulares como seu jeito despojado de levar a vida. Apreendeu o gosto dos homens. Apurada e discreta no modo de se vestir, ela adorava as cores mornas. Bem diferente das outras moças que escolhiam as cores quentes e abusavam no decote. As pérolas barrocas acomodavam-se em seu pescoço longo e surreal acrescentando uma sombra sacra no que de profano em sua figura. E os homens gostavam de vê-la um pouco santa e outro tanto puta. Sempre foi a mais cobiçada. Escolhia os clientes a dedo. Sempre perfumados com essências estrangeiras, ternos e gravatas importados. Alguns traziam na boca o reluzir do ouro nos dentes.   (continua)…

O homem do garrafão

Cruzámo-nos na Rua de Cedofeita, fim de tarde de domingo, Junho passado. Eu distraído, de repente entrevejo, debaixo do braço, passando, um garrafão. Dentro, um carro de bois. Logo filei o passante. Que estava com pressa; se quisesse entrevista, o procurasse no dia seguinte, em casa. Anotada a morada, foi-se. Apressado. 

Dei por mim pasmado no passeio, tal qual o meu amigo Ivo Ferreira, homem do cinema, que na ilha do Príncipe decidiu permanecer um ano para tentar perceber “isso de um gajo ir ao fim da tarde para a rua arrastar o chinelo, com o seu chapéu, passear uma carcaça, uma carcaça cortada ao meio, sem nada lá dentro”. 

E, no Porto, o que fará um homem ir para a rua passear um garrafão?

(Continua)

Augusto Baptista

Honra Nacional por John Wolf

A análise de uma sociedade constitui uma tarefa obrigatória e condição necessária para a procura de um sentido de progresso. Poderá significar a imposição, sobre a proclamada inteligência ou círculos iluminados, de um sentido autocrítico severo e não necessariamente desejado. Contudo será preferível tentar lidar com o âmago da questão de forma frontal e directa. Qualquer tentativa para mitigar ou alterar o quadro de percepções da realidade não representa um contributo para o progresso e avanço colectivo. As sociedades crescem com o pêndulo que oscila entre o idealismo e o realismo, o possível e o efectivo. Os comportamentos que se possam analisar integram a realidade de forma premente e resultam de vectores que se enraízam numa profunda matriz de princípios. A construção nacional ou individual será, neste sentido, também um desafio moral.

Poderemos concordar que a honra e a hipocrisia representam na sociedade energias que integram quadros mentais opostos ou contraditórios, e que determinam as atitudes tomadas pelo homem no seio de uma sociedade. A honra será sempre um conceito difícil de definir e paradoxalmente indefensável, mas intensamente condicionante do ambiente social. A hipocrisia, encontramo-la no campo oposto da honra, pelo seu efeito degenerativo. Ambos os atributos integram a matéria definidora da personalidade do indivíduo, e manifestam-se através da interacção social, através de princípios e comportamentos que afectam em última instância o equilíbrio e o progresso de uma sociedade. A honra corresponderá a um critério exclusivo e privado, na medida em que cada indivíduo estabelece os limites morais ou éticos para o seu comportamento, além do comportamento colectivo, da lei, religião ou qualquer outro quadro de valores. A honra encontra-se sempre para lá da lei, pela acção auto-coerciva que se estabelece na alma humana imposta pela consciência de cada indivíduo. No entanto, e talvez contraditoriamente, a própria consciência poderá ser anti-ética, negativa ou amoral. A honra reúne assim elementos de autonomia, auto-estima e juízo independente. Relacionar-se-á com um sentido de auto-estima, através do qual o indivíduo configura o seu próprio sistema de realização e recompensa.

A honra poderá também ser entendida enquanto um regime solitário, porque cada indivíduo reclama para si a sua própria definição. Representará a condição híbrida que combina elementos racionais e emocionais, e que desperta no indivíduo a tomada de consciência do modo como poderá ser percepcionado pelos outros.

