Maio | Lídia Borges

 

 

madrigais de pássaros

baloiçam desatentos

nos ramos da magnólia

 

estou aqui do lado de dentro

desta manhã de maio

e sei que maio é atemporal

maio tem hoje o rosto sereno

da eternidade.

 

chegam-me de longe

através da janela aberta

sons distintos: o latido de um cão

o ronco abafado de um motor

em fúria a rolar na pressa circular

de insaciáveis relógios.

 

o rugido das máquinas

e a agonia dos homens

irmanam-se num esforço heróico

mas inglório. prosaica a ideia

deste novo “mundo novo”

escrito de novo de um lado a oiro

e do outro a dor e servidão.

 

ao longe, muito ao longe

o imprescindível absoluto

de todas as coisas prescindíveis

urra e grita e sangra e luta e sofre…

 

estou aqui do lado de dentro

desta manhã de maio clara e terna.

minha para sempre, esta manhã de maio

e eu para sempre nela

ébria de claridade e de ternura.

 

Lídia Borges

A Admirável Aventura de Malala

Malala acredita que todas as crianças – independentemente do sexo, da raça, da origem social ou do credo religioso – têm o direito a aprender.

E não se conformou quando, no seu país, as meninas foram proibidas de ir à escola só por serem raparigas! Pois se ir à escola era a coisa mais importante para ela, e os livros eram a sua maior riqueza! Ela lutou com todas as forças por esse direito, para si própria, e para todas as meninas do seu país e do mundo. Porque saber é poder, e aprender é um direito tão fundamental como ter acesso a água, comida ou segurança.

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Um mistério em Serralves, Patrícia Reis

O convite foi inesperado e o Micas nem queria acreditar na sorte: um fim-de-semana no Porto, na casa de família do Vasco Maria, com a malta toda? É que nem se pergunta! Encontro na Estação de Santa Apolónia e ala de comboio para a casa (casa não – casarão, palacete!), mesmo ao pé do Museu de Serralves.

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Dia mundial da criança | Maria Isabel Fidalgo

 

 

Ri criança e corre sem saberes da Hora
a vida é ainda um fio de água
e nada em ti interroga
brinca no átrio da alegria
e nada temas
colhe o sorriso
e o cheiro da manhã
no trilho da terra
ladeia-te de flores
o mais que podes
e à noite colhe estrelas
chapinhadas de luz.

 

maria isabel fidalgo

O multiartista Fábio Haendel lança livro com poesias e ilustrações | Valdeck Almeida de Jesus

O lançamento do livro “Antes das Nuvens” será no dia 06 de junho, às 19h, no Teatro Eva Herz, Livraria Cultura do Salvador Shopping, com participações especiais dos escritores Kátia Borges, Nílson Galvão, Mariana Paiva e Valdeck Almeida de Jesus

Sinopse:

Um livro para ouvir

Kátia Borges

Menestrel urbano no cenário criativo da soterópolis, Fábio Haendel transita desde a adolescência entre notas musicais e texturas, paletas de cores e grafites, acordes vocais e versos. Suas estrofes poéticas surgem despretensiosas, brincando com a sonoridade e o sentido das palavras, passando ao largo da métrica e da rima, movendo-se no território delicado – e sempre perigoso – do coloquial e da prosa.

Numa época em que se precisa pedir permissão até para apressar o passo ou mudar o ritmo, Haendel mostra-se corajoso. Entra na dança e ousa um livro. Não é pouco. Talvez, alguns torçam o nariz diante da estréia literária deste artista visual e músico. Afinal, a sua poesia não é daquelas que definem os verbetes específicos, que festejam os críticos ou que almejam a perenidade dos sequilhos acadêmicos.

Mas, embaralhando metáforas, referências e linguagens, Haendel faz de Antes das Nuvens, seu primeiro livro, um veículo de ideias, tela colorida por palavras, coletânea de letras, canções que experimentam aqui nova via criativa de suporte e de expressão. “Escrevo versos, estrofes, troféus e catástrofes. Escrevo a história que traça o homem no mesmo papel que a traça come”.

Perpassam as letras de Haendel, certa inquietação quase juvenil em relação ao mundo e a idealização de um eu poético fugidio, que ora defende uma ideologia humanista ora ensaia a fuga rumo a um novo planeta e a um modo alternativo de vida. “Ando nos contornos das nuvens baixas das altas estações, eu tenho uma bússola na sola do pé, eu vou na direção que eu quiser”. Um livro para ouvir alto.

