OS OLHOS DE MAIAKÓVSKI

Estou numa exposição do artista russo Aleksandr Ródtchenko. Fotografias, colagens, capas de livros.

Entro agora na sala onde estão fotos que ele tirou de seus parentes e amigos.

E, de repente, lembro.

Meu Deus, vivi ali, naquela época, sim, na Rússia, um pouco antes e um pouco depois da Revolução de Outubro.

E convivi com essas pessoas.

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Vou examinando os rostos tão familiares do próprio Ródtchenko e de sua mulher, Varvara Stiepânova. E aqui estão as do crítico de arte Óssip Brik e da mulher dele, Lilia.

Paro, emocionada, diante das fotografias de Vladimir Maiakóvski.

Seu rosto intenso e sombrio, um rosto de louco, talvez, está voltado para diretamente para mim, num reconhecimento.

– O que foi feito de você, Nora? – Ouço-o perguntar.

Por que será que ele me chama de Nora?

Continuo com meus olhos fixos nos seus. Que sensação estranha!

Quem foi Maiakóvski para mim?

Irmão, amigo, amante? Os olhos dele me sugam, me arrastam. Continuo aqui, nesta sala, mas em que outra dimensão?

Ouço um leve ruído, percebo que há alguém atrás de mim. E me viro bruscamente, esperando deparar com Vladimir.

Mas não é ele, e sim Lilia Brik. Sou dominada pelo ciúme. Por quê?

Lilia não é propriamente bonita. Mas tem rosto doce, agradável, muito feminino.

E um corpo bem modelado.

Agora vou lembrando. Mesmo enquanto ele estava comigo, todos diziam que era ela o grande amor de Vladimir Maiakovski.

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Lilia me toma pelo braço e me conduz para a área externa da casa.

Passamos por uma parede de espelho, no corredor – e me vejo, de relance. Minha imagem não é mais a mesma.

Sou outra mulher, que identifico, de repente.

Sim, sou Nora Polonskaia, atriz, casada. Fui amante de Maiakóvski, por mais de um ano, até a morte dele, aos 36 anos, quando eu tinha apenas 23.

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Fui uma das três mulheres da vida de Vladimir. Houve a russa branca que morava em Paris, Tatiana Iacovleva, para quem ele escreveu um longo poema.

A outra, Lilia Brik, seu grande amor, como diziam todos, agora puxa meu braço, com uma raiva mal disfarçada, fazendo com que eu me afaste do espelho e continue a andar a seu lado.

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Vou lembrando de tudo, cada vez mais claramente. Passei com Maiakóvski sua última noite vivo. E tivemos uma briga terrível, porque eu não queria deixar meu marido.

Ele tinha esse trauma – seduzia as mulheres, mas não conseguia levá-las para sua companhia.

Eu e Lilia nos sentamos agora a uma das mesas em torno da piscina da bela casa onde funciona o centro cultural com a exposição de Ródtchenko.

Em frente, um painel de azulejos. Adiante, a floresta que cerca e invade o Rio.

Ainda é cedo, o lugar está vazio, não há ninguém nas outras mesas que pudesse estranhar nossas roupas de época e a conversa em russo.

Lilia me diz:

– O que você está fazendo aqui? Por que voltou? Era a mim que ele amava, não a você. O tempo inteiro, era a mim que ele amava. Infelizmente, quando Vladimir morreu, eu estava em Londres, com Óssip. Se estivesse em Moscou, quem sabe impediria que se suicidasse. Já tinha impedido duas vezes, antes.

– Claro, você estava sempre com Óssip. Não quis deixá-lo para ficar com Vladimir – cheia de espanto, ouço a mim mesma responder.

Faço uma pausa, mas continuo:

– Você sempre o colocou em segundo plano. E, quando me conheceu, foi a mim que ele passou a amar. Vladimir me pediu em casamento. Mas fui fraca, tive medo. Tinha medo até de que alguém descobrisse meu caso com ele. Ah, eu queria aceitar seu pedido, devia ter aceito, mas não tive coragem. Minha situação com meu marido era boa. Vladimir era sedutor, mas tão instável. Quem poderia adivinhar o que faria no dia seguinte?

Lilia me olha com raiva crescente.

– Nunca senti ciúmes de você, como não sentia de Tatiana Iácovleva. Dizem que ele também a pediu em casamento. Mas era tudo para tentar fugir de mim. Era a mim que Vladimir queria. Mas eu não conseguiria separar-me de Óssip. Quando o conheci, eu tinha 13 anos. Nosso relacionamento não era o de um homem e uma mulher, ia muito além disso. Óssip não tinha ciúmes de mim. Vladimir, sim. Óssip sabia que eu nunca o deixaria.

