Possidónio Cachapa

“Fechei, hoje, a montagem de imagem do meu documentário sobre a figura de Urbano Tavares Rodrigues.
Era para mim uma evidência fazer um filme sobre uma figura a quem o país deve muito. Pelo seu exemplo, coragem, generosidade e talento.”

Possidónio Cachapa
(Prazer Inculto)

Francisco José Viegas

“Dinis Machado é o autor de um dos livros que, se fôssemos mais tocados pela palavra «gratidão», elogiaríamos com mais frequência: O Que Diz Molero, publicado quando a ficção portuguesa não sabia que era portuguesa e ignorava que tinha de trocar de bandeiras, por volta de 1977.”

Francisco José Viegas
(A Origem das Espécies)

Crédito/Foto: Asa

José Saramago

“E nos últimos tempos eu cheguei a uma conclusão – que eu não tinha reconhecido como tal -, de que, no fundo, a grande influência literária na minha pessoa, na minha maneira de escrever, na minha maneira de encarar a questão do relato, da narração, foi o Almeida Garrett.”

(Ler em:DN.Sapo)
Crédito/Foto: Doidos Varridos

Capital baiana comemora oito séculos da Língua Portuguesa com evento internacional

Valdeck Almeida de Jesus, Varenka de Fátima Araújo e Aleilton Fonseca estão entre os homenageados

A Literarte – Associação Internacional de Escritores e Artistas juntamente com o Núcleo de Letras e Artes de Lisboa, e Academia de Letras, Música e Artes de Salvador promovem a comemoração dos 8 séculos da Língua Portuguesa com encontro nos dias 8 e 9 de agosto de 2014, cuja programação inclui música, saraus de poesia, seminário sobre Abdias Nascimento – apresentado pela Escritora e Especialista em Literatura Afro–brasileira Cecy Barbosa Campos -, visita ao Gabinete Português de Leitura e homenagens a artistas e personalidades baianas, dentre eles: Valdeck Almeida de Jesus, Varenka de Fátima Araújo, Aleilton Fonseca, ACM Neto, Albino Rubim, Célia Sacramento, Consuelo Ponde, Luislinda Valois, Mario Cravo, Nana Caymmi, Tonho Matéria, Mestre King, Beatriz Fiquer, Cássio Cavalcante, Clara Machado, Dinorá Couto Cançado, Eulália Costa, Irma Galhardo, José Araújo, Roberto Ferrari e Sônia Nogueira.

