Direito e Justiça em terras d’El Rei na São Paulo colonial 1709-1822. Imprensa Oficial. São Paulo, 2015 | Adelto Gonçalves

Privilégios ancestrais [ http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2015/08/082-085_justicacolonial_234.pdf ]

Livro sobre a Justiça em São Paulo na época colonial descreve as raízes dos desmandos públicos no Brasil

Charge de Manuel de Araújo Porto-Alegre satirizava, no século XIX, as relações corruptas na Colônia

Reconstituir o funcionamento da Justiça no Brasil colonial é, ao mesmo tempo, mapear as estruturas de poder do período, reconhecer arraigados maus costumes e observar a formação de uma elite que se manteria dominante até as primeiras décadas do século XX. Esse recorte define o livro Direito e justiça em terras d’el rei na São Paulo colonial 1709-1822, de Adelto Gonçalves, lançado em julho pela Imprensa Oficial do Governo do Estado de São Paulo. Verificar e descrever as atribuições dos membros de uma rede de poder que ocupava cargos de ouvidores, juízes de fora, provedores, corregedores, juízes ordinários e vereadores foi um dos objetivos primordiais de Gonçalves, que procurou seguir uma tendência recente na historiografia brasileira, “que procura privilegiar as pesquisas sobre as formas de governar”.

O autor, no entanto, não é da área de história e adquiriu familiaridade com o período que estudou pela porta da literatura. Jornalista aposentado, Gonçalves é doutor em Letras – Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e até 2014 lecionou língua portuguesa no curso de direito da Universidade Paulista (Unip), em Santos, que financiou sua pesquisa sobre a Justiça colonial em São Paulo. Seu interesse pelo assunto foi despertado por suas pesquisas de doutorado sobre o poeta e inconfidente Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810) e pós-doutorado sobre o poeta português Manuel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805), esta realizada com apoio da FAPESP. Gonzaga foi ouvidor em Vila Rica e o pai de Bocage fez carreira no Judiciário em Portugal até ser acusado de desvios e cair em desgraça política. As suas pesquisas no Arquivo Histórico Ultramarino e no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa – complementadas no acervo do Arquivo do Estado de São Paulo –, permitiram estabelecer as atribuições dos altos funcionários do estado, começando pela relação completa dos governadores e capitães-generais (cargos concomitantes) no período estudado, corrigindo erros de listas anteriores.

“Fui levantando a nobreza da terra, as pessoas que mandavam e recorriam à Justiça para conseguir privilégios, como cargos e títulos”, diz o pesquisador. Eram os chamados “homens bons”, “que usufruíam tanto quanto podiam de suas relações com os representantes do poder”. Dessa casta saíam os camaristas ou vereadores – membros das câmaras municipais –, que, até fins do século XVII, acumulavam funções administrativas com o exercício da Justiça ordinária. Em geral, as vilas, tanto de Portugal quanto das colônias, mantinham apenas um juiz ordinário e um juiz de órfãos. No Brasil os casos criminais ficavam a cargo dos primeiros, que se baseavam, para julgá-los, apenas nos usos e costumes. Muitas vezes as câmaras nem sequer tinham sede apropriada. “Os julgamentos eram feitos embaixo de árvores por autoridades que não tinham formação em direito nem a quem recorrer, porque raramente havia nas colônias alguém formado em leis”, diz Gonçalves. Essas autoridades eram chamadas de “juízes pedâneos” porque julgavam de pé.

Já havia nessa época a figura do ouvidor-geral, criada por um regimento de 1628 que revogava a atribuição concedida aos titulares das capitanias hereditárias (capitães donatários) a fazer justiça nas terras de seu domínio. O envio regular de ouvidores e juízes de fora por Portugal, no entanto, só se deu no século XVIII. “Eram, pela primeira vez, especialistas em direito vindos da Universidade de Coimbra e tinham a missão de disciplinar e uniformizar a execução da Justiça”, diz Gonçalves. Como medida moralizante, os ouvidores não podiam se casar com mulheres residentes no Brasil sem autorização da Coroa, para não se envolver com as famílias poderosas e seus interesses econômicos. “Mas acabavam se envolvendo mesmo assim”, diz o pesquisador. “E, com o tempo, as famílias abastadas começaram a mandar seus filhos estudar em Coimbra e voltar aptos a ocuparem o cargo de juiz de fora.”

Na prática, apenas os pobres eram condenados pela Justiça colonial. Segundo um regimento de 1669, o ouvidor tinha autoridade para executar a pena de morte, sem apelação, para os crimes cometidos por escravos e índios. Mas, se um juiz ou ouvidor pretendesse punir um grande proprietário de terra, estava correndo risco. “Os que tinham prestígio ou haviam prestado favores à Coroa eram intocáveis.”

