Há metafísica bastante em não pensar em nada | Alberto Caeiro

Há metafísica bastante em não pensar em nada.
O que penso eu do Mundo?
Sei lá o que penso do Mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que ideia tenho eu das coisas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o Sol
E a pensar muitas coisas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o Sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do Sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do Sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

“Constituição íntima das coisas”…
“Sentido íntimo do Universo”…
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em coisas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das coisas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das coisas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as coisas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.

Há metafísica bastante em não pensar em nada (Poema), de Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa)

Fonte: https://www.passeiweb.com/estudos/livros/ha_metafisica_bastante_poema

EU | Florbela Espanca

EU

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho,e desta sorte
Sou a crucificada … a dolorida …

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!…

Sou aquela que passa e ninguém vê…
Sou a que chamam triste sem o ser…
Sou a que chora sem saber porquê…

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!

© Florbela Espanca

I Festa Literária de Amargosa – I Feslam | Valdeck Almeida de Jesus

A I Festa Literária de Amargosa (I Feslam) será realizada nos dias 06, 07 e 08 de dezembro, na Praça do Bosque, em Amargosa, e pretende reunir público interessado na área de Amargosa e de cidades circunvizinhas, estudantes da educação básica e superior.

O I Feslam terá como tema principal “Literatura e Diversidades”, e foco em leituras e culturas, e desenvolvimento de apresentações artístico-culturais e literárias, lançamentos de livros, shows, minicursos, oficinas, saraus, feira, encontros com escritores, palestras, mesas redondas, dentre outros, para que melhor se propicie a participação dos interessados.

A I Feslam é promovida pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) por meio do Centro de Formação de Professores (CFP) e pela Prefeitura Municipal de Amargosa e tem como parceiros a Secretaria Estadual de Educação da Bahia/Núcleo Territorial de Educação 09, UFRB – Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, NUPEF – Núcleo de Pesquisa e Extensão Filosófica / CFP e o IFBA – Instituto Federal da Bahia, Campus Santo Antonio de Jesus.

Rico e diverso – Segundo os organizadores, o Estado da Bahia é rico e diverso culturalmente. “Amargosa, em especial, caracteriza-se pela sua diversidade sociocultural e por ser um centro de produção cultural. O samba de roda, as festas juninas, o São João, sobretudo, os ternos de reis, a capoeira, os reisados, a cultura dos quilombolas e indígenas, a festa da Padroeira Nossa Senhora do Bom Conselho e as filarmônicas são algumas expressões da cultura local. Amargosa, Cidade Jardim, como é conhecida, também se tornou a Cidade Forró, poderá se tornar inclusive Cidade Literária e Arrasta Pé da Leitura, com a realização da I Feslam – I Festa Literária de Amargosa –, fortalecendo assim iniciativas e projetos, já em execução, pelos segmentos culturais e educacionais do Município e pela UFRB”.

A I Feslam advém da necessidade precípua de se criar estratégias e condições de aproximação dos sujeitos com a literatura, de leitores com autores, de iniciação e letramento literários e de formação de leitores.

Esse evento adquire relevância na medida em que promoverá o acesso e “o direito à literatura”. A sua realização favorecerá a mobilização e a valorização de repertórios culturais e o diálogo entre autores literários e a comunidade de Amargosa e região.

Mais informações: clique na página oficial da FESLAM no Facebook

Programação Oficial


06 de dezembro – sexta-feira

15hs
Encontro com o Escritor, Escola Municipal Dom Florêncio com o Poeta Alex Bahia

Encontro com o Escritor, Escola Municipal Profa. Edeovira Sales Andrade com o Poeta André Galvão

Encontro com a Escritora, Escola Municipal Vivalda Andrade Oliveira com a Poeta Ângela Vilma

Encontro com a Escritora, Escola Municipal Tio Zezeu com Jacquinha Nogueira

18:30hs
Abertura da I Feslam, Praça do Bosque
Com Coral do Colégio Estadual Democrático Professor Rômulo Galvão, FANESB – Fanfarra do Colégio Estadual Santa Bernadete e Capoeira CLIPS (Mestre Gilson)

19hs
Sessão Solene, Praça do Bosque

19:30hs
Cine Rapadura, Praça Hélio José da Rocha
Um dia na rampa (BA, direção: Luiz Paulino dos Santos. 10′)
Cinzas (BA. direção Larissa Fulana de Tal. 15′)
O último raio de sol (DF, direção Bruno Torres. 18′)

20hs
Encontro | A arte no plural, Coreto Praça do Bosque
com Poeta Wesley Correia (IFBA), Emilly Nascimento (Discente-CFP-UFRB), Profa. Dra. Denise Magalhães (CFP-UFRB), Mc Lázaro Souza, Poeta José Inácio Vieira de Melo, Profa. Msc. Priscila Leonnor Alencar Ferreira (CFP-UFRB) e Maiana Sudré Cunha (Discente CFP-UFRB)
Mediação: Profa. Dra. Ana Rita Santiago

21hs
Panacum Cultural, Praça do Bosque
Com Peu Meurray, Igor Trova Nova e Tony Sales

Feira Vegana Agroecológica, Praça do Jardim



07 de dezembro – sábado

09hs

Feira Vegana Agroecológica, Praça do Bosque

Exposição de Artes Plásticas, Praça do Bosque
Com Artistas do Recôncavo

10hs
Feslinha | Contação de história, Coreto Praça do Bosque
Com Rita Queiroz

Panacum Cultural, Feira Livre de Amargosa
Com Angoleiros do Sertão (capoeira e cordel com samba rural), Elton Magalhães e Denisson Palumbo

Performance musical, Praça do Bosque
Com Maria Cristina

Mesa Redonda 1 | Autoras (es) que inventam leitoras (es), Sede AABB
Com os(as) escritores(as) André Galvão, Érica Azevedo, Jacquinha Nogueira, Júlio Lucas, Elizeu Moreira Paranaguá e Moisés Alves
Mediação: Profa. Msc. Tatiane Santos de Brito (SEMED – Amargosa)

11hs
Roda de Conversa 1 | Literatura e outras Artes Contemporâneas: Coreografias do Olhar, Auditório do Colégio Pedro Calmon
Com Profa. Dra. Silvana Carvalh, MC Josias Andrade (Discente CFP-UFRB) e Alex Bahia

12:30hs
Lançamento de Livros, Stand de Lançamentos
Com os(as) escritores(as) Júlio Licas, José Carlos Vaz, Moisés Alves, Érica Azevedo e Eliseu Moreira Paranaguá

Tenda Artístico-Cultural Livre | Somos todxs artistas do Palco da vida, Praça do Bosque
Com Grupo de Dança Bonecas Pretas e Patrícia Menezes (Poesia)

13hs
Teatro do CETEP, Auditório do Colégio Pedro Calmon

14hs
Cine Rapadurinha, Casa do Duca
Boi Aruá (direção: Chico Liberato, 1984)

Feslinha | Contação de história, Coreto Praça do Bosque
Com Palmira Heine e Acely Araújo (Coeltivo SER de Arte)

Mesa Redonda 2 | Literaturas contemporâneas, Auditório do Colégio Pedro Calmon
Com os(as) escritores(as) Rita Queiroz, Mailson Furtado, Itamar Vieira Júnior, Edson Oliveira, Clarissa Macedo, Profa. Dra. Evelin Balbino e José Inácio Vieira de Melo
Mediação: Prof. Dr. André Galvão

Mesa Redonda 3 | Literatura e Diversidades: a educação com isso?, Auditório da Lira (Prédio Maçônico)
Com Prof. Msa. Carlos Adriano Oliveira (CFP-UFRB, Prof. Msc. Maricelma Souza Maia (CFP-UFRB), Profa. Dra. Cintia Mota (CFP-UFRB), Prof. Jean Gomes (Pedagogo), Profa. Dra. Esmeralda Barbosa Cravançola e Profa. Dra. Andréia Barreto (IFBA)
Mediação: Profa. Msa. Rosangela Souza da Silva (CFP-UFRB)

15hs
Panacum Cultural, Praça do Bosque

16hs
Cine Rapadurinha, Casa do Duca
Kiriku, os homens e as mulheres (direção: Michel Ocelot, 2012)

16:30hs
Lançamento de Livros, Stand de Lançamentos
Com os(as) escritores(as) Mailson Furtado, Itamar Vieira Júnior, Clarissa Macedo, Edson Oliveira, Rita Queiroz e Palmira Heine

Mesa Redonda 4 | Narrativas no tempo presente, Auditório do Colégio Pedro Calmon
Com os escritores Manoel Herzog e Hilton Leal
Mediação: Profa. Dra. Ângela Vilma Oliveira

Roda de Conversa 3 | “Ah, que esse cara tem? – Homenagem aos 75 anos de Chico Buarque, Casa do Duca
Com Prof. Dr. Ricardo Henrique Resende de Andrade (CFP-UFRB) e Prof. Msc. Ricardo Pacheco (CFP-UFRB)
Mediação: Profa. Dra. Mônica Gomes da Silva (CFP-UFRB)

Roda de Conversa 2 | Literatura e Diálogos Interculturais – Brasil e África, Auditório da Lira (Prédio Maçônico)
Com Prof. Msc. Manuel Paulo Goamne Cochole (Moçambique-UFBA). Profa. Dra. Suely Santana (UNEB). Prof. Dr. Silvio Paradiso (UFRB) e Profa. Dra. Tatiana Pequeno (DF)
Mediação: Prof. Dr. Juvenal Carvalho (CAHL-UFRB)

19hs
Lançamento de Livros, Stand de Lançamentos
Com Manoel Herzog, André Galvão/Ricardo Andrade, Hilton Leal, Tatiana Pequeno e José Inácio Vieira de Melo

Cine Rapadura/Cine Aurora, Praça Hélio José da Rocha
Cafe com Canela (direção: Glenda Nicácio e Ary Rosa, 2017)

20hs
Homenagem às Escritoras, Auditório do Colégio Pedro Calmon
Escritoras homenageadas, Ângela Vilma, Noélia Passos e Jovina Souza

20:30hs
Panacum Cultural, Praça do Bosque
Com Maviael Melo, Pacheco & Bando Farinha de Guerra e Tito Pereira

21hs
Sarau Diverso, Coreto da Praça do Bosque
Com Edson Oliveira, Moisés Alves, AnaCarol Cruz, Érica Azevedo, Mailson Furtado, André Galvão, Júlio Lucas, Hilton Leal, Wesley Correia, Tatiana Pequeno, Jacquinha Nogueira, Mc. Lázaro, José Inácio Vieira de Melo e Eliseu Moreira Paranaguá

07 de dezembro – sábado

09hs
Feira Vegana Agroecológica, Praça do Bosque

Encontro | Literaturas negras e (re) existências, Auditório do Colégio Pedro Calmon
Com Jovina Souza, Jacquinha Nogueira e Wesley Corria
Mediação: Profa. Dra. Ana Rita Santiago

10hs
Feslinha | Contação de história, Coreto Praça do Bosque
Com Márcia Mendes, Sirlândia Teixeira e Maria do 
Carmo Silva

11hs
Roda de Conversa 4 | Escritas e Vozes Poéticas entre Gêneros e Femininos
Sede da AABB
Com Profa. Dra. Tatiana Pequeno (UFF-RJ), Prof. Dr. Ari Sacramento (UFBA). Ana Carol Cruz, Valdeck Almeida de Jesus, Alexandre Soares (Discente Letras/CFP). e Ester Figueiredo (Fórum das Festas Literárias do Estado da Bahia)
Mediação: Profa. Dra. Lisana Sampaio (UFRB)

13hs
Lançamento de livros, Stand de Lançamentos
Com os(as) escritores(as) AnaCarol Cruz, Wesley Correia, Valdeck Almeida de Jesus, Denisson Palumbo, Maviael Melo, Maria do Carmo Silva e Alex Rabaioli

13:30hs
Encerramento, Praça do Bosque

14hs
Panacum Cultural, Praça do Bosque
Com Coletivo Mescalina, Bando Farinha de Guerra, Samba Love e I Baile Afrofuturista da Casa do Duca (MC’s Us Pior da Turma, Quinta Esquina, Neuro Negro, Billy Sujo, Marreco, Jalu Mc e Luck SS / DJ’s Rafiusk, PharaOH e F3LIP3)

Cine Rapadurinha, Casa do Duca
Meu amigo Totoro (direção: Hayao Miyazaki, 1995)

16hs
Cine Rapadurinha, Casa do Duca
Viva. A vida é uma festa (direção: Lee Unkrich, Adrian Molina, 2018)

Fonte:  https://galinhapulando.blogspot.com/2019/11/i-festa-literaria-de-amargosa-i-feslam.html

Talvez um dia | Maria Isabel Fidalgo

Talvez um dia

talvez haja uma hora de viver
de rosto atravessado de manhãs
e um rosário de rolas desabridas
a gemer doridas
as saudades dos poentes
num colo de maçãs.
talvez seja um dia o respirar do trigo
o nosso abrigo
e meninos de linho
acordem os ninhos
com gorjeios caiados
de beijos por abrir.
quem sabe, um dia
numa outra hora
já sem medos
as mãos despidas
nos tragam os segredos
de um outro Tempo
maior que todo o azul
maior que todo o verde
destes olhos a envelhecer
em sulcos de lonjura.
talvez um dia, obstinada,
a substância do ar
recrie um Tempo
omnipresente e lúcido
salutar e denso
nas flores dos dedos
desalojados de sujeição
e de loucura.

