Entre mulheres – Diário de um lisboeta (romance) | em breve nas Livrarias | Vera de Vilhena

Pré-venda de promoção, no site da poética  edições. Só até 15 de Julho.
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«Uma história de vida, narrada com um humor subtil, uma desenvoltura surpreendente e uma simplicidade desarmante, quase subversiva.» 
Rita Ferro, escritora
 
«A literatura é porventura a única máquina do tempo eficaz e romanticamente fiável. Neste livro, a memória é crucial para se entender a paletta difícil de sentimentos que cruzam a vida das pessoas. A história transporta-nos para o que há de melhor em nós, em todos nós, numa escrita irrepreensível, capaz de nos tocar e de nos tomar de assalto.»
Patrícia Reis, escritora, editora.
 
SINOPSE
Percorrendo um espelho de memórias, que parte das ruas de Lisboa e se ramifica na infância, nas conjecturas e dilemas, numa sofrível determinação, na incerteza e nostalgia de um homem a sós, o leitor vai descobrindo o seu próprio reflexo. A reinvenção dos laços familiares quebrados, a sua justiça ou merecimento, dificilmente serão previsíveis ou consentidos. O projecto da escrita, devorado com absurdo idealismo, vai simbolizando a metamorfose a que assistimos página a página, impulsionada pela descoberta da leitura e o erotismo de alguns encontros. Neste romance, as mulheres que flutuam na esfera de emoções do protagonista – filho, marido, irmão, pai e amante –, constituem o pilar da sua salvação. Apesar de tudo. Ou não fosse a vida. 
 
Nas livrarias a partir de 25 de Julho
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https://www.youtube.com/watch?v=exn9qVRxJzY

Sombras da infância na poesia de Moura Campos | por Adelto Gonçalves

 I

O poeta e crítico espanhol Carlos Bousoño (1923-2015), em Teoría de la Expresión Poética (Madri, Gredos, 1970), observa que a poesia deve passar ao leitor, por meio de palavras, um conhecimento de índole muito especial, ou seja, um conteúdo psíquico que na vida real se oferece como individual, como um todo particular, síntese intuitiva, única, daquilo que passa pela alma do autor. Isso não significa que a poesia deve ter rimas, ritmo, melopeia ou versos, pois nada disso a caracteriza. Caso contrário, sempre que estivéssemos diante de um texto em verso teríamos poesia, como observa o professor Massaud Moisés (1928-2018) em Dicionário de Termos Literários (São Paulo, Cultrix, 2005). E não é assim.

Lembra-se isto a propósito do livro do poeta Francisco Moura Campos (1942-2017), Refúgios do Tempo (Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2016), que reúne reminiscências do autor, ou seja, lembranças de sua vida em duas cidades do Interior do Estado de São Paulo (Botucatu e São Carlos) e na capital paulista, que marcam as três partes em que está dividido o volume. O lançamento deste livro ocorreu em novembro de 2016 e, a 14 de outubro de 2017, Moura Campos faleceu, vitimado por leucemia.

Nos 40 poemas que compõem a primeira parte do livro estão presentes reminiscências da infância e adolescência do autor em sua cidade natal, Botucatu, como as ruas, a casa da avó, os bares, as pescarias, os footings aos domingos à noite, especialmente aqueles que se passavam na Rua Amando, os jogos de futebol, em especial os da Ferroviária, o armazém de secos e molhados, uma viagem a São Paulo a fim de ver um São Paulo x Corinthians no estádio do Pacaembu e até uma homenagem ao professor que lhe ensinou a escrever e despertou sua vocação para a literatura.

Nesse sentido, não se pode discordar da dramaturga, ensaísta, poetisa e tradutora Renata Pallottini, quando diz, na contracapa do livro, que a  poesia de Francisco Moura Campos “consegue arrancar do mais profundo das sombras da infância a pureza e o sabor da terra, que o tempo havia tentado sepultar”, definindo-a como “uma poesia nítida e dedicada a reinventar o perdido e o nunca encontrado”.

Não são poemas que se exprimam por metáforas, mas que refletem o que se registrou na mente do poeta ao longo do anos, fazendo um resgate de “reminiscências que se aproximam do conto, da crônica”, como observa o poeta Caio Porfírio Carneiro, autor do texto das abas do livro, acrescentando, com percuciência, que os textos de Moura Campos passeiam, de maneira mágica, “entre diversos meios literários, sem fuga possível da pulsação poética, que vem imediatamente ao vivo em quaisquer destas criações, valendo-se de sua arma poderosa: simples sem ser fácil”.

Em outras palavras: trata-se de uma prosa poética, que sai do coração de quem se sente profundamente ligado a tudo o que compôs a sua vida: familiares e amigos, a casa e os objetos guardados, as recordações de infância e dos lugares por onde passou, os sonhos, os anseios, enfim, o tecido com que se faz a própria vida. Eis um exemplo (“Noturno da Rua Cesário Alvim”):

É o apito do trem no meio da noite:

            – Enternecimento…

            Diz-se que vai chover se o apito vem de perto.

            É o relógio da Igreja Nossa Senhora de Lourdes

            soando a cada quinze minutos

            numa espécie de badalar luminescente marcando

            o tempo… É muito bom.

