“À sombra do sol” | Lídia Borges

 

 

sou agora toda em ti, Poesia

e se tanto fica por dizer

é porque me é pouca a fala.

e se alguma coisa fica por viver…

quem disso há de querer saber?

 

já mal sei enunciar um fruto

uma fonte, uma asa, um seixo

árduo se faz o gesto de abeirar

a palavra ao objeto.

todas as coisas o são

inteiramente em ti, Poesia

plenas e puras e naturais

sem precisões nem aspirações.

 

ermos são os nomes e os luares

chegado ao fim o inverno…

já não sofrem de frio

as sebes de folhas novas e breves.

 

desfeita a trança despida a túnica

já não sofre de sede a musa.

já não sofrem de assombramento

os barcos no meio do vento.

 

rescendem a trevo e a claridade

as grainhas neste chão

feito lavra, flor, eternidade.

 

[ficarei em ti enquanto ácido e fétido

for o ar respirado na cidade.]

 

Lídia Borges

A vida nas coisas | Vera de Vilhena

 

 

Era forçoso dar prova da minha competência, antes de me oferecerem a carne fresca e o sangue latejante – não fosse eu causar o embaraço de um trabalho mal feito, e deixar os clientes entre a vida e a morte. Assim me sujeitei, de cabeça erguida, à indignidade de ser ensaiada em cadáveres que, por razões óbvias, não puderam apreciar a eficiência que me é própria.

Na sala fria do hospital de Bicêtre sonhava com um público vibrante, que me aplaudiria nas primeiras atuações ao vivo, soltando urros e gritos de pura admiração. Fui forçada a alienar-me do cenário mortiço onde me encontrava, e encarar a experiência como uma espécie de ensaio geral. No gélido recinto do hospital, apenas se podia escutar o zunido cortante da lâmina oblíqua e o baque pesado e abafado das cabeças que rolavam, como couves apodrecidas, para o fundo dos cestos pousados na laje de pedra.

Tenho alma de mulher. Gosto de me sentir bem no meu corpo e no dos outros que me visitam. Tive muitos homens…mas também mulheres. Não foi opção minha, entenda-se, mas acabou por acontecer. É algo que me ultrapassa, algo sobre o qual não tenho controlo algum, e nenhuma saída me resta senão a de me entregar por inteiro. Lamento que tivessem sido relações tão fugazes, mas a sua efemeridade foi claramente demonstrada à partida, como uma espada pairando sobre as cabeças (perdoem-me, mas não resisto a estes pequenos jogos de palavras). Eles sabem para o que vêm – não obstante os momentos de grande intensidade física e emocional, estão cientes de que, comigo, não têm futuro algum. Não fui criada para relações duradoiras e sou célebre por isso: por ser, digamos, une femme fatale, por tantas serem as vezes em que criaturas perdidas morrem a meus pés.

Afortunadamente, o nome que me foi dado coaduna-se de forma perfeita comigo – Guilhotina – sugere algo de sensível e feminino, de onde transparecem, subtis, traços do meu lado mais delicado: Guilhermina, Evangelina, Josefina… Guilhotina. O nome chegou-me através de Joseph-Ignace Guillotin, que se insurgiu contra a desigualdade de execução entre as classes. Fico aliviada por não terem decidido chamar-me José Inácio, o que seria odioso. Acabaram por dar-lhe um imenso desgosto, pois Guillotin, sendo um ilustre médico e defensor da vida, viu deste modo o nome para sempre associado à inimiga morte. Enfim, uma das muitas ironias deste mundo ingrato.

Até Guillotin me criar, morriam os nobres por decapitação – morte rápida e indolor –, enquanto os plebeus, desafortunados, padeciam na roda, na forca – após terem sido torturados –ou na ponta de uma espada. Como se não bastasse viverem uma vida desgraçada, morriam desgraçadamente. E a Revolução gritava:

“Liberdade!”, “Igualdade!”, “Fraternidade!”

(excerto do conto “Língua afiada”, in «Coisandês, a vida nas coisas, págs.29-31, Verbo, 2014, Prémio Revelação APE/Babel)

‘Orpheu’: 100 anos de uma revolução | Adelto Gonçalves

                                                           I

 

Foram apenas três números – o terceiro chegou a ser impresso, embora não tenha sido distribuído –, mas que mudaram a história da Literatura Portuguesa no século XX. Trata-se da revista Orpheu, que, lançada ao final de março de 1915, completa neste ano um século de seu aparecimento, marco do pensamento estético-literário do movimento lançado por Luís de Montalvor (1891-1947), Fernando Pessoa (1888-1935), Mário de Sá-Carneiro (1890-1916), Almada Negreiros (1893-1970), Augusto de Santa Rita (1888-1956), o Santa Rita Pintor, e outros integrantes de um grupo que à época escandalizou a bem-comportada burguesia lisboeta.

Para marcar o centenário dessa publicação, o professor, poeta e crítico literário Carlos Felipe Moisés (1942) organizou, prefaciou e escreveu notas para o livro Orpheu 1915-2015 – Textos doutrinários e fortuna crítica (antologia), lançado em dezembro de 2014 pela Editora Unicamp. Na primeira parte do livro, o autor colocou os textos-gêneses do movimento, que expõem a estrutura teórica do modernismo português e constam dos três números da revista.

Já a segunda parte traz textos mais recentes, que discutem a influência do movimento nas artes, assinados por José Régio (1901-1969), João Gaspar Simões (1903-1987), Jacinto Prado Coelho (1920-1984), Adolfo Casais Monteiro (1908-1972), Jorge de Sena (1919-1978), José Gomes Ferreira (1900-1985), Eduardo Lourenço (1923), Maria Aliete Galhoz (1929), Eugênio Lisboa (1930), Arnaldo Saraiva (1939), Nuno Júdice (1949) e Luís Adriano Carlos (1959), além do norte-americano Richard Zenith (1956), pesquisador radicado em Lisboa, e do brasileiro Massaud Moisés (1928), professor aposentado da Universidade de São Paulo (USP).

 

                                               II

 

Não se pode dizer que o movimento do Orpheu mudou também a Literatura Brasileira, embora tenha antecipado em sete anos o frenesi da Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo. Contou, porém, com a participação de dois personagens que, influenciados pelo simbolismo que se praticava no Brasil à época, muito contribuíram para o surgimento da revista: um foi o diplomata brasileiro Ronald de Carvalho (1893-1935), que mandou sua colaboração em versos do Rio de Janeiro, e outro o português Luís da Silva Ramos, o Luís de Montalvor, que, assessor do embaixador de Portugal no Rio de Janeiro, voltava a Lisboa impregnado por um gosto mallarmeano de fazer poesia que era a origem do simbolismo. Teriam idealizado a revista em conversas no bairro de Copacabana.

Um no Rio de Janeiro e outro em Lisboa, eles aparecem como diretores do primeiro número da revista Orpheu, que trazia também o drama estático O Marinheiro, de um poeta de 27 anos de idade, pouco conhecido à época, mas que seria o mais famoso de seus colaboradores, Fernando Pessoa. Segundo Adolfo Casais Monteiro, Ronald de Carvalho e Luís de Montalvor seguiam uma linha simbolista ou decadentista ou ainda seriam adeptos do aristocratismo mallarmeano, que pouco tinha a ver com o “futurismo” de Pessoa, Almada Negreiros e Sá-Carneiro.