MIF

Retirado do Facebook | Mural de Maria Isabel Fidalgo

Camões no país dos mal-educados | Adelto Gonçalves

I
A iniciativa não passa de uma gota no oceano, como admite o poeta Anderson Braga Horta, organizador de Camões na Rua, uma antologia com alguns dos versos mais famosos do vate Luís Vaz de Camões (c. 1524-1580), mas constitui também um inocente protesto contra a situação de descalabro a que chegou a educação no País, a ponto de a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) já ter concluído que o Brasil precisará de mais de um século para atingir o nível de leitura dos países economicamente mais fa vorecido s.
Trata-se de um reconhecimento cabal de que a nossa e as gerações anteriores fracassaram na tentativa de dotar o País de uma estrutura educacional que fizesse do brasileiro um ser humano mais educado. E o nivelamento não se dá por baixo, apenas com as classes menos favorecidas, mas em todos os níveis, como são provas as manifestações diárias de ignorância, marcadas por ofensas ao vernáculo, que partem da maioria dos homens e mulheres em cujos ombros repousa a responsabilidade de administrar a Nação.
Principal baluarte que impediu a dissolução do País em pequenas nações, a exemplo do que ocorreu na América espanhola, a Língua Portuguesa tem sofrido, nos últimos anos, o mais cerrado combate daqueles que a querem degradar de vez, a pretexto de adaptar o Brasil à modernidade, que hoje se traduz na utilização de novas tecnologias de comunicação em que o idioma pátrio é violentamente agredido.
A situação é tão dramática que não se consegue sequer imaginar o que será o País daqui a 15 ou 20 anos quando as crianças de hoje tiverem de entrar no mercado de trabalho. Foi o que este articulista pensou quando, há poucos dias, sentado na sala de estar de um salão de beleza, à espera da esposa, viu o livro que tinha nas mãos chamar a atenção de uma criança de presumíveis cinco anos de idade como se fosse algo muito estranho. Não é preciso dizer que a criança tinha nas mãos um tablet de jogos eletrônicos.
II
Ainda que não passe de um quixotesco combate contra moinhos de vento, esta antologia de poemas de Camões constitui um solitário protesto contra “os germes de dissolução, que tendem a pulverizar o ordenamento fora do qual o pensar pode tornar-se uma falácia, o belo uma coisa irreal, ininteligível ou piegas”, como observa o seu organizador no estudo introdutório que escreveu para esta edição. Ou seja: Braga Horta reconhece que, nas atuais circunstâncias, só nos resta “recorrer a Camões e os outros clássicos das literaturas lusógrafas, ao invés de sepultá-los com pretextos de modernidade, não para uma in ú til e tola tentativa de deter as transformações linguísticas inevitáveis, sim como um dique à degradação pseudoatualizadora e pseudoliberal promovida pelas novas tecnologias de comunicação”.
Autor da ideia de se imprimir uma antologia destinada ao público não especializado, o editor  e livreiro Victor Alegria, um português de Arouca que em 1963 emigrou para o Brasil em fuga das perseguições do regime salazarista (1933-1974), no texto de apresentação deste volume, lamenta o profundo desprezo que, nas duas últimas décadas, tem se verificado no País pela ideia de melhorar o incentivo à língua bem falada.
Como exemplo, lembra que, no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2016, cerca de 1,3 milhão de crianças tiraram nota zero nas disciplinas de Português e Matemática. E acrescenta: “O custo social desse descalabro praticamente ficou no esquecimento”. Por isso, espera que a publicação desta antologia signifique “um ponto de partida e de reflexão para um esforço patriótico e afirmativo da língua que falamos”.
III
Para fazer esta edição, Braga Horta coligiu textos da Antologia da Poesia Portuguesa (Porto, Lello & Irmão Editores, 1977), organizada por Alexandre Pinheiro Torres (1923-1999), e das Obras Completas (Lisboa, Livraria Sá da Costa, v. I, 1954, e IV e V, 1947), organizadas por Hernâni Cidade (1887-1975), todos atualizados ortograficamente. A edição abre com três redondilhas, seguidas por 31 sonetos, dos quais talvez o mais conhecido seja este:
Alma minha gentil, que te partiste
 Tão cedo desta vida, descontente,
 Repousa lá no Céu eternamente
 E viva eu cá na terra sempre triste.
 Se lá no assento etéreo, onde subiste,
 Memória desta vida se consente,
 Não te esqueças daquele amor ardente
 Que já nos olhos meus tão puro viste.
 E se vires que pode merecer-te
 Algüa cousa a dor que me ficou
 Da mágoa, sem remédio, de perder-te,
 Roga a Deus, que teus anos encurtou,
 Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
 Quão cedo de meus olhos te levou.
IV
Metade da edição está dedicada a fragmentos de “Os Lusíadas”, o mais conhecido poema da Língua Portuguesa, obra composta por dez cantos, 1.102 estrofes e 8.816 versos que são oitavas decassílabas. A ação central do poema é a descoberta do caminho marítimo para a Índia pelo navegador Vasco da Gama (1469-1524), à volta da qual se vão descrevendo outros episódios da História de Portugal, glorificando o povo português. Um desses fragmentos é o “LII” do Canto IX (“A Ilha dos Amores”), que recupera a passagem do poeta pela Ilha de Moçambique, na contracosta do continente africano:
De longe a ilha viram, fresca e bela,
 Que Vênus pelas ondas lha levava
 (Bem como o vento leva branca vela)
 Pera onde a forte armada se enxergava;
 Que, por que não passassem sem que nela
 Tomassem porto, como desejava,
 Pera onde as naus navegam a movia
A Acidália, que tudo enfim podia.
V
Nascido em Lisboa, Luís Vaz de Camões, provavelmente, teve sólida educação, tendo estudado história, línguas e literatura. Estudos indicam que era indisciplinado e que supostamente teria ido a Coimbra para estudar, mas não há registros de que tenha cursado a universidade. Foi um poeta lírico na corte de dom João III (1502-1557). Ainda jovem, teria passado por uma desilusão amorosa, razão pela qual decidiu ingressar no exército da Coroa em 1547 e, no mesmo ano, embarcou como soldado para a África, onde combateu os celtas, no Marrocos. Foi ali que perdeu o olho direito.
Voltou em 1552 a Lisboa, mas, no ano seguinte, embarcou para as Índias, onde participou de várias expedições militares. Estudos apontam que ele foi preso tanto em Portugal como no Oriente. Foi durante uma de suas prisões que ele escreveu “Os Lusíadas”. Quando retornou a Portugal, resolveu publicar sua obra. À época, teria recebido recursos do rei dom Sebastião (1554-1578). Só depois de sua morte é que passou a ser reconhecido como grande poeta, a ponto de hoje ser considerado um dos maiores escritores da Língua Portuguesa. Seu nome é conhecido em todo o mundo.
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Camões na Rua: antologia, de Luís de Camões, com estudo introdutório de Anderson Braga Horta (organizador) e prefácio de Victor Alegria (editor). Brasília: Thesaurus Editora, 140 páginas, 2019. E-mail: [/compose?to=financeiro@thesaurus.com.br]financeiro@thesaurus.com.br Site: www.thesaurus.com.br
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/Academia Brasileira de Letras, 2012), Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015), Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Ja neiro, L ivraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015) e O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2019), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

Bertold Brecht

“Do rio que tudo arrasta se
diz que é violento
Mas ninguém diz violentas as
margens que o comprimem”

“Há homens que lutam um dia, e são bons;
Há outros que lutam um ano, e são melhores;
Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons;
Porém há os que lutam toda a vida
Estes são os imprescindíveis”

A Nova História | Rivaldo Chinem | Adelto Gonçalves

SÃO PAULO – Como jornalista ele sabe escrever um texto direto e agradável, mas é também não só um estudioso da Literatura Portuguesa como um historiador rigoroso, pois sempre que pode está imerso nos arquivos. Dificilmente faz citações com base em livros impressos porque, se um historiador do século XIX, por exemplo, fez alguma citação errada, o equívoco acaba por ser repetido indefinidamente.

O fundamental, sabe, é ir direto às fontes, aos documentos da época, que estão nos arquivos de Portugal e do Brasil. E evitar um olhar anacrônico sobre fatos e comportamentos dos homens nos séculos passados, apresentando personagens históricos como bufões, pois é daí que surge essa ênfase no pitoresco, naquilo que hoje pode soar como engraçado e atrair leitores incautos. Adelto Gonçalves acaba de publicar O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo – 1788-1797, pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (Imesp). Adelto é autor ainda de alguns romances, todos muito bem escritos, altamente criativos. Seu depoimento:

“O livro procura analisar os nove anos do governo Lorena (1788-1797), mostrando a atuação do governador e capitão-general d. Bernardo José Maria da Silveira e Lorena (1756-1818) para conciliar os interesses da metrópole com as reivindicações das lideranças locais que, não raro, viam com reservas os representantes da Coroa. É de se lembrar que Lorena recebeu uma capitania mais organizada do que os seus antecessores e soube, sobretudo, aproveitar-se disso para colocá-la numa situação mais favorável em relação às demais da América portuguesa. Em pouco tempo, a capitania paulista ganhou maior importância política e econômica, como prova o papel de destaque que teve na gestação do processo que resultou na separação do Brasil de Portugal”.

“É de se ressaltar que o período anterior sempre foi apontado por contemporâneos e historiadores mais antigos como de extrema miséria e de obscurantismo na história da América portuguesa, que coincide com a perda de sua autonomia em 1748, depois de ter alcançado uma situação destaque, à época da capitania vicentina, como centro propulsor da penetração para o interior de América, o que se deu a partir da descoberta das minas de ouro. Este trabalho contesta e relativiza essa visão, mostrando que essa ideia, provavelmente, fazia parte de uma estratégia política das elites contemporâneas para reivindicar melhorias, pois esse quadro não se justifica”.

“Ao contrário do que a historiografia tradicional sempre defendeu, a capitania de São Paulo não vivia isolada nem tampouco estava despovoada, sobrevivendo de uma economia de subsistência, à época da chegada do governador d. Luís Antônio de Sousa Botelho, o morgado de Mateus (1722-1798), em 1765, quando deixou de ficar adjudicada à capitania do Rio de Janeiro. Esse período que se iniciara em 1748 sempre foi visto por historiadores mais antigos, como Roberto Simonsen (1889-1948) e Caio Prado Júnior (1907-1990), como de completa decadência e isolamento em relação às demais regiões da América portuguesa, em comparação com as capitanias do Nordeste e da zona de mineração, que apresentavam padrões de crescimento superiores”.

“Hoje, esse conceito tem sido revisto ou relativizado, ao reconhecer-se que, se São Paulo não dispunha de uma economia pautada na grande lavoura monocultura e escravista nem na extração mineral, teve participação decisiva no avanço em direção ao Oeste e à descoberta das minas de ouro ao final do século XVII, além de, geograficamente, localizar-se no entroncamento de importantes circuitos regionais, terrestres e fluviais. E que esse fator continuou a pesar decisivamente no rumo do desenvolvimento da capitania”.

“Lorena era muito ligado ao capitalista Jacinto Fernandes Bandeira, grande negociante de Lisboa, que tinha livre acesso ao governo no Reino e passara a cuidar de seus negócios particulares em Portugal. Em contrapartida, Lorena facilitava os negócios de Bandeira com a América portuguesa. Ou seja: a venalidade constituía uma prática corriqueira, pois, embora por lei o governador e capitão-general não pudesse fazer negócios particulares, acabava para fazê-lo por interpostas pessoas. Lorena seguia também a orientação do ministro Martinho de Melo e Castro, do Ultramar, que procurava diminuir a influência dos traficantes fluminenses de escravos, que já haviam estabelecido relações altamente lucrativas nas possessões portuguesas na África. Não obteria êxito porque, a essa altura, já houvera uma inversão na relação reino-colônia: ou seja, a América portuguesa já era economicamente mais poderosa que Portugal”.

“Da vida privada de Lorena, há registros posteriores, ditados pela tradição oral, mas não corroborados por documentos de arquivo, segundo os quais ele e sua comitiva eram gente que não poupava a violência quando falsas promessas e astúcias não bastavam para a corrupção de donzelas incautas. Diziam que, à noite, ele costumava invadir sorrateiramente os quintais das propriedades próximas à casa do governo atrás de donzelas.  Tendo 32 anos de idade ao chegar a São Paulo, Lorena era solteiro e logo manteria duas amantes paulistas que atuariam como intermediárias em muitos negócios do governo. Depois de São Paulo, Lorena foi governador e capitão-general de Minas Gerais e, em 1807, tornou-se vice-rei da Índia, ficando lá até 1816. Voltou para o Rio de Janeiro, onde morreu em 1818”.

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O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo – 1788-1797, de Adelto Gonçalves, com prefácio de Kenneth Maxwell, texto de apresentação de Carlos Guilherme Mota e fotos de Luiz Nascimento. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 408 páginas, R$ 70,00, 2019. Site: www.imprensaoficial.com.br

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(*) Publicado originalmente no site MegaBrasil (www.megabrasil.com.br).(**) Rivaldo Chinem é autor vários livros, como “Terror Policial” com Tim Lopes (Global), Sentença – Padres e Posseiros do Araguaia” (Paz eTerra), “Imprensa Alternativa – Jornalismo de Oposição e Inovação” (Ática), “Comunicação Corporativa” (Escala, com prefácio de Heródoto Barbeiro), “Marketing e Divulgação da Pequena Empresa” (Senac) na 5ª.edição, “Assessoria de Imprensa – como fazer” (Summus) na 3ª. Edição, “Jornalismo de Guerrilha – a imprensa alternativa brasileira da censura à Internet” editora Disal,   Comunicação empresarial – teoria e o dia-a-dia das Assessorias de Comunicação” , editora Horizonte, “Introdução à comunicação empresarial”, editora Saraiva, “Comunicação Corporativa” editora Escala com prefácio de Heródoto Barbeiro ; e “Comunicação empresarial – uma nova visão da empresa moderna” (Discovery Publicações).