            São os gatos chorando alto, feito crianças.

            São os pios dos morcegos.

            É o assovio dos fios quando venta forte.

            Nos silêncios da vida

            esses rumores vão comigo.

II

Na segunda parte, dedicada à cidade de São Carlos, as lembranças são menos variadas e os poemas em menor número (17). Trazem, porém, o viço da juventude: o aluno de Engenharia descobre os prazeres noturnos das conversas amenas com os amigos nos bares ou participa de serenatas debaixo das casas das musas inspiradoras dos estudantes. Eis um exemplo (“Serenata”):

(…) A serenata cortava o silêncio da madrugada

                        e o céu era um manto de estrelas aberto sobre nós.

Há ainda lembranças que se haviam grudado nos olhos, indiferentes à passagem do tempo, como se pode ver no poema “Trem”:

Da minha janela vejo o trem da Paulista

Que vai chegando, chegando, e para.

Os habitantes da cidade acertam seus relógios.

Depois o trem apita, sai devagarinho

E o silêncio da noite volta a se derramar

Pelas ruas de São Carlos.

Este trem partirá, todas as noites, do meu coração.

Ou ainda recordações dos bailinhos marcados pelo compasso dos primeiros tempos de um ritmo novo, a Bossa Nova, e de um de seus maiores precursores, Dick Farney (1921-1987), como se lê no poema “Baile com a orquestra de Dick Farney”:

(…) Havia grandes solos. Naipes exuberantes.

            O crooner era perfeito.

            Fim de baile, pedimos uma canja e Dick Farney

             concedeu duas.

III

A parte final, reservada à cidade de São Paulo, reúne apenas três poemas, que resumem a entrada do poeta na vida adulta, depois de sua formatura como engenheiro, passando por uma admiração incondicional pelo pianista norte-americano Bill Evans (1929-1980), até uma paixão não correspondida por uma moça que tinha o apelido de Caçula e que foi a diva de seu primeiro poema. Estes poucos versos aparecem integrados ao poema que leva o nome da amada e que se encerra assim:

(…) Caçula caminha comigo, mãos dadas

            numa estrada de ternura, de pedras cravadas no tempo,

            de nunca mais.

IV

Francisco Moura Campos, que era mais conhecido como Chico Moura, foi engenheiro de profissão, mas sempre esteve ligado à literatura. Foi editor de livros de poesia e lançou vários poetas pela Editora Metrópole, de São Paulo, da qual foi sócio-diretor em 1986. Sua estreia nas letras deu-se em 1980 com O sorriso do drama (Massao Ohno/Hoswitha Kempf).

Publicou também Ponteios da madrugada (Limiar, 2010), com o qual recebeu o Prêmio Programa de Ação Cultural (Proac) da Secretaria da Cultura de São Paulo. É autor ainda de Brejeiro (Scortecci, 1985);  Canção (Metrópolis, 1986); Museu de Mariana (Scortecci, 1990); Itinerário Enternecido (Scortecci, 1991); Arroz com Feijão (Scortecci, 1992); Outdoor (Scortecci, 1994); Antologia Poética (Iluminuras, 1998); Renascer (Escrituras, 2005); e Acalanto (Scortecci, 2011).

Durante anos, trocou experiências literárias com Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). Seu livro Antologia Poética traz na contracapa uma das cartas que Drummond lhe escreveu. Na contracapa de Refúgios do Tempo, há a reprodução de um trecho de uma dessas cartas em que Drummond diz que Moura Campos “constrói brinquedinhos que ajudam a viver, e isso é puro”.

Foi diretor da União Brasileira de Escritores (UBE) e participou ativamente por mais de 40 anos da vida cultural de São Paulo, ministrando oficinas de poesia, palestras, bem como performances e saraus lítero-musicais. Foi membro do júri do Prêmio Portugal Telecom de Literatura – Portugal.

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Refúgios do Tempo, de Francisco Moura Campos. Taubaté-SP: Associação Cultural Letra Selvagem, 88 páginas, 2016, R$ 20,00. E-mail da editora: [email protected] Site: www.letraselvagem.com.br

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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015) e Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015), entre outros. E-mail: [email protected]

Tibete: o diário de um arauto do caos | de Silas Corrêa Leite por Adelto Gonçalves

