O SUSTO NÃO FOI A MORTE ACIDENTAL, MAS A GRAVIDEZ – Folhetim em Seis Episódios da autoria de carlos Pessoa Rosa – Sexto Episódio

Não poderia permanecer ali sentada, o homem no colo e a lâmina com sangue coagulado nas mãos. O corpo estava quente. Precisaria sair em carreira antes que os homens da lei chegassem. Em delírio poderiam ligar as duas mortes, dois assassinatos com arma cortante. Arranjaria um pouco de pó, não estava preparada para mofar em um cubículo frio e estreito. Para morrer, nem falar.

FIM

O SUSTO NÃO FOI A MORTE ACIDENTAL, MAS A GRAVIDEZ – Folhetim em Seis Episódios da autoria de carlos Pessoa Rosa – Quinto Episódio

Não tem fotografia da mãe nem do pai. A dele a mãe queimou todas, nem o álbum de casamento guardou. Com a expulsão, conheceu o gigolô. Fazia ponto em um bar próximo da Santa Casa de São Paulo. Ofereceu-lhe moradia e proteção. Não tinha escolha, foi vendida como virgem um bom tempo. É sempre mais fácil conseguir freguês quando se é jovem, os homens têm esse lado perverso e querem sugar a juventude na fonte. A fantasia da virgindade aliada à idade rendeu-lhes um bom dinheiro. Era um gigolô competente, disso não tinha

queixa. Afora a violência de alguns fregueses, ficar na rua sem gigolô daria cana na certa. Aguardaria os acontecimentos para decidir o que fazer.

Dobrou a Paulista à esquerda. Com a garoa, a cidade lavada, o céu era de blocos enegrecidos de nuvens. De pronto, não acreditou. Pela roupa, só poderia ser o estrangeiro. O sacana comeu, saiu sem se despedir e levou alguns trocados. Parecia cochilar na mureta de cimento. Bronca esboçada, apressou os passos. Parou próximo ao corpo. O sangue pingava do punho e uma poça vermelha formava-se ao redor dos pés do suicida. Ficou paralisada, pernas moles e a imagem de três rostos: o pai, o gigolô e, agora, o estranho. Tratou de arrancar um pedaço do vestido e tentou estancar a hemorragia. Nem o nome dele sabia. De nada adiantava o hospital próximo. Vivo estivesse, que maluco pararia o carro para carregar um estranho sangrando e uma prostituta? Somente alguém em paz com a morte notaria que puta existe. Compreendeu tarde, o estrangeiro fizera tudo muito bem planejado, somente ela não fazia parte do final, fora um encontro casual.

(continua)

O coração que não se foi

Quando o jornal ficou vazio, pelas onze da noite, o antigo cronista voltou ao local do crime. Tinha deixado, por puro esquecimento, uma caneta que lhe era querida, recordação da mãe. No caminho lembrou-se daquele filme em que alguém beija as paredes de uma casa para ter a certeza de que regressará um dia. Seria “O Piano”? Talvez. Pouco importava. O cronista subiu então à redacção, encontrou a caneta, olhou as paredes, a desarrumação, os jornais de há várias semanas espalhados, os desportivos e a secção das revistas cor de rosa. O barulho era apenas o das ventoinhas dos computadores semi-adormecidos. Suspirou. Sentou-se na cadeira desconfortável do chefe. Talvez a falta de qualidade da mesma fosse a razão de tanta má disposição. Abriu a última edição do jornal, leu o editorial e ainda a cronista de quem gostava.

Tinham tido sexo nos sonhos dele. Apenas nos sonhos. Uma coisa tórrida e um pouco pirosa, mas o ex cronista – sim, porque afinal é um ex cronista – já sabe, há muito tempo, que o sexo é uma coisa mental e serve qualquer cenário. O dele seria, porventura, patético. Deixara aquele jornal, escrevia num outro, concorrente, melhor salário, mais salamaleques dos colegas, sempre a admirar a sua prosa e a colocar

likes na página do facebook. Não se podia queixar. Ali, na antiga redacção sentia-se melhor. Essa era uma verdade incontornável e indizível. Talvez por o terem tratado como uma pessoa normal. Um homem que gosta do Benfica, que diz merda, que prefere mamas a rabos, que viajou mas não tanto quanto gostaria e que mantendo o sentido de humor dizia e escrevia coisas certeiras. Alguém lhe tinha dito que ele era um espelho da sua geração e optara por rir. Nunca seria nada disso. Ninguém saberia a sua idade.

Levantou-se da cadeira do chefe e deu uma volta pela sala. Comoveu-se com a fotografia de um criança, um boneco de plástico e ainda um pião de madeira, tradicional. As coisas que as pessoas têm nas mesas de trabalho. Enfim. Com um suspiro, a caneta bem guardada junto ao coração, o ex cronista abandonou o passado e seguiu pela rua, virou à direita, fez-se à avenida. Na paragem de táxis fez sinal a um homem que fumava um cigarro e pediu para seguir para o bairro. O bairro seria sempre o bairro alto, não era preciso explicar muito. No restaurante, a namorada piscou-lhe o olho e perguntou se ele se importava de ficar na esplanada, apesar do piso irregular. Ele sorriu e abanou a cabeça. Depois ela, deixando cair o cabelo sobre o ombro, disse-lhe ao ouvido: “Vais ter comigo à casa de banho em dois minutos e tiro-te essa tristeza em dois tempo… ou três”.

Patrícia Reis

Das cristandades Crioulas Lusófonas do Oriente à literatura açoriana contemporânea

Em 1973, a caminho de Dili, Timor Português, rumei por Banguecoque de ar irrespirável com mais de 40 °C e 95% de humidade Na pista ruminavam búfalos de água que era preciso afugentar à chegada de cada avião. Nesse tempo, a capital do antigo reino do Sião era uma pacata urbe que não sofria da massificação turística nem de grandes confrontos armados. Sobre ela escrevera

NO REINO DO SIÃO

é já dia

os arrozais me espreitam

verde o país

castanho é banguecoque

em plena pista búfalos pachorrentos

a banhos de lama

camponeses debruçados

nos pântanos colhem o arroz

pequenas árvores dividem o asfalto

chove lá fora

sob 42º C de sol

lufadas de calor húmido nos penetram

densa respiração no ar por condicionar

lentas formalidades num inglês arrevesado

a vida possui aqui uma lenta ritmia

todo o tempo nos espera

nas autoestradas camionetas com jovens

patrulhas militares

todos os veículos se cruzam dos lados todos

coloridos templos incrustados de pedrarias

ouro maciço de budas

descalços com cintos sagrados

nos embasbacámos

este o país do mistério

igrejas e fortes portugueses

memórias de tratados reais siameses e lusitanos

o mercado flutuante é uma cidade imensa

longos canais pútridos nesta veneza oriental

sente-se o aroma do dólar nas ruas

por entre golpes de estado adiados

a cem quilómetros se combate

é o apelo do futuro

os thais são simpáticos e ardilosos

milhares de anos de sabedoria a explorarem europeus

os preços função da nacionalidade

no faustoso erawan hotel

o luxo grandiloquente oriental

a sofisticada comodidade do ocidente

uma volta rápida pela cidade dos mil-e-um-templos

para lá das faces mudas

se encerra

o mistério

o convite

voltarei

um dia.


Ao lado ficava a Birmânia (Myanmar) por onde os Portugueses andaram, embora poucos o saibam hoje e mais a sul era a cidade mais desejada, Malaca.


Fernão Mendes Pinto voltou para Malaca, onde estava o seu capitão, e ao seu serviço começou uma nova aventura. Tantos caminhos fez, tantas guerras viu e tantos países visitou, que é impossível contá-los. Fora enviado a Martavão no golfo de Bengala onde foi aprisionado e feito escravo com os companheiros por um general do rei da Birmânia. Subindo o Ganges e o Bramaputra acompanharam o general até à capital do Calaminhão (Tibete?), observando as suas extraordinárias práticas religiosas. Sucedem-se batalhas, cercos, marchas de exércitos em que os soldados se contam às centenas de milhar. Há revoltas, traições, suplícios no país devastado pela Guerra. Um dia, na confusão da batalha, os Portugueses escapam-se. Descendo numa jangada os rios que correm para o golfo de Bengala…para Goa. (Excertos do prefácio de António José Saraiva à “Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto, ed. Sá da Costa, 1961)


Fernão Mendes Pinto regressou a Portugal, pobre como um Job e apelidado de mentiroso. Voltara do Japão e de Goa em 1557. Fixara-se numa quinta no Pragal, perto de Almada e requerera uma tença como prémio dos seus serviços no Oriente. Esta foi-lhe concedida vinte e seis anos mais tarde, em carta de janeiro de 1583, mas em 8 de julho seguinte falecia. Quando estava apoquentado pela nostalgia do Oriente, no fim da vida, sentava-se na margem do Tejo. Esperava as caravelas com a Cruz de Cristo, de velas desfraldadas ao vento, para que as tripulações lhe transmitissem coisas do Oriente. Foi acusado de “intrujão” pela retrógrada mentalidade portuguesa da época e acossado pela censura demolidora da Santa Inquisição, mas reportou a realidade do Oriente como nenhum português até hoje na sua Obra em dois volumes “A Peregrinação”.


