NÓS – OS RACISTAS | Rui Sobral

 

 

Os dias aqui começam mais tarde. Lá, no oriente, nascem mais cedo. O frio, por esta altura, engana os rostos esguios. Rostos pálidos, repletos de cores mortas. De estômago acordado, fazem-se às escadas, às mudas e “atapetadas” escadas. Descem – os dois.
Já no estabelecimento, vislumbram a cidade desconhecida e ainda deserta pelo vidro da porta fechada. Quando aberta, nós – como zombies, entramos por lá como se de uma corte de porcos de tratasse. Aos porcos, estes mais cabisbaixos que porcos, que encontramos pelos corredores, vamos ignorando a sua presença, ora conscientemente, ora inconscientemente. De cara fechada, no meio de murmúrios deselegantes, servimo-nos das coisas que por lá vendem. No balcão, habita o anónimo que connosco se cruza todos os dias. Não lhe conhecemos o nome, aliás, a sua morte, para nós, seria até irrelevante. Sem bom dia ou obrigado, pagamos o artigo com moedas mais caras que a semelhança que nos devia unir. Seguimos caminho. Eles, os da corte, ficam lá. Mais um dia. (…) Mais um zombie. Fossem somente essas as razões da tristeza que os assombra.
De todas as lojas, só as “dos chineses” não têm nome. O preconceito torna-nos mesquinhos. Faz de nós, racistas.

Os meus ouvidos costumam comer ilações reflectidas. Antes fossem irreflectidas. Mas não são. São sujas. São coisas como só vendem merda! ou eu não entro na loja dos chineses ou vêm ESTES para aqui dar cabo da economia. Aceito a opinião de todos, como todos, mas há coisas ferozes. O racismo deles é cruel. Engana-lhes a essência, ou, enganados, o espelho fita-lhes a sua real essência.

Ao patriotismo! – gritam os pseudo-patriotas, ou lá o que são. Eu, de patriota nada tenho e se tivesse não seguiria a estrada desses zombies, garantidamente. Eu sou de país nenhum. Nem do mundo sou. O mundo é que é de mim. Eu sou apenas das gentes, dos animais, das plantas. Do nome das terra, sirvo-me apenas. Vivêssemos todos assim e o bom dia e o obrigado seria cantado bem alto.

No país onde vivo, nada me espanta. Tenho pena de não haver mais multiculturalidade. Deixa-me triste desconhecer a relativização na maior parte dos indivíduos. Fico triste por ficarem tristes por partilhar um pedaço de terra chamado Portugal. O mundo são as pessoas e outros respirantes. Portugal é dos italianos, marroquinos, peruanos e chineses. O resto, para mim, são mesquinhices.

Bem sei que temos tendência para o desaforo, para bater no cego, para pontapear o magoado, mas um dia, o dia será real. É deveras importante perceber a intensidade dos silêncios oferecidos aos menores, aos socialmente inferiores. Isso é matéria de um passado distante. Amanhã vou dizer bom dia e obrigado ao meu semelhante, aliás, vou até cumprimentar as pedras da calçada.

Rui Sobral

Lídia Jorge vence Prémio Literário Vergílio Ferreira

A escritora Lídia Jorge, cuja é obra é publicada Dom Quixote, acaba de ser anunciada vencedora do Prémio Literário Vergílio Ferreira, instituído pela Universidade de Évora. A autora de “Os Memoráveis” foi o nome eleito pelo júri daquele galardão, presidido por António Sáez Delgado e que integra, entre outros, Eduardo Lourenço e Fernando Pinto do Amaral.

Instituído em 1997, pela Universidade e Évora, o Prémio Vergílio Ferreira destina-se a premiar, anualmente, o conjunto da obra literária de um autor de língua portuguesa relevante no âmbito na narrativa ou do ensaio.

