Diálogo da eternidade

O percorrido ao contrário é a Eternidade

Erimanto de Eléia.

Subi os gastos degraus de mármore da escadaria, passei pelas colunas dóricas que suportavam o frontão triangular, onde, em alto relevo, ninfas coroavam poetas e guerreiros, pelas grandes portas de madeira maciça, entalhada com motivos florais, e entrei no edifício. De imediato, o silêncio quase que absoluto envolveu-me como um manto. Segui por um corredor, cuja passadeira vermelha, já puída, amorteceu meus passos e cheguei numa sala, iluminada apenas por um abajur de mesa, que tinha como base a estátua de bronze de uma mulher nua. Dentro dela, dois homens conversavam: o que parecia mais velho, sentado a uma escrivaninha escura, levantou os olhos, fitou-me de modo indiferente, mas logo os baixou, continuando a conversa. Pude distinguir na penumbra estantes atulhadas de livros, cortinas de veludo, poltronas de couro e, nas paredes, quadros de assuntos mitológicos, em tons sombrios, com molduras trabalhadas em ouro.

Sentei-me num sofá, diante da porta da sala, e esperei pela minha entrevista. O tempo parecia estagnado – só a conversa ciciada é que me dava a impressão de que algo ali se escoava. Os dois homens continuavam a falar lentamente, escandindo as palavras e produzindo um zumbido quase inaudível. Quando se despediram, o visitante, um homem magro e lívido, passou por mim sem fazer qualquer ruído e desapareceu numa curva do corredor. Então, o velho senhor levantou-se como que fazendo um grande esforço e fez um sinal para que me aproximasse. Entrei na sala, ele deu-me a mão, ao mesmo tempo em que sussurrava “Doutor Archibaldo, um seu criado”. Ao contato com pele marcada de manchas e veias azuis, tive sensação de frio. O velho senhor voltou a seu lugar e, com um aceno, me convidou a sentar. Fitou-me demoradamente sem dizer nada. A luz diáfana do abajur recortava-lhe as feições, de maneira que ele parecia um fantasma. Um relógio carrilhão, que me passara despercebido, deu as horas – e o som enferrujado provocou-me arrepios. Depois de me observar por algum tempo, disse-me numa voz cheia de catarro:

– Qual a sua graça?

– Zenir Matos Reis – disse, adiantando o corpo.

Escreveu bem devagar, esculpindo cada letra numa ficha. Em seguida, pediu-me outras informações: endereço, idade, grau de instrução, fontes de referência. Recostando-se na poltrona de alto espaldar, cruzando as mãos, perguntou-me afinal o motivo de meu interesse pela Sociedade Amigos dos Clássicos.

Disse-lhe que soubera da existência da sociedade por meio de um periódico, na Biblioteca Municipal. A leitura dos estatutos, explicando os fins da entidade, e a fotografia do prédio neoclássico, entalado entre edifícios de concreto, haviam me acendido a imaginação. Disse-lhe também da minha paixão pelos clássicos e, entusiasmado, enumerei-lhe as leituras: Anacreonte, Horácio, Pompilius, Camões… Ele interrompeu-me:

– Camões, ahn?

O doutor Archibaldo tamborilou os dedos sobre a mesa, como se escandisse versos, limpou a garganta e perguntou:

– …o senhor dizia… ahn… Camões. Pois o bardo luso não lhe parece um tanto inovador?

– Inovador? – perguntei, espantado. – Mas não seguiu ele os preceitos de Virgílio, de Petrarca?

– Um tanto sedicioso… – como se eu não estivesse ali diante dele, o doutor Archibaldo completou com uma voz soturna: – moderno demais… Ao contrário de Pompilius em que a clareza dos epítetos, o rigor, a pertinência das metáforas, o amor à ordem, à harmonia indicam estrita obediência às convenções. Não há por que ler os sediciosos, os que aviltaram a Língua-Mãe em busca de novidades!

E eu que andara lendo os modernos! Como que me adivinhando o pensamento, o doutor Archibaldo perguntou de chofre:

– E os modernos, ahn?

– Os modernos… – hesitei antes de continuar – …a falar a verdade, os modernos não me agradam. Apenas um que outro verso que leio sem enfado.

