Fantasias – uma reflexão de Cristina Carvalho

A fantasia, o género fantástico na literatura, ajuda a desenvolver um melhor raciocínio entre as crianças e jovens. Todos sabemos que uma criança consegue brincar, conversar, interagir com amigos imaginários, com seres que não existem. Um adulto que nunca fantasiou na sua fase jovem – e esta situação pode dever-se a variados factores como, por exemplo, o ter tudo e todos os brinquedos que desejou à mão de semear, o ser obrigado a trabalho infantil e, portanto, um estado precoce e involuntário de cansaço, o facto de ver muita televisão, etc, etc – dizia eu, um adulto que nunca ou pouco fantasiou na fase jovem cresce com determinada carência mental.
Ter como amigo um ser imaginário é fundamental.

Cristina Carvalho – “LUSCO-FUSCO, breviário dos mundos elementares” publicado por Sextante / Porto Editora. No PNL para o 9º ano.

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Prémio Luso-Espanhol de Arte Cultura 2014

A escritora Lídia Jorge acaba de ser anunciada vencedora, por unanimidade, do Prémio Luso-Espanhol de Arte Cultura 2014, atribuído pelo Ministério da Cultura de Espanha e pela Secretaria de Estado da Cultura de Portugal. Criado em 2006, com periodicidade bianual, o prémio tem como intenção distinguir a obra de um criador que incremente a comunicação e cooperação cultural entre os dois países.

O júri justificou a atribuição deste prémio, anteriormente entregue, entre outros, a Perfecto Quadrado, Siza Vieira e Carlos Saura, por Lídia Jorge conseguir “criar uma relação e vínculo de união entre Portugal e Espanha através da sua contribuição para o conhecimento mútuo de ambos os países e, também, pelo valor da sua obra literária, que aborda algumas das questões fundamentais do nosso tempo”.

Lídia Jorge, de quem a Dom Quixote publicou, recentemente, o romance Os Memoráveis, nasceu em 1946, no Algarve. Já foi distinguida com alguns dos mais importantes prémio literários, nacionais e estrangeiros: Prémio Dom Dinis; Prémio PEN Clube; Prémio Máxima de Literatura; Prémio Bordallo de Literatura da Casa da Imprensa; Grande Prémio de Romance de Novela da APE; Prémio Jean Monet de Literatura Europeia; Prémio Charles Bisset; Prémio Albatros, da Fundação Günter Grass.

Em 2013, recorde-se, Lídia Jorge foi classificada pela prestigiada revista francesa Le Magazine Littéraire como uma das “10 grandes vozes da literatura europeia”.

Lídia Jorge (c) João Pedro Marnoto

foto de João Pedro Marnoto

DETALHES… | Ercília Pollice

“… Madalena foi pro mar e eu fiquei a ver navios”…( Chico Buarque)

Valentine está sempre se surpreendendo com o ser humano.

Ela, após a paixão que a flechou há quase dois anos, desistiu de se debater como náufrago em águas fundas , a procura de um lugarzinho que fosse seu e a salvasse de tudo e de todas as aporrinhações dos últimos meses.Nào sabia, ainda, que pra se ter um lugar na vida do outro depende do querer do outro , muito mais do que seu próprio querer. Aprendeu mais uma lição.

Os homens, concluiu Valentine, a valente, não têm a coragem das mulheres.Não assumem riscos, mostram uma confiança que estão londe de sentir, e uma autonomia que não faz parte do seu viver diário.

Podem até ficar encantados com uma mulher, querê-la muito, mas não se arriscam a mudar nada em suas vidas, por mais sem “glamour “, que esta vida esteja.

Todo mundo apregoa aos 4 cantos que a vida deve ser vivida intensamente, que o tempo não perdoa, passa sem pedir passagem, que nossa vida é o agora,que oportunidades não acontecem todo dia, bla , bla, bla..mas na hora do vamos ver, não se muda um centímetro pra vivenciar estas afirmações, moeda corrente em todas as bocas.

Dizem que o trem pega quem anda na linha… O trem pega a gente sempre, na linha ou fora dela, pensa Valentina com seus botões.talvez no amor nunca haja vencedores ou vencidos. Todos perdem, todos ganham de um jeito ou de outro.

Todos sonham com um amor apaixonado, cheio de magia e encantamento,arrebatador, mas poucos são os que se arriscam a vivê-lo.

Valentina viveu mais de um ano de romance on line. Eram, ela e A.J., a corda e a caçamba.

Entendimento , cumplicidade, intimidade, parceria e um tesão a mil, como ele gosta de dizer.

Mas, “ …o anel que tu me deste , era vidro e se quebrou, o amor que tu me tinhas, era pouco e se acabou”…A canção de Aznavour,” She”, embalava os sonhos de ambos. Ele traduziu a canção e lhe mandou. Dizia que se pegava cantarolando ‘She”e que sonhava com Valentina dormindo e acordado.

Em certos aspectos, eles eram tão parecidos. Pareciam ter sido criados pela mesma mãe. Curtiam contar os sonhos da noite anterior, comentavam sobre a vida, filmes, política.Trocavam receitas. Era muita sintonia.Ele nunca deixou de falar da beleza que via nela.

Adoro seus seios, sua boca, suas pernas, sua cabeça.”te adoro”. Ela nunca fez jogo de difícil.Abria seu coração. Mostrava o que sentia, o que queria, o que esperava.

Eram verdadeiros e se falavam tudo. Era uma sedução escancarada. Muitas vezes no meio do trabalho ele pedia pra abrir a cam só pra vê-la por minutos curtos, mas gostosos.E, voltavam ao trabalho.

