TIRAS – Folhetim em Quatro Episódios da autoria de carlos Pessoa Rosa – Primeiro Episódio

Amâncio-casado-pai-de-dois-filhos. Mãos de dedos longos, longa mão. Linhas forasteiras cavadas no deserto do rosto. Pelado de palavras; soltas palavras que nada exigem da vida: Deus, obrigado, sim-senhor… Lavras e sol na pá de todo o dia, puxou lixo, terra vermelha e a família. Chegaram juntos. Tiras de teimosia. Nem acreditava, mas tinha calos de lembranças.

O filho mais velho em tudo igual ao pai, pelado também tinha uma pinta bem naquele lugar que pobre tem vergonha de dizer, e pobre tem tanto e não diz!, terra seca de tudo, até de palavras. O mais jovem é atirador profissional, carrega vagas de crimes nos olhos vitrificados. Amâncio-casado-pai-de-dois-filhos lembra bem quando a criança abriu o olhinho pela primeira vez nas águas da vida; fez que não queria e agora… Vitrificado pela droga, nada na marginalidade e espelha sombras da morte. Sabe tudo de leis; assalta mas quem atira é sempre o menor. Se aprendeu a ler, foi motivado pelo código penal; sabe mais da vida que advogado, que promotor e até juiz.

(continua)

Um Rapaz a Arder, Eduardo Pitta

Este é um relato das memórias entre 1975 e 2001, balizadas por dois acontecimentos que mudaram a vida de Eduardo Pitta e o mundo, respetivamente a independência de Moçambique e a implosão das torres gémeas. Um discorrer de episódios da sua vida tendo como pano de fundo os acontecimentos históricos e alguma ocasional maledicência “sem nunca pisar o risco da inconfidência”.

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Aniversário da ABL

A Academia Brasileira de Letras comemorou 116 anos no passado dia 18. A cerimónia decorreu no Salão Nobre do Petit Trianon. Foram também entregues os Prémios Literários de 2013 (para obras publicadas em 2012). O vencedor do Prémio Machado de Assis (conjunto da obra) foi Silviano Santiago.

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Morreu Vincenzo Cerami

Escritor e argumentista italiano, Vincenzo Cerami faleceu na semana passada, aos 72 anos, em Roma. Foi aluno de Pasolini. Entre vários trabalhos, escreveu o guião de A Vida é Bela. Por estar doente não pode receber, no mês passado, o prémio David di Donatello.

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Mia Couto finalista do prémio Neustadt

A revista World Literature Today , da Universidade de Oklahoma, anunciou o nome de Mia Couto como um dos finalistas do prémio Neustadt de literatura. César Aira, a vietnamita Duong Thu Huong, o ucraniano Ilya Kaminsky, ou Haruki Murakami são também finalistas.

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Teolinda Gersão na Casa da Cultura de Setúbal

“Tocar na vida através da escrita, sabendo que vou queimar-me. Como se chegasse perto do sol e desaparecesse, sugada por um poço de luz negra.”

O mais recente livro de Teolinda Gersão, Cadernos II – Águas Livres, esteve em debate nas conversas do Muito Cá de Casa. Um livro que toca a vida em momentos dispersos do nosso dia-a-dia, com os seus inevitáveis personagens do quotidiano. São histórias que nos dizem muito, que nos atiram para o papel de testemunhas.

Um livro assim presta-se ao debate. Da assistência desprenderam-se as preocupações dos dias de hoje e o debate foi inevitável. São assim as conversas do Muito cá por casa.

A Teolinda Gersão foi grande como a sua escrita. São trinta anos de cadernos e advinha-se um Cadernos III. Quando nada é definitivo – até aquela professora primária que odiámos anos a fio e que somos, mais tarde, capazes de recordar com carinho – que sentido faz escrever uma biografia? Resta-nos sermos inquietos, para sempre.

O Muito cá de Casa é uma iniciativa da DDLX e da Câmara Municipal de Setúbal – Divisão de Cultura, e conta com a colaboração de PNET Literatura, livraria Culsete e BlogOperatório.

Festa Literária Internacional de Pernambuco

De 14 a 17 de Novembro, decorrerá a 9.ª edição da Festa Literária Internacional de Pernambuco – Fliporto. O homenageado da edição deste ano é o escritor José Lins do Rego e tem como tema “A literatura é um jogo”.