Capitania de São Paulo sob o governo de D. Bernardo Lorena | de Adelto Gonçalves | Wil Prado

A História é um carro alegre/Cheio de um povo contente/Que atropela indiferente/Todo aquele que a negue.” (Canción por la unidad  latinoamericana –  Pablo Milanés)

                                                           I

BRASÍLIA – É corrente a assertiva que diz que a História é escrita pelos vencedores. Não estamos aqui para polemizar. Mas não podemos deixar de ressaltar que o bom historiador é aquele que sabe separar o joio do trigo. E é o que faz Adelto Gonçalves nesse seu O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2019). Consciente disso, logo à página 77, ele adverte: 

           (…) “os historiadores precisam se servir de fontes escritas cujos autores, uns mais outros menos, são sempre ligados à cultura dominante. Não que tenham sido todos mentirosos, mas a maneira como encaravam a História sempre os condenava à deturpação. Sem contar que a imensa maioria dos papéis que restaram nos arquivos oficiais só mostram a visão dos poderosos, daqueles que detinham posições de mando”. 

Experiente e escrupuloso, ele não se deixa influenciar por vieses políticos e outras tendências deturpadoras da História, que, às vezes, empolgam historiadores mais apressados.  Por outro lado, podemos dizer que Adelto não se deixa fascinar pelo canto da sereia:  casos e detalhes pitorescos da vida dos personagens, relevados, que muito despertam a curiosidade do leigo, mas que nada acrescentam aos rumos da História. O que nos acrescentaria saber onde o imperador fez xixi? E outros “achismos” e opiniões manietadas dos ditos revisionistas de plantão. Não. Adelto se atém aos fatos: interpreta-os e os transforma em História.  

Para escrever a História desse período colonialista que foi o governo de d. Bernardo José Maria da Silveira e Lorena (1756-1818), consultou arquivos de aquém e de além-mar. O resultado desta vasta e minuciosa especulação foi um grande painel — social, econômico e político — onde se registra o embate entre poderes ligados, mas distintos, como a Igreja, a burguesia e os representantes da Corte, aliás, vistos com desconfiança pelos poderosos locais. E todos, militares, religiosos, burgueses e autoridades administrativas, na dança pelo poder, se ajuntam e traem, em alianças as mais espúrias, com o intuito de aquinhoarem riquezas e se mostrarem bem vistos aos olhos da Coroa.

 Para termos uma ideia dessa convivência conflitiva ente o poder e o clero, citamos a intriga entre Lobo de Saldanha, governador e capitão-general da capitania de São Paulo (1775-1782), e o influente padre José da Silva de Oliveira Rolim, acusado pelo governador de manter uma vida promíscua. Episódio que, embora desenrolado em outra capitania, a de Minas, respinga na capitania paulista. E não resistimos em transcrever este parágrafo, que é, de fato, uma pérola:

           “A “vida dissoluta” de que o acusava Lobo de Saldanha, certamente, adviria do fato de que, irmão de Francisca da Silva de Oliveira (1732-1796), a famosa Chica da Silva, havia se envolvido com a filha desta, sua sobrinha putativa. Teria também deflorado a própria sobrinha, Quitéria, arranjando-lhe casamento de conveniência, com o ânimo de continuar a relação ilícita e, em razão da revolta do marido, ameaçou-o de morte, segundo denúncia de Joaquim Silvério dos Reis, delator das movimentações para a projetada revolta de 1789” (pág. 161).     

                                                           II

            Em trabalho exaustivo, que requereu uma longa temporada de pesquisas em Lisboa, Adelto retrata — e podemos dizer que o termo é exato — um dos períodos de maior desenvolvimento da capitania de São Paulo: os nove anos do governo de d. Bernardo José Maria da Silveira e Lorena. Para tanto, espanou o pó e espantou as traças — se é que os arquivos lusitanos são tratados com o mesmo descaso dos de cá — de documentos seculares, guardados, dentre outros, pelo Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Academia das Ciências de Lisboa, Coleção Pombalina da Biblioteca Nacional de Portugal e o Arquivo Histórico Ultramarino. No Brasil, recorreria ainda ao Arquivo Nacional do Rio de Janeiro, ao Arquivo Público Mineiro e ao Arquivo do Estado de São Paulo, para citarmos apenas os mais importantes.

Sempre que nos referirmos a São Paulo, uma pergunta é recorrente: por que este se tornou o mais rico e desenvolvido Estado brasileiro? Se lermos este volume com cuidado, certamente, encontraremos algumas dicas. E, dentre tantas, ficamos aqui especulando se esta não seria determinante: a “lei do porto único”?  Editada em 1789, essa “lei”, assim impropriamente chamada pela historiografia, pois não passava de uma determinação do governador, permitia que o porto de Santos recebesse navios diretamente de Lisboa, sem a intermediação do Rio de Janeiro, o que aumentava o tempo e acrescentava despesas ao preço final das mercadorias.

Para reforçar essa ideia, transcrevemos este parágrafo à página 361: “Lorena tomou uma decisão que seria fundamental para abrir literalmente o caminho para o desenvolvimento da capitania, determinando que toda carga produzida na capitania teria de passar primeiro pelo porto de Santos. A medida permitiu que o porto de Santos passasse a receber mais navios e a fazer o comércio diretamente com Portugal”.

                                               III              

Adelto, porém, não escreve para polir o bronze das estátuas. Ao contrário, algumas saem das suas páginas até um tanto arranhadas. Para darmos apenas um exemplo, citamos o bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera (ou Diabo Velho, como a ele se referiam os indígenas Goyazes), que, apesar de ter sido considerado um grande descobridor de ouro e prata, a ele colou-se a má fama de “matador de índios”.  

Por último, é bom lembrar que essas quatrocentas páginas, nas mãos de historiadores burocratas, poderiam se tornar deveras enfadonhas, mas nas mãos de um bom escritor — Adelto é um bom romancista! —, tornam-se leves e atraentes, como se estivéssemos, junto com o autor, descobrindo e desvendando cada falcatrua — oficial ou contrabandeada — de políticos, párocos ou burgueses locais.

Infelizmente, ao fecharmos este volume, temos que admitir que o País pouco ou nada mudou dos tempos coloniais de outrora aos novos tempos republicanos de agora: a corrupção, as grandes fraudes e a malversação dos bens públicos continuam a ser a tônica do Estado.

                                                       IV

            Adelto Gonçalves, paulista de Santos, é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa e mestre na área de Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana pela Universidade de São Paulo (USP). Foi professor em várias universidades e jornalista desde 1972, atuando como assessor de imprensa na área empresarial.

Professor Adelto, como é conhecido e respeitado nos meios acadêmicos e jornalísticos, é um escritor vastamente premiado. Citaremos apenas alguns dos mais importantes: 1986, prêmio Fernando Pessoa da Fundação Cultural Brasil-Portugal, Rio de Janeiro, participando do livro Ensaios sobre Fernando Pessoa, com o trabalho “O ideal político de Fernando Pessoa”; prêmios Assis Chateaubriand, 1987, e Aníbal Freire, 1994, ambos da Academia Brasileira de Letras; em 2000, com a biografia Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), seu trabalho de doutorado em Letras pela USP, o prêmio Ivan Lins de Ensaios da União Brasileira de Escritores e da Academia Carioca de Letras.

Como jornalista seu currículo é tão vasto e importante quanto o de acadêmico. Escreveu para O Estado de S. Paulo, Empresa Folha da Manhã, Editora Abril e A Tribuna, de Santos, tendo sido correspondente da revista Época em Lisboa (1999-2000). É colaborador da revista Vértice, de Lisboa. Escreve regularmente para o quinzenário de As Artes Entre as Letras, do Porto, e Jornal Opção, de Goiânia. É sócio correspondente e assessor cultural e de imprensa do Centro Lusófono Camões da Universidade Estatal Pedagógica Hertzen, de São Petersburgo, Rússia.

Apesar de todos esses títulos de suma importância, não podemos deixar de destacar a sua face de ficcionista. Sim, ele ainda encontrou disposição e tempo para praticar a grande ficção, com livros de contos, ensaios e romances.

            Em 1980, com seu romance de estreia, Os vira-latas da madrugada, ganhou menção honrosa do Prêmio Nacional de Romance José Lins do Rego. E é sobre ele que queremos nos deter, não apenas pela sua qualidade literária, como também pelas condições históricas, posto que foi um dos primeiros a retratar o golpe militar de 1964, mesmo que sem proselitismo partidário, mostrando fatos, como as invasões dos sindicatos dos trabalhadores de Santos e a desumana e vexatória prisão de velhos e respeitáveis sindicalistas, tratados como bandidos comuns. O livro, já em segunda edição, pela Editora Letra Selvagem, de Taubaté-SP, está nas livrarias e, independentemente de quaisquer vieses ideológicos, vale a pena ser conferido, porque seus personagens são, de fato, verossímeis e comoventes.

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O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo – 1788-1797, de Adelto Gonçalves, com prefácio de Kenneth Maxwell, texto de apresentação de Carlos Guilherme Mota e fotos de Luiz Nascimento. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 408 páginas, R$ 70,00, 2019. Site: www.imprensaoficial.com.br

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Wil Prado, jornalista, é contista e romancista, autor de Sob as Sombras da Agonia (Lisboa, Chiado Editora, 2016) e do e-book Um Vulto dentro da Noite (Amazon). E-mail: wil.prado@hotmail.com

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‘O Reino, a Colônia e o Poder’, uma bela contribuição para a historiografia brasileira | Waldecy Tenório | por Adelto Gonçalves

Você  apanha  o livro, folheia as páginas, observa  o trabalho de edição, olha  as fotografias que ilustram o texto, volta, lê o título,  procura o nome do autor  e  descobre quem é. Jornalista, doutor em Letras,  historiador  com notável contribuição à historiografia brasileira e  prêmios recebidos de  diversas instituições, entre as quais a Academia Brasileira de Letras.  Enfim, você abre o livro, começa a ler e se vê transportado ao século XVIII para   participar de um pedaço da história da capitania de São Paulo.

O personagem central da história, que está no subtítulo, é d. Bernardo José Maria da Silveira e Lorena (1756-1818), ou simplesmente Lorena, que governou a capitania entre 1788 e 1797. Mas por quê preocupar-se com esse período da história de São Paulo e dedicar a ele as quatrocentas páginas de um livro bem documentado e bem escrito?  O autor responde logo na Introdução, na primeira página.  Porque não tínhamos ainda nenhuma pesquisa mais aprofundada sobre esses nove anos do governo Lorena, decisivos para o desenvolvimento da capitania. A curiosidade do leitor se aguça. Decisivos, como e por quê?

Ao chegar a São Paulo, Lorena se debruçou sobre os problemas que afetavam a capitania, detectou suas necessidades e traçou um programa de ação para enfrentá-los. Eram muitos os problemas. O primeiro envolvia o porto de Santos que então vivia em ruínas.  Era necessário, pois, reconstrui-lo e equipá-lo. Mas isso não bastava. Era preciso abrir um caminho para ele. Do contrário, como escoar a produção de arroz, algodão, aguardente de cana, café, couro, madeira, açúcar?

Começa então a abertura do caminho para Santos. Era uma trilha difícil de ser percorrida: barrancos, árvores tombadas, terrenos alagados, escorregadios, buracos, em alguns lugares mata fechada.  Só os índios conseguiam passar por ali, e nem sempre. As mulas, carregadas de mercadorias, escorregavam, caíam, despencavam em abismos.

O que faz Lorena? Junta recursos disponíveis nos cofres da Corte e dos comerciantes e começa o que mais tarde se chamaria a Calçada do Lorena. Teve êxito? O mineralogista inglês John Mawe (1764-1829), que, em 1807, fez uma viagem de Santos a São Paulo,  resumiu assim o seu entusiasmo: “Poucas obras públicas, mesmo na Europa, lhe são superiores, e se considerarmos que a região por onde passa é quase desabitada, encarecendo, portanto, muito mais o trabalho, não encontraremos nenhuma, em país algum, tão perfeita”.

Não foi só essa, claro, a contribuição de Lorena para o desenvolvimento da capitania. Mais tarde, a lei do porto único seria outro fator importante. E o mais jovem capitão-general a governar São Paulo teve de empregar toda a sua habilidade política para contornar os problemas que poderiam ameaçar o êxito de seu plano de governo.

            Um deles, o conflito entre os interesses econômicos de comerciantes de São Paulo e do Rio de Janeiro. Outro, as disputas políticas envolvendo inclusive o clero sobre, por exemplo, o lugar que essa ou aquela autoridade podia ocupar nas procissões. Isso hoje nos diverte um pouco, mas era uma questão importante para a sociedade da época.

Por trás disso, outro problema, uma velha conhecida nossa, a corrupção e o consequente enriquecimento ilícito punham em risco o bom desempenho administrativo do governo. Se você mergulhar nessa história, vai encontrar os antepassados de gente que ainda hoje conhecemos bem: políticos desonestos, bajuladores, espertalhões, corruptos.

Por tudo isso, O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 é uma bela contribuição de Adelto Gonçalves para a historiografia brasileira. Digo isso sem receio de estar caindo em exagero ou no “afã louvaminheiro” dos partidários de Lorena.  Essa afirmação tem o apoio de dois pesos-pesados dos estudos históricos, Carlos Guilherme Mota, professor emérito da Universidade de São Paulo (USP), e o britânico Kenneth Maxwell, professor aposentado da Universidade Harvard/EUA.

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O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo – 1788-1797, de Adelto Gonçalves, com prefácio de Kenneth Maxwell, apresentação de Carlos Guilherme Mota e fotos de Luiz Nascimento. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 408 páginas, R$ 70,00, 2019. Site: www.imprensaoficial.com.br

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(*) Waldecy Tenório é doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de O amor do herege: resposta às ‘Confissões de Santo Agostinho’ (Editora Paulinas, 1986), A bailarina andaluza: a explosão do sagrado na poesia de João Cabral (Ateliê Editorial, 1996),  João Alexandre Barbosa: o leitor insone (Edusp, 2007), organizador em coautoria com Plínio Martins Filho, e Escritores, gatos e Teologia (Ateliê Editorial, 2014). E-mail: waldecytenorio@uol.com.br

Miguel Jorge: contos eróticos e bem escritos | por Adelto Gonçalves

                                                           I

        Publicar mais de 40 livros não é para qualquer um. Ainda mais com qualidade. É o caso do escritor Miguel Jorge (1933), mato-grossense de origem libanesa criado e vivido em Goiás, que, em 2016, publicou A fuga da personagem (Goiânia, Editora da UFG), a 40ª obra de uma carreira que inclui vários romances, livros de poesia e contos, peças de teatro e roteiros para cinema.  O livro reúne 13 contos, mas é possível dizer que traz doze contos e uma novela policial, que seria o último texto da obra, “Crime imperfeito: Dora”.