A condição extrema da ‘defesa da honra’ revela-se no contexto colectivo ou na matriz social, porque implica sempre a relação do indivíduo com outros membros da sociedade. Numa acepção ‘social’, a honra poderá representar o critério-chave para determinar a qualidade de membro (de pleno direito) de uma sociedade. A honra representará também o último reduto intocável da personalidade e individualidade, que não poderá ser posta em causa pela acção dos outros. Poderemos também entender a honra enquanto uma linguagem simbólica que estabelece limites comportamentais no quadro da interacção social. A importância do seu sentido na sociedade relaciona-se com a forma como cada indivíduo se presta à preservação dos princípios que a sustentam. Os princípios a que nos referimos encerram em si o seu propósito, a sua própria razão existencial, procurando garantir a continuidade da coesão social.

A edificação de uma sociedade justa e equitativa, uma das missões propostas pela democracia, reconduz-nos à ideia de honra e dignidade humana. Se uma sociedade inverte a hierarquia de valores e coloca ao serviço de interesses específicos ou parciais os princípios que sustentam a honra, estará a desvirtuar o ideal de crescimento colectivo, colocando em cena a hipocrisia. A honra remete também para a ideia de aceitação e cumprimento das regras estabelecidas pelas instituições e processos democráticos, que elege as prioridades do desígnio nacional e que se pode fazer equivaler às aspirações individuais. A sua importância transcende a figura poética ou romântica, para oferecer valor no plano colectivo. A honra a que nos referimos corresponde à integração no espírito humano de um profundo sentido de responsabilidade, respeito e até mesmo de amor-próprio. Por outras palavras, traduzir-se-á numa sociedade que congrega indivíduos com capacidade para auto-regular os princípios que são comuns à dignidade humana. Esse acto de auto-regulação configura uma atitude de generosidade, uma vez que por vezes ‘o justo paga pelos pecadores’.

Por mais que queiramos negar tal facto, a dimensão moralista tem lugar cativo na história da sociedade humana. A obrigação moral de cada um tem-se revelado ao longo da história da humanidade no cumprimento dos direitos e deveres colectivamente determinados. Fingir o cumprimento dos deveres serve para promover a desagregação da coesão social, tendo um efeito corrosivo no desenvolvimento dos indivíduos, da sociedade e, em última instância, do próprio país. Os comportamentos não pautados pela honra ou dignidade humanas, acaba por minar a forma como a sociedade é percepcionada pelos seus próprios membros e por outras sociedades no seu todo. As péssimas e negativas excepções comportamentais, devido à sua intensidade e visibilidade mediática afectam a reputação daqueles que se têm mantido fiéis a princípios edificantes. Os ‘guardiães da honra’, ou seja, os que não manifestam um comportamento desviante, são obrigados a intensificar a defesa de princípios e valores para compensar a generalizada aceitação passiva de comportamentos marginais. Se imaginarmos um rácio entre os que observam os princípios positivos e os que desenvolvem práticas marginais, poderemos medir quantitativa e qualitativamente o grau de compensação necessário para repor um estado de equilíbrio numa dada sociedade. As práticas ou comportamentos desviantes observados minam o grau de confiança que se tem em relação a determinada sociedade, pelo que os elementos de coesão das comunidades começam a demonstrar vestígios de desafectação face ao mau comportamento dos ‘poderes instalados’.

A lista incompleta de comportamentos que desonram uma sociedade, inclui o incumprimento das obrigações fiscais, o desrespeito pelo código de estrada, a apropriação de espaços públicos para benefício próprio, a associação a teias de favores e interesses, a não integração de minorias (nacionais, estrangeiras, sociais ou étnicas) no núcleo das comunidades, a exclusão de indivíduos em função da filiação política ou partidária; o estacionamento em segunda fila a bloquear quem está legalmente estacionado, assim como a ocupação de lugares de estacionamento para deficientes; a atribuição de dinheiros públicos a amigos sem que haja observação dos preceitos legais (concursos públicos); o desvirtuar dos ecopontos; o não cumprimento de prazos e horários; a procura de ‘jeitinhos’ nas repartições públicas; a concessão de ‘atenções’; a procura de ‘cunhas’ no mercado de trabalho (em vez de prosseguir a escalada profissional baseada no mérito); o plágio intelectual, que não se limita à obra criada, mas que se manifesta na apropriação de ideias ou soluções apresentadas por colegas em empresas ou estruturas profissionais. 