Que o aparecimento da revista foi um escândalo não há duvida. Tanto que uma nota publicada no jornal A Capital, de Lisboa, de 28 de junho de 1915, reproduzida por Carlos Felipe Moisés no prefácio, dizia que os “poetas e prosadores do Orpheu sofrem quase todos da cabeça”, chamando-os de “artistas de Rilhafoles”, nome pelo qual era conhecido o Hospital Miguel Bombarda, primeiro manicômio da cidade, instalado no antigo Convento de Rilhafoles e desativado só em 2011. Segundo Almada Negreiros, à época, chegou-se a pedir em Lisboa “camisa de forças para Fernando Pessoa”, como se lê em texto de João Gaspar Simões.

 

                                               III

Fosse como fosse, ainda que Pessoa e Almada Negreiros tenham vibrado com os comentários desaforados a respeito dos “rapazes do Orpheu” – o diário O Jornal, de 13 de abril de 1915, chegou a chamá-los de “loucos varridos, seres degenerados e perigosos, morfinômanos, cocainômanos” –, houve um rompimento no grupo inicial. Tanto que no segundo número aparecem como diretores Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. Diz Casais Monteiro que bastou uma atitude mais escandalosa de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, para afastar Luís de Montalvor do grupo, preocupado talvez em não prejudicar politicamente sua carreira no governo.

O segundo número teve igual êxito, mas venderam-se apenas 600 exemplares. O problema foi pagar a conta da tipografia. O pai de Sá-Carneiro, que já pagara a edição de Céu em fogo, livro do filho, relutaria em pagar também a conta da impressão da revista. Em crise existencial, Sá-Carneiro iria às pressas para Paris, depois de considerar “irrespirável” o ar que se sentia no café Martinho, de Lisboa, local de encontro de intelectuais.

Mesmo assim, o Orpheu 3 vai para a gráfica. Até que uma carta desesperada de Sá-Carneiro vinda de Paris para Pessoa exige que seja suspensa a edição da revista, depois que o pai do poeta se recusara a assumir também aquele compromisso. Logo em seguida, veio a notícia do suicídio de Sá-Carneiro em Paris.

Os textos reproduzidos nos dois primeiros números da revista (ao terceiro poucos teriam acesso) foram, no entanto, suficientes para derrubar os mitos culturais herdados do passado e dessacralizar os modelos conceptuais recebidos de uma tradição tão velha quanto a Idade Média, como assinalou Massaud Moisés.

No dizer de Eduardo Lourenço, a importância extrema de Sá-Carneiro e Pessoa na poesia portuguesa é precisamente a de terem chegado no fim desse movimento doloroso e exaltante e terem tido olhos, imagens e vida para tomar parte num confronto decisivo para o esclarecimento dos limites e poderes da alma humana. “Um perdeu aí a vida que mal tinha, o outro a que poderia ter tido. Assim ganharam a que finalmente haviam de ter”.

 

                                               IV

Carlos Felipe Moisés é mestre e doutor em Letras pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, com larga carreira de pesquisador e crítico literário dedicada à Literatura Portuguesa, em especial à poesia de Fernando Pessoa. Tem mais de 40 livros entre publicados/organizados ou edições, entre os quais se destacam O poema e as máscaras (1981), Mensagem: roteiro de leitura (1996) e Fernando Pessoa: almoxarifado de mitos (2005), dedicados ao estudo da obra pessoana.

Colabora em periódicos especializados e grandes jornais, desde os anos 60. Poeta e tradutor, foi professor da USP, de 1966 a 1991, quando se aposentou, da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), de 1966 a 1968, da Faculdade de Filosofia de São José do Rio Preto-SP, de 1966 a 1967, e da Universidade Federal da Paraíba (1977). É professor da Universidade São Marcos, de São Paulo, desde 2000. Passou duas temporadas nos Estados Unidos, ensinando na Universidade da Califórnia, em Berkeley (1978-1983) e na Universidade do Novo México (1986). Desde 1990, coordena oficinas de criação literária no Museu da Literatura, em São Paulo.

Seus livros de poesia são: Carta de marear (1966) Poemas reunidos (1974), Círculo imperfeito (1978), Subsolo (1989), Lição de Casa & poemas anteriores (1998) e Noite nula (2008), o mais recente. Sua obra ensaística inclui ainda, entre outros títulos: O desconcerto do mundo (2001), Poesia e utopia (2007) e Tradição e ruptura (2012);

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Orpheu 1915:2015 – textos doutrinários e fortuna crítica (antologia), de Carlos Felipe Moisés, organização, prefácio e notas. Campinas-SP: Editora Unicamp, 301, págs., R$ 54,00, 2014. E-mail: vendas@editora.unicamp.br Site: www.editora.unicamp.com.br

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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981), Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003) e Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

Sarau da Onça, Grupo Ágape e Galinha Pulando participam do Salão do Livro de Genebra | Valdeck Almeida de Jesus

 

 

A periferia de Salvador invade a Suíça, pela porta da frente. Os coletivos Sarau da Onça e Grupo Ágape, do bairro Sussuarana, em Salvador-BA, são os parceiros da Editora Galinha Pulando e vão participar do 29º Salão do Livro e da Imprensa de Genebra (Suíça), que acontece entre 29 de abril e 04 de maio de 2015, no Palexpo, em Genebra. Durante o maior evento literário do país, brasileiros de todas as origens se encontram no estande Varal do Brasil, dirigido por Jacqueline Aisenman.

A editora Galinha Pulando vai lançar dois livros ilustrados pelo grafiteiro Zezé Olukemi: “A poesia cria asas”, do Grupo Ágape, com poemas de amor, de protesto e de desabafos de Maiara Silva, Mateus Silva, Joyce Melo, Sandro Sussuarana, Lane Silva, Evanilson Alves, Gleise Souza, Laiara Mainá, Larissa Oliveira, William Silva e Carol Xavier; e “Poesias ao Vento: vinte poemas de amor e uma crônica desesperada”, de Valdeck Almeida de Jesus, em português e espanhol, com tradução de Gladys Mendía e revisão de Julio César Bustos. O terceiro lançamento será a edição 2014 do “Prêmio Galinha Pulando de Literatura”, com capa de Fábio Haendel e contracapa de Rosana Griloni, e contém poemas de Carol Xavier, Patrick Lima, Varenka de Fátima Araújo, Osmar de Jesus, Galdy Galdino, Ndje Man Dieudonné François e outros.

O Prêmio Galinha Pulando completa dez anos e já lançou mais de 1600 poetas pelo mundo todo. O Grupo Ágape é formado por jovens com objetivo de levar poesia e arte a alunos de escolas públicas e outros espaços. Faz parte das atividades do Sarau da Onça, que tem participação do estudante de Serviço Social Sandro Ribeiro dos Santos (Sandro Sussuarana) dentro outros, e atua em Sussuarana nas dependências do Espaço CENPAH – Centro de Pastoral Afro, pertencente à Paróquia São Daniel Comboni, em Salvador-BA. A cada quinze dias são realizados saraus, apresentações musicais, leituras poéticas e canjas de hip hop e outras atividades culturais.

