Grupo Ágape Lança Primeiro Livro de Poemas | Valdeck Almeida de Jesus

Com o lema:

Resgatando pelos versos, jovens da periferia inova no fazer poético, com textos engajados, incisivos, que arrancam aplausos por onde passa

A primeira antologia poética dos jovens do Grupo Ágape será lançada dia 13 de dezembro de 2014, a partir das 17hs, no Centro Pastoral Afro Padre Heitor – Cenpah, em Sussuarana, periferia de Salvador-BA. Composto por textos de Maiara Silva, Mateus Silva, Joyce Melo, Sandro Sussuarana, Lane Silva, Evanilson Alves, Gleise Souza, Laiara Mainá, Larissa Oliveira, William Silva e Carol Xavier, com capa desenhada por Zezé Olukemi, a coletânea de 50 páginas sai pela Editora Galinha Pulando e já tem o que falar.
As poesias do coletivo poético falam, sim, e falam muito. Os textos são recitados no Sarau da Onça, no mesmo local do lançamento da antologia, nas ruas, becos, vielas, salas de aula, praças, avenidas; falam alto e em bom tom, incomodando ao sistema e a quem compactua com preconceitos, racismo, violência, falta de investimento em cultura, educação, segurança pública etc. Os poemas dos meninos e meninas da favela – como preferem ser identificados – gritam e choram o extermínio de negros e negras, clama por justiça social e criminal, fazem arrepiar e arrancam lágrimas de quem ouve os seus lamentos. Mas também fazem muito bem à autoestima de quem luta por respeito, igualdade, aceitação, autoafirmação e amor próprio.
Aliás, amor próprio é a arma que essa garotada injeta em si e em todos que se aproximam. Com entonação que soa incisiva, bocas e corações da turma se misturam, palavras não são apenas palavras, são tonalidades de pele, são as marcas do sofrimento próprio ou de algum amigo ou amiga que eles testemunharam ser agredidos, injustiçados, desrespeitados. E as palavras chamam à luta pacífica por igualdade de direitos. Na boca do Grupo Ágape, a poesia cria asas, como no fragmento que dá título ao primeiro volume de poemas: “A nossa poesia não foi feita para burguês gostar, / porque é um grito de insatisfação, / a intenção é incomodar! (…)/ Somos crias de Sussuarana, / onde criança vira onça cedo, / e aprendemos que o papel e a caneta são armas contra a opressão e o medo”.
A opressão, que poderia criar uma comunidade de covardes, ao contrário, estimula o Grupo Ágape a lutar por si, por todos, pelo bairro e pela cidade inteira. E os gritos deles ecoam, como urros de onça suçuarana, levando o brado a terras distantes, contaminando mentes e corações. Já chegaram à Bienal do Livro de São Paulo e da Bahia, a Institutos Federais de Educação, a Universidades, Festas Literárias etc e prometem chegar muito mais além; ali, do ladinho, na casa do vizinho, no coração de quem se senta, lado a lado, para ouvir e aplaudir os recitais do Sarau da Onça, do Fala Escritor e de todos os coletivos de poesia da cidade do São Salvador da Bahia de Todos os Santos! Como diz Sandro Sussuarana no livro “O Diferencial da Favela: Poesias Quebradas de Quebrada”, “Mais uma vez eu lhe digo meu amigo: – quer ser perigoso? Vá ler um livro” (A Perifa).

Grupo Ágape – O coletivo surge em julho de 2011 da iniciativa de um grupo de amigos que frequentavam a Igreja de Santo Antônio, da Paróquia de São Daniel Comboni, no bairro de Sussuarana. Foi pensado para ser um grupo de arte dentro da igreja, para agregar jovens por meio da música, dança, poesia e teatro. Devido à dificuldade de conseguir levar adiante o projeto nas quatro vertentes citadas, a opção foi juntar as forças apenas na poesia.
SERVIÇO
O que: Lançamento do livro “A poesia cria asas”
Quando: 13 de dezembro de 2014, a partir das 17h
Onde: Centro Pastoral Afro Padre Heitor – Cenpah – Sussuarana, Salvador-BA
Contato: Sandro Sussuarana (71) 9331-5781

Fonte: http://galinhapulando.blogspot.com.br/2014/12/grupo-agape-lanca-primeiro-livro-de.html

FORAM OS CORPOS | Licínia Quitério

Foram os corpos desenhos de caminhos
traçados no labor dos dias úteis
em vermelhas praias calorosas
em lívidas luas friorentas.
Aprumados cresceram entre penhascos e lonjuras
atentos sempre à inclinação das noites.
Com versos brancos na língua incendiados
acrescentaram pele a outra pele.
Depois veio o deserto e os corpos
aprenderam novas sedes
já não de águas correntes
mas de estrelas.
Do deserto ao dilúvio foi um palmo de vida
e então os corpos se fizeram casco
se fizeram vela e navegaram.
Não se perderam.
Eram eles o mapa da viagem.