Lídia Jorge nasceu em 1946, no Algarve. Já foi distinguida com alguns dos mais importantes prémio literários, nacionais e estrangeiros: Prémio Dom Dinis; Prémio PEN Clube; Prémio Máxima de Literatura; Prémio Bordallo de Literatura da Casa da Imprensa; Prémio Correntes d’ Escritas; Grande Prémio de Romance de Novela da APE; Prémio Jean Monet de Literatura Europeia; Prémio Charles Bisset; Prémio Albatros, da Fundação Günter Grass.
Em 2013 foi classificada pela prestigiada revista francesa Le Magazine Littéraire como uma das “10 grandes vozes da literatura estrangeira” e no final de 2014 foi agraciada com o Prémio Luso-Espanhol de Arte e Cultura.

Em nome do Pecado! (Setenta anos depois da libertação de Auschwitz) | Maria Isabel Fidalgo

 

 

É preciso recordar o medo
E trazê-lo à luz da hipocrisia
É preciso recordar o Holocausto
Com olhos viúvos de alegria.

É preciso chamar a humanidade
Ao espelho da sua cobardia
E recordar os corpos desnudados
Magros de sonho e fantasia.

É preciso recordar os rostos
De quem não pediu para nascer
E chorar com lágrimas de sangue
As crianças que não chegaram a crescer.

É preciso lavar o ódio até varrer
A poeira torturada de amargura
Dos que lixo foram antes de o ser
Na cova da anónima sepultura

maria isabel fidalgo

Citando Mia Couto

 

“Encheram a terra de fronteiras, carregaram o céu de bandeiras, mas só há duas nações – a dos vivos e dos mortos.”

– Mia Couto

O LIVRO DOS CANSAÇOS | Licínia Quitério | Apresentação dia 28-02-2015

 

 

Tacteia este grão, este sal, esta flor marítima.

Nasceu noite fora na soleira da minha porta, à beira-mar, sempre à beira do mar.

Leva-me amarrada à tua nau de vento, a flor de sal no meu cabelo.

Os retratos dos afogados empalidecem, diluem-se, e tu não saberás que forma tinham quando vivos, quando estátuas, quando gritos de correntes.

Há sangue novo nos pássaros, ouves, é deles o sopro de subida, no bico trazem uma palavra, sempre a mesma, do nascimento das uvas à partida dos cravos.

Hão-de soltá-la no centro da tempestade, e tudo será água, tritão, sereia, e um homem só, sentado na praia, cantando.

 

Licínia Quitério, em “O LIVRO DOS CANSAÇOS”,  a ser apresentado em 28 de Fevereiro próximo

O Silêncio | Domingos da Mota

 

 

as intempéries talharam este rosto.
de chama. calcinada.
o seu silêncio é um latido do tempo.

António Ramos Rosa

 

Percorro as artérias do vazio, as veias
do silêncio laceradas: desvendo cicatrizes
calcinadas na lenta combustão

do fogo-frio. Despojos de fulgor?,
do desvario?, as rugas, as raízes magoadas
que suam, que resistem, secas, magras,

nas águas apagadas, em pousio. Rechina
o queimor da cal silente: esfarela, esfola
a terra, coalescente escorre sobre o corpo,

o corpo todo. Exausta, fatigada a terra
estua, e morde e bebe a sede e acesa
e crua conjuga o silêncio até ao osso.

Domingos da Mota

Pão & Vinho – mil e uma histórias de comer e beber | Paulo Moreiras

 

 

O livro «Pão & Vinho – mil e uma histórias de comer e beber», de Paulo Moreiras, editado em 2014 pela Dom Quixote, foi contemplado com o prémio Gourmand “Best Drink Writing”, na categoria “Livros sobre Vinhos e Bebidas”, atribuído por um júri internacional do concurso Gourmand World Cookbook Awards 2015.

Paulo Moreiras já havia sido distinguido em 2007, pelo seu livro «Elogio da Ginja», com dois prémios: “Best Single Subject Cookbook” e “Best Cookbook Photography”. Em 2010, o seu romance «Os Dias de Saturno» também foi distinguido com um prémio Gourmand na categoria “Best Culinary History Book”.

Os prémios Gourmand, considerados os óscares da literatura gastronómica, distinguem os melhores livros editados em 2014 na temática de vinhos e gastronomia, a nível nacional e internacional.

