Colaboração Literária de Paulo Serra

I

Para dizer quando foi que tudo começou teria que recuar a uma outra vida, não outra encarnação, mas uma primeira fase da minha vida em que tudo era muito diferente. Basta talvez salientar que a verdadeira mudança se deu quando cheguei a este tempo, ou antes, quando voltei a este tempo. Mas acho que a mudança ocorreu ainda antes de ter cá chegado. Na altura tinha vinte anos e tudo se complicara para mim. Diriam que tratando-se de um adolescente as coisas nunca correm de modo fácil. Mas a razão não era essa. Estava no meu 2º ano de estudos na chamada Universidade, que tem o intuito de profissionalizar os humanos numa área específica. Tinha então vinte anos, no calendário terrestre, em que se vive, numa estimativa incerta, no máximo dos máximos, até aos 90 anos. Desde criança que os meus supostos pais se alertaram comigo, visto que eu não procurava a companhia de outras crianças ou jovens como eu. Ficava fechado no quarto, lendo e lendo, por vezes espalhando todos os meus brinquedos sobre a cama e inventava as histórias mais descabidas, de cavalos alados, príncipes desaparecidos que mudavam de identidade, de catástrofes naturais,… . Havia uma sede de saber que sempre me acompanhou, e que era como um buraco negro dentro de mim. Por mais que lesse sentia que faltava algo. Podia ler dois livros num dia, captar alguma mensagem, e ainda assim sentia-me inquieto, descontente, sedento. Por vezes tinha sonos inquietos. Numa dessas noites acordei e alertado, sentei-me na cama. Uma luz muito forte brilhava e pairava no quarto, como uma estrela cujos raios de luz me atravessavam e estendiam-se a todas as paredes, chão e tecto daquele cubículo escuro. Nunca mais me recordei desse sonho. Até por que julguei ter sido um sonho. E para os humanos um sonho não significa o mesmo que para nós, trata-se de um produto do inconsciente, da sua imaginação. Foi só aos 17 anos que descobri livros que falavam de uma corrente ideológica que ressaltava cada vez mais na altura. O espiritualismo. Comecei a ler livros de espíritos, de religiões, de deuses, de interpretação de sonhos, sobre reencarnação, sobre magia negra e branca, romances fantásticos, de ficção cientifica, livros de ciência, de filosofia. A minha sede de saber encontrara uma fonte diferente, de onde eu bebia o que nunca pensara vir a beber. Até por que em criança neguei a existência de qualquer coisa de místico no mundo. Por vezes lembrava-me que poderia haver um ser qualquer que brincasse com os humanos, do mesmo modo que eu construía as tais histórias com os meus brinquedos. Mas achei a teoria do caos muito mais plausível, por que a partir do momento em que ouvi que uma borboleta que batesse as asas em Tóquio poderia causar um furacão na América, achei que nada tinha uma explicação lógica e racional. Acreditava então num Deus, ainda sem nome, visto que todas as religiões tinham pontos de convergência, e ainda assim nenhuma em especial me satisfazia plenamente. Estabeleci, entretanto, um regime diário de uma hora ou mais de meditação. Mas ainda que isso me trouxesse uma profunda paz e alegria não foi suficiente. Essa sede de saber tornou-se numa calma e serena forma de estar e sentir, e numa compreensão e interpretação totalmente diferente da vida. Tudo tinha um sentido, tudo tinha um propósito, tudo transportava uma lição, e todos nós tínhamos um modo de chegar a esse Ser Supremo. Um Deus. Mas ainda assim esta palavra não era a designação exacta. Por que ele era o Absoluto. E Deuses há muitos. Faltava outro nome que o designasse. Mas, se Ele era o Absoluto, talvez fosse impróprio dar-lhe um nome. Colocar o seu nome nos nossos lábios profanos, que por muito que nos arvorássemos, por muito que lêssemos e vivêssemos, ficávamos muito aquém de entender quem Ele era e a razão dos seus desígnios.

Cansado da passividade da meditação, que acalmava os meus pensamentos e trazia energia ao meu espírito, resolvi tentar canalizar essa mesma energia para algo mais do que as querelas da vida quotidiana. Concentrava-me, nunca por muito tempo, pois ficava desanimado e cansado, em objectos, em especial num pêndulo que tinha ao lado da escrivaninha. Mas nunca objecto nenhum no meu quarto se moveu, sem ser sob a acção dos meus dedos.

Até que um dia, depois de um estranho sonho, que eu então já sabia serem recordações das nossas viagens astrais à quarta dimensão, tudo veio. Mas esquecido o sonho, só me lembrava de uma frase.

O Oculto chama agora por ti.

