A CRIANÇA CAIU EM ALGUM RALO DA RAZÃO – Folhetim em Oito Episódios da autoria de Carlos Pessoa Rosa. – Sétimo Episódio

Já disse — mas narrador não serve de testemunha — que o homem estava perdido em alguma praia, quando um lanho transformou o pescoço do gigolô em chafariz de sangue. A luz da lua, segundos antes, refletiu fios prateados na lâmina que descia do céu igual meteorito. Objeto cortante não encontrado nas redondezas do suspeito que morreu branco nácar. Não têm documentos, o dito criminoso e a vítima. Muitos sem identidade simplesmente adormecem. Camburão limpa o cruzamento. O jato de água transforma sangue em crepúsculo rosicler. Na distração, rato leva a língua para o bueiro. Agora, menos utilidade teria o órgão musculoso.

 

 

 

(continua)

poema de natal

olha o menino jesus!… 

que branco    que rosado 

que homem    santo deus! 

o menino jesus!

 

olha    olha como ele é 

menino    menino e já de pé 

e que branco    que rosado 

que coisa esta bola de natal 

numa árvore e o fio 

– santo deus! – o menino jesus. 

que homem    que menino 

que espantoso comprimido 

rosado    branco  que morfina 

– santo deus! – o menino jesus 

no brinquedo a pilhas 

no licor    no mijinho 

nas palhinhas d’oiro!

 

olha    olha o menino jesus! 

que sorte!    que sapato!    que jantar!

ter nascido assim com presentes 

visitinhas e beijinhos de chocolate 

que menino – santo deus! – o menino jesus!

 

e depois que branco    que rosado 

o ódio que mantemos   o evangelho todo 

em chamas por aí ateado 

sem morfina    chocolate    mas a pilhas 

– santo deus! – o menino jesus!

 

olha o menino jesus! 

nasceu    morreu    santo deus…

que menino jesus?

 

álamo oliveira

 

A CRIANÇA CAIU EM ALGUM RALO DA RAZÃO – Folhetim em Oito Episódios da autoria de Carlos Pessoa Rosa. – Quinto Episódio

O pontapé na barriga acorda o miserável adormecido no vão do MASP. Não gostou de ser arrancado de sua ilha com único tranco. Homens fardados calaram o ódio. Não vi nada, não sei de nada; costume das madrugadas. Apanhou sem saber motivo. Enquanto se contorcia de dor, os policiais conversavam com a central. O perfume agradável levou seus olhos até o cadáver na calçada. Conhecia o morto, cuidava das mulheres da vida e sempre lhe dava um trocado. Costumava chegar alta madrugada para conferir os negócios. Deixava carro importado na calçada, ao som de Bidonville ou Oblivion. Enquanto meninas aliciavam fregueses, queimava um charuto cubano. Mantinha cabelos escorridos em gel e vestia ternos discretamente listrados. O lenço de seda era acessório inseparável. Cuidava bem das meninas, seria capaz de morrer por elas, mas também tinha seus momentos de histeria que marcavam rostos de vermelho. Não disse nada aos homens da lei. Identificava-se mais com o gigolô.

 

 

 

(continua)

Exercício homicida

Afinal uma bala é só o começo do barulho nos olhos. Este ruído é provocado pelo silêncio de quem se está a afastar depois que deixou uma bomba na concha das mãos de alguém. Arredamo-nos. Não se fica para dar arrimo moral a quem se deve matar. Não se fica sequer a uma distância satisfatória para lhe acercar palavras de agasalho, caso ainda oscile. O ideal é desaparecer-se na mata como uma lebre que acossa a vida, deixando-se na retirada apenas o movimento da folhagem a estremecer na visão de quem ficou e segura a bomba, ainda naquela agitação amorosa de que só pode ser uma flor, isto que entre dedos lhe sobeja do mundo.

Gabriela Ludovice

A CRIANÇA CAIU EM ALGUM RALO DA RAZÃO – Folhetim em Oito Episódios da autoria de Carlos Pessoa Rosa. – Quarto Episódio

A vida não é película animada ou drama televisivo, transformou-se em espetáculo circense. A noite é cheia de trapezistas, palhaços e animais exóticos. O absurdo habita a madrugada. Homens de branco passam em algazarra como sanhaços desbotados. Pais-de-santo. Todo médico tem algo de xamã. Bruxos, feiticeiros e lobisomens encontram-se depois da meia-noite. Ritual de sangue e suturas, culpas e gemidos de dor. Cochichos de morte. Distraem-se com o rosto de boneca da passante, jeito bojudo e borracha, metido em ruge e purpurina. Doutores não percebem o ar arder no peito e aleijar a pressa. A maldita droga faz falta. No escuro, a gota pinga seu rebrilho com a força de uma flecha. Lugar zumbi. Dói muito morar nos labirintos, roupa colada ao corpo e boceta cheia de clandestinos. A garoa pesa igual choro nos olhos passadiços dos carros. O rosto não mina água, é feito da areia adusta dos desertos. De repente os cabelos negros e escorridos clamam por suicídio.