Com este prémio, o livro «Pão & Vinho – mil e uma histórias de comer e beber» passa à fase seguinte do concurso, onde irá competir a nível internacional com os vencedores nestas categorias para o prémio The Best in the World. Os resultados serão anunciados em Junho, numa cerimónia a realizar em Yantai, China.

EUNICE MUÑOZ | Soledade Martinho Costa

 

 

Actriz

É habitar um palco.

 

Ser Fédora

Ou Zerlina

A Castro

A Mãe Coragem.

 

Aquela

Que por dom das musas

Ou de Talma

Consegue ser da Arte

A própria imagem

Ou a Arte

Ela própria

Em corpo e alma.

 

Soledade Martinho Costa

Do livro a publicar «O Nome dos Poemas»

Poema | Gisela Gracias Ramos Rosa

 

 

Caímos como tordos sobre a areia
sem saber sem sabor sem tempo
para integrar a via luminosa do mundo.
Presente e futuro, a íntima anterioridade.
Oh! Quantas lembranças por cumprir num só tempo
do corpo, num só corpo de tempo
enquanto a esperança passa nua na rua que se estreita
na dissonante e ruidosa corrente de falas, impasses,
e maldade proclamada.
Trazei-me a límpida manhã, os pássaros, a cotovia
trazei-me o poeta que incansável traça a palavra
com a vénia do dia

Gisela Gracias Ramos Rosa

Poema | Maria Isabel Fidalgo

 

 

que madrugadas traz a tua voz
no trinco do frio invernoso
que em a ouvindo a cotovia
logo se solta em voo aparatoso?

que faluas trazem os teus braços
minha flor de colmeia desgrenhada
que em as provando a andorinha
logo esvoaça toda estouvada?

que luas trazes cintilantes
no ardor desse riso estival
que em as vendo a borboleta
logo ascende ao céu em espiral?

que frutos que maçãs que malvas
adornam as vertentes do teu rosto
que em lhes sentido o odor
logo a abelha tece o mosto?

não sei não amor
nem digas nada
que o verão da tua boca
guardo-o eu no frio acordada.

Maria Isabel Fidalgo

SER-SE POETA | Rui Sobral

 

 

Ser poeta é estar morto
É termos tudo e termos nada
E com nada termos tudo na mão
É nosso íntimo não ser paixão.

É um não ser mais que ser
É não ter um folgado viver
Temos compressa uma ansiedade
É mentir melhor que falar verdade.

É um não ser mais que ser
Este meu tão estranho jeito de viver
Tendo tudo tenho também nada
E com nada tenho tudo, na mão!

Tenho em mim compressa uma ansiedade
Que me faz mentir melhor que falar verdade
E se quanto me custa soubessem, aii, nem
Que não quisessem, choravam!

em “a nu” de Rui Sobral

UM CONTO DE NATAL | Licínia Quitério

 

 

Ela sempre começava assim:

“Pensava que fosses tu e foi por isso que não reagi logo. A mala a fugir-me do ombro, eu a voltar-me e não eras tu”.
Ele sempre replicava:
“Porque é que havia de ser eu?”
E enfastiado:
“E se fosse por que raio ia puxar-te a mala?”
Nesse ponto da conversa, ela continuava e ele ouvia, ou não ouvia, que era mais habitual abrir o jornal, por os óculos e limitar-se a pontuar o monólogo com ”hum hum”, “ham ham”, mais espaçados à medida que a fala avançava. Ela parecia não se importar, sentava-se, cruzava as pernas e entusiasmava-se a contar pela milésima vez o que lhe acontecera naquele ano, uns dias antes do Natal. Nessa altura, já não era ele que ali estava, molengão, desinteressado, a puxar por cigarro após cigarro. O outro olhava-a atentamente, seguia-lhe os gestos, bem expressiva a achava e ainda atraente, as rugas aos cantos dos olhos a darem-lhe um encanto de fruta madura. A expressão do outro, o interesse do outro, a graça com que o outro ajeitava a melena, inspiravam-lhe o conto que o Natal lhe trouxera, há uns anos, ao ser surpreendida pelo meliante que lhe sacou a mala e a deixou de mãos vazias, assustada, a gritar, sim, a gritar, a plenos pulmões, que o agarrassem, que era ladrão, que era ladrão, sem que ninguém se aproximasse. Nem imaginavam como se sentira só e desamparada, sem nada na mão, uma mulher sem uma mala na mão é como se estivesse despida. Aí ele costumava dizer “pois”, e virava a página do jornal. O outro tinha um sorriso maroto, ela fazia de conta que não notava e continuava. Quando conseguiu chegar à esquadra, muito afogueada, a contar em catadupa de palavras o que lhe acontecera, vítima de um assalto, ali, senhor guarda, agora mesmo, ninguém acudiu, ali, ao pé do jardim, senhor guarda…
Ele interrompia-a, com enfado:
“Sim, já contaste, o guarda disse para te calares e te sentares e só depois de acalmares começou a tomar nota da ocorrência, não foi?”
Voltava ao jornal, agora de página dobrada ao meio, a apagar o cigarro. Ela sentia um friozinho no estômago, pensava em calar-se, levantar-se, sair, mas logo o outro a perguntar, já mais perto dela:
“E então, como foi?”
Era por isso que arranjava coragem para acabar o seu conto de Natal, a dizer que a mala tinha aparecido, sem dinheiro, claro, mas com os documentos todos, o que já não fora tão mau. Era por isso que não chorava quando ele resmungava:
“Agora só para o ano é que voltas a contar essa treta, OK?”
O outro lá estava, a dizer:
“Tens de me contar tudo outra vez. Com mais pormenores”.
E ajeitava a melena.
O jornal continuava.
Ela não saía.

LICÍNIA QUITÉRIO, inédito

Confissões | Vera de Vilhena

 

 

Acordo com o pulsar da raça humana. Saem nas embarcações metálicas, e navegam-me nas artérias, que estremecem à sua passagem. Deixam-se transportar, velozes ou sonolentos, por músculos e tecidos, até ao meu coração. Sou ser vivo, animado pelo despertar dos que por mim escorregam, impacientes. Arrumam-se e encolhem-se, tornando-me em árvore gigantesca que alberga, nas suas ramagens, os frutos por amadurecer.

O dia enlourece, a corrente sanguínea acelera. Cada gota encontra o seu lugar, conquistado como um difícil jogo de cadeiras. Vasculham-me o corpo, esmiuçando-me encruzilhadas e recantos, em movimentos vulgarizados e domesticados de velhos amantes. Mudam-me os contornos, em intervenções cirúrgicas que me desfiguram, humanizando-me, ao ponto de ser a minha presença imponente, irrespirável, ingovernável. Assim me consideram verdadeira, digna da minha condição: quando o esboço do meu corpo se traduz numa teia multiplicada de vias, que levam qualquer um a qualquer lugar.

Em mim cultivam as artes e as árvores, para que também eu respire, num jogo de dá-e-tira típico das metrópoles.

O sol amorna-se: eles preguiçam ou apressam os gestos, desperdiçando o entardecer. Forjam-se documentos; erguem-se pontes e edifícios; trocam-se produtos e capitais; enterram-se gotas exangues; trazem-se, à luz dourada, novas gotas de sangue fresco e promissor.

Também eu me espreguiço, exausta de me sentir espezinhada e apalpada, ensaiando a retirada sem causar danos: assim me despeço de muitos, mandando-os para casa nas minhas veias de alcatrão, enquanto fico na companhia dos que agora chegam, de olhos nocturnos, desencontrados com a luz.

Acendem-me néons, cores brilhantes e nervosas, que me deixam dormente e insone. Não é, porém, uma sensação que me desagrade. Aproveito para espreitar a vida dentro das casas, onde eles fingem repousar.

Em horas de vigília vêm cobrir-me, por vezes, com um manto de neblina. Ali fico, quieta, olhando os cambiantes do céu, que se vai vestindo de azul.

