SOBRAS TU | Carlos Bondoso

 

 

sobra-me a força do pensamento
não amo mulheres defuntas
perderam o perfume o sangue e o lume
nas cadeiras vazias das manhãs cinzentas

já não cheiro o tempo
morreu a novidade
nas cinzas da terra queimada

sobras tu
mulher dos sóis e do vento
que me consomes a ira
os sonhos e a força do pensamento

POR CFBB

RITUAIS DO NATAL – A PRESENÇA DOS AUSENTES | Soledade Martinho Costa

Festa da família, da comunhão e da congregação familiar, tempo de reflexão, de concórdia e de amor, o Natal representa também a ausência e a recordação dos familiares que já não se encontram entre nós. Daí, a alegria própria desta quadra ser atenuada por um sentimento de nostalgia, de saudade e tristeza, reconhecido em diversas práticas que têm lugar nesta data, algumas vindas da Antiguidade, a lembrar rituais pagãos efectuados no solstício do Inverno, relacionados com o culto dos mortos, posteriormente perfilhados e integrados no conjunto das celebrações da Igreja Católica em louvor do nascimento de Cristo.

Dessas práticas e costumes, que relacionam a própria ceia da família com anteriores ritos associados ao culto dos defuntos em épocas remotas, ressalta a crença popular de que «os mortos da família regressam na noite de Natal à casa que habitaram em vida para participar na reunião familiar e tomarem parte na Consoada».

Em certas localidades do Alto Minho, continua a manter-se o hábito de colocar-se um talher na mesa «destinado à pessoa da família falecida em data mais recente». No Norte, dispunha-se numa outra divisão da casa uma pequena mesa «com a duplicação da ceia, consagrada aos familiares desaparecidos». Outras vezes, deixava-se «do lado de fora da porta da casa, à meia-noite da noite de Natal, um prato com um pouco de tudo de que se compunha a Consoada, levando-se uma luz para que as almas, vindas na figuração de borboletas brancas ou negras – conforme fosse bom ou mau o seu lugar – pudessem ver o que a família lhes destinara».

Ainda há pouco tempo, na região do Barroso, era hábito evocar o nome dos familiares falecidos antes de se dar início à ceia de Natal. Noutras localidades do nosso País – incluindo Lisboa – a mesa da Consoada fica posta, por vezes, desde o Natal até ao Ano Novo. Costume baseado na crença de que «os mortos da família estão presentes durante a quadra natalícia», crença que persiste em Ousilhão, Vinhais. A mesma intenção faz com que em certas regiões «não se levante a mesa da Consoada até à manhã do dia de Natal», ou, no caso de levantar-se, «voltar a colocar-se sobre ela algumas iguarias, para que as almas que apareçam mais tarde encontrem de comer» (numa outra versão «para os Apóstolos virem comer»).

Em diversos países da Europa (Espanha, França, Inglaterra), deixava-se o fogo aceso na noite de Natal e reservava-se um lugar à mesa da Consoada destinado «ao Menino Jesus». Com intenção piedosa colocava-se ainda sobre a mesa leite ou cera destinados às almas e acreditava-se que «nessa noite os fantasmas não deixavam de aparecer».

A convicção de que em certas datas festivas, como o Natal, se deve comer filhoses ou outras espécies alimentares fritas, leva, igualmente, a que entre nós, em diversas localidades, associada a essa crença, se conserve a praxe de fritar nesses dias em azeite «algumas folhas de oliveira, para que as oliveiras fortaleçam», representando esta prática «um ritual mágico de excomunhão dos elementos maléficos ou nocivos que infestam por esta altura as árvores e a natureza».

Estes princípios poderão, eventualmente, estar relacionados com o facto de a abóbora (com a qual se fazem as filhoses) se encontrar associada aos ritos propiciatórios do culto dos mortos (geralmente como máscara usada nas figurações humanas). Daí, provavelmente, a razão da sua utilização em praxes rituais ligadas aos manjares cerimoniais do Natal e de outras quadras festivas, empregue nas suas diversas variedades: abóbora-botelha (cabaça); abóbora-moganga (menina); abóbora-jerimu (amarela) e abóbora-chila (anã) – quer em doces, papas ou filhoses.

Outra praxe referente ao culto dos mortos (caída em desuso) observava-se no costume de se espalhar palha no chão da sala, principalmente na cozinha, enquanto a lenha ardia na lareira, cobrindo-a depois com mantas sobre as quais se deitavam e dormiam os membros da família até de manhã, deixando, assim, desocupadas as suas camas «para nelas poderem repousar os seus familiares defuntos que tinham vindo de visita a casa».

O ritual da palha – colocada ainda hoje depois da ceia, junto da lareira, em muitas casas das nossas aldeias – resultará da explicação de «Jesus ter nascido sobre as palhas na manjedoura de Jerusalém» – palha que só deve ser retirada do chão na noite do dia 25. Esta praxe verificava-se noutros países da Europa, como a Suécia e a Dinamarca.

O azevinho, planta alusiva ao Natal, encontra-se, igualmente, ligado ao culto dos mortos, por ser com ele que noutros tempos se enfeitavam as campas na quadra natalícia. Localidades há, onde ainda se visitam as campas dos familiares na véspera de Natal, para nelas deixar um ramo de azevinho.