Os portugueses chegados ao Sudeste Asiático, não fugiram à regra da época. São humildes, ordeiros, fiéis aos Reis que servem, como soldados mercenários, fossem estes do Sião ou do Pegú (Birmânia). Lutaram homens lusos, irmãos de sangue, em campos adversos, embrenhados na poeira provocada pelas patas, as bestas de guerra, dos elefantes…Os gemidos desses portugueses, feridos na peleja, encontraram o apoio moral e espiritual do irmão, inimigo, no campo de batalha em Lampang. Passados 450 anos, da coragem dos soldados portugueses o feito, ainda se encontra na memória dos locais. A seiscentos quilómetros de Banguecoque, os canhões portugueses, estão expostos em um jardim público na cidade de Lampang, num

fortim, no templo Budista, “Prakaew Dao Tao”. No museu do templo, estão duas armas ligeiras da grande peleja… O templo foi murado e no cimo foram montadas as tradicionais ameias portuguesas que foram trazidas para a Banguecoque moderna; imortalizadas no “Grand Palace”, na Montanha Dourada, e em outros sítios. Portugal transforma o mundo depois de 1500 como elo de ligação entre o Ocidente e o Oriente. As armas, as especiarias, a cruz e o amor são fatores importantes para a fixação do homem luso no Oriente. Assimilou-se a outras etnias com facilidade. Não abandonou os filhos que as mulheres lhe deram, casara sob os preceitos da Igreja Católica. Formara comunidades luso-descendentes, que ainda estão vivas, em Malaca e Singapura. Adaptara-se ao meio que o acolheu, amado pela magia da submissa mulher oriental. (in Excertos Monumentos de Portugal na Tailândia, José Gomes Martins http://portugalnatailandia.blogspot.com/2010/06/soldadosarmasa-cruz-e-o-amor.html)


Da colonização britânica e da holandesa nasceram Estados mas da portuguesa nasceram comunidades de afeto. Praticamos o monopólio, destruindo a concorrência mas contando com fidelidades regionais que extravasavam o interesse diplomático, comercial e político da coroa. A língua portuguesa era língua franca, “portugueses” eram todos os que professassem a fé católica, amigos e aliados todos os que aceitassem um quinhão nessa comunidade. As “lusotopias” não eram da Coroa mas das comunidades que se formavam, cresciam e prosperavam, na unidade religiosa das igrejas e na entreajuda das misericórdias. Resistiram aos ventos e tempestades da história. Teimosamente, mantiveram a língua, os costumes, a memória da linhagem. Na Birmânia, no Sião, na Malásia, na Indonésia há populações que orgulhosamente afivelam o nome de Portugal. Os outros passaram. Ficámos lá, sem apoios e sem estímulo do Portugal distante, abúlico e “europeu”, que regrediu para a visão tardo-medieval dos contactos internacionais: a Bruxelas, a costa da Guiné e pouco mais. A “Ásia Portuguesa” está para além das Portas do Cerco, do bazar de Díli e dos limites de Goa. Pede-se que os decisores de Lisboa abram os olhos e tirem partido da imensa vantagem que foi, é e será se o quisermos, a grandeza em terras da Ásia. in Miguel Castelo Branco http://www.alamedadigital.com.pt/n1/portugueses_oriente.php


Em 1511, Malaca era um centro económico transbordante de riqueza.

O Sultão foi mandado para o exílio depois de Albuquerque a conquistar facilmente pois sonha já com a fundação do vasto império português na Ásia e conquista Ormuz, no estreito que liga o Indico ao Golfo Pérsico (1507) e Goa (1510). O Mar Vermelho está na posse da navegação portuguesa com o controlo marítimo em direção ao Mediterrâneo. As embarcações do Império Otomano transportando mercadoria de Malaca pelo Golfo Pérsico e Mar Vermelho, já não assustam Albuquerque. Pretende ir mais além: o senhorio absoluto do comércio da Costa do Coramandel na Baía de Bengala, Reino do Pegú, Malaca, Samatra e Sião. No pensamento do grande português, estavam outras terras no sul dos mares da China estendendo-se até ao Japão.


Albuquerque não é só um guerreiro indomável, é um diplomata, negociador inteligente que prefere tratar dos assuntos pacificamente que servir-se das armas. Não pretende conquistar países, deseja apoderar-se dos grandes pontos estratégicos de comércio onde todos vivam na melhor das harmonias. Falta, para concretizar o seu objetivo a administração do empório de Malaca.


À península malaia chegam têxteis da Índia, sedas e cerâmicas da China, cravo das Molucas, noz-moscada de Banda, papel de arroz de Samatra, cânfora do Brunei, madeira de Sândalo de Timor, pau-santo, benjoim, chifres de Rinoceronte, marfim, pérolas, carpetes, adagas, batiques de Java. Os mercadores árabes do Cairo, Meca, Adén, Ormuz e da África Oriental, chegavam carregados de armas, tapeçarias, talheres de cobre, ópio, água de rosas e incenso. Juncos chineses aportavam com seda em bruto para manufaturar

vestidos brocados, drogas aromáticas, coralina e marfim. Do reino do Sião aportam, todos os anos, 30 barcos com carregamentos de laca, madeira de teca, pedras preciosas, roupas, pimenta e metais que permutam por escravos ou por mercadorias. Da Birmânia vinha arroz, produtos agrícolas, rubis, estanho e prata. De Palembanque (Samatra) escravos, ervas medicinais e produtos alimentares conservados. A presença portuguesa foi particularmente forte na região (séc. XVI e XVII). Muitas palavras birmanesas são de origem portuguesa: Lelain (Leilão); Tauliya (Toalha); Natatu (Natal); Balon (Bola, Balão); Waranta (Varanda). In Carlos Fontes http://lusotopia.no.sapo.pt/indexOP.html


Um interessante guia para a Birmânia é o Further India de Hugh Clifford (ed. White Lotus Co. Bangkok 1990).

Publicado pela primeira vez em 1904, o autor, acérrimo defensor do sistema colonial britânico, descreve de um modo isento para a época, a epopeia do desbravamento destes territórios pelos ocidentais, desde os árabes aos primeiros portugueses como Albuquerque e outros (the Filibusters). Fala dos exploradores, desconhecidos para os portugueses, António de Faria, António de Miranda, Duarte Fernandes, Ruy de Araújo, Francisco Serrano, António de Abreu, Pedro Afonso de Loroso, o conhecido Fernão Mendes Pinto, dos franceses Mouhot e Garnier a quem se atribui erradamente a descoberta dos templos de Angkor Vat, dos holandeses e dos ingleses.

O termo flibusteiros aplicado aos portugueses deve-se a serem, de todos os que exploraram o sueste asiático, os únicos que construíram fortes, impuseram a religião e comercializaram pela força.


Até à sua chegada, eram os árabes os únicos cuja influência se alastrava até ao oriente e nunca se imiscuíam na política local. O posterior sucesso dos holandeses e ingleses deveu-se ao facto de só quererem o comércio, nunca as terras nem as almas das gentes. A colonização veio depois. Essa perspetiva é nova, para os que nasceram e cresceram no mundo paroquial da epopeia quinhentista da História de Portugal de Adolfo Simões Mueller. Muitos sentem-se afrontados ao lerem opiniões sobre Vasco da Gama diferentes das que o ensino da Ditadura inculcou nos jovens portugueses.


Como acontece com a Birmânia, também a religião predominante no Sião (Tailândia) e o alfabeto servem de prova da forte influência cultural indiana durante o primeiro milénio, embora os primeiros relatos históricos só comecem no séc. X. A religião é a mesma, os alfabetos são distintos, mas de inspiração comum.

No ano de 849 foi criado um reino Thai cuja capital era Pagan (hoje Bagan). O seu santuário fica na China (Iunão), de onde se deslocam para Sul (séc. X e XII) desalojando o reino Khmer para sudeste e atual Camboja. Um príncipe funda a capital em Ayuthia (1350) e ganha a supremacia no Sião. Foi um reino com elevado grau de sofisticação, como os portugueses descobriram quando se tornaram vizinhos ao conquistarem Malaca quando o Sião esteve envolvido em luta épica com os birmaneses.


Do contacto ficou a norma, que perdurou por mais de 300 anos, da corte siamesa empregar o português como idioma diplomático, para desconcerto do embaixador norte-americano que ali apresentou credenciais no séc. XIX. Sob o tema da presença portuguesa na Ásia. Jorge Morbey (ex-Presidente do Instituto Cultural de Macau) escreveu (Jan.º 2006) ao então Presidente Jorge Sampaio, longa missiva da qual se extraem excertos:

Como referiu o descendente de portugueses, Arcebispo Emérito de Mandalay (Birmânia) U Than Aung, onde a maioria do clero católico é de origem portuguesa com origem em Pegú (1600), quem nunca recebeu a mais ténue manifestação de solidariedade nada tem a esperar. Que poderão as Cristandades Crioulas Lusófonas do Oriente esperar de Portugal? A sua incapacidade nesta matéria tem sido uma evidência secular, filha da ignorância e do preconceito. A pequena Cristandade Crioula Lusófona de Korlai [Chaúl], na Índia, somente em 1982 seria revelada ao Mundo pelo etnólogo romeno Laurentiu Theban. A Cristandade Crioula Lusófona da Birmânia já não usa a língua crioula e perdeu os nomes e apelidos cristãos, apesar de permanecer fiel à

religião católica. As Cristandades Crioulas Lusófonas do Oriente mantidas na ignorância dos conflitos entre Portugal e a Santa Sé lutaram anos sem fim contra as novas autoridades eclesiásticas por as considerarem estrangeiras. Clamaram sempre pelo envio de clero, de Portugal, Goa ou Macau. Em vão. A transferência de domínios entre países europeus, de Portugal católico para a Holanda protestante, constituiu o pano de fundo em que emergiram as Cristandades Crioulas Lusófonas do Oriente. Com a substituição da dominação portuguesa, permanecendo nas terras que as viram nascer, deportadas para outras paragens, ou forçadas à emigração, essas comunidades mestiças talharam a sua identidade própria que perdurou até aos nossos dias, assente em dois pilares principais: a religião católica e a língua crioula. A religião fora trazida de Portugal ou de Goa. Convertidos ou nascidos nela, com ela haveriam de morrer, geração após geração. A sua língua, o crioulo, era a língua portuguesa que lhe garantira o estatuto de língua franca no litoral da Ásia e da Oceânia, desde o séc. XVI até à sua substituição pelo inglês, no séc. XIX. Holandeses, ingleses, dinamarqueses e franceses não podiam prescindir de um “língoa” [intérprete] a bordo para poderem comerciar nos portos do Oriente, na língua que as Cristandades Crioulas Lusófonas do Oriente falavam e, muitas, ainda falam. Tratados, entre países europeus e poderes locais, foram firmados nessa língua, por ser a única a que os europeus podiam recorrer para comunicar no Oriente. Hoje, Cristão” [Kristang] e “Português” [Portugis] são sinónimos. A profanação e a destruição de igrejas e mosteiros, a expulsão dos padres, a proibição do culto católico, as deportações maciças, a redução de muitos à condição de escravos, compeliram os membros dessas cristandades à clandestinidade e à emigração: Macau, Índia, Insulíndia, Sião e Indochina. Tais irmandades permaneceram até aos nossos dias e conservam determinadas prerrogativas que limitam a autoridade dos párocos. Perdida a confiança que a Santa Sé depositara desde o séc. XV no Rei de Portugal, na sequência do corte de relações diplomáticas do Governo liberal em 1833 e a extinção das ordens religiosas por decreto de 31 de maio de 1834, o Padroado Português do Oriente sofreu um golpe mortal, na Índia, no Ceilão, no Sudeste Asiático, na China e na Oceânia. Os missionários do Padroado não seriam substituídos. O clero secular de Goa acorreu em socorro das Cristandades Crioulas Lusófonas do Oriente que iam ficando sem religiosos. A língua crioula falava-se nas Cristandades Crioulas da Tailândia (Ayuthia/Ayutthaya) e, Banguecoque até aos anos 50 do séc. XX, onde permanecem vocábulos correntes no relacionamento familiar e nas práticas católicas. Na Indonésia, além de Java, nas Flores [Larantuka e Sikka], ilhas de Ternate, Tidore e Bali. Em Timor [Lifau e Bidau]. No Bangladesh – Chitagong e Daca – até aos anos 20 do séc. XX era muito viva a presença da língua crioula nas Cristandades locais. © Jorge Morbey http://combustoes.blogspot.com/2006/01/os-crioulos-portugueses-no-oriente.html


O homem português na Ásia nunca esqueceu a pátria. Tomemos o exemplo de Venceslau Morais, Escondia as suas misérias no exílio nipónico e tendo escrito e enviado dezenas de cartas e postais ilustrados à irmã Francisca Paúl, para Nelas (Beira Alta), nunca lhe referiu a intenção de regressar a Portugal. A memória do Cônsul de Portugal em Kobe, no longínquo Sol Nascente, ficou nos anais das relações culturais entre Portugal e o Japão. http://www.portugal-linha.pt/legado/voriente/psiao3. José Gomes Martins


Por tudo o que atrás ficou dito recorde-se o grande universalista português. No último canto de “Os Lusíadas”, Vasco da Gama, o almirante herói, é recebido pela deusa Tétis na Ilha dos Amores. Lá, naquele espaço encantado, ela lhe descortinou a Máquina do Mundo, a visão do Cosmo e dos continentes da terra recém-descoberta pelos lusos, cena que coloca o poeta português como quem por primeiro, no campo das letras europeias, percebeu os efeitos irreversíveis da globalização que então dava os seus primeiros passos.


“Vês aqui a grande máquina do Mundo,

Etérea elemental, que fabricada

Assim foi do Saber, alto e profundo,

Quem é sem princípio e mete limitada.

Quem cerca em derredor este rotundo

Globo e superfície tão limada,

É Deus: mas o que é Deus, ninguém o entende,

Que a tanto o engenho humano não se estende”

(Canto X, 80)


É então que a deusa, abrindo os braços para enfatizar a amplidão, a magnitude do reino augusto, aponta ao Gama as mais diversas regiões do mundo.

Povoam-na “gente sem lei”, a bruta multidão, “bando espesso e negro de estorninhos”, do império do Benomotapa (Zimbabué) à Taprobana (Sri-Lanka). Todos à espera da chegada da cruz, desenhada na vela principal da nau dos argonautas lusitanos. Mostra-lhe o Mar Vermelho, o Monte Sinai, a secura dura e arenosa da Arábia, o Tigre, o Eufrates, o planalto dos cavaleiros da Pérsia, o estreito de Ormuz, o Sind, a terra dos Brâmanes onde S. Tomé tentara a conversão dos gentios, o Ganges e o Indo, a terra da Birmânia, o império do Sião, Sumatra, a ponta estreita de Singapura, o Camboja e o rio Mekong no qual Camões naufragou mas salvou os versos. Em seguida, margeando com os olhos a costa da Cochinchina (o Vietname), mostrou-lhe a China e mais longe o Japão, de onde vinha a maravilhosa seda e o ouro fino. De tudo se desprendia o aroma do cravo, da noz-moscada, do licor perfumado do benjoim, do coco do mar, do incenso, da mirra e do raro âmbar, de onde se extraem fragrâncias mil. Tétis, voltando-se para o outro lado da Terra, apontou-lhe as partes recentemente conquistadas pelos castelhanos, que lançaram o seu rude colar sobre as gentes cativas do Novo Mundo. Da Terra de Santa Cruz, do litoral do Brasil, o braço lusitano já carregava o tronco vermelho, o Ibirapitanga dos nativos, para dele extrair as tintas para os panos. Reembarcados os portugueses, partindo da Ilha dos Amores, aos adeuses no convés, velas soltas ao vento em mar tranquilo, carregados de refrescos e iguarias deliciosas, navegaram de volta à boca do Rio Tejo.


De então em diante estavam todos convencidos de que os fados da Humanidade, desde que Vasco da Gama unira o Ocidente ao Oriente, não se prendiam a um só reino, a uma só nação ou a um só hemisfério. Somente gente surda e endurecida, fechada, teimosa, não reconheceria que, escancarado para sempre o Caminho das Índias, o mundo se globalizaria cada vez mais, tornando-se algo único, entrelaçando para sempre povos e continentes num destino em comum. Ainda hoje estou rodeado dessa gente surda e empedernida.

O mesmo se passou com os Colóquios. Isto de Lusofonias e Lusotopias tem muito que se lhe diga. Falta aos Estados a visão, o amor e a dedicação que só alguns indivíduos conseguem ter pela língua e cultura de um povo. Governos e governantes estão de candeias às avessas para a defesa desses valores, tal qual a população de S. Miguel está sempre de costas para o mar, enquanto outras não vivem sem ele, como no Pico. Falarei brevemente de dois autores que lutam contra os Fados da Humanidade mostrando a globalização da língua portuguesa através da sua visão açoriana do mundo.

Vozes críticas ou arredadas dos estereótipos não abundam nem são benquistas. As elites dominantes e os poderes caciqueiros logo se insurgem. A ingratidão, vergonha e falta de patriotismo são epítetos comummente usados para denegrir os que ousam. Citam-se páginas relevantes da heroica gesta açoriana, com destaque para as guerras liberais e desventuras de emigrantes que triunfaram. Surgem editorais e recensões violentas nos jornais locais. Os caixeiros-viajantes da cultura logo se arrogam o direito de defender a açorianidade ofendida pois nela assenta exclusivamente o seu currículo. Tais declarações de repúdio raramente extrapolam os cantos do arquipélago pois falar dos Açores ainda não é moda na grande capital do Império.

Foi isto que, por mais de uma vez, aconteceu ao meu amigo escritor Cristóvão de Aguiar. Apodaram-no de tudo e mais alguma coisa, pois convém sempre ser mais papista que o papa. Em meios pequenos é consabida a tendência para apoucar aqueles que da leis do esquecimento se desembaraçaram, como diria o vate, enquanto o imperador e seu séquito distribuem viagens e mordomias. É uma questão de tempo até começarem a zurzir nos forasteiros que ousam opinar sobre o arquipélago dos Açores. Quando se perora sobre as nove ilhas, filhas de Zeus, urge não melindrar os interesses estabelecidos. As visões críticas ou não conformadas aos cânones podem acarretar sérios riscos para a saúde mental dos seus autores. Terras pequenas, invejas grandes ou a reprodução literária do mote popular “a minha festa é maior que a tua”. Para o comum dos mortais a vida prosseguiria o seu rumo, mas os Açores

são uma réplica miniatural da corte lisboeta. As elites não perdoam aos que não comungam da verdade única com força de dogma que os sustenta e valida.