Tudo neste vida, tem um tempo que é primordial, essencial. Se você nào usa esse “time”na hora certa, a emoção dá lugar à insatisfação. A insatisfação gera discórdia, e a sintonia vai pro ralo.O encanto vira desencanto.

Valentine dança os últimos compassos desse balé, que foi lindo, exuberante, ingênuo e malicioso. Intenso! Tudo a um só tempo. Sabe que foi assim pra ele também. Amaram-se como dois pagãos, falaram palavras doces, ternas, quentes, macias…viveram um amor gostoso diferente, único em certos aspectos, porque era “sui generis”, para ambos.Experiência primeira e única até então, em suas vidas.Também brigaram vezes sem conta, como fazem os amantes de todos os tempos.

Mas, a impossibilidade dele, e o medo de entrar numa roda viva sem saída, afastou-o.

Foi tão sutil este afastamento, que ela nem se deu conta. Quando caiu em si, havia acabado, assim, sem aviso,sem guisos, como na canção… mais um amor frustrado, que não chegou a canto algum, neste mundo cheio de amores desfeitos

.Paixão sem consumação!

Ficou no ar aquele sentimento de perda sem ter sido. De vazio sem ser preenchido. De ver cortada uma experiência plena a ser vivida. Um encontro que foi um presente inesperado a ambos, numa fase da vida onde a emoção já não bate ponto com frequência.

Deixaram passar a chance de viver intensamente uma paixão.Podia nunca ter virado amor, mas, pelo menos saberiam o gosto, o cheiro, o toque. Algo real , não apenas uma fantasia.

Ficou o carinho, a amizade. Passou e encantamento.Ele não percebeu que aquele encantamento era o principal daquele “affair” virtual, até então jamais vivido por ambos. Uma experiência única! Explosiva! Apaixonada! Gostosa! Carregada de sensualidade e sentimento .

Qualquer palavra dita, era entendida como cobrança. Qualquer questionamento virava motivo para ausência calculada. O desgaste veio. Culpa sua, diz o moço.Mas Valentina sabe, que a insegurança gera desconfiança. Indiferença gera desamor.

Nada é eterno.Tudo passa.O importante é ter sido vivido com intereza e complitude.

Tudo isso , nossa amiga Valentina tira de letra.Há tempos ela não se deixa mais sofrer muito tempo por amores desfeitos. Sabe, por experiência vivida e sofrida, que os amores partem sempre, de um jeito ou de outro…

Mas não deixa de se perguntar, como teria sido um encontro real?

Isso nunca saberão. O medo, as impossibilidades, as incertezas foram maiores, que o encontro, que a busca, que as promessas, que o desejo.

Será sempre um sonho inacabado, como são todos os sonhos.

08/01/2011… HISTÓRIAS DE VALENTINA

Ercília Pollice

Wook – sessão de autógrafos virtual

Uma sessão de autógrafos virtual? Sim, é possível.
Nas próximas 48 horas, vários autores portugueses vão participar numa iniciativa inédita.
Mário de Carvalho, Mário Zambujal, Valter Hugo Mãe, Nuno Lobo Antunes e Maria Teresa Horta são apenas alguns dos autores que vão participar na primeira de cinco sessões de autógrafos virtuais que a WOOK vai realizar nas próximas semanas.
Hoje, a partir das 18:00 e até às 24:00, quem comprar livros daqueles (e outros) autores (ver quadro abaixo), tem a oportunidade única de pedir um autógrafo – ou uma dedicatória, tratando-se de uma oferta – que será feito pelo respetivo escritor nas 48 horas seguintes, sendo depois o livro enviado para o destinatário, quer se encontre em território nacional quer no estrangeiro.

A WOOK é a maior livraria online portuguesa. Integrada no Grupo Porto Editora, a WOOK vende para mais de 90 países livros portugueses e estrangeiros, manuais escolares, software, vídeo jogos e filmes, num total de seis milhões e meio de títulos disponíveis. A WOOK, que pertence ao Grupo Porto Editora, tem uma oferta próxima dos oito milhões de produtos – livros, ebooks, software e filmes – incluindo toda a edição portuguesa e milhares de títulos espanhóis, ingleses e franceses.

A CIDADE DE LUME | Licínia Quitério

Era no Inverno que ela floria. No Inverno, quando o frio empurrava as mulheres para dentro das casas, para dentro das vidas, a juntarem pedacinhos de lã, pedacinhos de lembranças. No tempo em que o vento se esgueirava pelas frinchas das portas, pelo buraco da chaminé, e a chuva alagava o pátio, alagava as meias dos caminhantes. No tempo em que a chama do candeeiro se apagava quando a porta do quintal se escancarava. O tempo das grandes noites, dos dias escuros e das frieiras a magoarem os dedos. Era esse o tempo em que a menina vivia de lume, vivia no lume, era o lume. No banquinho de madeira, esperava pelos carvões que haveriam de se deitar na braseira de cobre. Vermelhos os do centro, negros os que em redor se amontoavam, aguardando a sua vez de serem incêndio. Ali ficava a menina, o queixo nas mãozitas, os cotovelos nos joelhos, em encaixe perfeito, equilíbrio e conforto. Era o seu tempo de florir, os olhos presos no mundo ardente dos carvões. Na cabeça nasciam histórias da cidade de lume, com as suas ruas povoadas de pequeninos seres de lume que se moviam atarefados, num sem-fim de subidas, descidas, avanços, recuos, como quem vive, mesmo sem lume. Quase dormente, prendia-se nas histórias dos seus homenzinhos de lume, ou mulherzinhas, que eram iguais, de tanta luz, de tanto brilho. Quando os olhos se cansavam de serem flores de lume, o brilho da cidade esmorecia, acalmava, abrandava, desmaiava, e os olhos fechavam-se, docemente, como adormecem as flores. Amanhã voltaria, o queixo nas mãozitas, os carvões acesos, os homenzinhos na cidade, numa azáfama, as histórias a começarem na cabeça da menina da cidade de lume
Era assim no Inverno.

