Una Casa Bien Abierta

Una casa bien abierta

CARLOS ALBERTO PESSOA ROSA Y CLAUDIA LEGNAZZI | Un niño está solo en la playa, un día de lluvia. Jugando, piensa en la palabra “casa”, la escribe en la arena, la paladea en su imaginación. Por un momento, sueña con una casa y una familia tan grandes como el mundo. Después, vuelve al juego. Un relato en el que la sencillez de las palabras y la fuerza de la ilustración emocionan, generan empatía, acercan a los chicos a la vida de otros niños |
BUEN LECTOR | LECTOR INICIAL + LECTOR EXPERTO

 

 

João Cabral de Melo Neto

“O escritor corre o grande risco de se baratear. A popularidade é uma coisa terrível, nesse sentido. A popularidade acaba cercando o escritor e o artista de um mundo artificial e um interesse inteiramente artificial. O sujeito acaba fazendo aquilo que sente que o público gosta, em vez de fazer aquilo que acha que deve ser feito. Eu lembro de quando Manuel Bandeira fez oitenta anos. Havia quase manifestações populares, nas homenagens que fizeram a ele. Mas você acha que aquele pessoal algum dia leu Manuel Bandeira?”

João Cabral de Melo Neto em Desterritórios.

RITUAIS DE PRESERVAÇÃO

“A ordem é a antesala do terror” – Carlos Fuentes

Em minha mãe, a repressão se vertia em “manias”, como se dizia naquele tempo , em relação ao transtorno obsessivo-compulsivo, que hoje tem um apelido até um tanto pitoresco, o TOC. Diziam só que Fulano ou Sicrana tinham mania de lavar as mãos. Medo de tocar em maçanetas e corrimões. Ou; “…não sai de casa para nada, tem medo de pegar doenças”. O pânico. As síndromes eram mais recorrentes naquele tempo sem psicanálise, terapias, fármacos. As esquisitices dos parentes teimavam por levar muitos deles até à internação, recurso desesperado das famílias, longas, definitivas internações, até.

Tempo, aquele, de parentes irrecuperáveis – pessoas condenadas a manias, terrores vãos, amores impossíveis, famílias estragadas. E a sujeição dos mais equilibrados aos que não o eram .

A idéia de um mundo cheio de perigos, ciladas e doenças, “um mundo a ser evitado”, foi transmitida muito cedo à menina – e durante dois ou três anos, já na adolescência, ela criou também seu mundozinho reservado de fobias, chegou a ter as mãos rachadas, sanguinolentas, de escaras, de tanto lavá-las em água fria no inverno paulistano de então . Teve sorte de livrar-se disso, nem sabia como, mesmo. Escapara ao destino da mãe, que até o fim da vida – aos 90 anos- foi um tormento de viver sempre de sobreaviso, parecia, tensa, se defendendo do contágio do mal, da doença, do mundo, das pessoas, do amor, de qualquer forma de vida real. Nunca a menina vira a mãe mergulhada em uma poltrona, relaxada, mesmo quando fazia tricô sentava sempre na beirinha do

assento, até nas cadeiras comuns, como se não tivesse direito. A mãe, que nunca a beijara.

Era preciso sempre cumprir aqueles rituais de preservação, para não deixar se arrastar pelo nada – é esse o sentido da síndrome. Para não ser castigada, por não ter sido suficientemente limpa, ordenada, obediente, pura : o fantasma do sexo, sempre, do sexo proibido, do sexo visto como pecado, danação.