Licínia Quitério, em “Poemas do Tempo Breve”, edição de autor, pág 17

NÓS, OS ASSASSINOS | Rui Sobral

E se de repente os insectos, literalmente, agigantassem? Se todos os cães e gatos passassem a ser lobos do tamanho de arranha céus? E se todos os porcos e cavalos e vacas e galinhas e perus aumentassem de tamanho sem escrúpulos? E se todos os aquáticos fossem tubarões famintos; e se todas as aves sofressem uma metamorfose para abutres sedentos de vida? E se todos estes e outros animais nos igualassem em inteligência e comunicação? E se todos eles ansiassem mortandade como nós? O que iriam, muitos de nós, assassinos, comer?…e vestir?
Nós, psicopatas, não precisamos de matar para comer, contudo é isso que fazemos. Todos os dias comemos um bocado de um porquinho ou degustamos uma coxinha de um peru ou uma fatia ou duas do lombinho de um boi ou vaca. Porquê? Ornamentamos o prato com pedaços de animais mortos por nós. Porquê? Tudo o que se desenvolveu, tudo o que conquistamos intelectualmente espelha-nos que o desrespeito e a insensibilidade são o nosso sobrenome. Não cuidamos do outro, seja ele qual for.
Ainda há quem ostente crocodilos no ombro para guardar porta moedas pele de vaca e meia dúzia de papéis substituíveis. Ainda há quem calçe, sob a carne dos seus pés, a pele de cobras outrora vivas. Nós, os doentes, aquecemo-nos, nas noites frias, com penas de sei lá quê!!?! Nós, os tais, esfregamos na face o elixir da juventude com os restos dos assassinados todas as noites e todas as manhãs.
Ainda há gente que se passeia pelos jardins zoológicos – autênticos jazigos de animais vivos, com os filhos a comer cachorros quentes enquanto deleitam agradavelmente as grades que formam a jaula do tigre ou do macaco ou do puma que está preso. Ainda há gente que semeia o sangue dos filhos através de uma ida ao circo com “as mais perigosas piranhas do mundo” ou “os melhores cães futebolistaa do universo”.
O pior é que ainda há gente que diz, num encolher de ombros, que os animais têm de ser…comidos para que se viva com saúde. Há gente que, sem remorso, não procurando justificar o injustificável, afirma que só consegue usar sapatos ou outras dessas coisas mínimas se forem de pele disto ou daquilo. Há gente que declara que se não os aniquilassemos como temos aniquilado, eles andariam por aí e seriam aos montes. Ainda há gente que acredita que eles nao sentem como nós. Há gente, pessoas iguais a mim, que desculpam a existência dos zoológicos ou dos circos com animais ou as touradas com razões de tradição ou com a habituação por fazerem parte do nosso quotidiano. Ainda há gente que não se envergonha, gente que adormece com facilidade mas com as mãos sujas de sangue. Eu tenho vergonha.
Que o próximo predador tenha piedade.

Rui Sobral

Abrem-se dedos… | Rui Almeida

Abrem-se dedos a partir de mãos fechadas
E mãos se estendem para abrir portas, gumes
De lâminas rasgando a tensão do que se diz.
Sobrevoam-nos os desejos, as perdas, tudo
Quanto se acumula nas fissuras desta força
Para além do corpo, sentida por debaixo
Da pele ou dos músculos ou do que deles faz
As vezes naquilo a que chamamos emoções
Ou remetemos para o indizível, para aquilo
Chamado alma, o que anima, o que dá cabo
Das sombras. Circulam em nós pedras, coisas
Sem nome, restos de vida, sedimentações
De momentos, uns por cima dos outros, sem
Ligação entre si. Abrem-se dedos, abrem-se
Corpos com a força de facas, rasgões que já
Não sabemos se são metáforas ou versões
Literais de uma fome a tornar-se concreta, luz
Dolorosa, água a ferver nas tripas, gelo a queimar
A epiderme dos lábios, a sulcar a polpa das
Palavras e dos lábios. Tocam os nós dos dedos
Secamente no mármore liso, os ossos ressoam,
Ressaltam na mesa onde nunca comemos. A morte
Vem mantendo-nos vivos e vivemos, sangramos
Da forma mais aberta possível. Somos de outra
Solidão que não esta de ver passar gente. Somos
Antes de mais da solidão que nos dá a paz,
O leite fervilhante da violência no coração. O nome
Disto está oculto entre os restos da colheita
Na seara, semienterrado nos torrões da leira pobre,
Pronta a ser abandonada. Isto não tem nome.

SAUDADE | Ercília Pollice

Saudade que ainda espera não é saudade é lembrança,
saudade só é saudade, quando não tem esperança.

Ercília Pollice

Já cantou Caetano que de repente”No silêncio da noite,
Me pego pensando em nós dois…
Pensando nas palavras que falamos e nas que deixamos pra depois.” ..

Valentina hoje me acordou pela madrugada, e queria me contar coisas e contar e contar.
Não tive escolha, deixei que Valentina usasse os meus ouvidos, e parte de meu sono.

A paixão é uma coisa engraçada. Ela vem sorrateira, de mansinho e quando você se dá conta ela o açambarca, corpo e alma e a brincadeira cheia de suspiros, vira um laço , vira amor: vira – virou.
Não há jeito que dê jeito, quando a brincadeira entra pelo caminho do amor.
Valentina, que sempre se apaixonou por amores nem sempre possíveis, desta vez não teve culpa.