 Primeira experiência do autor nessa área, o texto, com 39 páginas, foge um pouco ao tamanho normal de um conto, mas ainda estaria longe de constituir uma novela, que, segundo estudiosos, deve conter de cem a duzentas páginas ou mais de vinte mil palavras, “a meio caminho entre o romance e o conto”, como se lê no Dicionário de Termos Literários (São Paulo, Cultrix, 2004), de Massaud Moisés (1928-2018). Aliás, este professor não concordava com essa definição simplista, baseada no critério quantitativo, definindo-a como um “equívoco metodológico”.

Seja como for, o texto de Miguel Jorge está mais para novela do que para conto ou romance por muitas razões que não valeria a pena aqui citar, até porque Massaud Moisés gastou nada menos que sete páginas (pp.320/326) para procurar definir esse vocábulo que até hoje é passível de discussões tanto na literatura espanhola como na francesa, na inglesa, na alemã ou na italiana.

Obviamente, parece claro que o melhor do livro é mesmo este conto ou novela que o encerra, embora os demais textos tenham também o mesmo tom experimental que caracteriza a obra de Miguel Jorge, de que são bons exemplos Veias e vinhos (São Paulo, Ática, 1982), romance-reportagem, talvez o seu livro mais conhecido e louvado, e Avarmas (São Paulo, Ática, 1978), que reúne contos que seguem nas pegadas do escritor irlandês James Joyce (1882-1941).

                                               II

Em “Crime imperfeito: Dora”, através dos interrogatórios feitos por um delegado  com vários suspeitos do assassinato de uma “dama da sociedade”, de nome Doralice, mulher que seria “bonita, elegante, dessas que até os cegos querem”, conforme depoimento de um dos interrogados, fica-se sabendo de pormenores de quem vivia uma vida dissoluta, que compartilhava a casa com um sobrinho, de quem também seria amante, mas entregava-se a vários amores furtivos. Como numa boa novela policial, o segredo só é revelado nas últimas linhas e a conclusão é bastante surpreendente.

Tal como esse conto que seria mais uma novela, os demais também envolvem histórias sobre o gênero erótico, alguns, inclusive, passando dos limites aceitáveis, como o do caminhoneiro que procura desnudar e transar com as três filhas menores de idade. O conto, porém, não deixa claro se o caminhoneiro chega a vias de fato, o que poderia lhe causar alguns anos de xilindró, se viesse a ser denunciado.

Quase todos os contos, que, diga-se de passagem, são bem escritos, envolvem taras ou desvios sexuais, como o daquele homem que se confessa tarado por pés de mulheres, mas que, igualmente, nunca se sabe se consegue de algum modo ir até o fim em sua procura. Já no conto “Perigosos afetos”, a personagem Hélida, noiva da Márcio, embora apaixonada pelo prometido, sonha também com Marcos, seu cunhado e irmão gêmeo do futuro marido. 

No conto que dá título à obra, a história surrealista que se lê é a de Maria Paula, personagem que sai do livro e rebela-se contra o seu criador, o escritor, negando-se a retornar às páginas de onde saíra. Ao final do conto, entre parênteses, há uma observação do escritor-personagem que serve também para resumir o tratamento dado pelo próprio autor a sua escritura, enfim, uma definição ou um resumo do seu ofício: Eis o texto:

“Meus personagens surgem da luz, não das sombras, que envolvem as noites. Dou-lhes forma, personalidade, vida. Frutos de mim mesmo. Da repartição de vários nomes, vários lugares, novas máscaras. Mesmo que em sonhos, me faço neles, me guardo neles, talvez, como se fosse eles. Para isso, se espera um mundo de horas, a eternidade passada em segundos. Os gestos humildes, obscenos, brutais, são jogos duros da terra que criei com seus tortuosos caminhos).

 Não pense o leitor, porém, que irá encontrar nestes contos enredos próprios de livros baratos que exploram a pornografia. Pelo contrário. Como bem observa o escritor Ronaldo Cagiano no texto de apresentação que escreveu para esta obra, “na construção dessas narrativas finamente elaboradas, o sexo e suas paixões são abordados com sutileza estilística e fluxo poético e na sua peculiar intensidade aflora o império dos sentimentos”.  

                               III

            Nascido em Campo Grande-MS, Miguel Jorge mudou-se ainda menino, com seus pais comerciantes, para Inhumas-GO, onde fez o curso primário. Depois, cursou o ginásio em Goiânia e concluiu o científico em Belo Horizonte. Formou-se em Farmácia e Bioquímica pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e em Direito e Letras Vernáculas pela Universidade Católica de Goiás (UCG). Foi professor de Farmacotécnica e de Literatura Brasileira na UCG. Foi presidente da União Brasileira de Escritores (UBE), seção de Goiás, e dirigiu o Conselho Estadual de Cultura. É membro da Academia Goiana de Letras.

Estreou com Antes do túnel, contos (Goiânia, UFG, l967). É autor ainda de Asas de moleque (São Paulo, FTD, 1989); Profugus, poesia (São Paulo, Ática, 1990; Nos ombros do cão, romance (São Paulo, Siciliano, 199l); A descida da rampa, contos (São Paulo, Estação Liberdade, 1993); Ana Pedro, novela infanto-juvenil (São Paulo, Cartago Forte, 1994. São Paulo, Mercuryo Jovem, 2002); Pão cozido debaixo de brasa, romance (Porto Alegre, Mercado Aberto, l997); Calada nudez, poesia (Goiânia, Ver Curiosidades, 1998); As horas dos bichos: poemas para crianças (Goiânia, Kelps. 2000); Lacraus, contos (São Paulo, Ateliê, 2004); O Deus da hora e da noite, romance (Goiânia, Kelps, 2008); As confissões da senhora Lydia, teatro (Goiânia, Kelps, 2010); De ouro em ouro (Casa Brasil de Cultura, 2010); e Minha querida Beirute (Goiânia, Kelps, 2012), entre outros.

Entre os prêmios que conquistou estão o ABCA para o romance Veias e vinhos; Machado de Assis da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro para o romance Pão cozido debaixo de brasa; Prêmio de Poesia Hugo de Carvalho Ramos da UBE-GO para Calada nudez;  e Prêmio Centro-Oeste da Funarte para Matilda, teatro, entre outros. Escreveu com o diretor João Batista de Andrade o roteiro para o longa-metragem Veias e vinhos, baseado em seu romance, filmado em São Paulo, em 2004. Seus textos sobre artes visuais estão inseridos, na grande maioria, no livro Da caverna ao museu: dicionário das artes plásticas em Goiás, de Amaury Menezes, editado pela Fundação Cultural Pedro Ludovico Teixeira, de Goiânia.

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A fuga da personagem, contos, de Miguel Jorge, com prefácio de Ricardo Viveiros e texto de apresentação de Ronaldo Cagiano. Goiânia:  Editora da UFG, 260 p., R$ 30,00, 2016.  E-mail: comercial.editora@ufg.br Site: www.cegraf.ufg.br

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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015), Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015) e O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2019), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

Refaço | Poema do livro “Sou viagem”, de Maria Isabel Fidalgo | Voz da autora

Poema do livro “Sou viagem”, de Maria Isabel Fidalgo voz da autora Música: Adagio | Samuel Barber* *Interpretação de keisuke nakagoshi

“Quem já conhece a escrita de Maria Isabel Fidalgo não estranhará a profusão de imagens aquáticas, de barcos, de praias, de mar e do que neles se encontra dos outros elementos: as aves, as brisas, as ilhas, o sol; nem será alheio à presença das figuras familiares, ao poder genesíaco do amor, mas também à ironia e à crítica que, por vezes, fazem a sua aparição. No entanto, poderá entregar-se a estes poemas esperando, com o conforto do familiar, o que ainda não tinha sido completamente dito.” Tiago Aires

Maria Isabel Fidalgo (Braga, 18 de Março de 1951), licenciada em Línguas e Literatura Modernas pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, é professora aposentada do ensino oficial, mas continua a exercer funções de docência no Colégio D. Diogo de Sousa (Braga). Exerceu vários cargos de coordenação e orientação de estágio. Para além da presente obra de poesia, é também autora de Antes De Mim Um Verso (Poética Edições, 2015) e À roda da saia (Poética Edições, 2018), tendo vindo a contribuir, com a sua voz e as suas reflexões, para a dinamização de encontros e tertúlias poéticas. Participou nas antologias As vozes de Isaque (poesia, Poética Edições, 2016), Nem sempre os pinheiros são verdes (contos, Poética Edições, 2017) e A minha palavra. Antologia de escritos avulsos. (Poética Edições, 2018). Em 2016 marcou ainda presença na obra Em nome do teu nome, uma antologia que reuniu cerca de 50 nomes da literatura e das artes tão importantes como Manuel Alegre, Mário Cláudio, Pedro Cabrita Reis ou António Arnault. Em 2015 participou como autora no Festival Literário Tábula Rasa, em Fátima, sob a temática da obra “Aparição”, de Vergílio Ferreira. A dança e o ensino são as suas grandes paixões.

A nostalgia da infância na poesia de Salomão Sousa | Adelto Gonçalves

                                                           I

        Descolagem (Goiânia, Editora Kelps, 2016), um dos mais recentes livros lançados pelo poeta Salomão Sousa (1952), traz 44 poemas – oito deles traduzidos para o espanhol – que, no conjunto, constituem um movimento de regresso à infância e à inocência real ou sonhada de quem nasceu e viveu seus primeiros anos na zona rural de Silvânia, pequena cidade da região central do Estado de Goiás que ainda hoje sobrevive da agricultura e da pecuária de leite, embora já disponha de algumas indústrias de cerâmica.

Para quem gosta de História, é de se lembrar que a cidade nasceu como arraial de Nosso Senhor do Bonfim, por volta de 1774, com a descoberta de lavras de ouro, a uma época em que o governador e capitão-general d. Luís Antônio de Sousa Botelho, o morgado de Mateus, encerrava o seu longo mandato de dez anos (1765-1775) à frente da capitania de São Paulo, depois de um período em que muitas bandeiras de paulistas haviam sido despachadas para o sertão com o objetivo de garantir os domínios portugueses diante dos vizinhos espanhóis.

            Foi só em 1964, quando já andava ao redor dos 12 anos de idade, que o futuro poeta deixou a vivência direta com a natureza para viver na zona urbana de Silvânia e continuar o ensino fundamental. Na pequena cidade, que hoje tem cerca de 20 mil habitantes, ele teria a oportunidade de entrar em contato com a poesia no acervo da biblioteca pública do município. Depois, em 1971, transferiu-se para Brasília, onde fez o Científico num colégio de Taguatinga Sul e o curso de Jornalismo no Centro Universitário de Brasília (Ceub). Em 1973, por concurso, ingressou no funcionalismo público federal, trabalhando na Fundação Educacional do Distrito Federal e, a partir de 1977, no Ministério da Fazenda.

            Desde essa época, porém, a vocação para poeta já lhe havia explodido na alma, levando-o a participar de movimentos culturais, como o de Poesia Marginal, e até publicar Esbarros, pequeno folheto. Até que, em 1979, publicou A moenda dos dias (Brasília, Editora Coordenada), seu primeiro livro, que traz, segundo o testemunho do poeta e resenhista Ronaldo Cagiano, “uma poesia inovadora, sem as camisas de força estilísticas, arejada, original e, portanto, moderna”, conforme citação de João Carlos Taveira no prefácio que escreveu para Descolagem. Em 1980, saiu uma nova edição de seu primeiro livro, com novos poemas acrescidos, com o título A moenda dos dias/O susto de viver (Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira).

                                                           II

            Como observa Taveira no prefácio, a obra de Salomão Sousa “dá seu contributo ao cenário da moderna poesia brasileira de forma muito contundente”. Como prova disso, o prefaciador lembra uma resenha de A moenda dos dias feita pela professora Noami Hoki Moniz, atual diretora de Estudos Portugueses da Universidade de Georgetown/EUA, publicada na Revista Iberoamericana, da Universidade de Pittsburgh/EUA, em 1979, à época em que a articulista fazia o curso de mestrado na Universidade Harvard/EUA. Nesse artigo, a professora dizia que “ele (Salomão Sousa) evita traços de populismo e espontaneísmo, constrói um discurso despojado e simples, mais comprometido com a veracidade do que está sendo dito do que com obscuras e vazias ordenações estéticas”.

            De fato, a nostalgia da infância é o centro da pulsão poética de Salomão Sousa, como se pode comprovar em qualquer um dos poemas reunidos em Descolagem. A título de exemplo, veja-se este excerto:

“Desperdício de um trem/ a levar apenas o próprio ferro/ Treme aos solavancos treme/ em tantos choques de pranchas de lata/ Vê se um governante/ carrega um trem!/ Orizona abandonada perto da linha!/ Bonfim no bagaço/ em carregamentos de barro/ Toda abastança não passa/ de uma exploração daninha/ O trem deixou de levar o arrozal/ e já nem somos os meninos (…)” (p. 36).