Cristóvão escreve com uma pluma incómoda. Reservou-se um papel de narrador que pensa, fala e escreve sem recorrer aos lugares comuns que tamanho gáudio causam na população. Não reivindica verdades absolutas ou duradouras, limita-se a (d)escrever o que sente e vê. Criaram-lhe a fama de irascível. Quantas vezes com justas e fundadas razões? Recebi “avisos amigos” para tais perigos quando o convidei a estar na Lagoa (março 2009) para o 4º encontro açoriano. Congratulo-me que, relutantemente, Cristóvão tenha acedido. Ao longo de meses trocamos correios eletrónicos e telefonemas criando uma amizade saudavelmente aberta e crítica durante a qual aprendi imenso com a personagem que tantos cuidados incutia aos arautos e defensores da paz podre açoriana.

Cristóvão é um permanente Passageiro Em Trânsito, título do seu mais benquisto livro, sempre na rota do inconformismo. Ele é a voz que se não cala e tem o direito a tal. Chama os bois pelo nome sem se deter nas finuras das convenções do parece bem ou mal. É crítico impiedoso dos destinos que alguns queriam que fosse eterno, o da subserviência e submissão aos senhores das ilhas, descendentes diretos dos opressores da gleba. Grandes narrativas que se assemelham a uma técnica de travelling em filmagem, com grandes planos, zooms, e paragens detalhadas nos rostos e nas mentes dos atores principais das suas crónicas e outros escritos. A câmara detém-se e escalpeliza a alma daqueles que ele filma com as suas palavras aceradas como vento mata-vacas que sopra do nordeste. Cristóvão de Aguiar, já o disse, não é um autor fácil nem facilita, exige quase tanto dos seus leitores como de si mesmo, ele é o magma de que são feitas as gentes de bem destas ilhas. Tal como as palavras sentidas, gravadas fundo num granito que não existe nas ilhas mas que encontro na Relação de Bordo I. Verdade seja que ando imerso na sua escrita tateando como um recém-nascido às escuras fora do ventre materno. Ele é um escritor que se crê maldito porque outros o fizeram assim, e porque é de si mesmo um ser acossado por tudo e por todos, mas sobretudo por si mesmo. Para ele, a escrita nunca será catarse pois ela é fruto de amores incompreendidos entre si e a sua ilha… Psicanalisando as gentes e a terra que o viram nascer adotou o Pico como nova ilha mátria em 1996. Como ele diz (Relação de Bordo II pp. 199-200) Primeiro foi a ilha, nunca mais a encontramos como a havíamos deixado…trouxemos somente a imagem dela ou então foi outra Ilha que connosco carregámos…

A escrita lávica de Cristóvão fica a boiar no nosso imaginário. Ninguém consegue escrever da forma única e inimitável como só ele sabe e sente sobre os Açores. Essa a sua forma de amar e de recompensar a terra que o viu nascer…para que desate as grilhetas que a encarceram no passado e ele se desobrigue finalmente da tarefa hercúlea de carregar a ilha como um fardo ou amor não-correspondido, que nisto de ilharias há muitas paixões não correspondidas. É um lídimo representante da mundividência açoriana na escrita contemporânea e é tarefa dos Colóquios da Lusofonia torná-lo benquisto e conhecido no mundo inteiro. Com a literatura os autores açorianos iam chegar mais longe. Libertar-se. Para isso teriam de mondar mercados novos e virgens, como a selva amazónica antes dos novos bandeirantes. Se não chegassem às novas gerações açorianas, poderiam alcançar descendentes, expatriados e os que aprendem o orgulho da nação açoriana, na sua cultura, tradição e outros valores primordiais que tão arredados das escolas andam hoje. Mas os colóquios queriam levá-los a mercados e leitores insuspeitos, até à velha Cortina de Ferro onde há apetência para escritores lusófonos.

A ilha para Natália Correia é Mãe-Ilha, para Cristóvão de Aguiar, Marilha, para Daniel de Sá, Ilha-Mãe, para Vasco Pereira da Costa, Ilha Menina, para mim nem mãe, nem madrasta, nem Marília nem menina, mas Ilha-Filha, que nunca enteada. Para amar sem tocar, ver engrandecer nas dores da adolescência que são sempre partos difíceis. Toda a vida fui ilhéu, perdi sotaques Ma não malbaratei as minhas ilhas-filhas. Trago-as a reboque, colar multifacetado de vivências dos mundos e culturas distantes. Primeiro em Portugal, ilhota perdida da Europa durante o Estado Novo, seguidamente em mais um capítulo naufragado da História Trágico-marítima nas ilhas de Timor e de Bali, seguido da então (pen)ínsula de Macau (fechada da China pelas Portas do Cerco), da imensa ilha-continente denominada Austrália, e nesta ilhoa esquecida de Bragança no nordeste transmontano, antes de arribar à Atlântida Açores.

Cumes de montanhas submersas que assomam, a intervalos, aqui no meio do Grande Mar Oceano onde se mantêm gentes orgulhosas e ciosas das suas tradições e costumes, em torno da família nuclear dizimada pelo chamado progresso. Os políticos ocupados na sua sobrevivência sempre se olvidaram da presença mágica destas ilhas de reduzidas proporções e populações. Como se fosse uma espécie de triângulo das Bermudas, onde tudo o que é relevante desaparece dos telejornais. Já era assim durante o Estado Novo e pouco mudou quanto à visibilidade real destas ínsulas, apenas evocadas pelas catástrofes naturais e pelo anticiclone do bom ou mau tempo.

Falemos da literatura. Acolhemos nos Colóquios, como premissa, o conceito de açorianidade formulado por José Martins Garcia que, «por envolver domínios muito mais vastos que o da simples literatura», admite a existência de uma literatura açoriana «enquanto superstrutura emanada dum habitat, duma vivência e duma mundividência»1.

No 4º Encontro Açoriano da Lusofonia, Cristóvão de Aguiar rejeitou o rótulo de literatura açoriana, por considerar que faz parte da produção literária lusófona. «O título (literatura açoriana) é equívoco, porque pode parecer que é uma literatura separada da literatura portuguesa», afirmou à agência Lusa o escritor. Machado Pires sugeriu em tempos “literatura de significação açoriana”. Outros preferem o termo “matriz açoriana”. Há vários tipos de autores, os açorianos nascidos e vividos no arquipélago (ausentes ou não), os emigrados, os descendentes, os insularizados ou ilhanizados e os estrangeiros que escrevem sobre os Açores. Falta destrinçar se os podemos incluir a todos nessa designação açórica. Lentamente, todos encontraram o seu espaço, não havendo míngua de quantidade, mas, frequentemente sem projeção fora das ilhas, com exceções contemporâneas como as de João de Melo, Cristóvão de Aguiar, Daniel de Sá, Vasco Pereira da Costa e Dias de Melo, para citar alguns.

Quedemo-nos, doravante, na perspicaz apreciação que faz Cristóvão de Aguiar da obra, intitulada Nas Escadas do Império de Vasco Pereira da Costa, autor que hoje é aqui homenageado:

“Não é por acaso que Vasco Pereira da Costa, poeta de mérito, mas ainda no silêncio da gaveta, se apresenta no mundo das letras sobraçando uma coletânea de contos. Numa terra onde quase todos sacrificam às (as) musas e se tornou quase regra a estreia com um livrinho de poemas, a atitude (ou opção) do autor de Nas Escadas do Império não deixa de ser de certo modo corajosa como corajosos são os contos que este livro integra. Não fora o receio de escorregar na casca do lugar-comum, e eu diria que esta mancheia de contos vivos, arrancados com mãos hábeis e um sentido linguístico apuradíssimo ao ventre úbere, mas ainda mal conhecido, da sua terra de origem, vem agitar as águas paradas, onde se situa o panorama nebuloso e um tanto equívoco da literatura de expressão açoriana. O conto que abre esta coletânea, Faia da Terra, é bem a prova do telurismo, no sentido torguiano do termo, de que o jovem escritor (Angra do Heroísmo, junho de 1948) está imbuído, sem cair no pitoresco regionalista, tão do agrado de muitos escritores açorianos. Não resta a mínima dúvida de que o Gibicas, A Fuga e outras peças de antologia que aqui figuram vêm contribuir para o enriquecimento do conto português de especificidade e caraterística açoriana. Contudo, Vasco Pereira da Costa corre o risco (e ele mais do que ninguém disso está consciente) de vir a ser queimado nas labaredas inquisitoriais de certos meios ideológico-literários açorianos que têm tentado, oportunisticamente, mas sem raízes verdadeiras, edificar […] uma literatura açoriana em oposição à Literatura Portuguesa. Nas Escadas do Império, quer queiram ou não os arautos da mediocracia, vem dizer-nos exatamente o contrário.”


Com efeito, não podia deixar de ser mais justo o juízo de valor supracitado.

* Em primeiro lugar, estreia-se Vasco Pereira da Costa, em 1978, com a coletânea de contos, Nas Escadas do Império, à qual se seguirão a novela Amanhece a Cidade (1979); a memória Venho cá mandado do Senhor Espírito Santo (1980); os poemas de Ilhíada (1981); Plantador de palavras Vendedor de lérias, antologia de novelas galardoada com o prémio Miguel Torga no ano de 1984; Memória Breve, (1987); Risco de marear

(Poemas em 1992); e, por fim, três obras poéticas, a saber Sobre Ripas Sobre Rimas, Terras e My Californian Friends, (respetivamente publicadas em 1994, 1997 e 1999).