Provavelmente esta lista pecará pela omissão de um sem número de situações representativas da devastação de valores nas nossas sociedades. Caberá a cada indivíduo proceder à observação atenta do fenómeno social e analisar o seu próprio comportamento de forma a construir a sua lista de eventos que considera atentarem contra o colectivo ou a sua própria integridade. A democracia nunca pretendeu significar a expressão de liberdade à custa de outrem. A atitude consubstanciada na expressão ‘salve-se quem puder’ não pode fazer parte de um país que assumiu historicamente a responsabilidade por um colectivo humano (ultramarino), transcendendo para tal os seus próprios limites geográficos e nacionais. Os comportamentos desviantes e generalizados, que se assumem como tal porque são aceites enquanto prática comum do colectivo, não podem merecer aprovação se representam distorções e violações dos princípios basilares de uma sociedade. A expressão anónima de uma sociedade não pode servir para dissimular ou camuflar as prevaricações individuais. A forma como um país é percepcionado resulta da agregação de comportamentos individuais, sendo que o ‘homem honrado’ poderá ser reduzido a um estereótipo injusto por força da maioria mal comportada. Será por esta e outras razões que o não acatar de responsabilidades e comportamentos correctos representa a traição do conceito de honra individual.

O tráfico de influências nunca representará o grande contributo positivo que um país pode merecer. Esta forma de indisciplina colectiva reflecte-se nas oportunidades que não serão concedidas internamente mas também externamente, condicionando a dádiva de elementos de desenvolvimento em função da objectividade negativa que retrata um país. Esta condição relaciona-se com o conceito de investimento directo estrangeiro, e revela-se no ranking que estabelece destinos de investimento mais ou menos desejados. Se um país revela a sua fragilidade através de práticas marginais e pela atitude individual de cada cidadão, os potenciais investidores afastar-se-ão e procurarão ambientes sócio-económicos mais favoráveis. As pequenas transgressões perpetradas pelo número não-clausus de uma sociedade, representa perdas não mitigadas pelo passar do tempo. Readmitimos aqui a expressão já utilizada noutra secção da dissertação ‘pobre mas honrado’ para reconhecer a virtude que representa, por oposição ao pretensiosismo material que assola um país à beira da falência de virtudes. Caberá a cada um assumir a sua quota de responsabilidade na gestão da ‘honra nacional’, procurando contrabalançar os comportamentos marginais, através da assunção do contrato individual da própria consciência. Cada qual responde por si. É uma questão de honra. Nacional.

in Portugal Traduzido, Edições Cosmos, 2008

 

John Wolf

OS DENTES COMO MARFIM PEDIAM FOGO – Folhetim em Seis Episódios da autoria de Carlos Pessoa Rosa. – Quarto Episódio

Quanto mais idéias queimavam na boca do estranho, mais o calor das pernas da mulher que entrou apenas para pedir fogo ardia. Metia-se em encrenca e não queria. Derretia-se toda e sabia o preço do prazer. Mulher de rua não podia ter sentimentos, este era seu primeiro mandamento. Desrespeitou-o algumas vezes e pagou caro. Não se importava, a noite havia sido carregada de ódios. Arrependimento, nenhum. Não fossem as palavras, o homem ao seu lado não lhe causaria impressão tão boa. Ele tinha algo de madrugada no sangue, os hiatos entre as idéias semelhavam estranhezas que vinham do céu. O convite surgiu quando percebeu que o homem não tinha dinheiro para pagar a cerveja. Vestido em camisa de grife e calças largas de linho, com a cara limpa de crimes, não traria riscos imediatos, disso tinha certeza.

 

Três luminárias em linho cru, distribuídas de modo a desenhar um triângulo imaginário, desnudaram móveis antigos. Todo o ambiente projetado com equilíbrio e perfeição. O armário envidraçado trazia pratos, jogos de chá e café antigos com motivos rurais em azul. O sofá forrado em seda ocra trazia castelos e jardins medievais. No tapete, a figura de mulheres descansando à beira de um lago.