I
Em Dicionário de Termos Literários, o professor Massaud Moisés (1928-2018) incorpora à literatura brasileira o termo alemão bildungsroman, definindo-o como uma narrativa que lida com a experiência das personagens vivida durante a educação ou os anos de aprendizado. Em outras palavras: é o romance de formação, que, a rigor, nasceu com o livro Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister (1796), de Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), em que o autor procura retratar e discutir a sociedade de seu tempo de maneira global, colocando no centro do romance a questão da formação do indivíduo. O objetivo foi o de apresentar o caminho traçado por uma personagem principal de sua infância à maturidade, em busca de crescimento psicológico, político e social.
O termo, porém, teria sido empregado pela primeira vez em 1803, pelo professor alemão Joan Karl Simon Morgenstern (1770-1852), de Filologia Clássica, durante a realização de uma conferência, mas só em 1820 o estudioso haveria de associá-lo ao romance de Goethe, que, a partir de então, passaria a ser considerado o marco inaugural de um gênero à parte no romance.
No Brasil, O Ateneu, Raul Pompéia (1863-1895), lançado inicialmente em formato de folhetim pelo jornal Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, em 1888, é até hoje considerado o maior romance de formação da literatura brasileira. Ao contrário de outras obras do Realismo, O Ateneu não possui um enredo preenchido por acontecimentos inusitados, intrigas, ações, como nos romances comuns, mas reúne análises do autor acerca de seus companheiros num colégio interno e impressões a respeito de assuntos científicos, psicológicos e do cotidiano.
Agora surge o romance Tibete: de quando você não quiser mais ser gente, de Silas Corrêa Leite, lançado ao final de 2017 pela Editora Jaguatirica, do Rio de Janeiro, que segue nessa trilha e apresenta-se como o mais novo exemplo de um bildungsroman na literatura brasileira. Constitui, na verdade, um diário que, nas palavras do seu autor, “informa, transforma, disforma, forma, metamorfoseia, “vidamorfoseia”, expõe grilhetas, desforras e delata, mostra as garras, a faca entre os dentes ( …)”.
Na capa do romance, o autor já faz aviso: “Destruam este diário, ou destruam suas vidas”. De fato, o que o leitor vai encontrar é uma espécie de diário de resistência e luta, em que o principal protagonista relata as tormentas de um ex-escritor marcado, com altos e baixos na vida, mas, afinal, evoluído socialmente falando, e que num determinado momento, descobre que não é feliz, avaliando que o que conquistou não o satisfaz para concluir que “vencer na vida” não é tudo, não significa nada, não faz sentido. “Já fiz coisas horríveis por muito dinheiro. Como trabalhar feito um condenado. Vender a alma para promoção, chefiar, mandar. Pois é, para quê? Depois, o dinheiro não era tudo e o vazio era enorme, imenso”, escreve.
II
Este é ainda o relato de um escritor, com muitos livros publicados, mas que agora se mostra disposto a abandonar a carreira (?), resolvendo deixar para trás a cidade-grande e os seus infinitos círculos de amizade (interesseira ou não) e retornar para a sua aldeia natal, a pequena cidade de Itararé, localizada na divisa entre os Estados de São Paulo e Paraná, que ficou para a história como o local de um episódio pitoresco da chamada Revolução de 1930, quando Getúlio Vargas (1882-1954) partiu de trem de Porto Alegre rumo ao Rio de Janeiro, então a capital federal.
Esperava-se que ocorresse uma grande batalha em Itararé, que, afinal, não houve, pois a cidade acolheu Getúlio Vargas na estação ferroviária, permitindo sua entrada no Estado de São Paulo. Em seguida, os militares depuseram o presidente Washington Luiz (1869-1957) a 24 de outubro daquele ano. Aliás, aquele movimento de revolução pouco teve, pois foi apenas um confronto em que a nascente elite industrial apoiou o golpe do ex-ministro Getúlio Vargas para derrotar a elite cafeicultora representada pelo presidente Washington Luiz e alguns velhos oligarcas de São Paulo e Minas Gerais.
É nesta cidadezinha mítica, que serviu de inspiração para o jornalista, escritor e humorista Aparício Torelly (1895-1971) adotar o falso título de nobreza barão de Itararé, que o agora ermitão imaginado por Silas Corrêa Leite (espécie de alter ego?) sonha entrar num mosteiro ateu ou um monastério laico para passar o resto da vida, exercitando um anarquismo de caráter pessoal. E descobrir o seu próprio Tibete, que seria similar ao verdadeiro Tibete, que está localizado numa região de planalto da Ásia, ao norte da cordilheira do Himalaia, e que já foi território chinês, até que em 1913 houve a “expulsão dos chineses” por um grupo liderado pelo 13º Dalai Lama. Hoje, o Tibete é um território autônomo dentro da República Popular da China, cuja capital é Lassa ou Lhasa, que literalmente significa “lugar dos deuses”.
Como se vê, o protagonista do novo romance de Silas Corrêa Leite flerta bastante com o budismo tibetano, mas é, antes de tudo, um inadaptado, um ser antissocial, que nunca se entrosou nas corporações que frequentou e das quais se fez associado, até o dia em que decidiu jogar tudo para o alto. “Eu não era aquilo, qualquer coisa no meio deles. Sempre um estrangeiro. Um esquisito, carta fora do baralho. Um alienado total. Então, por que escrever tanto contra tudo e contra todos, feito um arauto do caos, um profeta desarticulador do modus operandi do sistema?”
Por este estilo anárquico e demolidor, o leitor pode perceber que não perderá nada em descobrir este novo romance de Silas Corrêa Leite. Pelo contrário, ganhará muito ao conhecer uma prosa cativante, antenada com o Brasil das últimas cinco décadas, essa barafunda em que os articuladores do golpe civil-militar de 1964 enfiaram o País e que, até hoje, não se sabe onde nos vai levar.
III
Silas Corrêa Leite é poeta, romancista, letrista, professor, desenhista, jornalista, resenhista, ensaísta, conselheiro diplomado em Direitos Humanos e membro da União Brasileira de Escritores (UBE), além de blogueiro e ciberpoeta. É formado em Direito, Geografia e cursou extensões e pós-graduações nas áreas de Educação, Filosofia, Inteligência Emocional, Jornalismo Comunitário, Literatura na Comunicação, entre outras.
Tem mais de 20 livros publicados, entre os quais: Goto: a Lenda do Reino do Barqueiro Noturno do Rio Itararé (romance), Gute Gute: Barriga Experimental de Repertório (romance infanto-juvenil), Porta-Lapsos (poemas) e Campo de Trigo Com Corvos (contos). É autor ainda do primeiro livro interativo da Internet, o e-book O rinoceronte de Clarice. Foi finalista do Prêmio Telecom, Portugal.
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Tibete, de quando você não quiser mais ser gente, de Silas Corrêa Leite. Rio de Janeiro: Jaguatirica Editora, 382 páginas, 2017. E-mail da editora: [email protected] E-mail do autor: [email protected]
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/Academia Brasileira de Letras, 2012), Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015) e Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015), entre outros. E-mail: [email protected]