Licínia Quitério, em DISCO RÍGIDO, 2º. Volume, a publicar em 2015

Maria Toscano e o Canto Da Terra | Victor Oliveira Mateus

Maria Toscano, natural de Campo Maior (Alentejo), Doutorada em Sociologia pelo ISCTE e atualmente Professora Universitária em Coimbra, vem desenvolvendo uma longa e abrangente actividade no campo das mais diversas áreas: teatro, canto, leituras encenadas, etc. Aliás, é forte a ligação de Maria Toscano à música, já que começa a estudar piano e acordeão em 1969 e mais tarde, em 1983, recebe mesmo aulas de canto. Apesar deste intenso labor, é na escrita que se tem vindo a afirmar, quer como colonista do semanário virtual “Incomunidade”, quer como colaboradora de várias Antologias de Poesia das quais destaco “O Prisma das Muitas Cores” que tive a honra de organizar, quer ainda na sua regular publicação poética: Maria Toscano tem, até ao momento, oito livros de poesia publicados.
Esta autora propõe-se apresentar-nos agora um ambicioso e original projeto intitulado “Poemas Do Sul”, obra que consta de cinco volumes correspondendo cada um deles a um Canto determinado e dotado de uma cor específica atribuída pela própria poeta. Convém aqui enfatizar o extremo bom gosto e o equilibrado design que subjaz a todo este projeto, que se ordena numa sequência de cinco “Cantos/Volume”: “Canto I. Da Terra”, ”Canto II. Das Marés”, “Canto III. Dos Sóis”, “Canto IV. Da Fala”, “Canto V. Do Branco”.
No primeiro volume destes “Poemas do Sul Em Cinco Cantos” predominam os poemas longos de verso curto, que é, aliás, uma das características da produção desta poeta, e onde esse mesmo verso curto chega, por vezes, a não ter mais do que uma palavra (Cf. pp 35-36 e pp 86-88). As estrofes, que podem chegar a alongar-se por uma/duas páginas, são, em certos momentos, entrecortadas por monósticos, dísticos ou tercetos, que nem sempre – e este é um dos aspectos interessantes desta tessitura poética! – desempenham, na estrutura poemática, um papel idêntico, assim, poder-nos-á surgir: um terceto com função enfático-conclusiva (p 20), um monóstico como reforço ou mero momento de respiração da leitura (p 10 e p 53), dois monósticos como momento introdutório à estrofe longa que se avizinha (p 52), enfim, são múltiplas as opções de Maria Toscano quanto a este recurso estilístico.
Esta poesia, apesar de possuir uma assumida tónica no sentido, recorre com frequência a jogos alicerçados na repetição de palavras ou até mesmo de cariz anafórico, como modo de adensar a musicalidade do poema:

das vezes que vos falei insisti
insistindo na pureza do sentir.
mãos brancas
passos firmes desbravando
o caminho insisti insistindo
na leveza do viver.
ombros amplos tronco erguido
insisti acolhendo os opostos
insistindo na sageza do ceder
insisti
insistindo na verdade do amor simples
do simples ser.

(p 21)

E aqui reside alguma da originalidade da obra de Maria Toscano, que advém do facto de ela conseguir uma voz própria mediante uma conjugação bem doseada de uma poesia “engajada” e de olhos postos no social (Cf. 124), pois é difícil ler-se este livro sem nos lembrarmos da poesia de Manuel da Fonseca ou, até mesmo, de outros poetas que permaneceram na sombra como Sidónio Muralha e Eduardo Olímpio, mas, e ao mesmo tempo, esse legado é inserido em procedimentos e olhares assumidamente modernos (Cf. pp 113-116, pp 121-125). Daqui resulta uma escrita circulando entre o enternecido peso da memória (são vários os poemas onde se fala de presépios, do pai, do musgo…) e o de um futuro almejado, muitas vezes geminado com uma certa veemência do dizer, não é, pois, por acaso que um dos versos alude a Natália Correia. No entanto, e convém ressalvar, o social de que se fala aqui não é o das grandes urbes com os seus rituais e desilusões, mas antes os pequenos aglomerados populacionais, as pequenas cidades, os montes semeados a eito, é de toda essa gente que- para além de falar de si própria – fala a poesia de Maria Toscano numa mescla de assunção e inconformidade:

falar-te, longamente, das brancas coisas do Sul…

começar pelos marcos a dar nome
às vilas a largos a ruas.
ou começar pela fachada lisa
caiada a preceito bordejada
de amarelos e, mesmo, de azuis
partilhando-se como preto de ferros
puxadores varandas e janelas.
abrir a meia-porta e confirmar
a cal perseverando lá dentro.
deixar-te, então, passar à frente
amiudando os cobres e os estanhos
brunidos areados luzidios
(…)

( p 105)

DIA NACIONAL DA CULTURA CIENTÍFICA | RÓMULO DE CARVALHO

24 de Novembro – DIA NACIONAL DA CULTURA CIENTÍFICA – INSTITUÍDO EM 1997 homenageando a figura de RÓMULO DE CARVALHO (ANTÓNIO GEDEÃO) (dia do seu nascimento) e divulgar o seu trabalho na promoção da cultura científica e no ensino da ciência.