À noite, quando colocado sobre a mesa da Consoada, simboliza «o espírito da reunião familiar» e a «celebração da união da família».

Soledade Martinho Costa

Do livro “Festas e Tradições Portuguesas”, Vol. VIII
Ed. Círculo de Leitores

OUTROS NATAIS | Soledade Martinho Costa

 

 

Onde a magia dos Natais de outrora
O presépio dos olhos da infância
São José, a Virgem, o Menino
Figuras modeladas, quase gente
A mostrar-se ao espanto dos pastores que vinham
Em fila pelo musgo dos caminhos
Para ofertar cordeiros e presentes.

Onde a azáfama do rumor das mãos
Nos alguidares de barro onde a farinha
A abóbora, os ovos, o fermento
Tomavam forma e gosto tão distantes.

Aonde o sono arredio que não vinha
Nessa Noite Sagrada em que os pinheiros
Choram saudades de bosques e de estrelas
Sob a caruma de luzes e de enfeites.

Onde o mistério que seguia os passos
Dos adultos no ranger das tábuas
Em nossos passos furtivos de criança
Na ânsia de encontrar em qualquer canto
De barbas e de saco o Pai Natal.

Quantos Natais assim em que a Família
Se reunia inteira à grande mesa
Da sala de jantar tão velha e gasta
Que por magia nessa noite remoçava
A transformar em cristal os vidros baços.

Quantos presépios retidos na memória
Quantos aromas ainda a Consoada
Quantos sons a deixar nos meus ouvidos
Os risos, os beijos, os abraços.

Quantas imagens cingidas na penumbra
Desta lembrança que se fez saudade
Dos rostos, dos gestos, das palavras
Na lonjura das vozes e da Casa.

Noite Divina em que torno a ser criança
Ante o meu olhar adulto e me desperto
Na emoção que nos traz os anos:

O meu Natal é hoje mais concreto
Mas muito menos belo e mais deserto.

Soledade Martinho Costa
Do livro a publicar «Bragal»

O Dia em que Estaline Encontrou Picasso na Biblioteca, de Alice Brito

O novo romance de Alice Brito, que se estreou com o poderoso As Mulheres da Fonte Nova, é sobre o passado e o presente que lhe não pode fugir: «O passado não é inocente», como diz um dos personagens em carta à sua neta. Entre o passado e o presente, assim se situa este livro cuja acção decorre em Setúbal e noutras geografias cúmplices, próximas e distantes. As personagens parecem avisar-nos que ninguém escapa brinca connosco…

Nas livrarias: Março. Uma edição da Planeta.

alice brito

 

Poema de Natal | Domingos da Mota

 

 

com que a vida resiste, e anda, e dura

Pedro Tamen

 

Não digo do Natal – mas da natura
de quem faz do poder um pesadelo
que aprofunda as sementes da amargura
através do garrote e do escalpelo;

não digo do Natal – mas da tortura
que macera as feridas com desvelo,
impassível à dor que já satura
os ombros causticados pelo gelo;

dissesse do Natal – seria bom
que pudesse cantar, subir o tom
das loas e dos hinos e dos ritos,

se em vez duma esmola, tão-somente,
renascesse o respeito pela gente
que povoa o Natal dos aflitos.

Domingos da Mota

[revisto]

Querida Mãe Natal | Maria Isabel Fidalgo

 

 

Aí onde estás não entre as renas
mas vestida de estrelas soalheiras
-espaço estelar onde o espírito cintila-
nas palavras escritas que me ditas
faz-me ser se possível for essa proeza
ser eu cada vez mais a filha tua
à altura da pessoa do teu nome
e no Amor lavado com que me vestias
no dia a dia que por o ser
era sempre Ano Novo.
Não deixes esmorecer a tua Bela
para ti sempre vela natural
e incendeia de chama brasa
luz de ti
a braseira da minha alma de NATAL.

BAR NEGRO | António Bondoso

um olhar que rasga o perfume denso
deste bar
chega pela noite
e nele viaja o sentido do amor

são os teus olhos
que se projectam
na minha luta interior
e que espreitam a minha mente delirante

bar negro e de fetiches
fumos azedumes
sensualidade vinhos
e costumes

espreitam uns olhos com desejos
são os teus
que marcam os sentidos
e a forma do silêncio

bar negro e de fetiches
vinhos e costumes
em passos lentos
nos retiramos

POR CFBB

TIROCINIOS DE MIM | Rui Sobral

A minha alma é um barco, de madeira, onde embarcam pecados e saudade, tristeza e recados de vidas mortas, de vidas bêbadas e atribuladas. A minha alma é podre, mas tão podre que chega a assustar, é um tormento permanente, uma ferida aberta e constante, uma inteira labareda ardente de destino e azar e uma vasta labareda apagada de amor e sorte…
A minha alma está repleta de sonhos e ideias pintados a lápis de cor por gente que não nasceu e já está morta, vivendo em mim. Os meus sonhos são coloridos a preto, irreais, de variadas formas e odores, vivo neles e acordado neles vivo e de noite, quando o cansaço me permite dormir, sonho com os pesadelos das minhas tristemente dolorosas vivências dos meus dias! O meu viver, já por si, é irreversivelmente triste…
É um viver que enoja ao frustrado, digo meia dúzia de palavras de dicionário, um falar singelo e uma mentira que me assombra, a minha alma é um peso que nenhum ser alguma vez teve, é uma alma de pedra, confusa, atribulada, pronta e em alvorada e carregada de sonhos vividos por outros que nem conheço…

na obra “a nu” de Rui Sobral

AMEDEO MODIGLIANI ( 1884 – 1920) | Cristina Carvalho

Sabe-se de quem e onde nasceu, onde viveu, as doenças que teve e que foram uma das marcas da sua vida; há o conhecimento de algumas das suas mulheres, dessas que também foram doença. Mulheres de paixão como os relâmpagos intermitentes ou cometas apagados, antigos, quase extintos.