O Varal do Brasil é um projeto brasileiro e suíço, comandado por Jacqueline, brasileira de nascença e suíça por raízes de família. Inicialmente uma revista eletrônica, que continua funcionando, agora virou também livro e estande na maior feira literária da Suíça. Desde 2012 o grande banquete literário é servido entre autores de várias partes do mundo, fortalecendo o intercâmbio e a língua portuguesa.

Site do Salão do Livro: www.salondulivre.ch

Fonte: Galinha Pulando

Genève

| Maria Isabel Fidalgo

 

 

Se eu perder a inspiração
cobre-me de novo com os teus olhos
alados de flores
para que cresçam poemas em pântanos secos
com compassos de rimas perfumadas
Se eu perder a inspiração
abre estrelas na escuridão do tempo
e ilumina de sílabas o sarro das palavras sujas
como astros de fogo
na doce transpiração da noite
Se eu perder a inspiração
canta-me uma cantiga galega
ao levantar da alba
com o corpo húmido
de amor
e busca-me na fonte
onde vou lavar camisas
alba eu menina
de minha mãe
filha velida
Se eu perder a inspiração
e formos pelo inverno dentro
protege-me do gelo
e traz-me a tua voz manselinha
caiada de trevos à beira da ermida
onde te aguardo rodeada de ondas
que altas são
para me afogar no mar alto
antes do rio.

maria isabel fidalgo

Fuga | Domingos da Mota

 

 

Sem dizer ao que vinha, foi-se embora
em busca doutra face, doutro ombro;
ao menos que partisse em boa hora,
levada pelo pasmo, pelo assombro,

mas temo que não tenha sido isso,
e fique sem poder entabular
uma conversa a dois, dado o sumiço
de quem se afasta assim, sem avisar,

pois anda tudo numa roda-viva,
e quando te apercebes, pelas costas,
a vida que passou por ti altiva
apressa o andamento, enquanto arrostas

com a vaga esperança de que a fuga
abrande o passo, quando o passo estuga.

Domingos da Mota

[inédito]

MUTAÇÃO | Soledade Martinho Costa

 

 

Rodou nos gonzos
O ranger antigo
A sentir na mão a faca apetecida
Com que rasgou o oiro do Outono
E a repelir silêncios reprimidos
Sorveu como da fonte a brisa à madrugada.

Deu passos ao acaso
Como um tonto
Passou as mãos p’los olhos
Não sonhava.

Então
Ergueu a fronte
Endireitou os ombros
E agradou-se dos cardos
Das urtigas
Das paredes de pedra
Do postigo
Da casa mutilada
Denegrida
E assobiou aos melros e aos pardais.

Depois
Transfigurou os traços do seu rosto
Experimentou a força dos seus braços
E a olhar os campos e os montes
Sorriu de manso à terra adormecida
A imaginar os pastos e os trigais.

Soledade Martinho Costa

Do livro «A Palavra Nua»

Chega partindo | Ercília Pollice

Você já chega partindo,
Cada vinda é um adeus.
Lidar com a vinda é fácil,
Driblar a ida, meu Deus!
Tentar manter a alegria da chegada,
Sabendo que a partida pode ser o último adeus.
As estrelas estão sempre lá,
Você é que não ãs vê.
Quem tem medo de perder,
Jamais vai sentir a alegria de ter.
Lidar com a vinda é fácil,
Dificil é deixá – lo ir.
Prefiro que venha às vezes
Do que não venha nunca mais.
Momentos depois de vividos,
Se eternizam e são só meus.
Os olhos brilham no encontro
E a luz perdura no coração,
Mesmo que passe muito tempo,
Não me importo;
A lembrança é um tempo sem tempo.
E a vida só vale a pena ,
Se vivida com pauxão

Anuário de Poesia 2015, da Assírio & Alvim

A 21 de março de 2014, a Assírio & Alvim anunciava o regresso do Anuário de Poesia de autores não publicados. Um ano volvido temos o prazer de apresentar a edição de 2015, num formato que será publicado anualmente, em celebração do Dia Mundial da Poesia. Com esta iniciativa pretende-se criar um espaço nobre para a divulgação de novos autores que, embora ainda não tenham publicado o seu primeiro livro, demonstrem já talento, originalidade e consciência poética.

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Rosto Precário e Matéria Solar Na Assírio & Alvim

Chegam hoje às livrarias nacionais as novas edições de Rosto Precário e de Matéria Solar, dois magníficos livros de Eugénio de Andrade que voltam a estar disponíveis. Rosto Precário foi publicado pela primeira vez em 1979 e colige uma série de excertos de entrevistas concedidas pelo autor a diversas pessoas, naquele que é um admirável percurso pela obra de um dos poetas mais singulares da nossa língua.

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FADO ANTIGO | Rui Sobral

 

 

Triste quando em vão te vi
Quando a sorte me sorri
Quando procuro lembrar
Quando me vejo chorar.

E é triste saber que te perdi
Saber que em ti morri
Saber sem que se saiba
Saber não ser sem raiva.

Aii, que é triste amar sem ser amado
De te chorar já tão cansado
Viver na ânsia que vivas a meu lado
De assim viver sem uma razão.

De triste te adorarei
Sem sentido de um saber
Até morrer te cantarei
Entre flores que irei colher.

Se me amas, meu amor,
Porque não choras? Porque
Não sofres? Porque sorris
Se me amas, meu amor?

Leda me ando eu | Maria Isabel Fidalgo

 

 

do alto da minha idade escrevo um poema
com sessenta e quatro retalhos de tempo
atiro os olhos para o sol que rasga a minha janela
e a claridade é igual à do terraço da minha infância
onde os pássaros cantavam em bicos de arco-íris
cantigas de amor no alto da minha cabeça
cheia de chão
do alto da minha idade a luz ainda é clara
na transparência da água
onde me lavo da inquietação dos dias
e onde os pássaros poisam nos ramos
cantando em bicos de asas
-leda me ando eu-