Continue reading

O Diplomático | Machado de Assis

A PRETA entrou na sala de jantar, chegou-se à mesa rodeada de gente, e falou baixinho à senhora. Parece que lhe pedia alguma cousa urgente, porque a senhora levantou-se logo.
— Ficamos esperando, D. Adelaide? — Não espere, não, Sr. Rangel; vá continuando, eu entro depois.
Rangel era o leitor do livro de sortes. Voltou a página, e recitou um título: “Se alguém lhe ama em segredo.” Movimento geral; moças e rapazes sorriram uns para os outros. Estamos na noite de São João de 1854, e a casa é na rua das Mangueiras. Chama-se João o dono da casa, João Viegas, e tem uma filha, Joaninha. Usa-se todos os anos a mesma reunião de parentes e amigos, arde uma fogueira no quintal, assam-se as batatas do costume, e tiram-se sortes. Também há ceia, às vezes dança, e algum jogo de prendas, tudo familiar. João Viegas é escrivão de uma vara cível da Corte.
— Vamos. Quem começa agora? disse ele. Há de ser D. Felismina. Vamos ver se alguém lhe ama em segredo.
D. Felismina sorriu amarelo. Era uma boa quarentona, sem prendas nem rendas, que vivia espiando um marido por baixo das pálpebras devotas. Em verdade, o gracejo era duro, mas natural. D. Felismina era o modelo acabado daquelas criaturas indulgentes e mansas, que parecem ter nascido para divertir os outros. Pegou e lançou os dados com um ar de complacência incrédula. Número dez, bradaram duas vozes. Rangel desceu os olhos ao baixo da página, viu a quadra correspondente ao número, e leu-a: dizia que sim, que havia uma pessoa, que ela devia procurar domingo, na igreja, quando fosse à missa. Toda a mesa deu parabéns a D. Felismina, que sorriu com desdém, mas interiormente esperançada.
Outros pegaram nos dados, e Rangel continuou a ler a sorte de cada um. Lia espevitadamente. De quando em quando, tirava os óculos e limpava-os com muito vagar na ponta do lenço de cambraia, — ou por ser cambraia, — ou por exalar um fino cheiro de bogari. Presumia de grande maneira, e ali chamavam-lhe “o diplomático”.
— Ande, seu diplomático, continue.
Rangel estremeceu; esquecera-se de ler uma sorte, embebido em percorrer a fila de moças que ficava do outro lado da mesa. Namorava alguma? Vamos por partes.
Era solteiro, por obra das circunstâncias, não de vocação. Em rapaz teve alguns namoricos de esquina, mas com o tempo apareceu-he a comichão das grandezas, e foi isto que lhe prolongou o celibato até os quarenta e um anos, em que o vemos. Cobiçava alguma noiva superior a ele e à roda em que vivia, e gastou o tempo em esperá-la. Chegou a freqüentar os bailes de um advogado célebre e rico, para quem copiava papéis, e que o protegia muito. Tinha nos bailes a mesma posição subalterna do escritório; passava a noite vagando pelos corredores, espiando o salão, vendo passar as senhoras, devorando com os olhos uma multidão de espáduas magníficas e talhes graciosos. Invejava os homens, e copiava-os. Saía dali excitado e resoluto. Em falta de bailes, ia às festas de igreja, onde poderia ver algumas das primeiras moças da cidade. Também era certo no saguão do paço imperial, em dia de cortejo, para ver entrar as grandes damas e as pessoas da corte, ministros, generais, diplomatas, desembargadores, e conhecia tudo e todos, pessoas e carruagens. Voltava da festa e do cortejo, como voltava do baile, impetuoso, ardente, capaz de arrebatar de um lance a palma da fortuna.
O pior é que entre a espiga e a mão há o tal muro do poeta, e o Rangel não era homem de saltar muros. De imaginação fazia tudo, raptava mulheres e destruía cidades. Mais de uma vez foi, consigo mesmo, ministro de Estado, e fartou-se de cortesias e decretos. Chegou ao extremo de aclamar-se imperador, um dia, 2 de dezembro, ao voltar da parada no largo do Paço; imaginou para isso uma revolução, em que derramou algum sangue, pouco, e uma ditadura benéfica, em que apenas vingou alguns pequenos desgostos de escrevente. Cá fora, porém, todas as suas proezas eram fábulas. Na realidade, era pacato e discreto.
Aos quarenta anos desenganou-se das ambições; mas a índole ficou a mesma, e, não obstante a vocação conjugal, não achou noiva. Mais de uma o aceitaria com muito prazer; ele perdia-as todas, à força de circunspecção. Um dia, reparou em Joaninha, que chegava aos dezenove anos e possuía um par de olhos lindos e sossegados, — virgens de toda a conversação masculina. Rangel conhecia-a desde criança, andara com ela ao colo, no Passeio Público, ou nas noites de fogo da Lapa; como falar-lhe de amor? Mas, por outro lado, as relações dele na casa eram tais, que podiam facilitar-lhe o casamento; e, ou este ou nenhum outro.