Ela confessou – me, mais de uma vez, que não ia se apaixonar de novo.´ Aprendi, disse- me um dia! Levo tudo na alegria, e a gente sabe que tudo termina mesmo.
O que importa é viver feliz, por um tempo, seja curto ou seja longo.”

O que faz belo e gostoso o amor, é sabermos saboreá-lo devagar , sentindo o gosto, o aroma, e tudo o que a memória traz de volta desde o primeiro gole.Sim, porque agora descobriram que a visão em poucos segundos, vira memória; então, vemos o mundo através da memória, consequentemente a vida é vivida na memória.

Que coisa, hein?
Sorri , quando ela me disse isso e sorrio hoje, nesta madrugada meio fria.
Parece que o coração de Valentina enlouqueceu como o mundo, virou de pernas pro ar…vamos começar neste hemisfério o horário de verão, mas estamos vivendo um outono de hemisfério norte.

“”Sinto-me em Paris, me disse hoje, sorrindo, Valentina.”
Este danado desse tempo, traz de volta à Valentina tudo o que a memóra aprisionou no tempo- noites enluaradas que viveu em Paris. Também de volta as folhas nacaradas , avermelhadas, amarelas de Boston, traz de volta a estação que ela ama ,e, vai soltando devagarinho num tempo sem tempo…a fazenda com os bicos –de – papagaio, emoldurando a estrada, antes das grevilhas prateadas, os flamboyents do bosque serpenteando entre a cerca que descia para a represa…
Pensamentos atemporais!

Valentina está enamorada.O moço é especial! O moço é lindo. Ela achou que ia dar conta, ela pensou que iria tirar de letra. Enganou –se! Quem , por acaso algum dia, deu ordens a um coração?

Já fez poemas, já fez canções, já escreveu textos, achou que eram parte da história, mas não se apercebeu que a história chega uma hora, toma seu próprio rumo , tem seu próprio enredo, e não há quem segure as emoções
Agora, estão ambos, inteiramente tomados por esse sentimento intenso, que acelera o coração, e se segura em seus pensamentos tal um tigre enjaulado ,e, não sabem o que fazer dele.
-Valentina- disse o moço, cheio de emoção- o que vamos fazer com este sentimento?
-Não sei, meu amor, não sei…quer parar de me ver?
“Bem que eu gostaria, mas não consigo. ‘Te adoro, te quero, te desejo. Não tiro você de meus pensamentos.’

Por que temos de saber o que fazer?, retrucou Valentina.Não podemos apenas viver este amor intensamente?
Um dia termina e teremos nossa história de amor, linda, intensa, apaixonada, densa, amor imenso, amor sem senso. Nosso aconchego, nosso segredo , nosso enredo, nosso carinho.
Nada é eterno, meu amor.
Mas, o moço, está dividido, não é tão simples assim.Ele é todo “engenheiro”, gosta das equações terminadas e saber que no fim haverá um X a ser achado.Eis a não questão! Não há teorema ou teoria ou equação,ou regras que acertem as respostas vindas das equações do coração.
Cartesiano, que sempre foi, acabou enredado pela paixão, pela emoção , pela inteireza e intensidade sem egoísmo de uma mulher madura, que dá muito e exige pouco, Talvez, por isso mesmo, essa displicência apaixonada, com que Valentina trata o amor, o tenha feito ser pego. Tudo era tão “light”,sem cobrança, sem hora, sem dia…simplesmente acontecia!

E assim, numa idade em que brinca com os netos, e adora, Valentina se vê novamente envolvida corpo e alma.
Coração completamente vulnerável , esperando um moço, que a faz sonhar, a faz sentir bela, desejada. amada e amante! E, se sente feliz!

Trocam juras de amor, como namorados de antigamente, falam palavras repetitivas que fora do amor seriam uma chatice, mas que na hora do amor se tornam belas.

Eu, ouvindo, ouvindo, comecei a me lembrar que ela quis se enganar, desde o início.
Quando encontrou o moço lindo, jovem e interessante pela primeira vez, já estava enamorada dele. Mas não atinou , nem deu importância às batidas disparadas do seu coração de poeta sonhadora, que insiste em não parar de amar.
Lembro-me, ainda , quando me mandou um poema que fez numa cafeteria ,sentada sozinha, num outono europeu:

“Saio a esmo por aí,
Seu fantasma me acompanha,
Vejo flashes de você na multidão da praça.
Vejo você na rua nua
Vejo você na mesa crua de uma cafeteria qualquer,
Vejo você nos braços de outra mulher…
Vejo você na solidão da minha cama
Sinto seu beijo,suas mãos ,
Ouço sua voz a dizer que me ama.
Como pode estar aqui ,
Quem nunca aqui habitou?
É como diz Neruda;
“Saudade é quando o amor partiu,
Foi embora, mas o amor ficou”.