O relógio deu as nove badaladas. O doutor Archibaldo parecia refletir, as pálpebras piscando sem parar. Afinal, disse:

– Os modernos, salvam-se deles um que outro verso. O senhor está com a razão. No mais, são uns bárbaros! Os parnasianos ainda tentaram resgatar a poesia do vulgo. Mas foram incompreendidos, vilipendiados!

O velho exaltava-se. Desviei minha atenção para um conjunto de retratos sobre a mesa. Reconheci sem esforço alguns poetas parnasianos: Olavo Bilac, Alberto de Oliveira, Raul de Leôni. Mas havia figuras que eu não podia saber quem fossem, entre elas, a de um homem de bigodes caídos ao longo da boca. Mais à direita, havia um retrato do próprio doutor Archibaldo. Fiquei intrigado com o tom envelhecido da fotografia, que parecia da mesma época das demais.

– Vilipendiados! – tornou a dizer o doutor Archibaldo. – Mas os grandes gênios – não falo desses rebotalhos que impingem lixo como poesia – os grandes gênios, os Bilac, os Raimundo Correia, os Lecomte de L’Isle viviam numa época de decadência de valores morais. Um que outro verso… Mas mesmo eles eram igualmente modernos… Louve-se-lhes, contudo, a pertinácia.

Estaria o doutor Archibaldo ainda se referindo aos parnasianos? O que entendia então por moderno?

– Mas isso tudo não tem importância. Quem vilipendiou o vernáculo cavou a própria sepultura. A Eternidade ama os que se repetem!

Embora o doutor Archibaldo falasse pausada e claramente, não pude compreender tudo o que me dizia. Só mais tarde é que vim a descobrir o sentido pleno de nossa conversa. Mas então era tarde, e eu já havia cometido meu erro fatal. Mas naquela noite ainda falamos de Pompilius. O velho exaltou-se, recitando em latim as estâncias do poeta. Fiz coro com ele. Terminou por me dizer com entusiasmo:

– Ah, como a eterna Beleza remoça!

Seus olhos incendiaram-se, e eu seria capaz de jurar que um leve rubor cobrira-lhe a face. Vendo-o tão contente, pus-lhe minhas dúvidas acerca de Pompilius, sobretudo aquelas a respeito de suas “Máximas e Aforismos”. Escutou-me com grande paciência e teceu comentários sobre a métrica, a rima e o rigor das figuras:

– Mas vamos ao fundo da questão, meu jovem… – voltou os olhos para o forro e disse, saboreando cada palavra: – Apollo et Stygius Pluton unum et idem sunt.

Ruminei o enigma: como Apolo podia ser Plutão? E veio a ciciada voz junto à badalada das dez horas:

– “É morte para as almas, que são fogo, transformarem-se em água”, já dissera o divino Heráclito.

Esperei em vão que explicasse o enigma. Não o fez, entanto. Continuamos em silêncio por algum tempo, até que ele se mexeu na cadeira.

– Deu-nos muito prazer esta visita. É raro encontrarmos jovens interessados na cultura clássica hoje em dia. Embora sua idade não o recomende, vejo em si apreciáveis qualidades. Talvez o Conselho leve isto em consideração. Quarta-feira, o mais tardar, terá uma resposta. Passe bem.

Levantei-me, despedi-me e segui pelo corredor até a saída. Bastou chegar entre as colunas dóricas, para que os ruídos do trânsito me apanhassem em cheio. O vaivém daquela gente atropelando-se, empurrando-se nas calçadas causou-me náuseas. Então, senti falta da sala do doutor Archibaldo, de sua voz ciciada, de nossa palestra tão cheia de subentendidos.

A carta de admissão da Sociedade Amigos dos Clássicos apanhou-me em meio ao desalento, que era a minha vida, a cada dia mais vulgar. De maneira que, ao contemplar o envelope, onde, no alto, à esquerda, havia o rosto de Minerva e o dístico de Erimanto de Eléia, “O percorrido ao contrário é a Eternidade”, fui tomado por grande euforia. A missiva rezava que eu fora aceito pelo Conselho e, ao mesmo tempo, convidava-me para a cerimônia de posse da minha cadeira de sócio.