PROGRAMAÇÃO

Sarau com participação de:

Kátia Borges

Mariana Paiva

Nilson Galvão

Valdeck Almeida de Jesus

Performance dos atores: Heyder Moura, Ricardo Andrade e Thiago Carvalho

Pocket show de Fábio Haendel com Henrique Duarte, Saulo Tácio e Willy Haendel

Sessão de autógrafos do autor

SERVIÇO

O QUÊ: Lançamento do livro “Antes das Nuvens”, de Fábio Haendel

Editora Cogito

QUANDO: 06 de junho de 2015 (sábado)

19h às 22h

ONDE: Teatro Eva Herz, Livraria Cultura, Salvador Shopping

 

CONTATO:

Produção: Benigno- planejamento e produção cultural

Lígia Benigno (71) 3018-6062/9272-0745 (TIM)

Um País Parado no Meio do Caminho, de Miguel Real

Neste ensaio, Miguel Real reflecte sobre os efeitos da interrupção do processo de modernização europeia de Portugal nos últimos quinze anos e o que representam para diferentes grupos sociais antes e depois dessa interrupção figuras como Siza Vieira e Olga Roriz, Joana Vasconcelos, Cristiano Ronaldo ou José Mourinho.

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HISTORINHA – AS FLORES E O VENTO | Soledade Martinho Costa

 

 

– Quem é a mais bonita? Vamos, digam lá. Quem é a mais bonita?
– Sou eu! Sou eu a mais bonita!
– E a mais perfumada?
– A mais perfumada sou eu!
– E a mais garrida?
– Eu, eu! A mais garrida sou eu!
O vento agita o corpo que não se vê mas que se sente.
– Estouvadas. – resmunga ele. – Muito estouvadas são as flores! E vaidosas? Nunca vi. Passam o tempo todo nesta lengalenga. A quererem saber qual é a mais bonita, a mais perfumada, a mais garrida…Bem gostava eu de não as ouvir. O pior, é que passo por elas constantemente. Que remédio tenho, se não escutar aquilo que dizem. Mas quando me zango…Ah! Quando me zango a sério, sopro nas suas pétalas com tal fúria, que todas se calam e estremecem com receio da minha zanga e da minha força!
– Fazes mal. – responde-lhe, loiro de Sol, um campo de trigo. – Não deves zangar-te nem mostrar às flores a tua fúria. Repara que também tu és falador. Raramente te calas! Sou eu quem to diz, pois sou eu quem escuta a tua voz a toda a hora. E estouvado também o és. Porque, sem me pedires licença, fazes ondular o meu corpo de espigas como um mar revolto. Além disso, tens vaidade da tua força. A prova é que dela te ufanas. Tanto, como as flores se orgulham da sua beleza, do seu perfume e da sua cor. Pensa primeiro nos teus próprios defeitos, amigo Vento. Pensa primeiro neles, para melhor saberes compreender e desculpar os defeitos dos outros…
E o vento, gira que gira, numa roda-viva, vai esmorecendo, vai esmorecendo, vai calando a fala. Até que deixa de se ouvir. O vento está a meditar. E a seara de trigo torna-se então plana como uma estrada aberta.

Soledade Martinho Costa

Do livro «Histórias que a Primavera me Contou»
Ed. Publicações Europa-América

Tinta de Sangue | Ernane Catroli

 

 

Buddy. Gringo. Alemão. Estes os nomes. Outros mais talvez. Que tantas as paragens até aportar ali no bairro. A Lapa. O coração do Rio.
Seguia-o de longe, seu vulto nobre que já se perdia na esquina deserta. Seus passos seguros. Iguais. Revi-o no cabaré Novo México onde fomos apresentados por Margot, a amiga que me dava guarida. Um silêncio demorado, a memória que mais permaneceu deste primeiro encontro. Contavam-se histórias. Fiquei pelo bairro. Encontrei um quarto.
Jovita, a gata rajada, enroscada no pequeno sofá, nem se mexeu quando abri a porta. Um vento leve balançou a cortina de vidrilhos coloridos.
Uma corrente com a cruz de prata, meio maço de cigarros, um isqueiro. Também tua carteira e uma agenda sobre o criado mudo. O tempo sem tempo no qual ressona de bom dormir. O lado esquerdo da minha cama.
Fios soltos. Fiapos.