Ninguém me pergunta se quero aqui ficar.

Por minha vontade fugiria para o campo, mas dizem que, se tal sucedesse, seria como ciclone que tudo devora no caminho: a paisagem desmoronar-se-ia, pois também uma tela verdejante se pode demolir num segundo. É pena. Gostaria, ao menos, de lhe fazer uma visita, se estas raízes invasoras não deixassem sulcos tão profundos no solo, e na memória dos que me alimentam.

A Terra, essa, sacode-me por vezes as costas, como que a queixar-se do excesso de bagagem. Tento explicar-lhe que não sou eu, são os homens que brincam aos castelos de areia em cima de mim.

(Vera de Vilhena, revista Egoísta, 2006, tema «Cidade II»)

No dorso do leito | Maria Isabel Fidalgo

 

 

Numa qualquer concha em qualquer lado
te direi mais que um amor qualquer
que de astros de ouro e sol cavado
se faz de água um corpo de mulher.
Te direi da luz despenteada
no alto do pulso incandescido
e da voraz seda amarrotada
na orla atrevida do vestido.
Tudo te direi até ao dorso
das palavras ditas de improviso
no leito ofegante de quentura
mas tranca a porta amor
fecha os postigos
que o lume que arde nos lençóis
é de dois a sós e seus gemidos.

maria isabel fidalgo

UM ESBOÇO | Rui Sobral

 

 

A tosse tem-lhe assombrado as ternurentas noites em claro. Ela, com afagos, acalma-lhe o peito, o peito frágil do meu pai, do meu tudo, do tudo dela.
Sinto que os dias lhes têm alimentado a ideia de partir para um mundo novo, para a fronteira do adeus e sim – isso faz-me chorar. Ultimamente tenho-me lembrado dos momentos em que ele me segurava na mão, em que ele sorria, aliás, em que ele se ria como um doido. Agora sei que era só para me fazer feliz, para que eu sentisse que teria sempre um chão. O meu pai foi sempre assim – preocupado. Ainda hoje ele me dizia, pela manhã, que estava tudo bem; que iamos todos morrer ao mesmo tempo e só quando todos estivessemos cansados de cá andar. A isso juntava o esboço de um sorriso alegre, aconchegante, porém mentiroso. Eu sei que o meu pai está a morrer. Sei eu e sabe ela. Ela não me diz. Não me mostra. Mas eu sei. Ela bebeu o vinho do meu pai. Faz por me proteger, tenha eu a idade que tiver.
Eu sei que ela tem passado os dias cansada, com a herança das olheiras ainda mais evidenciadas. Com o olhar mais profundo e com os olhos ainda mais fugidios. Ela não dorme há alguns dias. Ela cai no sono de cansaço quando se senta no sofá pisado ou na poltrona grande da sala. Ela costuma dizer, num encolher de ombros simpático, que o meu pai lhe pintou o cabelo de branco. Trabalhos.
Ela foi sempre a mulher mais bonita que conheci. Foi assim que reconheci a beleza em novo. Através do coração do meu pai. O meu pai sempre a amou, de forma mais ou menos “normal”.
Eu sempre quis uma M. para mim.
Não me posso queixar.

Rui Sobral

RAIMUNDO | CONTO III | COLECTIVO NAU | João Rebocho Pais

Dizem que Raimundo conhecia muito mundo e isso era verdade incontestada, mistério partilhado, coisa de todos e de cada um. Reza ainda que, embora difícil seja de acreditar que alguma raiz houvesse criado, que era de Cuba a pessoa.