 

 

 

(continua)

olhares

toda a manhã a vida esteve cinzenta 
com a alma molhada e uma tristeza 
duvidosa escorrendo do olhar.
a tarde chegou de cabelos escorridos prometendo 
deitar-se na cama da preguiça 
sem vontade de se despir nem de tirar 
os sapatos da angústia.
a vida sabe que não pode abrir a porta 
e fugir para o outro lado do etéreo.
pobres e ricos caem como soldados vagabundos 
na vala da vida.    o catrapiler dos sonhos 
cobrirá     com pesadelos     o mundo inteiro.
por isso    vai amanhecer outra vez 
com a vida cinzenta    a alma molhada 
e um olhar triste caindo como 
as telhas da casa    partindo-se.




Álamo Oliveira

RE(-A)NUNCIAR O MESSIAS – Folhetim em Trinta e Quatro Episódios da autoria de Carlos Pessoa Rosa. – Trigésimo Episódio

Ambos são capazes de vender pó por ouro e, com o nobre metal, calar a boca dos que deveriam fazer respeitar as leis. Não se deve esperar do Senhor a solução. Não há quem transforme ouro em pó, não deleguem o dever dos justos a figuras do imaginário. Enquanto aguardam pelo milagre, o destino aos pervertidos pertence. Como vocês foram tolos em confiar naquilo que vocês mesmos criaram! Não nos adorem como o fazem com os santos da igreja, nada podemos fazer além de lavar as mãos. Não há templo nem Deus onde meu dedo aporta. Ninguém descerá para salvá-los. À arte pertence a ira de Deus, seus dilúvios, suas carruagens de salvação, o tremor das montanhas e  dos lábios dos profetas, qualquer indignação, a ideia de um povo escolhido e o silêncio de espera. Não desejo que minhas pernas caminhem, nem que meus lábios falem, quero que ouçam a maneirismo de meu silêncio.  

 

(continua)

Viagem para o centro do poder

Nota:

Os textos são da inteira responsabilidade do cronista

Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução, cedência, difusão, distribuição, armazenagem ou modificação, total ou parcial, por qualquer forma ou meio electrónico, mecânico ou fotográfico deste texto sem o consentimento prévio e expresso da autora. Exceptuam-se a esta interdição os usos livres autorizados pela legislação aplicável, nomeadamente, o direito de citação, desde que claramente identificada a autoria e a origem.

O Poder deslumbra, insinua, “ambush”, cativa, demanda, desmanda, vislumbra, domina, escraviza, corrompe, corrói, impele, repele, angaria,  arrecada, consome.

O Poder tem armas: :mata, desnuda, estupra, desfigura, maquia, finge, dita, desdita, embrutece, humilha, dobra.

O poder elimina a sociedade, e  o individuo.Anula o homem, estatela.

O poder reflete inércia, depressão, brutalidade. O mundo gravita em torno do Poder.

O trono do poder refulge, atrai, convida, alucina. Os meios para o poder são todos válidos: a usurpação, a enganação, as trocas, as armação, a religião, a fraqueza humana. O pior é a informação:quanto mais informação, mais poder.A Natureza, esvazia-se de sensibilidade, enche-se de hostilidade.Vinga-se.Transforma-se.O Poder é passageiro,O tempo do Poder não é o nosso tempo.É o tempo dos deuses.O Poder é o brinquedo dos deuses.Até que eles se cansem e transforme o Poder em Decadência.Essa substituta do Poder é a razão e a conseqüência dos poderosos. E chega-se a uma verdade: toda ação tem uma reação contrária. A reação é o Caos.

Porém, àquele estadista nada disso importava, ou achava que com ele  jamais   aconteceria, afinal estava pensando no Povo, ignorando, ou querendo ignorar, que o Povo é a mola propulsora do Poder, é pelo Povo que os heróis se arriscam, se sobrepujam, é com  o aval dele, que se enfrentam.

Em se expondo, se infiltrando, trazendo para si a atenção do mundo, proclamando que sua única intenção era salvaguardar a cidadania de uma população sofrida e esquecida pela humanidade, apoiado pelos órgãos da paz mundial que talvez com a melhor das intenções buscavam um líder para seus propósitos  ou uma justificativa para sua existência.