Digo, com desdém:

– Vocês três vivendo juntos, na mesma casa, um ménage à trois que causou escândalo, mesmo na Moscou liberada da moral burguesa.

– Não houve ménage à trois. Quando me tornei a mulher de Vladimir, deixei de ser a mulher de Óssip, continuamos juntos apenas como irmãos.

– Lilia, você pode tentar enganar a quem quiser, a mim não engana. Você e sua irmã, Elsa Triolet, sempre foram umas coquetes, mulheres fáceis, que ostentavam um verniz de cultura apenas para seduzir os intelectuais e artistas e viver livremente no meio deles, dormindo com quem quisessem.

– Elsa se casou com Aragon e ela o amava – responde Lilia, ofendida. – Polonskaia, eu não tive ciúmes de você, mas uma coisa não lhe perdoo. Você passou a noite com Vladimir e o abandonou, deixando que se matasse.

– Eu já tinha saído do quarto, quando ouvi o tiro. Estava no corredor daquele maldito prédio da Travessa Lubiánski. Sabia que não adiantava voltar, que estava tudo encerrado. Já antes, vez por outra, ele falava em suicídio. O revólver só tinha uma bala, mas ela se alojou bem em seu coração. Vladimir deve ter ensaiado muitas vezes aquele gesto final. Seu bilhete de despedida talvez fosse escrito com antecipação. “Como se diz, o caso está encerrado. Estou quite com a vida.” Mais ou menos isso. Não voltei ao quarto, não queria que ninguém soubesse do nosso caso. Só mais tarde me contaram os detalhes. Eu era tão jovem. O suicídio de Vladimir me deixou infeliz pelo resto da vida.

– Ele parecia disposto a atender ao chamado de outro suicida, o poeta Iessenin – diz Lilia, aparentemente mais calma. – “Até logo, até logo companheiro,/Guardo-te no meu peito e te asseguro:/O nosso afastamento passageiro/É sinal de um encontro no futuro.”

Ela se cala, ficamos ambas em silêncio.

De dentro da casa vem uma voz de homem que grita o nome dela. Eu a reconheço, é de Vladimir.

Sim, ele tinha feito sua escolha, como Lilia disse. Foi a ela que Maiakóvski sempre quis.

Por ela, matou-se.

Mas não apenas por ela. Estava marginalizado, desprestigiado, como todos os seus amigos, depois da consolidação de Stalin no poder.

Os membros da vanguarda russa deixavam o país, mas talvez ele se sentisse sem forças para isso.

Lilia se levanta e vai correndo para dentro.

Fico sentada ali fora por mais alguns instantes, olhando para piscina azul.

Depois, também sigo para a entrada lateral do prédio. Ao passar pela parede espelho, quem devolve meu olhar já sou eu mesma, neste final de ano de 2010.

+++

Meio tonta, vou até o estacionamento, entro em meu carro, dirijo de volta para meu apartamento.

Mais tarde, abro um livro que comprara dias antes sobre a arte e a vida de Ródtchenko.

Leio algumas informações sobre os últimos anos de Lilia Brik.

Depois que Óssip morreu, ela se casou com V. Katanian, biógrafo de Maiakovski. E se suicidou aos 86 anos.

+++

À noite, sem conseguir dormir, leio em voz alta, para mim mesma, alguns poemas de Vladimir.

Cadernos Italianos, de Eduardo Pitta

Num registo tão elitista quanto a elegância o permite, Eduardo Pitta, deixa-nos um relato das suas viagens a Itália na forma de um quase diário. Não são viagens de turismo no seu sentido convencional. O autor recusa entregar-se à multidão, a essa horda de turistas basbaques e ao seu frenesi compulsório, ou à espontaneidade de uma opção de última hora. Este é o percurso estudado de um homem culto. Um percurso destinado a satisfazer o seu gosto pelo requinte, seja por uma paisagem, um apontamento arquitectónico ou uma refeição num restaurante de excelência (onde o preço, obviamente, não é impedimento).

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Patrícia Reis

baixinho

Não é a montanha russa mais assustadora.

Não é nada disso.

São apenas duas pessoas no silêncio atroz do domingo. Um dia de angústia para quem, como a mulher, sabe o que a espera na segunda, na terça, na quarta, na quinta e na sexta-feira. Podia mandar tudo às urtigas… A mulher, ao contrário do que muitos pensam, não sabe quebrar regras, sejam elas o que forem. Pode ser bruta e frontal, pode ser encantadora e boa ouvinte, pode ler horas seguidas e escrever outras tantas e, sem dizer a ninguém, ter escrito o insuspeito e nada disso fazer diferença, aqui ou ali.