Cecília Prada

Inéditos/ Livro de Eros

Disseste “velocidades”, falas-me disso? O que eu te disse, Mantónia, é que a coisa pode ter várias, mas tu é que me devias ensinar e não eu a ti. Sim, sim, mas diz lá o que é isso de velocidades. Respondo: Alta velocidade, a chamada rapidinha, e que por mim detesto: a última que dê descrevo-a no romance; ela vestia um Calvin Klein muito liso, muito negro e de repente saltou-me para cima, enfim, lá me aguentei mas o pobre do vestido é que não mas ela insistiu em levá-lo para a recepção, num dos hotéis da família, com dois ornamentos: um colar, que eu lhe trouxe de Quioto e uma mancha linda, esbranquiçada, que deve ter feito inveja a muita gente. Depois tens a velocidade normal: uma boa foda na praia (demos uma fantástica no Meco; e outra igualmente maravilhosa, desta vez com Izumi, nas trazeiras de uma igreja na Toscânia… Ah mas a ideal é a vagarosa, quase ao ralenti, será por causa da minha idade? Mas nunca gozei tanto como agora: devagar, devagarinho, até adormecer, evidentemente que lá dentro; e se possível por trás, em que o gozo assume várias tonalidades, desde a bruta e feia (ela adora), separada por momentos de natação aquática, nos orgasmos repetidos, que a sua lagoa vai produzindo para manter o menino quase liquefeito, porque nem só de verga metálica é feito um homem… Enfim: tal como uma mulher umas vezes se vem como se fosse o tal tsunami (não gosto) e outras como se fosse um rio que se vai tornando num pequeno mar… A mim, responde-me M., o tsunami sabe-me maravilhosamente, quase me mata mas é bom e depois é só esperar um bocadinho até que águas voltem a correr livremente mas mais tranquilas depois da tempestade… Em suma, diz ela, tudo é bom se for bem feito. E também concordo que uma das melhores posições é por trás mas por cima, não de lado pois essa parece ser a melhor forma de vocês acederem ao tal mítico ponto G e então, sim,

cada célula vai recordar-se desse processo muito saboroso. Quanto ao metálico, bem, tem a vantagem de não se poder fugir à deliciosa agressão, ainda que doa um bocadinho mas às vezes a fúria é tanta que as peças de desencaixam e depois o sofrimento é mesmo grande.

Casimiro de Brito

VAI CHOVER – DÉCIMO QUARTO CAPÍTULO

O pai atua a raiva no truco. Tem chegado em casa todos os dias bêbado. Mulher e filha acreditam que sofre pelo mesmo motivo. Mas foi a presença da primeira filha na igreja que o incomodou. Qual o motivo de ter aparecido à cerimônia depois de anos sem dar sinal de sua existência? Para ele era como se o diabo a tivesse devolvido como castigo. Estava bêbado quando tudo ocorrera. A mulher metida na igreja. A imagem que o acompanha mesmo embebido em pinga, nas madrugadas, repetitiva, o olhar em pânico da ainda criança, mas corpo de mulher madura, ameaçou-a caso contasse à mãe… E a menina calou-se, mas não o ventre.

A Segunda Morte de Anna Karénina, de Ana Cristina Silva

Do fundo das trincheiras erguemos o olhar quando escutamos palmas. São elas que nos devolvem a consciência de estarmos em cena, de que toda a nossa vida não passou de uma representação, uma peça gasta e encenada tantas vezes que se esgotou na solidão de já não termos mais ninguém a assistir.

O teatro enche a nossa vida de todas as falas, até que a própria vida se transforma nisso: palavras ditas que não nos pertencem, que são as que os outros esperam ouvir. Transformamo-nos então “naquilo que os outros veem”. Os segredos que escondemos estão protegidos. Rodrigo partiu para a guerra, a Grande Guerra, para fugir de um amor que lhe podia ser motivo de escândalo. Nas trincheiras de França tinha o céu como único horizonte e foi a partir daí que escreveu as cartas ao amor da sua vida, aquele que abandonou sem se despedir.

Continue reading

UM VERÃO CAPRICHOSO | VLADISLAV VANCURA | EDITORA QUIDNOVI

Num verão com pouco sol e muita chuva a amizade entre o mestre banheiro Antonín Dura, o abade Roch e o major Hugo vai ser inquietada pela chegada, à pacata vila balneária de Krokovy Vary, do mágico e acrobata Arnoštek e da sua bela assistente, Anna. Movidos pelos caprichos do corpo, os três cinquen­tões envolvem-se em constantes trapalhadas e equí­vocos enquanto tentam, sem grande sucesso, con­quistar a jovem rapariga. Um Verão Caprichoso, segundo romance do autor checo publicado pela QuidNovi, é mais do que uma comédia de costumes: é uma divertida narrativa cheia de múltiplos sentidos.

«Vladislav Vančura, o meu primeiro amor literário.»

Milan Kundera, in A Cortina

«Um estilista altamente sofisticado.»

