Geladeira tomada

Ao Cortázar 

É só abrir a geladeira, e ele começa a me acariciar. Um dia chegou a apertar meu seio. Afrontada, repeli-o. Em vão: ele continua a brincar comigo, como se nada tivesse acontecido. Quem sabe seja levado a isso por interpretar levianamente meus gestos: desde que ele ocupou a geladeira, para apanhar as frutas, a manteiga, o leite, as conservas, sou forçada a roçar-lhe o peito, as pernas, os braços, o que talvez o excite. Mas a mim, que tenho casa e filhos para cuidar e um marido que atazana por dá cá aquela palha, a brincadeira está custando caro. Às vezes, de noite, sonho a sua mão gelada correndo-me o corpo, na promessa de um prazer que há muito deixei de experimentar.

Álvaro Cardoso Gomes

Coisas que se pensam quando qualquer outra coisa seria menos inútil

Ser consciencioso é estranhamente, por vezes, denegrir a parte pela qual a consciência se sente menos atraída.

A consciência é apenas o instrumento, que nos permite inclinar a existência mais para um lado do que para o outro, como quando se vai a estatelar o nosso corpo mas ainda há a possibilidade de perceber a aproximação ao futuro da queda e num impulso emocional, ele é por nós orientado para onde há mais pedras ou não, para o receber.

A consciência guia-se pelo susto que a assoma, mas parece ser que os seus ponteiros ainda assim se movimentam, como uma cauda de lagartixa abandonada.

Gabriela Ludovice

O ‘fatum’ da literatura e uma efeméride

Saiu a público há precisamente dez anos, em Milão, uma obra importante de Umberto Eco sobre literatura. Trata-se de Sobre literatura (Sulla letteratura, Bompiani) que foi traduzida em Portugal por José Colaço Barreiros e publicada, em Fevereiro de 2003, pela Difel. A obra reúne ensaios diversos, de que retenho, olhando para o sublinhado da minha edição, uma óptima abordagem sobre a “representação do espaço com as palavras” (Les sémaphores sous la pluie), uma análise à geração de símbolos em que o autor consegue não falar de Peirce e ainda um fantástico texto sobre o significado dos aforismos (estando Wilde na mira).

Mas foi o ensaio inicial deste livro, intitulado Sobre algumas funções da literatura (e que nasceu de um discurso proferido pelo autor em Mântua no ano 2000), que acabei, ao longo desta década, por nunca mais esquecer. Muitas foram as vezes (passeio da pé, pausa rotineira ou ócio desventurado) em que, do nada, este ensaio me ‘subiu à cabeça’. Sempre me intrigaram, realmente, as razões que levam a memória a seleccionar os seus despojos. Razão pela qual recordo este “fado”, porque é disso mesmo que se trata.

O breve ensaio centra-se na ideia de inevitabilidade, entendida como ‘fatum’ que faz da literatura uma espécie de cimento heideggeriano da nossa existência. Como se o ser humano só fizesse certas coisas, porque sabe que tem sempre pela sua frente a morte. Este ‘ser-para-a-morte’ está na base dos exemplos que atravessam o fim do ensaio de Eco, caso do relato que Victor Hugo faz de Waterloo, em Os Miseráveis, sempre regido e visionado a partir dos olhos de Deus. As coisas sucedem-se, nessa arena ficcional, como teriam que ter acontecido. O simples facto de Napoleão ignorar a existência de um precipício num dos extremos do planalto de Mont-Saint-Jean não permitirá jamais inverter a narrativa, ainda que esse desconhecimento tenha significado a derrota diante do exército inglês.

Eco estabelece um interessante contraste entre este tipo de narração vertical, regida de cima para baixo, ao jeito de uma enunciação determinista, e o olhar de Fabrício que, através da pena de Stendhal, descreve a batalha de dentro para fora. A inevitabilidade explorada por Hugo é, ao fim e ao cabo, o fio essencial de toda a tragédia literária. Um destino traçado pelos próprios heróis, passando perto – por vezes pelo interior – de situações e factos que podiam ter valido uma redenção sempre adiada e sempre sonhada.

Ao contrário da hipertextualidade contemporânea, que permite fazer dum relato um ‘puzzle’ sempre reversível, esta genuína tradição da tragédia é, não apenas um intertexto forte da história literária, mas, sobretudo, um facto que estará na génese do próprio fazer literário. Eco termina o artigo que abre Sobre Literatura com uma conclusão deste teor. Leiamo-la, pois ela é cristalina e, claro, como não podia deixar de ser, profundamente irónica: “Creio que esta educação para o Fado e para a morte será uma das funções principais da literatura. Talvez haja outras, mas agora não me vêm à cabeça”.

Tua coxa é lisa

Tua coxa é lisa, o lado de dentro. Você é peixe de uma única escama, liso com ela e sem ela. Meus dentes não te rasgam, escorregam, escoriar tuas pernas é um descuido que me agrada. A mulher raspa tua cabeça, dinâmica debaixo d’água pra te salvar das Iemanjás. Azar dela, eu não preciso de oxigênio debaixo dessa pressão. Tô te esperando no toalete das arraias, sem minha parte de cima. Sereia feliz, cabeça de peixe, quadril de mulher.