É domingo, as suas palavras pertencem ao lixo. Ela já não tem cabeça e não quer entender os outros, o cansaço dos outros, os meandros e labirintos dos outros. A razão é simples. Não compreende o seu cansaço, os seus espaços vazios, a sua ansiedade crescente. Ninguém a conhecera verdadeiramente. Ninguém sabe como cheiravam os poços de petróleo a arder no Kuwait e já ninguém se lembra. Ela tem esse pequeno drama, retém tudo, é uma esponja e dizer da sua exaustão seria o mesmo que admitir que não pode dar o que não tem para dar. Como na canção

Sabe lá, o que é não ter e ter de ter para dar.

Ela murmura que não faz mal.

A montanha russa está parada.

Ela não está no corredor da morte.

Num cenário de guerra.

A adrenalina que a mantém viva é de uma natureza infeliz.

Mantém o silêncio, espera por o conseguir manter.

Para que nada se quebre quando já só restam cacos.

FOI A PIOR NOITE DE SUA VIDA: UM CRIME E UM FREGUÊS DURO – Folhetim em Seis Episódios da autoria de carlos Pessoa Rosa – Quarto Episódio

Enfiou a cabeça na água e deixou-a escorrer nos cabelos, relaxar o corpo e aquecer o objeto de trabalho. Arrepiou-se ao lembrar que o estrangeiro que, como ela, gostava de Astor foi o único homem que a fez atingir o orgasmo com tamanha intensidade. Até que não cobrou muito pelo que fez, podia ter levado tudo, sentir-se mulher não tinha preço. Ficou um bom tempo deitada na banheira. Não demoraria para a noite chegar. As amigas já deviam saber que algo de errado havia ocorrido com o santo protetor. Aparecia à tarde, quando as meninas estavam descansadas, para levar a porcentagem, cobrar a droga e deixar o troco sempre minguado. Ser a preferida dos fregueses deu-lhe algum privilégio. Arranjar o pequeno apartamento a seu gosto, por exemplo. Ele não admitia cliente fixo, dizia que podia estragar o negócio. Se achasse inadequada alguma conduta com freguês ou houvesse excesso de pó, o sermão era bravo. Nunca deixou protegida sua na mão, a não ser por merecimento. Pagou o aborto sem saber que o filho era dele. Até o nariz, um pouco arrebitado, igualzinho ao dele.

(continua)

A Criação Literária | Poesia e Prosa, de Massaud Moisés

“A Criação Literária — Poesia e Prosa”, de Massaud Moisés, consagrou-se como a principal introdução à teoria da literatura de que dispõe o leitor brasileiro. Embora se apoie em vasta bibliografia estrangeira, o autor não se limita a repetir pontos de vista alheios e estabelece seus próprios conceitos.

Se é difícil admitir-se que se possa ensinar Literatura, como observou Fidelino Figueiredo (1889-1967), o ensino da atividade crítica pode ser algo ainda mais questi­­o­ná­vel. Mes­mo assim, ensina-se. E quem quiser pode apren­der muito. É o que propõe “A Criação Literária – Poesia e Prosa” (Cultrix,­ ­2012), de Mas­saud Moisés, obra anteri­or­mente publicada em três volumes, um dedicado à poesia e dois à prosa, que acaba de ganhar uma edição revista, atualizada e unificada.

Concebida originalmente sob o título de “Intro­dução à Pro­blemática da Litera­tura”, a obra, cuja primeira edição é de 1967, mereceu suces­sivas impres­sões e constitui o melhor manual de teoria literá­ria produ­­­zido no Brasil. Não é de admirar que ainda seja largamente utilizado nos cursos de Letras.

É claro que a imensa maioria que recorre a este livro — que é, acima de tudo, didático — é formada por aqueles que almejam uma carreira no magistério na área de Letras. Mas este livro é fundamental mesmo para quem quer seguir uma atividade cada vez menos prestigiada nestes dias, a de crítico literário.

Até porque esta não é uma carreira profissional e ninguém sobrevive como crítico ou resenhista de livros nem sobreviveu em outros tempos. Agrippino Grieco (1888-1973), grande crítico literário e ensaísta, que viveu seus últimos dias no subúrbio carioca da magra aposentadoria de ferroviário, sempre lamentou o tempo que perdera analisando obras de autores que considerava inferiores a ele em talento. Mas, se não constitui uma carreira pro­fissional, a atividade ao menos serve não só para bem ocupar as horas de ócio como acumular erudição e, melhor ainda, estimular e exercitar os neurônios, o que, na idade madura, pode ajudar a retardar as manifestações do mal de Alzheimer. Já não é pouco.