Cristina Carvalho

dia nacional 550

as palavras mais simples | Gisela Gracias Ramos Rosa | lançamento

O livro “as palavras mais simples” de Gisela Gracias Ramos Rosa, será lançado no dia 5 de Dezembro, pelas 18h00 na livraria Pó dos Livros. O livro integra duas aguarelas do pintor Rui Paes e prefácio de Ricardo Gil Soeiro.

Ricardo Gil Soeiro e Maria Teresa Dias Furtado farão a apresentação do Livro.

Haverá​ percussões de Francisco Amaral e Daniel Brito.

aspalavras

Lettre de André Malraux à Louis Pralus | Un poète est un chercheur de trésors

26 septembre 1970

Cher Monsieur,

Comment voulez-vous être assuré de votre talent à vingt-trois ans ? Rimbaud était Rimbaud avant, sans doute ; mais Joseph Conrad, et Proust, et Balzac, et même quelques-uns des plus grands poètes ? La création est la même aventure dans le succès que dans la solitude ; le premier est plus agréable, c’est tout.

Cela dit, j’envoie votre poème à mes amis de la Nouvelle Revue Française, en leur demandant de vous répondre directement. S’ils le publient, tant mieux. S’ils ne le publient pas mais désirent rester en liaison avec vous, soit ; s’ils l’écartent, ça n’a aucune importance. La question se pose entre vous et vous. Un poète est un chercheur de trésors, et le seul “conseil” qui puisse lui être donné est : ne vous découragez jamais.

Veuillez croire à tous mes vœux pour votre destin, cher Monsieur, et à la grande sympathie que m’a inspirée votre lettre,

André Malraux

André Malraux (1901-1976) est l’un des écrivains les plus emblématiques de la littérature française. Bien qu’également aventurier et homme politique, il n’en oublia jamais l’état de grâce qui touche l’artiste lorsqu’il crée. A un jeune poète probablement découragé, il répond par une lettre empreinte d’espoir et de motivation. Un bel encouragement pour tous ceux qui rêvent de devenir les grands écrivains de demain !

Crepitação‏ | maria isabel fidalgo

 

 

Ao entardecer do estio, meu amor
no tempo das amoras trepadeiras
quando vacilava a luz do sol
as peias da paixão eram arteiras.

Crepitava junto à minha a tua boca
Fatia de maçã avermelhada
Suspirava na água a doce fonte
Ávida do cântaro que entornava

Ao redor de nós aloirava o azul
do éden macio, doce e farto
estendido no verde da lonjura

E no tule laranja do arrebol
Duas labaredas numa só
Ardiam em alarido de loucura.

maria isabel fidalgo

A VOZ DO VENTO CHAMA PELO TEU NOME | Soledade Martinho Costa

Se algum dia chegasse a libertar-me
Deste laço a tornar-me prisioneira
Voltaria de certeza a enlear-me
No teu braço que me traz nesta cegueira.

Tão certa do que digo e do que faço
Espero por ti parada frente ao tempo
Como um retrato antigo de menina
Com um bouquet de rosas no regaço.

Sem esperança de esquecer-te
E de encontrar-me
Meu coração aos pés
Da tua imagem
Sou a pedra que mora sob o rio
Mas com ele não parte de viagem.

E quando o dia morre na voragem
Das horas que se apressam sem retorno
Acendem-se as estrelas na paisagem
E a voz do vento chama pelo teu nome.

Soledade Martinho Costa

Do livro a publicar «Bragal»

HAJA AMOR E VIVA A TRAIÇÃO – TRISTE!!?! | Rui Sobral

O desejo tinha outro nome. Um nome vulgar. Um nome de fêmea. Ele acabara de se render a vontades escondidas em sonos vivos de noites passadas.
O pulso evidenciava um bater acelerado e ele, destemido, desabotoava o colarinho da camisa branca que a sua mulher havia engomado cuidadosa e carinhosamente. Ele, ornamentado com ela – a camisa branca engomada pela sua mulher, estava prestes a cometer adultério.
Sete fugazes minutos depois, os sexos encontravam-se, os suores e os odores perpetuávam o pecado. As salivas, num júbilo cru e sem igual, escorriam daquelas bocas sedentas de carne.
Ele, enobrecendo o selvagem que há em cada um de nós, consumou o acto e no fim, a deslealdade já estava tatuada na sua pele.

Na essência do Homem – como animal que é, o respeito ao companheiro de vida é coisa inaceitável. Entenda-se que o erro está no compromisso através da palavra – dita ou escrita. No universo dos casais – géneros à parte, as promessas de fidelidade e respeito ímpares não coincidem com a realidade da nossa identidade. Nós, homens e mulheres, somos animais e sim, é possível ser fiel ao sentimento “amor”. Simplesmente é contranatura.

A traição acontece. De forma propositada ou inconscientemente elevada ao expoente maior do desejo, a traição acontece. Não se procurem razões, não se procurem evidências. Fim às culpabilizações! Há que aceitar que o nosso ADN celébra a satisfação e que o sexo é sujo – haja amor ou não, e que o desejo também é matéria instintiva. Por mais que se queira mascarar prevaricações, a ansiedade é coisa patente na problemática da libido.

De verdade, o amor também acontece e é estupidamente belo. Louco. Eis a analogia: no sentido literal do amor, o respeito é consequência eminente e a falsidade é antónimo do respeito. Sendo a falsidade o pai e a mãe da infidelidade, trair é não respeitar, portanto, quem trai não ama e quem ama não trai.
Coisa chata, esta do sentido literal.