Uma guitara perpetua o verão | Maria Isabel Fidalgo

Longínqua, uma guitarra perpetua o verão
na larga casa da saudade.
Abro as janelas do mar
e no clamor das ondas
o sol de agosto desce calmo
sobre os barcos.
Sou jovem em qualquer lado
onde há o brilho indomável
dos anos,antes destes,
e de outros, longe de ti.
Chegam pescadores do lado
dos búzios e dos limos
com os pés calçados de sargaço
e a tarde é um farol nas nossas mãos.
Cada palavra que dizes
é um rio junto à fonte,
uma claridade a abrir,
a subir a pique sobre o mundo.
Ouso pedir-te
que te escondas comigo
nesta ilusão de juventude
plasmada na minha varanda
aberta sobre o mar;
que não apresses a voz;
que me deixes cerzida num abraço,
e que a tarde caia sobre nós
fulgente de ouro e luz
alheia ao peso do cansaço.

maria isabel fidalgo

Carlos Vale Ferraz | Nó Cego

“A Porto Editora publica a 17 de maio uma nova edição do livro Nó Cego, primeiro romance de Carlos Vale Ferraz e livro de culto de uma geração que esteve envolvida na guerra colonial e que, a partir dela, entrou em rutura com o regime português da ditadura.

Nó Cego é hoje reconhecido como um livro essencial para compreender esse período crucial da nossa História que foram os anos da guerra colonial e o fim do regime de ditadura, bem como para conhecer os dramas, as angústias, as alegrias e as tristezas da geração que fez a guerra e que a terminou, abrindo Portugal à modernidade.

A nova edição deste romance serve de pretexto à conversa que Carlos Vale Ferraz, António-Pedro Vasconcelos e João de Melo terão na sessão de lançamento que se realiza a 19 de junho, pelas 18:30, na livraria Ferin, em Lisboa.”

Casimiro de Brito | Quadro de Helena Ramalho | Poema do Livro Inédito “A Volta ao Mundo em 80 Poemas

começo a volta ao mundo
num tapete voador
o teu umbigo

a primeira vez
e parece que foi ontem
sob as oliveiras

amei uma gueixa
e senti que estava sendo
bebido pela lua

coração do Atlas
túmulo d’Al Mut-Amid
guardo silêncio

alto paraíso
no Líbano sob os cedros
morte não existe

elevei-me e caí
asa-delta numa praia
em Itapuã

Casimiro de Brito

«O Paraíso e Outros Infernos» | novo livro de José Eduardo Agualusa

Da literatura portuguesa ou de uma frase de Borges à situação política em Angola; de uma navalha sul-africana à teoria dos sonhos e ao cabelo da sua filha; da lista de inspirações para a sua obra até à beleza da Ilha de Moçambique, os textos de «O Paraíso e Outros Infernos» são o ponto de partida de um tecido complexo, misturando fragmentos do seu diário com crónicas publicadas na imprensa. Um «mapa do conhecimento do presente» que ultrapassa a fronteira do tempo e da sua contingência.

O Paraiso e Outros Infernos.pdf – clicar para abrir

CRÓNICAS DE PORCELANA | Soledade Martinho Costa

SINOPSE DO LIVRO «CRÓNICAS DE PORCELANA»  (Edições Sarrabal – Lunadil UNI LDA.)

«Há episódios que de tão inacreditáveis, nos causam espanto. Outros, quase tocam o limite do impossível. Outros, ainda, misturam o afecto e a ausência numa saudade infinita. Mas há, também, os que falam de ternura, de inocência, de amor, onde as crianças representam as protagonistas. São estes quatro géneros de leitura que fazem estas crónicas.»