 

 

 

(continua)

X

Ao fitá-lo por dentro das minhas córneas reconheço que a velhice o tornou perdoável em diversos aspectos, o cigarro se exclui. Os fios grisalhos restauram a dignidade de um homem por pior que haja sido, e o Francisco não se julga como um ser humano dos mais maléficos.

Kátia Bandeira de Mello-Gerlach

Tomas Gösta Tranströmer por Mário Rufino

Tomas Gösta Tranströmer, nascido em Estocolmo em 1931, é poeta e tradutor. A sua poesia está traduzida em mais de 60 línguas. É um dos mais importantes escritores escandinavos e europeus desde a 2ª Guerra Mundial. Ganhou o Prémio Nobel da Literatura em 2011

Tomas Tranströmer é, sobretudo, um homem formado pelas suas lembranças.

“As minhas lembranças observam-me” é um exercício de memória de um homem que viria a ser o escritor que é hoje.

O autor conta neste livro a importância de pequenos acontecimentos na construção da sua personalidade. Os caminhos que não foram percorridos são a sombra das suas escolhas.

As histórias que compõem esta obra estão divididas por consideráveis elipses. Apesar da linearidade cronológica, Tomas Tranströmer aplicou mais atenção à importância dos acontecimentos do que a preencher e a ordenar a cronologia com diversos factos com pouco efeito na sua formação como indivíduo. É a importância dos acontecimentos que marca o tempo da narrativa. Mas a relação do autor com as suas lembranças não é de todo pacífica. Ele desconfia e avisa que o próprio tempo conseguiu alterar as suas memórias.

“As primeiras vivências são, na sua maior parte, inacessíveis. Histórias recontadas, recordações de recordações, reconstituições que assentam na erupção súbita de um estado de espírito.” Pág. 11

Ele tenta, tanto quanto possível, limitar-se às lembranças de que não duvida da autenticidade.

Os rostos das pessoas que não vê há muitos anos mantêm-se inalteráveis apesar do tempo passado. Os factos alteram-se, de forma radical ou não, mas as pessoas, tal qual ele as recorda, mantêm-se sempre iguais apesar do inevitável envelhecimento.

“Já os meus professores, «os velhos», como nós lhes chamávamos, mantêm-se velhos na minha memória, embora os mais velhos tivessem então a mesma idade que eu tenho agora, no momento em que escrevo estas memórias. Sentimo-nos sempre mais novos do que somos. Trago em mim os meus rostos anteriores, como a árvore tem os anéis da sua idade. O que eu sou é a soma de todos esses rostos. O espelho só vê o meu rosto mais recente, mas eu conheço todos os anteriores” Pág. 55

O autor destaca momentos marcantes que vão desde o divórcio dos pais, numa época em que era raro acontecer um divórcio, passando pela sua colecção de insectos (é o mais famoso coleccionador sueco de insectos. Tem uma exposição no “Swedish Museum of Natural History”) até a um erro ortográfico. Há, contudo, um momento ainda mais importante na sua vida: o aparecimento da angústia que o irá acompanhar ao longo da vida.

“Talvez a minha experiência mais importante. Contudo, um dia chegou ao fim. Pensei que se tratava do Inferno, mas era o Purgatório” Pág.69

As memórias presentes em “As minhas lembranças observam-me” terminam logo após a adolescência. A redacção do texto acaba quando Tranströmer, já com cerca de sessenta anos, sofre um AVC.

“As minhas lembranças observam-me” são complementadas por os primeiros poemas de Tranströmer e por um posfácio de Pedro Mexia.

Uma análise mais aprofundada sobre o livro depende muito do ângulo de observação. Pode-se considerar que este livro explica, de alguma forma, características inerentes à poesia de Tranströmer (postura típica do “New Historicism”), ou pode ser visto pelo que é isoladamente e sem ligações à obra global do Prémio Nobel (posição típica do New Criticism). A partir do momento em que o leitor deixa para plano secundário a relevância deste livro na obra de Tranströmer, consegue usufruir, sem obstáculos, das características específicas da edição, pela Porto Editora, de “As minhas lembranças observam-me”: O texto, as ilustrações e a própria encadernação.