Mandou por e-mail,da Suiça , para o moço .
Claro, ele amou. Contudo, ainda continuaram levando bem leve um romance gostoso. Um affair tipo ‘ Belle de jour”, a la Deneuve, bem aos moldes de Buñuel
Mas, não sei bem o porquê, tudo mudou. Uma reviravolta, uma virada, e, de repente, sentiram –se unidos, tão unidos,tão próximos tão sedentos um do outro.
Isso, certamente assustou o moço seguro, carreira brilhante, vida formatadinha.
Ela sabe que eles não têm futuro, só presente.
Mas, quem tem?digo a ela , tão triste nesta noite meio fria, e nublada.Céu sem estrelas, no coração e no escuro da noite.
Não sabemos nada sobre o amanhã. Nosso hoje é agora.
Com ela, não poderá casar-se, nem ter filhos, nem nada desses compromissos que se assumem quando encontramos quem nos faz feliz a alma e leve o coração.
Tem idade pra ser sua mãe, a nossa Valentina, mas quando estão juntos, nenhum deles lembra disso.
Como disse um dia lá atrás, na horizontal temos a mesma idade.
Ele diz a ela que ela traz tantas mulheres interessantes dentro dela, fundidas numa mulher só e muito especial.
Ele a acha linda e diz sempre:Você é linda, Valentina, e ponto!
Já estão neste emaranhado de emoções boas há uns 7 anos mais ou menos.
A proximidade cada vez mais amiúde trouxe o sentimento de querer mais e mais e mais…
Sentem saudades um do outro. Ela sempre foi mais comedida com as palavras, mas ele sempre lhe dizia: “Te adoro! Te quero! Meu coração é seu . meu amor, meu grande amor!”
Ultimamente ela extravasou todos os sentimentos e também passou a chamá-lo: meu amor, meu querido, e não apenas de lindinho, como sempre fez.
Talvez sua intensidade , sua densidade nas palavras, nos atos, o amedrontaram.
Seja como for. Não se arrepende.
No amor é assim; é tudo ou nada. É não ou sim.
Queria vê-lo mais, tê-lo mais, mudar com ele pra Provence, para um cantinho qualquer que fosse só deles.
Mas, não dá. A vida não é assim.Não negocia. Ela vai tecendo teias à nossa volta e vai nos amordaçando em compromissos, em serviços, em promessas, às quais nunca tivemos intenção de fazer. Somos enjaulados pelo viver.
Tempo nosso mesmo, só aquele que cabe em nosso pensamento, aquele que trazemos em nosso coração, aquele no qual ninguém manda ou tem poder.
No tempo do meu sonho, mando eu.
No tempo de seu sonho, manda você, minha doce, sonhadora e forte Valentina.
Como você disse na canção que escreveu;
“sem amor nada tem sabor”.
Prossiga, basta a cada dia o seu mal, minha querida!
Mas, por favor, agora , deixe-me dormir, logo o dia vai amanhecer , e já as palavras ditas hoje, serão passado, pra variar!
Contudo, não é você quem sempre diz que coração machucado, cicatriza, mas coração vazio não há quem dê jeito?
Então…

Poetas do Desassossego | Dalila Moura Baião

1.

Os poetas do desassossego tingem as palavras
Nas tílias dos jardins e escrevem-nas no rosto dos deuses
Que passeiam nos canteiros com sabor a chá de maresia.

Vestem vocábulos de inquietação e penteiam as frases
Com fios de lua que ousaram vaguear pela cidade do frenesim.
São fermentados por expressões que se agitam na cúpula
Do pensamento e se desintegram na chuva da ausência das ruelas
Por onde o mar se esgueirou em versos de espuma.

2.

Fazem da palavra o vulcão sem tempo de eclodir
Porque a lava da agitação se derramou na demora dum poema
Sorvido em goles quentes onde se bebem marés de alvoroço.

Os poetas do desassossego regressam por entre o sobressalto das horas
Convidam os dias por inventar, reclinam o pensamento na poltrona das descobertas
E prolongam os caminhos onde os sonhos são madrugada em ebulição.

3.

Os poetas do desassossego vivem na cidade feita ausência
Pensam na insegurança das manhãs que se desenham timidamente dentro dela
Porque as aves se confundem entre os gestos e as madrugadas.

Sentem o fumo do cigarro que se mistura no reboliço dum oxigénio fragmentado
E a respiração adensa-se nas escadarias da tosse trémula que vai persistindo.
Afinal o fumo que ingerem vem repleto de horas divididas
Entre um sopro e uma palavra retalhada.
Fragmentos de vida que se inalam no abandono duma sociedade pasmada. (…)

Do Natal | Maria Isabel Fidalgo

É Natal no mistério do tempo
em que finitos somos
incertos no pão de cada dia.
Vacilamos nas moedas
pisamos o amor como pedras
enquanto o branco é o dos poetas
em papel timbrado de angústias.
Acendemos velas e pesamos
a fome milimetricamente
em candeias escuras
no mistério do tempo
em que infinitamente
sopramos sílabas vazias
dizendo natal deslumbrados.

Maria Isabel Fidalgo

O sal na ferida | Domingos da Mota

O país em causa, este país
tem sol, mulheres bonitas, cavalos e aviões,
e um mercador que o diz
em terras de califas e sultões;

país à venda, oh país, país,
para quando um assomo de revolta
contra a feira da ladra, e o nariz
de quem esbulha o país, à tripa forra.

País que à beira mar aguenta as dores
de gente usada e abusada
pela soberbia dos senhores
(só lhes falta o direito de pernada),

posto o sal na ferida, e exposto
o mal, vê lá se acordas, Portugal.