O ouvidor não podia ser preso ou suspenso por nenhuma autoridade local, nem mesmo o capitão-general. Suas decisões não se baseavam propriamente em leis formalizadas. Somente com o Regimento dos ouvidores-gerais do Rio de Janeiro, de 1669, e o Regimento dos ouvidores de São Paulo, de 1770, surgiram referências explícitas para aplicação geral de princípios. Foi também com esses decretos que o ouvidor-geral passou a ter o cargo civil mais alto das possessões portuguesas de ultramar. As apelações tinham duas instâncias, o Tribunal de Relação da Bahia e a Casa da Suplicação, em Lisboa, mas raramente os processos passavam da instância primária.

Os ouvidores tinham enorme poder econômico em mãos, uma vez que cabia a eles a fiscalização do recolhimento de tributos e outras fontes de receita. Desde o século anterior, a maior parte dos ingressos financeiros de Portugal vinha das colônias ou das alfândegas. Também cabia ao ouvidor fiscalizar os gastos e a atuação de vereadores e juízes ordinários – embora não pudesse se imiscuir nas funções da Câmara, que, a essa altura, tinha suas atribuições autônomas reduzidas à execução de pequenas obras. O poder das Câmaras, ocupado por filhos e netos das primeiras elites, manteve-se de modo mais ou menos simbólico. “Eram ocupados por aqueles potentados que viriam décadas depois a ser chamados de ‘coronéis’”, diz Gonçalves.

O poder nas mãos dos prepostos da Coroa era tal que, para obter e manter privilégios e recursos indevidos, jogavam com a possibilidade de estimular a secessão da Colônia. “Portugal era, a rigor, um país pobre nessa época”, diz Gonçalves. “Não tinha Exército ou outros meios para reprimir rebeliões pela força.” Foi assim que proliferaram as figuras dos “grossos devedores”, autoridades locais que desviavam tributos até que a Coroa, para recuperar essa “dívida”, entrava em acordo com vistas a um ressarcimento parcial. Segundo Gonçalves, “a questão fundamental residia na própria fragilidade do reino, que, para sobreviver, sempre permitia brechas para ações praticadas sob a proteção do próprio Estado”.

A própria narrativa histórica dominante até há poucas décadas traz sinais desse modelo – enquanto os posseiros ricos e, até certo ponto, aliados da Coroa foram identificados como desbravadores, os lavradores que ocupassem terras eram “invasores” ou “intrusos”. “Como mostram os documentos, os juízes quase sempre usaram o direito para interpretar cartas de doação, revogação de sesmarias, sucessões e desmembramentos de terras de acordo com os interesses dos poderosos locais”, diz o pesquisador.

© REPRODUÇÃO

Reprodução de documento relativo a processos de feitiçaria que estão sendo transcritos e estudados na USP

Reprodução de documento relativo a processos de feitiçaria que estão sendo transcritos e estudados na USP

Justiça Eclesiástica
Outro aspecto da Justiça em São Paulo no mesmo período histórico é tema de um projeto de pesquisa em andamento no Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Um grupo de pesquisadores coordenado pelo professor Marcelo Módolo está às voltas com documentos que registram processos relativos à suposta prática de feitiçaria. A pesquisa intitulada Bruxas paulistas: edição filológica de documentação sobre feitiçaria consiste no estudo e na transcrição dos 12 processos desse tipo abertos entre 1739 e 1771 pela Justiça eclesiástica, braço do Tribunal do Santo Ofício (Inquisição) no Brasil, depositados no Arquivo da Cúria Metropolitana de São Paulo.

A Justiça eclesiástica corria paralelamente à Justiça comum, que, no entanto, acatava as decisões da primeira, uma vez que o Estado assumia para si a fé católica. Promotores e juízes eclesiásticos eram membros da Igreja que avaliavam denúncias, procediam às investigações e proferiam a sentença. A execução cabia à Justiça comum. “Eram procedimentos parecidos com o atual inquérito policial”,  explica a doutoranda em Letras Nathalia Reis Fernandes, graduada em Letras e Direito, integrante do grupo de pesquisa. Entre as penas possíveis estavam a morte e a perda de bens – nesses casos, o processo era enviado para a sede do Tribunal do Santo Ofício em Portugal. Foi o que aconteceu com dois dos casos estudados, mas não é possível, pela documentação acessível no Brasil, saber se eles resultaram em execuções.

Os réus eram quase sempre negros e muitas das acusações estavam ligadas a práticas das religiões de origem africana. Há desde processos supostamente relacionados a mortes, como a da escrava Páscoa, acusada de “uso de magia” para causar pelo menos quatro mortes numa mesma família, até casos banais, como o do escravo Pascoal José de Moura (um dos poucos réus identificados por nome e sobrenome nos documentos), processado por confeccionar patuás. “Há também o caso de um grupo de homens negros que foram presos por participar de um batuque em que havia uma cabra e um casco de cágado”, conta Módolo.