Desta vez, o muro não era alto, e a espiga era baixinha; bastava esticar o braço com algum esforço, para arrancá-la do pé. Rangel andava neste trabalho desde alguns meses. Não esticava o braço, sem espiar primeiro para todos os lados, a ver se vinha alguém, e, se vinha alguém, disfarçava e ia-se embora. Quando chegava a esticá-lo, acontecia que uma lufada de vento meneava a espiga ou algum passarinho andava ali nas folhas secas, e não era preciso mais para que ele recolhesse a mão. Ia-se assim o tempo, e a paixão entranhava-se-lhe, causa de muitas horas de angústia, a que seguiam sempre melhores esperanças. Agora mesmo traz ele a primeira carta de amor, disposto a entregá-la. Já teve duas ou três ocasiões boas, mas vai sempre espaçando; a noite é tão comprida! Entretanto, continua a ler as sortes, com a solenidade de um áugur.
Tudo, em volta, é alegre. Cochicham ou riem, ou falam ao mesmo tempo. O tio Rufino, que é o gaiato da família, anda à roda da mesa com uma pena, fazendo cócegas nas orelhas das moças. João Viegas está ansioso por um amigo, que se demora, o Calisto. Onde se meteria o Calisto? — Rua, rua, preciso da mesa; vamos para a sala de visitas.
Era D. Adelaide que tornava; ia pôr-se a mesa para a ceia. Toda a gente emigrou, e andando é que se podia ver bem como era graciosa a filha do escrivão. Rangel acompanhou-a com grandes olhos namorados. Ela foi à janela, por alguns instantes, enquanto se preparava um jogo de prendas, e ele foi também; era a ocasião de entregar-lhe a carta.
Defronte, numa casa grande, havia um baile, e dançava-se. Ela olhava, ele olhou também. Pelas janelas viam passar os pares, cadenciados, as senhoras com as suas sedas e rendas, os cavalheiros finos e elegantes, alguns condecorados. De quando em quando, uma faísca de diamantes, rápida, fugitiva, no giro da dança. Pares que conversavam, dragonas que reluziam, bustos de homem inclinados, gestos de leques, tudo isso em pedaços, através das janelas, que não podiam mostrar todo o salão, mas adivinhava-se o resto. Ele ao menos conhecia tudo, e dizia tudo à filha do escrivão. O demônio das grandezas, que parecia dormir, entrou a fazer as suas arlequinadas no coração do nosso homem, e ei-lo que tenta seduzir também o coração da outra.
— Conheço uma pessoa que estaria ali muito bem, murmurou Rangel.
E Joaninha, com ingenuidade: — Era o senhor.
Rangei sorriu lisonjeado, e não achou que dizer. Olhou para os lacaios e cocheiros, de libré, na rua conversando em grupos ou reclinados no tejadilho dos carros. Começou a designar carros: este é do Olinda, aquele é do Maranguape; mas aí vem outro, rodando, do lado da rua da Lapa, e entra na rua das Mangueiras. Parou defronte: salta o lacaio, abre a portinhola, tira o chapéu e perfila-se. Sai de dentro uma calva, uma cabeça, um homem, duas comendas, depois uma senhora ricamente vestida; entram no saguão, e sobem a escadaria, forrada de tapete e ornada embaixo com dois grandes vasos.
— Joaninha, Sr. Rangel…
Maldito jogo de prendas! Justamente quando ele formulava, na cabeça, uma insinuação a propósito do casal que subia, e ia assim passar naturalmente à entrega da carta… Rangel obedeceu, e sentou-se defronte da moça. D. Adelaide, que dirigia o jogo de prendas, recolhia os nomes; cada pessoa devia ser uma flor. Está claro que o tio Rufino, sempre gaiato, escolheu para si a flor da abóbora. Quanto ao Rangel, querendo fugir ao trivial, comparou mentalmente as flores, e quando a dona da casa lhe perguntou pela dele, respondeu com doçura e pausa: — Maravilha, minha senhora.
— O pior é não estar cá o Calisto! suspirou o escrivão.
— Ele disse mesmo que vinha? — Disse; ainda ontem foi ao cartório, de propósito, avisar-me de que viria tarde, mas que contasse com ele: tinha de ir a uma brincadeira na rua da Carioca…
— Licença para dous! bradou uma voz no corredor.
— Ora graças! está aí o homem! João Viegas foi abrir a porta; era o Calisto, acompanhado de um rapaz estranho, que ele apresentou a todos em geral: — “Queirós, empregado na Santa Casa; não é meu parente, apesar de se parecer muito comigo; quem vê um, vê outro…” Toda a gente riu; era uma pilhéria do Calisto, feio como o diabo, — ao passo que o Queirós era um bonito rapaz de vinte e seis a vinte e sete anos, cabelo negro, olhos negros e singularmente esbelto. As moças retraíram-se um pouco; D. Felismina abriu todas as velas.
— Estávamos jogando prendas, os senhores podem entrar também, disse a dona da casa. Joga, Sr. Queirós? Queirós respondeu afirmativamente e passou a examinar as outras pessoas. Conhecia algumas, e trocou duas ou três palavras com elas. Ao João Viegas disse que desde muito tempo desejava conhecê-lo, por causa de um favor que o pai lhe deveu outrora, negócio de foro. João Viegas não se lembrava de nada, nem ainda depois que ele lhe disse o que era; mas gostou de ouvir a notícia, em público, olhou para todos, e durante alguns minutos regalou-se calado.
Queirós entrou em cheio no jogo. No fim de meia hora, estava familiar da casa. Todo ele era ação, falava com desembaraço, tinha os gestos naturais e espontâneos. Possuía um vasto repertório de castigos para jogo de prendas, coisa que encantou a toda a sociedade, e ninguém os dirigia melhor, com tanto movimento e animação, indo de um lado para outro, concertando os grupos, puxando cadeiras, falando às moças, como se houvesse brincado com elas em criança.