Escrevi sobre ele. Sai em 2015 pela Planeta Manuscrito.

Cristina Carvalho

Nove Mil Passos – Décimo Aniversário

No décimo aniversário do lançamento de Nove Mil Passos, de Pedro Almeida Vieira, a Planeta lança uma nova edição revista e com prefácio de Miguel Real.

Num texto muito apelativo, Miguel Real enquadra a obra de estreia de PAV no panorama do romance histórico português e no contexto da obra do autor, podendo hoje, com segurança, realçar a maturidade já então demonstrada na sua escrita. Trabalhando com rigor a arte do romance histórico, PAV oferece-nos sempre um narrador imprevisto e dotado de um sentido de humor vivo, contribuindo, desse modo, para conferir ao romance um pendor fantástico.

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Raimundo | Conto I | Colectivo Nau | Cristina Drios

Dizem que Raimundo conhecia muito mundo. Eu, com toda a sinceridade, não tenho assim tanta certeza. O lugar dele, aqui ao lado, está agora vazio e é fácil dizerem coisas, aqueles que não privaram e não o conheceram como eu o conheci. Continuam a passar para cima e para baixo, de bata branca, a espreitar pela porta entreaberta e a perguntarem-me se estou bem, sorrindo. Levaram-no hoje de manhã, embrulhado num lençol, e já estava frio. Que morrera, soube-o eu quando, de madrugada, deixei de lhe escutar a respiração. Como Raimundo se foi, nem reparam, mas eu já saí daqui, também já cá não estou.
Eles pensam que não, vêem-me sentado, a tamborilar os dedos, a minha cabeça a rodar devagar, as mangas da camisa enroladas acima dos punhos e os pés magros enfiados nos chinelos. Mas eu engano-os bem porque já cá não estou, estou muito para além das grades da janela, ao sol, num campo florido, do outro lado da rua, do outro lado do mundo. Farto-me de viajar, às vezes de olhos fechados, quase sempre de olhos bem abertos.
Subo uma ladeira em Valparaíso, navego no lago Inlé, escalo os píncaros do Evereste, sigo uma caravana no Sahara. Vi fotografias desses locais nos livros do Raimundo. O Raimundo, esse, nunca me queria acompanhar, tinha sempre imenso que fazer, dizia-me. Por isso afirmo, não sei se conhecia muito mundo embora passasse quase todo o dia, embasbacado, em frente de um televisor silenciado. De resto, só sei que nasceu na Cuba, a alentejana, não em Cuba, a do Fidel, o que, ao longo dos anos, se prestou à mesma piada estafada.
Eu sim, saía daqui, já cá não estava. Saía às cavalitas, de cavalo, camelo, burro, elefante, às escondidas. Só os meus olhos sorriam: engano-os a todos. Engano-os duplamente: primeiro porque julgam que cá estou e não estou, depois porque julgam que me comporto bem – sempre calado e quieto – e na verdade não quero saber (mesmo) nada disto.
“Então, Josué, como se sente hoje?” A mulher fala naquele tom morno de quem encontrou areia na praia. Chateia-me imenso, não a pergunta em si, coitada, uma pergunta perfeitamente aceitável, atendendo-se ao contexto. O que me aborrece é que cada vez que entra alguém, que me chega uma pergunta, sou obrigado a suspender a minha viagem e a regressar.
Esse regresso tem necessariamente de se processar de uma forma muito, muito rápida e sem qualquer hiato. Volto a velocidades supersónicas e, de imediato, estou de novo aqui sentado, na minha amiga cadeira de trinta e seis anos que já ganhou a forma do meu rabo, a dizer, porque não tenho mesmo mais nada para dizer à mulher, “ai sim?”
Quando não sou suficientemente rápido a regressar, ela corre o risco de levar uma resposta torta e sair melindrada, sem que faça a mínima ideia porquê. Provavelmente é por isso que, às vezes, recebo portas a bater, amuos em vez de bons dias e, à hora de dormir, mais comprimidos para engolir. A mulher também deve ter mundo para onde ir quando está farta disto, hei de lhe perguntar um dia destes. Sei que tem umas pernas bonitas, bem torneadas e depiladas e o pano da bata cai-lhe exactamente abaixo do joelho. Certa vez tentei apalpar-lho e ela ralhou-me: esse é um mundo que conheço mal.
Se calhar devia sentir remorso, denunciar esta gigantesca fraude. Agora sei que esse dia chegará, mais tarde ou mais cedo. Nessa altura, deixarei este lugar que ocupo há trinta e seis anos, sempre a fingir que aqui estou e levantar-me-ei desta cadeira e, a dançar na alcatifa ruça – juro que dançarei todo nu na alcatifa ruça –, e partirei para não mais voltar. O Raimundo deixou-me e não tive tempo de me despedir, quais felicidades, boa viagem, qual quê, volta sempre, não voltes nada, leva-me é contigo… Não lhe levo a mal ter-me deixado sozinho, o Raimundo sempre foi muito solitário. Quando eu partir também, não tenho nada para encaixotar, catalogar ou arrumar. Não levarei nada, não há nada aqui que valha a pena – nem sequer, muito menos, os velhos livros que o Raimundo abandonou na estante. Já os folheei demasiadas vezes, não preciso deles. Na verdade, estão repletos de mentiras, de sítios que nunca foram nem serão o que mostram as fotografias.
Ao Raimundo eu contava um segredo: gostava de ter uma mala debaixo da cama cheia de maços de notas atados com fita adesiva preta como vi num filme antigo, a preto e branco. Estaria sempre pronto se surgisse uma oportunidade: com o dinheiro compraria o que precisasse, de comer e de vestir, em qualquer lado. O meu sonho era dar a volta ao mundo num transatlântico. Este que está na minha cabeça já começa a ficar acanhado e o ar que se respira a bordo meio inquinado. Por vezes, enjoo e vomito. Depois vem a mulher das pernas bonitas e dá-me mais comprimidos para engolir. Além disso, estou sempre a cruzar-me com os mesmos passageiros. O Raimundo era um deles. Agora só restam a mulher e os outros, os das batas brancas, que de vez em quando espreitam pela porta entreaberta e perguntam como estou.
No entanto, não dou por mal empregues estes trinta e seis anos. Eram necessários, tinham de ser vividos de alguma maneira e não encontrei outra melhor. Fez-se a vontade a pai, mãe, amigos, enganando-os a todos bem enganados. Está quase a chegar o momento de fazer à minha vontade; um grito do Ipiranga ecoará neste quarto bafiento. À noite, depois da mulher sair, ponho-me nu. Tomo de uma vez todos os comprimidos que fui cuspindo e guardando debaixo de um taco solto do chão disfarçado pela alcatifa. É definitivo: já saí daqui, já cá não estou, só que ainda ninguém sabe. E eles dirão que o Raimundo e o Josué conheciam muito mundo.

