Congresso Internacional do Medo | Carlos Drummond de Andrade

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas

PRÉMIO LITERÁRIO ANTÓNIO GEDEÃO entregue ao poeta MANUEL GUSMÃO

Manuel Gusmão, Professor Catedrático aposentado, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, é o vencedor do Prémio Literário António Gedeão, instituído pela Federação Nacional dos Professores (FENPROF), e patrocinado pela SECRE, que tinha como objetivo, nesta edição, galardoar uma obra de poesia em português e de autor português, publicada integralmente e em 1ª edição no ano 2013.
A decisão, unânime, foi tomada pelo Júri do Prémio (Paulo Sucena, Lídia Jorge e José Manuel Mendes), “considerada a intensidade da linguagem num trabalho poético que recolhe e dialoga com a tradição estética conformadora de todo o seu percurso”, como referiu Paulo Sucena à nossa reportagem.
O Presidente do Júri, que esteve recentemente reunido em Lisboa, destacou ainda que “apreciadas as obras a concurso, distinguimos três: “Navegação de acaso” (Nuno Júdice), “A Papoila e o Monge” (José Tolentino de Mendonça) e “Pequeno Tratado das Figuras” (Manuel Gusmão).
MUITOS PARABÉNS, Manuel Gusmão!
Mais que justo!

Cristina Carvalho

Presídio | David Mourão-Ferreira

Nem todo o corpo é carne… Não, nem todo.
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco…?

E o ventre, inconsistente como o lodo?…
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor… Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo…

É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memóra o fugidio

vulto da Primavera em pleno Outono…
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!

José Gomes Ferreira | poema

De súbito, o diabinho que me dançava nos olhos,
mal viu a menina atavessar a rua,
saltou num ímpeto de besouro
e despiu-a toda…

E a Que-Sempe-Tanto-Se-Recata
ficou nua,
sonambulamente nua,
com um seio de ouro
e outro de prata.

vai-se a lasciva mão | Vasco Graça Moura

vai-se a lasciva mão devagarinho
no biquinho do peito modelando
como nuns versos conhecidos quando
uma mulher a meio do caminho

era de vento e nuvens, sombras, vinho,
e sonoras risadas como um bando.
os dedos lestos vão desenredando
roupa,cabelos, fitas, desalinho.

a noite desce e a nudez define-a
por contrastes de luz e de negrume
ponto por ponto, alínea por alínea.

memória e amor e música e ciúme
transformados nos cachos da glicínia,
macerando no verão sombra e perfume.

ANTÓNIO JOSÉ SARAIVA | 1917 – 1993

“Eu sou existencialmente inconformista.
Eu sou, de origem, um camponês.
Eu fui espiritualmente cristão e teoricamente marxista.
Eu estou contra a sociedade, independentemente das teorias.
Eu acredito no espírito, mas não sou capaz de o definir.
Eu estou pronto a emigrar de novo, se necessário. Eu sou António José Saraiva.”
António José Saraiva publicou uma vastíssima e importante bibliografia, considerada uma referência nos domínios da História da Literatura e da História da Cultura portuguesas, amadurecida quer na edição de obras e no estudo de autores individualizados (Camões, Correia Garção, Cristóvão Falcão, Almeida Garrett, Alexandre Herculano, Fernão Lopes, Fernão Mendes Pinto, Gil Vicente, Eça de Queirós, Oliveira Martins), quer através da publicação de obras de grande fôlego como a História da Cultura em Portugal ou, de parceria com Óscar Lopes, a História da Literatura Portuguesa.

fonte: Gradiva

Saraiva

Fernando Pessoa | Todas as cartas de amor…

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

Tabacaria | Fernando Pessoa

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo.
que ninguém sabe quem é
( E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes
e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.

Soneto de Fidelidade | VINICIUS DE MORAES

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

A cultura | Lídia Jorge

“Neste momento de crise, toda a gente está a perceber que a cultura é uma porta fundamental para sairmos dela”, disse Lídia Jorge, comentando ainda: “A cultura vive com o mínimo dos mínimos, mas sabemos que, a partir dela, multiplicando, faz os máximos dos máximos”.

