Pirómanos

Há um mar de chamas do outro lado da cidade. És tu a arder na minha ausência. Pegas fogo aos lençóis, incendeias o quarto, consomes a tua casa em labaredas.

Estou longe mas sinto o teu ardor. E, quando dou por mim, entro em combustão. Todo o meu apartamento crepita, tudo arde sem a tua presença.

“Não desligues o computador.”

“Fica mais uns minutos on-line.”

É este o incêndio que ateámos, pirómanos de um amor que se alastra em pixéis e bytes.

Bruno Barão da Cunha

A entrega

Clarisse olha-se ao espelho. Está nua. Estica os braços atrás da cabeça, um seio a elevar-se, a auréola a apontar para o tecto. O outro seio teima em não contrariar a gravidade, mostrando-se cabisbaixo. Instintivamente cobre a mama entorpecida com uma mão e vira-se de costas. A curva da coluna vertebral imita uma rampa de lançamento e os glúteos, de uma brancura quase doentia, pronunciam-se num orgulho nada disfarçado. Uma mão afaga uma metade e a outra mão aparece por entre as suas pernas, ajustando-se ao fundo de si com a urgência de um clamor. E, ali mesmo, Clarisse entrega-se ao espelho.

Bruno Barão da Cunha

De Espanha… Ana María Moix, «Manifiesto Personal»

De Espanha, felizmente, não chegam só notícias da novela da dívida e do seu resgate. Vêm também reflexões por essa novela suscitadas que, às vezes, quando são sábias e grandes as vozes que as transmitem, dão-nos motivo de satisfação porque se traduzem em excelentes obras. É o caso do mais recente livro de Ana María Moix, «Manifiesto Personal», recém-lançado pelas Ediciones B, de Barcelona, em que a autora reflecte, através de uma análise da forma como as pessoas vulgares vivem hoje em Espanha e de como as preocupações quotidianas estão a matar em cada uma delas o sonho e o gosto de viver, sobre o modo como«os abusos do capitalismo estão a acabar com o mundo desenhado pelo dinheiro e pelo consumo». Conforme se escreve na revista Que Leer, «estamos perante um texto singular. Excepcional na sua forma de escrita, de uma límpida clareza, compreensível por todos, transforma os tópicos da indignação e do protesto em peças dignas de atenção humanística.» Um livro, pois, para o qual vale a pena chamar a atenção de editores, livreiros e leitores.

Manuel Brito

RE(-A)NUNCIAR O MESSIAS Folhetim em Trinta e Quatro Episódios da autoria de Carlos Pessoa Rosa. Segundo Episódio

A única verdade é a própria. Nada sou. Não há motivo.  Encruzilhadas existem em todas as estradas. Tortuosas ou retilíneas. O fruir depende dos olhares que me dirigem. Do ir e vir das percepções e intuições. Do momento em que a luz e a lua me fazem cilada. Infinitas sombras, simulacros, mentiras ordinárias. Que opção mais imbecil ao dizer Eu irei, Senhor. Mande-me! Que não houvesse a tenaz nem a brasa; nem qualquer delírio. Melhor culpado e morto que inocente com o peso da impotência. Diante de meu rosto cheio de dobras e linhas, de sua rudeza, de minha desproporção, ladrões dividem o roubado, prostitutas abrem as pernas por um trocado, pessoas urinam, alcoólatras vomitam, políticos sobem em palanques, militares marcham, e fiéis vão à igreja, essa atrás de mim. Quanto tempo aguardando que armas fossem transformadas em pás, arados, e enxadas!  Que justiça é essa que faz do justo criminoso, do injusto legislador? Vocês leem, mas não compreendem. Tenho minhas mãos suculentas.

 

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UM OVO DE AVESTRUZ (Como as baratas que conhecem as trilhas do escuro) Folhetim em Oitenta e Quatro Episódios da autoria de Carlos Pessoa Rosa.

Octagésimo quarto Episódio

 

PRÓLOGO

Cena 1

A isso, os doutores chamam de cura… Saímos. Trinta anos mais velhos. Eu e esse aí, o outro de mim. Vendo tudo em branco e preto, sem rumo e sem prumo. Ansiosos. Haveria alguém nos esperando? Não! Como podia? Nos olhamos, eu e o outro de mim, surpresos. Ela vem em nossa direção. Mulher feita. Apressa os passos, quase corre, braços abertos… E nos abraça. Ao fundo a tarde alaranjada. Voltou a cor: Lindsay existe!

Non-Sense 9

A literatura.

