Licínia Quitério, em “O Livro dos Cansaços”, a publicar em 2015

Vi, não sei bem se vi com os meus olhos de ver, se com as mãos ou com a matéria incandescente do desejo na brevidade das mãos.
Vi ou não vi no átrio a porta entreaberta, o tilintar da loiça, a sirene ao longe, o aroma da alfazema.
Vi, agora posso afirmar, agora que esse roçar de pele, esse repique de sinos me acordou, sim, juro, vi a tua cabeça esquecida do corpo, do átrio, dos ruídos, dos cheiros, da obscenidade da morte, a tua cabeça, a luz da tua cabeça, a voz da tua cabeça, tão igual, tão antiga, a voz, dizia eu, na fresta da porta, no torpor da tarde, pedindo ou dando, é igual, a sílaba única do meu nome, as duas sílabas do sítio, ainda inabalável, redondo, fogo e cinza, janela e porta, e a tua cabeça, ou melhor, a voz da tua bela cabeça dizendo.

Licínia Quitério

“O Livro dos Cansaços”, a publicar em 2015

Citando Tenessee Williams

There comes a time when you look into the mirror and you realize that what you see is all that you will ever be. And then you accept it. Or you kill yourself. Or you stop looking in mirrors

Tenessee Williams

ONDE ESTÁS AGORA, Ó SAUDADE ETERNA? | Cristina Carvalho

Eles existem. Ou dito de outro modo: eles existiram e existem. Trabalharam concentradamente, aplicaram as suas vidas, muitas vezes em situações extremas, na criação de obras – música, filmes, livros, pintura, escultura, fotografia. Os chamados “artistas”. Não vou agora falar de outras categorias, tais como, cientistas, investigadores, médicos, etc. Muitos saíram do país Portugal sempre pelas mesmas razões – a falta de reconhecimento, a falta de meios, a falta de incentivos. Saíram para nunca mais voltar. Outros ficaram, apesar de tudo. Fizeram sempre o que podiam fazer, porque era essa a sua condição: criar. E criar numa abstracção e num alheamento que lhes permitiu concluir, sem ajudas de poderes instituídos mas com apoios sinceros e admirados, apoios de quem pouco ou nada tinha a não ser a vontade, a admiração, e neles a esperança: os amigos. Porque muitas vezes um amigo, na altura certa, faz mais por uma causa de artista do que uma nação inteira.
Durante a vida, ou tiveram profissões paralelas, por vezes mediáticas e o público lá se ia lembrando que existiam, ou então, apenas os interessados nas suas artes é que estavam a par das actividades que esses artistas desenvolviam.
Os pintores pintaram. Os músicos musicaram. Os escritores escreveram. Os cineastas filmaram. Etc, etc, etc.
E um dia, morreram. Uns inesperadamente, outros, inevitavelmente – como todos nós – por via da idade ou da doença. Eis que de repente, mal se sabe de certa morte, levanta-se uma inesperada vaga, uma imensa onda de encómios, de putativa saudade, de toda a espécie de louvores! De repente, sobre aqueles ou aquelas que emigraram em dor cultural, que desapareceram e cujo rasto, publicamente, se perdeu, recai toda a tristeza possível, o mais negro luto, o mais alto pranto. Durante dois ou três dias não se fala noutra coisa, os telejornais abrem com a notícia da perda da vida de tal e tal, os jornais ostentam uma gritaria de letras bem carregadas, nas rádios começa a passar, se for caso disso, músicas atrás de músicas até à exaustão. Depois, nos funerais, é o ministro disto, o ministro daquilo, o presidente, o rei, a rainha, a corte inteira, os amigos renascidos das cinzas e ainda cheios de fuligem, os beijos de circunstância, muito pesar, muita dor, muito adeus fugidio, muita consternação, muita bochecha corada por ali a deambular à volta do caixão a ver se consegue ser vista, muito choro, muito ranho.
E no fim, pouca, pouquíssima gente, além da família e dos amigos mais chegados, sabe do que foi a vida de quem acabou de morrer.
Ainda ontem, pouco ou nada se sabia dessas almas estrangeiradas, o que é que fizeram, como é que viveram, onde, como e com quem habitavam, porque saíram, porque não saíram. Quantos e quantos artistas votados ao abandono cultural a ponto de subsistir apenas pela ajuda de mãos amigas conseguiram arrastar-se até ao momento final? Quem lhes deu a mão? Quem os dignificou? Quem os deu a conhecer ao povo que somos nós todos?
Com certeza que existem excepções. Essas existem sempre. Mas não é da excepções que falo.
Falo da ostentação e de uma glorificação inútil, de fazer crer uma bem-aventurança e uma prosperidade, uma atenção que nunca existiu. Falo de um país que pouco ou nada liga aos seus artistas. Que nada tem para lhes dar. Falo de um país inculto que continua abafado pela letra efe – fado, futebol e Fátima – e que, sem desmerecer tal letra, relembro que o alfabeto tem mais umas quantas letras simpáticas e elegíveis tal como a letra a de amor, a letra e de emoção, a letra i de impulso, a letra o de orgulho e a letra u de único.
Isto para falar somente das vogais.