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A LUA É FEMININA – Folhetim em Seis Episódios da autoria de carlos Pessoa Rosa – Quarto Episódio

A mulher do 31 conhece o gosto de todos os uísques. Ela morre e ressuscita todos os dias. Conheceu o ritmo da Lua muito cedo. Daí ser uma das poucas pessoas a sorrir gostoso ao saber das novidades dos velhos. Por que não?, é o que mais se ouve de sua boca. No prédio, todos ignoram a opinião de alguém que afoga os desgostos no álcool. Mas qual alcoólatra não o faz?, mágoas são ofertadas em cada esquina da vida. Também o prazer. A escolha é nossa, de ninguém mais. O homem dela desapareceu muito antes de aparecer esse céu. À medida que cresciam, os filhos também se foram. Nunca mais foram vistos. Os vizinhos habituaram-se com as crises dela, com os bombeiros sendo chamados todos os meses para retirá-la da mureta da varanda. Os amigos rarearam e perdeu o emprego. Nesta noite em especial, ela faz uma promessa ouvindo Bach. Ficará na lista das não cumpridas. A endomorfina cerebral domina. Ela alucina desde criança, escreve compulsivamente e morre. É Lua dia após dia, artista, daí ser a única a aproveitar a claridade da noite para prometer, escrever e beber.

No 13, coincidência ou não, a moça gosta de tarô. Esqueceu as cartas na mesa e tenta descobrir o ascendente da nova companheira. Nasceu escorpião, não é necessário dizer mais nada. Nunca gozou com homens. Adora tudo que é feminino. A Lua é feminina. As nádegas da mulher que dorme na cama têm as cores da Lua. Gosta do cheiro delas. O pó que ajeita é branco. A mãe expulsou-a de casa ao descobrir suas tendências. Era assim que ela chamava: tendências. O pai parecia entender, mas não se esforçou para que ela ficasse. A mãe sempre foi o homem da família.

(continua)

Leitura pública de “Macunaíma no meu Pátio” de Luís Carmelo a 18 de Julho, quinta-feira | 18.00 horas no CNC – Centro Nacional de Cultura

Leitura pública de “Macunaíma no meu Pátio”

de Luís Carmelo

18 de Julho, quinta-feira | 18.00 horas

Sala Sophia de Mello Breyner, Centro Nacional de Cultura

Rua António Maria Cardoso, 68

Entrada livre

“Macunaíma no meu Pátio” é um livro inédito de Luís Carmelo. Baseado na rescrita de Macunaíma de Mário de Andrade, o relato segue as instáveis linhas narrativas do original brasileiro, embora recrie e reinvente tudo o resto: espaço, linguagem, ritmo, mitologias e situações. Escrito em Abril de 2013, a obra, antes ainda de conhecer a sua edição em papel, vai ser apresentada em público em Évora através duma leitura que será levada a cabo pelo próprio autor.

Revista Machado de Assis

Encontram-se abertas as inscrições para o quinto número da Revista Machado de Assis — Literatura Brasileira em Tradução, que será lançada no portal da revista durante a Feira do Livro de Frankfurt 2013. As inscrições vão até 21 de Agosto de 2013 no site da FBN. Para além de primeiros capítulos ou trechos de obras literárias de ficção e de criação poética, serão aceites trechos de obras não ficcionais na área de humanidades (livro-reportagem, ensaio literário, ensaio de ciências sociais e ensaio histórico).

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A LUA É FEMININA – Folhetim em Seis Episódios da autoria de carlos Pessoa Rosa – Primeiro Episódio

O céu encostou os ouvidos nas janelas dos prédios, aproximou perigosamente a Lua e as estrelas, da vida.

No apartamento 22 de um prédio antigo, até o homem que se distrai com a intimidade alheia aponta a luneta para o céu. Nas paredes do aposento, sucedem-se fotografias de mulheres nuas, casais na cama, na mesa e na rua. Sobre uma velha escrivaninha de madeira rústica, a fumaça do cigarro embaça o registro da mímica da família. O cigarro é torcido no cinzeiro e esquecido. Estranha sensação, ser observado por estrelas. A mesma que sentiu ao perceber que a mãe tinha um cheiro esquisito, que todas as mulheres exalavam um perfume ambíguo. Custou-lhe caro a curiosidade. Ninguém mandou a mulher que entrou no elevador vestida de tailleur branco encostar o cheiro no nariz dele. Sabia que a dor sentida ao ser mordida no púbis não chegou perto daquela causada pelos olhos cadentes da mãe. Puxado pelas orelhas, arrastou terra pelas ruas e vielas até chegar em casa. Logo esqueceram…

