Entre mulheres – Diário de um lisboeta (romance) | em breve nas Livrarias | Vera de Vilhena

Pré-venda de promoção, no site da poética  edições. Só até 15 de Julho.
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«Uma história de vida, narrada com um humor subtil, uma desenvoltura surpreendente e uma simplicidade desarmante, quase subversiva.» 
Rita Ferro, escritora
 
«A literatura é porventura a única máquina do tempo eficaz e romanticamente fiável. Neste livro, a memória é crucial para se entender a paletta difícil de sentimentos que cruzam a vida das pessoas. A história transporta-nos para o que há de melhor em nós, em todos nós, numa escrita irrepreensível, capaz de nos tocar e de nos tomar de assalto.»
Patrícia Reis, escritora, editora.
 
SINOPSE
Percorrendo um espelho de memórias, que parte das ruas de Lisboa e se ramifica na infância, nas conjecturas e dilemas, numa sofrível determinação, na incerteza e nostalgia de um homem a sós, o leitor vai descobrindo o seu próprio reflexo. A reinvenção dos laços familiares quebrados, a sua justiça ou merecimento, dificilmente serão previsíveis ou consentidos. O projecto da escrita, devorado com absurdo idealismo, vai simbolizando a metamorfose a que assistimos página a página, impulsionada pela descoberta da leitura e o erotismo de alguns encontros. Neste romance, as mulheres que flutuam na esfera de emoções do protagonista – filho, marido, irmão, pai e amante –, constituem o pilar da sua salvação. Apesar de tudo. Ou não fosse a vida. 
 
Nas livrarias a partir de 25 de Julho
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https://www.youtube.com/watch?v=exn9qVRxJzY

Sombras da infância na poesia de Moura Campos | por Adelto Gonçalves

 I

O poeta e crítico espanhol Carlos Bousoño (1923-2015), em Teoría de la Expresión Poética (Madri, Gredos, 1970), observa que a poesia deve passar ao leitor, por meio de palavras, um conhecimento de índole muito especial, ou seja, um conteúdo psíquico que na vida real se oferece como individual, como um todo particular, síntese intuitiva, única, daquilo que passa pela alma do autor. Isso não significa que a poesia deve ter rimas, ritmo, melopeia ou versos, pois nada disso a caracteriza. Caso contrário, sempre que estivéssemos diante de um texto em verso teríamos poesia, como observa o professor Massaud Moisés (1928-2018) em Dicionário de Termos Literários (São Paulo, Cultrix, 2005). E não é assim.

Lembra-se isto a propósito do livro do poeta Francisco Moura Campos (1942-2017), Refúgios do Tempo (Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2016), que reúne reminiscências do autor, ou seja, lembranças de sua vida em duas cidades do Interior do Estado de São Paulo (Botucatu e São Carlos) e na capital paulista, que marcam as três partes em que está dividido o volume. O lançamento deste livro ocorreu em novembro de 2016 e, a 14 de outubro de 2017, Moura Campos faleceu, vitimado por leucemia.

Nos 40 poemas que compõem a primeira parte do livro estão presentes reminiscências da infância e adolescência do autor em sua cidade natal, Botucatu, como as ruas, a casa da avó, os bares, as pescarias, os footings aos domingos à noite, especialmente aqueles que se passavam na Rua Amando, os jogos de futebol, em especial os da Ferroviária, o armazém de secos e molhados, uma viagem a São Paulo a fim de ver um São Paulo x Corinthians no estádio do Pacaembu e até uma homenagem ao professor que lhe ensinou a escrever e despertou sua vocação para a literatura.

Nesse sentido, não se pode discordar da dramaturga, ensaísta, poetisa e tradutora Renata Pallottini, quando diz, na contracapa do livro, que a  poesia de Francisco Moura Campos “consegue arrancar do mais profundo das sombras da infância a pureza e o sabor da terra, que o tempo havia tentado sepultar”, definindo-a como “uma poesia nítida e dedicada a reinventar o perdido e o nunca encontrado”.