Para piorar, nestes dias que correm, as revistas e suplementos literários, praticamente, desapareceram. E os que sobreviveram, diante de tantas dificuldades econômicas, não costumam remunerar seus colaboradores. O último, justiça se faça, que ainda pagava por colaboração era o suplemento “Caderno de Sábado”, que desapareceu no começo do século 21, numa daquelas crises periódicas pelas quais passou o “Jornal da Tarde”, de São Paulo, até o seu fechamento às vésperas do Dia de Finados de 2012.

Seja como for, se ainda hoje há jovens que, contrariando a vontade paterna, queiram iniciar-se nesta atividade e tenham disposição e espaço para ler e guardar a infinidade de livros que editoras e autores vão lhe enviar pelo correio, para estes não há outro caminho que não seja começar por “A Criação Literária”. Afinal, por aqui, vão aprender que o verso é só uma maneira de marcar melhor a narrativa, ou seja, “é mero instrumento da narrativa, que assume valor absoluto”.

Portanto, verso não significa poesia, como sabe quem lê literatura de cordel ou os contos em versos de Geoffrey Chaucer (c.1343-1400) ou de La Fontaine (1621-1695). Na verdade, diz Moisés, a “poesia é a expressão do ‘eu’ por palavras polivalentes, ou metáforas”. São expressões que, como observou Octavio Paz (1914-1998), em “O Arco e a Lira” (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982), foram classificadas pela retórica e chamam-se, além de metáforas, comparações, símiles, jogos de palavras, paronomásias, símbolos, alegorias, mitos, fábulas.

Essas expressões verbais têm ritmo próprio, ou seja, são o próprio ritmo, o mundo da alma do poeta. Não se deve, porém, confundir ritmo com cadência. Para Moisés, “a cadência participa da formulação do ritmo, mas não o determina: na verdade, o ritmo engloba a cadência, como o todo implica a parte”. Já o ritmo, diz, constitui “a sucessão de unidades melódico-emotivo-semânticas, movendo-se na linha do tempo”.

É por isso que pode haver poesia em textos armados em versos ou em linhas cheias, ou seja, numa crônica, conto ou em qualquer outro texto, por exemplo, “El Jardín de Senderos que se Bifurcan” (1941), de Jorge Luis Borges (1899-1986), que Octavio Paz define como poema. Segundo o poeta, nesse relato, “a prosa se nega a si mesma: as frases não se sucedem, obedecendo a uma ordem conceitual ou narrativa, mas são presididas pelas leis da imagem e do ritmo. Há um fluxo e refluxo de imagens, acentos, pausas, sinal inequívoco da poesia”. Em outras palavras: estamos diante de uma prosa poética.

Já poema em prosa é, antes de tudo, “poema”, como diz Moisés, ou seja, a sua meta consiste na expressão da poesia, enquanto na prosa poética o objetivo do ficcionista é “recriar o mundo, inventando uma história e suas personagens, ainda que numa atmosfera de permanente lirismo”. Poemas em prosa são pequenas peças líricas em que toda a primazia é do “eu”, isto é, o poeta volta-se para dentro de si, “fazendo-se ao mesmo tempo espetáculo e espectador”. Como exemplo, leia-se fragmentos do “Livro do Desas­sossego”, de Fernando Pessoa (1888-1935).

Nenhuma dessas formas, porém, confunde-se com o poema de forma livre, em que, segundo Moisés, o metro cede lugar ao ritmo que, sem a cadência imposta pela forma fixa, torna-se “a própria alma do verso”, na definição de Antonio Can­dido, em “O Estudo Analítico do Poema” (Terceira Leitura). Como exemplo, leia-se “Oito Elegias Chinesas” (Edições Des­co­brimento), poemas traduzidos por Camilo Peçanha (1867-1926), um dos precursores do Moder­nismo português.

O que sustenta as “Oito Ele­gias Chinesas” é o ritmo, que espe­lha também toda a inquietação e as alterações do espírito e da sensibilidade do poeta/tradutor. Livre da camisa-de-força da forma fixa, Peçanha, como tradutor, sentiu-se à vontade nos poemas/traduções para colocar toda a tristeza de sua alma de autoexilado em Macau que se identificou com a anima de poetas chineses desterrados do tempo dos Ming (1368-1628). Para tanto, foi mais longe na subversão das formas poéticas tradicionais, suprimindo rimas, fa­ze­ndo cortes bruscos, reduções inesperadas ou prolongamentos desmedidos — inclusive, adotando soluções da prosa como a divisão silábica.