É possível amar. Amar faz bem a quem ama e a quem é amado. É possível ser fiel. É possível respeitar mas muitos, senão todos, sucumbam à inconfidência. Sucumbem à batota.
Para amar é preciso negar os desejos naturais que carregamos em sonos todas as noites.
Que a inglória satisfação do ser não nos arranque do leito da mentira.

Rui Sobral

Natureza morta com lapas | Domingos da Mota

Pediste a demissão, e já foi tarde,
pois demoraste muito, mas lá foste
embora do lugar como quem arde
(e mesmo que a saída não desgoste

a tantos dos que estão de pedra e cal
agarrados ao poder, como se lapas,
sem cuidar de saber se fazem mal,
julgando-se Messias, mais que Papas);

gravadas as razões por que bateste
com a porta na cara, a contragosto,
nas tintas para aquilo que disseste,
a história exporá talvez do rosto

que esconde, por detrás do desapego,
o cenho dum brutal desassossego.

Domingos da Mota

AS FLORES NASCEM DEVAGARINHO, ÀS TRÊS DA TARDE | (UMA FÁBULA MODERNA E LIBERAL) | António Garcia Barreto

Esta é a história de um hipopótamo com soluços e de um elefante com cócegas. Mas não pensem que é uma história infantil. Ou talvez seja. É muito difícil separar o verde da verdura. Quando a contei a mim próprio coloquei-a na categoria de fábula moderna e liberal. Mas essas classificações não interessam nada. O que interessa é que tanto o hipopótamo como o elefante nasceram em África, à esquina de um acaso e num dia de poeiras vermelhas, num parque que dá pelo nome de Gorongosa. Nasceram no mesmo dia, mas longe um do outro.
A infância deles decorreu de forma simples e despreocupada. Ao chegarem à idade de tomar decisões na vida resolveram procurar emprego no zoo de uma grande cidade. De África todos emigram e eles não queriam ser exceção. Tinham ouvido falar na América, como sendo a terra de todas as promessas, as cumpridas e as outras. Por isso, nem pensaram duas vezes. A verdade é que tendo nascido ambos na Gorongosa não se conheciam. Apenas durante a viagem tiveram essa oportunidade. Uma oportunidade que deu para ficarem amigos para sempre, que é o verdadeiro espírito da amizade.
De África para a América a distância não é grande, embora seja sempre a subir. No caso deles, foi a distância que levou um hipopótamo a descobrir que tinha soluços e um elefante a ficar minado por crises de cócegas. Perceberam? Nem eu. Mas com o tempo lá iremos.
— O que vais fazer para a América? — perguntou o hipopótamo, que se chamava Belarmino Perna Curta, no intervalo de uma crise de soluços.
— Vou à conquista da felicidade — respondeu o elefante, que dava pelo nome de Carlinhos Tromba Grande, enquanto descansava de um ataque de cócegas.
— A felicidade conquista-se? — tornou o primeiro.
— Dizem que sim. Mas não sei como. Se for com a tromba podem contar comigo. De resto… — respondeu o elefante.
— Nisso estás em vantagem. Tromba não te falta.
— Também me disseram que posso ser guarda-costas ou porteiro numa discoteca. Parece que gostam de tipos grandes e trombudos.
— Outra vantagem para ti — assegurou Belarmino Perna Curta.
— E tu, o que pensas fazer?
— Bom, ao certo não sei. Disseram-me que na América se pode fazer tudo. Há oportunidades para todos. Podemos divertir-nos, trabalhar, estudar, sei lá que mais.
— Na América os animais também estudam?
— Dizem que sim. Até os burros vão à escola.
— Deve ser um grande país! — imaginou Carlinhos Tromba Grande.
— E tu não sabes o melhor… É de espantar!
— O que é? Conta.
— Disseram-me que na América as flores nascem devagarinho, às três da tarde.
— Não acredito! Quem te contou isso?
— Foi um urso poeta.
— Bom, os poetas às vezes dizem coisas difíceis de acreditar.
— Mas na América tudo é possível, não é?
— Parece que sim.
A conversa desenrolava-se com facilidade entre os dois. Sobretudo, quando se encontravam à beira da piscina do navio num momento de lazer. Era a felicidade completa. Ou quase. Sentiam-se como se estivessem em casa, nas margens de um rio ou de uma lagoa, tranquilamente a conversar. Porque ao contrário do que é corrente hoje em dia, em viagens transoceânicas, não utilizavam o avião, mas o barco. Ambos tinham medo das alturas.
Daquele lugar próximo da piscina também podiam assistir a um pôr-do-sol idêntico aos de África. Tudo isso aprofundava a amizade. Tinham tempo de sobra para conversar. Os únicos problemas eram os soluços e as cócegas. Muito desagradável e cansativo. Quando menos esperavam declaravam-se os ataques de soluços e as crises de cócegas.
— O que será que nos espera na América? — questionou Carlinhos Tromba Grande, sem esconder alguma ansiedade.
— Só pode ser um grande futuro — considerou Belarmino Perna Curta. — Disseram-me que na América é tudo em grande. Os animais sobem tão alto que até um gorila chamado King Kong conseguiu aparecer no topo de um arranha-céus. Ouviste falar?
— Sim, tenho uma vaga ideia. Mas isso foi há muito tempo. Agora como será? — tornou Carlinhos Tromba Grande.
— Há-de ser ainda melhor — respondeu Belarmino Perna Curta, sempre optimista e esperançoso. — Anseio pelo dia em que possa ver as flores nascerem devagarinho, às três da tarde. Deve ser fabuloso. Em África não há nada disso.
— Pois não, é tudo mais natural… — respondeu o amigo, um tanto distraído.
— Será que lá têm cenouras? Adoro mastigar molhos de cenouras, calmamente — volveu Belarmino Perna Curta.
— Cenouras? Deve haver. Na América há de tudo. Se há hambúrgueres aos molhos também tem de haver molhos de cenouras. E também deve haver rebentos de acácia. Gosto muito de rebentos de acácia. É um manjar dos deuses — disse Carlinhos Tromba Grande.