O estudo coordenado por Módolo está na fase do estudo filológico e linguístico, começando pela transcrição “semidiplomática” dos documentos – aquela que procura manter a ortografia e a sintaxe originais. O trabalho é dificultado por lacunas causadas pela deterioração do material, caligrafia particularmente complicada e ortografia desafiadora numa época em que as pessoas letradas eram minoria e não havia padronização rígida da língua escrita. Uma segunda fase deverá se debruçar sobre os reflexos historiográficos dos processos relatados nos documentos. n

Leia resenha “Ações do Santo Ofício no Brasil”.

Livro
GONÇALVES, Adelto. Direito e Justiça em terras d’El Rei na São Paulo colonial 1709-1822. Imprensa Oficial. São Paulo, 2015

Alexandre O´Neill: uma biografia inovadora | Adelto Gonçalves

                                                           I

 

Ainda que não seja regra, uma biografia costuma começar pelo nascimento do biografado ou, melhor ainda, por seus ancestrais, mas nada impede que comece pelo dia de sua morte. Pois é assim que tem início Alexandre O’Neill –  Uma Biografia Literária (Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2007), de Maria Antónia Oliveira, o que mostra quão inovadora é esta biografia de um poeta que está entre os maiores da segunda metade do século XX em Portugal.

Como ainda era muito jovem quando o poeta morreu, a biógrafa, provavelmente, nunca esteve próxima de seu biografado. Mas pôde reconstruir sua trajetória, praticamente, sem lacunas, ao dar a palavra aos amigos do poeta, acompanhando os seus passos por Lisboa. Recuperou assim a sua paixão pelo Surrealismo, de que foi um dos maiores divulgadores em Portugal, seus amores, suas facetas de publicitário e colecionador e a história de “Um Adeus Português”, o seu poema mais famoso, do qual transcrevemos abaixo apenas as duas primeiras estrofes e a última para deixar o leitor que o não conhece com água na boca:

 

Nos teus olhos altamente perigosos

vigora ainda o mais rigoroso amor

a luz de ombros puros e a sombra

de uma angústia já purificada

 

Não tu não podias ficar presa comigo

à roda em que apodreço

apodrecemos

a esta pata ensanguentada que vacila

quase medita

e avança mugindo pelo túnel

de uma velha dor (…)

 

            (…) Nesta curva tão terna e lancinante

que vai ser que já é o teu desaparecimento

digo-te adeus

e como um adolescente

tropeço de ternura

por ti.

 

Graças ao trabalho de investigação da biógrafa, fica-se sabendo que o poema surgiu em homenagem a uma antiga namorada, à época em que o poeta tinha 26 anos de idade, Nora Mitrani, uma francesa que não era bem vista por sua família, a ponto de esta ter se movimentado para que a polícia salazarista lhe negasse passaporte para ir ao encontro dela em França. Alexandre seria chamado à Pide, a polícia política do regime direitista de António Salazar, para um interrogatório que teria durado quase quinze horas, conforme recordou o próprio poeta em crônica escrita em 1984. Nora, que para a Pide seria uma perigosa agitadora esquerdista, nunca mais veria Alexandre: viveria mais onze anos, até suicidar-se ao saber que tinha câncer. Foi desse amor contrariado que nasceu o famoso poema, que a homenageada chegou a ler comovida, como confessou em carta que enviou ao poeta.

II

Maria Antónia recupera ainda os entusiasmos literários do jovem O´Neill. Com isso, sabe-se de sua descoberta, “um fervor que nunca abandonou”, da poesia brasileira, especialmente de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Guilherme de Almeida, Cecília Meireles, Mário de Andrade, Jorge de Lima e Ribeiro Couto, ainda na década de 1940. Reconstitui quase passo a passo a trajetória de vida do poeta, detendo-se naqueles mais significativos, como o conhecimento que, durante o inverno de 1956, travou com Maria Noémia de Freitas Delgado, uma rapariga que viera de Moçambique para estudar Belas-Artes em Lisboa, com quem ele se casaria.

Para reconstituir a vida do poeta, a biógrafa lembra que recolheu cerca de 50 depoimentos de pessoas que o conheceram, além de vasculhar papéis no Arquivo Nacional da Torre do Tomo, na Biblioteca Nacional de Lisboa e outros. E confessa as dúvidas que passou diante de tanta informação levantada, a ponto de admitir que, perante a dificuldade para estabelecer uma verdade impossível, escreveu uma “curiosa mistura de narrativa ficcional e de realidade”.

Seja como for, o resultado é uma biografia que encanta o leitor desde as primeiras linhas, ao permitir também que aquele que a lê conheça ou reconheça a Lisboa daqueles anos, ressuscitando às vezes lugares já perdidos no tempo que foram locais de convivência de O´Neill com os amigos, na maioria intelectuais. E ainda o amor que viveu com Teresa Gouveia, com quem se casaria em 1971, em meio à oposição da família da moça.