Domingos da Mota

(a partir da leitura do Soneto Exposto, de Amadeu Baptista)

NOSSA FINITUDE NOS ANGUSTIA | Ercília Pollice

Graças a Deus a gente é um ser pensante. E, por sermos pensantes conjecturamos a respeito de tudo, inclusive, de verdades que não entendemos, mas que são absolutas em nossa vida, e, ainda questionamos o porquê de tanta dualidade dentro em nós.
Há uma angústia que nos acompanha na nossa caminhada. Há a constatação de que não há plenitude de felicidade para este nosso viver. Há, também a constatação que todos os nossos anseios não cabem dentro de nosso viver.
Daí, portanto, esta fome de querer tanto e nunca se sentir saciado.
Temos sonhos, esperanças, e, é bom que os tenhamos. Mas, não podemos confiar que nesta vida, nesta existência terrena eles se realizarão.
Vivemos entre a possibilidade de vir a ter e a certeza de vir a morrer.
E a caminhada vai ser feita de qualquer forma, queiramos ou não, aceitemos esta verdade , ou não.
Eu sei querer tudo e tanto, mas no tamanho de minha existência não cabe tudo o que quero.
Por isso essa insatisfação permanente que acompanha a gente pela vida a fora, ou pela vida a dentro, não sei.
A incomplitude do ser, da qual já se ocuparam artistas, filósofos, teólogos, escritores e até gente simples, que à sua maneira explicaram o que sentiram :” a felicidade não é desse mundo, e nem sei se há outro , onde ela deva existir “.
Vivemos esse paradoxo que nos acommpanha a vida toda: preciso sonhar , tenho sonhos, mas poucos deles eu consigo realizar, ou muitos deles eu deixei de lado, por saber que eram inatingíveis. Entretanto, sei, por intuição e necessidade da minha alma, que não posso deixar de sonhá-los ou deixar que todos eles morram.
Vivemos entre a dialética de querer tanto e poder tão pouco.
Por que alguém tão cheio de amor, não consegue amar como deseja ou anseia?
Ou foi cerseada na sua trajetória de amar com inteireza, por um corte inesperado, uma perda, uma ruptura fora de hora, pelo menos sob o nosso ponto de vista, fora da nossa hora, da hora que pretendíamos?
Como vamos administrar todas as perdas que sofremos de queridos nossos, ao longo desta vida , se nosso anseio maior é viver feliz com eles todos, por tempo enormemente esticado?
Pois é, a vida não é assim.
E, temos apenas uma escolha entre a certeza de nossa finitude e incapacidade de realizar todos os sonhos e a esperança que um dia, numa outra dimensão eterna, religados ao que o Eterno sonhou , Ele próprio , para nós- então, entre essas duas pontas temos a opção de amar.
Nunca saciaremos nossa total fome de sonhos e de amor.
Mas, certamente , esta escolha é o que nos levará mais perto da felicidade que tanto queremos e buscamos e onde temos sonhos e anseios que não cabem dentro de nossa finitude e impossibilidade de realizá- los.
O amor é quando Deus está conosco.
Isto nos isentará de sofrimentos? Não. Sinto muito, mas é não mesmo!
Amar significa dor, doação, angústia e perda possível em meio a momentos de alegria , paz e plenitude.
Há uma saudade que não sabemos definir de onde vem e porque. Um vazio que nunca preenchemos, um medo que nos acompanha, uma solidão que é só nossa e não conseguimos compartilhar, nem dividir, nem explicitar mesmo com quem mais amamos. Porque é unicamente parte da nossa alma e não da alma do outro, seja ele quem for e tão próximo quanto seja ou esteja.
Mas , para administrarmos a falta de tantas coisas que queremos, a saudade de tanta genteou coisas que já perdemos, a vontade de viver o que ainda não conseguimos, só há uma saída- abrirmos nosso coração para o amor.
Pelo amor virá a compreensão, a misericórdia, a bondade, a esperança,a aceitação, mesmo que nunca alcancemos o que esperamos.
E. é nesse abrir do coração repletos de sonhos que Deus vem habitar, e nos leva pela mão na dura caminhada.
Então poderei dizer: Entre Deus e a eternidade seja ela onde for e como for, pra onde nosso espírito irá, e a possibilidde da morte, está a vida onde podemos amar.
Eu sofri, eu chorei, eu perdi, mas eu amei! Isto é pouco? Sim, é pouco, para quem quis tanto, sonhou tanto, esperou tanto.
É pouco, mas é o melhor que teremos nesta existência. Então, deixa de ser pouco: para se tornar muito. É muito! Mas nunca será o suficiente.
Sem amor, ninguém atravessa a vida completamente, inteiramente, esperançosamente, alegremente. Apesar de , e não por causa de.
Onde está Deus? Não é esta a pergunta. Mas . sim: `Quando está Deus?
Deus está conosco quando amamos, apesar dos sofrimentos, apesar das perdas, apesar das aflições.
Deus é amor! Longe do amor não temos Deus , e, longe de Deus não temos amor.

Campinas 05/04/2014

Ercília Pollice

Jantar Temático | A Tortura nas Prisões da PIDE

A Sociedade da Língua Portuguesa levou a efeito no dia 28, sexta-feira, pelas 20 horas, no Hotel Açores Lisboa, um jantar temático «À Mesa com Ana Aranha». Coautora, com Carlos Ademar, do livro «No Limite da Dor», editado pela Parsifal, a sua comunicação tem como título «O Valor da Memória».