O doutor Archibaldo introduziu-me no salão oval, circundado por colunas, onde as cadeiras dos frequentadores estavam dispostas, como num anfiteatro, frente à mesa de conferências localizada sobre um pequeno púlpito. Do centro do teto apainelado, cheio de afrescos, pendia um lustre de cristal. Atrás da tribuna, no alto da parede, vinha inscrito o dístico de Erimanto de Eléia, em letras douradas, encimado por um alto-relevo com a figura de Minerva.

– Eis nosso novel agremiado – disse o doutor Archibaldo, apresentando-me.

Cumprimentei o doutor Severiano Alves Sequeira, “eminente filólogo”, o doutor Erimanteu Bustamante, “jurista ilustre”, o doutor Alexandre Gouveia Azevedo, “latinista emérito”, o doutor Heráclito Ponciano Rezende, “insigne helenista”, o doutor Euclides Fogaça, “preclaro humanista”, além de outras sócios de que não mais lembro o nome. Quando soou a sineta, sentamo-nos, e o doutor Archibaldo dirigiu-se à tribuna para dar-me as boas vindas. Disse que eu estava ali para ajudar a manter acesa a chama da cultura, do saber e para dar continuidade às tradições. Bastante aplaudido, foi substituído por outro sócio que discorreu sobre o valor da tradição e sobre o dever da casa em preservá-la. Ao término dos discursos, houve brindes com champanhe.

Muito requisitado, entabulei conversação com os sócios. Entrei numa roda que discutia a influência de Horácio sobre os árcades portugueses, entre eles, José Anastácio da Cunha e Paulino Antônio Cabral. Perguntaram minha opinião. Não me fiz de rogado:

– A meu ver, ambos foram lidos do bardo latino. Tal se faz notar no rigor da métrica e dos epítetos.

Os velhos balançaram a cabeça aprovando. Um deles, já corcunda, apoiado numa bengala de castão dourado, deu um estalo com a língua e exclamou:

– O jovem tem talento!

A reunião terminou com a leitura de Cartas de Eco a Narciso, de Castilho. Os velhos ouviam extasiados, bebendo as palavras. Não sei se era o efeito da taça de champanha, mas o caso é que eles, para minha surpresa, pareceram-me muito animados, como se naquele instante vendessem saúde. Tanto era assim que, ao término da reunião, saíram em grupo, falantes, rindo-se e dando-se tapas nas costas.

A partir daí, não perdi uma só reunião, cujo estilo era sempre o mesmo. Alguém proferia uma palestra, a que se seguiam apartes e discussões, algumas bastante acaloradas. Embora os sócios mantivessem um ar de afetada cordialidade, percebia-se que qualquer tópico era motivo para contendas que tomavam grande parte da noite. Eu costumava seguir as palestra com muita atenção, e meu maior sonho era ser aceito definitivamente como sócio. Mas, para isso, era preciso, como me aconselhara o doutor Archibaldo, ter paciência e, sobretudo, prudência. Fora numa conversa, logo após minha admissão, no escritório de cortinas de veludo. Lá, reconheci, afinal, entre os retratos, a figura do doutor Heráclito Ponciano Rezende, com os bigodes caídos ao longo da boca. Senti vontade de perguntar ao doutor Archibaldo se era ele mesmo (embora quase tivesse a certeza de que só poderia ser um seu antepassado, porque a fotografia tinha um tom bastante esmaecido). Mas, achando que não convinha ser indiscreto, sofreei a curiosidade. E deixei o doutor Archibaldo falar, em sua voz ciciada, que parecia vir de outra era:

– …o Conselho, na verdade, queria alguém de mais idade, mais maduro. Seu nome foi aceito com reservas, devo confessar. Mas achamos que já era tempo de difundir nossa filosofia junto às gerações mais novas. Sua afeição pelo imutável foi o que mereceu o voto de Minerva.

Em seguida, disse-me que eu vinha preencher a vaga deixada por um sócio, que cometera insuportável heresia para as normas da casa e fora expulso da Sociedade. Que eu tivesse humildade e bom senso e, dentro de algum tempo, seria premiado em definitivo com o título de sócio.