Sua figura tornou-se conhecida da população, todos admiravam aquele homem desprendido, belo como um deus que largava o conforto de seu lar, a vida cômoda que conseguira, para dedicar-se à pessoas desconhecidas, do país desconhecido  apenas lembrado como um depósito de miseráveis.

Na verdade  o Estadista percebia a manipulação de sua mente agindo sub-repticiamente,   muito menos desconfiava que seguia a máxima antiga de “quem em terra de cegos quem tem um olho é rei”. Não, ele  não se aproveitaria do Poder se o conquistasse. Pensava nas crianças abandonadas pelas ruas das cidades, órfãos da guerra sem sentido, que explodira naquela minúscula nação que morria de fome.Muitos lutavam  ali  pelo Poder de ditar as regras de como distribuir felicidade na terra de ninguém.

Impulsionado pela febre que acomete o corpo, pela excitação e pela ambição, inspirado pelas leituras shakespeareanas, pelas aventuras épicas de heróis medievais, julgou-se um novo salvador. E assim arregaçou as mangas. Escolheu adeptos, nacionalizou empresas estrangeiras, construiu centros médicos, oficializou o ensino e a saúde. O Povo não questionava porque aquele homem que passaram a chamar de protetor  lutava por ele,  e não pelos carentes de seu país  tão necessitados quanto ele. Ele possuía a resposta: solidariedade entre irmãos da mesma raça.

O Povo entusiasmado pela expectativa de uma vida melhor, aclamava e aplaudia.Contra a massa não há resistência. Principalmente a massa sofrida e espoliada. O tempo ajudava. Tudo  muito rápido.

Instala-se o novo Poder. Exalta-se o herói. As riquezas do pais, baseia-se na produção de alimentos  e nas pedras preciosas que proliferam nos veios das montanhas.Em nome do Estado todo o extrativismo permanece no país.

O mundo exterior exige eleições. Querem o Poder da democracia. O Poder da economia baseada no valor faccioso do dinheiro. Na importação e exportação. A resistência provoca invasões e proclama direitos. A necessidade da guerra para a paz exige resposta.

O Poder enfraquece.O Povo exige direitos. O estadista está só. A solidão do Poder instala-se e o herói pede o momento certo de dizer não. O país está à beira do Caos.

Novo salvador, novas regras.O Povo tem novas esperanças. Novas valises.Novas viagens.

Nilza Amaral

Escritora e ficcionista – Brasil

Jorge Reis-Sá (A Escolha do Editor)

Nos últimos anos houve alterações profundas no mapa editorial português. Um tecido empresarial atomizado deu lugar à concentração com a divisão entre as grandes, médias e pequenas editoras. Estranhamente (ou talvez não…) os grandes grupos editoriais portugueses são nacionais e a entrada de capital estrangeiro deu-se antes com a criação de médias editoras. Uma delas – talvez a mais importante – foi a Esfera dos Livros. A divisão imediata em livro prático, romance ou outro conteúdo de figuras (muito) públicas e História (principalmente a portuguesa) deu a entender que foi aí que a casa mãe percebeu haver mercado.

No capitulo da História, o seu trabalho tem de ser valorizado. Editou uma magnifica “História de Portugal” que, com todos os defeitos e virtudes que possam dizer ter, é um marco na edição portuguesa. E tem feito um fantástico trabalho na recuperação de livros e autores sobre o Holocausto e temas próximos.

É aqui que se insere a edição de “Portugueses no Holocausto” de Esther Mucznick. Um livro que merece ser destacado de entre as edições recentes, com uma nova perspectiva sobre uma das maiores tragédias da Europa. Mucznick sabe do que fala e sabe falar (ou escrever). Para um editor isso deveria ser tão evidente que nem digno de destaque. Mas merece ser destacado, numa altura em que tantos não sabem nem do que falam nem falar – e mesmo assim presumem editar grandes livros. Obrigado, Esther Mucznick, por nos permitir ler este livro.