* Em segundo lugar, urge referir a originalidade de Vasco Pereira da Costa, evidente tanto na sua obra poética como na sua prosa, que vem, segundo o Autor de Raiz Comovida, agitar as letras açorianas. Assim sendo, e numa perspetiva temática, cumpre realçar o telurismo genuíno patente em “Faia da Terra”, história do enamoramento de Teresa por um americano da Base, da sua subsequente partida para o Novo Mundo, já com o nome de Mrs. Teresa Piel, e da secagem da faia, dois meses após a descolagem do avião da Pan America. Nesta novela inaugural perpassam vivamente, como que fotografadas ao vivo, as rotineiras fainas insulares que, pela via da repetição, regem o quotidiano do ilhéu: “Era sexta-feira e a mãe amassava o crescente com a farinha de milho. No forno estalavam a rapa, o eucalipto e o loiro: […] Lavou depois as folhas de botar pão e veio sentar-se ao pé dos meus socos de milho – bois de veras, espetados com palhitos queimados arremedando os galhos – no estrado do meio-da-casa. Arrumou as galochas no sobrado […] ” (1978: 11).

Por vezes, é a loucura insular que faz a sua aparição em cena, na figura do poeta Vicente, “um Côrte-Real impotente, tacanho e degenerescente” (1978: 71), o qual, volvido esse tempo em “que escrevia coisas tão lindas, de tanto sentimento”, tem o despautério de acumular guarda-chuvas na falsa e de publicar no jornal da Ilha desairosos alinhavos poéticos: “Prometeu / Prometeu / Não cumpriu / A promessa / Homessa!//” (“A Fuga”, 1978: 74).

* Em terceiro lugar, e ainda na ótica de Cristóvão de Aguiar, a coragem de Vasco Pereira da Costa, que a sátira, nas suas diversas vertentes, revela à saciedade. Assim sendo, atente-se quer na crítica ao salazarismo, regime repressor, totalitário e punitivo dos que ousam transgredir as regras impostas – “Como vim aqui [à ilha] parar? É simples: por ser anarquista e não peitear o Manholas de Santa Comba” (“O Manel d’Arriaga”, 1978: 31) -, quer na crítica à mentalidade medíocre, cuja pequenez constrangedora se espraia, em espaço íntimo e público, pela vida de outrem tão sigilosamente resguardada quanto violada de supetão – “ […] cada qual dava a sua sentença, todos em grande pensão, e não havia alcatra de couves que, à hora da ceia, não fosse temperada com palpites de desenlace.” (“Primavera”, 1978: 59) -, quer na crítica ao jornalismo barato e ao provincianismo dos articulistas, cujo discurso, pouco inovador, se vai ritualizando – “Começou então o embaraço. No jornal de amanhã, por entre os aniversários da gente fina […] as partidas e as chegadas, os partos e as notícias do País e do Estrangeiro, os casamentos e os pedidos de, os horários de barcos e de aviões, as orações ao Menino Jesus de Praga e ao divino Espírito Santo […] ” (“A Fuga”, 1978: 82-83) -, quer, por fim, na crítica a uma certa ‘cultura de superioridade’ que ‘Mestre’ Gibicas se apresta a denegar: “ […] estávamos de língua entre os dentes para sibilar o th. O professor fazia empenho pois […] era uma vergonha virem por aí abaixo os americanos e nós sem sabermos agradecer. […] Até que foi a tua vez [Gibicas]. […] Agarraste na caixinha vermelha, azul e branca, com as estrelinhas desse people para o nosso povo e, sem esperar o afago da farda grandalhona, gritaste-lhes alto, como ninguém ainda o fizera: – SANABOBICHAS!” (“Gibicas”, 1978: 137-138-141). Em asterisco de rodapé, explica o Autor o neologismo: “Son of a bitch”.

* Em quarto lugar, a variedade genológica em que se move o Escritor homenageado, desde o conto e a novela, até à memória e à “crónica” breve, passando pela Poesia. E, a este propósito, não resistimos à tentação de transcrever dois excertos. O primeiro de o Plantador de Palavras:

“Ah, meus senhores, mas isto aqui não é a Itália. É a mui nobre leal e sempre constante cidade de Angra do Heroísmo, ao tempo em que o Autor nela carregava a sua adolescência de amores, temores e rancores. Como podem observar, uma cidade espartilhada entre mar e mar, com dois castelos a estrangulá-la; com suas casas, nobres por fora e burguesíssimas por dentro; praças com estátuas e engraxadores; lojas sonolentas, comerciantes lentos e clientes ensonados; automobilistas imprevidentes nos seus vinte à hora, que quase atropelam a distração dos peões; um governador civil e três governadores militares; cinquenta e sete prostitutas; dezanove bombeiros voluntários que voluntariamente vão de borla ao cinema; vinte e cinco

meninas que namoram à janela e, estatísticas de ontem, catorze desfloradas nos saguões; um bispo, dois monsenhores, sete cónegos na sua Catedral; três parvos oficiais, que fornecem o riso oficial e obrigatório nos dias úteis e inúteis; um Presidente para a sua Câmara, com o seu secretário e um contínuo – que, por ser funcionário público, não está incluído no número dos três parvos oficiais que o quadro comporta. Esta cidade tem trinta e quatro velhas de lenço e três senhoras idosas de chapéu; quarenta e sete bêbados e oito senhores que andam às vezes alegrinhos; cento e vinte e nove rapazes, cento e trinta e duas raparigas, vinte e dois meninos e trinta e uma meninas; o número de naiões – invertidos encartados e Sócios de Mérito da Corporação das Criadas de Servir – é de setenta e sete, mas nunca foi feito o recenseamento dos homens com pitafe; quarenta e três professores do Liceu, dos quais vinte são professores do Seminário Maior, onde há quinhentos e setenta e oito seminaristas menores, dos quais oitenta e nove vírgula seis por cento oriundos da cristianíssima ilha de São Miguel o Arcanjo e do Senhor Santo Cristo dos Milagres e ainda de outros Senhores, que se passeiam no Jardim Duque da Terceira, todas as quintas, entre as duas horas e sete minutos e as quatro horas e quarenta e oito da tarde, em bandos de estorninhos; quinze chauferes, um cauteleiro, sessenta e nove caloteiros identificados com o indicador da mão direita, noventa e seis donas-de-casa e igual número de maridos operacionais; quarenta e sete viúvas praticantes, vinte e seis viúvas protestantes e oito viúvas de fresco ainda indecisas; sessenta e oito cavalheiros são simultaneamente irmãos devotos da Confraria de Nossa Senhora do Monte Carmelo, da Irmandade do Senhor dos Passos e da Ordem Terceira de São Francisco; quatro agiotas dissimulados, que vestem de preto e usam chapéu, e que se sentam, para o negócio, na terceira banqueta do Pátio da Alfândega; cinquenta agentes da Polícia de Segurança Pública, dos quais três são da Secreta e, por isso, para não serem conhecidos, trajam à paisana: o Cebola, o Tombado e o Zarolho; dois vendedores de milho torrado, pevides e caramelos sugardady; duzentas e nove beatas de novena, quarenta e oito de terço e mantilha, vinte devotas de enfeitar capelas, dezassete de sacristia, catorze irmãs de padre e meia dúzia de sobrinhas; um batalhão de soldados do Castelo, que aparecem à boquinha da noite triste, arrastando as botas tristes pelo empedrado tristonho; três namoradas de aspirantes, que fazem todas as recrutas; uma média de um vírgula oito por mil de americanos da United States Air Force Azores Pochugal por dia, facilmente reconhecíveis pelo tamanho dos pés e por uma garrafa de Matiós Rossé dançando na mão direita; quarenta e três indivíduos usam gravata verde porque são adeptos do Lusitânia e trinta e nove põem gravata vermelha porque são sócios do Angrense, havendo que mencionar ainda dois laços – um poeta e um boticário. A cidade tem dezoito tabernas, seis cafés e duas pastelarias.

Vamos agora mudar o cenário…”

– transcreve-se o poema “Rose era o nome de Rosa”:


A mãe disse não mais

não mais eu não mais tu filha

não mais nomes na pedra do cais

não mais o cortinado da ilha


não mais Rosa sejas Rose agora

não mais névoas roxos ais

não mais a sorte caipora

não mais a ilha não mais


Porém Rose o não mais não quis

e quis ver a ilha do não mais

o cortinado roxo infeliz

os nomes na pedra dos cais


Pegou em si e foi-se embora.

Não mais Rose. Rosa outra vez agora. (My Californian Friends, 1999: 25).


Não estaremos perante a mais pura açorianidade na literatura?


Chrys Chrystello 

lomba da maia, açores, agosto 2010





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Revisitação. Angra do Heroísmo, Secretaria

Regional da Educação e Cultura

86) NEMÉSIO, Vitorino. (1932) “Açorianidade” in

Insula, n.º 7-8, Ponta Delgada, julho, 1932

87) Nemésio, Vitorino. (1949) Mau Tempo no Canal,

Lisboa, Livraria Bertrand e Livros Unibolso, ed.

Associados, col. «Biblioteca Universal»

88) NEMÉSIO, Vitorino. (1994) Mau Tempo no Canal,

7.ª ed., Lisboa, Imprensa Nacional, 1994.

89) ORRICO, Maria. (1994) Terra de Lídia, Lisboa, ed.

Salamandra, 1994.