— D. Joaninha aqui, nesta cadeira; D. Cesária, deste lado, em pé, e o Sr. Camilo entra por aquela porta… Assim, não: olhe, assim de maneira que…
Teso na cadeira, o Rangel estava atônito. Donde vinha esse furacão? E o furacão ia soprando, levando os chapéus dos homens, e despenteando as moças, que riam de contentes: Queirós daqui, Queirós dali, Queirós de todos os lados. Rangel passou da estupefação à mortificação. Era o cetro que lhe caía das mãos. Não olhava para o outro, não se ria do que ele dizia, e respondia-lhe seco. Interiormente, mordia-se e mandava-o ao diabo, chamava-o bobo alegre, que fazia rir e agradava, porque nas noites de festa tudo é festa. Mas, repetindo essas e piores coisas, não chegava a reaver a liberdade de espírito. Padecia deveras, no mais íntimo do amor-próprio; e o pior é que o outro percebeu toda essa agitação, e o péssimo é que ele percebeu que era percebido.
Rangel, assim como sonhava os bens, assim também as vinganças. De cabeça, espatifou o Queirós; depois cogitou a possibilidade de um desastre qualquer, uma dor bastava, mas cousa forte, que levasse dali aquele intruso. Nenhuma dor, nada; o diabo parecia cada vez mais lépido, e toda a sala fascinada por ele. A própria Joaninha, tão acanhada, vibrava nas mãos de Queirós, como as outras moças; e todos, homens e mulheres, pareciam empenhados em servi-lo. Tendo ele falado em dançar, as moças foram ter com o tio Rufino, e pediram que tocasse uma quadrilha na flauta, uma só, não se lhe pedia mais.
— Não posso, dói-me um calo.
— Flauta? bradou o Calisto. Peçam ao Queirós que nos toque alguma coisa, e verão o que é flauta… Vai buscar a flauta, Rufino. Ouçam o Queirós. Não imaginam como ele é saudoso na flauta! Queirós tocou a Casta Diva. Que cousa ridícula! dizia consigo o Rangel — uma música que até os moleques assobiam na rua. Olhava para ele, de revés, para considerar se aquilo era posição de homem sério; e concluía que a flauta era um instrumento grotesco. Olhou também para Joaninha, e viu que, como todas as outras pessoas, tinha a atenção no Queirós, embebida, namorada dos sons da música, e estremeceu, sem saber por quê. Os demais semblantes mostravam a mesma expressão dela, e, contudo, sentiu alguma coisa que lhe complicou a aversão ao intruso. Quando a flauta acabou, Joaninha aplaudiu menos que os outros, e Rangel entrou em dúvida se era o habitual acanhamento, se alguma especial comoção… Urgia entregar-lhe a carta.
Chegou a ceia. Toda a gente entrou confusamente na sala, e felizmente para o Rangel, coube-lhe ficar defronte de Joaninha, cujos olhos estavam mais belos que nunca e tão derramados, que não pareciam os do costume. Rangel saboreou-os caladamente, e reconstruiu todo o seu sonho que o diabo do Queirós abalara com um piparote. Foi assim que tornou a ver-se, ao lado dela, na casa que ia alugar, berço de noivos, que ele enfeitou com os ouros da imaginação. Chegou a tirar um prêmio na loteria e a empregá-lo todo em sedas e jóias para a mulher, a linda Joaninha — Joaninha Rangel — D. Joaninha Rangel — D. Joana Viegas Rangel — ou D. Joana Cândida Viegas Rangel… Não podia tirar o Cândida…
— Vamos, uma saúde, seu diplomático… faça uma saúde daquelas…
Rangel acordou; a mesa inteira repetia a lembrança do tio Rufino; a própria Joaninha pedia-lhe uma saúde, como a do ano passado. Rangel respondeu que ia obedecer; era só acabar aquela asa de galinha. Movimento, cochichos de louvor; D. Adelaide, dizendo-lhe uma moça que nunca ouvira falar o Rangel: — Não? perguntou com pasmo. Não imagina; fala muito bem, muito explicado, palavras escolhidas, e uns bonitos modos…
Comendo, ia ele dando rebate a algumas reminiscências, frangalhos de idéias, que lhe serviam para o arranjo das frases e metáforas. Acabou e pôs-se de pé. Tinha o ar satisfeito e cheio de si. Afinal, vinham bater-lhe à porta. Cessara a farandolagem das anedotas, das pilhérias sem alma, e vinham ter com ele para ouvir alguma cousa correta e grave. Olhou em derredor, viu todos os olhos levantados, esperando. Todos não; os de Joaninha enviesavam-se na direção do Queirós, e os deste vinham esperá-los a meio caminho, numa cavalgada de promessas. Rangel empalideceu. A palavra morreu-lhe na garganta; mas era preciso falar, esperavam por ele, com simpatia, em silêncio.
Obedeceu mal. Era justamente um brinde ao dono da casa e à filha. Chamava a esta um pensamento de Deus, transportado da imortalidade à realidade, frase que empregara três anos antes, e devia estar esquecida. Falava também do santuário da família, do altar da amizade, e da gratidão, que é a flor dos corações puros. Onde não havia sentido, a frase era mais especiosa ou retumbante. Ao todo, um brinde de dez minutos bem puxados, que ele despachou em cinco e sentou-se.