Josef Škvorecký, autor checo, in The Paris Review

«[Vančura] não descreve a realidade, cria uma nova. E o que mais cativa os leitores é a sua inconfundível linguagem.»

Jirí Brabec, professor associado no Masaryk Institute

Vladislav Vančura (1891-1942) foi médico, novelista, contista, cronista, dramaturgo, guionista e ensaísta. O «poeta da ficção» – como era apeli­dado – lutou incansavelmente contra o nazismo, tendo morrido às mãos da Gestapo durante a ocu­pação nazi da Checoslováquia. Tido como um dos grandes artífices da literatura checa moderna e um dos maiores escritores europeus da sua época, tornou-se conhecido com Markéta Lazarová (obra editada pela QuidNovi em 2012), uma novela histórica inspirada nos seus antepassados, cavaleiros da nobreza rural checa, publicada pela primeira vez em 1931 e que depressa se transfor­mou num bestseller. Neste Rozmarné Léto (Verão Caprichoso), dado à estampa em 1926 e adaptado para o cinema por Jirí Menzel em 1968, Vladislav Vančura dissolve o culto da palavra e a arte estilística de Markéta Laza­rová num humor irónico que, mais do que contar uma história, pretende recriar ambientes e atmos­feras próprias do sentir checo.

Pré-publicação:

“«Se o seu diabo estivesse parado atrás de nós, abade», disse Antonín, «poderia espetar-nos a todos no seu tridente porque não há dúvida que gostamos de mulheres e que corremos para assistir a um passatempo de magia.

Olhem para o malandro de Arnoštek, percorreu a cidade toda a gabar a sua arte porque senão donde apareceria tanta gente?»

«O que está a insinuar, Antonín?» responde o cónego, «não tenho nenhum diabo e o diabo não tem tridente.»

«Ora bolas! Seu depravado!» exclamou o major, «o senhor imagina tudo de forma perversa. O mestre não está equivocado. O diabo segura com firmeza o cabo do tridente e Arnoštek realmente correu a cidade toda!

É assim mesmo», acrescentou quando uma rapariga se atravessou no caminho dos três amigos, despertando desejo misturado com dor […]” (pp.42/43)

O Homem do Turbante Verde, de Mário de Carvalho

“Quanto ao professor, estava manifestamente a mais nesta fase da expedição e todos pareciam concordes com isso.”

A trama parece, desde o início, revelar o seu desfecho final, como se no plot traçado não tivesse implícito um volte face. Uma mestria que faz destes contos uma verdadeira aventura para o leitor. São vários os ambientes percorridos por estas narrativas, desde os mais exóticos, ao conturbado período de sobrevivência à ditadura portuguesa. Em todos, um tema comum, uma certa crueldade que parece contida na mente e atitudes dos homens, que se liberta ao sabor do acaso ou do destino. Um mal sem objectivo aparente ou moral assertiva.

Continue reading

Quase Um Fado

«Aqui, o céu negro e fixo. Março pelo meio. O vento frio lá dos lados do rio: um introito. Assim, evitando detalhes. Que se fosse contar, só olhos vermelhos e choro desamparado. Que também, nem era hora de morrer! Onde um deserto? E revejo o antigo casarão de frente para a avenida ladeada das centenárias tílias. Os escaninhos da memória devolvendo-me inteira, nítida, a casa paterna que deixara ainda jovem e a cidade natal que a marcara para sempre: Braga. Não esquecer: também e sempre, o seu desejo de outras terras. Uma errância que lhe caíra como uma sina. A Inglaterra, a França e a Escócia onde estudara e trabalhara na sua juventude. E aí, então, os lares alheios. As marcas indeléveis. Mais tarde, Angola, Goa, Macau. Pequim depois. Uma vida dedicada a escrever, a traduzir. A lecionar. Em Macau, no antigo colégio de freiras onde também ocupava um quarto – um cubículo, separado de outros por biombos – na casa destinada às professoras, atrás da igreja do convento. Alta madrugada e ouvia-se o ressonar das companheiras. Tão próximas. Irmanadas no sono, no ofício e no salário pouco. A sua vida de recolhimento. De exílio. E que também muito dada ao silêncio. À solidão. Às vozes dos seus mortos. Um cotidiano povoado de personagens misteriosos, sedutores. As filigranas do seu texto, o seu sentir. Isso o que lhe sobrara, o que lhe ocupara, atendendo a um apelo interior, antigo, desde a infância. A infância. Esse território. Territórios.
Aquela manhã envolta em brumas e o seu retorno à cidade natal… Uma senhora. O xale negro. Os ombros arqueados, um rosto de sombras. Até a missa na igreja de São Lázaro.Depois, o cortejo. O cemitério dos Arcos. Um silêncio. Tanto.»
+
Ernane Catroli do Carmo nasceu em 1953, em Sant’Anna de Cataguases, Minas Gerais, onde viveu a infância e adolescência. Formado em Farmácia e Bioquímica, UFRJ (1976). Funcionário público, reside no Rio de Janeiro onde trabalha na área da saúde. Publica regularmente em alguns blogues destinados à cultura