Jorge Reis-Sá

RE(-A)NUNCIAR O MESSIAS – Folhetim em Trinta e Quatro Episódios da autoria de Carlos Pessoa Rosa. – Vigésimo Nono Episódio

As normas são das potências livre-arbítrio.  E os líderes tanto governam como caem; desde o início.  No poder, o senhorio centraliza, explora, organiza a defesa, torna-se feroz, faz as próprias leis. Com seu exército e armamentos, zomba, desfaz países, em nome da igreja e da lei matam; mas, um dia, desmoronam. Aponto aos céus para alertá-los de que em nome de alguém tão etéreo quanto o Senhor, ocorrem barbáries, e que ali nada há além de nuvens e estrelas. Não esperem que os milagres registrados no Livro aconteçam, que tudo em poesia é simulacro, fingimento, mentira. A arte, fruto da intuição e do conceito, não tem preocupações estéticas com a verdade, se quiser, nos transforma em vento. É preciso que o justo aprenda a se defender das perversidades, sua passividade deixa, aos ambiciosos e arrogantes, o caminho livre. Os corruptos não se envergonham de serem chamados de ladrões, nem a justiça preocupa-se em julgá-los. Existem os perversos ricos e os perversos pobres; muito pior os primeiros, mas nada justifica os segundos.

 

(continua)

Promenade

Vamos dar um passeio, sugeriu ele já era escuridão. Ela acelerou-se de alegrias, compondo a saia. Baixaram a rua OKM-474, as intensas chuvas tinham gizado fundura, estrias na terra, eles tinham de inclinar os pés como os carros a carroçaria e adivinhar segundos antes os agudos pedregulhos, para pouparem os dedos despidos dos pés.

Sempre atrás dele alguns passos, chegados à rua principal, ela seguiu-o; primeiro, como se Idrissa fosse um leão portentoso que orgulhosamente esquadrinhasse caminho; depois, confundindo os seus braços balançantes, nuca e cabeça com a própria boca da noite, temeu também perder o tom da camisa que ele levava, quando os faróis que apareciam em solavancos em vez de lhe apontarem as costas azuis, se cingiam às poças. Gritou-lhe aturdida, quero ir para casa. Ele perguntou-se por que era Chioma tão exigente e retorquiu feroz, temos de ver outras coisas, outras pessoas, outras ruas. Ela asseando-se com as costas das mãos, rolou o pó que se lhe colava à pele na face redonda e disse-lhe, isto não é um passeio. Não se vê nada. Não há iluminação nos arruamentos, só viaturas a roçarem-nos as pernas em conversa perigosa e vultos a sacudirem os seus pensamentos.

Ninguém passeia assim sem ter nada para mostrar, sem trocar de olhares após ver alguma coisa ou sem rir de mão dada, imaginou ainda ela.

Ele acrescentou convicto três passos mais adiante, estamos a passear e a ver outras coisas.

Ela acreditou, em metade de si, na outra custava-lhe respirar.

Gabriela Ludovice

Um dissipar que se reacende

Sempre foi para mim uma evidência que a poética é algo anterior à poesia, enquanto prática literariamente codificada. Os ditados populares que atravessam todas as culturas do planeta são uma prova de que a urgência de dizer o indizível sempre morou no coração do ser humano. Muito antes, portanto, de a poesia passar a ser um mundo retórico pronto a ser decifrado através de regras e esferas culturalmente estatuídas.

Menos evidente parecerá ser a ideia de que o literário, enquanto categoria de releitura e apreensão do mundo, precede a prática literária tal como a entendemos e significamos, pelo menos desde o final do século dezoito. De qualquer modo, há formas de arte que nos parecem afirmar, até de modo assertivo, que o literário extravasa por si a actividade literária pura e dura. Uma dessas experiências, bem mais correntes do que se possa crer, está presente, para não dizer omnipresente, no universo da fotografia que passámos (lentamente) a descodificar enquanto disposição artística.

Atentemos a uma fotografia de Paul Strand que ilustra algo bastante actual (o título fala por si: “Wall Street”). E perguntemos de modo muito directo: o que faz esta fotografia no mundo? Além da sombra e da luz, é óbvio que ela traça um propósito, uma orientação; uma espécie de casa das casas, multifacetada, múltipla, aberta em leque, desfigurada, como se fosse, ao mesmo tempo, um mero receptáculo das silhuetas que vêm ao ser e um entreposto das existências que parece usurpá-lo.

Uma fotografia como esta faz frente à letra, ao programa, ao enigma resolvido, à conjura controlada, ou ao labirinto binário que se esgota na divindade e no rebanho de mortais. Uma fotografia como esta faz o seu caminho apagando-o, removendo o que parece limitá-la, divergindo na invisibilidade das figuras que perseguem sombras esguias e compridas, matinais. Paul Strand entendeu como poucos a natureza desta cascata de imagens que, numa única e aparentemente episódica, como se fosse apenas vestígio, se realiza, se cumpre e se coisifica.

Ao contrário do milagre, a fotografia muda permanentemente de estado: quando a olhamos, quando a requeremos e quando a interpelamos: propósito aberto, tecido disseminado, rio inacabado pelo curso das margens que o reflectem.