Hoje, sonhadoras deitam seus seios sobre os parapeitos das janelas sem serem incomodadas. Cheias de criatividade e embebidas na arte da dissimulação, elas sabem que em alguma janela há um homem que desconhece cerveja, pijama e televisão. Imaginam-no de óculos de aros finos e metálicos, barba e bigode à deriva, comportamento tímido e arredio. Desejar não é exclusividade de ninguém, ainda mais quando o outro é um desconhecido, quem sabe, um disfarce, uma luz fugaz em algum quarto de apartamento. Portanto, inútil tentar se vestir para a Lua, nada nesta galáxia será mais primordial e original. Ter esperança não deixa de ser uma pausa da razão… elas sabem muito bem disso.

(continua)

(Des)amor, cultura e história

Como prisão antropofágica, a ilha sorve, pelo mesmo cano de esgoto, as águas do bem e do mal, sem se preocupar em apurar se alguém escapou à mácula do pecado.

Álamo Oliveira, Murmúrios Com Vinho de Missa

Vamberto Freitas

Vamos de imediato ao essencial aqui: Murmúrios Com Vinho de Missa é tudo aquilo que pensam ou deduzem do seu claríssimo título, um grande romance que tem como tema principal a maior de todas as hipocrisias da nossa sociedade, a sua atitude ante o que define como sendo sexo ou relacionamento ilícito, seja lá isso o que for, mesmo quando só adultos se envolvem corpo a corpo entre quatro paredes ou entre milheirais, dentro ou fora da Igreja, na ilha, sim, mas depois em qualquer parte como, por exemplo, na cidade norte-americana de New Orleans, de onde nos conta estas estórias uma professora universitária açoriana, a narradora intelectual Lucília. Passada esta questão tão brilhantemente ficcionada nestas páginas, este novo romance do terceirense Álamo Oliveira é muito, muito mais do que isso, tanto no seu restante conteúdo como na sua forma, ou estrutura narrativa. Simultaneamente integrado em praticamente toda a obra em prosa do autor, especialmente desde Pátio de Alfândega, Meia Noite a Até Hoje (Memórias de Cão), este livro quase funciona como uma súmula dos seus interesses e obsessões temáticas desde o início da sua carreira como poeta, dramaturgo e ficcionista: o nosso lugar de ilhéus no mundo, como vivemos e sobrevivemos num arquipélago e nas comunidades norte-americanas, que são a sua íntima extensão, como se ergue e perpetua uma cultura e um modo de vida na escuridão dos séculos, como amamos e como odiamos (fazendo lembrar os seus Contos Com Desconto), com a primeira e recente visão histórica e política da saída ou da aceitação mais ou menos conformada do nosso labirinto social, e muito especialmente do nosso labirinto interior. De página a página estão passos lapidares e fulminantes sobre a vida em ilha, quer para os que nunca dela saíram definitivamente, quer para os que do lado de fora revêem e repensam o seu destino, os que poderão estar libertos das amarras circunstanciais das origens, mas sem nunca conseguirem fugir ao seu passado determinante, enublando para sempre o resto das suas vidas em qualquer outra parte. Disto e de algo mais ainda é feito este romance, quebrando tabus e reimaginando outros percursos de vida entre o amor e o nada.

Murmúrios Com Vinho de Missa está estruturado em duas partes que parecem distintas (fazendo lembrar As Palmeiras Bravas de William Faulkner, na tradução de Jorge de Sena), cada uma correndo na sua direcção rumo a um desfecho que se adivinha fatal para vidas distintas e que estariam distantes no tempo e no espaço, não fora sempre o destino à procura de vítimas, ou então rumo a consequências que deixarão feridas de alma. A narradora, uma Professora