Segui com bastante escrúpulo os conselhos do doutor Archibaldo e, em breve, conquistei a confiança e o apreço dos sócios. Mas não demorou muito, levado pela vaidade e pelo ímpeto da juventude, com meus apartes inoportunos, acabei não só ganhando inimigos, como também criando situações embaraçosas. E os pequenos incidentes evoluíram assim para os incidentes mais graves, como o da malfadada palestra sobre Filinto Elísio.

Os velhos bebiam as palavras do doutor Cordeiro, cuja palestra tinha por assunto: “Apontamentos à margem de uma epístola de Filinto Elísio – Preceitos aos poetas – Estilo. – Pintura de Idéias. Variedade e Propriedade.” A discussão acendera-se, a partir da leitura dos primeiros versos da composição:

Lede, que é tempo, os clássicos honrados;

Herdai seus bens, herdai suas conquistas,

Que em reinos dos romanos e dos gregos

Com indefeso estudo conseguiram.

O que provocara a discussão fora o seguinte tópico: a quem se dirigia Filinto? A que clássicos precisamente? E, à medida que recrudescia a polêmica, os velhos ganhavam força e cores: os olhos baços do doutor Heráclito pareciam brilhar com intensidade, a palidez do doutor Euclides dera lugar à vermelhidão das faces, e o doutor Sequeira deixara de lado a bengala e estufava o peito de tísico, fazendo intervenções a todo instante. Mesmo a voz do doutor Archibaldo, sempre ciciada, crescia, reboando no teto apainelado do salão.

Terminada a primeira parte da palestra, ainda se discutiam os quatro versos iniciais da epístolas de Filinto. Um ponche foi servido: os velhos bebiam as taças, rindo à vontade. E o estranho é que eu parecia ser o mais velho entre eles. De onde lhes vinha a força e a vitalidade? Não entrara o doutor Sequeira às sete e trinta arrastando-se, arrimado à bengala? Não tossira, ofegando, o doutor Euclides no salão? E as mãos do doutor Heráclito Rezende não tremiam sem parar até perto das oito? E não sei se era efeito do ponche, mas seria capaz de jurar que os cabelos deles estavam mais negros, os olhos mais vivos, e a pele da tez e das mãos mais elástica e corada.

A sineta encerrou o intervalo. Os velhos voltaram à discussão ainda mais animados. Já cansado da lengalenga que parecia não ter fim, esqueci-me do conselho do doutor Archibaldo e resolvi intervir:

– O ilustre conferencista não acha que tal controvérsia é inócua?

– Inócua?! – a voz do doutor Azevedo reboou indignada.

Ouviram-se murmúrios. Mesmo assim, continuei:

 – Penso que ter Horácio, Homero, Virgílio como referencial é secundário no texto. Filinto Elísio, a meu ver, dirige-se aos clássicos em geral.

Um oh de reprovação correu o plenário. O doutor Archibaldo começou a mexer-se desconfortavelmente na poltrona. O doutor Heráclito Rezende e o doutor Euclides Fogaça trocaram sorrisos irônicos. E o doutor Azevedo, adotando ar paternal, disse-me:

– O jovem está nos chamar de fúteis? O jovem então julga que o divino Filinto não sabia distinguir entre os clássicos?

Não se ouvia uma mosca no auditório. Sem me deixar intimidar, continuei:

– Pelo que saiba, não me utilizei do termo “fúteis”. Disse apenas que achava a discussão inócua, o que é bem diferente.

– O que vem a dar no mesmo – aparteou o doutor Euclides Fogaça.

Fingi não escutá-lo e argumentei:

– Longe de mim contestar a Filinto, mas que diferença faz ele dirigir-se a fulano ou a beltrano?

O doutor Fontoura deu uma risadinha de escárnio. Engasgado, pôs-se a tossir. Mas logo recuperou o fôlego e, como se fosse um mestre dirigindo-se a um discípulo ignorante, começou a discorrer:

– Em primeiro lugar, um imortal não pode e nem deve ser chamado de fulano ou beltrano. Devemos-lhe os cimos da Beleza! Em segundo lugar, há clássicos e clássicos. Alguns indignos de privar de nosso convívio. Quiçá, o poeta de Metamorfoses, que se insurgiu contra o soberano, quiçá, aquele nefando autor de tragédias inglesas. É mister distingui-los. Mesmo o épico imortal da Língua incorreu em deslizes. É, pois, mister distingui-los!