CRISTINA CARVALHO

Crónica de Junho de 2012

Eça de Queiroz, Farpas, 1871.

«O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os caracteres corrompidos. A prática de vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Ninguém crê na honestidade dos homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo. A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências. Diz-se por toda a parte: o país está perdido!»

Retirado de: http://entreasbrumasdamemoria.blogspot.pt/2014/11/sera-fatalidade.html

lisboa venda ovos 1906

lisboa venda ovos 1906

Poeta Valdeck Almeida de Jesus pede ajuda para publicar livro

Em 1984, precisei vender o único bem da minha família, um fogão a gás, para ter meu primeiro poema publicado. Este fato mexeu comigo de tal forma que prometi fazer algo por aqueles que querem ter suas obras impressas em livros. Agora preciso do seu apoio para viabilizar este sonho.

Lançado em 2005, o Prêmio Galinha Pulando dava até 2009 um exemplar de antologia gratuito a cada pessoa poeta selecionado. A ideia era incentivar a produção literária independente, dando espaço a quem não consegue seu lugar ao sol no mercado. A partir daí, mesmo com todo esforço e boa vontade, ficou muito caro para que eu bancasse tudo sozinho.

Num país onde o mercado editorial é tão difícil e escasso, lutar pela arte é uma tarefa quase solitária. Mas por acreditar que não estou sozinho em defesa da poesia nacional, decidi lançar junto à Kickante esta campanha de pré-venda da antologia do Prêmio Galinha Pulando. Quem participa, ganha livros e brindes.

Como forma de agradecimento pelo engajamento na causa da poesia independente, os colaboradores receberão exemplares do livro do Prêmio Literário Galinha Pulando, livros autorais de meus poemas, cordéis, camiseta etc. Veja a relação completa de recompensas na coluna ao lado.

Participar é muito, muito fácil. São dois passos:

1) Escolha o valor da sua contribuição e sua recompensa ao lado

2) Escolha a forma de pagamento, boleto ou cartão de crédito (parcelado em até 6 x para valores acima de R$ 50,00).

Kickante é um site seguro e é um dos maiores sites de crowdfunding do mundo arrecadando fundos para causas nobres no Brasil afora e tirando muito projeto sensacional do papel.

Aqui o link para você ajudar:

http://www.kickante.com.br/campanhas/contribua-com-antologia-galinha-pulando

meta morfose | Helder Magalhães

 

 

o homem no palco
não o homem é o palco
e o uivo da morte
que rasteja boca
e chove humanidade
lodo merda esperma
e chove mais humanidade
sarjeta pus dinheiro
rodos de dinheiro
o uivo a lacerar-te a carne
a boca a comê-la
choras e lavas-te
e baptismo nenhum te purifica

lobo solitário
o uivo que desce a montanha
faz o vale estremecer
as trancas nas portas
os pedreses nas janelas
o uivo a penetrar
cada frincha cada aberta
como se te violasse
num ermo
e não te livras dele
como as putas se limpam
depois de aviar mais um

sim a morte chega
para te foder
e prostrado só a humanidade
do amor te pode salvar
como a loucura a redimir-se
abraça-te a mortalha
daquele sorriso que te encandeou
no êxtase
de orgasmos múltiplos

procuras o leito
e o trilho para a margem do rio
segue-te a lua
cheia no fim da gravidez
acolhes a morte
como a pele da água o esplendor
e geras o universo

o homem já não é o homem
encarnou-se gesto
de loucura e redenção
metamorfose do sangue nas veias
dirão que morreu
digo foda-se
e tudo se acaba
e tudo tem o seu princípio
no uivo voz de abismo
o deus a nascer
pelos olhos do homem.