Amálgama, de Rubem Fonseca

Rubem Fonseca reúne neste seu Amálgama uma série de contos e alguns poemas. O narrador, sempre na primeira pessoa, surge num registo direto e afirmativo, sem palavras grudadas e numa contida adjetivação. Episódios de vida narrados com a mesma casualidade de uma conversa, com um desconhecido, numa qualquer paragem de autocarro. São contos nos antípodas dos de Esopo, dado que não pretendem transmitir uma lição ou vincar um preceito moral. São histórias de gente pobre, deformada, verdadeiras aberrações, anões, ignorantes, órfãos e estropiados. Mesmo quando têm dinheiro continuam reféns da sua condição. A pobreza é um aleijão do qual nem o dinheiro livra. Contos quase inacabados, como a vida destas pessoas que, apesar da sua existência violenta, se apagará na memória do tempo. São gente evanescente, conformada e disciplinada.

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Dançar à Chuva – Daniela Costa

Este não é um livro para suscitar pena. Não é um livro de pessoas diferentes, nem de casos tristes que aconteceram “aos outros”.
No seu dia a dia, a Daniela escreve histórias que lhe são encomendadas e que ficam no foro particular. No entanto, depara-se com pessoas que lhe contam histórias com uma carga tão grande de esperança e que transmitem tanta força que achou que as devia contar e divulgar ao público em geral.
São 14 histórias de gente que preferiu dar a volta e ver o “copo meio cheio”. Porque, de facto, em qualquer situação e circunstância, é possível beber do cálice da abundância.
As marés podem levar-nos tudo, menos a esperança. Não podemos anular uma tempestade, mas podemos sempre escolher dançar à chuva, em vez de esperarmos contrariados que ela passe.
Estas são histórias de vida de pessoas felizes! Quanto de nós têm a coragem de o ser? E de o dizer?