A dor do mundo em Vera Lúcia de Oliveira | Adelto Gonçalves

I

Poucos poetas brasileiros contemporâneos, como Vera Lúcia de Oliveira, paulista de Cândido Mota radicada na Itália há mais de duas décadas, tiveram sua produção poética tão analisada e incensada. A lista vai de José Saramago (1922-2010), Prêmio Nobel de Literatura de 1998, o único da Língua Portuguesa, a poetas e acadêmicos como Ferreira Gullar, Lêdo Ivo (1924-2012) e Carlos Nejar, passando por estudiosos como a filóloga e historiadora da cultura Luciana Stegagno Picchio (1920-2008), que foi considerada a mais importante luso-brasilianista da Europa, entre outros.
Não bastasse isso, ainda recentemente, um fino poeta como Albano Martins, professor da Universidade Fernando Pessoa, do Porto, nas páginas do quinzenário portuense As Artes entre as Letras, de 11 de março de 2015, ocupou-se deste O músculo amargo do mundo (São Paulo, editora Escrituras, 2014) para dizer que Vera Lúcia afirma, “em cada verso, em cada poema, a sua humanidade e o seu compromisso com o mundo em que vive, organizado segundo leis que não favorecem a justiça, a igualdade e fraternidade”. E acrescentou: “No mais, é a expressão curta, sincopada, ao rés da fala (da fala poética, da fala do poeta), que todavia se basta na sua reduzida dimensão”.
No ensaio “O realismo poético de Vera Lúcia de Oliveira”, que escreveu especialmente para a apresentação deste livro, Ivan Marques, professor de Literatura Brasileira na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), ressalta que o lirismo da autora tem raízes no cotidiano, “de onde ela extrai seus pequenos enigmas”.
Depois de observar que o mundo visto pelo olhar da poeta é “cheio de misérias e desfalcado de esperanças – um mundo observado de perto, a partir de um ponto de vista generoso, mas sobretudo lúcido e pessimista” –, Marques desvenda a metáfora que justifica não só o título como o livro por inteiro, ressaltando que, em Vera Lúcia, o músculo do mundo, sua força motora, é a dor que “nutre e movimenta especialmente a existência das criaturas miseráveis, que vivem à margem”, conclusão a que também chega quem lê estes versos logo nas páginas iniciais:
virar esquinas do avesso
ficar como cachorro louco mordendo
o músculo amargo do mundo

II

Marques localiza ainda as raízes da poesia de Vera Lúcia em seu gosto pelo período modernista da poesia brasileira, que teve início com a Semana de Arte Moderna de 1922. É de lembrar que pesquisa de doutorado realizada pela autora nos anos 90 na Itália abordou os livros Pau-Brasil, de Oswald de Andrade (1890-1954), Martim Cererê, de Cassiano Ricardo (1895-1974) e Cobra Norato, de Raul Bopp (1898-1984), o que justificaria, a nível formal, a preferência da poeta pela abolição de regras, pela opção por formas livres, pela ausência de letras maiúsculas, vírgulas e pontos, pelo tom coloquial, pela linguagem das ruas estilizada. Veja-se, por exemplo, estes versos:

esse cão que me segue
é minha família, minha vida
ele tem frio mas não late nem pede
ele sabe que o que eu tenho
divido com ele, o que eu não tenho
também divido com ele
ele é meu irmão
ele é que é o meu dono

A par da ausência de formalismo, o que se destaca mesmo na poesia de Vera Lúcia é a sua opção franciscana pela pobreza e sua solidariedade com o marginalizado das grandes cidades brasileiras, vítimas de um modelo de patrimonialismo, que é apenas uma continuação de um sistema social que veio de Portugal à época da colônia, quando a nobreza, para se livrar da arraia-miúda que insistia em querer comer e sobreviver, mandava legiões de desvalidos para as conquistas, desertificando vilas e cidades.
Se à época colonial os pequenos burgos brasileiros viviam infestados de gente disforme, vítimas de bócio, a doença do papo, e leprosos, hoje o que se vê nas ruas e avenidas das grandes cidades é um cortejo de desfavorecidos: mendigos, desocupados, catadores de lixo, moleques malabaristas, vendedores de água batizada e mães em andrajos que exibem seus filhos para comover e convencer alguém que passa a lhe atirar ao menos a moeda de menor valor.
É a dor que sente a poeta ao ver este país em naufrágio que pulsa nestes versos, a dor de ver uma nação sem rumo em que a batalha da educação nas escolas públicas e privadas parece irremediavelmente perdida e milhares de jovens são atraídos para o consumo e tráfico de drogas ou para a prostituição, enquanto os ladravazes de recursos públicos festejam impunes pelos salões da república:

meu país é do lado de fora que ele mais dói
meu país tem calçada chiqueiro bueiro onde
gente compete com bicho e perde
meu país tem mercado avenida rua semáforo
onde com pouco se compra um corpo

III

Vera Lúcia de Oliveira, formada em Letras pela Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), campus de Assis, doutorou-se em Línguas e Literaturas Ibéricas e Iberoamericanas pela Universidade de Palermo (1997) e é professora de Literaturas Portuguesa e Brasileira na Faculdade de Letras e Filosofia da Universidade de Estudos de Perúgia, na Itália. Ensaísta e tradutora, organizou antologias de vários poetas, entre as quais se destacam aquelas que fez com poemas de Lêdo Ivo, Carlos Nejar e Nuno Júdice. Em 2005, ganhou o Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras com o livro A chuva nos ruídos (São Paulo, Escrituras, 2004).
A autora escreve tanto em português como em italiano e seus poemas foram publicados em antologias no Brasil, Portugal, Itália, Espanha, França, Alemanha, Romênia e Estados Unidos. Além de produção ensaística, como poeta recebeu o Prêmio Sandro Penna (Itália, 2009), o Prêmio Popoli in Cammino (Itália, 2005), o Prêmio Internacional de Poesia Pasolini (Roma, 2006) e o Prêmio Internacional de Poesia Alinari (Florença, 2009). Em 2006, o seu livro inédito Entre as junturas dos ossos recebeu do Ministério da Educação o Prêmio Literatura para Todos e foi publicado pelo órgão governamental com tiragem de 110 mil exemplares e distribuído nas escolas e bibliotecas de todo o Brasil.
Entre os seus vários livros, destacam-se: Geografie d´ombra (poesia, Veneza, editora Fonèma, 1989), Tempo de doer/Tempo di soffrire (poesia, Roma, editora Pellicani, 1998), La guarigione (poesia, Senigallia, editora La Fenice, 2000), Poesia, mito e história no Modernismo brasileiro (ensaio, São Paulo, Editora da Unesp/Edifurb, 2002), Verrà l´anno (poesia, Fara, editora Rimini, 2005), Storie nella storia: le parabole di Guimarães Rosa (ensaio, Lecce, editora Pensa, 2005), No coração da boca (poesia, São Paulo, Escrituras, 2006), A poesia é um estado de transe (poesia, São Paulo, Portal Editora, 2010), La carne quando è sola (poesia, Florença, Società Editrice Fiorentina, 2011) e Vida de boneca (poesia infantil, São Paulo, Editora SM, 2013).

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O músculo amargo do mundo, de Vera Lúcia de Oliveira. São Paulo: Editora Escrituras, 86 págs., R$ 24,80, 2014. Site: www.escrituras.com.br
E-mail: imprensa@escrituras.com.br
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981), Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003) e Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

Moscas | Domingos da Mota

 

 

As moscas vão mudando, e o cheiro é tanto
que tresanda a mil léguas de distância;
e a causa do fedor pode entretanto
focar-se num detalhe que a abundância

de moscas que volteiam por aí
não deixa de picar se uma promete
a diferença de tom, da coisa-em-si,
do rumo que no fundo a compromete.

As moscas vão mudando, e a dose até,
consoante a avidez da moscaria,
pode ser a razão do finca-pé

que se rebaixa mais do que seria
legítimo esperar do rapapé
que distingue a mais alta vilania.

Domingos da Mota

[inédito]

MARIA VELHO DA COSTA | Soledade Martinho Costa

 

 

Porque os tempos não eram
O que hoje são
Mais a voz se elevou
A romper trevas
A inundar de luz a escuridão

Rompeu feita coragem
Sem medo ao medo
A fustigar as normas
E o preconceito
Que regia a mulher e a nação.