(ao actor Daniel de Macedo Pinto e ao Uivo de Allen Ginsberg)

Helder Magalhães

1914: “a última de todas as guerras” – II – Manuela Degerine

1914: “a última de todas as guerras”

II

Após a Grande Guerra impunha-se o esquecimento para os sobreviventes, os filhos (órfãos ou não), as mulheres (viúvas ou não) poderem viver, para as cidades, a economia e toda a Nação poderem reconstruir-se. A região de combate fora arrasada, a catedral de Reims demolida, as minas e indústrias aniquiladas, os campos transformados em cemitérios (explosivos) e, em cada família, um pai, um filho (no mínimo), um irmão, um noivo, um marido morrera ou voltara estropiado. “Quantas mães choraram, quantos filhos em vão rezaram, quantas noivas ficaram por casar”: para em 39 a guerra voltar.
Os sobreviventes válidos (ou com aparência disso) da “última de todas as guerras” foram de novo mobilizados para combater – outra vez – os alemães; alguns passaram cinco anos em campos na Alemanha. Entretanto o exército alemão invadira e ocupara a França… Mais uma vez. Esta Segunda Guerra empurrou a barbárie para extremos que ocultaram a carnificina da Primeira; e, de então para cá, exaltou-se a figura do resistente. Ao ponto de alguns franceses inquirirem com ironia:
– O que há para ver na televisão portuguesa?…
Em França viam-se filmes, séries, documentários sobre a Segunda Guerra Mundial. Os bons resistentes e os alemães perversos. Os colaboradores. Os vira-casacas. O racionamento. O mercado negro. Os judeus. Os campos de concentração. Todas as famílias viram dezenas de vezes “O Pai Tranquilo”, “A Vaca e o Prisioneiro”, “A Travessia de Paris”… Todos lhes conhecem de cor as réplicas e as peripécias. Todos se riram – a bandeiras despregadas – com as partidas pregadas aos alemães. Todos se comoveram mil vezes com o Desembarque e a libertação de Paris… Sendo “Travail, famille, patrie” a divisa do marechal Pétain, vencedor da Grande Guerra mas também, a partir de 1940, o chefe de Estado que colabora com Hitler, estes valores foram questionados após a Libertação; e por consequência o patriotismo de 1914 tornou-se igualmente suspeito.
O combatente da Grande Guerra manteve-se porém no horizonte porquanto o último, Lazare Ponticelli, morreu em março de 2008 com cento e dez anos; víamos no telejornal as cerimónias comemorativas durante as quais, acompanhados por antigos combatentes, cada vez mais escassos, é certo, os sucessivos presidentes iam depondo coroas de flores no túmulo do soldado desconhecido no Arco de Triunfo num dia agradável – por ser feriado – embora quase sempre chovesse: 11 de novembro. Mas qual o peso deste rito republicano? Claro que em todas as vilas e cidades há um monumento (não raro muito feio mas um grande negócio: o sangue dos combatentes continuou a engordar grandes e pequenos tubarões após a Grande Guerra) com a lista dos mortos, claro que em cada família houve lutos e, nos casos mais felizes, sobreviveu um (vários) mutilado(s) ou na aparência não mutilado(s) que todavia, no resto das suas vidas, poucos ouviam quando teimava(m) em repetir memórias… A Grande Guerra carbonizara os valores que lhe haviam servido de pretexto. O progresso, a civilização, o heroísmo, o patriotismo?… Estas palavras-chave de 1914 tinham-se desvalorizado. Outras uniram os Resistentes em 1940, liberdade, igualdade, fraternidade… Por exemplo.
Jean Jaurès, assassinado no dia 31 de julho de 1914, defendia a união dos trabalhadores de todos os países não vendo no povo alemão um inimigo, mas sim o instrumento de um capitalismo que precisava de guerras para se expandir – todos conhecemos igualmente o pacifismo trágico da alemã Rosa Luxemburgo; nos quatro anos seguintes a violência obriga a uma reflexão, patente tanto na “Canção de Craonne” como em textos literários, que conduz os soldados à revolta: muitos serão fuzilados; e no meio século que se segue este pacifismo continua a expandir-se: quem ganha com as guerras nunca morre nelas, quanto ao resto basta esperar porquanto, quando lhes convier, os poderosos saberão transformar os inimigos em amigos… Boris Vian e Georges Brassens (entre muitos outros) difundiram este pacifismo na canção popular.
As comemorações do centenário da Grande Guerra – que começaram em 2013 – têm sido em França ocasião para debates, exposições, espetáculos, documentários, conferências, edições muito numerosas, programas de rádio e televisão, recolha de documentos (filmes, diários, fotografias, correspondências, etc.)… Há vinte anos que os franceses se começaram enfim a interessar pela Guerra de 1914 mas a homenagem aos combatentes chegou demasiado tarde: por isso Lazare Ponticelli recusou que o seu corpo repousasse no Panteão Nacional.