FIM

Sobras de Felicidade

Quando cheguei, não fazia muito que a festa havia acabado, mas não tinha uma viva alma no recinto. Fui de mesa em mesa recolhendo os restos de cerveja de vários copos, até encher um completamente para mim. Achei uma bagana ainda em brasa, quase meio cigarro. Apanhei também. De outra mesa, juntei um prato com sobras de um picadinho de queijo, presunto e azeitonas. Estava com sorte, tinha uma cereja ainda intacta, atravessada por um palito. Encontrei no chão uma máscara, tipo a do zorro. Apanhei. Escolhi a melhor mesa do salão, sentei, tirei o chapéu, coloquei a máscara, pus uma perna sobre a outra e, calmamente, me pus a tirar baforadas, fazendo auréolas com a fumaça, bebericando minha cerveja, e degustando, de vez em quando, um picadinho. Que felicidade!

José Eron Lucas Nunes

Debaixo da árvore

Três homens estão debaixo de uma árvore. Apressada, a vida passa diante deles.

— Dói-me o corpo — lamenta-se o primeiro.

— Dói-me o coração — lamuria o segundo.

— Dói-me a alma — filosofa o terceiro.

De repente a árvore tomba.

— Dói-me o corpo — geme o primeiro e morre.

— Dói-me o coração — balbucia o segundo e morre.

— Dói-me a alma — murmura o terceiro, com a morte já sentada ao seu lado.

Bruno Barão da Cunha

Button vs. Orlando

por Luís Carmelo

A explosão de uma imaginação verdadeiramente livre na literatura moderna (pós-iluminista), capaz de disputar codificações restritivas, acontece casuisticamente quando um género se recria de raiz (caso de Poe), ou quando os cenários de ruptura passam a dominar as vanguardas no início do século XX (Woolf, Zvevo, Joyce, Pessoa, etc.). Nada que narrativas pré-modernas não tivessem já abordado (Contos de Canterbury, Divina Comedia, Quijote) ou que as escritas mitológicas não tivessem já ilimitadamente desenvolvido (o triângulo ‘criacionista’ Zeus – Prometeu – Epimeteu é, neste caso, um bom exemplo).

A capacidade de reinventar a vida sem lemes pré-fixados não é algo novo, ou seja, exclusivamente moderno e/ou contemporâneo. O mundo pós-moderno contribuiu para anular um certo historicismo axial que desvendava redenção atrás de redenção através das artes imanentes do deus Chronos. Na verdade, não há época que possa exclusivamente reivindicar um salto da imaginação em direcção a um dado percurso narrativo. A tradição oral sempre ilustrou um fulgor imaginativo radical, o que apenas confirma a expressão de António Damásio, segundo a qual o nosso cérebro é essencialmente uma máquina “contadora de histórias”*.

No entanto, é um facto que o período que sucede à Primeira Grande Guerra Mundial condensa muitas das viragens plásticas e imaginativas que, mais tarde, se projectarão em todo o século XX. A reinvenção do tempo, não apenas através da abolição de fronteiras entre o tempo ficcional e real, entre o tempo psicológico e externo, ou ainda entre o tempo ‘aion’ (intensidade) e ‘chronos’ (diacrónico), constitui uma das marcas da grande viragem da época. O realismo perde o pé neste novo paradigma expressivo com que se rescreve e recria o mundo, enquanto a “poiesis”, no seu sentido original de uma linguagem e que se reinventa a si própria, adquire um renovado esplendor.

Entre as muitíssimas obras que se poderiam citar neste período, há dois romances – um de 1922 e o outro de 1928 – que convocam como ‘topic’ essencial dos seus enredos a domesticação do tempo. Quer isto dizer que se trata de obras em que o tempo não é apenas o sintoma de uma revolução profunda em curso, mas antes o objecto mesmo da abordagem. Curiosamente, ambas as obras funcionam por inversão (um homem que nasce velho e que morre bebé e/ou um homem que muda de sexo a meio da vida e que morre mulher), concedendo às demais circunstâncias da diegese um estatuto relativamente incólume, como se o facto fosse incorporado pela realidade como um dado plausível e objectivável.

Referimo-nos, como é evidente, a O Estranho Caso de Benjamin Button de F. Scott Fitzgerald, obra de 1922 (que terá tido como base uma afirmação de Mark Twain sobre o ‘pathos’ da existência) e o mais literariamente complexo Orlando de Virginia Woolf que, ao fim e ao cabo, recorre ao tempo como uma intensidade que acaba por dar à luz uma sucessão de heterónimos, embora não esquematizados, como acontece em Pessoa, mas aglutinados e desarrumados, como se nessa errância se propusesse um novo tipo de lógica. Porventura, Button e Orlando apenas terão em comum o fio partilhado de uma revolução literária, já que propõem figurinos muito diversos. Mas habita em ambos uma imaginação quase selvagem, livre, arredada de quadros restritivos e capaz de ridicularizar os sentidos mais fechados que lhes atribuam. É essa a sua desafiante lição.