Tomas Tranströmer é reconhecido pela Academia Sueca devido, essencialmente, à sua poesia, mas fica a ideia de que o autor conseguiria, também, o nível de excelência na prosa.

Mário Rufino

Tomas Gösta Tranströmer por Mário Rufino

Tomas Gösta Tranströmer, nascido em Estocolmo em 1931, é poeta e tradutor. A sua poesia está traduzida em mais de 60 línguas. É um dos mais importantes escritores escandinavos e europeus desde a 2ª Guerra Mundial. Ganhou o Prémio Nobel da Literatura em 2011

Tomas Tranströmer é, sobretudo, um homem formado pelas suas lembranças.

“As minhas lembranças observam-me” é um exercício de memória de um homem que viria a ser o escritor que é hoje.

O autor conta neste livro a importância de pequenos acontecimentos na construção da sua personalidade. Os caminhos que não foram percorridos são a sombra das suas escolhas.

As histórias que compõem esta obra estão divididas por consideráveis elipses. Apesar da linearidade cronológica, Tomas Tranströmer aplicou mais atenção à importância dos acontecimentos do que a preencher e a ordenar a cronologia com diversos factos com pouco efeito na sua formação como indivíduo. É a importância dos acontecimentos que marca o tempo da narrativa. Mas a relação do autor com as suas lembranças não é de todo pacífica. Ele desconfia e avisa que o próprio tempo conseguiu alterar as suas memórias.

“As primeiras vivências são, na sua maior parte, inacessíveis. Histórias recontadas, recordações de recordações, reconstituições que assentam na erupção súbita de um estado de espírito.” Pág. 11

Ele tenta, tanto quanto possível, limitar-se às lembranças de que não duvida da autenticidade.

Os rostos das pessoas que não vê há muitos anos mantêm-se inalteráveis apesar do tempo passado. Os factos alteram-se, de forma radical ou não, mas as pessoas, tal qual ele as recorda, mantêm-se sempre iguais apesar do inevitável envelhecimento.

“Já os meus professores, «os velhos», como nós lhes chamávamos, mantêm-se velhos na minha memória, embora os mais velhos tivessem então a mesma idade que eu tenho agora, no momento em que escrevo estas memórias. Sentimo-nos sempre mais novos do que somos. Trago em mim os meus rostos anteriores, como a árvore tem os anéis da sua idade. O que eu sou é a soma de todos esses rostos. O espelho só vê o meu rosto mais recente, mas eu conheço todos os anteriores” Pág. 55

O autor destaca momentos marcantes que vão desde o divórcio dos pais, numa época em que era raro acontecer um divórcio, passando pela sua colecção de insectos (é o mais famoso coleccionador sueco de insectos. Tem uma exposição no “Swedish Museum of Natural History”) até a um erro ortográfico. Há, contudo, um momento ainda mais importante na sua vida: o aparecimento da angústia que o irá acompanhar ao longo da vida.

“Talvez a minha experiência mais importante. Contudo, um dia chegou ao fim. Pensei que se tratava do Inferno, mas era o Purgatório” Pág.69

As memórias presentes em “As minhas lembranças observam-me” terminam logo após a adolescência. A redacção do texto acaba quando Tranströmer, já com cerca de sessenta anos, sofre um AVC.

“As minhas lembranças observam-me” são complementadas por os primeiros poemas de Tranströmer e por um posfácio de Pedro Mexia.

Uma análise mais aprofundada sobre o livro depende muito do ângulo de observação. Pode-se considerar que este livro explica, de alguma forma, características inerentes à poesia de Tranströmer (postura típica do “New Historicism”), ou pode ser visto pelo que é isoladamente e sem ligações à obra global do Prémio Nobel (posição típica do New Criticism). A partir do momento em que o leitor deixa para plano secundário a relevância deste livro na obra de Tranströmer, consegue usufruir, sem obstáculos, das características específicas da edição, pela Porto Editora, de “As minhas lembranças observam-me”: O texto, as ilustrações e a própria encadernação.

Tomas Tranströmer é reconhecido pela Academia Sueca devido, essencialmente, à sua poesia, mas fica a ideia de que o autor conseguiria, também, o nível de excelência na prosa.