Vinte Degraus e Outros Contos | Hélia Correia

«São quase sempre mulheres. Um feminino grotesco, perto da terra, num tempo que não se vê. Mulheres encantadas, aleijadas, marcadas por fatalidades, longe do sonho e apanhadas em cada uma das histórias como a meio de um caminho, com os homens a aparecerem quase sempre a sublinhar a identidade desse feminino trágico. E sempre a sensação de se estar a meio de um percurso que é deixado em aberto. Nos 11 contos que a escritora Hélia Correia (n. 1949) juntou em “Vinte Degraus”, o princípio e o fim de cada um vive num sem tempo narrativo. (…) Fecha-se o livro e o que fica é a sensação de que ainda há algo por se cumprir. A linguagem é capaz de quase tudo. Hélia Correia domina-a como poucos escritores da língua portuguesa. Há o incómodo, o que perturba e questiona, mas sabe-se do fulgor da sua escrita em romance. E é inevitável a comparação com esse deslumbramento da escrita com maior fôlego, a cavalgada para o abismo. Sente-se por momentos nestes contos, faz parte da marca de Hélia Correia Mas que bom seria agora um romance.» [Isabel Lucas, «Público», «ípsilon», 7-11-2014]

Escrever é sussurrar… | Vítor Burity da Silva

Escrever é sussurrar entre claustros, é vomitar agnósticos sentimentos contra uma falésia intrépida, contar silêncios como ventos coloridos, é tentar varrer o invisível mas lucrar, anos depois, com a glória mórbida da valência seca de se ser humano.

Burity da Silva

1914: “a última de todas as guerras” – I – Manuela Degerine

I
“Estás por fim cansado deste mundo antigo

Pastora ó torre Eiffel o rebanho das pontes solta balidos nesta manhã”
Guillaume Apollinaire, “Zone” in “Alcools”, 1913

No segundo verso de “Alcools” Guillaume Apollinaire transforma a torre Eiffel – emblema da modernidade – numa pastora que guarda as pontes do Sena: o “mundo antigo” (a “Ilustração Portuguesa” designa-o como “velho mundo”) cansa mas ainda perdura. Por isso no dia 2 de agosto de 1914 os mobilizados desfilam nas ruas com os pés no presente e a cabeça no passado, embriagados de heroísmo, exaltados pela propaganda, gritando “Para Berlim!”, esperando uma vitória imediata: regressarão para as vindimas. É urgente libertar a Alsácia e a Lorena, ocupadas pela Prússia em 1870, dar aos alemães uma lição definitiva, combater para as invasões acabarem…
Porém nada sucedeu como calculavam. Não arrebataram o capacete do imperador, a guerra prolongou-se para além das previsões e, pior do que isto, não coincidiu com as imagens que levavam na mochila, porquanto sonhavam com a bravura do combate corpo a corpo (a guerra antiga) mas foram mortos ao acaso e à distância numa escala para eles impensável (a guerra contemporânea). Houve gases, foram gaseados. Houve granadas, morteiros, metralhadoras, artilharia complexa, tanques, zepelins, aviões de combate – o que, entre os soldados franceses, veio a dar 1.357.800 mortos, 537.000 prisioneiros e desaparecidos, 4.266.000 feridos entre os quais meio milhão de inválidos e mutilados, cegos, loucos, estropiados, “gueules cassées” (rostos desfigurados), para além do aniquilamento perene de espaços habitados e de um vasto território, tanto terrestre como marítimo, poluído com cadáveres, bombas, tóxicos, metais, causando danos ecológicos que continuam hoje – e no futuro continuarão – a ser nocivos.
Houve quatro anos de trincheiras. “O soldado na trincheira/ não passa duma toupeira/ vive debaixo do chão” (Versos de um fado.) Quatro anos passados longe das famílias, das suas vidas e das suas noivas, na neve, na chuva, no som dos canhões, no risco permanente das bombas e dos ataques, a respirar gases mortíferos, no terror de serem enterrados vivos, no horror dos pedaços de corpos, no cheiro desta carne – homens e animais – decomposta, vendo os ratos devorar os cadáveres, atacados pelos mesmos ratos, infestados com pulgas, piolhos, percevejos, escorregando em lamas de sangue e tripas, ficando semanas sem dormir, sem poderem lavar-se, mudar de roupa, descalçar as botas, vendo morrer os companheiros aos milhares… “Ah Deus! Como a guerra é bonita”, escreve Guillaume Apollinaire entre inversão, provocação e “bellus horrendus”. O combatente não passa sobretudo de “carne para canhão” e, sendo impossível identificar pedaços de vísceras, é então inventada esta figura heróica: o soldado desconhecido. Não era bem a glória à qual os mobilizados aspiravam…
Para não concluir nada, no dia 11 de novembro de 1918 houve um Armistício que, parecendo fechar “la der des ders”, a última de todas as guerras, monstruosa demais para ainda haver outras: conduziu de imediato à seguinte.
(Continua)