*O Sentimento de Si – O corpo, a emoção e a neurobiologia da consciência, Publicações Europa-América, Lisboa, 2000. p.221

Contramão

O rosto de Santiago era fustigado por uma brisa que lhe picava a pele. Cheirava a frio e a abetos numa corrente fina e gelada que se entranhava nas narinas. Aquele Fevereiro agasalhava os condutores com promessas de uma baixa pressão mais tiritante do que o sopro da própria morte. Algures um termómetro reflectia límpidos raios de sol, quase tremendo aos meros -5ºC que indicava. Não havia sinal de nuvens no horizonte. Não havia horizonte. Apenas uma estrada que serpenteava a montanha entre árvores despidas, expondo-se aos últimos raios do sol de Inverno.

Foi então, nesse cenário de indubitável carácter montanhês, que, saindo disparado de uma curva, um camião em rumo descendente invadiu a faixa de rodagem de Santiago.

Ainda hoje, passados uns bons anos, há quem jure ter avistado um grande pássaro vermelho a voar sobre o vale daquela montanha. Não há registos do seu poiso em parte alguma.

Bruno Barão da Cunha

UM OVO DE AVESTRUZ (Como as baratas que conhecem as trilhas do escuro) Folhetim em Oitenta e Seis Episódios da autoria de Carlos Pessoa Rosa.

Octagésimo Episódio

Registro no prontuário

Fixação pela escritura. O problema é transformar a ficção em realidade. Tem uma amiga de nome Lindsay que ninguém conhece. Matou um padre em nome de Maldoror.

Diagnóstico: Comportamento bipolar.

 

Sugestão: internação no manicômio judiciário – não entregar de modo algum caderno ou caneta ao paciente

 

 (continua)

UM OVO DE AVESTRUZ (Como as baratas que conhecem as trilhas do escuro) Folhetim em Oitenta e Seis Episódios da autoria de Carlos Pessoa Rosa.

Septagésimo Nono Episódio

 

Perdido 431

Pegou umas estradas de terra, tortuosas e íngremes. Noite clara e lua-cheia. As estrelas em pulsar lento. As copas enegrecidas das árvores. Pulsares. Das estrelas, da alma e do corpo. Assim sendo quando a carne e a alma gozam.

 

 (continua)

Antroponímia

À primogênita deu o nome de Maria. O segundo filho chamou de José. O terceiro, João Batista, e a última filha, para não fugir à regra, foi batizada de Isabel. Quando cresceram, Maria, por influencia dos artistas, apaixonou-se pela cientologia; José, tornou-se budista; João Batista, por sua vez, tinha-se por completamente ateu, embora afirmem tê-lo visto no Acre em rituais do Santo-Daime; e Isabel, depois de morar na Bahia onde flertou com o Candomblé, transferiu-se para a Índia para dedicar-se às religiões dármicas, onde se encontrou definitivamente.

José Eron Lucas Nunes

Vazio

Descobria plantas, pedras e insetos, fazia listas com os seus nomes e, se ainda não os soubesse, desenhava as suas formas nos papéis que levava nos bolsos e depois, em casa, ia procurá-los, na enciclopédia de lombada grossa, quase a resvalar da prateleira da estante, no escritório do meu pai. Estava numa das prateleiras mais baixas, ao meu alcance, sem ter de subir o escadote, porque o meu pai conhecia o medo que eu tinha das alturas e as vertigens que me davam, logo que começava a subir. Era por isso que a minha mãe escondia as bolachas, os chocolates e as compotas, nos armários mais altos da cozinha.

A minha mãe nunca entendeu o meu fascínio pela natureza. Talvez porque me afastava dela. Era uma artista. Transpunha as imagens, como as via e as sentia, para a tela. Aí ficava a verdade das imagens e não a verdade das coisas e dos seres. Eu, ao contrário, desejava buscar a verdade no que conseguia agarrar, no que via, sem me deixar envolver, sem me deixar levar pela ilusão ou sentimento. Talvez me faltasse o sentido estético e poético para apreciar o mundo. Hoje penso que a velhice tornar-se-ia mais suportável se a minha alma conseguisse ser tocada pela poesia. O poeta e o amoroso são parecidos. Tudo se transmuta, o mundo transforma-se. É um mundo desenhado pelos seus olhos. Nunca fui um poeta ou um amoroso. Julgava que não havia ilusões a ensombrarem, a distorcerem a realidade do que eu via. Hoje tento agarrar qualquer ilusão que me eleve. Que me salve. Eu, que gostava tanto do conforto da terra, aspiro agora aos céus.