Da Chica da Silva carioca ao contrabando de camisinha

                             I

            Não é de hoje que a Igreja Católica condena o uso de preservativo e a prática do sexo que não seja com o fim exclusivo de procriação. Uma luta que, se não se pode chamar de vã, pelo menos se tem mostrado como praticamente impossível de ser levada adiante, porque o homem luxurioso sempre se mostra disposto a apelar a outros meios apenas para satisfazer os seus mais íntimos desejos.

            Não se sabe ao certo quando foi inventado o preservativo, mas é certo que no Egito Antigo já eram usadas finas camisinhas de papiro, que evitavam a proliferação de doenças venéreas e o nascimento de filhos indesejáveis. No Brasil, sabe-se agora que há 207 anos já chegavam aqui tais saquinhos de peles finas que tinham esse objetivo tão condenado pela moral religiosa. É o que mostra o pesquisador Nireu Cavalcanti, doutor em História Social com ênfase em História Urbana pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em seu livro Histórias de conflitos no Rio de Janeiro colonial: da carta de Caminha ao contrabando de camisinha (1500-1807), que reúne 26 crônicas que recolhem acontecimentos inusitados da cidade do Rio de Janeiro.

            Em uma dessas crônicas, o autor conta a descoberta que funcionários da Alfândega carioca fizeram quando abriram dois caixões que traziam mercadoria nunca reclamada por seus importadores: ali estavam “papéis figurados, escandalosas estampas soltas, livros com estampas” e os tais saquinhos de peles finas, ou seja, camisas de vênus ou as popularmente conhecidas camisinhas. Provavelmente, algum contratempo tenha levado os interessados a desistir de fazer passar o lote pela aduana com base em generosas gratificações aos fiscais.

            Cavalcanti recupera, inclusive, o relatório que o juiz da Alfândega, José Antônio Ribeiro Freire, fez ao vice-rei, o conde dos Arcos, detalhando o material apreendido, objetos e gravuras que teriam sido “inventados pela malícia humana e, capazes de corromper os bons costumes, e que por escandalosos não devem aparecer em público”. Confessou que a vontade que teve foi de os “queimar, em ato judicial de consumo”, acrescenta o pesquisador.

                                                           II

Quem, com certeza, não costumava recorrer ao uso de preservativo era o senhor de engenho João Aires Aguirre, que era casado com uma senhora que não lhe daria filhos. Em compensação, teria vários filhos com a mulata Páscoa Antunes (1692-1779), analfabeta, que morava e trabalhava em sua casa. Para Cavalcanti, Páscoa Antunes seria uma espécie de Chica da Silva carioca, pois acumulou dinheiro suficiente para adquirir, em sociedade tripartite, um engenho.

É de lembrar que, como mostrou em pesquisa histórica minuciosa Júnia Ferreira Furtado, autora de Chica da Silva e o contratador de diamantes: o outro lado do mito (São Paulo, Companhia das Letras, 2003), a mineira Chica da Silva (1731/1735-1796) não foi a mulher de vida extravagante retratada em romances e no cinema e na televisão, mas uma mulata que nasceu escrava e teve uma vida próxima das mulheres brancas de sua época, por sua relação de quinze anos com o contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira, no arraial do Tejuco, em Minas Gerais, tendo acumulado pecúlio considerável, inclusive mais de cem escravos.