Apagadas nas sombras, as últimas casas do beco pareciam ainda mais velhas, mais sujas. Um rumor vivo, de vozes, vazava das janelas entreabertas. Perto, a noite. Aquela, a casa. Restos de frases. E os operários que retornavam do trabalho.
Só muito tempo depois – sob a pouca claridade da luminária antiga – a figura pesada à porta do sobrado emerge solta, deslocada do que o rodeia. Buddy. Seu rosto que se volta na minha direção. Um estremecimento. E nem me apaziguava a certeza de que não podia me ver. Que os olhos. Iguais os seus olhos. Os olhos de um furor demoníaco.
Que houve aquele momento: sem perdão, sem igualdade de defesa. Súbito, o negror da dor. Este o lado do meu peito. Depois, o corpo dobrado nos joelhos. Os ruídos, um grito: o meu próprio grito. Vultos esfumados e o vermelho brilhante dos coágulos de sangue nas pedras rugosas do calçamento. Uma nuvem fúnebre, de desespero e indignação. Um desassossego. O que pulsa em mim. Estou no miolo deste mundo morto.

E quando retorno cabisbaixo em direção à avenida que corta o bairro antigo é alta madrugada. Dobro a primeira esquina à esquerda e me junto aos que já me aguardam na rua deserta. Um cortejo. Uma legião sôfrega. Como se viessem de longe. Ou mesmo de muito perto. E coroados de fé. A fé dos peregrinos.

Réquiem por Palmira‏ | Maria Isabel Fidalgo

 

 

Palmira geme no ventre.
A terra agoniza debaixo das lágrimas.
Os filhos da treva
domadores do ódio
cavalgam às cegas
derrubam o Tempo
sepultam os deuses
ressuscitam a morte
em patamares onde a claridade era o nome das mães
a vestirem os filhos de risos.
O pastor suspende a flauta
lá também
e os bosques silenciosos
não nos pedem sílabas piedosas
nem misericórdia
nem pão.
Palmira é uma mulher despida
imensamente morta
às portas do Templo
e os vendilhões não dobram os joelhos.

maria isabel fidalgo

Minderico | Dicionário Bilingue Piação – Português

Titulo: Dicionário Bilingue Piação – Português

Autores: Ferreira, Vera / Schulze, Ilona / Carvalho Vicente, Paulo / Bouda, Peter

ISBN: 978-989-97819-0-0

Editora: CIDLeS

Sinopse

O Dicionário Bilingue Piação – Português, criado e editado pelo CIDLeS – Centro Interdisciplinar de Documentação Linguística e Social, é o primeiro dicionário de minderico no sentido lexicográfico do termo. O minderico é uma língua ameaçada falada em Minde e Mira de Aire, Portugal, (código ISO [drc]), por uma comunidade de 150 falantes activos e 1000 falantes passivos. Este dicionário bilingue e bidireccional (Minderico – Português / Português – Minderico), com um total de 2254 entradas, não se limita à versão impressa, sendo acompanhado também por uma versão digital multimédia adquirida automaticamente com a compra desta obra. Através da versão digital terá acesso a um conjunto de informações adicionais que complementam a edição em papel, nomeadamente elementos áudio de cada lexema, exemplos contextualizados com áudio, vídeos que exemplificam a utilização da língua, fotografias e detalhes extra que contextualizam e fundamentam a etimologia de cada lexema.

Elaborado numa perspectiva interdisciplinar, o dicionário, ao contrário dos demais, alia a história, os estudos culturais e sociais e a informática à linguística. Para tal foi feita uma inventariação exaustiva do léxico minderico, recorrendo sempre a dados primários (resultantes do trabalho directo com os informantes sob a forma de entrevistas (livres e com estímulo) e gravações de eventos comunicativos com e sem participação activa do investigador), a fontes linguísticas, históricas, geográficas e culturais existentes e a resultados de investigação anteriormente desenvolvida. Os dados primários, complementados com dados secundários já existentes (como por exemplo, as explicações de alguns lexemas apresentadas pelos autores/editores dos glossários desenvolvidos no passado pela comunidade), permitem-nos retratar de forma mais fidedigna a realidade linguística que o minderico representa.

Mais do que um simples dicionário, o Dicionário Bilingue Piação – Português é uma enciclopédia do minderico.