No mesmo jeito
Três Marias souberam
Denunciar a palavra calada e ofendida
Como se fora um só nome e uma só mão.

Soledade Martinho Costa

Do livro a publicar «O Nome dos Poemas»

RAIMUNDO | CONTO VII | COLECTIVO NAU | Paulo M. Morais

 

 

“Dizem que Raimundo conhecia muito mundo.” Foi numa biblioteca que ouvi pela primeira esta frase, seguida de alguns diz-que-disse sobre este Raimundo, homem que pelos vistos parecia conhecer muito mundo. Não passou de um cochicho entre dois funcionários, sentados à secretária onde se levantam e entregam os livros requisitados, mas foi um cochicho bem planeado, cirúrgico, discreto mas ao mesmo tempo suficientemente vincado para despertar o interesse aos que o escutassem. Eu escutei. E enquanto me dirigia a pé para casa, com aquelas sílabas duplicadas – “raiMundo”, “Mundo” – a ressoarem na minha cabeça como um mantra hipnótico, o Raimundo com aquele mundo todo agarrou-me. Ao sentar-me à secretária de casa, já sabia que também eu teria de partir à procura deste homem oriundo da vila de Cuba. Nos dias seguintes, procurei convencer os meus parceiros do Colectivo NAU a fazermos uma investida à dita terra alentejana, ali para os lados de Beja.
– Vamos lá fazer o quê? – perguntavam eles e elas, à vez.
– Deslindar o boato do Raimundo. Vocês não ouviram?
Uns que tinham escutado, outros que não. Uns que acreditavam, outros que não. Uns que até iam, outros que nem por isso. É que dizer, lá isso dizia-se muita coisa. Que Raimundo era filho de faroleiro, andara na guerra, andara no mar, casara e fora feliz, contava histórias, era bom homem… Até se dizia que as ditas viagens ao resto do mundo afinal eram imaginadas, retiradas das páginas de livros, que tudo não passava dum raio dum Raimundo que lia livros! Ir à procura dele? O mais certo era ser caça ao gambozino, defendiam. Eu teimava que não podia haver fumo sem fogo. Podia lá um boato tão sólido não assentar num fundo de verdade? O Raimundo tinha de andar por aí.
– E se vocês não forem, eu vou.
Taxativo. E, no entanto, não fui. Estive quase a ir, numa excursão prometida por uma paixão primaveril, mas os amantes preferem dar prioridade a outras descobertas do que ir à procura dum Raimundo. Passou-se a paixão, esfumou-se a viagem, chegaram as férias de verão. Desconcertado por dentro e por fora, precisado de arejar a cabeça, necessitado de mãos amigas a passar pelo meu cachaço, rumei a Norte, para me alojar em casas de família, em vez de ir para a desconhecida Cuba sulista.
No trajecto até Coja, envergonhado da minha cobardia, tentei consolar-me. Vejamos meu rapaz… Se tivesses ido a Cuba, como procurarias o Raimundo? Fazias de detective e perguntavas aos velhotes do café central, às senhoras à janela, ao pároco se a vila ainda o tiver? Fazias de descobridor, perdido por ruelas, a ver se esbarravas nele numa “coincidência” romanesca? Fazias de cão de caça, a farejar um rasto invisível de fantasma, até forçar o Raimundo a sair da toca? E se o encontrasses, achas que ele te confessaria que não passava de um simples boato?
Cheguei a Coja enlouquecido por causa de um Raimundo. Devia era ir consultar o Nunes, anunciado na rádio local, o Nunes que “resolve todos os seus problemas” e como bónus ainda endireita a espinhela do cliente. A locutora do programa de discos pedidos, apesar da voz grossa, é uma queridinha a cantarolar as palavras. Diz que espera o telefonemazinho para pôr a musiquinha. Usa inhos em quase tudo. Começo a marcar o numerozinho para fazer-lhe uma perguntinha: “Conhece o Raimundinho?” Não obtenho linha. Devem estar reservadas para os ouvintes habituais. Conhecem-se todinhos e, em directo, trocam beijinhos e recadinhos e amabilidadezinhas do tipo “as suas feriazinhas, foram boazinhas?”, “o seu bebezinho está benzinho? e o maridinho?”, “então que vai ser o seu almocinho?”.
Na praça central, sento-me na esplanada do café. Sou o mais novo do grupo reunido à mesa. Dizem que me reconhecem, que já estive aqui há muitos anos atrás. Não me lembro de nada, mas respondo afirmativamente para aproveitar a deixa. “Parece que sim, se tantos mo dizem… E o Raimundo já cá esteve?” Não sabem quem é esse, mas a mim sim. Dizem que era pequenino mas que ainda mantenho o mesmo sorriso. Sorriso? Concluo que estão mesmo enganados, tal como a senhora que me vem perguntar se sou o Valter Hugo Mãe. Digo-lhe que até posso ser durante uns momentos, só para ela ficar contente, embora não fosse assinar nenhum livro… Mas criança sorridente, aqui, no passado? Isso contradiz as minhas memórias. Uma criança que sorri é feliz. Terei então tido uma infância feliz? Talvez sim, talvez sorrisse, pois estive aqui com a minha mãe e é costume as crianças sorrirem ao lado da mãe. Talvez sim, talvez já tenha visto antes estas caras reunidas em volta da mesa do café, no largo principal da vila. E de repente, em vez de procurar a história do Raimundo, parece que estou a resgatar o meu passado.
Olho para as minhas mãos e vejo-as pequenas. Sou um menino, temeroso de falar às pessoas, sem querer actuar em público, a preferir ficar calado, a observar a vida dos outros a acontecer. Sou um miudinho à procura de um rumo para me orientar, um espaço para me aninhar, um timbre para me expressar, um ouvido para me escutar, um olhar para pousar a minha insegurança. Entre estas pessoas que dizem conhecer-me talvez esteja em casa, num mundo que também é meu, num tempo deslocado onde faço sentido. Não sei se sou um menino ou um homem, a fumar um cigarro encostado a um tronco, a pensar que o acordeonista da tuna de cantares, com os seus fartos bigodes brancos, bem que podia ser o Raimundo se isto fosse a Cuba alentejana.
Se tivesse de escolher alguém daqui para ser Raimundo, seria o “Rei da Praça”, homem de idade indefinida por causa do cristalino dos olhos azuis e atentos, boné cinzento na cabeça, barba rala no rosto, licenciado em “generalidades”, cumprimentado por todos que passam por ele, enquanto varre os passeios da praça ou puxa as cordas atadas aos burros Urraca e Ricardo que carregam a criançada em passeios à beira-rio. Ou então escolhia o nadador-salvador da praia fluvial, onde todas as tardes me sento numa espreguiçadeira a ler a Marguerite Duras e a queimar a pele, ele que já tirou cinco mortos do rio (nenhum dos quais chamado Raimundo), e que não tem tempo para grandes conversas por causa de ter de ir “tratar das babes”. Ou o João “Tralhão”, o tonto que em 1973 foi estrela de cinema na curta-metragem O Piano, rodada na aldeia vizinha do Piódão sob a direcção de Sinde Filipe. Ou ainda o sargento da guarda, animador-mor de um almoço de convivas da terra, contador de piadas e historietas, que se apressa a guardar os restos de comida para o cão “Djaló” enquanto os outros lhe gritam “é mas é para o teu jantar!”.
Durante o almoço, enchem-me copo e prato. Sabem que faço cerimónia e, por isso, estão sempre a encher-me copo e prato, em quantidades de já não cabe mais. E à medida que bebo e como, começo a envelhecer até à idade deste grupo de homens que tem unhas grandes, lentes grossas, aparelhos auditivos, e rio-me, rio-me a sério com os dichotes sobre as empregadas do restaurante, todas da mesma família, embora umas sejam filhas deste, outras sejam daquele, e a maior parte descenda de um velho encostado ao balcão do fundo, um Don Juan usado, com os pés para a cova, mas que permanece a esperança para qualquer um dos homens sentados à mesa: “Se ele ainda consegue…”
No cenário verdejante da Fraga da Pena, despeço-me à distância da gente do almoço, da praia fluvial, do café. Aqui também sobram memórias de namoros, especialmente dos rapazes locais com as estrangeiras que cá calhavam. Disso também não me lembro, até porque não tinha idade de namoros. Eu, se estive aqui antes e sorri, era porque estava com a minha mãe.