A viagem foi decorrendo sem novidade. Os dois amigos levavam o dia na conversa e a tomar banhos na piscina do navio. Belarmino Perna Curta queixou-se de não terem um pouco de lama para se espojarem. Era preferível àquelas espreguiçadeiras de lona muito desconfortáveis. Mas não se podia ter tudo. Carlinhos Tromba Grande concordou. Afinal, dali a dias estariam a desembarcar na América e poderiam ter o que quisessem. Molhos de cenouras, rebentos de acácia, lama para a higiene diária e água para fazer chuveirinho. Era disso que Carlinhos Tromba Grande gostava.
— Será que o trabalho no zoo vai ser muito difícil?
— Acho que não. Disseram-me que existem máquinas para tudo. E quase todas computadorizadas. Nós só temos de carregar em botões. As máquinas até pensam por nós — respondeu Belarmino Perna Curta com o seu proverbial optimismo.
— É maravilhoso!
— De qualquer modo, deve ser preciso trabalhar!
— Sim, claro. Mas a fazer o quê?
— Não sei. Por mim, quando não tiver trabalho, vou ver as flores nascerem devagarinho, às três da tarde — repetiu Belarmino experimentando um ar sonhador.
— Estou preocupado com uma coisa — interrompeu Carlinhos.
— Com o quê?
— E se me dá um ataque de cócegas quando estiver a trabalhar? Toda a gente se vai rir. Posso ser despedido.
— E eu? Posso sofrer um crise de soluços. Vai ser o diabo — considerou Belarmino, que pela primeira vez se sentiu desanimar.
— Não nos vamos preocupar antecipadamente. Na América existem com certeza médicos especialistas em doenças de soluços e de cócegas.
— És capaz de ter razão — reconheceu o amigo, de novo animado. — Em África é que não há médicos dessas especialidades.
— Em África é tudo mais natural.
— Tu achas que em África a vida podia ser tão fabulosa como dizem que é na América?
— Acho que sim. Desde que não houvesse diamantes, minas de ouro, petróleo, marfim, peles de leopardo e de crocodilo, caça grossa… Essas coisas naturais.
— Tenho de te dar razão. Nunca tinha pensado nisso.
Conversa e mais conversa, soluços e cócegas, piscina e sonhos, chegou o dia em que a América foi ter com eles ao navio. Ao largo, e antes mesmo de atracarem, puderam logo ver como ela era. Arranha-céus encostados uns aos outros e, pelo meio, umas ruas onde circulavam milhares de automóveis em filas compactas. Circular é palavra excessiva, visto que muitas vezes o trânsito estava preso em enormes filas à espera que o semáforo fechasse o olho vermelho e abrisse o olho verde. Pelas avenidas, umas criaturas pequeninas corriam de um lado para o outro muito atarefadas, sem sorrisos, com auriculares enfiados nas orelhas e ténis nos pés. E outros de pasta na mão como andam os doutores e os cobradores, que cada um nasce para o que nasce, segundo dizem os doutores — e os cobradores aceitam — porque os doutores é que sabem.
— Grande terra! — comentou Carlinhos passando a tromba pelas abas das orelhas, a coçar-se. — Mas as pessoas andam um pouco tristes, não achas?
— É porque ainda é muito cedo. Estão cheias de sono. Ninguém consegue sorrir com sono.
— Pois não. Com sono só se consegue dormir.
— Quem estará à nossa espera no cais? Disseram que vinha alguém esperar-nos.
— Vem com certeza. Eles têm tudo planeado.
— Olha, além. Está uma banda a tocar. É a comissão de boas-vindas. Welcome, parece que é como se diz na América — falou Belarmino pondo-se em bicos dos pés, imitando um bailarino em exercício de pontas.
— Estás a ver mal. É por causa de seres curto de pernas. A banda está a tocar, mas não é pela nossa chegada. É na despedida de um batalhão militar que vai para a guerra.
— Pois é, daqui não vejo bem. Mas ainda há guerras?
— De vez em quando fazem umas para entreter. Na Ásia e no Médio Oriente estão sempre a acontecer. Em África, também. Já não te lembras?
— Sim, claro. Mas a viagem foi tão boa que até me esqueci disso.
— Pois é. Viagens em paquetes de luxo fazem esquecer muitas coisas, amigo Belarmino Perna Curta.
Entretanto, desembarcaram. Ao contrário do que lhes tinham garantido ninguém os aguardava no cais. Mas alguém comentou, logo ali ao lado, que o elefante Carlinhos Tromba Grande possuía umas óptimas presas de marfim. E de imediato outro acrescentou que o hipopótamo Belarmino Perna Curta também tinha uns bons incisivos de marfim. E uma pele belíssima, muito apreciada para malas e outros apetrechos de moda.
— Têm os olhos postos em nós — sussurrou Belarmino.
— Os olhos e as ideias — replicou o amigo.
— E agora o que fazemos? Sem alguém à nossa espera, para nos guiar, tudo se complica.
— Vamos tentar saber onde fica o zoo. Não temos outro remédio.
— Estou desejoso de ver as flores nascerem devagarinho, às três da tarde.
— Sim, mas primeiro temos de dar com o zoo. Precisamos de trabalhar.
— Tens razão. O melhor é irmos à vida.
E foram. Logo seguidos por uma multidão de repórteres que acharam estranho ver desembarcar de um navio um hipopótamo e um elefante. Para mais com as presas de marfim intactas. O que é que eles estariam a fazer na América? Um dos repórteres, de gravador em punho, perguntou:
— Qual a razão da vossa vinda para a América?
Belarmino Perna Curta, que não era tolo, respondeu de imediato:
— Só revelo as razões da nossa presença se me disseram em que local nascem flores devagarinho, às três da tarde?
— Como? — ouviu-se em uníssono.
— O local onde nascem flores devagarinho, às três da tarde — repetiu ele com vivacidade.