Tinha ele 45 anos de idade e ela, 25. Sem contar que o poeta carregava fama de ser “um desbragado estúrdio, devasso, estróina e perdulário”. E a família da rapariga era tradicional em meio a uma sociedade fechada e conservadora como a portuguesa do começo dos anos 70. Teresa viveria com Alexandre até o fim de sua vida. Esposa de um poeta, não deixaria de cumprir, porém, uma carreira importante na estrutura da burocracia portuguesa pós-queda do salazarismo. Em 16 de abril de 1986, quando o poeta sofreu o segundo acidente vascular cerebral que o derrubaria para sempre, ela atuava como secretária de Estado da Cultura no governo do professor Aníbal Cavaco Silva.

 

III

 

Alexandre O´Neill nasceu em 1924, em Lisboa. Participou da criação do Grupo Surrealista de Lisboa em 1947. Editou o seu primeiro livro de poesia, No Reino da Dinamarca, em 1958, do qual consta o seu poema mais célebre, “Um Adeus Português”. Escreveu também letras para fados e traduziu e organizou antologias. Assinou colunas em jornais lisboetas e colaborou em revistas literárias. Escreveu para teatro, cinema e televisão, mas viveu basicamente de seu trabalho como copy em publicidade. Morreu a 21 de agosto de 1986, em Lisboa.

Maria Antónia Oliveira (1964), nascida em Viseu, é licenciada em Línguas e Literaturas Modernas (Estudos Portugueses e Franceses), pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (1982-1986), e mestre em Estudos Literários Comparados pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (1994), com a tese “O Grande Hotel Universal – A Poesia de Mário de Sá-Carneiro”.

Concluiu o doutoramento, em 2010, em Estudos Portugueses, na Universidade Nova de Lisboa, com a tese “Os Biógrafos de Camilo”. Foi professora de Literatura Portuguesa entre os anos de 1994 e 2005, no Instituto Piaget; colaboradora do suplemento Leituras do jornal Público, de Lisboa, da revista de poesia Relâmpago (Fundação Luís Miguel Nava) e da Revista LX Metrópole; formadora de e-Learning no âmbito do programa Projeto e-Inovar da Escola Superior de Educação de Coimbra; e fez trabalho de investigação para a revista Colóquio/Letras, da Fundação Calouste Gulbenkian.

É responsável com Fernando Cabral Martins pela edição de Anos 70 – Poemas Dispersos, de Alexandre O’Neill (Lisboa, Assírio & Alvim, 2005); edição e posfácio de Uma Coisa em Forma de Assim, de Alexandre O’Neill (Lisboa, Assírio & Alvim, 2004); edição e prefácio da obra Céu em Fogo, de Mário de Sá-Carneiro (Lisboa, Relógio d’Água, 1998); e prefácio à reedição de No Reino da Dinamarca, de Alexandre O’Neill (Lisboa, Relógio d’Água, 1997). Ganhou ainda o Prêmio de Revelação de Ensaio APE/IPLL do ano de 1990, pelo trabalho A Tristeza Contentinha de Alexandre O’Neill, ensaio publicado no ano de 1992, pela Editorial Caminho, de Lisboa.

 

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Alexandre O´Neill – Uma Biografia Literária, de Maria Antónia Oliveira. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 346 págs., 9,90 euros, 2007. Site: www.domquixote.pt

E-mail:info@dquixote.pt

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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981; Taubaté, Letra Selvagem, 2015), Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012), e Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

Impossível não amá-la | Lídia Borges

 

 

por mais que se saiba graníticoo chão desta terra que nos tem

impossível não amá-la.

 

é nestas oliveiras, nestes penhascos

nestes campos abertos aos ventos

aos corvos aos fenos

que os pássaros

celebram a luz nascente da manhã.

 

por mais que se queira

um coração secretamente fechado

há sempre um fresta

por onde se adentra a poesia.

 

um “parlar materno”

não por ser língua-mãe, apenas

mas pelo dizer menino que nos

faz soar aos ouvidos a água

o trigo, o abraço, a flor, o trevo, o riso…

 

por mais que se saiba granítico

o chão desta terra que nos tem

impossível não amá-la

assim curvada ao peso

de noites e noites sem sonhos.

 

e a poesia como um xaile de luz

amorosamente

traçada sobre o seu peito de brumas.

 

impossível não amá-la.

 

Lídia Borges

VULTO DE UM PAÍS | Soledade Martinho Costa

Sou feito de seivas
De geadas e matos
De aves e manhãs
Pedras e regatos.

 

Sou fruto das flores
Safões dos pastores
Água dos cantis.

 

Sou lume ateado
Seara de espigas
Sou pão amassado
Lágrimas, cantigas.

 

Sou mel e orvalho
Sou sede e calor
Sou do milho o malho
Sou a hora do amor.

 

Sou o povo que reza
Sou o Sol a nascer
Sou enxada que pesa
Sou o trigo a crescer.

 

Sou o pisar da uva
Sou o corpo cansado
Sou o canto da chuva
Sou o estrume e o arado.

Sou barco parado
Sobre ondas de pranto
Sou o sangue que corre
Nas veias do vento.

 

Sou feito de estrelas
De sal e marés
De limos e algas
Tormenta e convés.