Andréa del Fuego

Entreacto

Repassada do desejo daqueles risos que se perderam e da lembrança dos encantos que nunca chegaram a acontecer, está a casa, palco deserto, onde outrora fantoches ensaiavam uma monótona coreografia. Aí, já não cabem as aparentes histórias nem o som de vidas a fenecer. Ouve-se, somente, o rangido das tábuas do soalho sob os passos das turbulentas memórias. Os segredos adormecem nas sombras, que desenham um retábulo de recortes esfumados, na espessura oca dos tectos negros.

O tempo ficou retido na fuligem que abraça o passado.

Lá fora, as manhãs desafiam a perenidade do momento.

Julieta Ferreira

Ruído de fundo

Viver no Fim dos Tempos é a mais recente grande obra de Slavoj Žižek, grande pelo seu meio milhar de páginas, grandiosa pelo estilo, e também grande pelo tema. O título apocalíptico não engana inteiramente. O mais célebre marxista dos nossos tempos vem com este livro profetizar o fim do sistema capitalista global, a caminho do seu “ponto-zero apocalíptico”, levado nos ombros de quatro cavaleiros do Apocalipse.

E com efeito, no lugar da Fome, da Guerra, da Peste e da Morte, Žižek prenuncia tempos de destruição trazidos pela crise ecológica mundial, os desequilíbrios intrínsecos ao sistema capitalista liberal, o explosivo crescimento das exclusões sociais e, ainda, a revolução biogenética. No cerne destes tempos derradeiros, o pensador esloveno identifica um mal-estar, que não é o da Civilização, como em Freud, mas o do capitalismo liberal, que, depois do fim do socialismo real, se hegemonizou por todo o mundo, quer o das relações humanas, quer mesmo o mundo natural, ou a sombra do que este terá sido, entretanto levado à exaustão dos recursos e à manipulação brutal, por um sentido ilimitado de posse utilitária de todo o mundo.

O mal-estar ressalta, por exemplo, na pergunta que nas ex-repúblicas de Leste se tornou insistente: «por que continuam as nossas vidas a ser tão miseráveis?» Se, ao menos, não havendo riqueza, mais e melhor liberdade se tivesse alcançado. Mas, nem isso. Para Žižek foi fogo de vista, sarcasticamente feito equivaler a pouco mais do que consumo de bananas e pornografia. E agora tratar-se-á de saber responder à frustração dos povos e saber fazê-lo melhor do que os populismos nacionalistas. Porque atrás dos tempos vêm novos tempos, o que é o mesmo que dizer que os tempos morrem mas nós continuamos cá, sobreviventes ao trauma.

É, aliás, precisamente a ideia de um processo de luto que organiza a sucessão dos capítulos deste livro. Inspirado no estudo que Elizabeth Kübler-Ross, uma psicóloga suíça, fez sobre as fases do processo de luto, Žižek projeta cada uma dessas fases do luto como capítulos, que serão também etapas do desenvolvimento e superação do mal-estar. “Denegação”, “cólera”, “negociação”, “depressão” e “aceitação” designam as cinco fases que se sucedem no processo de luto. Do «não aconteceu» à violência contra o que aconteceu, cuja impotência desespera na tentativa de negociar um regresso que já não é possível, até, finalmente, à reconciliação, vai todo um processo que encontra correspondências, passo por passo, com o mal-estar ideológico. A denegação sob a forma de ocultações ideológicas, particularmente exemplificadas nas grandes produções cinematográficas de Hollywood; a cólera nos atos radicalmente destruidores, como os do fundamentalismo religioso; a negociação na necessidade de um retorno à crítica da economia política; a depressão, em novas “patologias subjetivas”; por fim, a aceitação, como constituição ou reconstituição de uma “subjetividade emancipatória”.

Apesar do seu valor heurístico, este paralelo tem limites. Por exemplo, diversamente do que sucede no luto, onde a negociação prolongaria, por outros meios, o fracasso do impulso violento contra a morte, Žižek está verdadeiramente apostado na etapa negociadora e no que ela se traduz em retorno à discussão ideológica da economia política, com retoma da velha ênfase na infraestrutura económica. Neste ponto, convém bem marcar as diferenças para com as perspetivas demasiado centradas na ideia de cultura política, que têm em Hannah Arendt o exemplo extremo, que chega a destituir de sentido qualquer ideia de uma economia política, ao considerar a conjunção dos dois termos “economia” e “política” uma mera contradição.

Em todo o caso, a força do paralelo, entre o enlutar e o mal-estar, descobre-se na sucessão idêntica das fases que ambos os processos envolvem. Por essa razão, a analogia aproxima-se de uma homologia. Mas, além da riqueza da descrição da sua fenomenologia e da interpretação dos seus nódulos, por que se padece deste mal-estar? De acordo com Žižek, a sua razão de ser reside num paradoxo endógeno ao próprio capitalismo liberal:

O progresso do capitalismo, que tem necessidade de uma ideologia consumista, está a minar pouco a pouco a própria atitude (a ética protestante) que tornou o capitalismo possível – o capitalismo funciona hoje cada vez mais como a “institucionalização da inveja”. 