Não são poemas que se exprimam por metáforas, mas que refletem o que se registrou na mente do poeta ao longo do anos, fazendo um resgate de “reminiscências que se aproximam do conto, da crônica”, como observa o poeta Caio Porfírio Carneiro, autor do texto das abas do livro, acrescentando, com percuciência, que os textos de Moura Campos passeiam, de maneira mágica, “entre diversos meios literários, sem fuga possível da pulsação poética, que vem imediatamente ao vivo em quaisquer destas criações, valendo-se de sua arma poderosa: simples sem ser fácil”.

Em outras palavras: trata-se de uma prosa poética, que sai do coração de quem se sente profundamente ligado a tudo o que compôs a sua vida: familiares e amigos, a casa e os objetos guardados, as recordações de infância e dos lugares por onde passou, os sonhos, os anseios, enfim, o tecido com que se faz a própria vida. Eis um exemplo (“Noturno da Rua Cesário Alvim”):

É o apito do trem no meio da noite:

            – Enternecimento…

            Diz-se que vai chover se o apito vem de perto.

            É o relógio da Igreja Nossa Senhora de Lourdes

            soando a cada quinze minutos

            numa espécie de badalar luminescente marcando

            o tempo… É muito bom.

            São os gatos chorando alto, feito crianças.

            São os pios dos morcegos.

            É o assovio dos fios quando venta forte.

            Nos silêncios da vida

            esses rumores vão comigo.

II

Na segunda parte, dedicada à cidade de São Carlos, as lembranças são menos variadas e os poemas em menor número (17). Trazem, porém, o viço da juventude: o aluno de Engenharia descobre os prazeres noturnos das conversas amenas com os amigos nos bares ou participa de serenatas debaixo das casas das musas inspiradoras dos estudantes. Eis um exemplo (“Serenata”):

(…) A serenata cortava o silêncio da madrugada

                        e o céu era um manto de estrelas aberto sobre nós.

Há ainda lembranças que se haviam grudado nos olhos, indiferentes à passagem do tempo, como se pode ver no poema “Trem”:

Da minha janela vejo o trem da Paulista

Que vai chegando, chegando, e para.

Os habitantes da cidade acertam seus relógios.

Depois o trem apita, sai devagarinho

E o silêncio da noite volta a se derramar

Pelas ruas de São Carlos.

Este trem partirá, todas as noites, do meu coração.

Ou ainda recordações dos bailinhos marcados pelo compasso dos primeiros tempos de um ritmo novo, a Bossa Nova, e de um de seus maiores precursores, Dick Farney (1921-1987), como se lê no poema “Baile com a orquestra de Dick Farney”:

(…) Havia grandes solos. Naipes exuberantes.

            O crooner era perfeito.

            Fim de baile, pedimos uma canja e Dick Farney

             concedeu duas.

III

A parte final, reservada à cidade de São Paulo, reúne apenas três poemas, que resumem a entrada do poeta na vida adulta, depois de sua formatura como engenheiro, passando por uma admiração incondicional pelo pianista norte-americano Bill Evans (1929-1980), até uma paixão não correspondida por uma moça que tinha o apelido de Caçula e que foi a diva de seu primeiro poema. Estes poucos versos aparecem integrados ao poema que leva o nome da amada e que se encerra assim:

(…) Caçula caminha comigo, mãos dadas

            numa estrada de ternura, de pedras cravadas no tempo,

            de nunca mais.

IV

Francisco Moura Campos, que era mais conhecido como Chico Moura, foi engenheiro de profissão, mas sempre esteve ligado à literatura. Foi editor de livros de poesia e lançou vários poetas pela Editora Metrópole, de São Paulo, da qual foi sócio-diretor em 1986. Sua estreia nas letras deu-se em 1980 com O sorriso do drama (Massao Ohno/Hoswitha Kempf).

Publicou também Ponteios da madrugada (Limiar, 2010), com o qual recebeu o Prêmio Programa de Ação Cultural (Proac) da Secretaria da Cultura de São Paulo. É autor ainda de Brejeiro (Scortecci, 1985);  Canção (Metrópolis, 1986); Museu de Mariana (Scortecci, 1990); Itinerário Enternecido (Scortecci, 1991); Arroz com Feijão (Scortecci, 1992); Outdoor (Scortecci, 1994); Antologia Poética (Iluminuras, 1998); Renascer (Escrituras, 2005); e Acalanto (Scortecci, 2011).