Já a vida de Páscoa, diz Cavalcanti, constitui intrigante quebra-cabeças, que o pesquisador ainda não conseguiu solucionar, à falta de outros papéis de arquivo. Mas o que se supõe é que pelo menos quatro filhos de Páscoa seriam de Aguirre, ainda que registrados como de pais desconhecidos ou “incógnitos”. Fica evidente, diz Cavalcanti, que o pai deles não permitia enquanto era vivo que usassem o seu sobrenome. Fosse como fosse, a família de Páscoa prosperou e acumulou recursos para arrematar em hasta pública em 1756 um engenho na freguesia de Santiago de Inhaúma. O imóvel seria arrematado em sociedade de igual cota entre Páscoa, seu filho Custódio e o genro Inácio, de tradicional família, mas igualmente bastardo, que era casado com uma filha da Chica da Silva carioca, Florência de Menezes.

Para ver o quanto Páscoa prosperou, mesmo sendo mãe solteira, o pesquisador cita que, ao final da vida, em testamento, ela dizia que o genro Inácio lhe devia 250 mil-réis e que estava com dois escravos que seriam dela. Já o filho Custódio deveria prestar conta de dois escravos (um deles já falecido) que ela dera para servi-lo. Todos esses bens deveriam ser cobrados para o monte do espólio, diz Cavalcanti.

            Ainda com base em suas pesquisas nos papéis avulsos do Rio de Janeiro, do Arquivo Histórico Ultramarino, de Lisboa, Cavalcanti observa que todos os ricos do Rio de Janeiro no século XVIII possuíam no mínimo três residências: uma casa na cidade, geralmente um sobrado na área central; uma casa de campo numa chácara no arrabalde ou subúrbio; e a casa rural, sede da fazenda. “O percurso que cada uma fazia da chácara para a cidade, por exemplo, era a oportunidade de mostrar riqueza e comportamento nobre, através da qualidade do veículo, dos animais, dos arreios e do séquito de escravos, além de pajens bem-vestidos e numerosos”, conta.

                                                           III

            Resultado de projeto que apresentou em 1999 ao extinto Jornal do Brasil para a publicação semanal de crônicas sobre o período colonial, este livro vem se juntar a Crônicas históricas do Rio colonial, publicado em 2004 pela mesma Civilização Brasileira com o apoio da Fundação de Apoio à Pesquisa no Estado do Rio de Janeiro (Faperj), reunindo 69 crônicas, muitas delas inéditas.

A experiência do arquiteto-historiador no jornalismo impresso diário durou apenas seis meses, de 2 de agosto de 1999 a 7 de fevereiro de 2000, mas serviu para que o autor sentisse o gosto da popularidade, ao se perceber lido por um público muito mais amplo e sem as exigências acadêmicas de praxe, porém igualmente interessado em nossa história colonial. Se a experiência não demorou muito, culpa cabe à insensibilidade da direção do JB, que optou pela interrupção da publicação das crônicas, talvez para economizar alguns tostões, a uma época em que o tradicional periódico já mostrava que caminhava célere rumo ao seu desaparecimento das bancas.

            Neste novo livro, Cavalcanti, infatigável pesquisador de arquivos brasileiros e portugueses, resgata detalhes de casamentos conflituosos, processos familiares e acontecimentos do dia a dia da cidade do Rio de Janeiro. “Através dessas histórias, contadas com precisão e graça pela pena de Nireu, nos aproximamos do modo de vida dos habitantes cariocas e fluminenses do Brasil colônia”, observa a jornalista e escritora Regina Zappa, responsável pelo texto de apresentação publicado nas orelhas do livro.                                                 IV

            Alagoano de Olivença, Nireu Cavalcanti (1944) reside desde os 17 anos no Rio de Janeiro, onde se formou arquiteto e urbanista pela Universidade do Brasil, atual UFRJ. Professor de pós-graduação da Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (UFF), é ainda autor de Arquitetos e engenheiros: sonho de entidade desde 1798 (Rio de Janeiro, Crea-RJ, 2007), e O Rio de Janeiro setecentista: a vida e a construção da cidade da invasão francesa até a chegada da Corte (Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2004), que teve como ponto de partida sua tese de doutoramento “A cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro: as muralhas, sua gente, os construtores (1710-1810)”, apresentada em outubro de 1997 no Programa de Pós-Graduação em História Social do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ.