            Como se pode constatar, Salomão Sousa é um poeta moderno, que recorre ao verso livre e vai além: seus poemas de lavra mais recente não recebem títulos ou os títulos são tirados da primeira frase da peça poética; a pontuação nem sempre ocorre, ou seja, as frases não são divididas por vírgulas e tampouco por ponto final; e as estrofes não seguem a uniformidade comum nos poemas tradicionais. Tudo isso torna o fluxo de pensamento contínuo, como se as imagens passassem para a página do mesmo modo como brotam no cérebro na medida exata da evocação da infância, essa busca interminável de um passado perdido num labirinto de cenas quase sempre campestres. Veja-se mais este poema:

“E há os que ficam/ dentro da margaça/ apenas carregandos fardos/ E há os que são pura massa/ sem nenhuma levitação/ que lembre a graça/ E há os que em estado/ de nenhuma graça/ nem se sentem desgraçados/ E há os que silenciam/ a mágica da graça/ vestidos com suas fadas/ E há os que arregaçados/ de tanto levar coiçadas/ recomeçam para alcançar a graça” (p. 60).

                                                           III  

Salomão Sousa tem poemas também na Antologia da nova poesia brasileira (1992), organizada pela poeta Olga Savary, e em A poesia goiana do século XX, organizada por Assis Brasil. Foi um dos 47 poetas incluídos no número que a revista Anto, de Portugal, dedicou, em 1998, à literatura brasileira, em comemoração dos 500 anos da descoberta do Brasil.

Organizou antologias, entre as quais Deste Planalto Central – poetas de Brasília (2008), como parte da I Bienal Internacional de Poesia da Biblioteca Nacional de Brasília, Em canto cerrado (de poesia) e Conto candango, com escritores de Brasília. Obteve o Prêmio Capital Nacional do Ano 98 de Crítica Literária. A União Brasileira dos Escritores (UBE), Seção de Goiás, concedeu-lhe, em 2011, o Troféu Tiokô como personalidade goiana que mais se destacou fora do Estado no biênio 2010-2011.

É autor ainda de Falo (Brasília, Thesaurus Editora, 1986); Criação de lodo (Brasília, edição de autor, 1993); Caderno de desapontamentos (Brasília, edição de autor, 1994); Estoque de relâmpagos, Prêmio Brasília de Produção Literária (Brasília, 2002); Ruínas ao sol, Prêmio Goyaz de Poesia (São Paulo, 7Letras, 2006); Safra quebrada (reunião de livros anteriores e de dois  inéditos: Marimbondo (feliz) e Gleba dos excluídos (Brasília, Fundo de Apoio à Cultura, 2007); Momento crítico, textos críticos, crônicas e aforismos (Brasília, Thesaurus Editora, 2008); Vagem de vidro (Brasília, Thesaurus Editora, 2013); Desmanche  I (Brasília, 2018); e Poética e andorinhas (Brasília, 2018), entre outros.

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Descolagem, de Salomão Sousa, com prefácio de João Carlos Taveira e posfácio de José Fernandes. Goiânia:  Editora Kelps, 92 p., R$ 10,00, 2016.  E- mail: kelps@kelps.com.br Site: www.kelps.com.br

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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015), Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015) e O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2019), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

RETALHOS – I | Helena Ventura Pereira

Resta a fluidez das sombras
na pontuação da escrita
à tona de água
retalhos de afecto pela terra fragmentada
memórias do pântano visitado pelo sol
se aceso o teu sorriso.
E como sentinelas de igual valor
no luto que vestimos
esqueletos de sal
restos da gente de Lot
colunas frágeis de construções em ruínas
sem garantia de que sobre
pedra inteira
ou poeira de estrelas sonhadas
na ausência de claridade.

Maria Helena Ventura – INOMINÁVEL CORPO DESNUDADO
EDITORIAL ESCRITOR

Poesia | Sou viagem | Lançamento a 16 de Maio | Maria Isabel Fidalgo

No dia 16 de Maio será lançado, via online, mais um livro de Poesia de Maria Isabel Fidalgo, pela Poética Edições, com o título ” Sou Viagem”. Alegoria da vida, os poemas retratam uma alma aberta à beleza, aos odores e rumores do mundo, sem esquecer os lados mais dramáticos da existência. E ainda a morte, fronteira aberta para o país do pó.

Sou Viagem
vela desfraldada em pleno alto mar
em ondas revoltas
barco seguro do apeadeiro
ao longe.
Sou Viagem
fruto mais que maduro
a medir o chão na árvore alta.
Fui viagem
ventre vento leve
batente luminoso
a colorir colos berços beijos
acordar de asa a mensurar alturas.
Sempre.
Sou viagem.
Cambraia cama lavra
cinto de terra
a medir o chão do alto da árvore.

Maria Isabel Fidalgo

Dia Mundial do Livro: não deixem o vírus matar Camões | Manuel S. Fonseca

Hoje, Dia Mundial do Livro, autores, editores e livreiros estão em perigo. Tolstói ou Dostoievski, Shakespeare e Camões, Camilo ou Eça vivem, como Portugal, como o mundo, a situação calamitosa que afecta dramaticamente a nossa forma de vida, as pessoas e as empresas. Sim, os grandes romances, os grandes ensaios, os livros de ciência ou de filosofia, tal como os editores e livreiros que são a sua casa, acabam de sofrer um violento abalo. Fragilizados pelas crises económicas de 2008 e de 2011, editores e livreiros são agora, como resultado directo desta pandemia, confrontados com a mais dura ameaça que o livro já experimentou em Portugal. A espada de Dâmocles, que é a insolvência de editores e o fecho definitivo de muitas livrarias, paira sobre as nossas cabeças, sobre a cabeça dos grandes livros e dos grandes autores, o que o empobrecimento salarial dos leitores, já de si uma minoria da população, mais reforça.

CONTINUAR A LER (LINK) : https://paginanegra.pt/2020/04/23/dia-mundial-do-livro-nao-deixem-o-virus-matar-camoes/?fbclid=IwAR11tj7weVI-o394Zlp40awhasrhLFx9EIp4R3AoOXt-Gy3-qwjMfjdOd1A

DEZ FRAGMENTOS DO MEU LIVRO EM OFICINA, “PONTOS LUMINOSOS”: SOBRE LEITURA E LIVROS. A IMAGEM É DE RZOOMOSKI. | Casimiro de Brito

502
Um livro. Lembrar-me que tenho entre as mãos um pouco de madeira onde um mundo está escrito. E depois olho para uma árvore. Quantos livros estão nela escritos? Quantos por escrever?

550
Há livros que se lêem e livros onde se lê. Só os segundos me interessam.

566
Todo o livro tem um sexo. E, às vezes, tem os dois.

580
O melhor de um livro — esses rios cruzados — são algumas, poucas gotas de água.

622
Um livro é sempre uma interrogação. Ainda que se escrevam apenas pequenas frases afirmativas.

679
Um livro, uma biblioteca sobre a vida que se destrói (uma nova Alexandria) com uma só pergunta: mas o que é não-vida?

687
Livro que não sorri não é livro. E basta abri-lo onde quer que seja. Se provocar um sorriso — há livro! Seja ele sobre o amor ou sobre a morte — mas não são eles, o amor e a morte, um casal inseparável?

893
O livro que tenho na minha cabeça é maior do que vinte cabeças.

901
Quando encontro um grande livro (ainda me acontece) livro-me de cinco ou dez que até me pareciam essenciais.

1028
Assisto encantado à leitura da minha amiga. Não sei muito bem o que ela lê. Mas sei muito bem o que leio. O seu corpo nu vestido por um livro. Que livro será?

UM CANTO DE PÁSSARO | Carlos Fernando Bondoso

abraço um rio onde os barcos se encontram

e se tocam

estão num porto vazio

uns olhos que choram

e que alimentam as vagas que se vão quebrar

de súbito um canto de pássaro

desperta no meu olhar suspenso

fios de ouro e golfinhos cor de prata

que navegam para sul onde o mar se estende

e o invisível se esconde

é neste porto de liberdade que o silêncio se mistura

com a forma indefinível do poeta

que galga as margens

e marca as ausências

POR CFBB

A Escada de Istambul | Tiago Salazar

Da Inquisição ao Holocausto, a extraordinária saga dos «Rothschild do Oriente».Em Istambul, confluência de mundos, uma estranha escada desperta a atenção do autor deste romance, que decide ir atrás da sua história. Ela confunde-se, porém, com a saga dos seus construtores.Conhecidos como os «Rothschild do Oriente», os judeus Camondo erraram pela Europa até se instalarem em Istambul, onde viriam a tornar-se banqueiros do sultão e grandes filantropos. Abraham-Solomon, o patriarca, era o judeu mais rico do Império Otomano e combateu a maldição do judaísmo na Turquia fundando escolas que respeitavam todos os credos e legando ao filho e aos netos a importância da caridade e do mecenato.

Já em Paris, o seu bisneto Isaac, amigo dos pintores impressionistas, doaria ao Museu do Louvre mais de cinquenta quadros de Monet, Manet e Degas; e o seu primo Moïse, devastado pela morte do filho na Primeira Guerra Mundial, abriria um museu que ainda hoje pode ser admirado e visitado na capital francesa. E, porém, apesar do seu poder e da sua influência, poucos conhecem a história desta família magnânima. O mistério explica-se: sobre a dinastia Camondo abateu-se uma fatalidade a sua fortuna e o seu sangue eclipsaram-se nos campos de extermínio de Auschwitz.

Em A Escada de Istambul, Tiago Salazar resgata do esquecimento várias gerações desta família e compõe, a partir de factos e documentos reais, uma ficção na qual ele próprio deambula como personagem.

‘O Marceneiro’, um romance do apocalipse | Silas Corrêa Leite | por Adelto Gonçalves

                                                           I

Depois de publicar, em 2018, Ele está no meio de nós (Curitiba, Kotter Editorial), que pode ser definido como um romance místico, religioso ou ecumênico, Silas Corrêa Leite lançou, em 2019, O Marceneiro: a última tentativa de Cristo (Maringá-PR, Editora Viseu), livros que fazem parte de uma trilogia que haverá de ser completada com obra que já está concluída, mas ainda inédita. Tendo sido iniciado em 1995, como ponto de partida para uma carreira literária, este romance, tal como o anteriormente publicado, pode ser definido como místico, ecumênico e religioso – e, por isso, mesmo polêmico –, além de profético, pois, ao anunciar um caos apocalíptico, antecipa os momentos de angústia que vive hoje a população da Terra com a chegada da pandemia de coronavírus (Covid-19).

 Sua leitura assusta, incomoda, registra e desnuda uma verdade que a maioria da população, especialmente a brasileira, recusa-se a ver com olhos realistas, deixando-se levar pela boa fé, ao acreditar na palavra de “salvadores” da pátria. Mas chega uma hora em que o cidadão se conscientiza de que tem sido vítima de muitos logros e repete, como diz o autor, ainda que inconscientemente, uma frase do filósofo alemão Friederich Nietzche (1844-1900): “A verdadeira questão é: quanta verdade consigo suportar?”

Depois de ficar na gaveta por quase cinco anos, o manuscrito foi retomado pelo romancista no ano de 2000, quando havia muita expectativa pelo que seria o novo século, pois estava sendo anunciado aos quatro ventos o chamado “bug do milênio”, ou o Bug Y2K, que poderia provocar um pane nos sistemas informatizados, levando o mundo à completa desorganização e destruição, inclusive do sistema financeiro. Inspirado em Memorial de Maria Moura (1992), de Raquel de Queiroz (1910-2003), imenso painel de relações sociais, culturais, morais e afetivas entre personagens bem caracterizadas, Silas Corrêa Leite escreveu um romance anárquico e utópico, partindo do tumulto ou caos apocalíptico que poderia ocorrer no planeta se Jesus Cristo, numa última tentativa antes da prometida volta para levar para os céus os escolhidos, aparecesse no Brasil.

Lembrando que Jesus Cristo rompeu com leis injustas, investiu contra fariseus, varreu os vendilhões do templo e colocou-se contra uma casta que subsistia da exploração dos pobres e de um sistema econômico tirânico que especula “com a fome em favor dos chamados neoliberais nunca éticos” (p. 297), o autor conclui que, provavelmente, o Messias seria tachado de terrorista ou comunista, sofreria atentados e poderia vir a ser até vítima de “novos tipos de vírus concebidos em laboratórios (para acabar com os pobres?)” que haveriam de colocar em suas comidas. “Ou teria cólera por comer peixe de países sem infraestrutura ou saneamento básico” (p. 299).

Como se pode deduzir com facilidade, trata-se de um romance profético, que, de certa maneira, segue na mesma linha de Não Verás País Nenhum (1981), de Ignácio de Loyola Brandão (1936), que previu um tempo em que o aquecimento global e a proliferação de doenças estranhas haveriam de colocar em risco todo o planeta. Eis um trecho que parece escrito nestes dias de pandemia de coronavírus em que o Brasil é governado por mãos insensíveis:

“Bendita seja a loucura que choca o homem para que ele reviva de sua mudez lucrativa. De sua total insanidade exploradora, de sua insensibilidade ética, de sua falta de lisura no trato com os pequeninos. De sua insensibilidade em achar a fome e a miséria dos excluídos socialmente normal. De não se chocarem mais com o abandono dos fracos e oprimidos. Bendita seja a “loucura” que fere, mexe, assoma-se contra a mediocridade comum dos fariseus insensíveis”. (p. 300).

                                               II

Dono de um estilo criativo, Silas procurou se inspirar na Bíblia que, como se sabe,  em várias de suas passagens, sempre alerta os leitores para o fato de que o fim do mundo está próximo, o que até aqui invariavelmente tem sido interpretado como se esse final estivesse perto apenas para cada um de nós. Mas, quando ocorrem catástrofes mundiais, nem sempre esta última interpretação é a que mais se afirma. Eis outro trecho desse texto em que o seu autor se mostra visionário:

“Os menores abandonados do Brasil serão as gangues do futuro. As tropas paisanas violentas. Que não terão nada a perder. De uma irracionalidade medonha, dantesca. Os ricos e suas famílias, esposas, filhas e descendentes, serão alvos delas. As grades, guaritas, os seguranças, os belos carros, os grandes shoppings não os defenderão… Exploraram a terra e as gerações dos filhos da terra. E os filhos da terra como praga se insurgirão como única saída-sobrevivência possível. Não haverá clemência ou regras claras. Não há clemência na fome absoluta, irracional. Como não houve clemência na distribuição de rendas e lucros e terras. Que não foi cerceada, mancomunada, desviada, montada. Não haverá perdão. O lucro torpe tocou a alma humana. E o rancor da pisada alma pobre violará muros, invadirá cidades, violentará condomínios reservados inteiros, praias particulares, ilhas com torres de vigias inúteis. Nada deterá a cobrança do homem-animal embrutecido em horror dantesco…” (p. 287).