— Nascem no alto do Empire State Building — respondeu outro repórter — um tipo que julgava ter piada — de boné enfiado na cabeça, com a pala virada para trás.
Mas os dois amigos não ligaram à provocação e foram à procura do zoo, sempre perseguidos pelos repórteres, até que se conseguiram ver livres deles. O pior é que ao fim de alguns dias de desespero não encontraram emprego. No zoo disseram-lhes que não tinham firmado qualquer contrato para exibir um hipopótamo e um elefante. Devia ser um lamentável engano. Ficaram surpreendidos. Surpreendidos e sem dinheiro. Durante dias não comeram nada, o que estava a deixar os dois amigos à beira de uma fraqueza muito perigosa. Molhos de cenouras? Rebentos de acácia? Onde encontrá-los? E como pagá-los?
— Acho que fomos enganados — reconheceu Carlinhos, a coçar-se com as unhas rentes da pata direita.
— Deve ter sido um lamentável engano — disse Belarmino, aos soluços.
— E agora, o que fazemos?
— Não sei. Mas quero ver as flores nascerem devagarinho, às três da tarde. Disso não abdico.
— Antes que o consigamos fazer morremos de fome. Já sinto uma grande lassidão no corpo.
As cócegas não desistiram de provocar Carlinhos Tromba Grande e os soluços rebentavam a meio do tórax de Belarmino Perna Curta, como pequeninas bombas de efeito retardado. Sentiam-se desanimados, enervados, esfomeados, cansados. Foi então que surgiu um homem alto, enfiado nuns calções, envergando uma t-shirt onde estava escrita a frase GOD SAVE AMERICA. Na boca apertava um enorme charuto e na cabeça usava um chapéu de abas, do tipo cowboy. Ao ver os dois amigos, um atormentado com os soluços e o outro desesperado com a coceira, pareceu ter compaixão deles. Quis saber o que andavam a fazer. Depois de escutar as explicações apresentadas pelos dois amigos, concluiu que a presença deles naquele local só podia ter sido um lamentável engano. A América estava cheia de lamentáveis enganos, acrescentou com um ar pesaroso, substituindo a mastigação do charuto por uma mão cheia de pipocas que retirava de um enorme cartucho. Cheio de boa vontade propôs-lhes um negócio.
— Sou um homem muito rico. Tenho muitas propriedades e dois netos que precisam de distracção. Eles adoram animais e há muito que me pedem um elefante e um hipopótamo para brincarem. Quando souberem que um de vocês tem cócegas e, o outro, soluços, ainda vão adorar mais. Ofereço-vos cama, comida, roupa lavada e passo-vos um cheque de centenas de dólares no final de cada mês. Aceitam?
Os dois amigos entreolharam-se. Pediram desculpa para trocarem umas palavras antes de darem uma resposta definitiva. Belarmino Perna Curta perguntou ao americano:
— Têm molhos de cenouras?
— Às carradas!
— E rebentos de acácia? — foi a vez de Carlinhos Tromba Grande perguntar.
— Às toneladas!
— Eu não te disse? Aqui na América é tudo em grande — sussurrou Belarmino.
— Aceitamos! Mas com uma condição: queremos uns dias de férias para ir ver as flores nascerem devagarinho, às três da tarde.
— Como?
— Uns dias de férias para ver as flores nascerem devagarinho, às três da tarde… Apre!
— Ah! sim, com certeza! — concordou o homem com um grande sorriso, que o charuto incendiava.
Felizes com a oportunidade surgida, os dois amigos seguiram o homem de charuto, que usava chapéu à cowboy e vestia calções, que era muito rico e tinha dois netos que queriam brincar com um elefante e um hipopótamo. Ao fim do dia chegaram ao rancho e logo constataram que era maior que alguns países. Após tomarem um revigorante banho, comerem carradas de molhos de cenouras e toneladas de rebentos de acácia, os dois amigos adormeceram, cansados, mas felizes. Belarmino Perna Curta sonhou com as flores que nasciam devagarinho, às três da tarde e que ele nunca tinha visto. Carlinhos Tromba Grande não se lembrava de ter sonhado, tal era o seu cansaço. Do que não tinham dúvidas é que ao acordarem, pela manhã, nenhum deles tinha as presas de marfim. Sentiam que as suas bocas não lhes pertenciam. Era com se fossem um pedaço de cortiça. Uma sensação estranha. Muito estranha. Na sua frente, entretanto, apareceu o homem do charuto, com um sorriso tão grande na cara que ofuscava o sol. Parecia que todas as vitórias do mundo eram suas.
— Então, dormiram bem?
— Dormimos. Dormimos muito bem. A sua casa é um hotel de luxo. Mas onde estão as nossas presas de marfim?
— As presas? Quais presas? Ah, sim, pois claro. Que será feito delas? Se calhar foram assaltados durante a noite. Andam por aí bandos de malfeitores. Sugiro que contratem dois guarda-costas. E um detective particular para investigar o paradeiro das vossas presas. Por acaso, conheço pessoal muito habilitado. Se tiverem interessados não se acanhem. Estou à vossa disposição. Bom, mas aquilo que vos queria dizer é o seguinte: afinal prescindo dos vossos serviços. Os meus netos agora preferem brincar com uma águia e um puma. Sabem como são as crianças… Mudam de ideias a toda a hora.
Os dois amigos não queriam acreditar no que ouviam.
— E agora, o que vamos fazer?
— Não se preocupem. Trabalho é o que não falta na América!
— Já agora pode dizer-nos onde nascem as flores devagarinho, às três da tarde? — insistiu Belarmino com o olhar mais desanimado da sua vida.
— Como? Ah! sim, as flores… claro. Bem, isso é tudo publicidade, meus amigos! Tudo publicidade! — exclamou, a sorrir com um dente de ouro e o charuto na boca.
— Deve ter sido um lamentável engano — suspirou Carlinhos.
— Sim, um lamentável engano — concordou Belarmino.