Julieta Ferreira

MAIS SOBRE VEROSIMILHANÇA

Vale tudo? Parece que sim, em se tratando de literatura. Ah, é ficção? Então faça-se batota à vontade. Não há crime e poucos dão por isso.

Às vezes penso que sou demasiadamente severo para com estas pessoas que ascendem à literatura num adejo de candura e auto-satisfação. Ocorre-me a descrição de Mark Twain, num livro da minha juventude, de um rei Artur, incógnito entre camponeses, a discretear sobre e «árvore das cebolas». Mark Twain é indulgente e bonacheirão para com a personagem. Eu bem gostaria de ter essa caridade.

Abri outro dia ao acaso um livro de uma personalidade mediática que, segundo indicação das letras da capa (onde a imagem representa alegremente uma outra e conhecida senhora), versaria sobre determinada figura da História de Portugal, falecida no primeiro quartel do século XV. Logo calhei na página em que duas jovens abrem uma arca em que há bolas de naftalina.

A pessoa que escreveu esse livro não teria hesitado quando usou a naftalina? Não teria tido sequer a suspeita de que rolava ali um odoroso anacronismo? Não lhe retiniu, sequer ao de longe, nos refegos da alma, um toque de aviso?

Admitamos a evidência de que estas coisas às vezes acontecem, há lapsos, há deslizes, há erros. Onde não? Provavelmente até se poderão fazer antologias de anacronismos nos melhores autores. Guardem-se os obscuros Walter Scott, Vítor Hugo, Alexandre Dumas, Henri Sienkiewicz, Herculano e Garrett, Teixeira de Vasconcelos, Rebelo da Silva, Louis Aragon, José Saramago, Robert Graves! Guarde-se uma multidão doutros nomes, igualmente misteriosos, que cometeram o romance histórico. Não estão livres duma lupa espiolhadora a denunciar os erros, com a implacabilidade com que se acusam os nódulos duma trama.

O problema é que folheando o resto do livro se verifica estar ele, por inteiro, à altura deste anacronismo. Nunca passaram sob os olhos da autora textos da Idade-Média em Português. Provavelmente não passaram nenhuns outros. E não se detecta sequer a preocupação de uma outra benemérita, que, desconfiada de que antigamente não se falava como agora, introduz, de vez em quando, um vocábulo que considera imbuído da pátina das eras: «medrar»

Porque é que esta criatura não tira o raio dum curso? Porque é que não pede a alguns professores que lhe indiquem textos? Porque não se recolhe a estudá-los e a anotá-los? Porque não se vira durante uns tempos para as bibliotecas? Fale com pessoas, peça opiniões, consulte…

Disseram-lhe, se calhar, que a maior parte dos escritores é aberrantemente progressista, o que não é de todo verdade. Há excelentes autores reaccionários. Grande mercê faria a todos se ouvisse os escritores reaccionários.

Não que isso lhe conferisse especial aptidão literária. Temos casos de universitários sobre os quais se pode dizer que o que transborda em conhecimentos falta em alcance literário. Mas ao menos podia evitar ao leitor o desconforto de uma tentativa de agressão cultural tão crua.

Ora o pagode compra-lhe estes livros, adora estas tretas, tem entusiasmos alarves na Net. Os locutores rejubilam. Se calhar a tal senhora exulta. E desmerece este meu tipo de comentários, aliás benévolos, tendo-os por despeitados, caturras, porventura «ultrapassados». Não seria melhor informar-se, averiguar, reflectir, estudar?

Mário de Carvalho

IAQUE

Há dias em que eu gostaria de saltar para uma língua estrangeira, como quem mergulha na Baía de Halong. Vietnamita, dinamarquês, turco, tupi, tibetano ou mesmo japonês. Há dias em que eu gostaria de nadar em uma língua estrangeira como uma orca nas águas geladas da Antártica. Há dias em que eu gostaria de falar de mim em uma língua estrangeira, em que, de tão estranha, eu não pudesse antecipar afetos, cores, pensamentos, estradas, amores que ela fosse provocando em mim ao falar – até mesmo – de mim. Há dias em que eu gostaria que falar de mim fosse falar de paisagens estrangeiras em uma língua jamais ouvida que eu tivesse de falar subitamente pela primeira vez. Há dias em que eu gostaria de falar de mim com a sensação de um iaque ao atravessar um despenhadeiro do Himalaia. Há dias em que eu gostaria de não me reconhecer em nada na língua em que falo. 


Alberto Pucheu