Lucília, com mais de cinquenta anos de idade e originária da ilha de São Jorge que cedo deixou rumo a Lisboa onde ingressou no ensino, encontra-se desde há alguns anos como Leitora do Instituto Camões na Universidade de Tulane, em New Orleans, a cidade carnavalesca sulista e mississippiana, historicamente de costas voltadas para o pudor e puritanismo do norte, a braços com uma tese de doutoramento e com a sua solidão e carência. Deste lado de cá, e com mais ou menos a mesma idade, encontra-se o Padre Raul Soares, também jorgense mas colocado numa paróquia da Ilha Terceira, tendo já caído literalmente nas garras de um rapaz homossexual pós-tropa, que usa o sexo como moeda de troca e chantagem materialista como satisfação maior. Num acaso bastante plausível, Raul e Lucília encontram-se um dia num café na cidade do sul, quando ele ia a caminho da Califórnia em visita à família, aparentemente toda ela emigrada, toda ela, que nunca vemos ou ouvimos, paradigma da historicidade açoriana. Padre Raul, desde sempre também homossexual que permanecera descomprometido de relações estáveis, está a viver os seus dias de medo pelo que o rapaz lhe pode fazer publicamente, e pede à sua conterrânea e velha amiga para que escreva a sua história, como que num acto de redenção possível. A narradora, por sua vez, enquanto escreve o que ela considera um mero “rascunho” do romance, vai contando a natureza e a cor dos seus dias, a sua própria relação íntima com um estudante brasileiro, que da cama faz mais uso do que dela usufrui, ou do que lhe dá – nem amor, nem carinho, nem respeito. Suga-a, tal como faz o amante do padre açoriano, até às últimas. A “pedofilia” aqui, como se diz a dado momento, é entre adultos, com sexo consensual, mas com a sociedade em geral servindo de ameaça hipócrita, pois se no caso da Igreja o fruto proibido deve assim permanecer, na Escola de ensino superior não houve juramentos ajoelhados, mas a negação da atracão entre adultos é do mesmo modo interdita e condenada, quase sem apelo. Entre a sacristia e o quarto do padre Raul e a cama da Professora Lucília, ficamos todos nós, a própria sociedade, depreende-se sempre da fala da narradora, com os nossos próprios segredos, as nossas transgressões, desta ou doutra natureza.

Álamo Oliveira, tanto na sua poesia como na ficção, conseguiu sempre fugir de um existencialismo arrogante – o indivíduo, diga-se assim, fechado na sua redoma e inventando valores próprios para autojustificação do seu rumo na vida – colocando os seus protagonistas e demais personagens bem no centro da vida comunitária, todos nós apanhados irremediavelmente pelas teias da História, pelas vontades colectivas das sociedades a que pertencemos, tecendo cada um deles, ora aberta ora escondidamente, a felicidade possível, a liberdade maior adentro das prisões que são especialmente as ilhas, por definição cercadas por todos os lados. Murmúrios

Com Vinho de Missa é um romance de profundas ironias, raramente de sarcasmo, a dupla narrativa de uma professora na sua maturidade pessoal e intelectual é mais feita de questionamentos do que respostas ou vinganças dos incompreendidos. Movendo-se entre uma das cidades americanas sexualmente mais abertas ou liberais (a pouco mais, para além da sua história radicalmente esclavagista, injustamente, se associa New Orleans na mente de quase todos) e a pequenez e cerco de uma ou outra ilha açoriana fechada, são os personagens que mais nos marcam, não a estória ela própria, mas sim o modo como cada um ou uma resolve ou não os seus dilemas, os seus desejos irreprimíveis e “demasiado humanos”, sobrevivendo, apesar de tudo, livre adentro da prisão sem grades, mas tormento que toma variadas formas para cada ser humano nela encarcerado. É aqui que o romance também nos oferece uma prosa fulgurante entre a poesia pura e a narratividade de coisas e gente, que só um escritor com a idade, o talento inato e a experiência de Álamo Oliveira nos poderia oferecer. Geografia (que Nemésio dizia ser de importância suprema para nós, lembremos), história, emigração, ditadura civil e religiosa, anos de chumbo e de catástrofes naturais – eis aqui uma das mais profundas visões da humanidade a meio Atlântico, perseverante, oscilando por vezes entre a raiva e o ódio, eis aqui uma outra dramatização da nossa vida quotidiana, na rudeza dos campos e na criatividade artística, na solidão brumosa e de todo isolada, assim como, sempre, na vastidão de outros continentes e cidades.

“Ordeno – diz a narradora do seu exílio americano a meio do romance – prioridades: a tese, as aulas, o romance, a ilha. A ilha? A que propósito ela ocupa um honroso quarto lugar, se não penso reconciliar-me com ela, nem sequer por procuração? Não dobrar a finados dentro do peito. Ilha é um pedaço de sentimento rodeado de apreensões por todos os lados. Por isso, nem por fastio mental me falem de ilhas envoltas em nevoeiros misteriosos, condenadas aos malefícios das alquimias medíocres E não me falem também em ilhas virgens com o mesmo sotaque do animal em cio. É que não há ilhas inocentes. Não há”.