LINK para aquisição online: http://www.cidles.eu/shop/order-dicion%C3%A1rio-bilingue-pia%C3%A7%C3%A3o-portugu%C3%AAs/

MIL TONS DE BELEZA | Carlos Bondoso

 

 

a bruma que se esfuma

pinta as cores da natureza

mil tons de encantos

mil cantos de certezas

 

são verdes os olhos

os pássaros os galhos

são trilhos e caminhos

o encanto dos teus ninhos

 

ao longe a tua figura

vestida na bruma

do verde te escondes

de branco vestida nua

 

POR CFBB

Natureza morta com pé-de-chumbo | Domingos da Mota

 

 

Fosse a vida cor-de-rosa,
e fosse a rosa vermelha,
e não a flor zelosa
de apertar a cravelha;

mostrasse o sal na ferida
aberta assim como se
fosse uma chaga que a vida
contaminou desde que

se deixou estugar o passo
do pé-de-chumbo que avança
espicaçando o compasso,

pela mão da governança,
em função do contrapasso
que dá voz à contradança.

Domingos da Mota

[inédito]

Sonata à chuva | Maria Isabel Fidalgo

 

 

Só dentro de mim te posso nomear
Ou cantar-te em verso emudecido
Silenciar a água transbordada
Que junto ao mar bebi contigo.

Só dentro de mim vi eu roseiras
De aromas trazidos dos pinhais
Quando à voz da chuva enlouquecida
Juntei a minha em sons nasais.

Sei que havia sol e mesmo estio
No lume rubro dos teus braços
Mas só depois da morte renasci
Inteira eu em mil pedaços.

Só no silêncio te posso nomear
Com ténue pudor embaraçado
Mas a chama que ardeu dentro de mim
Foi vulcão em lava desatado.

maria isabel fidalgo

( in ” Antes de Mim um Verso” )

O fogo criador e suas cinzas | Adelto Gonçalves

                                                           I

Sinais de Cinza – Estudos de Literatura (Guimarães, Opera Omnia, 2012) reúne estudos preparados pelo crítico e ensaísta António Manuel Ferreira, professor de Literatura Portuguesa da Universidade de Aveiro, ao longo de uma carreira acadêmica ainda em seu meio caminho. Seu título saiu do romance Sinais de Fogo, de Jorge de Sena (1919-1978), como justifica o autor, ao lembrar que, se a literatura nasce do fogo criador, também é cinza, ou seja, “testemunha vital de um combustível”. E, do mesmo modo, é cinza que pode motivar uma fagulha a partir de uma leitura e, portanto, constitui “um ato de cíclico renovamento”.

É o que diz o professor Ferreira no prefácio que escreveu para este livro que dividiu em cinco partes temáticas e que, a rigor, abrangem as linhas de estudo a que se tem dedicado nos últimos anos. São textos que anteriormente foram publicados em revistas universitárias e que, agora, têm a oportunidade de serem lidos por um público mais amplo. Por coincidência, os títulos das divisões remetem a estudos que o professor tem dirigido e editado em seu labor universitário.

A primeira parte, “Teografias”, aliás, título de projeto que o professor coordena, é constituída por seis estudos que procuram discutir a representação do Deus cristão nas obras de José Régio (1901-1969), Aquilino Ribeiro (1885-1963), Fernando Pessoa (1888-1935), Mário Sacramento (1920-1969), Eça de Queiroz (1945-1900), Machado de Assis (1839-1908), Jorge de Sena e Paulina Chiziane (1955).

Desses, dois são dedicados a Paulina Chiziane, a primeira romancista negra de Moçambique, cuja obra constitui, segundo o ensaísta, “um manancial riquíssimo de indagação teológica, cujo alcance hermenêutico conglomera, nas mesmas questões, os preceitos judaicos-cristãos e as tradições religiosas moçambicanas”. Para Ferreira, Paulina reflete em sua escrita uma leitura protestante da Bíblia, mas, em grande parte dos casos, a convocação do Deus cristão tem o propósito de condenar o colonialismo e o imperialismo, ou seja, o Deus imposto aos africanos pela lei da espada do colonizador.

Seja como for, diz o professor, a Bíblia funciona nos livros de Paulina como um dos intertextos mais recorrentemente privilegiados.

No último ensaio da primeira parte, dedicado a Fernando Pessoa, Ferreira observa que a poesia de Alberto Caeiro, heterônimo pessoano, dialoga, de forma explícita e paródica, com a figura e a mensagem de São Francisco de Assis (1182-1226), ainda que a sua antipatia pela Igreja Católica seja evidente, como se vê no poema oitavo de “O guardador de rebanhos”.