Mário Rufino

SAUDADES | Cristina Carvalho

De ontem e de hoje e, principalmente, saudades de amanhã. De amanhã de manhã, de amanhã de tarde e da parte da noite, de quando a noite virá roçar o meu rosto como um véu antigo a desdobrar-se sem pregas, sem cheiro, sem mácula. Saudades de um não sei quê que não veio ontem e que nem veio hoje, mas sim num amanhã desprovido de verbos e substantivos, desprovido de qualquer gramática. Saudades de tudo quando tudo era gás e vapor e eu me disfarçava e era Lilith, eu fui Lilith e castiguei-te e tu, vendido, escorraçado, envelheceste. Que castigo maior? Que saudade pode ter o meu coração ao te relembrar novo, jovem, nu, o olhar líquido tal como a nuvem que não chega a esvoaçar? O olhar quente tal como um sol que não chega a despontar? E eu, que faço agora depois de tanto ter esperado por ti, aqui e ali, ontem, hoje e com saudades de amanhã?
Lembras-te, quando nos encontrámos no paraíso pela primeira vez? Eu deslizei na direção das tuas mãos os meus longos dedos ansiosos e tu, nessa altura de vigília e de atenção disseste-me tens dedos de apóstolo, podias ter dito tens dedos de pianista – que é o costume para os dedos longos – ou dedos de marinheiro, daqueles marinheiros que vão e não voltam. Mas não. Balbuciaste tens dedos de apóstolo. Eu engavinhei ainda mais os meus dedos de apóstolo nos teus dedos meio gastos, pesados, carnudos, calosos e achei-os únicos e doces. E tive desde logo saudades deles porque sabia, sempre soube, que as saudades haviam de roer-me, saudades desse amanhã que tardava em aparecer mas que surgiria. Amanhã, era um grito indispensável na sede e na fome da palavra saudade. Então, nesse jardim do paraíso onde eu, numa árvore qualquer me enrosquei e te procurei, sagazmente, muito definitivamente te procurei, tu, às tantas, com timidez vens ter comigo e estendes o braço direito que termina na mão direita cheia de dedos, com cinco dedos, não mais, cinco dedos massacrados pela vida, cinco dedos já fartos de explorar outros corpos muito mais sólidos que o meu corpo, muito mais corpos que o meu corpo, muito mais hábito, muito mais fica, muito mais vai, muito mais vem, muito mais nasce, muito mais morre.
Cansada de ter saudades da terra e da árvore mais imediatamente imediata que esta onde me encontro, cansada mas feliz da vitória de te ter, te grito, te olho, te aceno, te chamo, te sim, te não.
E tu, que me estendeste o teu braço, nem imaginas o que te espera se, realmente, aceitares o que te ofereço. Se aceitares o que te ofereço, serei expulsa da árvore e passarei a injuriar-te a ti que és o culpado das minhas saudades. Arredondarei o meu olhar só para ti, dirigirei o toque de um só dos meus dez dedos das mãos e penetrarei na tua carne sob a tua pele e tu chorarás e não mais me verás.
E assim aconteceu. Chamei-te, olhaste-me, toquei-te, avisaste-me, voltei a tocar-te e ouvi-te num clamor divinal, observei o teu triste desaparecer e o meu triste desaparecer e então a árvore caiu, a terra tremeu e a luz não voltou. As trevas conduziram-nos ao nosso deserto mesmo sem a luz da lua, mesmo sem a luz de todos os astros que palpitam e vibram no firmamento.
Fomos ambos expulsos e condenados: eu, substituí as saudades impróprias que sentia e me devastavam, essas saudades dum amanhã que nunca veio por um dia claro, num amanhecer líquido e fresco que me devolveu a esperança e tu, que acabaste por ceder ao meu desejo, saboreaste e saboreias um destino eterno: caminharás sempre sozinho sobre a terra, esta que já conheces e mais algum mundo novo.