À roda da saia | Maria Isabel Fidalgo

A autora , Maria Isabel Fidalgo,”à roda da saia” obriga o leitor a entrar na roda, na roda da vida.Uma obra absolutamente feminina, sem idade,eternamente jovem, pronta a ser rodada no corpo de uma outra mulher , como património (ou matrimónio?) de uma cultura enraizada num lugar que se vai universalizando com o olhar fresco da geração que se segue: ” minha mãe deu-me uma saia / a saia de sua mãe/ a saia roda no corpo/ da minha filha também/ minha neta pequenina/ anda também a rodar / na roda da saia dela / em todas que há de gerar”.
Nestes versos vive uma sensualidade misturada com maternidade impressionantes.Porque “as mães têm braços enormes (p. 18),e (n)as rodas da saia ” uma manhã carnal entra pela luz”(p.41). Mas é na ria de Aveiro que a leveza de ser… ” um pedacinho me basta/ para ser asa que passa/ rente à água” (p51). E há uma vida, única, que continua ” como um fio de água que escorre pela nascente/assim me construí”. E a sensualidade aprende-se devagar ” saio do teu corpo / como se lá não estivesse estado” (p.65).E o corpo assume o seu grau maior de identidade e beleza ” rodinha da minha saia / meu tesouro de araça/não me quero noutro corpo/ com a roda que esta dá”. Mas, como em todos os poetas, o seu tempo era mais além e ” não me preveni contra o tempo/ sempre achei que a vida era para lá dos dias/ e que a ceifa do corpo/ era numa azenha muito ao longe”. Mas as rodas da saia continuam…” já não roda a saia/ rompe-se o vestido/ vem amor dormir/ um verso comigo.”
Um livro que merce ser dançado com vigor e mestria. A autora, Maria Isabel Fidalgo, está de parabéns. A obra foi editada por ” Poética Edições” em Janeiro de 2018.

“É uma saia que é uma celebração da vida e dos afetos, feita com o melhor tecido das palavras, com as rendas da ternura e da música, com os bordados das vivências, com os folhos das alegrias e das lágrimas, com um bolso discreto cheio de ensinamentos, com bainhas feitas de sonhos e engomada com saudades. É uma herança, portanto, e disso não duvidemos nunca: herança de um eu precedido por outros seres que não se esquecem, que não passam, que ficam marcados em cada ponto a mais que se der no tecido – porque esta saia está à espera que cada um a ornamente com a sua própria vida, agora que a recebeu.”

Tiago Aires, excerto do prefácio

Força Feminina | A Poesia que Liberta

Livro de poesias feitas por socioeducandas em privação de liberdade será lançado em Salvador

A trajetória de vida de adolescentes que foi interrompida por atos infracionais, e que está sendo ressignificada durante o cumprimento da medida socioeducativa, na Comunidade de Atendimento Socioeducativo – Case Feminina, em Salvador, está expressa no livro Força Feminina, A Poesia que liberta, que será lançado na próxima terça – feira (27), no Foyer do Teatro Castro Alves – TCA.

A iniciativa da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social – SJDHDS, por meio da Fundação da Criança e do Adolescente – Fundac, em parceria com a Editora Galinha Pulando, reúne 53 poesias que foram produzidas pelas socioeducandas, que contam suas histórias de vida, falam sobre os laços familiares, projetam perspectivas positivas para o futuro, a busca da liberdade, além de traduzir sentimentos de amor, amizade e companheirismo.

A coletânea de poesias é fruto das oficinas de produção de texto que acontecem na Case Feminina, desde 2015, e da participação em projeto, a exemplo do Sarau da Onça, cujo objetivo é a formação centrada nas adolescentes em privação de liberdade para fortalecer a autoestima, a capacidade de expressar ideias e sentimentos e de utilizar a palavra para a resolução de conflitos, além do engajamento político social.

Composição editorial –   A primeira edição do livro Força Feminina, A Poesia que Liberta, tem a produção e direção editorial do jornalista, poeta e escritor Valdeck Almeida e da Editora Galinha Pulando, de Vitória da Conquista – Ba. O desenho gráfico da capa é da autoria do design, Hugo Carvalho, e conta com o prefácio elaborado pelo ator e dramaturgo, Aldri Anunciação. A orelha do livro foi escrita pela poeta e professora da Universidade Federal da  Bahia (Ufba), Lívia Natália. A organização final dos textos foi feita pelo instrutor das oficinas de produção textual, Evanilson Alves e da gerente da Case Feminina, Luciana Lima.

Serviço:

O quê: Lançamento do livro, Força Feminina: A Poesia que Liberta, 1ª edição, Editora Galinha Pulando.

Onde: Foyer do Teatro Castro Alves – TCA, Salvador – Bahia

Quando: Próxima terça – feira, 27 de março, às 17h

 

HUGO MEZENA | GENTE SÉRIA | por Eduardo Pitta in blog “Da Literatura”