 

Sou sopro de brisa
Saudade, cadência
Vulto de um País.

 

Soledade Martinho Costa

Do livro “Reduto”

Albano Martins: a poesia como viagem | Adelto Gonçalves

I

Tudo, afinal, é viagem, inclusive a nossa vida, Se assim é, tudo o que o nosso olhar vê faz parte de nossa viagem por este mundo. Por isso, viajar, conhecendo outros lugares e mundos, sempre vale a pena, especialmente se a paisagem é vista por quem tem alma de poeta e consegue traduzir o sentimento que produz o que se vê. É o que se pode constatar na última obra vinda à luz do poeta português Albano Martins (1930), Livro de Viagens, publicada por Edições Afrontamento, do Porto, em março de 2015.
Como sempre, os poemas de Albano Martins são instantâneos do olhar, pequenos flagrantes da natureza, às vezes concisos hai kais, que revelam a sua maturidade poética bem como sua fidelidade a um tipo de poesia na Língua Portuguesa que busca explicações para a vida, mesmo sabendo que essa é uma missão impossível. O apuramento verbal de Albano Martins é tão refinado nesta altura de sua trajetória poética que, com certeza, é ele hoje o grande poeta português contemporâneo deste começo de século XXI, digno sucessor de Fernando Pessoa (1888-1935), a figura central da poesia portuguesa do século XX.

II

Dividido em cinco capítulos, este livro traz produções recentes, suscitadas por viagens a cidades encantadas como Barcelona, Roma e Turim ou por lugares e marcos do Porto e ainda homenagens a amigos, companheiros de “viagem poética”. De Roma, há um em que reverencia a “Fontana di Trevi” e pergunta: Uma moeda/ por um desejo. Desde quando/ os sonhos são vendidos/ a preço de saldo? E este em que questiona o “Foro Romano” e faz uma viagem no tempo: Por aqui passou/ a lâmina do tempo. O que resta/ de pompílios e césares são estes/ pinheiros imperiais a cuja sombra/ o passado dorme/ desenterrado./ Vivo. De Turim, rememora a viagem pelo rio Pó: Por este rio/ navegam dois barcos, um/ feito das asas de Ícaro, o outro/ da sombra de Pavese./ O timoneiro/ de ambos é a morte, deitada/ na cama das águas.
No capítulo “Outras viagens”, estão poemas que reverenciam o seu cotidiano na cidade do Porto, como este em que se coloca diante da Torre dos Clérigos, vista de Gaia, do outro lado do rio Douro: Com este mastro/ de navio/ apontado ao céu, dir-se-ia/ que estão ali de joelhos,/ em oração,/ as casas todas e o rio. Quase ao final deste capítulo e do livro, o poeta, profundo conhecedor da poesia italiana e de outras tantas línguas, surpreende o leitor com um solitário soneto que diz ter sido imitado de “Cieli, glorie, suoni: anse scure del tempo”, de Giancarlo Pontiggia (1952), poeta, escritor e crítico literário italiano, mas que, se não o dissesse, quem seria capaz de sabê-lo?:
A gloria, a loucura, o tempo dedicado
aos devaneios, aos anseios, a tentação
do poder, do mando, a ocasião
propícia ao enlevo – tudo o que

perto de nós, ao nosso lado, configura
as novas catedrais, as novas sinfonias
do desejo e da posse, a turbulência
das vozes recolhidas nas dobras

do tecido que o outono vai urdindo
com fervor à nossa volta, à custa
do orvalho das manhãs e da espuma

das marés – tudo, acredita, amigo,
se esvai num lance apenas, no salto
duma lebre ou no voo da perdiz.

No capítulo “Viagem com os amigos e outras circunstâncias”, é de se destacar a homenagem que presta a Miguel de Unamuno (1864-1936): Em ti a Ibéria/ se fez pensamento/ – se fez cátedra./ À tua mesa/ tiveste sempre/ por companheira/ a poesia./ Aos abutres/ deixaste/ esta mensagem:/ a liberdade/ não se vende – não tem preço. Ou ainda ao pintor Armando Alves (1935): Encontrei ontem,/ nas tuas telas, Armando,/ algumas árvores. Os frutos/ eram as tintas, carregadas/ de perfume e sabor. Levei-as/ para casa e ofereci-as/ às paredes/ do meu quarto. Estão agora azuis/ e vermelhas como os campos/ do teu Alentejo.