Subo ao cimo da fraga. Em redor, as silhuetas dos penhascos, debruadas a verde-floresta, cortam o azulado do céu. Uma estranha nuvem em forma de risco vertical assemelha-se a um elevador celestial. E num único voo estou mais nortenho ainda, em Trás-os-Montes. Dizem que Raimundo conheceu muito mundo. Eu conheço Vilarandelo, durante a segunda semana da minha quinzena de férias.
A terra está em festa. É Agosto profundo, como aquele da canção “Meu querido mês de Agosto” cantada pelo Dino Meira. A música aqui nunca pára, debitada por um sistema de colunas espalhadas pela vila. No passado, houve quem se aborrecesse com o barulho ao pé da porta de casa e tenha resolvido o caso à caçadeira. Um tiro certeiro e calou-se o pio ao altifalante pendurado no poste electricidade. Mas ao lado, nos outros postes, a música lá prosseguiu. Nas ruas ouve-se o último sucesso do Quim Barreiros, no salão de festas escuta-se o coro comandado por um jovem seminarista, ele tem o dom da palavra, é capaz de vender tudo com a sua vozinha doce, até uma actuação que em vez de três agrupamentos só vai ter um. Pouco importa, assegura, que as vozes que se ouviram são de anjos, que o mundo fica mais belo com a música acabada de escutar. E a plateia levanta-se, emocionada, para entoar o refrão do hino da vila, numa apoteose comunitária que culmina em salvas de palmas e profusos parabéns, para depois continuar no átrio – onde o fino teima em sair sem pressão, só vem espuma – e nas ruas com o corte e costura, a coscuvilhice, o falar mal, o desdizer. Esqueço-me da imperial mortiça pela lembrança do que disse um músico de uma localidade vizinha: “O vinho recorda-me os amores do passado.”
À mesa, nos almoços em família, não falta vinho. E eu, que devia estar à procura do Raimundo que conheceu muito mundo, tenho alguns amores a relembrar. Como maltratámos quem nos amou. Como nos maltratou quem amámos. Numa rua perto desta minha casa de família, um cão vive agora sem tecto. Os donos mudaram-se para um apartamento, abandonaram o cãozinho à sua sorte, e ele deixa-se ficar junto ao novo prédio, certo de que a porta fechada é apenas um engano. Come o que encontra aqui e ali ou o que os vizinhos lhe dão de esmola. Talvez o cachorro morra no inverno e acabe a sua agonia, que ele é como alguns amores, foi abandonado ainda em vida. Porém, há outros amores que nunca se esquecem, como o da placa que encontro no cemitério: “Para ti, Brown. Faz hoje 12 anos que alguém te roubou. Onde quer que te encontres, recebe carinho do teu dono.”
Eu nestas férias não quero chorar por causa de amor. Rejeito que me encham o copo do vinho que desperta a memória e folheio os classificados do jornal. Festança, é preciso festança, como o prometido nestes quadradinhos de texto, o saber dos 60 anos que veio de férias, os travestis especializados em principiantes, a safadinha que adora chupa-chupa, a ratinha quente, o grelinho avantajado, o rabo empinado, o bumbum a estrear, os peitos durinhos de fazer parar o trânsito, o furacão na cama que atende em mini-saia sem cueca. Bebi demais mas a festa ainda mal começou. Sangrias, cervejas, vinho verde. Shots de gelatina com vodka. Há procissão, concerto da filarmónica, barracas de farturas, jogos tradicionais, arruada da banda, festa de espuma, foguetório… O animador de serviço não tem mãos a medir – o que ele adora o jogo do pau de sebo para poder dizer “Queria ver as mulheres a mostrar como se agarra o pau!” –, está sempre a apregoar que “há fino fresquinho, água para lavar os pés, sumo para a canalha”.
De onde eu venho não se chama canalha à miudagem, não se mete um cabrão em cada par de frases, não há padres que já foram levados de carrinho de mão por terem bebido demais, não se puxa um banco para os que chegam, não se recebe um estranho em festa de família para comemorar o aniversário de uma matriarca. De onde eu venho não há mesas cheias de novos e velhos, quatro gerações juntas à volta do cordeiro, do leitão, dos peixinhos do rio, da cenoura e beterraba avinagradas, dos tomates frescos, e as pessoas dizem isso mesmo, “disto aqui não há em Lisboa”, e têm razão, não há as casas cheias, os risos, as cavaqueiras, as mulheres sem parança na cozinha, os prove lá esta aguardente caseira com bagas de zimbro, prove agora o licor de abacaxi, as histórias que se contam das idas à fonte para ver os rapazes, dos namoros com os olhares, dos bailes para a agarração, da carência de comida que se conheceu, grelos e batatas ao almoço, batatas com grelos ao jantar para não ser sempre a mesma coisa.
Nesta mesa enorme e cheia de gente, quem foi a Lisboa di-lo com a entoação de quem foi ao centro do mundo e não viu razões para tal alarido. Se calhar o Raimundo sou eu, um lisboeta perdido neste mundo português, um bicho da cidade exposto às raízes da nossa terra. Se calhar o Raimundo sou eu, encostado a um murete, à espera que uma vaca cague para cima de um dos números escritos no chão para ver se a poia premiou alguma das rifas que comprei. Se calhar o Raimundo sou eu, a caminho de um sítio que sempre quis ver, a aldeia transmontana chamada Morais, da qual já me tinham falado por causa dos céus estrelados.
Em Morais não fiquei para ver as estrelas. Mas na tarde em que lá passeio encontro um portão enferrujado com corações e um banco de acolher viajantes. Sento-me a olhar para a paisagem recortada de amarelos e verdes claros, quase secos, pontuada por oliveiras pálidas, a pensar que gostava de suspender o tempo. Devia ter ido procurar o Raimundo à Cuba alentejana, mas estou aqui, quase no extremo oposto, nesta aldeia que invoca ser “o umbigo do mundo”, porque há coisas que querem ser escritas assim, de modo contrário ao planeado, através de encontros que se decidem numa anotação inesperada ou num rodapé fortuito.
A viagem está no fim. Afinal quem é o Raimundo? Talvez alguém capaz de esperar que a “vaca cague para nós” e de ler José Saramago. Talvez seja um homem capaz de se ambientar ao lado do senhor professor que cita filósofos, escritores, cientistas e políticos numa conversa sobre desertificação do interior, e que depois se vá sentar ao lado de um par de velhotas que só dizem caralhadas. Talvez seja alguém que pensa que os escritores regionais são mais importantes do que nunca, pois há tradições e receitas e espécies e expressões que estão a desaparecer e é preciso que alguém, pelo menos, as perpetue em papel impresso. Talvez o Raimundo seja alguém que combate as mentes pardas que esfregam as mãos de contentes sempre que se apaga mais um pouquinho do Portugal “pimba”, pois isso só pode significar que vamos logo ficar todos mais eruditos, cultíssimos, evoluidíssimos. Talvez seja um Raimundo que aperta a mão do senhor doutor enquanto escarra para o chão e cita Padre António Vieira ao som do Marante.
Passei quinze dias no encalço de um boato que ouvi numa biblioteca. Dizem que Raimundo conhecia muito mundo. Não vos sei dizer que mundo era o dele, mas sei o mundo que encontrei: uma galáxia de contrastes. Num momento, o automóvel desliza por uma paisagem rural, sem casas à vista, os tons da terra e do céu dourados pelo pôr-do-sol, o silêncio pontuado pelo bater de asas dos pássaros. Após uma lomba, o horizonte revela um ecrã gigante psicadélico. É a festa novamente. O ruído de Agosto entra pelas janelas quando o carro passa ao lado do imenso palco, em cima do qual três acordeonistas tocam para um adro despovoado de assistência. As colunas reverberam um som distorcido que trepida os assentos do automóvel. E esta transição que parece ser do paraíso para o inferno, afinal não é mais do que a revelação de que as fronteiras são artificiais, de que o silêncio está ligado ao ruído, de que o catedrático come a mesma comida do que o analfabeto, de que somos todos o mesmo país, de que formamos uma unidade resistente aos preconceitos e aos ares de superioridade.
“Dizem que Raimundo conhecia muito mundo.” Não sei ao certo por onde andará o Raimundo. Mas seja lá onde for que ele esteja, eu também quero estar.