Cristina Drios

Prosa para 2014 | Domingos da Mota

 

 

Apesar do fedor de quem tresanda
nos altos e nos baixos corredores
do poder que desanda quando anda
ao dispor de corruptos detentores;

malgrado quem comanda e descomanda,
por grandes mordomias e favores
que tenha e conceda a quem desanda
debaixo do nariz dos auditores;

tendo em conta o pivete sobredito
que demove quem ouse remover
as teias do sombrio valhacoito,

pudesse desmentir o antedito.
Mas apesar da falta de poder,
bem-vindos sejam os meus sessenta e oito

Domingos da Mota

AS SOMBRAS | Lícinia Quitério

Alguma coisa estava a acontecer, e boa não seria, porque há dois dias que o Zeferino não aparecia nem dava notícias, o Gil dizia que nada sabia, mas a Dona Júlia, que julgava já o conhecer bem, achava que havia qualquer coisa que ele não queria contar, mas que também o preocupava, o que seria, senhor Gil, por amor de Deus, não me deixe nesta ralação, alguma coisa aconteceu ao rapaz, se os pais dele telefonam o que é que eu vou dizer, diga-me lá, não se aflija, senhora, que quando eu souber alguma coisa logo lhe conto, mas até lá, por favor, se alguém perguntar por ele diga que foi à terra tratar duns assuntos, percebe, ai que ainda fico mais aflita, não fique, ele não tarda aparece e ri-se da gente, sabe como ele é, um patife sempre a gozar, ai deus o oiça, deus o oiça. Dona Júlia voltava à carga, ó senhor Gil, explique-me lá uma coisa, eu ouvi dizer, não me pergunte a quem, que lá por Aveiro houve umas balbúrdias, coisas de política, que meteu polícia e grande confusão, o senhor acha que o Zeferino, ó Dona Júlia, deixe-se lá de querer adivinhar, sim houve cargas de polícia, pareciam cães em cima de nós, dei comigo a saltar um muro mais alto que aquele ali do quintal, não me diga, pois, o certo é que desde aí nunca mais pus a vista em cima daquele traste, deve ter sido sacado e a estas horas está na António Maria Cardoso, onde, nada, eu não disse nada, até logo, Dona Júlia, que os tempos andam complicados, isto não tarda ou vai ou racha, durma descansada, senhora, mas jure pelas alminhas que não conta esta nossa conversa a ninguém, mas a ninguém mesmo, entende, juro, meu filho, desculpe tratá-lo assim, juro, e que deus nos acompanhe.