Hoje na Sábado escrevo sobre Gente Séria, estreia de Hugo Mezena (n. 1983) no romance. É bom ler um primeiro romance esgalhado em prosa desenvolta. Frases enxutas, e em regra curtas, mergulham o leitor no seio de uma família em ambiente rural. Isenta de retórica, a intriga flui com naturalidade. Nenhum malabarismo semântico belisca o discurso: «Talvez o avô Jorge tenha começado a ficar senil no dia em que andou aos gritos pela casa.» Tendo boa noção dos tempos do discurso, bem como do efeito de distanciação, o narrador evita todo o tipo de enxúndia. A literalidade tem os seus óbices, mas é sempre preferível a metáforas patetas. Hugo Mezena não está sozinho na descrição da vida e hábitos rurais. Tiago Patrício, autor da mesma geração, dissecou esse peculiar universo em dois romances bem conseguidos. Contudo, o autor de Gente Séria tem a seu favor a ausência de ademanes ‘poéticos’. Dizer as coisas como elas são poderá não ser amável, mas tem o mérito da exactidão: «Quando cuspia do pátio para o quinteiro, o avô esforçava-se para acertar com os escarros uns em cima dos outros.» A história do narrador é contada por interposta família, dando a ler uma espécie de romance de formação aleatório. Não me parece despicienda a ideia de flashback contínuo, ou mesmo de romance-em-pretérito. Tudo aconteceu já. Narração autodiegética, portanto. Sem rodeios, os factos sucedem-se com meridiana clareza. Sirva de exemplo o estimulante episódio do autocarro: aos 17 anos, no Porto, joelho contra joelho de uma rapariga, o tio Alexandre excita-se com a possibilidade de sexo rápido. A fantasia não tem pés para andar e, com a braguilha a rebentar, o rapaz acaba na cama de uma balzaquiana da Foz, «uma mulher que sabia aquilo em que um homem pensava e deixava tudo isso acontecer. […] Uma mulher sem princípios.» Em dois andamentos, o percurso do engate prende o leitor. Infelizmente, pouco comum na ficção recente. Verdade que o autor tem experiência de escrita noutros domínios, isso explica o desembaraço do romance. Com efeito, «Há coisas que não param depois de terem sido postas em movimento.» Quatro estrelas. Publicou a Planeta.

Eduardo Pitta in Da Literatura|http://daliteratura.blogspot.com/

A Galinha Pulando no Fórum Social Mundial (FSM) 2018 | Valdeck Almeida de Jesus

A Galinha Pulando participa da edição 2018 do Fórum Social Mundial, que acontece na Bahia, entre os dias 13 e 17 de março de 2018, oportunidade na qual o jornalista e escritor Valdeck Almeida de Jesus fará leitura do artigo Cultura de Paz e Rsiliência das Minorias no Brasil, no dia 16.03.2018, sexta-feira, às 18hs, na Tenda Guarani Kawa, ao lado da Escola de Dança da UFBA, Campus Ondina.
Segundo Valdeck, ”o artigo fala das minorias no Brasil, como se dá a resiliência, com uma abordagem sobre a violência simbólica e física que grupos minoritários sofrem no país”. O texto traz, ainda, reflexões sobre a cena cultural de Salvador, especialmente a respeito da poesia. “Vou aproveitar a oportunidade para falar também da resistência da poesia negra e periférica, que resiste, tem muita força, luta por autoestima, cidadania, contra extermínio da juventude negra, legalização do aborto, respeito às religiões de matriz africana “, relata o poeta, que ainda participa do sarau promovido pela Frente de Negros e Negras, na Escola de Dança, no mesmo dia.
Mecenas, ativista cultural, poeta, jornalista, editor, Valdeck Almeida de Jesus é membro do Conselho Diretivo do Plano Municipal do Livro, da Leitura e da Biblioteca (PMLLB) de Salvador-BA, membro-fundador do Projeto Fala Escritor e da União Baiana de Escritores (UBESC), participa das Academias de Letras de Jequié-BA, Teófilo Otoni-MG e outras, e circula por muitos saraus de poesia em Salvador, a exemplo do Sarau da Onça, Sarau da JACA – Juventude Ativista de Cajazeiras, Sarau da Paz, Sarau do Cabrito, Slam das Minas, Sarau do Gheto e Sarau Enegrescência.

A Editora Galinha Pulando foi fundada em 2012, inicialmente para publicar as antologias do prêmio literário de mesmo nome e, desde então, passou também a publicar obras de autores dos saraus e slams de poesia das quebradas de Salvador. Com mais de trinta livros editados, já participou de eventos na Suíça, Colômbia, Bienais de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia, além de festas literárias pelo país a fora.

Serviço
O quê: Leitura de artigo sobre cultura de paz
Onde: Fórum Social Mundial – Tenda Guarani Kawa – ao lado da Escola de Dança da UFBA – Ondina – Salvador-BA
Quando: 16 de março de 2018, às 18hs
Quanto: Gratuito

Contatos: [email protected], 71 99345 5255

XVI Parlamento Internacional de Escritores da Colômbia | Cartagena das Indias | 22 a 25 de agosto de 2018

Inscrições abertas para o XVI Parlamento Internacional de Escritores da Colômbia

Está aberta até 10 de julho de 2018, a convocatória para escritores e escritoras de qualquer parte do mundo participar do XVI Parlamento Internacional de Escritores da Colômbia (em homenagem a Emile Brönte) ou do IV Parlamento Jovem, organizados pela Associação de Escritores da Costa. O encontro acontece em Cartagena das Índias, de 22 a 25 de agosto de 2018, com participação de artistas da palavra colombianos e provenientes da Alemanha, Argentina, Brasil, Chile, Equador, Estados Unidos, México, Peru, Suécia, Venezuela e outros lugares do mundo. A programação inclui lançamentos de livros, recitais poéticos, leituras de trabalhos literários, bate papos, debates, além de almoços regados a muita alegria, poesia e literatura.