O conferencista foi delirantemente aplaudido. Envergonhado, recolhi-me, mas o doutor Fontoura não deixou por menos e voltou à carga:

– O jovem foi muito apressado em seu juízo. Lembre-se de que o falar é prata e o calar é ouro.

O doutor Sequeira, por sua vez, achou de encerrar a questão dizendo com autoridade:

Callido sanguine fervens, in levitate juventutis morbus.

Naquele dia, voltei arrasado para casa. Não bastasse a lição que o doutor Fontoura me dera, ainda por cima tivera de engolir a irônica intervenção do doutor Sequeira, que me achatara com a citação latina, referente à “moléstia dos jovens”. Passei a noite em claro, imaginando minha vingança.

Até que chegou a vez do doutor Sequeira falar. Sua palestra intitulava-se: “Salada de conjecturas: a originalidade da expressão ‘cozinhando o galo’, no romeno, sua permanência e divulgação entre os falares galaico-português, esloveno e provençal”. Os apartes não demoraram a acontecer, porque a matéria era polêmica. Alguém achou que a ave era desconhecida no norte da Rumânia. O doutor Erimanteu citou o romanista Constantin Eliaescu que, em Prolegômenos à filologia românica, desenvolvera a tese original da influência eslovena, e não o contrário, sobre o romeno. O doutor Heráclito Rezende e o doutor Euclides Fogaça tomaram o partido do aparteante, eles que não morriam de amores pelo doutor Sequeira. Até o doutor Archibaldo, sempre tão ponderado, achou de intervir:

– O preclaro colega, a quem prezo e admiro, há-de convir que a expressão na Rumânia devera ser alienígena.

O doutor Sequeira suava em bicas, agarrando-se à bengala, como se ela fosse uma tábua de salvação e olhava para todos os lados esperando socorro. Os velhos animavam-se, discutiam entre si, indiferentes à sorte do palestrante. Em vão, o doutor Archibaldo fazia soar a sineta, pedindo ordem. E quando maior era a confusão, resolvi atacar o conferencista no ponto que me parecera mais falho. Enquanto os aparteantes insistiam em derrubar a tese da origem da expressão, decidi enveredar pela da permanência, porque sabia que ali é que estava mesmo a questão mais controversa:

– Vossa Excelência, julgo eu, confundiu alhos com bugalhos – gritei em meio à balbúrdia. – Como pôde falar em permanência, se não considerou os aspectos diacrônicos da questão?

Fez-se um silêncio brutal no plenário. Triunfante, avancei:

– Vossa Excelência esqueceu-se de que, cronologicamente, o sentido denotativo adquiriu conotações: “cozinhando galo” passou também a ter o sentido de “demorar-se”, “atrasar-se”, como, aliás, vem explicitado em qualquer compêndio escolar.

O doutor Sequeira começou a tremer e cairia se não tivesse se apoiado firmemente na bengala. Sentei-me vitorioso. Mas um berro cortou o ar. Era do doutor Erimanteu, o jurista:

– Blasfêmia! Blasfêmia!

Outras vozes apoiaram-no:

– Blasfêmia! Fora com o heresiarca! Fora!

Um velho, dobrado em dois, engasgou em catarro, outro levou a mão ao coração. Mas qual não foi minha surpresa quando eles avançaram contra mim, o doutor Sequeira à frente, com a bengala erguida. Sem compreender por que meu aparte provocara tanta ira, vi-me de repente empurrado pelo doutor Heráclito e pelo doutor Euclides. Um sopapo atingiu-me a face. Alguém arriscou um pontapé contra minha perna. Então, a voz do doutor Archibaldo se fez ouvir acima do alarido:

– Tenham-se, senhores! Respeitem, ao menos, o nome e as tradições da Casa!

Os velhos soltaram-me acabrunhados. Pareciam frágeis, tossicando, arrastando-se, sem a jovialidade de antes. Mesmo o doutor Archibaldo permanecia de pé com dificuldade, apoiando-se ao espaldar da cadeira. Terminou sentando-se e, com a mão trêmula, apontou-me a saída:

– Quanto ao senhor, retire-se! Não é digno de privar de nosso convívio.