90) Pavão, J. Almeida. (1991), Constantes da

insularidade numa definição de Literatura

Açoriana, In Caminheiros da Cultura. Ponta

Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada:

133-152

91) Petri, Romana. (1997) O Baleeiro dos montes,

Lisboa, ed. Salamandra

92) Pires, A. M. B. Machado. (1983) Para a Discussão

de um Conceito de Literatura Açoriana. Boletim

do Instituto Histórico da Ilha Terceira, XLI: 842-

858

93) Pires, A. M. B. Machado. (1987), A Identidade

Cultural dos Açores, Sep. De Arquipélago (série

Línguas e Literaturas), IX

94) TABUCCHI, António. (1998). Mulher de Porto

Pim. ed. Difel 5ª ed. 1998

95) Valadão Serpa, Caetano. (1978) A Gente dos

Açores, ed. Prelo 1978

96) Valadão Serpa, Caetano. (2000) Um Pessoa só é

pouca gente, Lisboa, ed. Salamandra col. Garajau

Kátia Franco lança dois livros em Santo Amaro-BA

As obras “Casos e Causos” e “A Sonoridade da Surdez” serão lançadas dia 24 de maio de 2013, às 19 horas, na Casa do Samba, em Santo Amaro-BA, recôncavo baiano. Os lançamentos acontecem após a palestra “A importância da Família e da Escola no processo de superação de limites em pessoas com deficiências.”, realizadas por Kátia Maria de Oliveira Franco (Especialista em Educação Especial) e Cláudia Franco de Queiroz Ramos (Instrutora Surda). A inscrição será feita no local, mediante a doação de um quilo de alimento não perecível. Os participantes terão direito a certificado.

Ambas as publicações falam de superação, inclusão social, maternidade e temas afins, baseadas em fatos reais, que retratam a luta de uma mãe para dar uma melhor qualidade de vida a sua filha que nasceu com surdez profunda. Os relatos trazem à tona muitas questões importantes como medo, preconceito, dificuldades financeiras, traição, separação, crise existencial e solidão, bem como fatores positivos como maternidade, superação, determinação, disciplina, solidariedade, lealdade, perdão, positividade, amor e fé.

De acordo com Kátia, sua literatura ressalta a importância da Língua Brasileira de Sinais para as pessoas, independente de elas serem ou não surdas, pois, afinal, é a segunda língua oficial do país. Para a escritora, “ainda há muitas informações truncadas e muita falta de cuidado em relação ao tratamento com a criança surda ou a deficiente auditiva”. Para a autora, isso dificulta o processo de inclusão não só educacional, mas também num sentido mais amplo que seria a Inclusão Social. Além da preocupação com o processo educativo, a obra de Kátia Franco traz observações importantes sobre Implante Coclear, cirurgia já feita em diversos estados do país e que recupera a capacidade de audição dos pacientes.

A AUTORA

Kátia Maria de Oliveira Franco é natural de Palmeiras-BA, localizada no coração da Chapada Diamantina,onde viveu parte da infância, indo aos 8 anos morar em Salvador com seus tios Pedro e Maria Aurenice, tia que mostraram a ela a magia dos livros.

Na adolescência começa a escrever poesias, traz na alma o dom também de sua mãe. Em 30.12.1978 publica duas poesias no jornal A Tarde, uma delas fica em primeiro lugar naquela edição. Em 19.05.1979 publica mais duas poesias no mesmo jornal. Participa de dois livros de Poesias (seis poesias publicadas), o primeiro – POETICAMENTE, em maio de 1983 – editoração CEPA, o segundo livro AXÉ-ITA-CRISTAL – (seis poesias publicadas) – dezembro de 1983.

Em 1984 casa-se e afasta dos meios literários, tem três filhos, Rafael, Cláudia e Gabriel, sendo que sua filha devido à rubéola na gestação nasce surda, o que muda muito a vida da mãe. Separa-se, volta a residir em Palmeiras e lá engaja na grande luta para alfabetizar Cláudia, percorre um caminho jamais imaginado, adentra no mundo acadêmico, se especializ em Educação Especial Inclusiva e torna-se professora de LIBRAS – Língua Brasileira de Sinais. Através de suas inquietações começa a trilhar também o caminho do autoconhecimento fazendo inúmeros cursos na área de psicologia, especializando-se como Terapeuta Nexus, é pós-graduanda no Curso de Bio-Psicologia no Instituto Visão Futuro, em Porangaba-SP. Fez o curso de Ativista Quântica com Dr. Amit Goswami, o curso de Reiki nível I, II e III com a Mestra Magali Bulgari, e atualmente faz a formação em Constelação Familiar com Reno Bonzon. Neste período acolhe em seu coração o seu mais novo filho Bruno que vem para complementar de alegria e afeto a família.

Volta a escrever e publica poesias e crônicas na revista ARTPOESIA. Feliz, descobre grandes afinidades literárias em seus filhos. Gabriel também traz na alma o dom literário, Rafael transita com prazer o caminho literário, através do hábito de leitura e também um grande autodidata. Bruno estudante dedicado ingressa na UFBA para Engenharia Civil. Cláudia – motivo do lançamento do livro – cada dia mais estudiosa e amante do conhecimento.

Em 2013 Kátia lança o primeiro livro de Crônicas: CASOS e CAUSOS. Seu maior vício, a leitura. Um de seus sonhos: ver as pessoas com necessidades especiais totalmente integradas na sociedade, com as mesmas oportunidades das pessoas ditas “normais”.

Serviço

O que: palestra e lançamento dos livros “Casos e Causos” e “A Sonoridade da Surdez”

Quando: 24 de maio de 2013, às 19hs

Local: Casa do Samba – Santo Amaro-BA

Inscrição: um quilo de alimento não perecível

“O seu silêncio me fez querer ouvir o mundo. Passei a ouvi-lo com os olhos, com o tato, com o toque. Passei a ouvi-lo com o coração… O seu silêncio… Explodiu em meu peito todos os sons e pude entender outras sinfonias. E no meio à dor descobri o verdadeiro amor, pois o teu amor silencioso me fez ver que não preciso gritar para me fazer entender, que muitas vezes apenas com o olhar invado outro ser”. (Kátia Franco)

http://www.jornow.com.br/jornow/noticia.php?idempresa=1024&num_release=98010

http://www.difundir.com.br/site/c_mostra_release.php?emp=1024&num_release=98010&ori=V

http://www.dino.com.br/releases/katia-franco-lanca-dois-livros-em-santo-amaro-ba-dino8904312131

http://www.iteia.org.br/jornal/katia-franco-lanca-dois-livros-em-santo-amaro-ba

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A gralha

Absorto, analisou a papeleta afixada na montra, tamanho A4 – um tanto mais, falando com precisão –, ornato gráfico, retrato colorido e, enfim, os dizeres clássicos. Trabalho esmerado, mas tosco, para o seu gosto. Só depois atentou na substância. Um choque. Que breve relativiza. E descarta a hipótese de contactar o responsável: tanta canseira por um equívoco, uma mera gralha, a bem dizer. Acre, como todas, mas em rigor só isso. De resto, quem as não cala, para não denegrir o currículo?! Quantas histórias, nas redacções! Fotos trocadas, confusão de nomes. O senhor Carvalho, os colchões de molas… Tretas das letras. Numa dobadoira andariam os donos dos jornais, das revistas, as editoras, os jornalistas, se interpelados por intempestivos desagravos sempre que a insídia ressurtisse nas suas páginas. Seria um desatino arcar com o alvoroço de criaturas agastadas por bagatelas, minudências em que, além do próprio, ninguém mais repara. Como neste caso, neste seu caso, confusão de identidades, ocorrência natural na barafunda do Inverno, quando tão assoberbados andam os cavalheiros do negócio, os senhores, sempre cortezes, das agências funerárias

O SUSTO NÃO FOI A MORTE ACIDENTAL, MAS A GRAVIDEZ – Folhetim em Seis Episódios da autoria de carlos Pessoa Rosa – Segundo Episódio

Prazer igual, nem quando a lâmina cortou o couro e lançou um ruído áspero no miúdo da chuva. Nunca imaginou que matar alguém pudesse provocar orgasmo. Não disse a ninguém, nem mesmo ao homem com quem dormiu depois do crime. Gozou vendo o sangue jorrar do pescoço, em jatos intermitentes e rápidos, até o cimento da calçada. Fez um serviço rápido no cliente que a pegou logo depois, um gerente de magazine sem o mínimo charme e desprovido de criatividade. Queria pagar para ser chupado, não importava o preço. Enquanto trabalhava, segurava na memória o rosto sem animação e pálido, a face cérea da morte. Misturava-se com a imagem de uma vela acesa que se consumia lentamente, contorcia-se pelo calor do fogo, até que um último sopro invisível a apagava e trazia de volta a face do morto em um último engasgo. O calor do sêmen na camisinha devolveu-lhe um zíper aberto, o pinto amolecido saindo de sua boca e o cheiro de cigarro queimado. Cinzas são indícios de algo que existiu e morreu, nada além de indícios.

(continua)

da estranheza do corpo e das ideias

O homem pensou que se resolveria no trânsito, quer dizer, que as ideias ficariam alinhadas e quando chegasse a casa, por fim, teria uma ideia concreta sobre o que fazer. Era sexta-feira. Os carros em fila na auto-estrada mostravam coisas distintas: mulheres a retocar o baton, utivos ao telefone, casais em silêncio, casais a discutir, miúdos chateados no banco detrás, amarrados a cintos com bonecos.