Licínia Quitério em “Casa de Hóspedes”, a publicar

COLECTIVO NAU|RAIMUNDO

O Colectivo Nau (Novos Autores Unidos) nasceu da paixão de oito autores pela literatura, e do desejo de divulgar e promover o mais possível as obras por eles escritas. A primeira tripulação – que ainda se mantém, sem baixas nem novos alistamentos – é constituída por oito autores: Sónia Alcaso, Cristina Drios, Pedro Almeida Maia, Raquel Serejo Martins, Paulo M. Morais, João Rebocho Pais, Ana Saragoça e Carla M. Soares – autores unidos pela ficção e pelo facto de terem pelo menos uma obra publicada.
Equipada a nave, faltava o encontro em carne e osso da marinhagem, que se realizou à mesa, com certeza, num modesto restaurante ribeirinho com o mui adequado nome de Sardinha. Foi um festim de alheiras, iscas, jarros de vinho e sobretudo de empatia imediata uns pelos outros – até pelo único ausente, Pedro Almeida Maia, separado de nós por um grande pedaço de Oceano Atlântico. Nem por isso deixaram de nos chegar de São Miguel calorosas manifestações de entusiasmo. E nessa mesma noite foram sugeridas várias rotas.
Como nas navegações reais, houve escolhos que nos impediram de cumprir alguns objectivos, mas não todos. Constituiu-se a Biblioteca de Bordo, para a qual cada um contribuiu com um exemplar da sua obra, comprometendo-se a ler as de todos os outros marujos; instituiu-se a página de Facebook (https://www.facebook.com/colectivoNAU), que já conta com mais de um milhar de seguidores; inaugurou-se o blogue (http://colectivonau.blogspot.pt/); e iniciou-se o projecto de todos os autores escreverem um conto com a mesma frase de abertura e o mesmo protagonista, sobre o qual decidimos saber apenas dois dados: o nome – Raimundo – e a origem – Cuba do Alentejo.
É precisamente com esse projecto que nos propomos iniciar a colaboração da NAU com o site Das Letras. A partir do próximo dia 15 de Dezembro de 2014, e com uma regularidade quinzenal ( aos dias 15 e 30 de cada mês), cada um dos autores da NAU dará a conhecer o seu Raimundo, de quem se dizia conhecer muito mundo.

FOTO: Nau Catrineta – logotipo provisório (colocado pelo Administrador, à revelia do Grupo Colectivo NAU)

Feliz Natal, Menino Jesus! | Maria Isabel Fidalgo

Que dizer de ti, Jesus,
que já não tenha dito?
Ao menos no Natal
retiram-te da cruz
e retornas à riqueza da tua criação:
à luz das estrelas,
à verdura do musgo,
ao aconchego do burro,
que carregou fulgente,
o ventre quente de tua mãe,
às ovelhas e aos pastores,
e ao curral onde, também,
uma vaquinha com seu bafo
te agasalhou do fino frio
de Dezembro;
à água das lavadeiras,
aos montes gelados de neve,
e ao mistério da noite…
Não sei se houve pranto
nas hora em que saíste
da doçura do manto,
mas na terra houve canto,
e no presépio sorris,
eternamente tranquilo,
sem o calvário de espinhos,
e sem a pressa de cresceres
para a quaresma eterna.
Ao menos no Natal,
retiram-te da cruz
e dela todos fingem
o esquecimento,
menos os das esmolas.
Deixam-te ser menino,
apenas menino de todos nós
até que o novo ano chegue
e as janeiras se cantem
em dia de reis
por memória tua.
Esquecem-te na cruz
e reverberas de luz
e faz-se a festa
do teu nascimento
com rabanadas de pão,
(algumas sofisticadas!)
e aletria e mexidos,
e bolo-rei, ó Rei menino,
e bolos conventuais
nas mesas dos comensais!
Abençoado sejas
por renasceres
sem te cansares,
menino Jesus.
Que nome lindo
filho de Deus!
Podias vir mais vezes
e trazeres contigo as estrelas
e o mistério dessa noite.
Descansarias da cruz onde
te pregaram eternamente
e a gente amava-te sem chagas
em presépios de musgo
e de pastores.
Talvez ficasses livre do sacrifício
e a tua mãe pudesse sorrir
sem o horror da cruz onde
te pregaram eternamente,
amor em flor!
Dorme, menino, dorme Jesus
que no presépio, velam por ti
o burro a vaquinha,
Maria e José
e os pastores
e as ovelhinhas
e os meninos
que sonham contigo,
ouro renascido!
Dorme, pérola nua,
desafogada de cravos
dorme ,menino de sua mãe,
que ainda é dia
e a água é limpa
na consoada.
Dorme, Jesus,
dorme tranquilo
sem dor nem mal
e que Deus te dê
um Feliz Natal!