Mas, como se me castigasse, o Oculto entrou de rompante. As suas manifestações fugiam ao meu controlo psíquico, e descontrolaram a minha vida e tudo aquilo que me rodeava.

 II

Sem sequer me concentrar, bastava ter o pensamento disperso, dar a ordem mental, ou irritar-me, e as pessoas viam uma série de coisas inexplicáveis acontecer. Porque raras vezes aquilo que eu julgava ser o Oculto se manifestava quando eu estava sozinho. Não conseguia estar entre uma multidão. Nem mesmo podia estar sentado num café com os meus amigos. Num exame também tinha medo de encarar o professor e de escutar as perguntas que os meus colegas lhe faziam. Podia ouvir os seus pensamentos. Tão audíveis como se a pessoa pronunciasse essas frases pelos lábios, elas invadiam-me o cérebro sem que eu pudesse fechar a minha mente a essas interferências exteriores. No autocarro então era um ruído insuportável, desde o cantarolar do condutor até às fantasias que chegavam ao obsceno de certos rapazes, tal como o desfiar crítico e  intriguista de certas raparigas. Contudo havia vezes em que esse dom se tornava uma benção. Permitia-me ajudar as pessoas, nem que fosse ao dar-lhes um leve sorriso. Vezes houve em que deixei amigos desconfiados. Mas nunca lhes poderia contar. Se quando eu antes falava do espiritual já me ouviam com alguma condescendência, como se eu contasse um conto de fadas muito bonito, mas completamente descabido, o que me diriam quando lhes dissesse que lhes lia os pensamentos? Claro que não estava no tempo da Inquisição, mas havia diversas instituições de saúde mental.

Mas ainda que eu não lhes quisesse contar, eles perceberam.

Perceberam quando as luzes das salas de aula começaram a apagar e a acender e as lâmpadas estalaram. Quando as cadeiras e mesas se afastavam, arrastando-se sozinhas no chão, conforme eu passava. Quando as coisas que estavam sobre a minha mesa saltavam disparadas. Quando, ao chegar atrasado à paragem, o autocarro, já a arrancar, parou, e com os pneus a chiarem e a deitarem fumo, deixando traços negros como carvão no asfalto, o autocarro recuou vários metros e as portas e janelas abriram-se, ficando toda a gente abismada. Mas os humanos têm uma capacidade incrível de não aceitarem aquilo que vêem. O motorista contactou a central e disse que tinha uma avaria na viatura, mas a verdade é que o autocarro estava a funcionar perfeitamente, tanto que o motor trabalhou e pudemos ir para a Universidade.

Comecei a ver vultos brancos a passarem na minha frente, como uma mancha de luz, demasiado esbatida mas inegavelmente real. Sentia presenças em torno de mim, às vezes sentia a minha própria mão a ser puxada e os dedos estendiam-se para o vazio. Mas eu combatia essa força. À noite tinha sonhos estranhos, mas quando acordava não me conseguia recordar. Por vezes saía do corpo, sem sequer me aperceber como o fazia, e outras vezes, julgando que estava fora do corpo quando, na verdade, estava completamente presente na minha forma física e atravessava paredes e portas e dirigia-me de um local a outro só de pensar nele. Os meus pais olhavam-me assustados, e obrigavam-me a ficar em casa. Mas da primeira e única vez que me trancaram no quarto consegui que a fechadura estalasse e a madeira da porta estilhaçou-se. Felizmente nunca pensaram chamar exorcistas ou psiquiatras. Muito pelo contrário. Chamaram uma médium curandeira, foi assim que lhe chamaram.

III

O seu nome era Maysa. Não estava muito confiante na eficácia da sua ajuda mas achei curioso ela não ter falado em preços quando os meus pais lhe ligaram. Disse que primeiro gostaria de estar comigo e depois veria qual era realmente o meu problema. A minha mãe falava em Poltergeist. Na verdade, era o que fazia mais sentido. Um espírito ou uma força poderosa, quem sabe demoníaca, que me queria usar e provocava todo o tipo de fenómenos em meu redor. Mas eu não confiava totalmente nessa hipótese. Não acreditava que fosse nenhum demónio nem achava que fosse uma força que provocasse os ditos fenómenos, pois era eu mesmo que provocava algumas das situações.

Como quando rebentei a porta, ou quando fazia implodir objectos de vidro, chamava pássaros e outros animais que me obedeciam, quando lia os pensamentos das pessoas e conseguia fazer-lhes que me obedecessem. Mas sentia-me desconfortável. Sentia que não estava certo, e no entanto fazia-o impulsivamente.