No estabelecimento do senhor Armando e dona Lurdes, sua dedicada parceira de casa, cama e negócio, se havia personagem a merecer mesa reservada e fotografia na parede, pois Raimundo era uma delas, senão talvez a única. Ali entravam e saíam engenheiros, doutores, mecânicos,  intelectuais e outros tantos, ocupados, desocupados e indecisos, fazendo da Flor de Águeda uma plataforma giratória de vida e seus infinitos labirintos. Por ali se gastavam momentos preciosos, se despejavam jeropigas e moscatéis desde manhã bem cedo, por ali as agruras da sobrevivência e as euforias de certos dias escoavam em copos de três, em guisados e cozidos de pedir meças, em tardes de quietude também. E Raimundo, esse tal que meio mundo haveria de conhecer segundo a ciência dos passantes e não só, do proprietário do local também, esse Raimundo que é nosso um pouco e porque não?, que somos gente e por tal curiosos que chegue, pois Raimundo era portador de todas as cores, magias, sons, cheiros, sabedorias e outras coisas que tais, provindas do mundo onde ele se fazia mundo. Que o contasse e testemunhasse quem por sorte e artes ganhara um dia a possibilidade de com ele dividir uma taça de branco. Raimundo só bebia branco, servido a jarro. Contava que aprendera com os índios, quais não podia precisar em detalhe, mas jurava que em volta de certas fogueiras as danças dos bravos, as suas pinturas e oferendas divinas careciam do acompanhamento imprescindível de uma bebida secular. Que era branca, que sabia a vinho e que se tragava em malgas, única alteração a que se permitia por ali em virtude de um sentido prático que não ofendia seus anfitriões desnudos e imortais.

 

As manhãs na Flor de Águeda repetiam-se em certeira metodologia. Armando chegava com Lurdes antes ainda do sol aquecer fosse o que fosse, isto no Verão porque  no Inverno a coisa piava mais fino e mais fria, seguia para a praça a fim de barganhar legumes, peixes, carnes e o mais que necessitasse, enquanto no estabelecimento se preparavam fogões, se buscavam banhas e condimentos vários até que pelas oito e pouco chegasse a turma apressada dos copos bebidos a penalte, receita ímpar para vontades de trabalhar. Ali a meio da manhã, já com cheiro a café por companhia ao que saía da pipa, era certo e sabido que o mundo faria sua aparição, nos anos vividos por aquele homem, que não sendo velho não o era novo, que sendo de tantos lugares e viagens era dali mais do que qualquer outro lugar, fosse vasto continente, selva de emaranhados traços ou desertos de impossível calor. A meio da manhã chegava aquele de quem se dizia conhecer muito mundo. Nesse momento, antes de qualquer bebida ou atenção, o que o nosso homem, sim porque é nosso este Raimundo e que do mundo queremos saber como ele, o que ele fazia era sentar-se em sossego e pousar um saco, de onde tirava um livro. Todas as manhãs eram as palavras sua primeira bebida. E depois sim, na hora em que tanto tilintar de talher e arrastar de cadeira eram bulício que não se coadunava com aquele recolhimento, tratava de encomendar o prato do dia, e para ele prato do dia era tudo o que lhe entendesse apetecer, mais a mais porque sabiam Armando e Lurdes que com ele almoçaria Rosa Pontes, a senhora professora do quinto andar, austera figura que a poucos concedia sua intimidade oratória. Almoçaria a distinta e deliciar-se-ia, com batatas e legumes cozidos que lhe impunham o médico e a sensatez de uma dieta cuidada, deliciar-se-ia com a garantida viagem que aquele bom homem lhe garantia em quarenta e cinco minutos de refeição. Já com ele viajara de barco, dividindo o desespero de uma partida para a guerra no ultramar, enjoara no mar alto e no medo que lhe trazia essa empreitada que a tantos encurralara no corredor do triste fim, já se havia deleitado, não sem um pudor evidente, com os bustos de africanas desnudas que haviam preenchido as noites e as mãos de Raimundo, seu companheiro na Flor de Águeda, sua secreta certeza que haveria de lhe ter sido um bom aluno, assim o destino os tivesse encerrado na mesma sala de aula, como afinal lhe fazia por espaços tão inverossímeis como o mundo que conhecia em seus almoços. Em boa verdade a Professora era uma das privilegiadas ouvintes de tanto universo e criação divina mas não a única. Por vezes calhava a vez a um ou outro beberrão de plantão, que a Flor não sobrevivia de refogados apenas e os miolos das tardes e manhãs davam bulício nas visitas ao recanto das pipas de certos e martelados nectares, mas martelados finos, assim impunha a decência do gerente e proprietário.