maria isabel fidalgo

Embaixada do Brasil presta homenagem a Centro Lusófono de São Petersburgo

SÃO PETERSBURGO – O embaixador do Brasil em Moscou, Antonio Guerreiro, prestou uma homenagem ao Centro Lusófono Camões da Universidade Estatal Pedagógica Hertzen, de São Petersburgo, com a entrega de um diploma em que reconhece a “relevante contribuição” que a instituição tem prestado à difusão da cultura brasileira na Federação Russa. A solenidade de entrega do diploma ao diretor do Centro Lusófono Camões, professor Vadim Kopyl, assim como a representantes de várias instituições e seus departamentos de línguas românicas e bibliotecas, foi feita na Embaixada do Brasil em Moscou.
Na ocasião, o primeiro-secretrário da Embaixada, Igor Germano, e o diretor do Centro estudaram a possibilidade de a representação diplomática patrocinar, com o apoio da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, o lançamento de uma antologia de contos de 35 autores brasileiros contemporâneos em edição bilingue (russo-portuguesa). O livro deverá ser editado em memória do diplomata Dário Moreira de Castro Alves (1927-2010), antigo sócio-honorário do Centro, embaixador do Brasil em Portugal de 1979 a 1983 e tradutor do romance em versos Eugênio Oneguin, de Alexandr Pushkin (1799-1837).
Em 2006, com o apoio da Embaixada do Brasil em Moscou, o Centro publicou o livro Contos e, em 2007, Contos Escolhidos, ambos de Machado de Assis (1839-1908) em edição russo-portuguesa, com prefácios de Adelto Gonçalves, doutor em Letras pela Universidade de São Paulo (USP) e autor das biografias Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999) e Bocage: o perfil perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003).
Desde a sua fundação em 1999, o Centro publicou também em edições bilíngues os livros Guia de Conversação Russo-Portuguesa Contemporânea, Poesia Portuguesa Contemporânea (2004), que reúne poemas de 26 poetas portugueses, e Vou-me embora de mim (2007), do poeta português Joaquim Pessoa. Em 2013, a Embaixada do Brasil em Moscou apoiou a publicação da segunda edição revista do livro Contos Escolhidos, de Machado de Assis.
O Centro Lusófono Camões tem hoje quatro estudantes no nível superior (três deles estudando fora do país), quatro no nível médio e 15 no nível zero.
Biblioteca
Segundo o professor Kopyl, o Centro Lusófono Camões recebeu por correio, desde agosto de 2011, mais de 300 livros de instituições e autores do mundo lusófono que vêm enriquecendo o seu acervo, a tal ponto que teve de instalar novas estantes em sua biblioteca. As instituições, editoras e autores interessados devem enviar os seus livros para:

Prof. Vadim Kopyl
CENTRO LUSÓFONO CAMÕES
Moica 48 – UNIVERSIDADE ESTATAL PEDAGÓGICA HERTZEN k. 14
São Petersburgo – Rússia
__________________________________
Legendas das fotos:
Diploma em que a Embaixada do Brasil em Moscou reconhece a “relevante contribuição” do Centro Lusófono Camões da Universidade Estatal Pedagógica Hertzen na difusão da cultura brasileira na Rússia

Antonio Guerreiro, embaixador do Brasil em Moscou, e o professor Vadim Kopyl, diretor do Centro Lusófono Camões: esforços para a divulgação da cultura brasileira na Federação Russa

Gustave Flaubert | Citação

“As pessoas refugiam-se no medíocre, em desespero de não terem o belo com que sonharam!”

Gustave Flaubert, em “A educação sentimental”.
[tradução João Costa]. Lisboa: Relógio d’Água, 2008, p. 217.

DA MORTE, COM PAVOR | Rui Sobral

A luz da manhã cheirava a terra encharcada com pétalas de rosas brancas. As mariposas invadiram todas as horas daquele tenro e precoce início de dia. Os tons frios da loucura estavam quentes demais, e a tarde, a meio, emancipava a aurora da noite. No júbilo da vida, hoje, os confetis são negros e as dores pinceladas a sangue ardente. Nunca um dia foi tão prazeroso com os teus sentidos. Tu não vais conhecer a nunca que se avizinha para os outros. A aurora do escuro não será literal. Este é o último dia da tua vida.

E se hoje for o último da tua vida? E se hoje encontrares a morte? Nua. Rôta. Viva! O que ficou por viver? O que te faltou fazer? Se hoje for a tua última jornada, vais feliz? Jamais a tua existência será onde moraste.

Daqui a nada, terás o regalo da última toilette. Vais ornamentar um rectângulo de madeira, da melhor – alimento para bichos armados em abutres. Vão preparar-te de forma nobre? Honrada? (…) o que importa? Tu já não estarás cá, além disso o corpo é fachada.

Certamente, a frustração passará a ser o teu nome. Vida pobre – a tua. A tua morte é mais importante que a tua vida. A vida, essa montanha, é tua e dela fizeste o que quiseste e pudeste e conseguiste. A morte, essa cabra, também é tua mas espelha a verdade não alcançada porque não quiseste, não pudeste. Não conseguiste.

Se hoje não for o último dia da tua vida, agarra a morte. Cada segundo que passa é irremediável. Nunca deixes de dar a mão ao abismo, à morte por é ela que determina o que devias ter feito ou tentado fazer. Com sorte, quem sabe, o dia de amanhã não será ainda teu? Quem sabe se só sabe a morte?

Rui Sobral

A mais atualizada das biografias de Pessoa | Adelto Gonçalves

                                                           I

A britânica Hermione Lee (1948), professora de Literatura Inglesa na Universidade de Oxford e integrante da British Academy e da Royal Society of Literature, em seu livro Biography: a very short introduction (Oxford University, 2009, p. 18), diz que não há regras para a biografia, já que esta é uma forma incerta, contraditória e variável. Para ela, “talvez a única regra que se mantém é que não existe essa coisa que se chama biografia definitiva”.

Por aqui, não aceitamos com facilidade essa observação talvez porque não sejamos tão rigorosos como os britânicos e usamos a definição “biografia definitiva” ou “biografia completa” mais no sentido hiperbólico, para dar ao leitor a sensação de que, dificilmente, alguém poderá ir tão longe numa pesquisa sobre a vida e a obra de um autor. Mas, obviamente, há sempre a possibilidade de que um investigador venha a superar outro, encontrando documentação e vestígios de um passado até então encoberto.