CONJECTURAS EM DIA NUBLADO | Ercília Pollice

De repente neste meu dia, depois de ter feito uma porção de coisinhas, algumas prazerosas e outras nem tanto, sentei-me aqui no escritório e liguei o rádio numa FM que só toca música linda, enquanto punha ordem em alguns papéis.
Sabe, que me bateu uma tristeza tão grande, um aperto no peito, uma coisa estranha, assim sem mais nem menos.
Isso é inusitado em se tratando de mim.Sou sempre bem com a vida e alegre por temperamento.
Acho que estou precisando de um brilhozinho. Muito sem emoção minha vida no momento. Emoção de amor, claro. Porque de resto tudo vai indo muito bem.
Hoje pela manhã, ainda na cama escutei um médico, psicólogo, falando sobre a educação das crianças hoje.
Dizia ele dessa pressa que os pais têm, que os filhos aprendam outra língua, fora de um contexto, quando ainda nem aprenderam a própria. Claro , disse ele, que isso não se aplica à crianças que moram fora de seus países em outro contexto.
Também dizia o Dr. que faz bem às crianças conviverem com primos , tios, avós, em vez de ficarem confinados apenas aos pais e amigos da escola. Essa interrelação os ensina a viver em família, a entender os laços familiares e a hierarquia familiar, que os preparia para a vida.
Engraçado que sempre pensei assim, nunca entendi mães que ficam em casa , terem pressa de colocar os filhos na escolinha ou na creche.
Também percebo, com tristeza, que a vida moderna acabou com os almoços em família aos domingos. Quase que nem conseguimos nos reunir com todos no Natal. A vida separa as famílias e isso para as crianças é uma lacuna que nunca mais se preencherá. Faz bem a convivência em família, com risadas, brincadeiras, segredos, e até brigas. Faz parte da formação emocional de uma criança.É uma etapa importante que não deveria ser pulada.
Tenho lindas lembranças das reuniões tanto em casa de meus pais , como na minha, com demoradas conversas em volta à mesa.
Não consegui manter isso, nos últimos anos, pois os filhos mudaram pra longe, e o trabalho os absorve, sem possibilidade de reuniões constantes. Também os filhos se casam e têm de se dividir nas festas, entre 2 famílias e assim , a coisa vai se complicando.
Talvez essa conversa com esse Dr. logo pela manhã, tenha despertado em mim alguma saudades ou sentimento de perda, sei lá…que aflorou quando comecei a ouvir as músicas.
Músicas sao ferramentas danadas para extrairem da nossa alma as coisas mais escondidas . Sentimentos, assim, podem estar camuflados, mas estão lá, firmes, apenas aguardando uma chancezinha para tomarem forma . Você me diria, tristeza e saudades por acaso têm forma? Eu lhe diria, tem forma , sim.Forma de aperto no peito, lágrimas nos olhos, sorriso triste, voz mais rouca, e por aí vai…
Ney Matogrosso canta neste momento, nesta FM que liguei, …EU QUERO MESMO É BOTAR MEU BLOCO NA RUA… e a música vai revelando da necessidade da gente por as emoções pra fora.
Aí a gente se defronta com outro problema; as pessoas não sabem mais ouvir, querem só falar, contar, dar opiniões…e você que estava louca pra contar o que lhe vai no coração, mostrar suas emoçòes, acaba se calando, porque percebe que suas palavras vão cair no vazio do egocentrismo que tomou conta das pessoas.
Penso , cá comigo, que foi por isso que comecei a escrever e me tornei escritora. Falta de ouvidos atentos às minhas palavras.
Tenho ótimos amgos, gente boa, gente pronta a acudir, mas não tenho ninguém pronto a ouvir. Conheço 2 mulheres que sabem ouvir: Paty, minha nora, e Wanda , minha amiga.Ambas estão longe.
Nesta hora, e não só nesta, sinto falta do ombro onde me abriguei no passado. Mãos que acariciavam o cabelo quando percebiam tristeza em minha voz, ou em meu olhar.Tanto um como outro, são terríveis pra me delatar. Quem me conhece sabe pela minha voz ou pelo meu olhar se estou triste ou não.
Outra coisa, rara hoje em dia; as pessoas não enxergam você, elas apenas a olham.Olham, mas não vêem.
E estamos todos tão faltos de atenção, de afeto, de pessoalidade. Esta vida nossa de cada dia tem uma tônica tão grande de impessoalidade, que até me angustia.
Talvez por isso mesmo é que o Face Book teve tanta aceitação entre as pessoas deste séculoXXI. Todas falando de si mesmos pra ninguém em especial, apenas falando …Diria, falando ao vento, apenas para terem a sensaçãop de que estão sendo ouvidas.
Isso é muito triste, de se constatar, mas é um fato.
Numa época em que a comunicação é tão fácilitada e que nos ligamos com o mundo, as pessoas são extremamente tão sós e isoladas
Paradoxal o ser humano. Paradoxal a vida.
Saudades da conversa em frente um cafezinho. Deixar recado no Face Book e tomar café sozinhos, coisa mais esquisita.
E não adianta você ter tempo para as pessoas , elas não o têm para você.
Não vejo como vamos reverter esse processo de isolamneto a que as pessoas estão se impondo.
Aconteceu comigo uma coisa interessante; enquanto estava longe, fora de minha cidade, e do Brasil, um homem daqui da minha cidade, deixava recados todos os dias e até duas vezes por dia, no FB só falando em me conhecer e me encontrar. Pois foi só eu retornar, e avisá-lo, pra ele tomar doril e sumir.
A virtualidade está tornando os homens ( sentido genérico) covardes, inseguros. iludidos , mentirosos, O pior estão mentindo pra si mesmos. brincando de faz de conta, sem necessidade de se expor, de mostrar as fragilidades e sem precisar de viagra, se for o caso.
Será que vai haver um ” turning point” pra essa situação, que se não abrigasse tanta tragicidade dentro de si mesma, seria cômica.
Nas grandes cidades, as pessoas não abrem mais as casas aos amigos. marcam encontro nas cafeterias. E o prazer de partilhar a mesa, um pedaço de bolo, ou simplesmente um pãozinho quente com manteiga, tão comum no interior de minha infância e juventude?
Quando me casei, minhas amigas continuaram a ir à casa de mamãe às 3h da tarde, porque sabiam que lá havia uma mesa posta com café, bolinho de chuva e muito afeto. Que bem fez isso à minha mãe…
Não rínhamos nem sentíamos a síndrome do ninho vazio, porque dificilmente o ninho ficava vazio.
Sabe que escrever tudo isso me fez um bem enorme?
Minha tristeza deu lugar à uma sensação boa de desabafo. Não tem amigos pra lhe ouvir? Escreva, minha querida, escreva. Além de fazer bem, não corre o risco de sofrer juízo de valor.
Brincadeirinha meio irônica…Amigos que têm ouvidos são necessários de mais da conta, como diriam os mineiros.

Ercília Pollice

O Príncipe | Comentários de Napoleão Bonaparte

Maquiavel escreveu sua obra, O príncipe, no ano de 1513, causando polêmicas
que se estendem até os dias atuais, uma vez que é visto como uma espécie de manual
para a ação política. Tal livro é de extrema importância, sobretudo no universo político,
uma vez que significou um marco da racionalidade política que inaugurou a
modernidade. No entanto, fato interessante e pouco analisado são as notas de rodapé
escritas por figura tão importante na história mundial como Napoleão Bonaparte. O fato
é que não se trata de simples notas e sim de comentários construídos a partir das
experiências vividas por Napoleão.

Vanessa Carnielo Ramos

Graduada em História pela Universidade Estadual de Goiás – UEG – ex-bolsista do CNPq pelo projeto:
“Os alicerces da Casa Grande e da Senzala: análise historiográfica das notas de rodapé”, coordenado pelo
professor Eliézer Cardozo de Oliveira. Mestranda em História pela Universidade Federal de Ouro Preto –
UFOP.