Salino, um pobre coitado de fraco interesse, estofador de dúbia qualidade e valores ainda mais ténues, escutara ele também uma série de acontecimentos longínquos trazidos pelo Cubense, e não estranhem se não é Cubano que a Raimundo epitetamos, pois é do Alentejo que teremos de falar se nos quisermos reportar à origem do velho viajante,  não à ilha de Fidel, por mais que fosse de esperar que por lá houvesse também traço, rasto e historieta deste desembestado portador de avulsas memórias. Salino, a quem não bastava uma cabeça desprovida de capilares para o desmoralizar pois que os dias e as palavras lhe tropeçavam numa gaguez que lhe retirava a pouca fluidez que poderia ousar desejar num bate boca, era um dos ouvintes preferidos de Raimundo Meio Mundo, pois os trejeitos faciais, mescla de espanto e parvoíce genuina, eram combustível eficiente no desenrolar do relato. A ele presenteara com suas mais arrojadas jornadas, desde a quase cozedura em tacho de canibais, passando pelos lençóis de matrona italiana, que por pouco não lhe haviam valido objecto cortante pelo bucho adentro. Que era verdade, jurava e trejurava, pena que não tivesse trazido o sal do manjar em que era ele o servido no panelão, ou, no caso mais trágico porém feliz, o soutien que mantinha em mira geométrica o mais valente par de mamas naturais em que havia posto a vista em cima. A vista e não só, as mãos também, isto para acabar por ali que senão não haveria vinho que aplacasse o entusiamo, contava ao imbecilóide que aquiescia submisso enquanto coçava discreta e porcamente suas partes mais abaixo.

Houvesse cronista à disposição e certamente muito haveria que contar em torno das tertúlias realistico-fantasistas, umas mais que outras, envolvendo o genuino relato, trazido e empurrado para cima por uvas de boa cepa, cepa media ou de menor fulgor, encorajadas ainda por atónitos ouvintes que se agarravam às peripécias e suas curvas como criança em carrossel.

Entrou para a história certa manhã, em que o preparo do cozido prometido na ementa demorou mais que a conta, levando a que os habituais jarros de branco se contassem por meia dúzia e as lucubrações raimundísticas atingissem níveis nunca antes experimentados. Aos cenários de geografias longínquas e quase impossíveis, juntaram-se fúrias meteorológicas de índole demoníaca, já para não falar de fauna e flora que nunca se vira retratada em compêndios da especialidade. Em todos os lugares e momentos, pois aquilo de que tomávamos conhecimento, quer dizer, não nós directamente, mas através do interlocutor bafejado pela raridade e enormidade da coisa, Anselmo Cereja, do que tomávamos boa fé era da capacidade de Raimundo se tornar merecedor de todas as sortes do mundo, e assim se escapar a ventos e intempéries, a tiros de zagalote, a envenenamentos, trapaças, armadilhas, bandidos e outras maleitas a evitar, não raro sendo que algumas noites acabassem num chorrilho de investidas tesudas em beldades de raro aparecimento. Assim mesmo, dizia e Anselmo observava atento, assim mesmo, aos centos era a canalha e ele, sequer pestanejando, trás e zás pás e no fim … no fim mais uma cabazada de cama e ganhara a Alemanha. Era assim, era sempre assim. A leste de tão encaixada e simétrica aventura, apenas o desaforo da surdez do parceiro ouvinte, Anselmo era mouco, Raimundo desavisado e quem sabe não caíra borda fora uma das mais extraordinárias façanhas desenhadas pelo Cubense e desouvidas pelo conviva desprovido de ouvidos com utilidade que se visse.

Blasfémia, chegou a clamar-se.

Desperdício apenas, deram de barato outros.

Sabendo no entanto os presentes, quiçá também os ausentes, que a vida por ali seguiria continuando.