                                               III

Nascido na mítica cidade de Itararé, localizada na divisa entre os Estados de São Paulo e Paraná, que entrou para a História como local de um episódio pitoresco ocorrido à época do movimento civil-militar de 1932 em que a burguesia paulista, desalojada do poder em 1930, tentou derrubar o regime ditatorial de Getúlio Vargas (1882-1954) , Silas Corrêa Leite (1952) é poeta, romancista, letrista, professor, desenhista, jornalista, resenhista, ensaísta, conselheiro diplomado em Direitos Humanos e membro da União Brasileira de Escritores (UBE), além de blogueiro e ciberpoeta.

Tendo começado a escrever aos 16 anos de idade, migrou em 1970 para São Paulo,  onde se formou em Direito e Geografia, sendo especialista em Educação pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, além de ter cursado extensões e pós-graduações nas áreas de Educação, Filosofia, Inteligência Emocional, Jornalismo Comunitário e Literatura na Comunicação, curso este que fez na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP).

Nos últimos tempos, o romancista lançou também O lixeiro e o presidente (Curitiba, Kotter Editorial, 2019), romance social, Gute-Gute, barriga experimental de repertório (Rio de Janeiro: Editora Autografia, 2015) e Goto, a lenda do reino encantado do barqueiro noturno do Rio Itararé (Florianópolis: Clube de Autores Editora, 2013), romance pós-moderno, considerado a melhor obra do escritor Tem mais de 20 livros publicados, entre os quais Porta-Lapsos (poemas) e Campo de Trigo Com Corvos (contos). É autor ainda do primeiro livro interativo da Internet, o e-book O rinoceronte de Clarice, que virou tema de tese de mestrado na Universidade de Brasília (UnB) e de doutorado na Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Foi finalista do Prêmio Telecom, em Portugal, em 2007.

Seus textos fazem parte de mais de cem antologias literárias de renome, inclusive na Itália e nos Estados Unidos, e estão espalhados por mais de 800 sites, inclusive na América Latina, Europa, Ásia e África. Seu texto “O estatuto do poeta” foi vertido para o espanhol, inglês, francês e russo.

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O Marceneiro: a última tentativa de Cristo, de Silas Corrêa Leite. Maringá-PR: Editora Viseu, 380 páginas, 2019, R$ 52,90. E-mail da editora: falecom@eviseu.com.br E-mail do autor: poesilas@terra.com.br

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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015),  Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015) e O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2019), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

O Reino, a Colônia e o Poder’, um marco na História de São Paulo Nireu Cavalcanti | por Adelto Gonçalves

I

O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo – 1788-1797, recente livro de Adelto Gonçalves ─ editado em 2019, pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo ─, já nasceu como importante marco da historiografia colonial brasileira e, especialmente, da paulista.

Adelto, como bom paulista e bandeirante intelectual, fincou seu marco de puro cristalino no território histórico colonial de São Paulo. O autor exibe sua peculiar habilidade de escrever com clareza um texto profundamente rico de conteúdo, baseado em vasta pesquisa documental e de leitura de textos consagrados de outros autores que trataram do tema desse livro.

O historiador Kenneth Maxwell na sua apresentação desse livro do Adelto escreveu:

Esta obra é, em sua totalidade, não só uma rica análise do governo de Bernardo de Lorena, mas um estudo que abre muitas linhas de investigação, formula muitos problemas novos, o que deveria ser a tarefa de todo bom historiador. Para a história de São Paulo no século XVIII tardio, não há guia melhor.

Concordo plenamente com Kenneth Maxwell e acrescento novas qualidades do texto e de sua importância para os leitores e demais pesquisadores.

Divulgação dos variados arquivos consultados por Adelto Gonçalves aqui revelados, como os de São Paulo, pouco utilizados por historiadores que tratam de outros territórios brasileiros:  Arquivo do Estado de São Paulo (AESP), os Anais do Museu Paulista (AMP), Atas da Câmara de São Paulo (ATCSP), Documentos interessantes para a história e costumes de São Paulo (DI) e o Registro Geral da Câmara de São Paulo (RGCSP). Além dos arquivos conhecidos do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, os portugueses: Torre do Tombo (ANTT), Biblioteca Nacional de Lisboa (BNP), Arquivo Histórico Ultramarino (AHU) e a Academia das Ciências de Lisboa (ACL).

II

O texto de Adelto vai fluindo com a indicação da fonte, elemento de suma importância para o leitor, ao constatar sua habilidade em usar o conteúdo do documento e extrair dele elementos construtivos de sua narrativa. Esse seu método de vincular documento-texto é um traço marcante do autor e deve orientar seu leitor e pesquisador a usá-lo em seus futuros trabalhos.

Outro destaque desse livro é conter a visão ampla do autor sobre o fato histórico. Adelto nos traz a visão do historiador; do escritor cronista e romancista que é; da geografia histórica; da literatura e do rigor cronológico do fato, no espaço-tempo da complexidade do fato narrado.

Adelto contextualiza o fato histórico em suas relações econômicas, sociais, espaciais e políticas, sem se restringir às análises históricas das superestruturas,  trazendo em sua narrativa os seres humanos envolvidos, com hábil literalidade, como a descrição da viagem para Cuiabá do governador de São Paulo Rodrigo Cesar de Menezes (1721-1727), pp.59-61. A expedição saiu em 1726, do porto de “Araritaguaba, às margens do rio Tietê” com 305 canoas carregando negros, índios e paulistas num total de “3 mil homens, inclusive muitos indígenas – os únicos que sabiam “atravessar o sertão e navegar através dos rios cheios de cachoeiras”. Preciosas informações colhidas pelo autor, de documento do AHU, referente a São Paulo (caixa 7, doc. 750, ant. 26/10/1725).

Segundo sua narrativa, a expedição chegou a Cuiabá em 15 de novembro de 1726, mas o governador César de Menezes só elevou o “arraial mineiro de Bom Jesus de Cuiabá à categoria de vila” em 1o de janeiro de 1727. No ato, o governador instalou a Câmara, “reunindo oito vereadores ─ seis paulistas e dois reinóis casados com paulistas”. Considero que esse cuidado de nomear paulistas para a maioria da Câmara é o reflexo do trauma da Guerra dos Emboabas. Para o final da descrição do ato do governador, Adelto usou a obra de Charles R. Boxer, A idade de ouro do Brasil: dores de crescimento de uma sociedade colonial, 2000, p.274. Essa capacidade do autor de buscar fontes diversas para construir sua narrativa é um dos pontos altos do livro.

III

Adelto Gonçalves dividiu sua expressiva e marcante obra em duas partes, que se conectam e, ao mesmo tempo, são autônomas. A primeira (pp. 21 a 181) trata do estudo histórico da formação da capitania e da sociedade paulista, anterior à chegada e posse do personagem principal do livro: d. Bernardo José Maria da Silveira e Lorena, conde de Sarzedas (1788-1797).

A segunda parte, nas páginas 187 a 327, faz o estudo detalhado do personagem Lorena, sua origem familiar, formação intelectual e a exemplar governança da capitania de São Paulo. O autor esmiúça as relações políticas, administrativas, as redes formadas pela elite administrativa-política e econômica, local, na obtenção de poder e fortunas. Relata os interesses econômicos e políticos de Lorena ─ sociedade com o riquíssimo negociante e capitalista de Lisboa Jacinto Fernandes Bandeira, concedendo-lhe vários privilégios na capitania de São Paulo ─, destacando sua positiva forma de governança de muitas obras públicas, de organização administrativa e política da capitania e a equidade com que tratou os súditos da colônia.

O governo de Lorena foi um marco divisor aprovado pelos paulistas, ao ponto de os vereadores da cidade de São Paulo solicitarem o privilégio de postarem o seu retrato na sala principal da Câmara municipal (p. 307). “Para empreender tal iniciativa, os oficiais da Câmara pediram licença à rainha, lembrando que a concessão já havia sido feita à Câmara do Rio de Janeiro”, para homenagear o governador Gomes Freire de Andrade, conde de Bobadela (1733-1763).

Em sua petição, os camaristas de São Paulo justificaram a homenagem por ser “um fidalgo que tem sido o pai dos paulistas” (nota 391: AHU Conselho Ultramarino, São Paulo, caixa 41, doc. 3357, 6/3/1793). Nesse mesmo Arquivo Histórico Ultramarino, localizei o pedido dos vereadores do Rio de Janeiro, quando obtiveram permissão dessa homenagem a Gomes Freire. Era proibido que as autoridades da colônia brasileira tivessem representação de sua imagem em lugares públicos.

A pesquisa documental e bibliográfica feita por Adelto Gonçalves para escrever esse livro reflete-se na expressiva quantidade de notas: mais de mil referências. Haja fôlego!

Com autoridade de seu profundo saber histórico, conclui sua obra afirmando:

Ao contrário do que a historiografia tradicional sempre defendeu, a capitania de São Paulo não vivia isolada nem tampouco estava despovoada, sobrevivendo de sua economia de subsistência, à época da chegada do governador Luís Antônio de Souza Botelho, o morgado de Mateus, em 1765, quando deixou de ficar adjudicada à capitania do Rio de Janeiro (p. 359).

Recomendo a leitura do livro O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797, pela sua densidade, nível de informação e por ser um veículo de orientação de como devemos pesquisar e elaborar um texto científico, de leitura agradável e envolvente.

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O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo – 1788-1797, de Adelto Gonçalves, com prefácio de Kenneth Maxwell, apresentação de Carlos Guilherme Mota e fotos de Luiz Nascimento. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 408 páginas, R$ 70,00, 2019. Site: www.imprensaoficial.com.br

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(*) Nireu Cavalcanti, arquiteto formado em 1969 pela Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil, é doutor em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É professor de pós-graduação da Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (UFF), da qual foi seu diretor de 2003 a 2007. É autor de O Rio de Janeiro setecentista: a vida e a construção da cidade da invasão francesa até a chegada da Corte (Zahar, 2003), seu trabalho de doutorado; Histórias e conflitos no Rio de Janeiro colonial: da Carta de Caminha ao contrabando de camisinha – 1500-1807 (Civilização Brasileira, 2013); Arquitetos e Engenheiros: sonho de entidade desde 1978 (Crea-RJ, 2007); Crônicas históricas do Rio colonial (Civilização Brasileira/Faperj, 2004), e Tesouro: o Palácio da Fazenda, da Era Vargas aos 450 anos do Rio de Janeiro (Pébola Casa Editorial, 2015, em co-autoria com Helio Brasil,) entre outros.

NÃO QUERO QUE CAIAM | Carlos Fernando Bondoso

as rugas os olhos a lucidez

que levitam no nevoeiro denso

das manhãs

soltam-se vozes

que na tempestade gritam

cânticos à esperança

talvez o nascer

de um novo lírio na primavera

seja tempo de mudança

a terra é mártir

as pedras obras de arte

os caminhos são estreitos

as vontades são raízes que jamais se apagarão

neste silêncio disfarçado

nascerão novas ideias

vielas

morros de luz

estradas de alcatrão

vão surgir margaridas buganvílias

rosas de lilás

só não quero que caiam

nas mãos dos abutres sedentos

do sangue desta nação

POR CFBB

Albano Martins e a poesia da natureza | por Adelto Gonçalves

I

Pequeno Dicionário Privativo (Porto, Edições Afrontamento, 2017), de Albano Martins (1930-2018), foi o último livro lançado pelo autor, dono de vasta obra que inclui mais de 34 livros de poesia, cinco de prosa, um de poesia e prosa, quatro de literatura infanto-juvenil, dois em colaboração e 24 de traduções de obras poéticas, além de sete que foram por ele organizados, bem como 25 Quadras de Natal, publicado em 2006 pela Universidade Fernando Pessoa, do Porto, que foge a quaisquer dos gêneros acima. Se esta resenha só sai à luz agora, três anos depois da publicação da obra, é por culpa deste resenhista relapso, que recebeu o seu exemplar autografado ainda em abril de 2017, mas a quem, ao saber 14 meses depois do passamento do poeta, faltou-lhe coragem para a tarefa, pois sabia que dele nunca mais receberia resposta para o seu trabalho.

Diga-se que este livro é, na definição de seu autor exposta na dedicatória citada acima, um “dicionário abreviado”, pois nem todas as letras do alfabeto estão contempladas e que, por exemplo, só a letra A recebe oito verbetes-poemas. Mas, como o próprio poeta deixou claro, não o moveu o desejo de formatar um dicionário clássico, que pudesse ser consultado de quando em vez por algum consulente. Foi, isso sim, a maneira que o poeta encontrou de reunir textos que, com ligeiras alterações, foram pela primeira vez publicados no Jornal de Letras, Artes e Ideias, de Lisboa, sem qualquer intenção de dicionarizá-los.

Como observa na nota que antecede o conteúdo, no livro foram ainda incluídos dois textos – “Elegia para uma gata angorá” e “Infância” –, integrados na obra inédita Caderno de Argolas, que encerra o volume As Escarpas do Dia (Porto, Edições Afrontamento, 2010), já que, em razão de sua estrutura narrativa, achavam-se “mais próximos dos textos incluídos na segunda parte do mesmo volume”. Dessa maneira, dizia o autor, os dois textos passavam a ser definitivamente incorporados ao Pequeno Dicionário Privativo, “desvinculados do contexto onde anteriormente se encontravam inseridos”.