Por outras palavras, poupança e consumismo são termos mutuamente excludentes e, no entanto, o capitalismo liberal não se sustenta se não mantiver ambos.

Merece a pena notar que este paradoxo, posto nestes termos tão gerais, embaraça a alegada especificidade portuguesa que se tornou habitual relevar, com ampla cobertura mediática, entre elites intelectuais nacionais. Com efeito, a gasta perceção de que em Portugal as pessoas gastam mais do que têm transmuta-se, com toda a evidência, num exemplo que repete o padrão, dentro da lógica zizekiana, do paradoxo do capitalismo liberal. E a amarga imputação de que em Portugal “a inveja não é um sentimento, é um sistema”, que tem a sua explicação no facto de sermos uma “sociedade fechada”, célebre tese de José Gil, e profusamente amplificada por todas as consciências nacionais, esbarra contra a interpretação zizekiana de que a inveja, bem pelo contrário, é resultado de sociedades abertas, e é, para o bem e para o mal, um fenómeno coextensivo ao mal-estar do capitalismo, ou seja, fenómeno plenamente global. O extraordinário, com uma pitada de ironia, e com todo o mérito para Žižek, é que ele alcança o mesmo diagnóstico sobre a nossa situação quando o mais provável é que saiba tão pouco de especificidades identitárias lusas como nós das eslovenas.

Este é um livro que se pode ler como ensaio dotado de sistematicidade, mas que também se pode ler, de maneira muito estimulante, como uma sequência de reflexões, sempre brilhantes, e quase sempre polémicas. Como, por exemplo, a de que, afinal, o liberalismo económico, de direita e geralmente associado a valores culturais conservadores, por um lado, e o liberalismo de esquerda, multiculturalista e tolerante, por outro, são muito mais parecidos do que se julgam, desempenhando realmente papéis diferenciados, mas que propulsionam o mesmo sistema. De um lado, uma «direita tradicionalista que apoia a economia de mercado ao mesmo tempo que rejeita ferozmente a cultura e os costumes que essa economia engrendra»; do outro lado, uma «esquerda multiculturalista, que combate o mercado (…) enquanto apoia entusiasticamente a ideologia que o mercado engendra». É o que se poderia classificar como uma perfeita divisão do trabalho, inculpando-se uma à outra, a esquerda e a direita, a parte que deixou à outra completar. O sistema iliba-se é certo, mas não sem erodir a sua própria significância ao ponto de nos restar apenas a condição de uma democracia pós-política.

Na atual democracia pós-política, a bipolaridade tradicional entre um centro-esquerda social-democrata e um centro-direita conservador tem vindo a ser progressivamente substituída por uma nova bipolaridade entre a política e a pós-política: entre o partido tecnocrático-liberal e multiculturalista-tolerante da administração pós-política a sua contrapartida da direita populista, promotora de uma combatividade política.

Uma outra reflexão, não menos polémica, de Žižek retorna à difícil problemática da interdição do véu integral em França. Pergunta o autor: «Porque desencadeará o confronto com um rosto tapado tanta ansiedade?» A interpretação proposta, a partir do ângulo lacaniano, subverte por inteiro a perspetiva, tão bem enfatizada por um Lévinas, do rosto desnudado e, assim, exposto como um absoluto relacional. Para Zizek, pelo contrário, porque o rosto é máscara, só sendo coberto se desmascara.

O porquê de tanta ansiedade causada pelo rosto encoberto: confronta-nos diretamente com o abismo da Coisa-Outra, com o Próximo na sua dimensão estranhamente inquietante. Justamente o encobrir o rosto oblitera um escudo protetor, fazendo com que a Coisa-Outro nos fite diretamente (…).

Um último exemplo de reflexão tão surpreendente quanto perturbante encontra-se na fascinante incursão de Žižek pelo enredo de um filme de animação da Dreamworks, o célebre Panda Kung-fu. A inocência da animação permite promover, a seu ver, a mais pura ideologia. O filme conta a história de um urso panda que, apesar da aparente inépcia e da sua compleição bastante obesa, se torna um guerreiro lendário. O segredo do sucesso é um ingrediente secreto que, na verdade, consiste em nada, o que equivale a dizer que toda a força do herói está, afinal, contida na sua convicção de ser capaz. A fraqueza relativa torna-se força absoluta porque nada havendo a determiná-la também nada a pode afetar. Mas, o que parece maravilhoso é, na verdade, apenas pensamento mágico recreado por fórmulas tautológicas que disfarçam a sua vacuidade.

Estes são apenas exemplos entre as largas dezenas de exercícios criativos de análise que Žižek proporciona aos seus leitores. Frui-los com capacidade crítica é o exercício que se pode esperar do seu leitor. Este jogo é, de parte a parte, o desafio de resistência às ideologias que mais falta faz em tempos de “fim”. Žižek lembra, com alguma graça, que num debate com Bernard-Henri Lévy, em que cada um defendeu pontos de vista muito antagónicos, ele mesmo o comunismo, e Bernard-Henri a tolerância liberal, ambos fizeram-no, contudo, de forma tão patética que não conseguiram deixar de concordar com o que o outro dizia.