No caso do poeta Fernando Pessoa (1888-1935), há nas bibliotecas algumas grandes biografias, começando pela pioneira que João Gaspar Simões (1903-1987) publicou em 1950, Vida e Obra de Fernando Pessoa — História duma Geração, Vol. I: Infância e adolescência; Vol. II: Maturidade e morte, passando pelos estudos dedicados ao poeta pelo investigador norte-americano radicado em Portugal Richard Zenith (1956), até a mais recente feita pelo advogado pernambucano José Paulo Cavalcanti Filho (1948), Fernando Pessoa: uma quase autobiografia (Rio de Janeiro, Editora Record, 2011), que tem sido muito contestada por outros estudiosos pessoanos.

Entre essas grandes biografias, não se pode deixar de incluir La vida plural de Fernando Pessoa, do crítico e poeta espanhol Ángel Crespo (1926-1995), que veio à luz em 1988 pela Editorial Seix Barral, de Barcelona, com tradução para o português de José Viale Moutinho que foi publicada em 1990 pela Bertrand Editora. Na Itália, em 1997, saiu uma primeira edição italiana deste livro, traduzido pelo crítico Brunello Natale De Cusatis (1950) e publicado por Antonio Pellicani Editore, de Roma.  Em setembro de 2014, saiu pela Edizioni Bietti, de Milão, uma nova tradução, editada e anotada também por De Cusatis.

II

            Trata-se de uma pesquisa aprofundada, que se baseia, especialmente a propósito da vida pessoal do poeta, não só na biografia-gênese de João Gaspar Simões como em:Fernando Pessoa, notas a uma biografia romanceada, de Eduardo Freitas da Costa (Lisboa, Guimarães, 1951); Fernando Pessoa (Lisboa, Arcádia, 1960) e Fernando Pessoa, vida, personalidade e gênio (Lisboa, Arcádia, 1981), ambos de António Quadros; Fernando Pessoa na África do Sul, de Alexandrino Severino (Lisboa, Dom Quixote, 1983); Os dois exílios, de H. D. Jennings (Porto, Centro de Estudos Pessoanos, 1984); e Fernando Pessoa, empregado de escritório, de João Rui de Sousa (Lisboa, Sitese, 1985); além de estudos críticos e cartas pessoais cujas citações ocupam sete páginas na seção de nota bibliográfica.

Dessa maneira, todos os grandes (e conhecidos) episódios da vida de Pessoa estão nesta biografia, como a sua infância em Lisboa e os anos na África do Sul (1896-1905), tão bem levantados pelo scholar português Alexandrino Severino (1931-1993), o retorno a Lisboa e sua participação no grupo da revista Orpheu, o suicídio do poeta-irmão Mario de Sá-Carneiro (1890-1916), a gênese e a profusão dos heterônimos, a revista Presença, a defesa da maçonaria, os poemas em inglês, o Livro do Desassossego, de Bernardo Soares, os escritos esotéricos e outros.

Como observa De Cusatis na apresentação que escreveu para a primeira edição italiana deste livro, a biografia preparada por João Gaspar Simões, publicada apenas 15 anos depois da morte do poeta, ainda que monumental (com mais de 700 páginas), carecia de muita pesquisa, até porque, em grande parte, a documentação referente a Pessoa não estava disponível.

Baseado numa interpretação freudiana da personalidade de Pessoa, o trabalho de Gaspar Simões foi acusado injustamente por Eduardo Freitas da Costa, primo em segundo grau de Pessoa, de constituir uma “biografia romanceada” porque fundamentada em “lendas” e “mitos”. Como sempre teve oportunidade de observar De Cusatis – desta vez em palestra proferida durante a Feira do Livro de Porto Alegre, no começo de novembro de 2014 –, esta de Freitas da Costa teria sido uma acusação muito pesada, recusada firmemente por Gaspar Simões por ocasião da publicação da segunda ediçãoda biografia, em 1971. Para De Cusatis, a obra de Gaspar Simões é ainda um texto fundamental e imprescindível a quem tenta se aventurar no universo pessoano.

                                               III

            Escrito 38 anos depois de publicado o trabalho de Gaspar Simões, o texto de Crespo, além de rigorosamente fundamentado em documentação e, em boa parte, no arquivo da família de Pessoa sob guarda a Biblioteca Nacional de Lisboa desde 1979, é de fácil leitura, apesar da complexidade do personagem biografado, como assinala De Cusatis. É de se destacar, no entanto, que Crespo não escreveu uma biografia comercial, de olho em grande público, como certamente o faria se fosse um biógrafo brasileiro, quase sempre pressionado pela conhecida ganância dos editores locais.

La vida plural de Fernando Pessoa – como observou De Cusatis sempre por ocasião de sua palestra proferida durante a Feira do Livro de Porto Alegre deste ano – “talvez seja, ainda hoje, a biografia pessoana que mais se afasta da maestra (ou seja, da biografia escrita por Gaspar Simões), não só porque Crespo fez de modo a afastar de si a mínima suspeita de extemporaneidade interpretativa, fugindo à chamada historiografia romântica (e portanto, no caso especifico, às “lendas” e aos “mitos” de que falara Freitas da Costa), mas também porque se apoiou em alguns importantes contributos, documentais e críticos, que tinham aparecido de recente”.