CRISTINA CARVALHO

Fevereiro 2012

A CRIANÇA CAIU EM ALGUM RALO DA RAZÃO – Folhetim em Oito Episódios da autoria de Carlos Pessoa Rosa. – Oitavo Episódio

A mulher abriu a bolsa e retirou um lenço embebido em perfume. Pedaço de espelho expõe os lábios vermelhos. Trêmulas pela falta do pó branco, mãos limpam a navalha. Rosto do macho e da criança, como irmãos gêmeos. Puta não é mulher; puta é qualquer coisa, menos mulher; puta não pode parir filho de homem que ama. A velha de pescoço grosso e unhas impregnadas de nicotina só quis saber se tinha o dinheiro. Houve época que pontapés bastavam para expulsar embrião. A parteira enfiou qualquer coisa lá dentro. Escapou uma ponta de remorso que retornará nos momentos mais impróprios. Não seria a primeira cicatriz a carregar. Nem a última. Sangue escorreu junto com mais alguma coisa direto para a lixeira. Saiu com prescrição em papel higiênico e o rosto de longos cílios negros manchados de rímel.

 

Um carro parou ao ver a profissional de lábios suculentos e vermelhos acenar no meio-fio de alguma rua entre a avenida Paulista e Peixoto Gomide. Puta não se dá ao luxo de viver de tristezas. Subiu.

 

 

 

Fim

 

 

 

(a partir de 17/11, o novo folhetim de Carlos Pessoa Rosa, em Seis Episódios intitula-se –  Os Dentes Como Marfim Pediam Fogo)

 

 

 

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Ella & Franka

Um aeroporto: 

Ella, junto a uma multidão de gente exasperada, perante uma viagem que aparenta não querer ser boa ideia. Ansiedade alcatifada pelos corredores onde a sinalética para a casa de banho, Damen e Herren, é o único vestígio de uma humanidade que outrora tivemos antes de aprendermos a voar. Ella duvida, se calhar o melhor era deixar-se colada ao chão, segura:

»Cagar e mijar e nunca ambicionar ser mais que um animal rastejante«  

As paredes de vidro junto às quais aguarda contemplam a pista de aterragem donde avião nenhum descola há mais de três dias. Está sozinha e traz consigo apenas uma bagagem de mão. Não se permite ter medo, mas nota que o seu corpo não sossega dentro dos limites da sua pele. 

Uma voz mecânica e altifalada tenta sobrepor-se ao descontentamento das pessoas, visivelmente exaustas e indignadas. Anuncia mais dois voos que, todos pelo mesmo motivo, vêem-se forçados a ficar em terra. Muitas pessoas vão e voltam para suas casas, para casas de amigos, ou para hotéis, mas Ella deixa-se ficar no aeroporto. Há já quem monte tendas, estenda roupa, e se prepare para fazer do aeroporto morada. Há quem planeie um dia chegar ali a ser feliz. 

Não tarda alguém irá encontrar uma forma de cozinhar algo, vai cheirar a comida, os miúdos farão dos cinzeiros de pé balizas de futebol, e lentamente surgirá neste aeroporto uma pequena maqueta social. As pessoas começarão a distinguir-se pelo que nelas é diferente e não pelo que as une, e surgirá dentro de cada grupo o primeiro casal. O enamoramento deles terá um efeito contagiante, e por escassos momentos reinará a harmonia. As pessoas especularão, incrédulas:

– Como não nos lembrámos antes de vir viver para o aeroporto? 

Até alguém começar a cobiçar um terceiro: 

Alguém do grupo do átrio B do pavilhão das partidas cobiçará porventura alguém da zona de chegadas. Os diferentes grupos começarão também a cobiçar espaço, mais território, invejosos das espaçosas casas de banho a que têm acesso os da zona do pessoal de voo. Surgirão os primeiros conflitos. A guerra virá logo atrás da cobiça, mas por ora tudo isto se reduz ao barulho que faz um homem no arrastar de vários bancos, motivado que está em construir uma cama mais confortável para si e para a companheira. Alguém que por isso terá de ficar a dormir no chão – protesta. 