Esse sentimento de acordo recíproco provava que nos atoláramos ambos na ideologia: a «ideologia» é precisamente essa redução à «essência» simplificada que comodamente esquece o «ruído de fundo» que dota de densidade o seu sentido efetivo. 

E talvez seja precisamente esta a melhor razão para continuar a ler Slavoj Žižek. Os seus livros são o ruído de fundo que não dá descanso aos esquemas ideológicos, trazendo ao espetáculo do debate os mil ruídos mínimos com que a realidade nos surpreende a ideologia.

Ficha técnica do livro:

Título: Viver no fim dos tempos

Autor: Slavoj Žižek

Editor: Relógio d’Água

Tradução: Miguel Serras Pereira

Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico – convertido pelo Lince.         

Bomba atómica

A bomba vai explodir. Já está armadilhada. Só falta digitar o código de acesso e premir o botão.

— Vou-te deixar.

D. sufoca no ar que o rareia e leva as mãos ao peito. A dor fragmenta-se em inúmeros pedaços de amor tóxico. D. cai no soalho, fulminado por palavras terroristas, uma bomba atómica no seu coração.

Bruno Barão da Cunha

Tintureiro

O china era mais cuidadoso com o ferro de passar. Seu empregado, ao contrário, usa-o como se fosse um trator. O resultado são as feridas em minhas costas. Às vezes, ele joga água em excesso sobre a roupa, e o contraste com o ferro quente tem-me provocado constipações. Fossem somente as feridas e as moléstias passageiras até que não seria mau. O pior acontece nas distrações desse empregado: outro dia, ao atender uma freguesa, que lhe é muito cara, esqueceu o ferro ligado em minhas costas, e nem memo o cheiro de carne queimanda o fez deixar o bate-papo com a encantadora criatura.

Álvaro Cardoso Gomes

UM OVO DE AVESTRUZ (Como as baratas que conhecem as trilhas do escuro) Folhetim em Setenta e Seis Episódios da autoria de Carlos Pessoa Rosa. Trigésimo segundo Episódio

Cena 2

Todos na mesma sala… No colo da mulher o livro, as mãos no esqueleto da novela. A mente e o corpo rígidos, agregados aos móveis. Continua enlutada nos trajes. Veem-se esporadicamente os dedos em movimentos sobre a capa do livro; perdidos no espaço. A mente destroça a linguagem. Ninguém esperava um final tão trágico. Não aprendemos. Nunca! As rupturas dão o itinerário. Mesmo que neguemos, é fato. Os depoimentos e os registros escritos são carregados de impressões subjetivas. A linearidade e o discurso direto dão lugar ao fantástico e ao absurdo. Não fosse a vida um jogo de espelhos, se os cadernos escolares não tivessem os mesmos traços vermelhos separando os exercícios, se não houvesse uniformes ou grifes… A história é a própria rigidez do cenário. Uma obra ficcional amalgamada em gesso. É preciso profanar. Atordoar a roupagem. Habitar a loucura. Deixar cair máscaras de amar; e ser feliz. A arte está no desconexo, no pó amarelento e invisível da pausa. Se Deus existe, rendeu-se a Maldoror, seu anjo torto; mas predileto.

 

(continua)

Tenho abandonado teu corpo

Tenho abandonado teu corpo, é efeito. A causa me escapa, por ela que te escolhi, a causa. Não sabia que escolher fosse fácil, dá-se por razão numérica, fica quem já estava na raiz. Fórmula que se dissolve em água e faz-se a sopa, eu só entro com a colher. Não faço parte da escolha que me favorece. Escolha mesmo só a se tomo aspirina às três ou deixo pra mais tarde.

Andréa del Fuego

Na festa

Na festa ela esperava que alguém a olhasse. Toda a produção, vestido novo, maquiagem caprichada, sandálias altas, tinham um único objetivo: chamar a atenção para sua disponibilidade. Aos poucos o sorriso foi abandonando seus lábios, junto com o vermelho do batom. O vestido foi ficando amassado, as tiras da sandália foram apertando seus pés. Nos olhos, um brilho novo, triste, boiava. Ela disse adeus, mas as pessoas pareciam que não escutavam. Com dignidade, ela caminhou até a varanda, subiu numa cadeira, exigiu atenção: Vocês não reparam em mim! – queixou-se. – Mas vão reparar! E, num salto, capturou os olhares de todos.

Lúcia Bettencourt

Retrodicções

Durante a pausa de Natal e ano novo, estava a folhear uma Colóquio Letras (mais concretamente o Nr. 71 de Janeiro de 1983), quando os olhos me encaminharam para um breve texto que, por sua vez – súbito alerta de memória! –, me conduziu à estante. E, no fundo dos meus arquivos holandeses, lá encontrei a revista citada no texto não assinado da Colóquio. Tratava-se – já tinha esquecido o título por completo – da Nueva Estafeta de Madrid (Nr. 47 de Outubro de 1982) onde se fazia publicar um interessantíssimo texto crítico da autoria de Cesar António Molina, todo ele dedicado ao Livro do Desassossego do heterónimo Bernardo Soares de Fernando Pessoa. Como a memória pode ser agitada por um acaso de leitura!