Lídia Jorge

Tabula Rasa

Tabula rasa é uma expressão latina que significa literalmente “tábua raspada”, e tem o sentido de “folha de papel em branco”. A palavra tabula, neste caso, refere-se às tábuas cobertas com fina camada de cera, usadas na antiga Roma, para escrever, fazendo-se incisões sobre a cera com uma espécie de estilete. As incisões podiam ser apagadas, de modo que se pudesse escrever de novo sobre a tabula rasa, isto é, sobre a tábua raspada ou apagada. Como metáfora, o conceito de tabula rasa foi utilizado por Aristóteles (em oposição a Platão) e difundido principalmente por Alexandre de Afrodísias, para indicar uma condição em que a consciência é desprovida de qualquer conhecimento inato – tal como uma folha em branco, a ser preenchida.

Já na Modernidade, o conceito será aplicado ao intelecto, na tese epistemológica que fundamenta o empirismo – vertente filosófica do século XVII, segundo a qual não existem ideias inatas, sendo que todo conhecimento se baseia em dados da experiência empírica.

O argumento da tabula rasa foi usado pelo filósofo inglês John Locke (1632-1704), considerado como o protagonista do empirismo. Locke detalhou a tese da tabula rasa em seu livro, Ensaio acerca do Entendimento Humano (1690). Para ele, todas as pessoas nascem sem conhecimento algum (i.e. a mente é, inicialmente, como uma “folha em branco”), e todo o processo do conhecer, do saber e do agir é aprendido através da experiência. A partir do século XVII, o argumento da tabula rasa foi importante não apenas do ponto de vista da filosofia do conhecimento, ao contestar o inatismo de Descartes, mas também do ponto de vista da filosofia política, ao defender que, não havendo ideias inatas, todos os homens nascem iguais. Forneceu assim a base da crítica ao absolutismo e da contestação do poder como um direito divino ou como atributo inato.

A teoria da tabula rasa também fundamenta uma outra corrente da filosofia e da psicologia, o behaviorismo clássico. O behaviorismo atual, que é o behaviorismo radical, não se baseia na tabula rasa.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Tabula_rasa … (FONTE)

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Primeira Parada do Livro e da Leitura 2014 | Salvador da Baía

Por: Valdeck Almeida de Jesus

A Parada do Livro e da Leitura 2014 vai acontecer em Salvador no dia 24 de outubro, das 8:30 às 16horas, na Praça do Campo Grande, e integra-se às comemorações da Semana Nacional do Livro e da Biblioteca, com objetivo de assegurar a democratização do acesso ao livro, o fomento e a valorização da leitura e o fortalecimento das cadeias produtiva, criativa e mediadora da leitura como fato relevante para o desenvolvimento da produção intelectual e do acesso aos bens culturais no âmbito do Estado da Bahia.

A Parada do Livro -2014 é uma ação conjunta da qual participam o Plano Municipal do Livro, da Leitura e da Biblioteca de Salvador, a Universidade Federal da Bahia, a Universidade Estadual da Bahia, a Secretaria Municipal de Educação, a Unifacs, a Emredando, Fala Escritor, Sarau da Onça, União Baiana de Escritores e outras instituições públicas e civis afeitas à causa do livro e da leitura.

No dia 24 de outubro, na Praça 2 de Julho, Campo Grande – Salvador, o público terá acesso aos escritores e às suas obras, havendo doação de todos os livros expostos. Ressalte-se que também, neste evento, se apresentarão instrumentistas e poetas etc. Entre os nomes confirmados estão: Valdeck Almeida de Jesus, Jorge Baptista Carrano, Cristiano Souza, Sandra Stabile, Elton Linton O. Magalhães, Conceição Castro, Varenka de Fátima Araújo, Lucas Yuri, Renata Rimet, Josué Ramiro Ramalho, Alex Simões, Audelina de Jesus Macieira, Vera Lúcia Passos Souza, José Abbade, Maria Prado de Oliveira, Domingos Ailton, Tina Tude, Clara Maciel, Ednilson Sacramento e Rosana Paulo.

Vamos dar asas à imaginação…
Voe sem sair do chão,
Livro usado; livro vivo!

A participação de todos é fundamental para o sucesso da Parada do Livro 2014, por isso solicitamos às instituições e às pessoas físicas a doação de livros em perfeito estado.

As doações deverão ser nas seguintes áreas temáticas: Literatura Infanto-Juvenil, Literatura Baiana, Literatura Nacional, Literatura da Cultura Popular; Literatura Internacional, Literatura Jurídica, Literatura Técnica e Científica, Literatura das Artes, Literatura para Vestibular.