III

Como observou o poeta Álvaro Alves de Faria na recensão que fez para Antologia Poética (São Paulo, Unimarco, 2000), publicada no jornal O Estado de S. Paulo, Caderno 2, em 8/7/2000, o que chama a atenção na poesia de Albano Martins é o que ela tem de íntimo em relação à vida e à própria poesia, “coisa sem mistérios e sem segredos para quem detém no olhar a paisagem nítida nem sempre observada pelos comuns”. Segundo ele, Albano Martins é capaz de, em poucas palavras, “construir pequenos retratos de palavras comoventes”. Para tanto, cita poemas como “Circuito”, do livro Coração de Bússola, de 1967: Eis a nossa vida de enterro/ a nossa vida de operários fúnebres/ conduzindo a morte como um veículo/ através de labirintos de gestos/ precipícios de palavras.
De acordo com Álvaro Alves de Faria, a obra albaniana é também feita de constatações poéticas que soam como pensamentos ou palavras ditas a um amigo, caso, por exemplo, deste pequeno poema de Com as Flores do Salgueiro, de 1995: Quando o verão/ morre, as amoras/ se vestem de luto”. Como nada melhor que um fino poeta para dizer da poesia de outro, se há algo a acrescentar às palavras de Álvaro Alves de Faria, assumido poeta luso-brasileiro, o que se pode dizer é que, em Livro de Viagens, Albano Martins continua igualmente a encantar seus leitores com pequenas obras-primas, que luzem por sua rara condensação e beleza poética.

IV

Nascido na aldeia do Telhado, concelho do Fundão, distrito de Castelo Branco, na província da Beira Baixa, em Portugal, Albano Martins foi professor do ensino secundário de 1956 a 1976 e é licenciado em Filologia Clássica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, exercendo desde 1994 funções docentes na Universidade Fernando Pessoa, do Porto. De 1980 a 1993, quando se aposentou, foi funcionário da Inspeção-Geral do Ensino. Foi um dos fundadores da revista Árvore e é colaborador assíduo das revistas Colóquio/Letras, da Fundação Calouste Gulbenkian, de Lisboa, e Nova Renascença, do Porto, da qual foi secretário de redação.
É autor de 33 livros de poesia, desde que em 1950 estreou com Secura Verde, que recebeu segunda edição em 2000. São tantos os livros que seus títulos ocupam quatro páginas. Basta ver que sua vasta obra foi três vezes reunida em volume, a primeira com o título Vocação do Silêncio (Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1990), com prefácio de Eduardo Lourenço; a segunda em Assim São as Algas (Porto, Campo das Letras, 2000); e a terceira em As Escarpas do Dia (Porto, Edições Afrontamento, 2010), com prefácio de Vitor Manuel de Aguiar e Silva. Seus poemas estão traduzidos em espanhol, inglês, chinês (cantonense) e japonês.
De prosa, foram cinco livros, dos quais se destacam aqueles dedicados ao estudo das obras de Raul Brandão (1867-1930) e Cesário Verde (1855-1886). Além de três livros na área da literatura infanto-juvenil, organizou sete outros, inclusive antologias de poetas como Eugénio de Castro (1869-1944), David Mourão-Ferreira (1927-1996) e o brasileiro Lêdo Ivo (1924-2012).
Nas traduções, está o seu trabalho mais intenso, com 24 livros publicados. É tradutor de poetas latinos, gregos do período clássico, espanhóis, italianos e sul-americanos. Entre eles, salientam-se Giacomo Leopardi (1798-1837), Rafael Alberti (1902-1999), Nicolas Guillén (1902-1989), Roberto Juarroz (1925-1995) e Pablo Neruda (1904-1973). A tradução de Canto General, de Neruda, valeu-lhe, em 1999, o Grande Prêmio de Tradução APT/Pen Clube Português. Por sua tradução de sete obras de Neruda, recebeu do governo chileno a medalha da Ordem de Mérito Docente e Cultural Gabriela Mistral, no grau de grande oficial.
Ainda pouco estudada em universidades (não são muitas as dissertações de mestrado ou teses de doutoramento que lhe têm sido dedicadas nos dois lados do Atlântico), sua obra, no entanto, tem merecido a atenção de alguns dos mais importantes críticos e ensaístas contemporâneos, como os portugueses António Cândido Franco, António Ramos Rosa (1924-2013), Eduardo Lourenço, Eduardo Prado Coelho (1944-2007), Fernando Guimarães, Fernando J. B. Martinho, Fernando Pinto do Amaral, Maria Lúcia Lepecki (1940-2011), Ramiro Teixeira e Vítor Manuel de Aguiar e Silva, e os brasileiros Leodegário A. de Azevedo Filho (1927-2011) e Nelly Novaes Coelho.
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Livro de Viagens, de Albano Martins. Porto: Edições Afrontamento, 72 págs., 20 euros, 2015. Site: www.edicoesafrontamento.pt
E-mail: comercial@edicoesafrontamento.pt
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981), Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003) e Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

O Olhar e a Alma – O romance de Modigliani

Como imaginar alguém que viveu uma vida tão intensa e tão curta, mas plena de criatividade e paixão? Como o conhecer com uma proximidade inaudita, uma presença quase táctil, segunda pele que se nos cola e alma que percecionamos como nossa? Estamos aqui muito para além do domínio dos cânones da biografia. Só num mundo ficcionado, onde todos os limites se fazem de palavras, tal tarefa pode ser alcançada. Como chegar ao íntimo de Amedeo Modigliani, Modi, que viveu o seu tempo fora de todas as modas? Sobre quem tão pouco se escreveu?