Para De Cusatis, tal conduta permitiu a Crespo optar por “uma nova impostação, que apontava a indagar, numa visão insólita, quer alguns dos aspectos mais controversos da vida e da obra de Pessoa, como os que se relacionam com o seu esoterismo e a sua (presumível) homossexualidade, quer a traçar dele – de qualquer forma desmistificando – um percurso vital mais real, mais humano, analisado à luz tanto dos seus medos, indecisões e fraquezas como das suas frequentações, de pessoas e ambientes, sobretudo aquele referente ao seu trabalho”.

Escrita há mais de um quarto de século, obviamente, a biografia feita por Crespo, segundo De Cusatis, necessitava de uma atualização. “Quando falo de atualização, refiro-me a algumas distrações e a várias imprecisões em que caiu Ángel Crespo: mas imprecisões que no seu caso, contrariamente a outros biógrafos e críticos pessoanos, antes e depois dele, são quase todas justificadas, porque devidas ao seu desconhecimento de inéditos importantes do biografado, vindos à luz só anos depois da publicação da sua biografia pessoana e das cartas de Ofélia Queiroz (1900-1991) a Fernando Pessoa, publicadas em 1996, portanto, à distância de oito anos da publicação de La vida plural de Fernando Pessoa e um ano depois da morte do seu autor”, diz.

Em outras palavras: escrita e publicada em 1988, ou seja, há 26 anos e, portanto, “desatualizada” –considerando a natureza in progress quer da obra de Fernando Pessoa quer das notícias sobre a vida dele –, a biografia elaborada por Crespo teve de ser revista e rescrita em várias partes por De Cusatis. Para fazê-lo, sem deturpar ou “mexer” no texto original de Crespo, tanto quanto isso seja possível em se tratando de uma tradução, De Cusatis teve de produzir para esta segunda edição em italiano um vastíssimo corpus completamente seu, ou seja: 662 notas postas no fim de cada um dos 22 capítulos, duas apresentações (a da primeira edição e a da segunda) e uma nova bibliografia com mais de 50 títulos e atualizada a 31 de dezembro de 2013, além de um índice por nomes. No total, isso equivale a 200 páginas, mais ou menos, do volume todo. Ou seja, é praticamente um livro dentro de outro livro.

Por todo esse trabalho de dimensões ciclópicas de seu tradutor e editor, esta reedição italiana de La vida plural de Fernando Pessoa, de Ángel Crespo, sem sombra de dúvida, representa atualmente a biografia pessoana mais completa e atualizada já posta em circulação.

                                                           IV

            Angel Crespo y Perez de Madrid foi professor da Universidade de Porto Rico e atuou como conferencista na América e na Europa. Tradutor em língua espanhola de Fernando Pessoa, Dante Alighieri (1265-1321) e Petrarca (1304-1374), participou da fundação de várias revistas literárias, inclusive a Revista de Cultura Brasileña, patrocinada pela Embaixada brasileira em Madri, na qual contou com o apoio do poeta e diplomata João Cabral de Melo Neto (1920-1999).

Ensaísta, destacou-se também como poeta, especialmente da chamada Geração de 50 da poesia espanhola. Traduziu também poetas brasileiros como João Cabral de Melo Neto e Manuel Bandeira (1886-1968) e portugueses como Eugénio de Andrade (1923-2005) e António Osório (1933). Muitas de suas traduções estão reunidas em Antología de la nueva poesía portuguesa (Madri, Rialp, 1961). Traduziu ainda os romances Grande sertão: veredas (1967), do mineiro João Guimarães Rosa (1908-1967), e O que diz Molero (1977), do lisboeta Dinis Machado (1930-2008).

Brunello Natale De Cusatis, professor de Literaturas Portuguesa e Brasileira e de Língua Portuguesa da Universidade de Perugia, é articulista com trabalhos publicados em jornais e revistas italianos e no exterior. Estudioso de Fernando Pessoa, publicou em Portugal o ensaio Esoterismo, mitogenia e realismo político em Fernando Pessoa (Porto, Caixotim Edições, 2005). Organizou o livro Studi su Fernando Pessoa (Perugia, Edizioni dell’Urogallo, 2010), que reúne onze ensaios de especialistas no poeta português, inclusive deste articulista.

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LA VITA PLURALE DI FERNANDO PESSOA, de Ángel Crespo. Tradução e anotações de Brunello N. De Cusatis. Milão: Edizioni Bietti, 596 págs., 26 euros, 2014. Site: www.edizionibietti.it

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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981), Fernando Pessoa: a voz de Deus (Santos, Universidade Santa Cecília, 1997), Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003) e Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

Quando fores mãe, vais ver – Ana Saragoça

Dizem que os filhos não vêm com manual de instruções. Para quê? Se em todas as mães existe uma imensa sabedoria, feita de conhecimentos e afetos milenares, que se traduzem em frases que são o pilar de uma boa educação! O que um interminável responso ou uma palmadinha não chega para resolver uma situação, consegue uma destas frases que, em si, encerram uma verdade intemporal e, por isso, estão muito para além de um capricho momentâneo da nossa mãe. São a expressão de uma autoridade que não se contesta. Crescemos com essas frases e acabamos programados por elas; são o melhor instrumento de inculcação ideológica. Muito do seu efeito se perde na adolescência. Regressaremos a elas, inevitavelmente, quando formos pais.

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