A Dona Maysa veio num Sábado, o nosso sexto dia da semana e o primeiro dos chamados fins-de-semana, quando certos sítios como a Função Pública fecha para descanso do pessoal. Mas calculo que vocês saibam tudo isso, pois afinal devem ter estudado a história do planeta Terra, exactamente como eu também a estudei. Curioso, colocar as coisas nestes termos…

Ela era muito morena, não muito alta mas bonita e elegante, com uns pequenos olhos castanhos sarapintados de dourado. E essas pequenas gotas de mel é que davam brilho aos seus olhos. Vestia branco, umas calças e um lenço de renda preso na cintura, com uma blusa branca de decote acentuado, onde se espalhavam grossos fios de búzios e num delicado fio de prata pendia uma pirâmide de cristal. Percebi que a minha mãe já a conhecia, mas pediu-lhes para fecharem a porta e nos deixarem a sós. Ela sentou-se ao meu lado sobre a cama. Cruzei os braços, depois voltei a descruzá-los e pousei as mãos sobre as pernas.

–                      A minha mãe disse que podia ser um Poltergeist.

 Ela deu uma gargalhada rouca.

–                      Mas eu também disse que não era nada que se pareça. Fala-me do que tem sucedido.

–                      Bem, que posso dizer? Por onde começar? O curioso é que algumas das situações sou eu que as provoco, enquanto outras fogem completamente à minha vontade. Por exemplo, rebentei a porta quando os meus pais me proibiram de sair de casa. Mas fechei-me voluntariamente neste quarto há uma semana e, entretanto, as portas e gavetas dos armários aparecem abertas. Como é que eu paro isto?

–                      Rapaz rapaz. Essa não é a resposta. Sabes que podes controlar isso? Já o tens feito.

–                      Claro. Por exemplo, na telepatia. Antes parecia um rádio que apanhava todos os canais na mesma onda, agora consigo aumentar e baixar o volume, além disso foco-me numa onda de pensamento de cada vez. Percebe?

–                      Óptimo. As vozes podem enlouquecer-nos. Quando desata tudo a falar ao mesmo ao tempo e o barulho é ensurdecedor. Sentimos o mesmo do que eles, até nos apagamos perante eles, confundimo-nos com eles.

A minha mão agarrou a sua pequena mão morena e magra.

–                      Como sabe?

–                      Querido, eu sou bruxa, esqueces-te! Foi por isso que me chamaram cá. Bem, na verdade fui eu que cá me trouxe, fazendo com que me chamassem.

–                      Não estou a perceber nada.

–                      É natural. Mas vais perceber.

Levantou-se e contornou a cama. Abriu a porta direita do roupeiro, exactamente a porta que tinha incrustado um espelho de corpo inteiro. Foi quando ela me chamou com a mão que percebi que ela já sabia que estava ali um espelho.

–                      Esta superfície não é das mais puras e adequadas para este trabalho, mas acho que estás preparado e precisas de compreender o que se passa. Talvez as coisas pudessem ter decorrido doutra forma. Mas não. O plano divino está certo. Aconteceu tudo exactamente como é suposto. Eu é que ainda não consigo entender todo o padrão. E também te vai custar algum tempo. Mas agora calo-me, pois as palavras só te afastam mais do entendimento e da verdade. As palavras apenas servem para nos confundir e fazer perder.

Ela soltou a mola do fio de prata e depois colocou a pirâmide no centro da testa, enquanto o delicado fio a coroava preso na nuca.

–                      Olha-te ao espelho.

Era um pedido difícil. Gostava tão pouco de me olhar ao espelho que receei que este fosse estilhaçar-se, tal como a porta.

Mas lá estava eu. E não parecia tão feio como pensava. Tinha uns delicados traços, um perfil grego como o das estátuas. A pele era escura, bronzeada. Os meus cabelos caíam em longos cachos encaracolados e espessos sobre os ombros. Uma massa de cabelo escuro e revolto. Mas os olhos… os olhos eram inquietantes e contrastavam com aquela perfeição, com aquela quase beleza. O meu olho direito era de um azul profundo, quase lilás. E o meu olho esquerdo era amarelo, cor de mel.

Na Idade Média era um motivo mais que suficiente para me queimarem na fogueira, pois era a Marca do Demónio. Enquanto que hoje em dia era simplesmente aflitivo quando as pessoas me fitavam nos olhos e se apercebiam. Sentia-me ainda pior do que se tivesse olhos tortos.

–                      Os teus olhos são lindos. Tu és lindo. Porquê essa mágoa?

–                      Não consigo… gostar. Acho que foi justamente por estes olhos que nunca namorei.

–                      Não. Não foi por isso. Houve muita gente que gostou de ti. Mas tu nunca te apercebeste.

Paulo Serra