Corrido de vergonha, saí apressado. Quase à porta, ouvi o doutor Archibaldo levantar a débil voz:

– Voltemos à doce companhia de Horácio, Castilho, Bilac…

Ainda pude vê-lo, os olhos brilhantes, entoar os versos de “Profissão de Fé”:

Não quero o Zeus Capitolino

 Hercúleo e belo,

Talhar no mármore divino

 Com o camartelo.

Subiu um oh de contentamento. O doutor Sequeira, ao lado do doutor Archibaldo na tribuna, aprumara-se de novo, já livre da bengala. Ganhei, então a noite, muito pequeno entre as colunas dóricas da entrada.

Uma semana depois, recebi uma carta lacônica da Sociedade, pedindo que comparecesse à sede para acertar minha situação. Reli a carta. Depois, sem saber bem por quê, contemplei o dístico de Erimanto de Eléia, que encimava o papel: “O percorrido ao contrário é a Eternidade”. Deu-se um estalo dentro de mim e tudo me ficou claro como a água.

No dia combinado, lá estava eu às sete em ponto, à porta do escritório do doutor Archibaldo. Com um aceno, pediu-me que entrasse. Sentei-me na ponta da cadeira, e ele continuou a tratar da correspondência. Só o ruído da espátula abrindo os envelopes corria a sala junto ao deslizar enferrujado do pêndulo do relógio. E, de novo, entre as cortinas de veludo, tive a sensação de que o tempo ali não se escoava, parecendo estagnado. Um pigarro do doutor Archibaldo quebrou o silêncio. A voz veio ciciada, como que continuando antiga conversa:

– …de modo que o senhor não se portou – é meu dever infelizmente dizer-lhe – à altura das tradições da Casa…

O doutor Archibaldo abriu mais um envelope, leu com vagar a carta e a depôs ao lado das outras.

– Não lhe recrimino a atitude. São próprios da juventude tais descuidos… – e, contemplando-me por cima dos óculos, completou: – aliás, também erramos em nosso juízo, ao admiti-lo…

– O senhor creia, eu…

O doutor Archibaldo, como se não me ouvisse, continuou:

– Mas vamos ao que interessa. Sem mais delongas. Estamos a vinte, não? Como o senhor pagou escrupulosamente a mensalidade, somos-lhe devedores… Pois o senhor tem direito a mais uma sessão, desde que se comprometa a assistir a ela em absoluto silêncio.

O doutor Archibaldo estendeu-me o pedido de demissão. Antes de assiná-lo, porém, fiz-lhe um pedido:

– Sei que me portei de maneira indigna. Para reparar meu erro, ainda que já me saiba fora da Casa, queria proferir umas palavras de agradecimento aos membros da Sociedade e brindá-los com a leitura de alguns singelos versos.

Impaciente, o doutor Archibaldo resmungou:

– Mas o senhor conhece as regras da Casa: só podem subir à tribuna os sócios cabalmente aceitos pelo Conselho.

– Compreendo, doutor Archibaldo. Mas considere: se foi um desastre minha breve passagem pela Casa, apenas um ato de sua magnanimidade exemplar poderia apagar tal nódoa.

A adulação pareceu surtir efeito: um sorriso aflorou os lábios do doutor Archibaldo.

– E o que o senhor pretendia dizer ao plenário?

Entreguei-lhe um manuscrito.

– Perdoe-me o senhor a ousadia de trazer o discurso pronto. Mas tinha a certeza de que sua generosidade estaria à altura de sua sabedoria.

O doutor Archibaldo correu a vista pelas laudas.

– Este poeta de que fala – Tolentino Bracarense – devo confessar, não é de meu conhecimento.

– É João Tolentino de Almeida, obscuro, porém, talentoso árcade português – menti descaradamente.

Na verdade eram odes de Ricardo Reis, as menos sediciosas que havia encontrado. A conferência fazia parte de um plano que consumira minhas noites. Fiquei com o coração batendo, em pânico, receoso de que ele descobrisse meu ardil. Mas o doutor Archibaldo terminou de ler o manuscrito e disse:

– Está nos jovens descobrir os gênios olvidados.

Balançou a cabeça.