Durante anos, trocou experiências literárias com Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). Seu livro Antologia Poética traz na contracapa uma das cartas que Drummond lhe escreveu. Na contracapa de Refúgios do Tempo, há a reprodução de um trecho de uma dessas cartas em que Drummond diz que Moura Campos “constrói brinquedinhos que ajudam a viver, e isso é puro”.

Foi diretor da União Brasileira de Escritores (UBE) e participou ativamente por mais de 40 anos da vida cultural de São Paulo, ministrando oficinas de poesia, palestras, bem como performances e saraus lítero-musicais. Foi membro do júri do Prêmio Portugal Telecom de Literatura – Portugal.

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Refúgios do Tempo, de Francisco Moura Campos. Taubaté-SP: Associação Cultural Letra Selvagem, 88 páginas, 2016, R$ 20,00. E-mail da editora: letraselvagem@letraselvagem.com.br Site: www.letraselvagem.com.br

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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015) e Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

Tibete: o diário de um arauto do caos | de Silas Corrêa Leite por Adelto Gonçalves

I
Em Dicionário de Termos Literários, o professor Massaud Moisés (1928-2018) incorpora à literatura brasileira o termo alemão bildungsroman, definindo-o como uma narrativa que lida com a experiência das personagens vivida durante a educação ou os anos de aprendizado. Em outras palavras: é o romance de formação, que, a rigor, nasceu com o livro Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister (1796), de Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), em que o autor procura retratar e discutir a sociedade de seu tempo de maneira global, colocando no centro do romance a questão da formação do indivíduo. O objetivo foi o de apresentar o caminho traçado por uma personagem principal de sua infância à maturidade, em busca de crescimento psicológico, político e social.
O termo, porém, teria sido empregado pela primeira vez em 1803, pelo professor alemão Joan Karl Simon Morgenstern (1770-1852), de Filologia Clássica, durante a realização de uma conferência, mas só em 1820 o estudioso haveria de associá-lo ao romance de Goethe, que, a partir de então, passaria a ser considerado o marco inaugural de um gênero à parte no romance.
No Brasil, O Ateneu, Raul Pompéia (1863-1895), lançado inicialmente em formato de folhetim pelo jornal Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, em 1888, é até hoje considerado o maior romance de formação da literatura brasileira. Ao contrário de outras obras do Realismo, O Ateneu não possui um enredo preenchido por acontecimentos inusitados, intrigas, ações, como nos romances comuns, mas reúne análises do autor acerca de seus companheiros num colégio interno e impressões a respeito de assuntos científicos, psicológicos e do cotidiano.
Agora surge o romance Tibete: de quando você não quiser mais ser gente, de Silas Corrêa Leite, lançado ao final de 2017 pela Editora Jaguatirica, do Rio de Janeiro, que segue nessa trilha e apresenta-se como o mais novo exemplo de um bildungsroman na literatura brasileira. Constitui, na verdade, um diário que, nas palavras do seu autor, “informa, transforma, disforma, forma, metamorfoseia, “vidamorfoseia”, expõe grilhetas, desforras e delata, mostra as garras, a faca entre os dentes ( …)”.
Na capa do romance, o autor já faz aviso: “Destruam este diário, ou destruam suas vidas”. De fato, o que o leitor vai encontrar é uma espécie de diário de resistência e luta, em que o principal protagonista relata as tormentas de um ex-escritor marcado, com altos e baixos na vida, mas, afinal, evoluído socialmente falando, e que num determinado momento, descobre que não é feliz, avaliando que o que conquistou não o satisfaz para concluir que “vencer na vida” não é tudo, não significa nada, não faz sentido. “Já fiz coisas horríveis por muito dinheiro. Como trabalhar feito um condenado. Vender a alma para promoção, chefiar, mandar. Pois é, para quê? Depois, o dinheiro não era tudo e o vazio era enorme, imenso”, escreve.
II