Mas não é só para elucidar estas questões ligadas à teoria da poesia, aparentemente difíceis, que serve este “A Criação Literária”. Vai mais longe ao analisar também as formas em prosa, como o conto, a novela, o romance, a crônica e o teatro, além de outras formas híbridas e, por fim, a crítica literária, “talvez o mais espinhoso e controverso” dos problemas relativos à teoria da literatura, como o próprio autor admite.

Professor titular aposentado da Universidade de São Paulo, Mas­saud Moisés foi professor visitante nas universidades de Wisco­nsin, Indiana, Valderbilt, Texas, Cali­fórnia e Santiago de Com­postela. Alguns dos seus livros, consagrados à teoria literária e às literaturas em vernáculo, consti­tuem referência obrigatória para estudantes e estudiosos destas matérias como evidenciam as suces­sivas edições que têm merecido “História da Litera­tura Brasi­leira”, “A Análise Li­terária”, “Dicionário de Termos Literários”, “A Litera­tura Brasileira Através dos Textos”, “A Literatura Portuguesa Através dos Textos”,  “Pequeno Dicionário de Litera­tu­ra Brasileira”, “A Literatura Portu­guesa”,  “Ferna­ndo Pessoa:  ­o Es­pe­lho e a Esfi­nge” e “Ma­chado de Assis: Ficção e Utopia”,  todos publi­cados pela Cultrix, “A Litera­tura Como Denú­ncia” (Íbis) e “As Estéticas Lite­rárias em Por­tugal” (Editorial Caminho), entre outros.

Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo.

Exercício de independência impossível

Tornar o mundo um miolo, achatá-lo com peso de corpo sobre o tampo atoalhado da mesa, arredondá-lo sob a palma linhosa da mão que o sente ínfimo desperdício, coisa que se pode perseguir se rola desatenta para o chão.

Olhá-lo desinteressadamente mesmo que já entre os pés calçados há horas, sem alterar uma pequena parte que seja da sua vaga importância, portanto nem sequer adesivá-lo com palavras inventadas e ele, o miolo, a ponto de esmiuçar-se perante a nossa indiferença e nós, a ruborizarmos sobre os ombros.

Gabriela Ludovice

A VERDADE E A MENTIRA – Folhetim em Doze Episódios da autoria de Carlos Pessoa Rosa – Nono Episódio

Dizem nos corredores da corte que o povo vive com circo e pão o que é distribuído fartamente de modos vários, sabendo os reis que no continente todas as pessoas admiram o futebol, que até rei tem, o que alivia as tensões. Mas o pregador que vive nas ruas chama a atenção do ocorrido com outros reis, alguns degolados em praça pública diante da histeria coletiva de uma revolta curtida no dia-a-dia, e que nenhum bajulador previu.

(Continua)

A VERDADE E A MENTIRA – Folhetim em Doze Episódios da autoria de Carlos Pessoa Rosa – Oitavo Episódio

Dizem nos corredores da corte que o povo vive com circo e pão o que é distribuído fartamente de modos
vários, sabendo os reis que no continente todas as pessoas admiram o futebol, que até rei tem, o que alivia as tensões. Mas o pregador que vive nas ruas chama a atenção do ocorrido com outros reis, alguns degolados em praça pública diante da histeria coletiva de uma revolta curtida no dia-a-dia, e que nenhum
bajulador previu.

 

Diante de mim vi fartura sobre a mesa e sobra ser jogada no lixo, presenciei homens que deviam zelar
pelo rebanho na luxúria, enquanto se discutia as estratégias que seriam
aplicadas para acabar com a fome e a ignorância, mas meu corpo não tem preço, saí dali certo de que aqueles homens não restituiriam o que não lhes pertence pelo teor divino.

Suposta esta primeira verdade como certa e infalível, não será a lei divina o portão para a solução, quando a rapina é tomar o alheio violentamente contra a vontade de seu dono, muitas vezes havendo ares de licitude no ato ilícito, sendo a lei aplicada de modo diferente entre as pessoas. Sei que não devia falar em latrocínio e rapina
para quem espera lisonjas, mas não são minhas as palavras, mas é a voz do povo que clama por justiça nas ruas.

 

(Continua)

Departamento de Achados e Perdidos

Um astrônomo consagrado classificou as estações

ferroviárias como astros; planetas anões presos à

terra por artérias metálicas costuradas a outras

estações, estes corpos celestiais provocam no

passageiro a sensação de viajador, manifestação

sucessivamente repetida mediante a abertura do tampo

de um computador portátil afixado ao colo individual

por força eletromagnética. A classificação de

planetas gigantes ou anões, astros, cometas e

meteoros varia conforme o humor de um ou mais grupos

de astrônomos com preferências por certos quadrados

universais e é sabido que corpos remanescentes de

estrelas com massa suficiente tornam-se esféricos

pela própria gravidade, assim são os homens.