Não era tudo. Queirós levantou-se logo, dois ou três minutos depois, para outro brinde, e o silêncio foi ainda mais pronto e completo. Joaninha meteu os olhos no regaço, vexada do que ele iria dizer; Rangel teve um arrepio.
— O ilustre amigo desta casa, o Sr. Rangel — disse Queirós, — bebeu às duas pessoas cujo nome é o do santo de hoje; eu bebo àquela que é a santa de todos os dias, a D. Adelaide.
Grandes aplausos aclamaram esta lembrança, e D. Adelaide, lisonjeada, recebeu os cumprimentos de cada conviva. A filha não ficou em cumprimentos. — Mamãe! mamãe! exclamou, levantando-se; e foi abraçá-la e beijá-la três e quatro vezes; — espécie de carta para ser lida por duas pessoas.
Rangel passou da cólera ao desânimo, e, acabada a ceia, pensou em retirar-se. Mas a esperança, demônio de olhos verdes, pediu-lhe que ficasse, e ficou. Quem sabe? Era tudo passageiro, cousas de uma noite, namoro de São João; afinal, ele era amigo da casa, e tinha a estima da família; bastava que pedisse a moça, para obtê-la. E depois esse Queirós podia não ter meios de casar. Que emprego era o dele na Santa Casa? Talvez alguma cousa reles… Nisto, olhou obliquamente para a roupa de Queirós, enfiou-se-lhe pelas costuras, escrutou o bordadinho da camisa, apalpou os joelhos das calças, a ver-lhe o uso, e os sapatos, e concluiu que era um rapaz caprichoso, mas provavelmente gastava tudo consigo, e casar era negócio sério. Podia ser também que tivesse mãe viúva, irmãs solteiras… Rangel era só.
— Tio Rufino, toque uma quadrilha.
— Não posso; flauta depois de comer faz indigestão. Vamos a um víspora.
Rangel declarou que não podia jogar, estava com dor de cabeça: mas Joaninha veio a ele e pediu-lhe que jogasse com ela, de sociedade. — “Meia coleção para o senhor, e meia para mim”, disse ela, sorrindo; ele sorriu também e aceitou. Sentaram-se ao pé um do outro. Joaninha falava-lhe, ria, levantava para ele os belos olhos, inquieta, mexendo muito a cabeça para todos os lados. Rangel sentiu-se melhor, e não tardou que se sentisse inteiramente bem. Ia marcando à toa, esquecendo alguns números, que ela lhe apontava com o dedo, — um dedo de ninfa, dizia ele, consigo; e os descuidos passaram a ser de propósito, para ver o dedo da moça, e ouvi-la ralhar: “O senhor é muito esquecido; olhe que assim perdemos o nosso dinheiro…” Rangel pensou em entregar-lhe a carta por baixo da mesa; mas não estando declarados, era natural que ela a recebesse com espanto e estragasse tudo; cumpria avisá-la. Olhou em volta da mesa: todos os rostos estavam inclinados sobre os cartões, seguindo atentamente os números. Então, ele inclinou-se à direita, e baixou os olhos aos cartões de Joaninha, como para verificar alguma coisa.
— Já tem duas quadras, cochichou ele.
— Duas, não; tenho três.
— Três, é verdade, três. Escute…
— E o senhor? — Eu duas.
— Que duas o quê? São quatro.
Eram quatro; ela mostrou-lhas inclinada, roçando quase a orelha pelos lábios dele; depois, fitou-o rindo e abanando a cabeça: “O senhor! o senhor!” Rangel ouviu isto com singular deleite; a voz era tão doce, e a expressão tão amiga, que ele esqueceu tudo, agarrou-a pela cintura, e lançou-se com ela na eterna valsa das quimeras. Casa, mesa, convivas, tudo desapareceu, como obra vã da imaginação, para só ficar a realidade única, ele e ela, girando no espaço, debaixo de um milhão de estrelas, acesas de propósito para alumiá-los.
Nem carta, nem nada. Perto da manhã foram todos para a janela ver sair os convidados do baile fronteiro. Rangel recuou espantado. Viu um aperto de dedos entre o Queirós e a bela Joaninha. Quis explicá-lo, eram aparências, mas tão depressa destruía uma como vinham outras e outras, à maneira das ondas que não acabam mais. Custava-lhe entender que uma só noite, algumas horas bastassem a ligar assim duas criaturas; mas era a verdade clara e viva dos modos de ambos, dos olhos, das palavras, dos risos, e até da saudade com que se despediram de manhã.
Saiu tonto. Uma só noite, algumas horas apenas! Em casa, aonde chegou tarde, deitou-se na cama, não para dormir, mas para romper em soluços. Só consigo, foi-se-lhe o aparelho da afetação, e já não era o diplomático, era o energúmeno, que rolava na casa, bradando, chorando como uma criança, infeliz deveras, por esse triste amor do outono. O pobre-diabo, feito de devaneio, indolência e afetação, era, em substância, tão desgraçado como Otelo, e teve um desfecho mais cruel.
Otelo mata Desdêmona; o nosso namorado, em quem ninguém pressentira nunca a paixão encoberta, serviu de testemunha ao Queirós, quando este se casou com Joaninha, seis meses depois.
Nem os acontecimentos, nem os anos lhe mudaram a índole. Quando rompeu a guerra do Paraguai, teve idéia muitas vezes de alistar-se como oficial de voluntários; não o fez nunca; mas é certo que ganhou algumas batalhas e acabou brigadeiro.