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Oração das Vésperas | Domingos da Mota

 

 

Fazei, Senhor, com que os velhos se esqueçam
da pancada, do rombo que levaram;
que a amnésia se agrave e permaneçam
em busca dos tostões que amealharam,
de que foram sacados, despojados
no altar de voláteis decisões,
em nome do mercado, dos mercados
e de outras mercantis resoluções
e, sobretudo agora, tomai conta,
não deixeis uma réstia de memória
a quem pouco recebe e mal desconta,
não vá trazer a lume a sua história
e pior, bem pior, mudar o voto
e deixá-lo perdido em saco roto.

Domingos da Mota

[inédito]

ABRAÇA-ME ESTA NOITE | Carlos Fernando Bondoso

 

 

nesta ausência de luz
é tão belo ver o teu sorriso
e o brilho que brota dos teus olhos

procuro-te nas sombras dos ciprestes
para te ter junto de mim em sossego perfeito
e me calares a dor neste vasto silêncio

abraça-me esta noite
para tecer orquídeas e mantos de desejos
beber na madrugada o imenso silêncio
e ver-te na luz de um pálido espelho

é tão doce ver-te sorrir
é tão doce ver a beleza do teu extenso olhar
que me encanta a memória
e o suspiro da alma que me responde

Por CFBB

EXCERTO | Do Livro «Uma Estátua no Meu Coração» | Soledade Martinho Costa

 

 

Não me lembro do ano em que voltei à casa da minha avó. Nem vou voltar nunca mais, embora a casa continue lá. Quando voltei, tinham passado muitos anos, tinham emudecido todas as vozes. O silêncio, tão grande! Ao contrário do espaço, muito mais pequeno, revisitado agora com os meus olhos adultos. Mas lembro-me de todos os recantos da casa, de muitos objectos, dos móveis: do armário, muito antigo, de madeira avermelhada e polida, alto, quase a tocar o tecto, com duas largas portas envidraçadas. Pertencia à minha tia Maria Eduarda. E eu a pedir, sempre que ia de visita a casa da avó Maria Estrela: –Tia Maria Eduarda, posso ir ao armário? E a minha tia, a sorrir, a dizer-me logo que sim, mas a avisar: – Olha que não tenho lá nada de jeito, filha! Mas tinha. Tinha sempre: um pedacinho de bolo, um frasquinho de mel, um naco de marmelada, doce de tomate, uns biscoitos. E eu, que não era gulosa, a saber-me tão bem comer um bocadinho de qualquer coisa que a tia guardasse. Havia outro louceiro (naquela altura chamado «aparador»), o da tia Bé, despido de qualquer gulodice. Menos antigo, mas também com diversos encantos para mim: um aquário que nunca viu sequer um peixe, colocado sobre a pedra mármore, com duas aves de asas abertas, pousadas no rebordo de vidro, e um arlequim de loiça vestido de preto e branco a tocar um harmónio. Na parte de cima, chávenas de chá muito ordenadas na sua fila, penduradas nos grampos, a estremecerem quando o soalho, ao peso dos passos ou das nossas correrias de criança, as fazia baloiçar, levemente, num pendular gracioso, ao som do tilintar dos copos – que não eram de cristal. Em baixo, as duas portas onde o meu tio Zé guardava alguns livros e revistas, principalmente as revistas do tempo da guerra, a mostrar ao nosso olhar da infância (sempre que, por descuido, as portas ficavam abertas) os horrores dessa época, imagens de homens, mulheres, crianças, soldados, aviões em chamas – aviões em chamas que, passados tantos anos, guardo ainda na memória dos meus olhos. E o cheiro da tinta dessas revistas. […] E as janelas, tantas janelas na casa! […] Noutras dependências, muitas, muitas outras coisas, de que me recordo. De que me vou recordar sempre. Porque será que a infância e o que a ela está ligado nunca se separam de nós? Quanto mais o tempo passa, mais se vive do passado. Isto é, quanto mais envelhecemos, mais nos aproximamos da infância, dessa infância que se agarra à nossa pele, aos nossos olhos, ao nosso coração. Muito mais os rostos e as vozes daqueles que já cá não estão, e nos amaram, nos fazem companhia, nos falam e nos escutam nas palavras que não dizemos.

Soledade Martinho Costa

Do livro «Uma Estátua no Meu Coração»

Daria Song na Porto Editora

Livros da artista sul-coreana Daria Song chegam a Portugal pela Porto Editora
A Porto Editora publica dois livros para colorir, O Jardim do Tempo e A Câmara do Tempo, da autoria da artista sul-coreana Daria Song. Bestsellers internacionais, estes títulos destacam-se não só pela qualidade dos seus desenhos, mas também pela história que contam.