Entre um e outro universo, se o viajante caminhar

léguas suficientes encontrará uma portinhola,

acompanhada de uma janela vazia e na iminência do

abandono por um funcionário de roupas servis e

encardidas, um maltrapilho das instituições públicas

sem voz/ com sono/ sem ânimo/ com sede e fome/ do

sexo masculino e detentor de um caderno de anotações

magnânimas no qual declara o valor de ítens achados

e perdidos. O funcionário Carvalhosa[1]retém poder

nas mãos macilentas: devido ao sucesso nas provas

concursais, compete-lhe determinar o destino dos

seguintes bens alheios perdidos nos vagões dos

trens:

1. O chapéu de feltro do doutor José Serafim

2. A bolsa de uma rapariga sem documentos que a

identificassem

3. A caneta de um escritor pretensioso e anônimo

4. O mapa das fábricas de queijo sem casca no

interior da França, e,

5. Um mole de chaves presas a um cadeado de

ferro.

Para Carvalhosa estes objetos pouco significam

embora listados em seu caderno e automatizados no

sistema integrado de achados e perdidos das linhas

férreas universais e catalogados sob diferentes

critérios. Ao menor toque, o perdedor insere o

nome do bem deixado para trás e aguarda por alguns

segundos a tela despertar lembrança e existência.

O funcionário cujo sonho seria uma manivela do tempo

insiste que a incorporação das coisas e pessoas

por motores semi-pensantes subtrai a essência pois

no momento em que um nome ou um objeto passam a

integrar a tela de um computador desaparecem do

mundo real para viajarem na esfera misteriosa de uma

ou mais nuvens chamadas virtuais, um céu recriado

humanamente recriado.

Em questão de pessoas, Carvalhosa, destes poetas

nutridos pelo funcionalismo, resolve reaver uma

antiga e querida professora de literatura que

rabiscava sonetos de Camões no quadro negro com giz

e arredondava a letra num capricho de jardineiro.

Consuelo Maria, das unhas laqueadas de escarlate,

do corpo robusto de matrona e ao Carvalhosa

desafiou a máquina de busca até encontrar a data

do óbito. Ah se a houvesse procurado com alguns

meses de antecedência e expressado a gratidão pelo

movimento braçal da professora na sala de aula e

cumprimentado-a pela caligrafia e os contos de sua

autoria os quais não lera. Na mesma semana, como que

por coincidência, Carvalhosa recebeu da rede social

mais abrangente a atualização de calendário de um

querido amigo Francisco G., aquele que traduzira

uns poemas magricelas e esfomeados do Carvalhosa,

e Carvalhosa decidiu aceitar e parabenizar o amigo

mortiço pelo aniversário. No coração a mágoa

doía, a morte do Francisco fôra doída, uma noite

de suspense entre respirar e parar, os anticorpos

em guerra consigo e o Carvalhosa ia a distância,

consciente das anotações burocráticas do guichê

do departamento de achados e perdidos no fundo da

estação ferroviáriaLa Gare au Nord.

Isto cansa, isto me cansa, queixou-se o Carvalhosa

com a faxineira da pequena sala depósito. Meu nome

é Maria Madalena, um dia ela se apresentou num sem

jeito, um dente faltoso, a gengiva a subir para

disfarçar o buraco, o corpo incha para preencher as

lacunas, os trens avançam para furar o ar. Maria

Madalena conseguia limpar todo o piso da estação com

um rodo e um balde de água suja, milagrosa Maria

semblante para canonização. Se o Carvalhosa fosse

capaz de gravitar afora a sua esfera seguramente se

deixaria levar pela Maria Madalena; mas o Carvalhosa

preferia (quando não estivesse sendo observado)

colocar o chapéu de feltro do senhor Serafim

sobre os cabelos oleosos e o couro seborreico,

prender o cadeado de chaves na calça imaginando-

se senhor do castelo deLoisy, anotar com a caneta

de pena de ouro e nanquim sobre o mapa da Savóia e

aguardar a aparição de um novo suplicante no guichê,

possivelmente a rapariga sem bolsa, sob a mira de um

telescópio Hubble.