FIM
Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br

POMBÓMENS E PASSARÓMENS | Cristina Carvalho

Podia ser uma montagem mágica de fotografias, mas não é! Podia ser qualquer coisa, obra do photoshop, mas não é! É uma fotografia, uma entre milhares, de operários na construção do Empire State Building. Como pombos enfileirados, poisados nos cabos dos telefones, os homens descansam no intervalo da hora da refeição. Enquanto um “pombómem” remexe no bolso à procura de cigarros, outro “pombómem” acende já um cigarro; um grande número de “passarómens” lê o jornal; um acende o cigarro ao outro; e outros comem a sua sande. São estes os verdadeiros homens-pássaros que debicam sementes de vento nas alturas, que tranquilamente demonstram o impensável; funâmbulos do trabalho instável; aventureiros à força buscando alimento tal e qual os pássaros na terra, seu falso elemento.
Provavelmente nunca trabalharam na iminência da gravata e o seu ar condicionado foi este que está à vista.

Empire

Dia do Escritor comemorado com bate papo em Salvador

Com apresentação de Valdeck Almeida de Jesus e Renata Rimet, acontece no dia 25 de julho de 2014, das 14 às 17 horas, no Centro Cultural Plataforma, na Praça São Brás, em Plataforma, o 3º Bate Papo com Escritores, em comemoração ao Dia Nacional do Escritor e destacar a importância dos escritores na formação leitora de crianças e adolescentes. O evento tem a participação especial dos escritores Antonio Cedraz, Lucas Yuri (escritor mirim) e Conceição Castro.

Homenagem Especial – a 3ª edição do Bate Papo com Escritores prestará homenagem ao escritor Antonio Cedraz através de exposição de suas obras e trajetória no Foyer do Teatro.

Anualmente promovido pelo SOFIA Centro de Estudos, através de sua Biblioteca Comunitária Paulo Freire (EMredando), nesta 3ª edição tem parceria com a Biblioteca Parque São Bartolomeu (EMRedando), o Centro Cultural Plataforma, Grupo Herdeiros de Angola, Projeto Fala Escritor, Chá Cultural e a Rede TOKliterário.

Maria da Conceição Braga de Castro – Baiana, nascida em Salvador é graduada em Direito pela Universidade Federal da Bahia, escritora e poeta, membro da Academia de Cultura da Bahia. Publicou os seus trabalhos no site “texto livre” e publica atualmente no “Recanto das letras” e em redes sociais. Participou de duas antologias, sendo uma resultante de concurso literário de crônicas, de âmbito internacional, para homenagear o escritor Jorge Amado, elaborado pelo escritor Valdeck Almeida de Jesus e lançada na Bienal de livros de São Paulo, por ocasião do centenário do renomado escritor. Seus poemas também foram utilizados em projeto escolar de incentivo á poesia na escola Padre Heraload Cordeiro de Barros nos Estados de Pernambuco, iniciativa da educadora e poetisa Ângela Lucena. Além disso, tem também publicado suas crônicas na Tribuna da Bahia, jornal de grande circulação na capital baiana.

Lucas Yuri Bispo Pinto – baiano, natural de Salvador, nasceu aos 30.01.2002, É Membro da Academia de Letras do Brasil-Seccional Suíça, cursa o 7º ano do Ensino Fundamental. Como todas as crianças, Lucas Yuri gosta estudar, brincar, ler, contar piadas, contar histórias, cantar, dançar, tocar teclado e escrever. Dos 08 livros escritos por Lucas Yuri, apenas 04 já foram publicados: A Aranha Vaidosa, 2011; O menino que achava que o planeta Terra era todo dele, 2012; A menina que queria ser uma artista completa, 2012.
Quindim o Gato Raivoso, 2013; Participação na Antologia Poética Sensações do Facebook, com 03 poemas, 2013.