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Grande Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes

Daniel Jonas, acaba de vencer por unanimidade o Grande Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes APE/Câmara Municipal de Amarante.  é um surpreendente livro de sonetos que marcou a estreia do autor no catálogo da editora. Este prémio tem o valor pecuniário de 12.500 € e a decisão de o atribuir a Daniel Jonas deveu-se ao «mérito muito assinalável do seu trabalho poético, que convoca a tradição lírica ocidental para uma recomposição textual lúcida e fortemente irónica, cosmopolita, atenta aos lugares e tempos de um presente recolhido e transfigurado».

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Prémio APE – Mário Cláudio

O escritor Mário Cláudio, com o romance Retrato de Rapaz, publicado em Maio de 2014 pela Dom Quixote, acaba de ser anunciado vencedor do Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE). Retrato de Rapaz é o segundo livro de uma trilogia que se iniciou com Boa Noite, Senhor Soares e que fechou com o sublime O Fotógrafo e a Rapariga.

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Maria Barroso‏ | Maria Isabel Fidalgo

 

 

não é súbito o amor nem a força
nem a construção de um poema
íntegro como uma canção de pedra.
nem o brilho das palavras calcinadas
de dura mágoa antes da rua onde
a alegria floriu em cravos.
não é súbita a saudade, maria
mas de barro fica e luminosa
para memória das graças
leves e pequeninas nos longos voos
onde o olhar se estende para se lavar
do resto que não cabe num verso.

O dia em que Estaline encontrou Picasso na biblioteca

Uma força narrativa imprime ao romance um ritmo vivo e empolgante, onde a realidade não pede licença para entrar e tomar conta da vida das pessoas. Já conhecíamos esta escrita em As Mulheres da Fonte Nova, o primeiro romance de Alice Brito. Aí, uma cidade mulher e madrasta era o centro da narrativa, assumindo o fardo que condição feminina arrasta consigo.

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Afonso Cruz vence Prémio Nacional de Ilustração

O escritor Afonso Cruz venceu por unanimidade o Prémio Nacional de Ilustração 2014, com o livro “Capital”, uma narrativa visual “aberta a públicos de todas as idades”, anunciou hoje o júri.

“Capital”, editado em 2014 pela Pato Lógico, conta a história, sem recurso a palavras, da transformação de um rapaz, que um dia recebe um mealheiro em forma de porco. O júri destaca a “singeleza formal” da obra e o cruzamento de ideias sobre “a amizade, o engodo, a cobiça, a ascensão social, a ecologia, a ambição, a traição, a escravatura, a ingenuidade”.

Suspeita | Lídia Borges

 

 


nesta manhã de brumas
em que penso
o canto das aves
suspeito que me farão falta

sim
é preciso pensar
o canto das aves
para poder amá-las enquanto
me existem

enquanto existem aves
nos ramos das acácias
e acácias com asas
nos ramos dos sentimentos
de uma manhã de brumas

nascida claramente
para acalentar aves
e lhes pensar o canto

FUGA | Soledade Martinho Costa

 

 

Talvez houvesse areia
E tu sorrisses
Talvez houvesse mar
Fosse uma praia
E um búzio sibilino
Anunciasse
Que te aguardavam ninfas e tritões.

Talvez houvesse vento
E tu partisses
Talvez houvesse lua
Fosse um espelho
E um hipocambo de oiro
Te levasse
Ao reino de Anfitrite e Neptuno.

Talvez houvesse esperança
E tu esperasses
Talvez houvesse ceptro
Fosse um trono
E Nereu te oferecesse um diadema
E com ele adornasse
Os teus cabelos.

Talvez houvesse paz
E tu dormisses
Talvez houvesse alguém
Fosse uma voz
E Tétis no seu peito
Te acolhesse
Como se fosses o filho de Peleu.

Talvez houvesse tempo
E tu pudesses
Talvez não fosse Inverno
Não chovesse
Não fosse noite
E medo
E punição.
Talvez não existisse
Um rouxinol
Cativo do seu canto
Nos teus pulsos.

Os vinte anos da tua solidão
Talvez tu próprio
Um dia
Mos contasses.

Talvez houvesse fome
Fosse amor
E o teu desejo tão-só
De que a matasses.

Soledade Martinho Costa
Do livro a publicar «Um Piano ao Fim da Tarde»

O Livro das Lendas, de Selma Lagerlöf

Selma Lagerlöf foi a primeira mulher a vencer o Prémio Nobel da Literatura.

Uma rapariga humilde que conquista pela bondade a estima de pobres e ricos, um rei que descobre entre camponeses o tesouro da sua pátria, um músico arrogante que encontra a redenção nas palavras de uma velha misteriosa, dois irmãos inseparáveis fascinados pelos voos de Júlio Verne.

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O Gato de Uppsala em 5ª edição

A 5 ª edição de “O GATO DE UPPSALA”, de Cristina Carvalho, acabada de sair para as livrarias de todo o país continental e ilhas. Também on-line em todas as plataformas de vendas.

“O GATO DE UPPSALA” é publicado por Sextante / Porto Editora e está no PNL desde 2009.

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