____________________________

HISTÓRIAS DE CONFLITOS NO RIO DE JANEIRO COLONIAL: DA CARTA DE CAMINHA AO CONTRABANDO DE CAMISINHA (1500-1807), de Nireu Cavalcanti. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 352 págs., 2013, R$ 50,00.  E-mail: mdireto@record.com.br

________________________________

(*) Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981), Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido(Lisboa, Caminho, 2003) e Tomás Antônio Gonzaga (Rio de Janeiro, Academia Brasileira de Letras, 2012), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

Foto: Luiz Nascimento

PNETliteratura de novo online

1 – Após período de ausência por graves  dificuldades financeiras felizmente resolvidas, voltamos a ter o site online.

2 – Do facto apresentamos as nossas desculpas, aceitando desde já as críticas por não termos de imediato informado do problema.

3 – A coordenação do site continuará a cargo de Vítor Coelho da Silva, deixando de haver Editor.

4 – Os escritores que pretenderem publicar no site deverão enviar os textos e fotos para vcs.viplano@hotmail.com.

5 – Estamos a desenvolver nova versão que entrará brevemente online.

6 – O URL http://www.pnetliteratura.pt foi entretanto capturado e registado por outra entidade. Do facto demos conhecimento à FCCN que em resposta nos aconselhou a recorrer a um Tribunal Arbitral. Esse site pirata tem alguns textos copiados do nosso, o que muito lamentamos. Pedimos desculpa aos autores por este abuso que nos é alheio. Obviamente que não cederemos à chantagem de negociar com este cavalheiro.

7 – Por avaria num dos quatro discos do servidor onde está instalado, de que só tardiamente nos apercebemos, alguns textos de vários autores desapareceram. Estamos a desenvolver esforços para a sua completa recuperação, nomeadamente aguardando a entrega de back-ups antigos.

8 – Registámos os URL http://www.pnetliteratura.com e http://www.literatura-pnet.com. De futuro passaremos a utilizar estes dois endereços.

9 – O signatário continua a desenvolver esforços no sentido de se realizar um Festival Literário em Fátima com periodicidade anual. A 1ª edição deverá ocorrer ainda este ano, de 19 a 22 de Novembro.

Lisboa 15 de Fevereiro de 2014

Vítor Coelho da Silva, administrador

Cidade Proibida, de Eduardo Pitta

Tinha de fixar esse instante antes que desaparecesse.

O romance de Eduardo Pitta abre com um instante: o momento em que o sol, atravessando a parede envidraçada virada a poente, abandona a devassa de toda a sala. É um ambiente de extrema elegância, que nos revela estarmos perante uma família da classe alta. O tipo de requinte que apenas o dinheiro velho permite. Em cena, duas personagens: Nora e o seu gato Teddy. O momento precede a entrada dos nomes de família: Os Moncada, os Ravara, os Lemos Fortunato…

Continue reading

Deste lado do mar vermelho, de Sónia Cravo

Custódio refugia-se no seu escritório, sempre fechado à chave. É o único local da casa onde Lia, a sua mulher, o deixa fumar. Um espaço interdito a Lia, que resiste a todas as proibições, um estranho e exíguo espaço de liberdade, sempre trancado. Todas as manhãs, a empregada leva-lhe o pequeno-almoço, leite, café e bolachas com manteiga. Isaura serve naquela casa há muitos anos, é uma mulher discreta. Um dia não coloca a chávena no tabuleiro, a sua suspeita confirma-se.

Custódio escreve poesia em cadernos quadriculados. É um homem que entrega os seus momentos de evasão a espaços exíguos, ao quadriculado do papel, à pequenez daquele escritório. Digere aí a sua perda e a sua dor.

Continue reading

Todos os dias são Meus, Ana Saragoça

Este romance abre com chegada da polícia. Um detetive, omisso em todo o livro, investiga a morte de uma jovem, assassinada no elevador do prédio onde morava. Apenas escutamos a voz dos personagens em resposta à sua investigação. É um maestro conduzindo uma orquestra onde os solistas se sucedem, ao longo do prédio, piso após piso. O primeiro depoimento é da porteira, protesta, com receio de que a possam incomodar por causa do cão. Não lhe ocorre que a polícia esteja a investigar o crime ocorrido. Este testemunho introduz-nos os moradores, vistos pelos olhos de uma mulher amargurada.