A participação pode ser como observador, apresentação de um livro próprio, leitura de poemas, ou, ainda para fazer leitura de ensaio sobre obras literárias de um dos seguintes escritores: Alberto Llerena (Cartagena, 1944), José Luiz Díaz Granados (Santa Marta, 1946), Marco Tulio Aguilera Garramuño (Bogotá, 1949) e Félix Manzur Jattin (Lorica, 1951), que serão homenageados com a entrega do Livro de Ouro da Literatura Colombiana.

Os selecionados pagam uma taxas de contribuição em pesos colombianos ou o equivalente em dólares. Em contrapartida têm direito a hospedagem e alimentação gratuitos durante todo o parlamento. Passagens de avião são por conta de cada escritor.

Para maiores detalhes, entrar em contato com o o Embaixador do Parlamento no Brasil: Valdeck Almeida de Jesus (pelo e-mail [email protected]).

A inscrição e textos devem ser enviados de acordo com as regras contidas no formulário contido no link: http://parlamentodeescritores.blogspot.com

O XVI Parlamento Internacional de Escritores da Colômbia atualmente tem delegados por toda a Colômbia e diversos países, e é o evento acadêmico e literário de maior qualidade, maior atração entre os intelectuais do país e que realiza a maior projeção de Cartagena para o mundo. Declarado como de “Interesse Cultural” pelo Conselho de Cultura do Distrito de Cartagena, é cofinanciado pelo Instituto de Patrimônio e Cultura de Cartagena, Ministério da Cultura, Câmara de Comércio de Montería, Corporação Universitária do Caribe (CECAR), Instituição Tecnológica “Colégio Mayor de Bolívar”, Teatro Adolfo Mejía, assessoria da Cara de Cultura de Cartagena, Restaurante Las Indias Boutique Gormet, Casa Museo “Rafael Nuñez”, dentre outros.

Fontes:
https://galinhapulando.blogspot.com.br/2018/03/inscricoes-abertas-para-o-xvi.html

http://www.iteia.org.br/jornal/inscricoes-abertas-para-o-xvi-parlamento-internacional-de-escritores-da-colombia

Valdeck Almeida de Jesus

Projecto de Bienal Literária Argélia / Portugal | Carlos Matos Gomes

Demos conhecimento a Carlos Matos Gomes da ideia, ainda em projecto, da realização de uma Bienal Literária entre Argélia e Portugal. Em resposta,  recebemos entusiasmado apoio que entendeu transmitir com o texto que tomamos a liberdade de publicar. Numa sucinta, clara e brilhante resenha histórica, justifica esta “reunião” de dois povos amigos, juntando intelectuais argelinos e portugueses, mulheres e homens de cultura de ambos os países, escritores, poetas e historiadores. Vamos tentar!

São historicamente conhecidas as antiquíssimas relações entre Portugal, o ocidente peninsular e o Magreb, são fortíssimas as relações culturais entre estas duas regiões, das margens do Mediterrâneo, da língua à poesia e à literatura em geral, da ciência às artes e às ciências. Mas, sendo tão antigas e tão profundas estas relações, elas são também atuais e essenciais aos povos do Mediterrâneo Ocidental, no caso, aos portugueses e argelinos.

Partilhamos preocupações com os nossos povos, com o seu desenvolvimento no respeito pelas suas idiossincrasias culturais, com a paz e a liberdade, com equilíbrios regionais, com movimentos demográficos e migratórios. Partilhamos esperanças e riscos.

A cultura, em todas as suas vertentes, é, porventura, o mais fácil e amigável meio de promover relações harmoniosas entre povos. Através da cultura podemos abordar todas as diferenças e encontrar as melhores zonas de entendimento.

Nos tempos mais recentes, as alterações provocadas pelo desfecho da Segunda Guerra Mundial causaram um impacto decisivo na história da Argélia e na de Portugal. Os ventos da mudança de que falou o primeiro-ministro inglês Harold Macmillan no discurso na cidade do Cabo, trouxeram com eles o movimento descolonizador. Para a Argélia estes novos tempos significaram a luta pela independência da França, conseguida através de uma guerra de grande violência, de novo tipo, a guerra subversiva. A Argélia seria o regaço acolhedor dos guerrilheiros e dos líderes políticos dos movimentos independentistas das colónias portuguesas, dos poucos que em África, pela recusa do governo da ditadura portuguesa de Salazar, tiveram de combater pela sua libertação do colonialismo, mas seria também o porto de abrigo dos oposicionistas e democratas portuguesas que na Argélia lutaram contra a ditadura colonial.

Para a literatura portuguesa com referências à guerra colonial, ao colonialismo e à descolonização faz pois o maior sentido a ligação à Argélia. Afinal foi na Argélia que se formaram os guerrilheiros dos movimentos independentistas – PAIGC, FRELIMO, MPLA, que lhes serviram de matéria prima para as suas obras, foi na Argélia que se desenvolveram as teorias da guerrilha e da contra-guerrilha, foi da Argélia que veio em boa parte da politização dos militares portugueses que em 25 de Abril de 1974, com a Revolução dos Cravos, derrubariam a ditadura e promoveriam a descolonização. Foi ainda na Argélia que estiveram exilados oposicionistas portugueses como o general Humberto Delgado, a grande figura da oposição à ditadura, Manuel Alegre, além de lutador pela liberdade, de jornalista na Rádio Argel, a Voz da Liberdade, um escritor e poeta de mérito, Fernando Piteira Santos, historiador e jornalista, entre tantos outros. Mas ainda intelectuais das antigas colónias e dirigentes políticos como Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Viriato da Cruz ou Aquino de Bragança.