Paulo M. Morais

‘Livro de Linhagem’ ou a busca da infância perdida | Adelto Gonçalves

                                                           I

 

O diplomata Alberto da Costa e Silva, nascido na cidade de São Paulo em 1931, um dos mais importantes intelectuais brasileiros contemporâneos e historiador especialista na cultura e na história da África, membro da Academia Brasileira de Letras e seu presidente de 2002 a 2003, sempre foi, sobretudo, um poeta extremamente lírico, como poucos na história da Literatura Brasileira.  E de um lirismo que sempre esteve umbilicalmente ligado à infância que viveu e que, provavelmente, gostaria que tivesse sido outra, como ele próprio admitiu em entrevista a Harold Alvarado Tenório publicada no jornal La Prensa, de Bogotá, em janeiro de 1994, à época em que mal havia cumprido sua missão como embaixador do Brasil na Colômbia: “Yo creo que esta tentativa permanente que hago para rehacer el tiempo de mi niñez está ligada a un profundo deseo de haberla vivido de otra manera”.

Eis um exemplo desse lirismo que vem de longe, mais especificamente de Livro de Linhagem, conjunto de poemas escritos entre 1963 e 1965, que só saiu à luz no Brasil em 2010 pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, mas que foi publicado em Portugal e distribuído aos amigos como uma lembrança do Natal de 1966:

Rente à terra, o meu céu,

            qual  rês ajoelhada,

            menino a vigiar, de bruços, a arapuca

            e as aves que alçam vôo das crinas dos cavalos,

            mão que toca outra mão,

            ou muro esfarinhado

            que desce com o calangro e onde o sol

            faz abrir a plumagem.

(Fui menino demais e sofri como os outros,

os que levam, descalços, seus burricos com água,

pouca esperança, farinha, rapadura e a tarde,

com tudo o que volta

– os bezerros,

os focinhos molhados dos bois

E os lacrimosos carneiros.)

 

                                   II

 

Os trechos acima compõem o poema “Um sobrado, em Viçosa” que evoca parte da infância do poeta vivida no município de Viçosa, no Ceará, na divisa com o Piauí, terra inicialmente habitada por índios tabajaras. Viçosa, antiga aldeia de índios dirigida por padres da Companhia de Jesus, foi desbravada ao findar o século XVI, quando do contato dos índios com os franceses, vindos do Maranhão entre 1590 e 1604, data em que foram expulsos por Pero Coelho de Sousa, quando este fazia tentativas de colonização portuguesa no Ceará. Os demais poemas do livro evocam Amarante, no Piauí, cidade onde nasceu o pai de Alberto, o também poeta (Antônio Francisco) Da Costa e Silva (1885-1950), e Sobral, cidade do Ceará. O livro é concluído por “Sonetos rurais”, que igualmente evocam paisagens e cheiros que o poeta viu e viveu quando menino, em andanças com a família pelo Nordeste.

Como escreveu o também poeta e diplomata Izacyl Guimarães Ferreira, em brilhante e denso ensaio que está na revista digital Agulha, Livro de linhagem é um corajoso corte entre a direta clareza dos poemas dos 20 anos e a claridade madura dos poemas seguintes. “Chega a ser obscuro aqui e ali, por cifrado o recordar de antepassados, quase uma narrativa de acontecimentos apenas esboçados, uma evocação de estranha e incomum beleza”, diz.

Conta Ferreira, que Da Costa e Silva, pai, sofreu de depressão profunda, aí por volta da década de 1940, refugiando-se num silêncio profundo, o que levou o seu filho Alberto assumir-se como responsável por seus cuidados até os seus últimos dias. Diante do silêncio paterno, Alberto sentiu-se como um órfão antes de sê-lo. “É desta relação que nasce a matéria poética de Alberto da Costa e Silva”, diz Ferreira.

 

                                               III

 

De fato, a partir de Livro de Linhagem, a obra poética de Costa e Silva assume-se como proustiana, baseada em sua experiência pessoal de vida, em busca do tempo perdido, mais especificamente da infância perdida. Poemas reunidos (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2000), prêmio Jabuti, por exemplo, está estruturado justamente em faixas etárias: poemas dos vinte, dos trinta, dos quarenta, dos cinquenta e sessenta anos. Segundo o poeta Fabrício Carpinejar, a espacialização da antologia demonstra a circularidade do tempo, a linha de convivência simultânea e harmoniosa (ainda que difícil e dolorida) do menino-pai-avô. “Eles conversam ao mesmo tempo em todos os quadrantes, em diferentes perspectivas”, observa.