O AMARGO E O DOCE | Carlos Bondoso

não inventei o grito da dor
nem o gemer do prazer
nem sequer o crescer dos dias
nem as noites e as suas sombras

colho flores nos jardins abandonados
e esqueço o silêncio da alma

na distância de um longo caminho
mil vezes corro e outras mil choro
o eco não se faz sentir
mergulha no vazio

rejuvenescem as forças

na luz
os corredores crescem
quando a solidão esquece o amargo e o doce

POR CFBB

HISTORINHA – A CEGONHA E OS SEUS VIZINHOS |

No cimo da torre da capela, um vulto destaca-se no azul do céu.
– Está hoje muito calada, senhora Cegonha! – Nota, em jeito de puxar conversa, o relógio que mora sob o ninho da ave pernalta.
– Faço o contrário do vizinho, que mal abre a boca, não há ninguém que não ouça aquilo que diz!
– O que digo?! Ora essa! Digo as horas! – Abespinha-se o relógio. – E se não falasse tão alto, havia de ser bonito…
– Pois eu, sempre ouvi dizer que falar alto é uma coisa muito feia. – Comenta a cegonha para o irritar.
– Mas não quando se trata de um relógio. E muito menos de um relógio da torre de um campanário! – Contradiz o relógio, a adiantar-se, tiquetaque, com o nervosismo.
O sino, vizinho de ambos, atalha, apaziguador:
– Então, então, meus amigos, temos agora vizinhos quezilentos?
– Eu apenas disse que falar alto não é bonito. – Defende-se a cegonha.
– E eu respondi que, muito embora tenha o costume de falar alto, ainda há por aí quem diga que não me ouve. – Explica o relógio num tiquetaque mais acelerado.
O sino resolve dar a sua opinião:
– Como é do vosso conhecimento, não gosto de discussões. Mas sou forçado a reconhecer, senhora Cegonha, que não foi muito simpática aqui para o nosso vizinho relógio…
– E sabe por quê, amigo Sino? Sabe por quê? – Interrompe a ave migratória. – Porque estou, praticamente, em jejum. É verdade. Em jejum! – Repete, a justificar-se. – E olhe que não é à falta de manter os olhos bem abertos desde que rompeu o dia. Mas cobras e ratos, não há quem os veja… – Lamuria ela.
– E por causa da sua pouca sorte, atira o azedume para cima de mim! – Protesta o relógio, ainda agastado.
– Tem razão. Desculpe. – Pede a cegonha, à beira do ninho, pescoço curvado, o bico quase a tocar o ponteiro dos minutos.
O relógio abranda o tiquetaque.
– O que lá vai, lá vai. – Responde. – Há tanto tempo que somos amigos…
Feitas de um cheirinho a verdete, ouvem-se as palavras do sino:
– Era o que faltava, ficarem zangados. Demais, agora, que chegou o Outono e a senhora Cegonha está de abalada para o Norte de África.
E logo, a quebrar o silêncio que se intrometeu:
– Domingo, no final da missa, tenho dois baptizados. Vai ser um tão-badalão de se lhe tirar o chapéu! – Informa, num entusiasmo.
– Pois eu, vou dar outra volta. Pode ser que desta vez tenha mais sorte… – Despede-se a cegonha, em busca do almoço.
E o relógio da torre da capela, tiquetaque, acrescenta meia hora ao dia que arrefece.

Soledade Martinho Costa
Do livro «Histórias que o Outono me Contou»
Ed. Publicações Europa-América

JÁ SINTO SAUDADES TUAS | Rui Sobral

Nunca uma luta foi tão desigual. O sufoco emancipava lágrimas nuas. Os dois, tornaram o quarto de banho ainda mais pequeno. Estavam imóveis. Ela ia partir – tinha-lhe contado há minutos. Se de pedaços se fizessem os homens, ali, ela teria-o conhecido em fragmentos impávidos e repletos de dor. Ele, com o olhar amargurado no nada. Ela, triste, carregava sozinha a cruz da culpa no coração. O amor prendia-lhes a fala. A revolta gritava alvorada. O controlo das emoções estava em guerra aberta. A porta – fechada, guardava o silêncio. Assombrados por Afrodite, olharam-se. A luta tinha terminado. O choro invadiu-lhes a face e num rasgo perpetuaram a saudade com um abraço. O amor resiste ao tempo. O amor resiste à distância. Ela ia voltar.

Quando o amor toma conta da realidade de cada um, a nostalgia espelha corações doridos, corações em sangue. A saudade e a distância são trechos da morte. Morre-se um pouco a cada momento que passa, a cada hora, a cada instante perdido. O Homem, quando ama, não está preparado para a distância, para a separação. Sente falta. Falta-lhe a consciência da razão porque o pior da lonjura é a ausência. E a ausência é irreparável.

Seja por semanas, por meses. Seja pelo tempo que for, o afastamento é uma coisa monstruosa. A confiança passa a ter o mesmo nome do ciúme – caminharão lado a lado nas noites frias e nas tardes negras invadindo o romancista que há em cada um de nós. Cria-se imagens terríveis de coisas impossiveis, mas possíveis na mente de quem nunca conhecerá a invisibilidade do ressentimento. O ciúme é obra de autor e o medo é o seu nome.

O toque será um corpo em falta. O ouvir, o cheirar, o olhar, passam a ser elementos vivos na sobriedade do nosso pensar distorcido. Como será quando ela voltar? – Uma espécie de mudez, certamente. Sente-se a traição da vida. Assume-se que uma besta encarnou no nosso fado. Sente-se uma revolta atroz. A injustiça calibra-nos o andar. Cabisbaixo. Conturbado. E há dor…! Porque o mundo acaba no momento em que lhe impomos um fim.

Rui Sobral