Foi ainda na Argélia que se procederam as trocas de prisioneiros portugueses entregues pelos movimentos à Cruz Vermelha Internacional, foi na Argélia que se realizaram as conversações para o reconhecimento da independência da Guiné-Bissau.

Em suma, os lutadores pela liberdade, os intelectuais que conjugaram o pensamento, a cultura e a ação para conquistarem os objectivos de liberdade e respeito pela dignidade dos povos, os escritores quer da literatura portuguesa de ficção, quer a de investigação histórica da 2ª metade do século XX têm a Argélia como ponto nodal.

Faz pois todo o sentido reunir hoje intelectuais portugueses e argelinos, homens e mulheres da cultura de ambos os países, escritores, poetas, historiadores para revivificarem as relações entre dois povos amigos.

Assim seja possível concretizar esta reunião de boas vontades a bem de Portugal e da Argélia.

Com os melhores cumprimentos

Carlos Matos Gomes

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Palestine | Malika Mellal

Trois millénaires de confessions
Tu gardes le sceau des religions
Bénédiction de toutes les terres
De toutes patries tu es la mère
Chère Palestine bénie de Dieu
De toutes croyances tu es le lieu
Théâtre des miracles divins
Ton histoire enseigne le bien
Terre des livres et des prophètes
Terre convoitée et si parfaite
Chère Palestine bénie de Dieu
Sur ta terre les hommes ont mis le feu
Sans se soucier des Ecrits de Dieu
Des sacrilèges des plus odieux
Les enfants tués en sont de ceux
Il faudra bien rendre des comptes
Terre profanée par tant de honte
Du sang d’innocents qui coule sans fin
Un peuple exterminé pour ses biens
L’homme qui imagine n’y être pour rien
N’a jamais cru au sacre divin
Palestine terre de tous les liens
Sonnera un jour l’heure de la fin
Une terre sainte ne peut être souillée
Sans que Dieu ne le fasse payer
À tous ces enfants valeureux
Que l’on empêche d’être heureux
Bientôt viendra la fin du malheur
Et plus jamais vous n’aurez peur
Dieu est grand et omniscient
La libération est un divin serment.

Malika Mellal 25/12/2017

Retirado do Facebook | Mural de Malika Mellal 

BEIJO TÉCNICO e outras histórias | Fernando Venâncio

Nuno Meireles leu certo “Beijo Técnico”, e teve uma conversa em profundidade com o seu alter ego. Ei-la. Literalmente e por extenso.

‒ Leste o livro do Venâncio?
‒ Li, não posso dizer que tenha gostado
‒ Eu também não
‒ Aquilo é lá coisa que se escreva
‒ Se é que foi ele a escrever
‒ Pensei o mesmo
‒ Das duas uma, ou ele foi faltando às aulas ou
‒ Foi um ‘ghost writer’
‒ Isso, só pode, não concebo de outra maneira
‒ O que eu não acho bem é aquela mania
‒ A do, como dizer, do estilo?
‒ Não é isso, é a mania
‒ Sei, sei, telegráfico
‒ Não, qual telegráfico, é a mania dele
‒ De pegar a meio as coisas?
‒ Mais ou menos, mas é
‒ Eu sei, é tudo um jogo de sedução
‒ Precisamente, com o leitor!
‒ Sei, mas é ‘doping’ claro
‒ ‘Doping’?
‒ Ele sabe como funciona a língua, nem deviam permitir
‒ É mesmo, eu sempre defendi isso
‒ Senão, parte com avanço, com vantagem
‒ E até nos faz gostar
‒ Sim, e até sorrir com o desamparo daquela gente
‒ Mas é truque
‒ Sim, é técnicas linguistas
‒ Ou linguísticas, eu sei lá
‒ Depois, claro, aquilo prende
‒ Sim, sim
‒ Mas não é pelos bons motivos, longe disso
‒ Sim, é como um vício
‒ E nem deslarga
‒ E os vícios são todos maus, não é?
‒ É assim uma espécie de cola literária
‒ É isso, é isso
‒ Tu pegas e ficas naquilo
‒ Mas é truque, sabes?
‒ Estou completamente de acordo
‒ Porque aquilo do desarmante
‒ Sei
‒ E do melancólico
‒ E a coisa meio singular daqueles desavindos todos
‒ Sim
‒ Aquilo pode parecer que é assim, até podemos ler assim
‒ E sentir
‒ Sim, sentir assim
‒ Mas é só do jeito de ele pôr as palavras
‒ É truque
‒ Claro, ele sabe-a toda
‒ Eles aprendem aquilo nos cursos
‒ Depois achamos que gostamos
‒ Sim, passou-se o mesmo comigo
‒ Mas é só da maneira de ele pôr as palavras

Nuno Meireles

Nuno Meireles