II

Da obra do poeta, pode-se lembrar o que observou Sônia Maria de Araújo Cintra, em sua tese de doutorado “Paisagens poéticas na lírica de Albano Martins: natureza, amor, arte”, defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP), sob a orientação da professora doutora Raquel de Sousa Ribeiro, mas que contou ainda com o apoio informal do professor doutor Massaud Moisés (1928-2018): “(…) a lírica de Albano Martins constitui e é constituída de paisagens poéticas, entendidas no sentido de recriação verbal de formas do mundo interior e exterior por um sujeito poético, e que se inscrevem num processo da existência e da linguagem, através da origem, da erotização e da abstração artística e intelectual”. (p.14).

Defendida em 2016, obviamente, a então doutoranda não pôde incluir o Pequeno Dicionário Privativo em sua alentada análise, mas, se tivesse tido a oportunidade de fazê-lo, com certeza, alinharia alguns exemplos que podem ser encontrados neste livro, que mostram a perícia artesanal, a destreza técnica e os recursos inventivos de Albano Martins, ainda que não sejam especificamente poesias em versos livres (ou não), mas verbetes poéticos, ou seja, palavras dicionarizadas que se convertem em poemas, pois dotadas de ritmo. Veja-se, à guisa de exemplo, o verbete “Árvores” em que o poeta recorda a infância em Meimoa, freguesia do concelho de Penamacor, na província da Beira Baixa:

(…) Dormiram comigo, sentaram-se comigo à mesa, foram comigo à escola. Envelheceram. Morreram todas. Cresce hoje a hera onde outrora havia seiva, perfume de flores e de frutos. Sou também uma árvore, ainda de pé, mas, como elas, já sem folhas e sem frutos. Como dizer de tudo isto sem nomear a infância e escutar outra vez o trilo dos pardais nos ramos altos das árvores? (p. 16).

Veja-se também a definição que dá no verbete “Mulher”: “Árvore, fruto, gomo, sumo. A escala – a escada – da volúpia e do prazer. Por ela Orfeu desceu aos infernos. Por ela o homem colhe esporas no abismo” (p. 38). Ou ainda no verbete “Rosa”: “É também às vezes nome de mulher, talvez porque, sendo possuída, se abre como uma flor. Se é esta quem possui, o seu nome verosímil é crisântemo. Ou talvez agapanto. Ou talvez acanto, a flor do canto, a flor-espinho”. (p. 48).

III

Nos textos de maior estrutura narrativa, a poesia da natureza continua ainda mais acentuada, com referências à flora, como se percebe na peça que tem por título “Este chão que me deu a seiva ou esta outra forma de agradecimento”: “(…) Já o disse, repito-o: foi este chão, o chão da Rascoa, que me deu a seiva, me definiu o ser e moldou o carácter. Dele vêm o sol que percorre a minha poesia e o sangue que sustenta as flores que nela medram e vicejam. Depois do leite materno, foram os frutos da terra e as águas da Meimoa que me alimentaram a infância. Eles e o vento que por ali passava às vezes a galope, levando consigo as folhas das árvores, a espuma das horas e a poeira dos dias”. (p. 64).

Na poesia da natureza, também não faltam referência à fauna, como se vê na “Elegia para uma gata angorá”: “(…) Trepava aos móveis, escalava os muros, embrenhava-se pela pequena floresta das traseiras da casa, afiava as unhas no tronco da araucária ou da buganvília (ou subia a esta para colher alguma flor esquecida ou aspirar o seu perfume), mordia alguma erva tenra da passadeira, espreitava atentamente o voo dos pássaros e dos mosquitos ou seguia, da janela, os movimentos fugazes da rua. Envenenaram-na. Mataram-na. A morte é um ultraje à beleza, e tu eras bela. Tu eras a Beleza. Aqui o deixo escrito, em jeito de epitáfio, neste sombrio crepúsculo de verão, com as ondas lá embaixo construindo os seus esquifes de espuma e os seus réquiens de sal e areia”. (p. 67).

IV

Nascido na aldeia do Telhado, concelho do Fundão, distrito de Castelo Branco, na província da Beira Baixa, em Portugal, Albano Martins foi professor do ensino secundário de 1956 a 1976 e licenciado em Filologia Clássica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, exercendo funções docentes na Universidade Fernando Pessoa, do Porto. De 1980 a 1993, quando se aposentou, foi funcionário da Inspeção-Geral do Ensino. Foi um dos fundadores da revista Árvore e é colaborador assíduo das revistas Colóquio/Letras, da Fundação Calouste Gulbenkian, de Lisboa, e Nova Renascença, do Porto, da qual foi secretário de redação.

Estreou em 1950 estreou com Secura Verde, que recebeu segunda edição em 2000. Depois, foram tantos os títulos que sua obra foi por três vezes reunida em volume: a primeira com o título Vocação do Silêncio (Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1990), com prefácio de Eduardo Lourenço; a segunda em Assim São as Algas (Porto, Campo das Letras, 2000); e a terceira no já citado As Escarpas do Dia, que recebeu prefácio de Vitor Manuel de Aguiar e Silva. Seus poemas estão traduzidos em espanhol, inglês, chinês (cantonense) e japonês.

Entre os seus cinco livros de prosa, destacam-se aqueles dedicados ao estudo das obras de Raul Brandão (1867-1930) e Cesário Verde (1855-1886). Entre os livros que organizou, três são antologias de poetas: Eugênio de Castro (1869-1944), David Mourão-Ferreira (1927-1996) e o brasileiro Lêdo Ivo (1924-2012). É tradutor de poetas latinos, gregos do período clássico, espanhóis, italianos e sul-americanos. Entre eles, salientam-se Giacomo Leopardi (1798-1837), Rafael Alberti (1902-1999), Nicolas Guillén (1902-1989), Roberto Juarroz (1925-1995) e Pablo Neruda (1904-1973).

A tradução de Canto General, de Neruda, valeu-lhe, em 1999, o Grande Prêmio de Tradução APT/Pen Clube Português. Por sua tradução de sete obras de Neruda, recebeu do governo chileno a medalha da Ordem de Mérito Docente e Cultural Gabriela Mistral, no grau de grande oficial. O último livro na área de tradução que publicou foi Poemas do Desterro, do poeta romano Ovídio (43a.C.-18d.C.), em 2017.

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Pequeno Dicionário Privativo seguido de Um Punhado de Areia, de Albano Martins. Porto: Edições Afrontamento, 1ª edição, 78 páginas, 12 euros, 2017. E-mail: comercial@edicoesafrontamento.pt Site: www.edicoesafrotamento.pt

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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/Academia Brasileira de Letras, 2012), Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015), Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015) e O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2019), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

AMO-TE MEU AMOR | Carlos Fernando Bondoso

hoje apenas quero estar contigo

e não contar o tempo

que viaja nas nossas mãos

no corpo das horas

já não canto primaveras

sonho apenas quimeras

que me dão madrugadas

e frescura na vida que vamos calcando

sonho-te jorrando palavras de amor

somos testemunhos do tempo

e das longas avenidas da vida

somos o silêncio das coisas

que viajam nos nossos corpos

deixando cair cicatrizes na alma

meu amor retiro do meu corpo

o incenso das folhagens

que marcou o  início

da palavra líquida

que desagua no meu silêncio

amo-te meu amor

Carlos Fernando Bondoso

Maria João Cantinho e a poesia da condição humana | Adelto Gonçalves

                                                          I
             Do Ínfimo (Guaratinguetá-SP, Penalux, 2018), de Maria João Cantinho (1963), publicado em 2016 pela Coisas de Ler, de Lisboa, vencedor do Prêmio Literário Glória de San´Anna de 2017 e finalista do Prêmio PEN (Poets, Essayists and Novelists) de Portugal em sua modalidade em 2017, é o  primeiro livro de poesia da autora lançado no Brasil, mas, desde já, constitui um motivo extremamente forte para que a sua atual editora e outras venham a publicar toda a sua obra, que inclui mais três livros de poesia, quatro de ficção e um de ensaios.
             Obra ligeira de 71 páginas, Do Ínfimo traz, na primeira parte, 24 poemas, reservando na segunda parte, intitulada “Caligrafia da Solidão”, uma prosa poética de 17 páginas, que, publicada em 2005 pela Escrituras Editora, de São Paulo, foi finalista do Prêmio Telecom de 2006. O texto traz dedicatória ao poeta paraense Vicente Franz Cecim (1946), o “mago de Andara”, conhecido tanto no Brasil como em Portugal pela força poética de uma escritura que escapa à classificação em gêneros literários e, não raro, é uma homenagem ao grande e estranho mundo da Amazônia. Basta isso para dizer que a prosa poética de Maria João é igualmente de difícil leitura e apreensão, o que, porém, não constitui obstáculo para que seja usufruída pelo leitor de bom gosto. E que pode ser lida como uma “carta de amor ao poeta”, como já observou a jovem crítica literária Danielle Magalhães (1990), poeta e doutoranda em Letras na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em recensão que fez do livro.
              O texto, como já percebeu o escritor, pesquisador e crítico literário Krishnamurti Góes dos Anjos (1960) em resenha que escreveu para este livro, é um eco ampliado do pensamento do filósofo, ensaísta, tradutor e sociólogo judeu alemão Walter Benjamin (1892-1940), que, aliás, foi tema de tese de mestrado da autora, intitulada “O Anjo Melancólico: Ensaio sobre o Conceito de Alegoria na obra de Walter Benjamin”, que recebeu o Prêmio de Apoio à Edição de Ensaio de 2002 da Direção-Geral do Livro e das Bibliotecas, do Ministério da Cultura português.  
                Trata-se de um texto-metáfora com ressonâncias afetivas, um stream of consciousness (fluxo de consciência), técnica literária usada primeiramente pelo poeta francês Édouard Dujardin (1861-1949). Procura captar o ambiente da Amazônia, especialmente de Belém do Pará, região brasileira que a autora conheceu de perto, além do Rio de Janeiro, como já disse em entrevista. Não é, porém, um texto ditado apenas pela emoção ou por lembranças, que se destaca por sua qualidade lírica, pois se distingue também pelo rigor estilístico e pelo apuro técnico. Sem contar que, inspirado pela visão de mundo de Benjamin, um marxista, nada traz da pomposidade católica ou da esperança evangélica. Nele são raras as apologias religiosas, que são substituídas por referências a filósofos, ainda que seus nomes não sejam explicitamente lembrados, mostrando que a poeta pende mais para a incredulidade e para a descrença. Como exemplo disso, leia-se a parte final de sua prosa poética:
               (…) Depois, veio a chuva e a Terra inundou-se de uma água que era o Tempo, possuída de vozes do passado que percorriam a floresta. E aquele que, dormindo, via tudo em sonhos, chorou por dentro do sono, onde nada o alcançava. Porque luminescera a Letra, fundira o espírito e a carne na Leveza de si mesmo. Reescrevera o homem na mais perfeita Caligrafia da Solidão. E da sua urgência saía agora o pássaro leve, capaz de levar a boa nova aos homens, cujos olhos apenas viam a devastação. O pássaro alimentava-se da sua carne, do seu sangue, libertando-o de si, do sonho. (p. 71).
                                                           II
             Dos 24 poemas que compõem a primeira parte, há pelo menos dois que são explicitamente inspirados na meninice da autora, pois fazem referência à terra de seu pai, Angola, onde ela viveu a infância, tendo retornado a Portugal em 1975, com a guerra civil que, depois da independência do país em novembro daquele ano, continuou até 2002, envolvendo a luta pelo poder entre dois antigos movimentos políticos, o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) e a União Nacional para a Independência Total de Angola (Unita). Um desses poemas é “Há um país antigo que se abriga em mim”, que evoca a época em que Angola ainda era uma colônia portuguesa. Leia-se o poema:
              Há um país antigo que se abriga em mim/ um país de que não me lembro/ senão de mim menina, uma língua/ de sol e água que se cola à minha pele,/ obstinadamente quer ser tempo em mim,/ quer ser boca, procura a abertura,/ escorre entre as fendas da memória,/ como um pássaro de asas partidas./ Há um país antigo que se abriga em mim/ e eu procuro a voz do vento que o cante,/ nessa harpa fria que é memória minha. (p. 27).
              Essa evocação continua em “Um rio, um nome” em que a poeta volta a evocar o vento, as árvores e as águas limpas de um rio daquele pedaço de África, a terra de seu pai, ao tempo em que ela, menina, ainda “não nadara no múltiplo leito de Heráclito” (500a.C-450a.C), o filósofo socrático, considerado o pai da dialética”, cujo pensamento só conheceria a fundo a partir de seus estudos para a tese de doutoramento em Filosofia Contemporânea que defenderia na Universidade Nova de Lisboa. Eis o poema:
              (…) Na terra do meu pai havia laranjas/ e chão, havia sol e murmúrios/ e  nós ouvíamos a respiração da noite/ por dentro das raízes das árvores/ e o rio falava com as pedras/ e com a luz/ e nós corríamos/ ou éramos levados pelo vento/ que acendia a folhagem./ Na terra de meu pai não havia medo/ só um rio e as águas limpas/ onde as mulheres lavavam a roupa/ e cantavam ao som da terra./ Na terra do meu pai corria um rio/ e os homens tinham lugar/ era um rio por coração/ era um nome/ para um homem. (pp. 28-29).
             O que se pode acrescentar ainda de seus versos livres é que são dedicados “às pequenas coisas”, mas, ao mesmo tempo, mostram a pequenez da condição humana e evocam a natureza com imagens poderosas. É o que se pode constatar no poema que dá título ao livro:  
               Não sei senão do ínfimo/ e do murmúrio das pequenas coisas,/ as que não chegam à palavra/ como a sombra ou o vento desenhando-se sob os álamos,/ em quieta reverberação./ E nada sei, senão desse canto/ invisível, mais sonho que metáfora,/ do tempo que é no fruto/ ou do que sabe ser sol, sem alarde/ do breve e da passagem./ E nada sei dessa grandiloquência/ dos homens, das suas promessas/ e dos gestos que traem o coração,/ dessa palavra ou excesso que mata/ a perfeição circular do instante./ Se é vida, sangue ou oiro,/ nada sei, nada de nada/ escondido que ele é/ no ínfimo e na sombra. Oculto. (p.17).
            Como já observou com percuciência o escritor português António Cabrita (1959), residente em Maputo, nos poemas de Maria João Cantinho, “a ênfase não está no brilho (as imagens fulgurantes) mas antes na justeza das palavras”. Para Cabrita, são versos que testemunham um desencontro com as idealidades, disfóricos, versos de onde se parte ou nos quais se vinca que algo se perdeu e que quando encenam um retorno recortam um céu plúmbeo em fundo. “Contudo, a tristeza que neles se plasma foge de consolidar-se como a abstração de um saber, ou da congelação melancólica. Daí que surjam laivos de revolta e vários poemas reclamem um certo cariz social”. Melhor definição não seria possível.
                                                           III
          Nascida em Lisboa, Maria João Cantinho é professora, poeta, crítica literária e ensaísta. É investigadora do Centro de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e colaboradora do Collège d’Études Juives da Universidade da Sorbonne IV, de Paris. Foi professora do ensino secundário e atuou no Creative University of Lisbon (Iade) entre 2011 e 2016. É colaboradora da Revista Colóquio-Letras, da Fundação Calouste Gulbenkian, de Lisboa, e de diversas revistas literárias e acadêmicas, além de membro do Conselho Editorial do Caderno do Grupo de Estudos Walter Benjamin. É também editora da Revista Caliban.
Foi professora-visitante no Brasil em 2013 (Brasília, Goiânia e Rio de Janeiro), tendo feito conferências também na França, Inglaterra, Alemanha, Espanha e Índia. Tem igualmente organizado vários congressos, consagrados ao pensamento de María Zambrano (1904-1991), em 2006, Walter Benjamin, em 2008, Emmanuel Levinas (1906-1955), em 2009, e Paul Celan (1920-1970), em 2012.
Está representada em várias antologias publicadas no Brasil, Espanha, França e México.  É ainda curadora da Coleção Trás-os-Mares, que edita autores portugueses no Brasil, pela Editora Circuito, com o escritor e editor Renato Rezende. É igualmente curadora da Colecção MU-Continente Perdido, da Editora Exclamação, do Porto.
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Do Ínfimo, de Maria João Cantinho. Guaratinguetá-SP, Editora Penalux, 74 págs., 2018, R$ 34,00. Site: www.editorapenalux.com.br E-mail: penaluxeditora@gmail.com
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015), Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015) e O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2019), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br
 