São assim os meus dias | Visão | António Garcia Barreto

São assim os meus dias

Pus-me à janela
a ver passar os barcos
carregados de espuma.
Navegavam nos teus olhos verdes
com as flâmulas agitadas
pelos ventos alísios.
Só depois de passarem
reparei que estavas
tão longe de mim
como eu estava dos barcos
carregados de espuma.
São assim os meus dias à janela
enquanto espero pelo teu regresso.

© António Garcia Barreto

Visão

Que mulher é aquela lá longe
recortada entre a espuma e o areal
vestida de neblina
e com um colar de coral?

Uma ninfa deste século
numa pincelada de azul esbatido
ou o descanso dos meus olhos
numa beleza de sonho fingido?

Agora que se aproxima
envolta em carne de desejo
só faltava que chegasse perto de mim
e me desse um beijo.

© António Garcia Barreto (Magoito/Ago1975)

Sonho | Maria Isabel Fidalgo

Ai se eu pudera
Ser outra vez primavera
Com a boca à tua espera
Com rosas rubras de orvalho
E fonte de água ao luar
No lume do teu olhar!
Ai meu amor tão eterno
De pérolas e de rubis
Esmeraldas que eu te dera
Se eu fora primavera
Na água pura a escorrer
Do alto da minha serra!
Mas a noite vem caindo
Aos poucos em pé de dança
E fica longe a lembrança
Do tempo que foi e era
O meu corpo a Primavera
Serenata à tua espera
Cabo da Boa esperança!

Maria Isabel Fidalgo

Prémio de Romance APE | Ana Margarida Carvalho é a vencedora

Que Importa a Fúria do Mar, romance da jornalista Ana Margarida Carvalho, é o vencedor do Grande Prémio de Romance e Novela APE/Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas 2013.
Eram finalistas Para Onde Vão os Guarda-Chuvas, de Afonso Cruz, Cartas de Casanova – Lisboa 1757, de António Mega Ferreira, A Implosão, de Nuno Júdice, e A Desumanização, de Valter Hugo Mãe.

Tell a Story tem romantismo e uma missão: pôr os turistas a ler obras de autores portugueses.

03-11-2014
Era uma vez um país nascido com o dom da escrita, um autor que queria contar uma história, um livro que queria ser lido, um turista que não falava Português, e uma livraria que não sabia como ficar sempre no mesmo lugar. Juntaram-se todos. E escreveram uma nova história.
Começa assim (em inglês; a tradução é nossa) a apresentação da Tell a Story no seu website. É uma introdução literária de uma identidade romântica e não deixa de ser um parágrafo com toda a verdade de uma livraria em trânsito que já mereceu destaque, por exemplo, no The Guardian ou no site norte-americano Ozy. Pensada para os turistas que visitam Lisboa, a Tell a Story ganha expressão numa carrinha vintage que abre as portas em ruas e praças para apresentar livros traduzidos em inglês de conhecidos autores portugueses. É uma história que merece ser conhecida e que vai sendo feita por quem tem amor à literatura. Domingos Cruz contou-nos como e do que se faz este projeto.