Para além de tudo isto, Murmúrios Com Vinho de Missa creio ser a primeira grande narrativa açoriana que se aproxima do chamado “romance académico”, não fora a sua narradora uma professora universitária a doutorar-se, dando-nos algumas olhadas ao interior de uma instituição do ensino superior, ou simplesmente deixar-nos entrar na vida privada de um professor ou professora. Do mesmo modo, também não creio existir outras páginas que nos levam ao fundo da vida interna, fechada, de um seminário nosso e dos seus adolescentes e

adultos em preparação para a sua vida religiosa, e sobretudo celibatária. Este não é um romance “pacífico” – nenhum bom ou grande romance o poderá ser. Mexe, e muito com os seus leitores.

Valdemar Freitas

Verde

Para MM O casaco verde Na neve artificial a montra estava imaculada. Algo banal na confusão da cidade. Tóquio. A mulher, apertada no casaco e nas luvas, deixou-se ficar a ver a montra. Não reparou nos detalhes da época, cintilantes, bolas e outras luzes. Não. A mulher fixou o olhar no casaco verde eléctrico, um casaco de pele falsa, tingido de cor berrante, uma provocação que não pertencia ao cenário. Fascinada, mirou-lhe o detalhe da gola curta, os bolsos metidos para

dentro, o verde a perder-se num corte de três quartos, um casaco abaixo do joelho. Ao mesmo tempo, e talvez por isso, o casaco era pequeno, de um tamanho mínimo, pouco vulgar nas montras. Como se fosse feito à medida para ela, a mulher pequena que o namorava com um rosto fechado, rosada do frio, as mãos escondidas em luvas de pele preta e vermelha. Um casaco à sua medida, repetiu. Há muito que não se importava com esses pensamentos circulares, pensamentos que, por vezes – muitas vezes – saltavam num sussurro como uma canção que se pode fingir dizer. As repetições até lhe traziam algum conforto. Há muito tempo, sozinha, parecia um bicho de conta enrolado. Depois, sem ter crescido, assumiu a sua pequenez com certo descaramento e fez questão de a sublinhar para que fosse óbvia e, por isso, calada pelos outros. Anos da adolescência a ouvir dizer que devia ter crescido mais, que comia pouco, que estava demasiado magra. Há quanto tempo? Decidira muito cedo que o silêncio se podia instalar mesmo antes do grito ou do comentário menos adequado. Passou a ouvir apenas o que queria. Agora, mulher feita, depois dos filhos, do casamento, da separação, da morte deste e daquele, decidira que todos os pormenores não são coleccionáveis. São e existem para esquecer. Voltou ao casaco. Imaginou-o no seu corpo sem pensar no corpo. Apenas aquele abrigo bizarro ou extravagante, já ouvia a mãe a dizer na noite em que, por erro, levaria o casaco para a proteger do frio Cristo! O que é isso que tu trazes vestido? Um casaco, mãe, diria a mulher avançando pelo corredor, para o jantar, para a obrigatoriedade. Sim, o casaco no bengaleiro ficaria ali a perturbar tudo o resto e a mãe sentiria essa invasão mesmo que apressada nas coisas do jantar. O casaco tinha um certo poder. Parecia-lhe evidente. A mulher reparou no suporte de metal onde o casaco se exibia com arrogância ou talvez ousadia. Sim, o verde condizia com a prata e ela tinha aqueles sapatos com umas flores aplicadas. E um vestido… que importa o vestido? Pouco. O pêlo do casaco seria o único alvo e, não sendo muito desconfortável, excessivamente quente ou por ter um forro riscado, desses que arranha, então era a roupagem que se imponha a tudo. Nada podia competir com aquele verde. Verde quê? Fascinada com a cor colocou a mão no vidro, a querer tocá-lo, num gesto involuntário. O silêncio da cidade, carros e pessoas, fim de tarde apressado no território desconhecido em tudo, da linguagem aos costumes, só existia na cabeça da mulher. Depois, perdendo este suspender de vida, um homem tocou-lhe no ombro. Sorriram. Ela voltou ao casaco. Queres? Encolheu os ombros. Querer? O verbo em si era tão pesado, pensou. Ficou calada. O homem dirigiu-se à porta da loja, na esquina da rua.