Todas as doações serão identificadas e registradas.
Local de entrega das doações: Biblioteca Universitária Reitor Macedo Costa – Campus de Ondina – UFBA. De 6 a 22 de outubro de 2014, das 9 às 16h

Serviço
O que: Parada do Livro e da Leitura 2014
Quando: 24 de outubro de 2014, das 08:30 às 16:00hs
Onde: Campo Grande (Largo Dois de Julho), em Salvador-BA
Quanto: Gratuito

Publicado em:
http://www.galinhapulando.com/visualizar.php?idt=4986014

http://meuprazerliterario.com/primeira-parada-do-livro-e-da-leitura-2014-em-salvador/

https://www.facebook.com/pages/Parada-do-Livro-e-da-Leitura/711344758934409?fref=ts

http://www.iteia.org.br/jornal/primeira-parada-do-livro-e-da-leitura-2014

http://www.recantodasletras.com.br/redacoes/4986014

Parada 500

Livro sobre o papa Francisco é publicado em outubro

A editora Guerra & Paz anunciou hoje a publicação, no dia 08 de outubro, do livro “Francisco, de Roma a Jerusalém”, de Henrique Cymerman e Jorge Reis-Sá.

A primeira visita pastoral do papa Francisco fora de Itália foi à Terra Santa, em maio passado. Este livro faz o relato desta viagem, durante a qual o sumo pontífice convidou judeus e muçulmanos a orar juntos, com ele, pela paz.
Segundo o mesmo comunicado, esta é “uma história escrita, lado a lado, por um judeu e por um católico, cujos caminhos se cruzaram ao encontrar Francisco. O mais importante relato vivo do acontecimento que só foi possível pela mão daquele que melhor encarna as palavras de Santa Catarina de Sena: ‘o doce Cristo na Terra'”.
“Cymernan, jornalista da SIC, e o escritor Jorge Reis-Sá acompanharam Francisco nos três dias de peregrinação e estiveram com ele no Vaticano. Desses encontros e dessa viagem nasceu este livro”, acrescenta a mesma fonte.

http://www.dn.pt/inicio/artes/interior.aspx?content_id=4152162&seccao=Livros … (FONTE)

Francisco

Fábula de um Arquiteto | João Cabral de Melo Neto

A arquitetura como construir portas,
de abrir; ou como construir o aberto;
construir, não como ilhar e prender,
nem construir como fechar secretos;
construir portas abertas, em portas;
casas exclusivamente portas e tecto.
O arquiteto: o que abre para o homem
(tudo se sanearia desde casas abertas)
portas por-onde, jamais portas-contra;
por onde, livres: ar luz razão certa.

Até que, tantos livres o amedrontando,
renegou dar a viver no claro e aberto.
Onde vãos de abrir, ele foi amurando
opacos de fechar; onde vidro, concreto;
até fechar o homem: na capela útero,
com confortos de matriz, outra vez feto.

marco

Igreja de Marco Canavezes | Álvaro Siza Vieira

Museu de Aguarela Roque Gameiro | Minde | Exposição patente até 31 de Dezembro

“AFAZERES, OFÍCIOS E TAREFAS”

A obra de Roque Gameiro testemunha o trabalho criativo do artista a vários níveis: a sua constante descoberta de vida e a felicidade que sentia em cada detalhe captado e em cada expressão sentida; a sua incansável busca da perfeição, testando permanentemente a técnica nos seus limites e nas suas potencialidades; o fascínio pelo pitoresco, pelas figuras típicas dos lugares, tanto do campo como da cidade. Transmitiu-nos a técnica, a ternura, as emoções, a identidade …
A exposição ” Afazeres, Ofícios e Tarefas na obra de Roque Gameiro” não é só mais uma exposição: é um novo roteiro, uma nova história, com muita História. Pretende-se revisitar, aqui, afazeres, ofícios e tarefas da gente anónima; anónima mas fundamental, para conferir à vida a dinâmica e o conteúdo pretendidos pelo autor.
Ao mesmo tempo, podemos ver o domínio da técnica pela forma realista e expressiva como são representadas cenas; o deslumbramento que o artista sentia ao desenhar um capricho da natureza, ao aguarelar um traje típico, ao captar o sentir autêntico de cada homem e de cada mulher, no seu dia a dia enquanto trabalham, nos seus variados contextos, nas suas vivências, deixando estes surpreender-se, no seu meio.

Aguarela 538