E o literário não é precisamente esta qualidade que nos sugere um dissipar que se reacende e redescobre sem cessar? George Bataille disse-o de outro modo, porventura mais prudente e próximo: “A literatura é a infância finalmente redescoberta” (“La littérature, je l´ai, lentement, voulu montrer, c´est l´enfance enfin retrouvée”).

É verdade: Platão não estará assim tão fora de moda. Nem mesmo em Wall Street.

Luís Carmelo

Exercício para as pessoas simples

Atar os sapatos à alma, como se fosse ela uma coisa de possível entendimento.

Ou nalgum bolso junto à carne, trazê-la num postal de mostrar aos outros ou sê-la como se um cachecol a pudesse em várias voltas contornar ou ainda, viajá-la como um filho de colo, ciente apenas dos movimentos quentes de quem o transporta, àquela considerável distância do chão e dos temores.

Gabriela Ludovice

Manuel Brito (A Escolha do Editor)

Conhecer Yvette Centeno está a ser para todos nós, aqui na Editora, um imenso privilégio. Estou a falar não apenas da escritora, mas das suas extraordinárias qualidades humanas. Ouvi-la tem sido um grande, grande prazer e sempre uma oportunidade de aprendizagem.

Estamos a planear  publicar várias outras das suas obras. Desta vez, porém, lançámos um livro juvenil  intitulado «O Outro Lado da Lua», que a autora concebeu para simultaneamente desempenhar uma função poética e imaginária e fornecer aos jovens alguns dados rigorosos sobre questões da astronomia.

O livro, que foi ilustrado pelo arquitecto Pedro Gama, é um deslumbramento também para os olhos. Um deslumbramento nada convencional, que surpreende os leitores e depois rapidamente os prende a um traço e a um tipo de imagem que acabam por fasciná-los.

Por tudo isto que acabo de referir, esta é  uma obra que pessoalmente muito me honro de ter publicado.

Manuel Brito

Rectângulo

Os dias foram passando sem que houvesse notícias do irmão. Luís contou as horas, contou os dias, contava já a primeira semana. Não sabia o que esperar. Era demasiado tempo. Depois de ter prometido que daria notícias, Manuel atrasara-se.

O tempo foi passando e Luís desistiu da espera. Fechou-se em casa. Chorou. Tinha 18 anos e o irmão mais velho abandonara-o, em plena crise. Não havia esperanças. Começou a fazer a mala. Fugiria, para qualquer lado onde houvesse um prato de sopa.

Estava a mala pronta quando recebeu uma carta. Era do irmão. Rasgou o papel com entusiasmo. Lá dentro, estava um rectângulo que mudaria a sua vida. Um bilhete de avião.

João Nogueira Dias

A Mentirosa

Tem sido sempre tudo uma colossal e orquestrada mentira. 

Sentada ao centro deste submundo de si, luzes apagadas, Ella percebe agora como tem sido ela a mentir a si própria na fila da frente de todas as coisas:

– Eu, por exemplo, sou uma pessoa boa.

Mente. 

– Eu nunca minto.

Mente.

– Eu sei que ele vai voltar.

Mente.

– Juro-te.

Mente.

– Amo-te muito.

Convivem nela justapostas à mentira outras formas de controlo e mapeamento do mundo:

Mensurar

Opinar

Listar

Copiar

Citar

Cingir

Dirigir

Ordenar 

Decidir

Comandar 

Oprimir

Omitir

Manipular 

Forjar

Forçar

Abandonar 

Seduzir 

Iludir

Evitar 

Rejeitar

Possuir

Agradar

Ultrapassar

Interpretar

Analisar

Apercebe-se então que lhe falta ainda: 

 

Roubar.  

 

Sai de casa, em busca do seu primeiro furto. 

Entra numa loja de bijutarias e objectos miúdos, à esquina, uma marroquinaria. Passeia-se pela profusão de objectos, insegura de qual vai ser seu. Pega-os ao acaso, sente a textura dos tecidos, olha as coisas mas nenhuma traz consigo a necessidade de lhe pertencer. 

Vislumbra por entre uma profusão de incentivos um afia-lápis que traz sobre ele acoplado uma delicada bonequinha de porcelana, uma imitação das bonecas de louça japonesas. Uma preciosidade falsa que remete para um oriente distante. Que na realidade não existe. Pelo menos não assim como o imaginamos. (Mentimos). 

