UM OVO DE AVESTRUZ – (Como as baratas que conhecem as trilhas do escuro) – Folhetim em Setenta e Seis Episódios – Sexto Episódio

Movimento segundo

Diante da plateia, um sujeito caminha de um lado a outro, fala de um modo fragmentado, carrega um livro na mão que, às vezes, folheia: trópicos transparentes de deuses embutidos em esgotos a transferir elétrons e irradiar tempestades iônicas no pensamento de homens carentes de chumbo líquido e perdido em viagem cósmica entre migalhas de estruturas barrocas enquanto você nada faz diante das sombras provocadas pela ausência de luz e dos gemidos de gozo e ejaculação que condenam pelo próprio gesto e pensamento tal sujeito duplo ao ver-se imagem atrás do espelho.

Do outro lado do envidraçado, meretrizes fecham contratos comerciais. A droga quebra sequências. Um dedo no gatilho e a bala estraçalha encéfalos. Esfacela pensamentos. Acaba em um milésimo de segundo com a identidade, com os traços de poemas e as ideias que seriam utilizadas em prosa. Pneus limpam as avenidas das marcas de restos humanos. Cedo, tudo recomeçará limpo-sujo, clonado. Não há futuro, apenas o amanhã. E o amanhã não será o futuro, mas somente um passado revisitado. Até a morte, presente de passados condensados. O nada existencial. Não há bibliotecas de memorizados nos pedaços encefálicos esparramados no asfalto. Não há corpo, apenas a mente que cria a ilusão de uma existência. Aqui sentado, na mesma varanda que outros se inspiraram, conto as estrelas. Estranho… Desde criança acreditei que estrelas também adormeciam, mas elas ficam ali, olhinhos acesos, enquanto personagens passeiam em outras madrugadas.

E Lindsay tinha como estrela maior, o pai. O homem que procurava o silêncio nos poros da solidão. No fundo de um terreno. O mais longe possível da casa. Pudesse escolher, moraria no cemitério. Sempre admirou o ar soturno dos coveiros, o sussurro que carregam nos olhos. A pele como papiro. Ouviam os mortos, tinha certeza disso. Deviam atentar… Como fazia para ouvir os sons radiofônicos. Aproximava o mais que podia o ouvido do aparelho enquanto o polegar e o indicador rodavam sutilmente o botão de sintonia, como o ladrão a localizar o segredo de um cofre. Vacante nas sutilezas do tato, cada descoberta de nova ilhota sonora merecia um sorriso e um registro no velho caderno de anotações. Então, abaixava a bandeira do mastro. Durante horas. E voltava a bordejar. Mas retornaria para decifrar os sons estranhos que ouvira.

(continua)