O homem ponderou no seu corpo, na atitude que assumia perante os outros, no dia-a-dia, todos os dias. Sentiu-se estranho e não conseguiu concluir nada. O corpo não lhe permitia muito mais do que avançar, automático, pé no acelerador, pé na embraiagem, travar. A cabeça? Vivia a vida dos outros.

É sempre mais fácil viver a vida dos outros.

Patrícia Reis

Poemas líricos mais popular da literatura portuguesa – Biografia do Poeta

O autor da coleção de poemas líricos mais popular da literatura portuguesa, Tomás Antonio Gonzaga (1744-1810), viveu parte da infância e da juventude no Recife, Bahia e Rio, antes de voltar a Portugal. Foi ouvidor-geral de Vila Rica (MG), época em que o contrabando de diamantes e a sonegação fiscal corriam soltas. Foi nesta época que também apareceu o alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, que acabou na forca junto com alguns outros oficiais. Gonzaga foi condenado ao degredo para toda a vida em Angola, mas sua pena foi reduzida para dez anos em Moçambique. O conjunto de poemas Marília de Dirceu foi publicado com sucesso no Diário de Lisboa e tem um motivo: “É uma poesia que dá vazão ao tumulto interior, confunde-se com a vida do autor e torna-se profundamente autobiográfica”.

O jornalista Adelto Gonçalves, profundo conhecedor da obra e vida de Gonzaga acaba de publicar “Tomás Antonio Gonzaga” pela Academia Brasileira de Letras em convênio com a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. Ele vê no poeta um gosto pelas modinhas populares descobertas na sua infância no Brasil. No degredo casou-se com Juliana de Souza Mascarenhas, filha de seu subordinado que, segundo a lenda era traficante de escravos, coisa que o autor desmente. Gonzaga nunca se meteu nos negócios de escravos, apenas advogou para traficantes negreiros.  Como juiz interino da alfândega foi acusado de favorecer os interesses da elite negreira da ilha em detrimento da Coroa.

Garimpar fatos que envolvem a vida fascinante do poeta do iluminismo fez o autor viver em Lisboa, onde pesquisou por alguns anos e voltou para fazer a defesa de sua tese de doutorado na Universidade de São Paulo, que se tornou livro e agora biografia, numa série que traça o perfil dos ocupantes da Academia de Letras, escrita à altura do grande poeta.

Rivaldo Chinem é jornalista, professor da Unimep e Cogeae/PUC-SP, ministrou cursos de comunicação na Aberje, Sebrae, ADVB e USP. Foi repórter na Folha de S. Paulo, revista Veja, jornal O Estado de S. Paulo, colaborou na imprensa alternativa (Opinião, Movimento, Versus e Repórter); editou o jornalismo da TV Gazeta, da rádio Tupi e apresentou o programa  “Imprensa e Comunicação em Debate” na rádio Bandeirantes. Foi colunista da Agência Estado com “Leitura do empresário” e, na Internet, do site Topnegócios, Portal Terra, com “Marketing Empresarial”. É autor vários livros, como “Terror Policial” com Tim Lopes (Global), “Comunicação Corporativa” editora Escala com prefácio de Heródoto Barbeiro, “Marketing e Divulgação da  Pequena Empresa” (Senac) na 5ª. edição, “Assessoria de Imprensa – como  fazer” (Summus) na 3ª. edição, dentre outros.

por Rivaldo Chinem

6/5/2013

Northern Wind

Maren and Sabine
You are German girls
I am tropical, feeble
Came on the plane just yesterday
Still after dinner
you want to take a walk by the sea
Across the channel lies France
I am about to be blown out and freeze
you smile in your light jumpers
I laugh
the whole world seems so concentrated and big
there’s a halo in everything
blazing cold
northern wind
Ana Teresa Jardim

UMA RAIVA APRISIONADA EM BLOCOS DE GELO – Folhetim em Seis Episódios da autoria de carlos Pessoa Rosa – Sexto Episódio

Música e silêncio. Descanso final. Cansava-se com as frases que surgiam em surtos já paralisadas de qualquer ato possível. Nunca imaginou que a espera da morte fosse tão cheia de delírios, como se palavras fizessem a ligação do corpo com a vida. Seria um descanso para lábios a morte de toda e qualquer fonte de significados. A hora estava próxima e não adiaria um segundo. Retirou a lâmina do bolso da camisa. Apalpou a artéria radial; cheia e acelerada. Treinou mais de cem vezes, não erraria. Vasculhou a memória à procura de imagens que poderiam aliviar a dor. Encontrou a música de Astor e o rosto da mulher que parou para pedir fogo, é o que levava consigo, viajante sem bagagem, sem esperança de uma vida após a morte. Para chegar ao verdadeiro fim de tudo, caso fosse necessário, morreria em série.

FIM

UMA RAIVA APRISIONADA EM BLOCOS DE GELO – Folhetim em Seis Episódios da autoria de carlos Pessoa Rosa – Quinto Episódio

No velório, a música escolhida deverá ser Oblivion, deixou escrito nas últimas recomendações de um morto. Também deixou uma carta aos filhos para que eles compreendessem que o ato nada tinha a ver com suas vidas. Por último, deixou uma declaração proibindo qualquer utilização de órgão seu. Não permitiria que parte sua andasse pela cidade no corpo de outrem, por mais humano que fosse o discurso. Não queria ver órgão seu fora das fronteiras do país. Nem uma córnea doaria. Cegos existem aos montes e córnea alguma melhoraria suas visões. A cegueira verdadeira talvez lhes dê a oportunidade de enxergar os fatos como são e não como os desejamos. Por que mudar destinos? Morria com a certeza de que o homem não tem o direito de adiar o momento mais sagrado da vida.

(continua)

Painter friend

De Kooning (tells me someone I like) is now 83 and paints

to the sound of Talking Heads

While his family fights 

for his fortune

 

I dream I’m dating Salvador Dalí

 

I don’t want to worry

with money, fame and success

 

I want to be like De Kooning

and find me a man like Dalí

 

 

Ana Teresa Jardim

A História da Literatura Portuguesa

Há vários anos, a História da Literatura Portuguesa de António José Saraiva e Óscar Lopes foi-me oferecida por Francisco Monteiro como sendo a melhor história da literatura portuguesa em vigor. Afiançou-me também que a obra valia logo pelas introduções das épocas, com concisa e fortíssima contextualização histórica, social, política, económica, artística e literária. Ele, que ensinava música, usava-as nas suas aulas.

Para além das contextualizações, estão lá sintetizados os principais autores e obras de todo o percurso literário português e muitos são analisados com demora. Vale a pena, por exemplo, rever as entradas relativas a Agustina Bessa-Luís, José Cardoso Pires, Almeida Garret ou Alexandre Herculano. Trata-se de um trabalho extenso e refeito ao longo dos anos, que, com excepção da parte relativa à época contemporânea (escrita apenas por Óscar Lopes), foi realizado a dois.

É verdade que a ideia que lançou a obra partiu de António José Saraiva, no final dos anos quarenta. Depois disso, sucedeu-se um período de três anos de reflexão. A primeira edição saiu em 1953. Transcrevo a quase epígrafe do livro: “Este livro testemunha mais de quarenta anos de amizade viva, firme e produtiva, entre duas pessoas cuja diversidade de opiniões apenas fomentava a mais viva e contínua discussão acerca dos textos ainda aqui presentes, e questionados até ao limiar imprevisível da morte”.

Este limiar surgiria em 1993 com o falecimento de António José Saraiva. Estava, então, a parceria desfeita. E, a partir de Abril passado, com o desaparecimento de Óscar Lopes aos noventa e cinco anos, a obra está fechada.

Óscar Lopes era irmão de Mécia de Sena (casada com Jorge de Sena). Foi crítico literário, ensaísta e professor jubilado da Faculdade de Letras do Porto. Apreciava música e estudou no conservatório. Tinha, sobretudo, uma visão eclética e holística sobre o fenómeno literário e cultural.

Este acontecimento marca, de alguma forma, o fim de um período. Outros terão de continuar o aprofundamento deste trabalho de revisitação da história literária dos séculos anteriores e tentativa de compreensão do século actual. E terão de o fazer tão bem quanto os seus antecessores.

António Pacheco

Clare

Oh Clare, what are those two long scars on your throat?

 

bright pupil

fake dreadlocks

truly blonde African girl

 

motorbike accident

 

they wouldn’t let you graduate

I work as a secretary now

 

but you must go back to college one day

 

cold dark English night

chance meeting on the train

 

Oh Clare, like you I would have never believed

that life could be 

so rude

 

Ana Teresa Jardim

agora mesmo

Agora mesmo são 1:11 da manhã e se o planeta explodir, por razões que ninguém conseguirá explicar, estou aqui sozinha. Teria uma importância relativa, uma explosiva imprevista não me permitiria pensar ou sentir qualquer espécie de medo. Se acontecer enquanto durmo, gostei muito deste bocadinho, embora existam algumas coisas que, para ser sincera, podiam ter corrido melhor. Outras são, e serão sempre, maravilhosas, mesmo que o planeta possa explodir daqui a pouco. Dirão: coitada, está deprimida, faz anos. Não estou. Estou agradecida de muito, arrependida de algumas coisas e com decisões tomadas que serão sempre complexas caso o planeta não decida explodir. Não peço que a explosão aconteça, atenção, nada de dramatismos.