                                                           II

            Em “Percursos de Eros”, que reúne quatro ensaios que abordam o homoerotismo nas literaturas portuguesa e brasileira, está o ensaio “Sinais de cinza: derivas homoeróticas na obra de Jorge de Sena”, que traz a metáfora-gênese deste livro. Nos demais ensaios são abordados contos brasileiros, o “teatro veloz” do ator brasileiro Ivam Cabral (1963) e a obra João Vêncio: os seus amores, de Luandino Vieira (1935), romancista angolano nascido em Portugal.

Na terceira parte, “Escrever a ruína”, há um texto sobre a poesia de Joaquim Manuel Magalhães (1945), outro sobre a obra de Fernanda Botelho (1926-2007) e um terceiro a respeito de Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, romance que o ensaísta considera ter alcançado a proeza inigualável na literatura em Língua Portuguesa de se apresentar visualmente fragmentado e organicamente coeso, dando a falsa impressão de pertencer à estética romanesca do século XVIII, mas que ultrapassa o século XIX para se enquadrar na “pulverização estrutural e axiológica da nossa contemporaneidade”.

Nas duas últimas divisões do livro, o leitor encontrará análises percucientes das obras de autores portugueses como Augusto Abelaira (1926-2003), Miguel Torga (1907-1994), Branquinho da Fonseca (1905-1974), Eugénio de Andrade (1923-2005), Eugénio Lisboa (1930) e novamente Aquilino Ribeiro. E ainda estudos sobre as obras dos poetas moçambicanos Alberto de Lacerda (1928-2007), Rui Knopfli (1932-1997) e Luís Carlos Patraquim (1953). Enfim, ler este livro, praticamente, equivale a fazer um excepcional curso de Literatura em Língua Portuguesa.

                                               III

António Manuel Ferreira, que é hoje talvez o estudioso que mais bem conhece a literatura que se escreve em Língua Portuguesa em todo o mundo, tem colaborado também em cursos de pós-graduação (mestrado e doutorado) em Moçambique e no Brasil, especialmente na Universidade de São Paulo (USP). Organizou a edição das Obras Completas, de Branquinho da Fonseca, publicada pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda, de Lisboa, em 2010, em decorrência de sua tese de doutoramento Arte Maior: os contos de Branquinho da Fonseca, igualmente editada pela IN-CM em 2004. Fundou e dirige a revista de literatura Forma Breve e a série de volumes temáticos Voltar a Ler.

Atualmente, coordena o projeto Teografias – Literatura e Religião, financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), de Portugal, pelo qual já saíram à luz três volumes: “Sentimento Religioso e Cosmovisão Literária” (2011), “Gramáticas da Criação: Adão, Eva e outros mitos” (2012) e “Metamorfoses da Santidade” (2013).

 

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Sinais de Cinza – Estudos de Literatura, de António Manuel Ferreira. Guimarães, Opera Omnia, 502 págs., 12,40 euros,  2012. E-mail: operaomnia@sapo.pt Web: www,operaomnia.pt

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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981), Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003) e Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

NA TERRA DOS MIL NOMES | carlos fernando bondoso

 

 

instalam-se sombras
na terra dos mil nomes
vislumbram-se nuvens que esvoaçam
e pairam no silêncio das águas

 

moinhos
trituram
o vento das marés

 

pedras feitas de pó
alimentam o cume dos montes
e as cinzentas muralhas

 

a minha alma colhe imagens vazias
e cogita frases antigas
cai o firmamento com insustentável leveza
e faz de mim este louco poema

 

POR CFBB

TERROR | Licínia Quitério

 

 

Abriu a mala para retocar o batom, num gesto quase maquinal, a quebrar o fastio da espera na sala pouco movimentada. Ao procurar na bolsa, sentiu na mão um objecto com o frio de metal e não o tubo esperado. Espreitou. Mal podia acreditar no que via. Ali, na sua mão direita, um canivete suíço, vermelho, tão longo como a sua mão aberta. Estremeceu, olhou em volta, tornou a fechar a mala. Ninguém podia ver o objecto proibido num lugar daqueles, altamente vigiado, no coração de um continente em crise, com sensores presumivelmente implacáveis. Certificou-se de que nenhum alarme soava, que nenhum vigilante se lhe dirigia. Continuou fingindo a maior calma, a mala aconchegada no colo, a pensar no que fazer ao canivete. Deixá-lo ali caído, deitá-lo num recipiente de lixo, enfiá-lo no bolso do casaco do passageiro adormecido a seu lado. Nenhuma das hipóteses lhe agradou, o habitual poder de imaginação a falhar redondamente. Foi quando se fez luz na sua cabeça aturdida pela insólita situação. Para que serve uma arma daquelas? Para cortar. Cortar o quê? Começou então, metodicamente, a cortar em pedaços os poucos passageiros em espera. Cabeça de um que já prometia pendências, pernas de outro, ali convenientemente esticadas, a mão de outro, abandonada no banco, e mais um pé descalço, e uma orelha do outro a pedir misericórdia, e ainda…