Resolve então vaguear por outros terminais. Dirige-se para o pavilhão das chegadas, onde ninguém chega há três dias, pelo mesmo motivo que ninguém parte. Imagina-o por esse motivo mais vazio, mas quando lá chega constata que não. Pelo contrário. Junto ao corrimão das chegadas depara-se com um grupo obstinado de pessoas que ali aguardam, ainda, ou já, segurando ao peito folhas com tipografias variadas, apelidos de distantes proveniências, e alguém até que insiste numa pequena bandeirola, escrito nela um hispânico e colorido:Bienvenida ! Duvidando de si mesma, procura um painel electrónico para confirmar aquilo que já sabe – não estão a chegar voos. Observa a resiliência destas pessoas e não percebe como podem conseguir enganar-se assim, e manter o desengano ao longo dos dias. 

Mobilizada por tudo aquilo, atravessa por uma porta sem fechadura e trancada apenas pela convenção social de um símbolo vermelho e as palavras: Kein Zutritt. Infiltra-se pelos corredores da recolha de bagagens, rasteja por passadeiras rolantes paradas, olha directamente para uma câmara de vigilância que deve estar neste momento a denunciar a sua entrada furtiva. Mas ninguém virá a tempo de a impedir de fazer nada arrojado, pois tudo o que ela quer fazer é atravessar as portas de abertura automática: 

Como alguém que chega. 

Ainda incorre é certo num furto ligeiro, ao agarrar de uma das passadeiras uma bagagem de porão esquecida, ou extraviada, uma mala que ali está e que ela sabe que ninguém virá tão cedo reclamar. Respira fundo e espera um sinal vindo do outro lado da porta de abertura automática que lhe sirva de deixa de entrada. Os focos todos virados a ela, um palco só seu. 

Abrem-se a par as portas automáticas. Uma dezena de rostos iluminam-se ao vê-la, mal ocultando o seu espanto. As pessoas reordenam-se e agitam mais alto as suas folhas contendo nomes tipografados à mão ou impressos a computador. Alguns logótipos. Certas folhas dentro de capas de plástico outras coladas a um suporte rígido. Todos querem ser o eleito. 

Ella desfruta da sensação de ser quem todos eles esperavam. Já tinha seleccionado de antemão, e por intuição, um senhor baixinho e careca na extrema ponta esquerda, com ar cabisbaixo e cansado, segurando desesperançado um papel nele escrito: MMELLE.  FRANKA ALLONTANT. Ella Bouheart dirige-se a ele em passo determinado, e sorri. 

O rosto do homenzinho descobre-se de esperança – percebe que é ele o escolhido. Fala-lhe em francês, ela não entende, mas ouve o seu nome, o seu novo nome, e sabe que tem de dizer: Oué Oué;  e por veracidade adiciona um: Bonjour; mas não se arrisca a mais. Sorri, cala-se, e segue-o. 

Ele já lhe tomou ambas as bagagens e já a conduz ao exterior do enorme edifício. Atravessam juntos o enorme parque de estacionamento, onde se podem contar o número de  viaturas pelos dedos, e o dedo mindinho é o dele, um carro à proporção do seu condutor. Ele coloca as malas na bagageira traseira, e Ella sorri, mas permanece calada. O homem transpira entusiasmo, fala por ele e por ela. Ella entretém-se todo o percurso com a sua chanson française, maravilhada pela cidade lá fora. A mesma onde vive faz mais de duas décadas. 

O homem coloca então uma pergunta que soa importante pelo tom e pela posição das pausas. Olha-a e espera resposta. Ella sorri-lhe, ele aguarda-a, e enche-se o carro de um silêncio incómodo. Por sorte, cruzam nesse preciso momento uma enorme rotunda, centreada por uma colunata com uma cúpula impressionante ao topo, decorada a filigrana dourada, e Ella encavalita-se para fora da janela, fascinada pelo monumento que na realidade já está cansada de ver. Mesmo assim, desta vez, olha-o como se nunca o tivesse visto antes. Sem fingimentos:

»Como é belo !…« 

Pensa. E quando recolhe de novo ao interior do carro a pergunta parece ter sido esquecida. O homem parece consolado pelo entusiasmo infantil dela perante os tesouros arquitectónicos da sua cidade natal. Sente-se orgulhoso de ter nascido e crescido ali, como se ela admirasse um membro do seu próprio corpo, é tanto o quanto ele se confunde com a sua cidade.


excerto de “O Lago Avesso” (romance) publicação prevista 2013, editorial Caminho 


Joana Bértholo