Pega na bonequinha com a mão cheia, de forma a que se deite sobre a palma da sua mão, e que os seus longos dedos cubram o objecto, aninhado no esconderijo improvisado. Caminha por entre os corredores, despretensiosa, e em algum momento coloca a mão no bolso, coloca ambas as mãos nos bolsos do casaco – mas uma cheia e outra vazia. Vagueia pela loja, fingindo olhar o que na realidade não vê. (Mentindo com o olhar). 

Faz tempo até reunir a coragem para sair. 

Atravessa então as portas vidradas, e qual não é o seu êxtase quando os alarmes não soam, nada nem ninguém a denuncia, nem a condena. O seu coração bate forte no peito e a respiração comprimida denuncia o seu pânico. Sente-se ser:

»Sinto-me ser! Sinto-me ser!« – Pensa. 

Sente-se ser. 

Agora está na rua e pode caminhar. Caminha, mas quase de imediato, insatisfeita. Caminha um par mais de quarteirões sem tirar as mãos dos bolsos. A rapidez com que a vida a assola e a toma é a rapidez com que a abandona e a deixa de novo vazia:

»Que prazer fútil e efémero…« 

Caminha sem saber ao certo onde está. Caminha sem saber bem onde foi. Oferece a bonequinha a um menino sentado na rua, a um menino de rua. Percebe nesse momento que nunca mais voltará a roubar:

É que mentir é tão mais a sua verdade.

 
excerto de “O Lago Avesso” (romance) publicação prevista 2013, editorial Caminho


Joana Bértholo

O Varandim seguido de Ocaso em Carvangel

Ficha técnica:

Título: O Varandim seguido de Ocaso em Carvangel

Autor: Mário de Carvalho

Código: 04412

Edição/reimpressão: 2012

Páginas: 224

Editor: Porto Editora

ISBN: 978-972-0-04412-9

Morar numa cidade acidentada pode ser divertido quando se é novo e rampas e ladeiras convocam os músculos juvenisao exercício. Mas, à medida que a idade declina, aplica‑se a cidade a lograr os velhos. E sempre que eles retomam o fôlego no fio das esquinas, oferece‑lhes ela mais caminho, tropeços e cansaços, como se os punisse por insistirem nos dias.

Não é que o viúvo Zoltan Tremlich, com a idade, tivesse passado ao estado de ingratidão, com respeito à casa ampla,soberana de vista sobre a enseada, legado tardio duma parentelongínqua. Mas começava a ter pena de que a falecida tia, que não era, aliás, uma bondade de mulher, lhe não houvesse antes deixado em testamento um modesto rés‑do‑chão na Rua dosLojistas, perto do cais e da praça, sobretudo do Clube dos Valetes de Paus, onde não era desagradável entreter umas tardes de doce subalternidade.

Mas a bela cidade de Svidânia pontilhava‑se nessa ocasiãode soldados, raspando tacões e coronhas pelas calçadas, em passo cardado, desprezador dos transeuntes. Nesse preciso dia, sem prévio aviso, o almoxarife fora convidado para uma caçada na herdade do barão Heistig, o ouvidor penava em casa, curvado sobre a dor da hérnia e o armazenista‑mor recebia um estrangeiro refinado, de muita cerimónia. Embora benquisto noutras mesas, Zoltan Tremlich sentia‑se menos à vontade nacompanhia dos jovens amanuenses e empregados do reino, que começavam então a chegar ao clube, em efusões ruidosas.

Atardou‑se a ler A Gazeta com um olhar solto e alheado, reparou que precisava de mudar de óculos, e distraiu‑se com o estudo minucioso dos movimentos dos velhos servidores, que conseguiam equilibrar pagodes de pratos e terrinas nos braços alquebrados.

Mas entraram dois sargentos de hussardos e instalaram‑se a beber schnaps numa mesa atrás de uma coluna de ferro.

Dentro em pouco alegravam‑se, tornavam‑se conviviais e descobriam que toda a sala ressoava se martirizassem a coluna oca com os tacões das botas. Não tardaram a ser rodeados por alguns moços, daqueles que se comprazem em lisonjear osfortes, suscitando o desprezo dos idosos ou recatados. Zoltan regressou a penates mais cedo, com a pior das disposições para a guerreia aos alcandores da cidade. Maldisse a tropa que, desde a prisão dos anarquistas, patrulhava abundantemente as ruas, num estrondeio de solas, coronhas e brados. Tinham chegado dois regimentos novos à cidade e, na opinião de Zoltan, não trouxeram com eles nem o respeito nem o sossego exigíveis à ordem militar.

SEGURO DE SOGRA

– “Eu também quero ir”. Disse a sogra enquanto Mariano preparava a mala para viagem. 