[1] (em qualquer busca virtual basta colocar-se

o nome deste indivíduo de infância e mãe mortas

há dezenas de anos e descobrir que ele habita

antecipadamente o céu virtual @ skydrive.com)

Katia Gerlach

A VERDADE E A MENTIRA – Folhetim em Doze Episódios da autoria de Carlos Pessoa Rosa. – Sexto Episódio

Verdade ou mentira, o que sei é que, como resultado desse embate, houve uma atração cada vez maior das pessoas pela luxúria, pela gula e pelo vício… Torceram o nome e o verbo. Sem novidade, dirão alguns. Afinal, cada ouvido é um caracol, e de matéria que tem sua dureza. E como as palavras entram passadas pelo oco deste parafuso, não é muito que quando saem pela boca, saiam torcidas.

As duas ilhas já não existem. Tudo se transformou em única ilha. Dizem que os terremotos aliados à atividade vulcânica transformaram geograficamente a região, e que a mentira, ao contrário do que dizem as lendas, venceu a verdade em uma luta cruenta. A lei praticada desde aquela época centra-se em pessoas que ignoram os tribunais, e tribunais que ignoram a lei, sendo a defesa direito de poucos, e a cadeia morada de muitos, como se vivessem em Jerusalém quando em tempos idos dois ladrões, ambos condenados e utados, não tiveram direito a um procurador.




(continua)

O Carrasco

Na noite anterior à ução, em sonho, o carrasco viu a sua cabeça rolando pelo chão – e não a do condenado.

E de facto, no momento em que na praça central da cidade levantava o machado para desferi-lo sobre o pescoço daquele, pressentiu um sorriso nos lábios deste mesmo e, pelo sim pelo não, preferiu não arriscar.

Com um gesto sem pingo de espanto, embora fosse a primeira vez que tal sucedia, o imperador ordenou que os dois trocassem de posições. O carrasco, com o pescoço no cepo, pensava como haveria de salvar-se e procurou, também ele, esboçar um sorriso.

António de Sousa

A VERDADE E A MENTIRA – Folhetim em Doze Episódios da autoria de Carlos Pessoa Rosa. – Terceiro Episódio

Não estavam acostumados os da ilha da Verdade às práticas de guerra, mas sim às do argumento. Também, mesmo esgotadas as últimas tentativas, acreditando na força da verdade, nada fizeram para se proteger. Havia um único dia na ilha da Verdade em que se festejava o dia da Mentira, quando era permitido pregar o falso. Já na ilha da Mentira havia um decreto que penalizava qualquer cidadão que houvesse por bem festejar a verdade. E verdade seja dita, não havia nenhum preso na ilha por cometer tal delito.

(continua)

A VERDADE E A MENTIRA – Folhetim em Doze Episódios da autoria de Carlos Pessoa Rosa. – Primeiro Episódio

Havia pelos lados do oceano Atlântico duas ilhas. Em uma delas, imperava a verdade; na outra, a mentira. A primeira, apesar de pequena em área, fora contemplada pelo fértil de suas terras e pela variedade de espécies que ali se encontrava. Já a segunda, apesar de vasta em área, era pedregosa, cheia de acidentes e sujeita a terremotos sociais e morais.

Sabemos que mentira e verdade nunca podem andar juntas, mas as duas ilhas ficavam muito próximas o que mantinha um clima de tensão constante. Não pelo lado da ilha da Verdade, mas pela ameaça constante vinda da ilha da Mentira, o que tornava um ataque uma possibilidade concreta. Muitas foram as tentativas de um acordo, sempre partindo da ilha da Verdade; em vão. Havia muitos modos de mentir por parte dos habitantes da ilha da Mentira. Ora mentiam porque não creram na verdade, ora porque impugnaram a verdade, ora porque afirmaram a mentira.

(continua)

A minha laranjeira

Tenho uma laranjeira no quintal, plantada por minhas mãos um dia, pequenina, a bem dizer criança, que no Inverno se cobre de frutos para mim. Por mais que a admoeste, lhe recomende temperança, todos os anos o esgaçar costumeiro dos braços crivados de frutos, no chão molhado. Comovido, nas noites frias, cinjo-me ao tronco dela e, corpo a corpo, juntos carregamos o martírio. Até ser manhã.

Augusto Baptista

CASAR TEM MUITO DE TREPAR COM CADÁVERES – Folhetim em Oito Episódios da autoria de Carlos Pessoa Rosa. – Sexto Episódio

Na avenida, seguiu à esquerda, evitava assim a Livraria Cultura, estava cheio de tudo que vinha carimbado com o selo do sistema. Não acreditava haver literatura em mensagens servidas como um pudim depois de farta feijoada, cheirava um pouco à psicanálise que acabava de deixar de lado. Além disso, deveria seguir o planejado, morreria no vão do MASP, nada de ilusões, de putas travestidas de rainha de sabá, do satânico testando Jó. Passou horas diante de um livro de anatomia para não cometer erros. Cortaria a artéria radial, de nada adiantaria cortar veias. Não cometeria um único deslize, não deixaria alma caridosa dizer que salvou a vida de algum histérico.