“Senhores passageiros do voo XYZ com destino a KKKK queiram dirigir-se à porta 000”.

Desistiu da degola seguinte, agarrou a mala, olhou em volta, nada de alarmes, dirigiu-se à porta indicada. Atrás dela, uma fila de zombies que reconheceu claramente. Um deles chegará a presidente de uma qualquer república, pensou. Já no avião, voltou a procurar o canivete na mala. Lá estava. Achou estranho que agora as lâminas também fossem vermelhas. Agarrou-se aos braços do assento. Tinha sempre medo nas descolagens. Para se acalmar, pensou em contos de terror.

Licínia Quitério

Minha Senhora de Mim, de Maria Teresa Horta

Minha Senhora de Mim, o nono livro de poesia de Maria Teresa Horta, foi editado em Abril de 1971 pela Dom Quixote, na colecção Cadernos de Poesia.
Em 3 de Junho seguinte, a editora foi objecto de um auto de busca e apreensão da obra por parte da PIDE/DGS, operação que foi extensiva a todas as livrarias do país.

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História da Literatura Europeia, uma nova e fundamental disciplina | Adelto Gonçalves

I

Distinguir História da Literatura de História Literária é tarefa das mais difíceis porque, muitas vezes, ambos os termos podem parecer sinônimos, mas esse é um ledo engano em que muitos historiadores costumam escorregar. Assim, História da Literatura seria a sequência de narrativas, autores, estilos literários e teorizadores de poéticas literárias, enquanto História Literária constituiria a disciplina que estuda a Literatura de um ponto de vista histórico. Ou ainda a compreensão da Literatura através dos seus contextos (políticos, econômicos, culturais).
Feitas estas distinções, Maria Luísa Malato, professora de Metodologia dos Estudos Literários e de Retórica Geral da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, mestre e doutora em Literatura Comparada, partiu para compor História da Literatura Europeia: uma introdução aos Estudos Literários (Lisboa, Quid Júris, 2008), que desde o seu lançamento há sete anos tem constituído livro de referência na área e presença obrigatória na bibliografia dos cursos de Metodologia dos Estudos Literários e de Retórica nas universidades portuguesas.
Aliás, alguma editora brasileira deveria celeremente também publicar esta obra para que cumpra o mesmo caminho nas faculdades de Letras das universidades brasileiras, especialmente na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP), pois seria um complemento imprescindível ao que se lê em Literatura Comparada (São Paulo, Edusp/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2000), da professora Sandra Nitrini.
Até porque os países de língua espanhola e portuguesa tomaram como modelo outras literaturas europeias, sobretudo a francesa, ainda que, a partir de certo momento no século XX, a literatura norte-americana tenha se tornado para os literatos desta parte do globo um novo polo de atração. Seja como for, é impossível estudar as literaturas do Brasil e dos países da América hispânica sem levar em conta as suas ligações com as diversas literaturas do continente europeu.