A Tell a Story (TaS) tem sido referenciada pelo seu carácter singular. O que fascina: uma certa aura romântica, o facto de esta “livraria sobre rodas” ser também, por si, um “objeto” tão literário?
Julgo que o elemento romântico é fundamental no projeto. É um processo absolutamente contraintuitivo; pretende ser o físico contra o digital, o local contra o global. Nasce, vive, respira amor à literatura.

Que autores se enquadram no projeto?
Todos os autores portugueses podem enquadrar-se, sendo certo que o esforço tem sido feito para, por um lado, dar a conhecer os consagrados, autores clássicos, e, por outro, novos autores que são o futuro da nossa literatura.

É a TaS que trata da tradução e da realização de edições limitadas ou trabalha em parceria com alguma editora?
A Tell a Story entrou, este ano, no mundo da edição. Iniciou-se pela venda de edições alheias e está agora a fazer edições próprias. [Como editora] conta neste momento com três obras, estando a iniciar-se o processo de outras três.

À venda e edição de livros, a TaS associa outras atividades, tais como passeios literários por Lisboa. É um complemento ou uma outra oportunidade de diversificação do projeto?
O Walk a Story, é uma das várias vertentes que o projeto pretende ter. A ideia central é dar a conhecer a literatura portuguesa aos estrangeiros, e esse objetivo pode ser conseguido de várias formas.

Têm, também, uma base tipográfica, com fontes de autores. Qual o intuito; como funciona?
É mais uma vez a estética do projeto a falar com o público-alvo. É outra forma de dar a conhecer os autores portugueses, de uma forma original.

Este é um projeto de Lisboa ou há vontade em o levar a outras cidades portuguesas?
Dado que este projeto vive sobretudo da disponibilidade dos seus promotores (e todos eles têm outras profissões), temos evitado, até agora, dar um passo maior do que a perna. Desejo e vontade até pode existir, mas em coerência sabemos que não poderíamos apresentar um bom produto.

Quais são, então, os planos para o futuro?
Neste momento estão a ser trabalhadas novas edições próprias com novos escritores, e está a ser feito um documentário Tell a Story sobre a Literatura Portuguesa, que pretende saber o que pensam os estrangeiros da nossa literatura. Estamos muito entusiasmados com o que temos de gravações até ao momento.

Trabalham para um mercado que será volátil. O turista torna-se o “leitor acidental”, complicado de fidelizar… Ainda assim, tem sido possível obter feedback do vosso público?
De facto, a fidelização é difícil, mas também não a procuramos. Temos experiências únicas, mas intensas. O feedback chega muitas vezes por e-mail. E foi desse feedback que nasceu a ideia do documentário.

Por último, que balanço pode fazer-se?
Sob o ponto de vista da recompensa pessoal, dificilmente poderia pedir mais. A Tell a Story gera sensações positivas nas pessoas, e isso dá-nos uma grande alegria. Permitiu-nos conhecer escritores que admirávamos como leitores, e que vamos passar a editar. Permitiu-nos conhecer inúmeras pessoas de uma riqueza extraordinária. O verdadeiro património que foi e é gerado pelo projeto é exclusivamente humano.
– See more at: http://www.industriascriativas.com/Noticia/TELL-A-STORY-POR-AMOR-%C3%80-LITERATURA/2386#sthash.Jy00ZQlK.dpuf

tellstory 550

Revés | Domingos da Mota

Tantos que se foram,
partiram, voaram,
saíram do porto
à pressa e zarparam

sem um até sempre,
um ai que me vou,
um não veemente
a quem saqueou,

sem dizer das suas
(e doutros, talvez)
e bastavam duas

palavras ou três
para expor as cruas
razões do revés.

Domingos da Mota

O SILÊNCIO | Carlos Bondoso

acende-se um fósforo na noite
branda e azul
o feroz voo dos vampiros…
ataca a luz da madrugada

os meninos de olhos cinzentos
aquecem-se no pó
dos cartões pardos da cidade
as lâminas cortam as gargantas

no leito adormecido
as palavras são solidão
o carro do lixo
transporta as mágoas enlatadas

as luzes vão-se desfazendo
num triste movimento
o amanhecer
recolhe as partículas do silêncio

POR CFBB