– …pena que não soubesse como sofrear o ímpeto…

O doutor Archibaldo levantou-se com dificuldade, como se as juntas lhe doessem. Pareceu-me alquebrado, apoiando-se à mesa. O estranho era que eu também me sentia cansado. Talvez fosse o efeito da noite passada em claro.

– Julgo que seja o tempo úmido…, a pressão arterial – queixou-se ele. – Quanto a seu discurso, tenho de consultar o Conselho. Mas não creio que haverá problemas.

Uma semana depois, recebi nova carta da Sociedade com o nihil obstat, marcando para uma sexta-feira a minha despedida.

Foi o doutor Archibaldo, como sempre, quem abriu a sessão. Em seguida, o doutor Erimanteu falou sobre “Marcelino de Albuquerque, acontecimentos pitorescos de sua vida e a gênese de Opalinas”. A mão no bolso do colete, as folhas de papel firmemente empunhadas, leu, numa voz gorda:

E quis o mortal imitar a Zeus;

Do mármor bruto extraiu Beleza,

Criou ua Deusa, como se fosse um Deus

D’ Olimpo descido na Natureza!

O doutor Sequeira ria-se deliciado, e as letras de ouro do dístico de Erimanto de Eléia brilhavam intensamente. E a voz continuava ressoando na abóbada, numa sonoridade mórbida, doentia, tomando meu corpo, me deixando enlanguescido. O doutor Archibaldo, com os olhos cerrados, gozava em êxtase, as cores do rosto revigoradas.

No intervalo, foi servido o champanhe. Os velhos, cheios de consideração para comigo, nem pareciam que há uma semana atrás haviam me agredido. Até o doutor Sequeira aproximou-se e deu-me tapinhas amistosos nas costas. Retribuí-lhe a gentileza com o melhor dos meus sorrisos. Pedi-lhe desculpas pelo estouvamento. Generoso, abriu os braços:

– Ora, vamos! Águas passadas não movem moinhos.

A sineta soou. O doutor Archibaldo tomou a palavra. Disse que eu, infelizmente, tinha de deixá-los, mas que soubesse que só deixava amigos na Casa. Em seguida, chamou-me à tribuna, apertou-me a mão e foi sentar-se.

Não fui menos retórico na introdução – os velhos, de desconfiados que estavam, pouco a pouco, foram-se deliciando com as frases de efeito, com os ornatos que, redundantemente, ajuntava, compondo o topos da falsa modéstia, para conquistar a benevolência, a docilidade dos meus ouvintes. Citando Cícero, Quintiliano e Leo, acentuei minhas deficiências – excusatio propter infirmitatem –, minha falta de preparo – si nos infirmos, imparatos… dixerimus, a pobreza de minha linguagem diante da grandiosidade do assunto – matéria vincor et quia lingua minor. Os lábios, rubros, as calvas, luzidias, deixavam escapar murmúrios de admiração. Por fim, fechando meu discurso, com a reafirmação de minha insignificância – mea exiguitas, pullitas, parvitas -, disse que, para poupá-los de continuar a ouvir meu medíocre discurso, ia dedicar-lhes momentos de sublime prazer com a leitura de algumas odes de Tolentino Bracarense.

Comecei pela de número 436: Sob a leve tutela/Dos deuses descuidosos… Em seguida, segui pela 414a adentro: Para ser grande, sê inteiro; nada/Teu exagera ou exclui. Enquanto lia, à margem, tecia comentários descompromissados, esperando o momento exato para atacar. Aqueles versos, ainda que aparentemente inofensivos, provocaram sonolência na platéia. Os velhos ficaram como que hipnotizados, à medida que as palavras saíam de minha boca, numa melopeia que os entorpecia. E continuei a ler, até que, num determinado instante, me saiu dos lábios a ode 376: O rastro breve que das ervas moles/Ergue o pé findo, o eco que oco coa… Mal disse o cacófato, um murmúrio fez-se ouvir. O doutor Archibaldo ameaçou levantar-se, mas não lhe dei tréguas e gritei um verso todo de Pessoa: O que em mim sente ‘stá pensando. O murmúrio cresceu, transformando-se em protesto. Até que no plenário irrompeu um grito:

– Blasfêmia!