Foto: Revista Caliban
 
Maria João Cantinho: professora, poeta e ensaísta

CREIO NOS ANJOS QUE ANDAM PELO MUNDO | NATÁLIA CORREIA

Creio nos
anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen.

INOMINÁVEL CORPO DESNUDADO | Maria Helena Ventura

O corpo é permanência
carta em branco
registo absoluto do espaço mais azul.
Alma e arquivo
perfeito aconchego dos instantes molhados
na secura dos dias.
Guarda a ressonância das vozes
o fragmento da música
lambendo a madrugada
as águas da deriva em noite quase imóvel.
O corpo sabe tudo:
o nome das presenças
que habitam o silêncio
a intimidade que mora nas ruínas
como erva oblíqua e ressequida.
Sabe de tudo:
das migrações circulares de tempestades
que voltam mais domáveis
na doçura da silhueta de outro dia
de outra noite
fechada no laço
de um beijo.

NA CAMA, O BEIJO, tela de Henri de Toulouse-Lautrec de 1892

Bode Inspiratório | Folhetim | 40 Escritores | 40 Artistas Plásticos

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Um Homem Só | Maria Helena Ventura

SINOPSE DE “UM HOMEM SÓ”

Cumpriu a itinerância de gerações do seu povo, aprendizes dos caminhos da Luz pelas províncias imperiais. Tornou-se adulto entre mercadores, ascetas, homens da lei.

Um dia chegou ao politeúma de Alexandria. Hábil no domínio da palavra, disciplinado por conhecimentos acumulados nas andanças de anos, ganhou o estatuto de rabbi.

Mas o Homem solitário, habituado a cruzar fronteiras físicas e culturais, aprendeu ainda a sabedoria dos terapeutas, praticando o silêncio introspectivo na busca do entendimento da natureza humana em todas as suas dimensões. Percebendo a origem do sofrimento, estava apto a praticar a cura.

A resistência na Diáspora reparou nele. Poderia ser o líder nominal que esperavam? Para pegar em armas o movimento zelote tinha operacionais bem treinados. E aproveitando o chamamento do pai, também ele um destacado membro dos Filhos da Luz, os líderes das comunidades judaicas no Egipto arquitectaram um plano articulado com a resistência dentro da Judeia.

O rabbi estava disposto a regressar à pátria para rever o pai moribundo, para levar palavras de incentivo aos que lutavam pela libertação dos povos. Mas os da Diáspora sabiam que à chegada Yosêph bar Ya´aqôb teria para ele uma missão mais difícil de aceitar.

Todo o cuidado seria pouco na travessia do Sinai, das terras dos edomitas nabateus. Mas o perigo maior vinha do próprio território judaico.

O rabbi chegou, a Palavra passara. Mas ao rever o velho pai  já no limite das forças, Yeshûa era confrontado com a revelação: tinha de preparar-se durante menos de um ano para segurar o ceptro. Seria ele o Messias, o rei judeu esperado por gerações. Precisava casar, gerar linhagem, aceitar as regras impostas pelo cérebro da Nova Aliança sediado no deserto.

Não teve coragem para dizer não a um moribundo. Mas os métodos da resistência na pátria excluíam muita gente, e Yeshûa entendia que todos os homens tinham uma origem e um destino comuns. E que sendo filhos de um só Pai, eram todos irmãos.

Pouco tempo durou o franco alheamento dos poderes. Banhado pela graça da esperança num mundo de equilíbrio fraternal, feliz com o casamento, com a escolha dos companheiros próximos, cedo percebeu que era um Homem cada vez mais só na construção de uma utopia perene.

Nem a maioria dos discípulos entendia ou queria entender o que pregava. A mudança teria um preço que não estavam dispostos a pagar. E o Messias, que nunca chegou a ser ungido, foi condenado pelos poderes como o cordeiro redentor dos pecados de todos os resistentes.

Mas voltaria.

—— // ——

Por torre de guarda te pus entre o meu povo, por fortaleza,

para que soubesses e examinasses o seu caminho

JEREMIAS, 6.27

            De regresso à casa grande de Tariqueia, Jesus encontra Maria por detrás da janela, a tecer uma manta no tear de pedal. Veste uma túnica de linho tingida com jacinto, tão linda que fica a olhá-la da porta, já a derradeira claridade se esbate contra o maciço de terebinto a rasar a parede exterior.

 A imagem do pai vem-lhe à lembrança como um clarão de luz. Se fosse vivo, ter-lhe-ia perguntado

         Os teus olhos agradaram-se dela?

 E ele apenas teria dito, num embaraço de filho

         Agradaram…

 Ainda sob o calor da emoção, pronuncia o nome tantas vezes dito em silêncio, nas noites de Karem-El

         Miriam…

         Ela levanta-se à pressa, assustada com o chamamento

  Terás de voltar a Beth-Bara…temo pela tua segurança

 Não digas isso, Yeshûa, posso ser muito útil por aqui

 Farei melhor papel se te souber protegida. Mas antes de partires, consegues dar uma palavra às mulheres dos discípulos?

 Não as conheço muito, mas farei o que ordenares

 É apenas um pedido, não uma ordem. Que passem esta mensagem: de agora em diante haverá um caminho comum…só ele levará à salvação, mas é preciso percorrê-lo de mãos dadas

 Tentarei…Não sei se vão entender o significado dessas palavras, mas tentarei

 Talvez devas convencer primeiro as mulheres de Zebedeu e do filho, a mulher de Mattiyahu… Se o conseguires, podem elas convencer as outras, gerando uma cadeia sólida. Precisamos de ter o povo por nós, Miriam

 Precisas é de gente com meios para reorganizar o grupo dos nazireus, em nome de quem falarás…para prover a comunidade de comida e agasalho…seguidores como aqueles que Eleazar trouxe às bodas

 Não cuides tanto, Miriam…as aves do céu não conhecem gente com meios e sempre encontram um ninho, o que comer…

Maria Helena Ventura

Início do CAPÍTULO XXIV do Romance UM HOMEM SÓ, 2ª. edição, publicado pelas Edições Saída de Emergência em Maio de 2010

Poeta com P de Preto lança livro de poemas | Rilton Junior | por Valdeck Almeida de Jesus

A Antologia Poética “A Poesia é o Alimento para quem tem Fome de Conhecimento” é o primeiro livro do Escritor, Poeta e Ator Rilton Junior também conhecido como Poeta com P de Preto. A capa e o Prefácio 1 foram criados por Marcos Paulo e o Prefácio 2 escrito por Luz Marques, a orelha leva o nome de Nelson Maca, a correção das poesias ficou por conta de Fernando Gonzaga e Rose Oliveira, a organização de Valdeck Almeida de Jesus e recebe o selo da Editora Galinha Pulando.

A obra prima será lançada nos dias:
05.03.2020 (quinta-feira), às 18hs, no Foyer do Teatro Jorge Amado, avenida Manoel Dias da Silva, 2177 – Pituba
Música: Nitorê Akadã
Dança: Deusa Gisele Soares
Poesia: Poeta com P de Preto

08.03.2020 (domingo), das 15h às 19hs, no SITOC, Rua do Passo, 40, Peloutinho, Salvador-BA
Música: Nitorê Akadã
Imperatriz Beatriz
Dança: Deusa Gisele Soares
Poesia: Poeta com P de Preto
Percussão: Vitor Navar
Exposição de Desenhos: Luz Marques

O livro conta com mais de 40 poemas autorais, um conto e uma Carta aos Homens Pretos, de Rilton Junior e alguns poemas em coaturoria com parceiros(as) de caminhada cultural, e nele o(a) leitor(a) poderá ver diversas vertentes da literatura preta do poeta problematizando a Masculinidade Tóxica imposta aos homens pretos através do processo de colonização histórico, falando do Amor Preto expondo suas composições que narram sua vivência afetiva; irá ver também suas escrevivências relatando como é a Paternidade Afrocentrada, já que em meio a sociedade racista, não se vê representações do jovem preto como um pai responsável. E é essa a proposta do autor, uma releitura aos estereótipos impostos aos jovens negros. Veremos também um capítulo dedicado a denunciar o Racismo Estrutural na cidade de São Salvador, intitulado “City Racist”, enaltecendo “Afrika” como sendo o berço da Humanidade e fonte de todo conhecimento, elevando “Nossas Vozes” e potencializando cada narrativa periférica, e com o capítulo Fotoesia auxilia na imersão a essa construção artística vivenciada pelo autor.

Rilton Junior propõe uma reconexão com o saber afro-ancestral numa compilação de escritas sensitivas e expressivas acerca da sua caminhada com a literatura, desde o Resistência Poética até a realização do projeto autoral o Poeta com P de Preto. “Este livro é uma arma de alta periculosidade, violentamente pacífica, verídica, política e antirracista”, afirma o poeta!

O artista plástico Marcos Paulo Silva, também autor da capa do livro de Rilton e coautor de poema incluído na obra afirma “Se te incomoda ver a juventude preta unida para vencer o racismo, nem precisa continuar essa leitura. A poesia de Rilton Júnior, o Poeta com P de Preto, atua na linha de frente da luta antirracista, de forma contundente, sua poesia revive ancestrais, reivindica identidades e nos faz sentir a necessidade de quebrar os grilhões que acorrentam o povo preto desde a diáspora.”

Para Nelson Maca, que escreveu a orelha do livro, “Rilton é mesmo um Poeta com P de Preto. Fato. Não se enganem. 3P maiúsculos. Assim ele assina e assim seus poemas o representam. Não passa pano pra racistas e opressores de nenhuma espécie. Seus versos ditam a todos que queiram ler, de nosso jeito, nossos próprios traços e sentimentos. Como nós, pretos e pretas, nos vemos e exigimos que nos identifiquem. Representatividade, como se diz hoje. Sem chance para estereótipos que nos jogam para trás.”

Já Luz Marques, escritora, atriz e prefaciadora dessa antologia, faz uma expressiva tradução do poeta: “Aqui a realidade é mola propulsora para a libertação. Cada um de nós que pode degustar do livro “A poesia é o alimento para quem tem fome de conhecimento” é no mínimo privilegiado por tocar, conhecer e de certa forma fazer parte do mundo, da literatura, das palavras e da resistência daquele que é o Poeta com P de Preto. E olhe que a palavra poeta é apenas uma parte do ser pai, companheiro, filho, amigo, irmão, compadre e indefinível que é Rilton Júnior.”

Durante o coquetel de lançamento, o autor vai falar sobre as parcerias ao longo do caminho, seu processo de escrita, a experiência da organização e publicação do livro, bem como a a experiência do livro impresso e lançado.

Serviço:

O quê: Lançamento do livro A poesia é alimento para quem tem fome de conhecimento, de Rilton Junior

Quando e Onde: 05.03.2020, às 18hs, no Foyer do Teatro Jorge Amado, avenida Manoel Dias da Silva, 2177 – Pituba / 08.03.2020, 15 às 19hs, no SITOC, Rua do Passo, 40 – Pelourinho, Salvador-BA

Quanto: R$ 30,00 (valor do livro)

Contato para entrevista: Rilton Junior 71 99272 0708

https://galinhapulando.blogspot.com/2020/02/poeta-com-p-de-preto-lanca-livro-de.html
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