Este é ainda o relato de um escritor, com muitos livros publicados, mas que agora se mostra disposto a abandonar a carreira (?), resolvendo deixar para trás a cidade-grande e os seus infinitos círculos de amizade (interesseira ou não) e retornar para a sua aldeia natal, a pequena cidade de Itararé, localizada na divisa entre os Estados de São Paulo e Paraná, que ficou para a história como o local de um episódio pitoresco da chamada Revolução de 1930, quando Getúlio Vargas (1882-1954) partiu de trem de Porto Alegre rumo ao Rio de Janeiro, então a capital federal.
Esperava-se que ocorresse uma grande batalha em Itararé, que, afinal, não houve, pois a cidade acolheu Getúlio Vargas na estação ferroviária, permitindo sua entrada no Estado de São Paulo. Em seguida, os militares depuseram o presidente Washington Luiz (1869-1957) a 24 de outubro daquele ano. Aliás, aquele movimento de revolução pouco teve, pois foi apenas um confronto em que a nascente elite industrial apoiou o golpe do ex-ministro Getúlio Vargas para derrotar a elite cafeicultora representada pelo presidente Washington Luiz e alguns velhos oligarcas de São Paulo e Minas Gerais.
É nesta cidadezinha mítica, que serviu de inspiração para o jornalista, escritor e humorista Aparício Torelly (1895-1971) adotar o falso título de nobreza barão de Itararé, que o agora ermitão imaginado por Silas Corrêa Leite (espécie de alter ego?) sonha entrar num mosteiro ateu ou um monastério laico para passar o resto da vida, exercitando um anarquismo de caráter pessoal. E descobrir o seu próprio Tibete, que seria similar ao verdadeiro Tibete, que está localizado numa região de planalto da Ásia, ao norte da cordilheira do Himalaia, e que já foi território chinês, até que em 1913 houve a “expulsão dos chineses” por um grupo liderado pelo 13º Dalai Lama. Hoje, o Tibete é um território autônomo dentro da República Popular da China, cuja capital é Lassa ou Lhasa, que literalmente significa “lugar dos deuses”.
Como se vê, o protagonista do novo romance de Silas Corrêa Leite flerta bastante com o budismo tibetano, mas é, antes de tudo, um inadaptado, um ser antissocial, que nunca se entrosou nas corporações que frequentou e das quais se fez associado, até o dia em que decidiu jogar tudo para o alto. “Eu não era aquilo, qualquer coisa no meio deles. Sempre um estrangeiro. Um esquisito, carta fora do baralho. Um alienado total. Então, por que escrever tanto contra tudo e contra todos, feito um arauto do caos, um profeta desarticulador do modus operandi do sistema?”
Por este estilo anárquico e demolidor, o leitor pode perceber que não perderá nada em descobrir este novo romance de Silas Corrêa Leite. Pelo contrário, ganhará muito ao conhecer uma prosa cativante, antenada com o Brasil das últimas cinco décadas, essa barafunda em que os articuladores do golpe civil-militar de 1964 enfiaram o País e que, até hoje, não se sabe onde nos vai levar.
III
Silas Corrêa Leite é poeta, romancista, letrista, professor, desenhista, jornalista, resenhista, ensaísta, conselheiro diplomado em Direitos Humanos e membro da União Brasileira de Escritores (UBE), além de blogueiro e ciberpoeta. É formado em Direito, Geografia e cursou extensões e pós-graduações nas áreas de Educação, Filosofia, Inteligência Emocional, Jornalismo Comunitário, Literatura na Comunicação, entre outras.
Tem mais de 20 livros publicados, entre os quais: Goto: a Lenda do Reino do Barqueiro Noturno do Rio Itararé (romance), Gute Gute: Barriga Experimental de Repertório (romance infanto-juvenil), Porta-Lapsos (poemas) e Campo de Trigo Com Corvos (contos). É autor ainda do primeiro livro interativo da Internet, o e-book O rinoceronte de Clarice. Foi finalista do Prêmio Telecom, Portugal.
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Tibete, de quando você não quiser mais ser gente, de Silas Corrêa Leite. Rio de Janeiro: Jaguatirica Editora, 382 páginas, 2017. E-mail da editora: jaguatiricadigital@gmail.com E-mail do autor: poesilas@terra.com.br
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/Academia Brasileira de Letras, 2012), Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015) e Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br