Ele pensava viajar apenas com a esposa no feriadão, securitário independente não tem férias, precisava relaxar. Escolheu João Pessoa, um pouco mais de 350 quilômetros de Maceió. Curtir as belas praias paraibanas, inclusive a de Tambaba, onde existe nudismo organizado. Combinou todos os detalhes com Vera, agora vem a sogra atrapalhar a lua-de-mel. Dona Carmen se ofereceu companhia, ele não gostou.

À noite, Vera com jeito pediu ao marido, ela não atrapalhava, afinal alugaram uma casa mobiliada, havia um quarto sobrando.

Dia seguinte seguiram pela estrada litorânea, via Recife, praias contínuas, visual exuberante, coqueiral, mar azul esverdeado valia a viagem. Conversaram amenidades, Dona Carmen sempre se lamentando saudosa do marido, oficial da Marinha, conhecia o mundo.

A casa mobiliada tinha um conforto além da expectativa, o casal ficou com o melhor quarto. Dona Carmen muito bem instalada, satisfeita de estar junto à filha única. Procurou ajudar como podia, cuidados para não se esforçar muito, dizia-se doente do coração, desconfiavam ser manha para não trabalhar. Não precisava, a pensão do Capitão da Marinha dava para os gastos.

 Mariano telefonou a um amigo, logo veio buscá-los para uma volta na bela João Pessoa.  Foram às praias, a todos os pontos turísticos cidade. Muitos passeios ciceroneados pelo amigo. No domingo, véspera do retorno, Dona Carmen se sentiu cansada, não sairia. Mariano até gostou, o casal não perdeu a oportunidade rumaram à praia naturalista de Tambaba.  Ficaram em um bar, mergulhando no mar azul piscina, os frequentadores nus, maior naturalidade. Na verdade as mulheres ficam mais sensuais de tanguinhas em qualquer praia do mundo. À noite fizeram as malas, retorno marcado para bem cedo.

 Dia seguinte, cinco da manhã o casal acordou pronto para viajar. Vera bateu no quarto de Dona Carmen, ela não respondeu, bateu novamente, até que desconfiado de algum problema, Mariano abriu a porta num empurrão.

 Tragédia, Dona Carmen deitada como se dormisse, estava morta. Vera se encheu de emoção, chorava alto, aos prantos abraçava a mãe. Ao se acalmarem, decidiram evitar burocracia e despesas com polícia e transporte de corpo, retornariam a Maceió imediatamente, resolveriam com facilidade o enterro em Maceió, os médicos sabiam de problemas cardíacos de Dona Carmen. Colocaram o corpo enrolado em lençóis no porta-malas. 

Logo depois do Recife em num posto de gasolina abasteceram o carro, estacionaram na entrada da lanchonete, foram comer alguma coisa. 

No retorno a grande surpresa, o carro não estava no estacionamento, desesperado Mariano perguntou ao bombeiro, ele viu o carro sair, imaginou ser o dono. O carro foi roubado, com o pequeno detalhe, Dona Carmen no porta-malas.

O casal confabulou. O quê fazer? Procurar a Polícia? Dar queixa do roubo? E o cadáver? Resolveram telefonar para um irmão de Mariano, advogado. Ele se prontificou, pouco mais de uma hora estava no Posto. 

Para evitar piores consequências, inclusive receber o seguro do carro, aconselhou registrar ocorrência na delegacia. Só retornaram a Maceió pela noitinha. O delegado com o mau humor da segunda-feira, cheirando a álcool, ouviu a história, fez perguntas insinuando assassinato, depois de tomar mais de duas horas de depoimento, deu ordem de prisão ao casal por ocultamento de cadáver. Só liberou o casal por volta das cinco da tarde a pedido de um deputado pernambucano, o irmão de Mariano fez a ponte de influência entre Alagoas e Pernambuco.

Três anos do episódio se passaram, nunca encontraram o carro, nem Dona Carmen. Mariano recebeu o seguro do automóvel. Vera ainda não pode receber a pensão militar devido à morte da mãe. Hoje estão separados, não aguentaram tantas brigas, principalmente a impertinência de Vera, implicando com Mariano por não ter providenciado um inusitado seguro da sogra.