O texto começa por colocar em evidência a inexorável distância entre Portugal e Espanha, países visceralmente virados de costas um para o outro. A realidade não mudou assim tanto nestas últimas três décadas, digamos de passagem. Para tal, Molina citava Buñuel de Mi último suspiro, onde se evocava “Portugal” como “esse país que para os espanhóis fica mais longe do que a Índia”, e fazia depois contracenar esta breve citação com uma outra retirada do prólogo da segunda edição de Aquele grande rio Eufrates de Rui Belo, onde se asseverava que Madrid “é uma das cidades do mundo mais afastadas de Lisboa”. As assimetrias reais de uma geografia ainda e talvez para sempre desfocada.

Sobre a obra do heterónimo mais livre de Pessoa, Molina salientava o cariz imolador do texto e do autor: estamos face a uma obra “em que se deixa entrever o fundo humano do escritor desejoso de se imolar na sua obra”. As ilações, no entanto, mais significativas do artigo decorrem das aproximações que o autor faz do Bernardo Soares de Pessoa a Barthes, como se aquele fosse, de algum modo, um pioneiro de luxo deste último. Molina refere a existência de fragmentos do Livro do Desassossego que “fazem lembrar o ‘nada’ da ‘deriva’ que Roland Barthes exemplificou com alguns romances de Pierre Loti”.

Entendendo o eclectismo da obra na área dos mais variados e abertos jogos da linguagem, Molina atribui ao Livro do Desassossego o epíteto de “gozo”, na medida em que nos “coloca em estado de perda, de mal-estar”. O fragmento 15, que se inicia com “Gosto de dizer. Direi mais: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tácteis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas”, publicado em 1931 na revista Descobrimento, levou Molina a observar que muitos anos antes de Barthes ver editado o seu Le Paisir du texte já Pessoa, pela pena de Bernardo Soares, “o resumia em pouco mais de cinquenta linhas”. A reflexão, intuitiva e real, faz lembrar a famosa retrodicção a que Borges recorreu, em Kafka y sus precursores (Otras Inquisiciones, 1952)*, para ilustrar o tópico kafkiano muito antes de Kafka fisicamente existir.

*J.L. Borges, Kafka y sus precursores em Otras Inquisiciones (1952) em Prosa completa, Narradores de Hoy/Bruguera, Barcelona, 1980, pp. 226-228.

Era de manhã

Era de manhã. O sol, preguiçoso, demorava a aparecer por entre as nuvens. As silhuetas das ilhas, ao longe, se alongavam no mar escuro. Subitamente o vento soprou com força, as nuvens se afastaram. O mundo se coloriu e desabrochou. Seria o sol ou o sorriso que se abriu em seu rosto?

Lúcia Bettencourt

Exercício de compreensão

Ele traduz uma palavra com cuidados de mãe, por uma outra que ele sabe, mas não eu.

Levaria o resto da vida para perceber onde põe ele as cores numa cidade, se lhe é pedido que a preencha de tons.

É por isso que não lhe entendo as palavras, mesmo que já destrocadas cada vez mais em significados mais simples e prefiro pensar, que se em vez da cidade como exercício para eu lhe compreender as palavras originais, esta passasse a ser um corpo de mulher, eu já conseguiria ler-lhe nos lábios o entendimento que tem do mundo, porque então eu seria essa rua grande cheia de ruas, que receberia as cores.