Em Livro de Linhagem, no poema “Paisagem de Amarante”, que abre o livro, sente-se o horizonte nordestino, em meio ao ambiente agreste que ainda resiste com um instante de verdor à inclemência de um tempo árido. E não só, porque emoldurado por uma figura de mulher:

E fomos para onde a relva era ainda de um verde

            acastanhado e havia babaçus e um regato

            magro como os bois que levávamos,

                                                                                   onde

            o florido algodão depois plantámos.

                        Ela vinha

            e não usava bandós, nem tranças de sereia

            dessas gravuras de mau talho,

            que recebemos de longe,

            de Lisboa talvez. Também não tinha

            a blusa de unicórnios e de heráldicas feras,

            nem rosas e corações no vermelho do linho.

                        Trazia um pássaro inventado

            no lábio inferior.

                        Sem saias e anáguas,

            pintada de vermelho e jenipapo

            andava como a nhambuzinha,

            apressada e sensível (….).

 

Por tudo isso, este é um livro, ainda que breve, indispensável na bagagem de todo cultivador de poesia de boa qualidade.

 

                                     IV

 

Alberto da Costa e Silva estreou em 1953 com O parque e outros poemas. Publicou depois sete livros de poesia. Publicou dois volumes de memórias, Espelho do Príncipe (1994) e Invenção do desenho (2007) e, como ensaísta, O pardal na janela (2002) e Das mãos do oleiro (2005), que traz a apresentação que fez para Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), deste articulista..

Publicou oito livros sobre a História da África, entre os quais se destacam A África antes dos portugueses (1992), A enxada e a lança (1992), A manilha e o libambo: a África e a escravidão de 1500 a 1700 (2002), Um rio chamado Atlântico (2003) e Francisco Félix de Souza, mercador de escravos (2004). Escreveu Castro Alves, um poeta sempre jovem (2006), para a coleção Perfis Brasileiros, da Companhia das Letras. Também é autor de livros infantojuvenis, como Um passeio pela África (2006) e A África explicada aos meus filhos (2008).  Em 2009, publicou O quadrado amarelo (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo), que reúne textos sobre arte e literatura, cruzando referências populares e eruditas, recorrendo à memória e às experiências de viagem.

Entre os prêmios e distinções que recebeu estão os títulos de doutor honoris causa pela Universidade Obafemi Awolowo (ex-Universidade de Ifé, Nigéria, 1986), pela Universidade Federal Fluminense (2009) e pela Universidade Federal da Bahia, em 2013, além do prêmio Juca Pato de Intelectual do Ano (2003), da União Brasileira de Escritores e do Prêmio Camões de 2014. Ao lado de Lilia Moritz Schwarcz, desde 2008 dirige a coleção das obras completas de Jorge Amado para a Companhia das Letras.

Membro do Júri do Prêmio Camões em 2001, 2003 e 2013, é sócio-correspondente da Academia das Ciências de Lisboa e sócio-correspondente da Academia Portuguesa da História e da Real Academia de História, da Espanha. Diplomata de carreira, foi professor do curso de Aperfeiçoamento de Diplomatas do Instituto Rio Branco em 1971-1972, presidente da banca examinadora do curso de Altos Estudos do Instituto Rio Branco, de 1983 a 1985, e vice-presidente de 1995 a 2000.

Foi cônsul em Caracas (1964-1967), embaixador em Lagos, na Nigéria (1979-83), e cumulativamente em Cotonu, na República do Benim (1981-83), chefe do Departamento Cultural do Ministério das Relações Exteriores (1983-84), subsecretário-geral de administração do Ministério das Relações Exteriores (1984-86), embaixador em Lisboa (1986-90), em Bogotá (1990-93) e em Assunção (1993-95); entre outros cargos diplomáticos.

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Livro de Linhagem, de Alberto da Costa e Silva. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 56 págs., 2010, R$ 15,00. Site: www.imprensaoficial.com.br

E-mail: livros@imprensaoficial.com.br

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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981), Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003) e Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

Como Se Nada Fosse, de José Alberto Oliveira

Após a publicação, na Assírio & Alvim, de Tentativa e Erro, em 2011, José Alberto Oliveira está de regresso com este Como se nada Fosse, onde encontramos alguns dos mais belos poemas da sua obra: esboços de uma autobiografia, cogitações, homenagens, sobressaltos, leituras.

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Teatro com Poesia é o novo trabalho do diretor Robson Raycar | Valdeck Almeida de Jesus

Valdeck Almeida de Jesus e outros poetas estão na montagem “Corpo e alma –  Em Verso e Prosa”, da Trupe de Teatro 4.Com é um espetáculo experimental que surgiu da necessidade de iniciar um novo ano com Cecília Meireles, Drummond de Andrade, Fernando Pessoa, poetas desconhecidos e improvisos cômicos desvairados do nosso cotidiano. Em cartaz em três apresentações, 07 de março na Fundação Pierre Verger e nos dias 19 e 26 do mesmo mês, no Teatro Solar Boa Vista, no Engenho Velho de Brotas, em Salvador, sempre a partir das 20hs, com ingresso ao preço de Pague Quanto Puder.

 

A peça tem poemas e músicas como “Auto Reverse” (O Rappa), “Ausência” (Drummond), “Soneto da Fidelidade” (Vinícius de Moraes), “Eu amo tudo o que foi” (Fernando Pessoa), “Cajuína” e “É proibido proibir” (Caetano Veloso), “Não quero dinheiro” e “Eu só quero amar” (Tim Maia), “Quantos anos você tem” (Neimar de Barros), dentre outras. Além de textos renomados e clássicos, o espetáculo tem abertura com poetas de carne e osso, lendo ou declamando suas próprias obras, integrando a peça teatral, de forma a criar um intrincado poético-musical que embala atores e expectadores numa dança mágica. A apresentação inebria, arrepia e traz fôlego novo para poetas e amantes da arte da palavra.

E a palavra poética, esta que faz parte de muitas artes, é uma ousadia de Robson Raycar. “Tive a ideia de montar um espetáculo diferente, que mostrasse a diferença do poeta declamador para o poeta dramatizador. Quero falar em amor! Quero tocar o público, quero mostrar que teatro não é só comédia, quero falar para a alta sociedade que o gueto fala em amor de uma forma não corrupta”. Ele contou com o apoio da Trupe de Teatro 4.Com, que criou tudo em conjunto, num processo de corresponsabilidade. A proposta teatral com base no teatro físico é para criar armas para manter uma linha tênue entre poesia, ator e plateia. Os poetas convidados entraram no clima e já se integraram à apresentação: A. J Cardiais, Cássio Jônatas, Valdeck Almeida de Jesus, Rafael Pugas e Gilberto Filho! Os atores, todos na faixa etária dos 16 aos 18 anos, além do próprio Robson, são: Carol Oliveira, Guilherme Ribeiro, Igor Nascimento, Lisandra Silva e Thays Tamashiro.

Serviço

O que: Corpo e Alma em Verso e Prosa

Quando: 19 e 26 de março de 2015, às 20hs

Onde: Solar Boa Vista de Brotas, Salvador-BA

Quanto: Pague Quanto Puder

Contatos:  (71) 8712-6849 e 9324 6191 (WhatsApp)

 

Fonte: http://www.galinhapulando.com/visualizar.php?idt=2674980