Para a porteira, a jovem tinha casa posta. Para o professor, era a que tomou o lugar de todos os que havia perdido. A mais desinteressante das criaturas, uma pessoazinha baça e insignificante, para a namorada do engenheiro. Uma menina tão bonita, para a empregada do professor. Esta jovem parece vestir uma pele de camaleão: adapta-se aos olhos de quem a vê, como se não fosse dotada de existência própria.

Continue reading

As Mulheres do Fonte Nova, de Alice Brito

Neste livro existe um personagem da dimensão de uma cidade, sendo ele próprio essa cidade. Uma cidade montada na garupa da miséria, alcoviteira e má mãe. Não se lhe conhece a culpa, apenas sabemos estar contaminada de gente. A mão segura da PIDE conhece os que não são “da situação”, já lhes sentiu a pele. Espanta-se de gente esta cidade.

Numa linguagem forte que não se furta ao uso do palavrão – porque a vida, de tão madrasta, não merece outros cuidados – Alice Brito deixa-nos aqui o relato de uma época, onde a ditadura esbateu gerações e esmagou esperanças. Uma narrativa que ousa recorrer ao calão e aos ditos populares (que seguem a mesma lógica violenta e recriminatória dos palavrões). “Deus que a marcou algum defeito encontrou”.

Continue reading

Metade Maior, de Julieta Monginho

A acção deste livro decorre num tempo próximo, um tempo que já se faz anunciar. Um mundo pós casas de penhores, dos restaurantes fechados, das lojas encerradas ainda ostentando os letreiros dos saldos (esse grito final de desespero). Uma sociedade onde tudo é privado desde o governo à ordem pública.

A sua maior ameaça é o crescimento demográfico. O departamento do ajustamento demográfico é então chamado a atuar. Fá-lo com os seus matadores e com a ajuda da morte. Pouco fiel é a morte, sempre pronta a servir outros senhores.

Estamos perante a sociedade dos sete pecados letais, decência, lealdade, respeito, modéstia, justiça, tolerância e compaixão. Este livro tem um relato próximo do fantástico, da magia invocativa das loucuras. Da loucura que imita a lucidez.

Continue reading

A ERECÇÃO INTELECTUAL DO DEFUNTO | Rui Sobral

 

 

Eu nunca nasci vivo
eu nunca amei tanto quanto a mim nunca me amei
e por isso vivo morto
cabisbaixo – aquele contente descontentamento
As vidas dos outros parecem-me flores na areia
no sangue e no frio que há em ti
e eu vivo sempre morto
com o olhar ao relento
coriscas no chão; saudades ao vento
com a vida no pulmão.
e o teu nome não é mulher
e o teu nome não é fêmea
e eu sou quente
e eu sou gelo
sou pestana inquieta; sou prostituta
despida de sorte, virgem de fortuna
Tenho em mim a dor da ansiedade
aceite? Aceito!, perto de mim
no meu leito
e se tu, doce caminho, me pregares partidas
eu deixo de ser carne, passo a ser angústia, a ser ferida, cicatriz, a ser nuvem, a ser sexo e passo a ser vida em ti…
porque hoje eu deixei de ser cavaleiro
porque hoje nasci vivo – e vivo, vivo morto em ti

Rui Sobral

 

O piano

Os dedos correm as teclas devagarinho, acariciam-nas. A noite é um rumor com sombras. Estou sentado num banquinho desdobrável. Trouxe-o do Porto. Tem três pernas de madeira e assento de cabedal, réplica daquilo que os caçadores usavam antigamente para repousar de muitas léguas e cansaços pelas serras fora.

Abraço a música com intuição. Avanço, em cada movimento, sobre um êxtase ou uma lágrima. Como um poema, uma pintura ou a inocência alegre de uma criança, a música, que vem de um cosmos de água e sonho, ou de um milagre, embeleza o mundo.