António Garcia Barreto

Uma menina está perdida no seu século à procura do pai | Gonçalo M. Tavares

“… é uma multidão, é um exército que estamos a formar e não se trata aqui de pegar em armas, eu tenho uma arma na minha bagagem, mas não é disso que se trata, não queremos que as pessoas peguem em armas, pelo menos para já, queremos que as pessoas tenham boa memória, vejam pormenores, ganhem uma certa raiva que deve ser contida, controlada, concentrada, para mais tarde sair com mais força, mas no momento certo, em sincronia com milhares de outras tensões concentradas durante anos – trata-se de aumentar a raiva individual, mas ao mesmo tempo controlá-la, dizer; ainda não, chegará o momento, mas ainda não.”

Gonçalo M. Tavares

Finnegan’s List 2014 | Gonçalo M. Tavares recommends

Agustina Bessa-Luís, A Sibila (The Sybil), Lisbon: Guimarães
Editores, 1954.
Translated into German, French, Italian, Romanian and Spanish.
Vergílio Ferreira, Em nome da terra (In the Name of the Earth),
Lisbon: Bertrand Editora, 1990.
Translated into Catalan, French and Spanish.
Carlos de Oliveira, Finisterra (Finisterre), Lisbon: Livraria Sá da
Costa/Assírio & Alvim, 1978.
Translated into French, Italian and Spanish.

 

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Gonçalo M. Tavares (born in 1970 in Angola) made his literary
debut in 2001 and is one of the foremost contemporary
Portuguese writers. His work embraces diverse literary forms
including drama, poetry, short prose, novels and essays. One
of his most famous works is a series of four novels entitled O
Reino (The Kingdom), one of which, Jerusalem, won the José
Saramago Prize in 2005. His short prose cycle O Bairro (The
Neighbourhood) is inhabited by famous protagonists taken
from literary history, amongst them, Italo Calvino, Bertolt Brecht
and Paul Valéry. Tavares’ books have been widely translated
around the world and he has received many national and
international literary awards. Besides his work as a writer, he
teaches epistemology at the University of Lisbon.

O Organista, de Lídia Jorge

Como a própria definição o diz, o vazio é um lugar onde não existe nada, mas no interior do qual se espera venha a acontecer tudo.

Assim começa o mais recente livro de Lídia Jorge. A expectativa criada ao iniciarmos uma nova leitura também é da mesma natureza. Esperamos que todo um universo se materialize aos nossos olhos de leitor. Mas quando abrimos este livro de fina espessura, nenhuma expectativa lhe fará jus. Ninguém está preparado para a música que se desprende deste órgão.

Está escrito no Génesis que Deus, ao contemplar a obra criada, achou que tudo era belo. Talvez a chave de toda a criação seja essa passagem do caos ao belo, a multiplicação infinita do belo e a música que preenche o vazio de matéria à altura daquilo que era esperado desde o início. Sob esse desígnio, a criação toma o seu lugar, sem pauta ou recurso a outro tipo de memória. No início, o vazio chamou o órgão e, por que os dois juntos não eram nada, chamaram o homem e, por que os três juntos permaneciam incompletos, chamaram a mulher. A música primordial foi a do homem e da mulher.

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Gallimard escolhe Porto Editora


Romances mais recentes de Patrick Modiano serão publicados já no próximo ano na Portp Editora.

A editora francesa de Patrick Modiano, Éditions Gallimard, detentora dos direitos da obra do escritor, escolheu a Porto Editora para publicar em Portugal L’herbe des nuits e Pour que tu ne te perdes pas dans le quartier (títulos originais), os romances mais recentes do Prémio Nobel da Literatura 2014. Estes livros serão publicados no primeiro semestre de 2015. Logo em janeiro, a Porto Editora lançará ainda uma nova edição de Dora Bruder, um dos títulos mais emblemáticos da sua obra.
Considerado hoje um dos mais importantes escritores franceses, Modiano foi distinguido com o Grande Prémio Nacional das Letras e com o Prémio Nobel de Literatura «por essa arte da memória com a qual evocou os destinos humanos mais inacessíveis e nos revelou a vida quotidiana sob a Ocupação».
A Porto Editora publicou já os livros O Horizonte, que vai neste momento na sua 3.ª edição, e As Avenidas Periféricas, distinguido com o Grande Prémio de Romance da Academia Francesa, que chegou recentemente às livrarias nacionais.

Porto-Editora-Patrick-Mondiano