O doutor Archibaldo, com muito esforço, levantou-se afinal, seguido pelo doutor Heráclito Rezende e pelo doutor Euclides Fogaça, e veio em minha direção, os dentes da dentadura cerrados de ódio. Mais que depressa, comecei a amontoar os versos que havia decorado: Passam de longe, bondes, ônibus, rio de aço de tráfego; então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax? na praça Antônio Prado são 10 horas azuis, e os lábios, branca, do carmim desflora; mulher ao vento, aqui, é nome de raiz e estame. Ouvi, então, um urro de fera ferida:

– Fora…, fora com o heresiarca!

Era o doutor Sequeira, que se apoiava todo trêmulo na bengala. Os demais tentaram acompanhá-lo, mas tropeçaram nas cadeiras e caíram embolados no chão. O doutor Heráclito e o doutor Euclides aproximaram-se da tribuna, as mãos feito garras. O doutor Archibaldo arquejava, gotas de suor banhando-lhe o rosto. Encarei-os e, com um sorriso de vitória, fui enunciando outros versos: Onde quer que certos homens se sentam, sentam bandos ferrenhos, de colégio; o Idiomaterno, o a duras penas, o em outros tempos, o ainda um dia; o que sou hoje é o terem vendido a casa, e a câmera muda, e a sala muda, muda…; suas puras unhas, no alto, desdenhando seu ônix, a brotar (esta manhã) a flor da ignorada alegria, ponte pênsil entre as polpas da memória, o dardo flutua pendurado ao cordão.

E minha voz cresceu, reboando no teto. A inscrição de ouro da parede começou a desbotar, enquanto o lustre tremia tilintando. A mão do doutor Euclides aproximou-se de meu pescoço, mas ficou a meio do caminho. O doutor Archibaldo caíra perto da tribuna, o corpo em transe, a boca escancarada, respirando num sibilo. O doutor Sequeira, a língua de fora, a cara roxa, arquejava, e flocos de espuma escapavam-lhe dos lábios. Os outros velhos tentavam fugir e atropelavam-se nos corredores entre as cadeiras, mas, gritando, eu os alcançava. Este permanecia duro, a face encostada no chão, aquele, ainda em convulsões, dava o último suspiro. Fatigado, diminuí o ritmo da recitação, a voz soando quase em surdina.

E foi que um fedor começou a crescer no ar. A mão do doutor Heráclito, pousada na tribuna, tomava uma coloração amarelo-esverdeada. Bolhas formavam-se sobre sua pele, pipocando, e um líquido cheio de vermes escorria. Asfixiado com o cheiro nauseabundo, levei o dedo ao nariz. Mas continuei a falar. Os corpos contorciam-se em estranha dança, putrefazendo-se. Quase às escuras, pois muitas lâmpadas haviam estourado, vi que o ouro da inscrição de Erimanto de Eléia escorria pela parede. O rosto de Minerva, sem o olho e o nariz, assemelhava-se a uma caveira.

O cheiro nauseabundo diminuiu de intensidade, pois os corpos, já quase sem forma, começavam a se desfazer numa poeira fina. Cansado, sentei-me, minha voz quase rouca. Caliça caía do teto, e janelas e portas despregavam-se dos batentes. Uma ventania entrou, levantando pó do chão, e levando de cambulhada papéis, peças de roupa, óculos, cintos e fivelas. O murmúrio de minha voz misturava-se ao sibilo do vento, que tentava me arrastar consigo. A fadiga crescia, as pálpebras teimando em fechar. Reparei, então, horrorizado, que havia rugas em minhas mãos e que um tremor tomara-me o corpo. Quis me calar, mas a língua continuou a mover-se como que independente de minha vontade. Em desespero, mordi-a, e a dor fez que aquele fluxo cessasse de vez junto com a ventania. Os olhos cheios de lágrimas, o corpo dolorido, vagarosamente desci da tribuna. Segui por entre as cadeiras desmanteladas. No meio do caminho, tropecei em algo: era a bengala do doutor Sequeira. Apanhei-a e apoiei-me nela. Embarafustei pelo corredor, passei pela porta e pelas colunas dóricas, que pareciam tremer frente à tempestade. Desci com dificuldade a escadaria e já ganhava a rua, quando, às minhas costas, tombou, em ruínas, o prédio da Sociedade Amigos dos Clássicos.

Álvaro Cardoso Gomes