Mas eu não sei tocar piano, nem tenho conhecimentos de solfejo, além do rudimentar. O único professor de música que tive, e de cujo nome não me lembro, era um homem sisudo e com dedos de carpinteiro, grossos, maltratados, e que ostentavam uma permanente e feia marca de nicotina entre o indicador e o médio. Recebia-me na sua oficina com uma expressão granítica de cansaço e o olhar carregado de nuvens escuras. Apontava-me uma cadeira, sonolento, a respiração congestionada pelo catarro. Sentava-me com o peso e a culpa de um condenado e sob a lupa vigilante e implacável da sua autoridade de maestro solitário, encolhido, os joelhos muito juntos, a respiração suspensa. Incomodavam-me sobretudo o seu hálito, a cerveja, a tabaco, e a severidade mórbida do olhar. Eu chegava à sua oficina num estado letárgico e numa levitação de sentimentos antagónicos. Abria a pauta e punha-me a acompanhar o solfejo com a mão direita, muito desajeitada, aborrecido com aquela lengalenga que me levava para uma insolúvel encruzilhada de pensamentos. Só o corpo estava presente. Por isso, quase sempre falhava. Então a sua voz crescia como uma chibata e eu sentia-me fustigado pela acidez e o ardor das suas palavras. Apetecia-me fugir dali e abandonar para sempre o meu sonho de ser músico. Mas quando se é jovem, quero dizer, à saída da puberdade e com os primeiros vestígios de bexigas faciais, além da veleidade de nos julgarmos eternos pensamos ter a capacidade para sermos (e termos) tudo o que nos atravessa a imaginação.

Dessa aprendizagem sem glória guardo, porém, um instante de esplendor quando o ouvi tocar. «O solfejo serve para isto!» disse, colérico, o meu empertigado professor de solfejo, a camisa a cheirar a madeira e a cola. E pegou no violino. Subiu então ao palco de uma solidão sepulcral, curvado sob o peso de uma gravidade sem remédio, agarrando-se ao instrumento e apertando-o sob o queixo barbado, com a veemência e a febre de um nefelibata. Não tocou para mim nem para as altas andorinhas da tarde. Fê-lo com o poder e a fúria das suas frustrações, sem a alvinitente candura de um anjo. Impressionou-me no entanto a destreza dos seus gestos, a metamorfose do rosto, os movimentos do torso, os túneis fechados dos seus olhos bovinos onde morriam devagar as últimas crispações de uma luz, doirada e macia, que é a do subtil outono tropical.

Foi nesse momento que desisti de ser músico. Jamais conseguiria alcançar aquela pureza, aquele estado sublime e aquela transcendência, tão pobre, insignificante e caricato era o meu talento para a música. Foi naquele instante de clarividência e rancor pelo destino que deixei cair no chão da sua carpintaria a cintilação e a poesia de um sonho irrealizável. Fui-me embora da sua casa com o silêncio amargo de um rio que secava para sempre dentro de mim. Até hoje.

Nesta noite, que se agarra ao meu espírito como um íman ancestral, sentado diante do velho Martin Orme, deixo que os dedos me conduzam pelas areias da improvisação musical. Minha mãe, de pé, escuta.

Toco como um cego. Como se regrasse de um degredo imenso, inextinguível. Minha mãe, que nasceu numa ilha atlântica há noventa e um anos, escuta-se.

Era uma menina, uma linda menina de Ponta Delgada com as maneiras de uma princesa e a sensibilidade de uma ave marinha. Estudou solfejo e praticou piano. Mas a vida magoou-lhe o coração e ela cresceu com a mágoa glacial de quem nunca pôde ter, sob as paredes da sua casa, um piano. Todo o seu ser, que é frágil como uma flor dos montes, vibra com os acordes que os meus dedos tiram destas teclas sobre as quais me debruço enquanto desesperadamente busco, e no mais fundo de mim, esse mar que nunca tive: o talento para a música.  Falta-me a eloquência, a visão, o génio, a persistência e o rasgo de alma de que é feita a eternidade daqueles que nascem com esse dom.

Mas nem tudo está perdido: sinto na poesia, na sua voz e no seu canto, um piano a cantar no inverno. As palavras, afinal, também podem ser música.

Eduardo Bettencourt Pinto