Carlito Lima

RE(-A)NUNCIAR O MESSIAS – Folhetim em Trinta e Quatro Episódios da autoria de Carlos Pessoa Rosa – Vigésimo Terceiro Episódio

Tenho a mão direita petrificada. Seguro um texto. Não passo de uma escultura em pedra-sabão. Os passantes estudam o flagrado em instante preciso. Depois da provação do ventre da baleia… Por quê? Proibido dos movimentos e da fala. Desconhecida, a terra. Petrificado diante de montanhas. Junto a outros profetas. Retirou-me das águas que me afligiam, Senhor, quando serei libertado dessa escuridão? Não o encontro entre as nuvens e as estrelas. Aguardo a liberdade. Meu pescoço dói. Começo a perder a fé, Senhor. Já me obrigou a mentir uma vez. Não desejo repetir a humilhação. O que é de um profeta sem palavra? Ninguém ouve o Jamais adorarei outro deus a não ser o Senhor! Vem de épocas remotas. Todos que param percebem meu gesto clamando pela Sua presença. Riem da insistência.

 

 (continua)

V

Um dia sentimos a brisa sobre a qual nos debruçamos. A brisa debruça sobre nós por já nos ignorar. Peço-te um momento para uma revelação. Antes de mais nada, uma navalha me corta com precisão cirúrgica porque não sou de segredos e a traição a mim começou numa estação de metrô trilhos carcomidos, eu via as ratazanas da plataforma e todas as famílias são iguais na felicidade mas cada qual mergulha no poço cavado por si e não há de se esperar corda de salvação.

Kátia Bandeira de Mello-Gerlach

VEROSIMILHANÇA V

Em tempos, escrevi neste sítio umas linhas soltas sobre verosimilhança, a propósito do sem

propósito com que se tem inundado as livrarias com obras que se apresentam como romances

históricos. Sem dúvida, algumas delas são estimáveis, pela carga de erudição e informação.

Em poucos casos, pela qualidade literária. Pela união destes dois requisitos, em raríssimas

ocasiões. Aqui, aliás, observa-se uma recorrência que é também habitual noutros aspectos da

vida: quanto maior a pesporrência, menor a valência. Fica o provérbio, ora inventado, e vai

sem cobrança de direitos.

Eu atrever-me-ia a recomendar, aos multitudinários autores, duas consultas: uma, de carácter

mais erudito, a uma obrita da autoria de Aristóteles Estagirita, a que tem sido dado o nome

de «Poética». É um livro pequeno, e não é necessário alguém deter-se nos aspectos relativos,

por exemplo, a questões mais especializadas de versificação grega. Sim, os leigos – como eu –

estão autorizados a saltar algumas páginas. Há duas traduções próximas em português – que

eu saiba – uma do Professor Eudoro de Souza e outra de Ana Maria Valente, com prefácio,

muito esclarecedor de Maria Helena Rocha Pereira.

Talvez não seja mau os autores aperceberem-se de que algumas das questões sobre que se

interrogam (o que é estimável) ou sobre que pontificam (o que é péssimo) já foram tratadas,

a propósito da tragédia, por um dos espíritos mais brilhantes de sempre na História do

pensamento. Se considerarmos as criaturas que escrevem livros de auto-ajuda ou andam pelo

mundo a palestrar sobre a redacção de argumentos de cinema, por exemplo, ou de peças

de teatro, ou o que for, nota-se quando elas passaram por aqui. O velho Aristóteles faz a

diferença. Misterioso, não é?

Considerem o vociferante Robert Mckee, por exemplo, que anda por aí aos berros a convencer

meio mundo de que o pindérico «Casablanca» tem o melhor argumento de sempre. Uma das

razões por que Mckee não está completamente desacreditado (ao invés de outro benemérito

chamado Sydney Field, que tem a vantagem de escrever um inglês cristalino) é que se nota

que na sua túrgida congeminação (Story) há ressonâncias dos estudos literários e da cultura

clássica. O homem não se limitar a gritar e a armar ao pingarelho. Leu, reflectiu, estudou.

A outra consulta que eu sugiro é a de uma célebre carta do poeta Inglês Coleridge a outro

grande poeta, seu amigo, Wordsworth. Com algum esforço, encontra-se na NET. Foi assim que

lá cheguei, se não estou em erro. Coleridge, a dado passo, que cito de memória, menciona

a «fé poética», que logo abaixo define como «uma suspensão voluntária e temporária da

descrença (desbelief)». A frase é citadíssima, mas convém que seja conhecida pelos escritores

aventureiros que não circulam nos meios académicos.

Trata-se de convencer um bom leitor, um leitor céptico e informado, cansado de frases,

carregado de desconfiança, de bocejo pronto e sobrolho derribado. Seduzi-lo, empalmar-lhe o

cepticismo, moderar-lhe a rabugem. Nada na manga, nada no fraque, nada na cartola, de onde

saltou este coelho?

E para se ser um bom mágico é preciso muito treino. Salvo caso de milagre ou genialidade,

como eu exceptuo sempre. Mas, aí, calo-me.

MdC