Estava fechada. Pendurado na porta, um papel com dizeres em japonês exibia-se arrogante e eles riram da forma ridícula como tudo se passava. Não reconhecer o sítio onde se está pode ser perturbador. O homem pegou no braço da mulher e levou-a, rumo ao hotel. Ela ainda se voltou para ver o casaco uma última vez. Depois sorriu e ouviu o monólogo do homem ao seu lado. O tempo passou. Muito tempo, pareceu-lhe, embora tivessem sido meses apenas. Era o seu aniversário. Não queria nada do que a esperava e, por isso, teimava em ficar na cama a ver as horas: sete da manhã, oito, nove, nove e quinze, nove e meia. Às nove e trinta e dois minutos saiu da cama. Evitou o espelho do aparador antigo e foi para a casa de banho. Precisava de uma hora para ser ela. Para se compor, para fabricar um qualquer envelope que lhe permitisse fazer o papel de quem pode ser uma estrela. Por um dia. Ao meio dia em ponto desceu as escadas, recusando o elevador, como uma decisão súbita de quem não precisa de nada facilitado. Abriu a porta de ferro e entrou no carro do homem que a esperava com um ramo de jarros, as suas flores tristes. No restaurante estaria a família. O dia era apropriado. Um domingo de inferno, pensou a mulher. Antes de entrarmos… tenho uma coisa para ti. E uma caixa estranha, comprida, uma caixa repousando no banco de trás foi-lhe entregue com um sorriso ligeiro. O homem não era efusivo. E ela agradecia-lhe essa gentileza. Abriu a caixa e passou a mão pelo casaco verde, o casaco da montra, a impossibilidade japonesa. O homem concentrou-se no trânsito. Foste a Tóquio por isto? E outras coisas? Não sei o que te diga. Não digas nada. Foi feito para ti.

Patrícia Reis

MUDAR AS REGRAS OBRIGA UM TEMPO DE GUERRA – Folhetim em Seis Episódios da autoria de carlos Pessoa Rosa – Sexto Episódio

Andava por não ter amigos, nas ruas ninguém é amigo de ninguém, individualismo extremo, disfarces não funcionam. Com eles a cobrança vem junto, sem limites. Não adiantaria voltar para casa, há anos não dormia à noite.

Encontrou ponto de pó, cheirou forte, longe do povo que se aglomerava na porta do bar. Foi sempre de usar droga sozinha, não gostava de se expor, dar bandeira para investigador zureta e mal-intencionado.

Ziguezaguear passos amordaçada pelo pó branco. Anjos dançavam Adios Nonino em Buenos Aires ou Santiago. Rostos eram difíceis de ver. É noite clara, um carro pára na calçada, e a mulher sabe que, com ou sem Astor, puta não pode, nem morta, se dar ao luxo de ter um passado.

(FIM)

MUDAR AS REGRAS OBRIGA UM TEMPO DE GUERRA – Folhetim em Seis Episódios da autoria de carlos Pessoa Rosa – Quarto Episódio

Com o estrangeiro foi diferente, fitou a orelha e deixou som entrar, assim como faz quando ouve Moderato Místico. Não compreendeu o que ele queria dizer quando viu que ela também gostava de Astor: Cuidado, Piazzolla é a própria morte. Nele, sangue é sangue, lágrima é lágrima, somos suicidas ou criminosos, todos marginais. Nua e noturna, ninguém precisaria lhe dizer, mas chegada à morte, discordava. Estava certo que muitas vezes chegou a pensar que o homem chorava por ela, mas a tristeza não era dele. E Bidonville? Não é um nascimento, criança parida com uma vontade funda de ser pai? Não, nenhum tango é responsável pela morte do homem.

(continua)

MUDAR AS REGRAS OBRIGA UM TEMPO DE GUERRA – Folhetim em Seis Episódios da autoria de carlos Pessoa Rosa – Primeiro Episódio

O bulício na frente do prédio da Gazeta arrastou um monte de rostos jovens pela calçada. Ouviu alguns gracejos, soltou alguma grosseria, sempre prosseguindo. Por mais que se esforçasse, música alguma aliviava o abismo que tinha à sua frente. Com duas mortes, por mais que nos afastemos, sempre haverá escuridão, mais se foram provocadas por amor ou ódio.

Atravessou o passadiço que liga a Paulista à Brigadeiro. Já foi um luxo, hoje é um prédio decadente. As meninas não estavam na rua. O momento era muito mais de medo que de respeito ao luto. Ligação de puta com gigolô é igual família, respeito amalgamado pelo pavor.

(continua)