E outros, muitos outros claro está, cada um com sua táctica de aproximação e consentimento do Velho Sábio, uns à vista outros na pacatez de horas mais mortas, mas todos eles buscando conhecimento e sabor para as suas vidas, escutando acerca de tudo, e nesse tudo cabiam espiões, putas, lutas e coisas brutas, como também entravam noites de poesia, com maravilhosas descrições da dor e do sentir, dos fracos e dos fortes, pois que não havia lugar nem gente onde não coubesse um pouco de Raimundo, disso eram testemunha seus ouvintes, nem um só ousava franzir o sobrolho, perante ondas gigantes, bichos medonhos, dilúvios, guerras sem fim e o mar também.

Quem hoje passar ali à rua onde Armando e Lurdes um dia fizeram seu ganha pão, quem souber procurar nas folhas das árvores e nas pedras da calçada que tanta gente viram entrar ali, poderá aquilatar que em nada mentiu o nosso homem, nosso, repito, porque curiosos continuamos e dele queremos fazer parte.

Quem viajar no tempo, sem as grilhetas do mundo complicado dos homens, abarcará Raimundo, abraçará Raimundo, dele saberá fazer portador do mundo inteiro afinal.

E quem nada disto fizer, pois que emborque dois ou três jarros de branco, como os índios aqui observámos aconselhar, porque Raimundo não mente, que emborque isso e se muna de livros, que abra as páginas e se entregue, emborque e embarque, que faça como Raimundo, o nosso, o homem sem grilhetas nem fantasias, apenas uma certeza, a certeza mor, a mãe de todas as certezas, que meio mundo haverá, a outra metade até também, assim saibamos ser Cubenses na cidade, escolher a mesa e as horas, de quem por companhia queremos.

Dizem que Raimundo conhecia meio mundo.

Dizem que Raimundo lia.

E dizem bem.

João Rebocho Pais

ABRAÇA-ME ESTA NOITE | Carlos Bondoso

 

 

nesta ausência de luz
é tão belo ver o teu sorriso
e o brilho que brota dos teus olhos

procuro-te nas sombras dos ciprestes
para te ter junto de mim em sossego perfeito
e me calares a dor neste vasto silêncio

abraça-me esta noite
para tecer orquídeas e mantos de desejos
beber na madrugada o imenso silêncio
e ver-te na luz de um pálido espelho

é tão doce ver-te sorrir
é tão doce ver a beleza do teu extenso olhar
que me encanta a memória
e o suspiro da alma que me responde

Por CFBB

UM OLHAR SOBRE A PAISAGEM – AS FIGUEIRAS | Soledade Martinho Costa

 

 

As figueiras, despojadas de folhas, erguem, como braços apontados ao céu, os troncos esguios, num protesto. Ao verem as laranjeiras agasalhadas na copa redonda da rama verde-escura, sentem, com maior tristeza, a nudez cinzenta que lhes veste o corpo.
O Outono cobiça e rouba as suas folhas e o Inverno não lhes devolve o adorno com que se embelezam. Por isso, saudosas do bem que perderam, segredam entre si: «Que sorte a das laranjeiras. Sempre bem vestidas, sempre perfumadas, enfeitadas de frutos no Inverno!» E têm razão. Viajantes de mares longínquos desde a China, lá estão elas, as laranjas, entre a saia rodada das laranjeiras, a lembrar marés e caravelas no primeiro pé de laranja doce.
À sua volta, as outras árvores quase pararam por completo a dádiva cíclica dos frutos. Mas as laranjeiras, árvores de folha perene – como as nespereiras ou os limoeiros –, orgulham-se de oferecer nos ramos os gomos sumarentos durante a estação fria do Inverno. As figueiras, árvores de folha caduca – como os pessegueiros ou as cerejeiras – terão de esperar um pouco mais. Até à chegada da Primavera, altura em que começam a vestir de novo o aconchego dos seus vestidos verdes. Tão verdes, como, por vezes, a cor do mar que banha os países onde, roxos ou brancos, amadurecem os seus frutos.

Soledade Martinho Costa
Do livro «Histórias que o Inverno me Contou»
Ed. Publicações Europa-América