A mulher pousou a caneta e achou o gesto bonito. A caneta em cima do tampo de madeira. Há muito tempo que se esquecera da caligrafia, da importância da caligrafia. Há muito tempo escrevera um livro inteiro num caderno pequeno, tamanho A5, capa amarela de tecido… escrevera a duas cores, para distinguir as vozes e, ainda hoje, sabe que o caderno, ou a cópia que guardou, está ali na estante, perto dos poetas. Não está ao lado de outros por uma razão qualquer específica, está ali. Onde o colocou. Este que agora tem à sua frente não é um livro. Ainda não o é. É um pensamento de uma mulher. Depois a caneta, a dormir silenciosa, ditará o resto e a cabeça terá permissão para se esvaziar. A mulher suspira. Não é uma da manhã, são quase quatro. Há um chocolate algures.

Palavras

Podia escrever as palavras todas do mundo e fazer um dicionário que fosse apenas o seu e podia começar com dor e acabar com amor, rimar e ser piroso.

A mulher estava demasiado ocupada para pensamentos idiotas e, apesar disso, mantinha-se naquela ideia de que ninguém sabia em que pensava. Estava enganada. Só o soube mais tarde. Não era relevante, não para a vida dela. Se as suas palavras eram lidas e relidas, interpretadas e vistas à lupa por quem não sabia o que fazer pela vidinha fora, não era culpa dela.

Ela escrevia e quando escrevia acabava por debitar todas as ideias. Pensava melhor enquanto escrevia. Ou só pensava enquanto escrevia. Os espiões diversos, sempre prontos para encontrar uma imprecisão, rápidos a congeminar uma teoria sempre falsa, não podiam imaginar que ela escrevia o que pensava para não ter de viver o que não queria. Difícil de entender? Para ela, era uma evidência.

OS OLHOS DE MAIAKÓVSKI

Estou numa exposição do artista russo Aleksandr Ródtchenko. Fotografias, colagens, capas de livros.

Entro agora na sala onde estão fotos que ele tirou de seus parentes e amigos.

E, de repente, lembro.

Meu Deus, vivi ali, naquela época, sim, na Rússia, um pouco antes e um pouco depois da Revolução de Outubro.

E convivi com essas pessoas.

+++

Vou examinando os rostos tão familiares do próprio Ródtchenko e de sua mulher, Varvara Stiepânova. E aqui estão as do crítico de arte Óssip Brik e da mulher dele, Lilia.

Paro, emocionada, diante das fotografias de Vladimir Maiakóvski.

Seu rosto intenso e sombrio, um rosto de louco, talvez, está voltado para diretamente para mim, num reconhecimento.

– O que foi feito de você, Nora? – Ouço-o perguntar.

Por que será que ele me chama de Nora?

Continuo com meus olhos fixos nos seus. Que sensação estranha!

Quem foi Maiakóvski para mim?

Irmão, amigo, amante? Os olhos dele me sugam, me arrastam. Continuo aqui, nesta sala, mas em que outra dimensão?

Ouço um leve ruído, percebo que há alguém atrás de mim. E me viro bruscamente, esperando deparar com Vladimir.

Mas não é ele, e sim Lilia Brik. Sou dominada pelo ciúme. Por quê?

Lilia não é propriamente bonita. Mas tem rosto doce, agradável, muito feminino.

E um corpo bem modelado.

Agora vou lembrando. Mesmo enquanto ele estava comigo, todos diziam que era ela o grande amor de Vladimir Maiakovski.

+++

Lilia me toma pelo braço e me conduz para a área externa da casa.

Passamos por uma parede de espelho, no corredor – e me vejo, de relance. Minha imagem não é mais a mesma.

Sou outra mulher, que identifico, de repente.

Sim, sou Nora Polonskaia, atriz, casada. Fui amante de Maiakóvski, por mais de um ano, até a morte dele, aos 36 anos, quando eu tinha apenas 23.

+++

Fui uma das três mulheres da vida de Vladimir. Houve a russa branca que morava em Paris, Tatiana Iacovleva, para quem ele escreveu um longo poema.

A outra, Lilia Brik, seu grande amor, como diziam todos, agora puxa meu braço, com uma raiva mal disfarçada, fazendo com que eu me afaste do espelho e continue a andar a seu lado.

+++

Vou lembrando de tudo, cada vez mais claramente. Passei com Maiakóvski sua última noite vivo. E tivemos uma briga terrível, porque eu não queria deixar meu marido.

Ele tinha esse trauma – seduzia as mulheres, mas não conseguia levá-las para sua companhia.

Eu e Lilia nos sentamos agora a uma das mesas em torno da piscina da bela casa onde funciona o centro cultural com a exposição de Ródtchenko.

Em frente, um painel de azulejos. Adiante, a floresta que cerca e invade o Rio.

Ainda é cedo, o lugar está vazio, não há ninguém nas outras mesas que pudesse estranhar nossas roupas de época e a conversa em russo.

Lilia me diz:

– O que você está fazendo aqui? Por que voltou? Era a mim que ele amava, não a você. O tempo inteiro, era a mim que ele amava. Infelizmente, quando Vladimir morreu, eu estava em Londres, com Óssip. Se estivesse em Moscou, quem sabe impediria que se suicidasse. Já tinha impedido duas vezes, antes.

– Claro, você estava sempre com Óssip. Não quis deixá-lo para ficar com Vladimir – cheia de espanto, ouço a mim mesma responder.

Faço uma pausa, mas continuo:

– Você sempre o colocou em segundo plano. E, quando me conheceu, foi a mim que ele passou a amar. Vladimir me pediu em casamento. Mas fui fraca, tive medo. Tinha medo até de que alguém descobrisse meu caso com ele. Ah, eu queria aceitar seu pedido, devia ter aceito, mas não tive coragem. Minha situação com meu marido era boa. Vladimir era sedutor, mas tão instável. Quem poderia adivinhar o que faria no dia seguinte?

Lilia me olha com raiva crescente.

– Nunca senti ciúmes de você, como não sentia de Tatiana Iácovleva. Dizem que ele também a pediu em casamento. Mas era tudo para tentar fugir de mim. Era a mim que Vladimir queria. Mas eu não conseguiria separar-me de Óssip. Quando o conheci, eu tinha 13 anos. Nosso relacionamento não era o de um homem e uma mulher, ia muito além disso. Óssip não tinha ciúmes de mim. Vladimir, sim. Óssip sabia que eu nunca o deixaria.

Digo, com desdém:

– Vocês três vivendo juntos, na mesma casa, um ménage à trois que causou escândalo, mesmo na Moscou liberada da moral burguesa.

– Não houve ménage à trois. Quando me tornei a mulher de Vladimir, deixei de ser a mulher de Óssip, continuamos juntos apenas como irmãos.

– Lilia, você pode tentar enganar a quem quiser, a mim não engana. Você e sua irmã, Elsa Triolet, sempre foram umas coquetes, mulheres fáceis, que ostentavam um verniz de cultura apenas para seduzir os intelectuais e artistas e viver livremente no meio deles, dormindo com quem quisessem.

– Elsa se casou com Aragon e ela o amava – responde Lilia, ofendida. – Polonskaia, eu não tive ciúmes de você, mas uma coisa não lhe perdoo. Você passou a noite com Vladimir e o abandonou, deixando que se matasse.

– Eu já tinha saído do quarto, quando ouvi o tiro. Estava no corredor daquele maldito prédio da Travessa Lubiánski. Sabia que não adiantava voltar, que estava tudo encerrado. Já antes, vez por outra, ele falava em suicídio. O revólver só tinha uma bala, mas ela se alojou bem em seu coração. Vladimir deve ter ensaiado muitas vezes aquele gesto final. Seu bilhete de despedida talvez fosse escrito com antecipação. “Como se diz, o caso está encerrado. Estou quite com a vida.” Mais ou menos isso. Não voltei ao quarto, não queria que ninguém soubesse do nosso caso. Só mais tarde me contaram os detalhes. Eu era tão jovem. O suicídio de Vladimir me deixou infeliz pelo resto da vida.

– Ele parecia disposto a atender ao chamado de outro suicida, o poeta Iessenin – diz Lilia, aparentemente mais calma. – “Até logo, até logo companheiro,/Guardo-te no meu peito e te asseguro:/O nosso afastamento passageiro/É sinal de um encontro no futuro.”

Ela se cala, ficamos ambas em silêncio.

De dentro da casa vem uma voz de homem que grita o nome dela. Eu a reconheço, é de Vladimir.

Sim, ele tinha feito sua escolha, como Lilia disse. Foi a ela que Maiakóvski sempre quis.

Por ela, matou-se.

Mas não apenas por ela. Estava marginalizado, desprestigiado, como todos os seus amigos, depois da consolidação de Stalin no poder.

Os membros da vanguarda russa deixavam o país, mas talvez ele se sentisse sem forças para isso.

Lilia se levanta e vai correndo para dentro.

Fico sentada ali fora por mais alguns instantes, olhando para piscina azul.

Depois, também sigo para a entrada lateral do prédio. Ao passar pela parede espelho, quem devolve meu olhar já sou eu mesma, neste final de ano de 2010.

+++

Meio tonta, vou até o estacionamento, entro em meu carro, dirijo de volta para meu apartamento.

Mais tarde, abro um livro que comprara dias antes sobre a arte e a vida de Ródtchenko.

Leio algumas informações sobre os últimos anos de Lilia Brik.

Depois que Óssip morreu, ela se casou com V. Katanian, biógrafo de Maiakovski. E se suicidou aos 86 anos.

+++

À noite, sem conseguir dormir, leio em voz alta, para mim mesma, alguns poemas de Vladimir.