Gabriela Ludovice

A Universidade da Vida | Cristina Carvalho

É boa, mas não chega! Tem bons mestres, mas não chega! A universidade da vida, ou seja, subentendendo-se um longo caminho já palmilhado, ensina algumas coisas, traz a atenção de certas atitudes, prevê desgraças previsíveis, atenta em quase todas as reações, percebe, ao longe, intenções de variada natureza. O longo caminho da vida adivinha muita coisa e não se deixa enganar com facilidade. Mas não chega!
Servirá de pouco no que se refere a conversas mais ou menos elaboradas e filosóficas porque a experiência de cada um conta muito para um todo, mas conta pouco, individualmente. Individualmente é apenas uma experiência que, a longo prazo, poderá frutificar ou não. Sem conhecimento teórico não se vai a lado nenhum. É esse estudo, esse aprofundar do conhecimento teórico que faz com que saibamos aplicar a nossa própria defesa, que faz com que saibamos escutar outras opiniões. É esse conhecimento teórico que faz com que saibamos usar a tolerância e não desperdicemos o amor que temos para dar. Podemos olhar para muito longe se não desprezarmos a cultura, a leitura, o que outros estudaram e nos transmitiram com boa vontade e sempre no intuito de ser útil. Podemos avançar se tivermos confiança na Ciência, se nos lembrarmos que, se estamos por aqui a viver rodeados de tanta tecnologia, de tanta descoberta em diversos campos de atuação – médica, social, urbana, cívica, agrícola, em suma, universal – é porque alguém não se ficou pela universidade da vida. Frequentou outras universidades. Se não quisermos aceitar todas estas transformações – e só no século XX foram incontáveis! – podemos sempre evitá-las indo viver para o alto dum monte rodeados de cabras monteses aos saltos de pedregulho em pedregulho em busca de alimento, aspirando o ar gelado das noites de inverno, amolecendo nos dias quentes do verão e comendo bagas. Podemos! Mas cá em baixo, no sopé do monte, criaturas espevitadas, ágeis e inteligentes velam para que, se adoecermos, alguém possa dar um aviso e enviar um helicóptero para nos salvar. Ninguém é indiferente à indigência e à morte.
Devemos ouvir e ler e olhar apenas o que vale a pena e esse “valer a pena” é altamente subjetivo ainda que os conceitos e padrões culturais estejam, há muito, bem definidos. Para ser prosaica, direi que “quem gosta do amarelo, não pode gostar do azul” e quem diz que já aprendeu tudo o que havia para aprender uma vez que andou na universidade da vida porque já tem muita idade, demonstra apenas ralo saber. Também a frase “um burro carregado de livros é um doutor” tem a sua razão de ser. Burros carregados de livros é o que há mais. Cavalos sem sela e sem arreios há poucos e os que existem galopam livremente por todos os campos do saber. Se for caso disso, deixam-se acariciar e até montar!
Ao perpassar por todas estas questões, interrogo-me sempre, para que lado uma pessoa se deve voltar. Se estudar, ouvir, ler, participar, conhecer ou se, por outro lado, seguir um caminho mais fácil e seguro, um caminho definitivo e, em situação saudável, um caminho certeiro ainda que com altos e baixos, daquelas veredas que conduzem, inexoravelmente, ao fim da vida e aceitar tudo “isto” tal como é.
É que, na verdade, todos se encontram com razão. A verdade é essa! A razão é de cada um. A razão é sempre de cada um! Portanto, quando dizemos que isto ou aquilo não presta, que não tem interesse nenhum, que não se aprende nada, não é verdade! Se há questões difíceis de aceitar, esta é uma delas: eu não gosto! Como é que tu gostas? Não acho que preste! Como não presta? É magro? Não! É menos gordo! É gordo? Não! É menos magro!
Depende, unicamente, do ponto de vista do indivíduo.
Não me venham é com conversas da “universidade da vida”! Isso é que eu não aguento!
Aguentas? Aguento!!
É a nossa geocentricidade!
Eu sou sol. Tu, sistema solar.

CRISTINA CARVALHO
Crónica de Janeiro 2012

In Loco

Quando cheguei, era a manhã emergindo da madrugada. A casa cheirava a morte. Na sala, os coágulos de sangue sobre o tapete ainda brilhavam sob a luz filtrada pelos vitrais. Um par de castiçais, velas e peças quebradas e flores emurchecidas foram encontradas já no corredor que levava à cozinha onde jazia o corpo. Num desespero controlado, o que se podia contra ele, porque eu sabia o que ele queria de mim.

Ernane Catroli

Os Óculos de Ouro de Giorgio Bassani – Quetzal

Depois de ter lido “O filho do desconhecido” de Allan Hollinghurst sobre a homossexualidade, aceitação e memória, eis que a leitura de “Os óculos de ouro”, de Giorgio Bassani, apresenta, também, alguns destes assuntos, embora abordados de forma diferente.

A obra de Bassani, escrita anos antes de “Um filho do desconhecido” de Hollinghurst, foi construída sobre a perspectiva de uma só voz, de um narrador, que nos alerta não conseguir ser fiável devido à incapacidade da memória reter os factos ao longo dos anos.

“Foi em 1919, logo a seguir à outra guerra. Por razões de idade, só tenho para oferecer uma imagem vaga e confusa dessa época” Pág. 7

A visão dos acontecimentos é próxima e parcial, tanto no aspecto afectivo como na amplitude da capacidade de observação. A cronologia da história sofre diversas elipses.

Contextualizado por uma época de convulsão política, onde Mussolini vai ganhando poder e o fascismo instala-se, Bassani aborda a problemática da aceitação e capacidade de viver com a diferença.

Dr Athos Fadigati, sobre quem incide a atenção, é um ottorrinolaringolista sem vícios aparentes, de aspecto paternal e olhos curiosos por trás dos óculos de ouro. Chegou a Ferrara (cidade onde Giorgio Bassani cresceu) e depressa ascendeu socialmente tratando das gargantas de duas gerações, pais e filhos. É aceite pelos clubes mais importantes e admirado pela população. Curiosamente, a sua desgraça começa pela boca, pela voz, daqueles a quem tratou.