II

Por que História da Literatura Europeia? A própria autora se encarrega de explicar, lembrando, porém, que saber o que é Literatura Europeia, quando nem sequer é clara a fronteira política ou econômica da Europa, é missão por demais complexa. Mesmo porque a Europa, “entremeada de sonhos imperiais (os de Roma, de Alexandre, de Carlos Magno, de Bizâncio, dos Francos ou dos Godos, da Liga dos Estados de Napoleão ou das anexações de Hitler), tem feito a sua história à custa da fragmentação de nações e estados”.
Ainda assim, Maria Luísa Malato prevê que, a partir de algumas mudanças que devem se acentuar na atual segunda década deste século XXI, o fortalecimento da União Europeia terá de ser feito através do reforço da ideia cultural de Europa. E que, a partir disso, o próprio poder político incentivará o que antes parecia menosprezar, ou seja, a ideia segundo a qual existe uma Literatura Europeia, pois esta, quando contextualizada pela Literatura Comparada, torna-se uma forma mais complexa e rica de abordagens das próprias literaturas nacionais. Até porque a Literatura Comparada incluiu-se na história literária, não sendo, portanto, uma disciplina acadêmica específica ou autônoma, mas uma forma de atuar no campo da pesquisa.
Nesse sentido, diz a autora, não só o curso de Letras mas também os cursos de Ciências da Informação, Ciências Documentais e de Jornalismo só terão a ganhar com uma disciplina que faça seus alunos lerem “diacrônica e sincronicamente não só as obras literárias que marcaram a cultura ocidental, mas os textos que os impregnam de uma visão mais alargada da cultura em que se moverão no futuro”.

III

Para escrever este livro, Maria Luísa Malato tomou como modelo Jorge Luís Borges (1899-1986) e seu Curso de Literatura Inglesa, as “Notes de Cours” (notas de curso), de Roland Barthes (1915-1980), no Collège de France, entre 1977 e 1980, e Porquê ler os clássicos? (Lisboa, Teorema, 1994), de Ítalo Calvino (1923-1985), obra que oferece uma breve história da literatura em 35 ensaios sobre 35 autores europeus, de Homero (séculos VIII e IX a.C.) a Cesare Pavese (1908-1950), classificados pelo autor como “clássicos”. Os apontamentos (notas de curso) de Barthes podem ser encontrados em Como viver junto (2003), O Neutro (2003) e A preparação do romance (2005), todos publicados pela Editora Martins Fontes, de São Paulo, em tradução de Leyla Perrone-Moisés.
Como diz Maria Luísa Malato, se neste livro não se encontram os cem escritores “que você precisa ler” nem são enumeradas as “mil obras que (você) deve ler antes de morrer”, o leitor vai descobrir um roteiro seguro dos autores que deve ler para ter uma ideia do que é a Literatura Europeia, uma história , aliás, sempre inacabada porque em construção.

IV

Maria Luísa Malato é professora desde 1988 na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, com área de investigação em Literatura Comparada, nomeadamente nos séculos XVIII e XIX (teatro, narrativas utópicas), Retórica Literária, Retórica da Sensibilidade e Crítica Textual.
Além de artigos dispersos em obras coletivas, é autora também dos seguintes livros: Le XVIIIe Siècle, une Epoque d’Ombres et Lumières (Mons/Bélgica, 2009); Manual Anti-Tiranos (Porto Alegre, 2009); “Por acazo hum viajante…”. A vida e obra de Catarina de Lencastre, 1.ª Viscondessa de Balsemão (Lisboa, 2008); José Daniel Rodrigues da Costa: O Balão aos Habitantes da Lua. Uma Utopia Portuguesa (Porto, 2006); Manuel de Figueiredo, uma perspectiva do neoclassicismo português (Lisboa, Imprensa Nacional-Casada Moeda, 1996); e Camus (Porto, Rés Editora, 1984).
É autora com Paulo Ferreira da Cunha de Manual de Retórica & Direito (Lisboa, Editora Quid Júris, 2007) e responsável pela introdução e edição crítica das Obras Completas de José Anastácio da Cunha (Lisboa, Campo das Letras, 2 vols., 2001-2006). Colaborou na História e Antologia da Literatura Portuguesa. Século XVIII, volume IV (Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2013); na Biblos: Enciclopédia das Literaturas de Língua Portuguesa (Lisboa, Verbo, 1995-2005), na História da Literatura Portuguesa (Lisboa, Publicações Alfa, 2002), e na História de la Literatura Portuguesa (Madri, Cátedra, 2000).
Foi editora também de Leituras de Bocage (Porto, Núcleo de Estudos Literários da Universidade do Porto, 2006), que reúne os textos apresentados durante o Colóquio sobre os 200 anos da morte do poeta (1805-2005). Figura no International Directory of Eighteenth-Century Studies/Répertoire International des dix-huitièmistes.

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História da Literatura Europeia – uma introdução aos Estudos Literários, de Maria Luísa Malato. Lisboa: Editora Quid Júris. Coleção Erasmus – Manuais Universitários, 318 págs., 2008, 21,20 euros. E-mail: geral@quidjuris.pt. Site: www.quidjuris.pt

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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981), Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003) e Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br