(continua)

Proximidade

As botas embatem surdas com os olhos excitados, na terra de ainda veios vermelhos. Separamo-nos para iludir a nossa figura avolumada pela carga, por entre a ronceira folhagem de cheiros silvestres, que mal desarredonda a sua saia verde de chuva, esparge acossados animais que se arrojam como devaneios perseguíveis pelos cães ou pela nossa habilidade de gatilho, sobre o que agora em celeridade vital se encova no fundo raso do campo cada vez menos espaçoso, menos respirável, a presa já se embacia nos ramais da morte, a nossos pés.

Gabriela Ludovice

CASAR TEM MUITO DE TREPAR COM CADÁVERES – Folhetim em Oito Episódios da autoria de Carlos Pessoa Rosa. – Quarto Episódio

Dentes-marfim… A boca mais parecia uma vagina mordendo e engolindo o sêmen. Na noite, chamas queimam mais, lábios engolem e nos distanciamos das regras e das leis. O crime cometido na noite é sempre mais trágico, o criminoso é perseguido pelos próprios passos, os sons são muito mais intensos, grito de dor é abafado pela cortina negra. Ninguém vê o medo de quem ouve e nada faz para ajudar. Mas é muito mais romântico ter um corpo caído nu na madrugada, mesmo que não haja platéia, a vida e a morte são irmãs solitárias. A mulher adiou a hora de sua morte sem saber. Pior, começava a ter dúvidas. Se prevenir cicatrizes era o objetivo, melhor seguir no planejado. Pensamentos não levam o corpo a lugar nenhum. Caminhou sem procurar gravar o número do prédio, não queria reencontrar a entrada.

 

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CASAR TEM MUITO DE TREPAR COM CADÁVERES – Folhetim em Oito Episódios da autoria de Carlos Pessoa Rosa. – Terceiro Episódio

Assim que acordasse, a mulher ouviria Jorge Adios. Corpo de serpente, de criança que, assustada, roça o corpo no da mãe. Deixaria a água do chuveiro levar mais uma ilusão para o ralo, passaria a escova no corpo para tirar palavras e odores que a fizessem sofrer. Por um momento, acreditou na intensidade da cena. A mulher não passava de uma profissional que por algum motivo desconhecido resolveu fazer uma caridade, só isso, nada além de uma caridade. E ele querendo transformá-la em personagem literária. Quando acordasse, usaria o bilhete que deixara sobre a cômoda para limpar a bunda e bradaria palavrões por ter levado um pouco de seu dinheiro.

 

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Johanna Benz vence ilustrarte 2104

A VI Bienal Internacional de Ilustração para a Infância – Ilustrarte elegeu, entre 1980 ilustradores a concurso, os trabalhos da alemã Johanna Benz. As duas menções especiais foram para o ilustrador argentino Diego Bianki e para a ilustradora polaca Urszula Palusinska.

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XI

ele caminha na rua como um homem pai de família, atravessa quando o bonequinho indica, acena ao chaveiro, bate na porta do vizinho para tomar emprestado as ferramentas e as devolve a tempo sem cobranças necessárias. conquanto não goste de igreja pendura no cabide de madeira o terno domingueiro de um azul acinzentado e na intimidade, talvez na hora de barbear-se, o francisco pede proteção divina e se recorda do pai nosso rezado pela mãe numa infância.

Kátia Bandeira de Mello-Gerlach

CASAR TEM MUITO DE TREPAR COM CADÁVERES – Folhetim em Oito Episódios da autoria de Carlos Pessoa Rosa. – Segundo Episódio

Difícil escolher caminhos quando o passado não nos mantém mais e abandonamos a idéia de futuro. O andar fica mais pesado, os pés adquirem o peso de chumbo. Seguir para a Consolação ou para a Paulista? Para o cemitério ou para o vão do MASP? Meditar merecia o silêncio dos mortos ou das artes. Melhor ser encontrado sob a tutela de um Van Gogh ou Picasso. No outro lado da rua, avistou uma última vez janela ao alto. Uma parte sua tinha permanecido lá dentro. Os escapamentos dos ônibus despejavam uma fumaça preta no ar e no prédio ao lado um velho debruçado na sacada da varanda fitava a ausência.

 

(continua)