Como qualquer boato, a voz inicial não é identificável. Quando ele sai do comportamento padrão da “alta-sociedade”, começa a ser alvo de comentários desde a sala de espera do seu consultório até às últimas palavras de qualquer casal no leito matrimonial. O que viria a marcá-lo, no entanto, não seria a possível homossexualidade; o que viria a colocá-lo fora dos rituais e companhia das pessoas que tanto prezava seria a demonstração social de tais hábitos. A sua vida sexual era vista como vício nefasto que deveria manter-se privado. Lentamente, a sua vida foi sendo cada vez mais limitada.

“Sim-diziam- agora que o seu segredo já não era segredo, agora que tudo era claro, tinha-se finalmente compreendido como lidar com ele. De dia, à luz do sol, dar-lhe grandes chapeladas; à noite, nem que fosse empurrado ventre com ventre pela multidão da Via San Romano, mostrar que não o conheciam. Tal como Fredric March no Doutor Jekyll, o doutor Fadigati tinha duas vidas. Mas quem é que não as tem?” Pag.20

O eu-narrativo ajuda, neste caso, à criação e manutenção da distância entre a narrativa e as características psicológicas do médico. Pouco se sabe dele, mas muito se especula. Só muito tarde temos a sua voz e nunca temos a sua opinião directa sobre o que se passa. Tudo isto apesar de haver alguma aceitação por parte da personagem que nos conta a história. É a sua inércia e dependência que o impossibilitará de reagir à mesquinhez social.

 Assim chegamos à 2ª geração, aos filhos dos pais que começaram a frequentar o seu consultório, sem termos uma ideia sólida das características da personagem que motiva a narração. A nossa imagem do médico baseia-se em boatos, factos incompletos, conclusões falíveis, pois o que nos é dado a conhecer é, aproximadamente, o que a 2ª geração conhecia na época dos seus pais. Só quando ele começa a acompanhá-los, em viagem para Bolonha devido aos estudos, é que começamos a conhecê-lo melhor. E são estas constantes viagens que vão originar a queda definitiva de Dr. Athos Fadigati.

Numa dessas deslocações, Deliliers, elemento fulcral na queda do médico, pergunta-lhe: “ «Deixe lá o estrume, doutor», escarneceu, « e fale-nos antes daqueles dois rapazes da horta de que gostava tanto. O que faziam, todos juntos?» Fadigati estremeceu” Pag.”41

O respeito que lhe era tido devido à sua posição social, ao facto de ter tratado dos pais e deles também, vai decaindo até a um nível difícil de suportar.

“Era esquisito de ver e até penoso: quanto mais Nino e Deliliers multiplicavam as grosserias em relação a ele, mas Fadigati se agitava na vã tentativa de ganhar simpatias” Pág. 44

Após mais uma elipse temporal na narrativa, deparamo-nos com o que denominam de «amizade escandalosa» entre ele e Deliliers.

A deterioração emocional é gradual até ao desfecho. Só o narrador mantinha algum respeito por ele.

“ Eu ao menos não o tinha ludibriado. Em vez de me associar a aquém o traía e explorava, havia sido capaz de resistir, de conservar por ele um mínimo de respeito” Pág. 78

O médico é dominado por uma atitude passiva e reactiva. A sua inadaptação ao tipo de comportamento social onde impera a censura e o boato causa constrangimento ao leitor.

A dignidade é posta em causa tanto no aspecto emocional como no aspecto físico. Mas a intolerância não se resume à sexualidade. O fascismo impõe-se e fala-se na promulgação das leis raciais. A preocupação entre a família do narrador é cada vez maior porque, apesar de serem defensores da ideologia vigente (fascismo), vêem que podem ser muito prejudicados por serem judeus. E a antiga crispação com os cristãos renasce:

“(…) eu sentia nascer o antigo e atávico ódio do judeu em relação a tudo o que fosse cristão, ortodoxo, em suma: goi” pag. 100

Georgio Bassani arquitectou um romance onde a intolerância é o tema-chave. Numa época de convulsões ideológicas (socialismo vs fascismo), religiosas (judaísmo vs cristianismo), sexuais (heterossexualidade vs homossexualidade) a harmonização entre ideias, crenças e escolhas sexuais revela-se incompatível.

Ao longo das 126 páginas que compõem este livro, o leitor é confrontado com a incapacidade de uma comunidade de lidar com as diferenças entre os seus elementos. O senso comum, que não passa de uma média aritmética da vontade, esmaga o individual. Dr. Athos Fadigati é uma vítima da sociedade e da sua incapacidade de reagir perante tais agressões.

Mário

Rufino

O silêncio do Tempo

Recordo o homem que fui sem saber de onde vem a memória, sem reconhecer a sua autenticidade. A ténue possibilidade de ter sido esse homem apresenta-se mais reconfortante do que a realidade de quem sou agora. Digamos que o possível se converte no meu real. O possível é a verdade que desejo aprisionar como minha. Já que nada consigo reter nas mãos que deixaram de acompanhar a linguagem do cérebro. A mente recusa-se a aceitar as manchas e as rugas que traçam um rendilhado insólito na pele ressequida. Os olhos vêem os dedos desenhar movimentos, como se não seguissem a minha vontade. Como se não pertencessem ao resto do corpo.

Talvez esse homem tenha existido apenas na minha imaginação. Mesmo no tempo em que eu me conhecia. Mas não me perguntem que tempo foi esse. Decerto muito longínquo, soterrado nos confins do mundo. Lembro-me vagamente que costumava cogitar se o mundo tem um princípio e um fim. A incerteza do fim era o que me mantinha acordado, certas noites. Pensamentos que deixei de ter há muito. Só não consigo precisar quando. Muito ou pouco, tudo ou nada são hoje quantificações que perderam o interesse. Não sei o que me interessa. Há dias em que julgo interessar-me pela vida, outros em que julgo interessar-me pela morte. Mas neste instante, que poderá durar um milésimo de segundo ou uma eternidade, interesso-me por aquele homem que imagino tenha sido eu. Imaginar é o único jogo praticável. O único prazer.

Julieta Ferreira 

um amor para Electra

A minha única reacção (os meus pais ensinavam-me a pensar que é a reacção possível, em certos casos a reacção necessária, até), neste momento, é ficar a ouvir o chuveiro onde ele se lava há mais de meia-hora e olhar para os joelhos encostados, passar a mão esquerda por entre as pernas e roer as unhas da mão direita. Não entendo esta sua obsessão com o banho, sinto-me mal, preferia que fumasse um cigarro, como fazem todos os outros homens, ao menos enquanto fumasse podia-me dar colo e podia abraçá-lo. Foge para o banho, como se o meu corpo estivesse sujo e tivesse doenças, germes, vírus. Limpa-se de mim e assobia a Quinta de Mahler, o quarto movimento, o Adagietto, vezes sem conta (perdi-lhes a conta há demasiado tempo). Roo, pois, as unhas. Quase até ao sabugo, para ver se me sujo, que quando não estou menstruada preciso de roer as unhas, fazer sangue, justificar-lhe, justificar-me (“ah, então foi porque eu tenho sangue cá dentro que foste tomar banho!”) dos duches sempre depois do sexo (diz antes “fazer amor”, querida, é tão mais bonito) e arranjar uma desculpa para este facto tão doloroso, que é fugir de mim, negar-me, apagar-me.

Custa-me sobretudo que sejam sempre homens a escrever sobre nós, porque uma mulher nunca é nada disto. Vamos sendo, claro, porque a realidade ficcionada nos condiciona tanto ou mais que a nossa biologia por vezes tão estúpida. Sou o que os homens dizem que seja.

Pedro Tiago

Um pobre mortal a correr atrás dos seus personagens

A pseudonímia tipo Vaticinium ex eventum constituiu uma prática textual muito antiga que atribuía a textos autores muito anteriores à sua enunciação, forjando assim a autoria e atribuindo-lhe uma autoridade e uma legitimação que doutro modo não teriam. Muitos textos proféticos do levante ibérico do século XVI foram atribuídos a Santo Isidoro de Sevilha (por exemplo os que constam no Manuscrito 774 da Biblioteca Nacional de Paris), do mesmo modo que os textos de Isaías correspondem a épocas tão diferentes como 740-700 a.C. ou 537-520 a.C., para já não falar, entre outras, da conhecida Profecia de Carlos Magno (reutilizada e forjada durante séculos tal como a Sibila Tiburtina) que data do século XIV.

Este tipo de dissimulação visava uma transferência de valor e tinha como objectivo específico sedimentar uma vontade e sobretudo consolidar a autenticidade – e a transcendência – de uma ficção. Ao fim e ao cabo, a pseudonímia tipo Vaticinium ex eventum reflectia uma realidade nua e crua: o facto de uma dada ficcionalidade nunca se bastar a si própria e daí a necessidade de ter que a sustentar, que a provar, que a referenciar. Curiosamente, os realismos vivem também deste reducionismo que os obriga a legitimar o que dizem no fluxo do vivido.

No mundo moderno, a ficção só se começou a bastar a si própria, como um jogo autónomo não literal, quando o autor deixou de ser encarado como a fonte de todas as coisas. Com efeito, a hermenêutica romântica reduzia a interpretação ao simples reconhecimento das intenções de um dado autor (considerado do ponto de vista dos seus destinatários na situação original e histórica do discurso). Esta espécie de quase biografismo passou depois a ser entendida como uma variante da compreensão (Schleiermacher, Dilthey, etc.), acabando por centrar-se na expressão e na experiência vividas, sem qualquer necessidade de referência a um autor físico (noções das últimas décadas do século XX, como a “fusão de horizonte” – H. Jauss – ou a “apropriação” – P. Ricoeur –, derivam deste turn e deixaram de visar fosse o fosse acerca da intencionalidade de outrem, já que o texto passava a bastar-se a si mesmo).

A autonomia do texto face ao autor e às transcendências que ele suscita (forjadas ou não) é algo recente. De início, entre Deus e o profeta havia uma voz, depois um anjo, depois ainda uma exegese que se passou a repetir. Na literatura, entre o escritor e o público houve primeiro uma espécie de deus (o “  génio” de Kant), depois uma figura e uma biografia e, por fim, um pobre mortal a correr atrás da/os sua/eus personagens e de outros impactos da sua literatura.

Luís Carmelo