Antônio Luiz Ramos Cedraz, mais conhecido por “Cedraz”, nasceu em 04 de maio de 1945 na fazenda Pau Ferro, município de Miguel Calmon e cresceu em Jacobina, onde se formou professor e começou a fazer desenhos e histórias em quadrinhos. Com 16 anos (mais ou menos) ele viu um rapaz desenhando e pegou papel e lápis e fez um desenho. Mostrou ao rapaz (Uilson Morais) e ele começou a incentivar não parando mais. O professor foi apenas porque em Jacobina, naquela época, era o curso mais avançado que existia. Depois, foi ser bancário e mudou-se para Salvador, pois queria continuar os estudos e fazer curso superior. Como já era casado e trabalhava no banco o dia inteiro, não podia concluir os estudos e só cursou por dois anos o curso de Artes Plásticas na UFBA”. Cedraz é um dos mais importantes quadrinhistas da Bahia, principalmente na área do quadrinho infantil, gênero que alcançou o auge das historietas cômicas nas séries Lúbio, Zé Bola, Joinha, Ana, Pipoca e agora Xaxado. Durante muitos anos Cedraz vem publicando seus trabalhos na Bahia, em outros estados e até fora do país. Ele está no mercado há mais de 40 anos, sempre batalhando, lutando para abrir espaço para os quadrinhos nacionais, mas com muita humildade. Nunca desistiu da luta, mesmo que batalhasse com dificuldades e enfrentando o todo poderoso sindicato norte americano.
http://www.iteia.org.br/jornal/dia-nacional-do-escritor-e-comemorado-com-bate-papo-em-salvador
http://falaescritor.blogspot.com.br/2014/07/dia-do-escritor-comemorado-com-bate.html
http://galinhapulando.blogspot.com.br/2014/07/dia-do-escritor-comemorado-com-bate.html

EMMA, A MENINA TRISTE

Emma, uma menina morena, pequena, robusta e de coxas gordinhas, não usa tranças sem nelas colocar uma rosa que brilhe ao longe, quase parecendo no seu rosto existir um sol.
A menina é triste, não sabe da mãe e chora todos os dias.

Vive com a madrinha, desde quando ainda só tinha meses de idade, e que passou a ser a sua mãe.

Pela manhã, bem cedo, vai acordá-la para a levar à escola e ela, sem um sorriso, levanta-se, vai para o quarto de banho lavar o rosto, e ver-se ao espelho.
Dirige-se depois à cozinha, onde tem já o pequeno-almoço pronto.
Toma o seu leitinho, não muito quente, ela não gosta do leite quente, pois, vive numa cidade de muito calor. Com apetite, toma o leite e mastiga lentamente um pão com manteiga. Os seus olhos fundos, negros, na vastidão do rosto, os lábios carnudos, mastiga.
– Quem fez este pão, madrinha? Pergunta a Emma com uma voz distante, muito fininha.
– Foi o padeiro Emma, respondeu a madrinha.
– O padeiro? Quem é ele? De novo, a menina.
– O padeiro é um senhor, que usa uma bata branca, que se levanta sempre muito cedo, muito cedo mesmo, aliás, ele levanta-se quando nós nos vamos deitar, para podermos ter a esta hora, todos os dias, um pãozinho para comer, para todas as pessoas, no seu pequeno-almoço, terem como nós, um pão. Tentou a madrinha explicar-lhe.
– E ele fica triste, madrinha? Pergunta a menina.
– Não Emma, ele fica feliz por poder fazer uma coisa tão importante para todas as pessoas, para todas as crianças, isso já o faz sentir-se feliz, sabes?

De mãos dadas com a sua madrinha, Emma segue agora a caminho da escola, que fica do outro lado do bairro onde vive.
Nem sempre o dia está como hoje, onde se sente a despontar um belo sol, ao fundo, pelas frinchas dos edifícios que dividem o espaço disponível, até conseguir ver-se o sol, a abrir-se, pequeno como as pessoas, que quando nascem, são também pequenas e vão depois crescendo, crescendo, até ficarem grandes como o sol da hora do almoço.

– Assim gosto mais madrinha, com sol, porque com chuva o meu laço iria estragar-se, e eu chorava.

Diz entretanto a Emma, depois de uma pausa em que observava o sol que nascia lentamente na caminhada que fazia, longa, pela manhã, ter que atravessar tantas ruas e por baixo de imensos prédios, e ela, com passos de gente pequena, seguia, de mãos dadas com a madrinha.

As duas caminham no meio de conversas que sempre têm, atravessam pelas passadeiras das ruas, pela manhã que acaba de nascer também.

– Quando eu for grande vens comigo à escola também, madrinha?
– Quando fores grande vais sozinha, Emma.
– Não, madrinha. Quero que vás sempre comigo, prometes?
– Quando fores mais crescida, sabes, já a madrinha é muito velhinha, e não vai ter forças para ir contigo…
– Oh… então vou deixar de ir à escola madrinha, vou ter muito medo de andar sozinha…
– Não vais ter não! Vais ser uma menina muito forte!
– Esta escola é para os meninos pequenos, madrinha, sabes? E quando eu crescer vou para outra escola, de meninos grandes. Os meninos grandes vão sozinhos?
– Sim, os meninos grandes vão sozinhos.
– Então não quero ser crescida madrinha, quero ser pequenina sempre, para ires comigo todos os dias, depois ficas cá fora à espera que o sino toque, eu venho a correr para te abraçar e irmos as duas para casa, almoçar, comer a sopinha, posso, não posso madrinha?
– Olha Emma, vou contar-te uma coisa, verdadeira, de quando era pequena também, assim como tu:

Na aldeia, onde a madrinha nasceu e cresceu, não tinha pai. A minha mãe era muito pobre e tinha de sair muito cedo de casa, todos os dias, e eu ia com as outras meninas, assim pequenas também, para a escola, quer chovesse muito, quer chovesse pouco, e lá íamos todas juntas, fizesse frio ou calor.
E a sala onde a madrinha tinha aulas não era uma sala assim como a tua, era debaixo das árvores, sentados no chão, e a professora ficava em pé a ensinar os meninos todos daquele tempo, a ler e a escrever.
Não podíamos ter medo porque éramos fortes, não tinha quem me levasse à escola e tinha de ir mesmo assim, sabes Emma, e depois, a madrinha cresceu e mudou de escola, e ia na mesma sozinha ou com as outras meninas, colegas da escola, da nossa escola onde o tecto era a copa das árvores.
Não tinha medo Emma, era forte, tinha que ser forte.
– Eu também sou forte madrinha, mas tenho medo, sabes porquê?

A madrinha fechou os olhos, enquanto caminhavam, as duas numa passada meio acelerada, entretanto escutava a menina ia dizendo que tinha uns olhos fundos e tristes, cabelinho preso por duas tranças, uma de cada lado da cabeça, e em cada uma das tranças, uma rosa pequena, que por um elástico se prendia ao cabelo, num brilhante colorido, que balouça, que bamboleia a cada passada, como quem se agita sob um vento forte, e para dentro a madrinha sentia o suor, esperava sempre uma pergunta mais forte de Emma, que, como todas as crianças desta idade, a frescura mental surpreende, ilumina como um sol que nos abrilhanta a vida, o dia, a tarde, conta-nos como se os seus raios nos tocassem e dessem também a mão, seguissem connosco este caminho de todos os dias, pela manhã, a caminho da escola, depois, à hora do almoço até casa, almoçar, conversar, e depois juntas brincar ao esconde-esconde.

– Sabes madrinha, os outros meninos, quem vai buscá-los é sempre a mãe, e a mim és sempre tu, não é? Mas escuta, és a minha madrinha e não és minha mãe porquê?
– Sabes Emma, todas as pessoas nascem, crescem, mas um dia, todas as pessoas partem para o céu, para junto de Deus, a mamã foi para o céu e fiquei eu contigo, depois da guerra, sabes, coisas feias e más da guerra, levaram muitas pessoas desta vida, e a mamã foi uma delas, está no céu e continua a gostar muito de ti. Sou tua amiga, madrinha, mãe, e sou tão forte como tu és, brincamos juntas, saltamos a corda, comemos e dormimos juntas, é muito bom, não é?

Os pequenos olhos da menina viraram-se para o céu, o seu rosto, abria suavemente os lábios como que a querer perguntar-lhe alguma coisa.
A madrinha disfarçava não estar a aperceber-se e pelo canto do olho, via o ar triste de Emma, que quase parecia estar a chorar, tentando no céu ver se estaria a sua mãe, lembrando-se do que a madrinha dissera.

Tinha que estar ali, numa janela no céu, logo os seus olhos iriam alcançá-la, pensava para dentro a menina pequena.
E foram as duas, entraram na escola e a menina ficaram à na sala até tocar o sino, um beijo uma na outra, e irem depois as duas em direcção a casa para almoçarem.

– Esperas aqui por mim, madrinha? Esperas?
– Sim Emma, espero até se ouvir tocar o sino e tu chegares, vai lá.

E Emma foi, com o seu rosto triste, escutar com atenção as coisas das aulas, aprender as letras, as palavras, o que lhe dizia a professora.
Sentou-se e lá ficou, até o sino para a saída tocar.

O sino para a saída tocou.
As crianças correm felizes, para o braço dos pais, das mães, e Emma, encontra os braços da madrinha, os mesmos de todos os outros dias, num abraço enorme, quente, feliz também, como o abraço da Yara em sua mãe, do Pedro em seu pai, o da Emma em sua madrinha, a madrinha que é sua mãe, quando não se tem mãe, e Emma sabe que não tem mãe, como os outros meninos, por isso é triste, mas sabe que amar é importante e termos quem nos ame é muito bom. Emma tem a madrinha que passou a ser a mãe que ela perdera desde que a guerra de si a tirara.
As duas seguem rumo a casa, debaixo de um sol imenso, no calor da cidade linda, onde Emma vive com a madrinha que é a mãe, e Emma entende, a cada dia que passa, que não tem mãe, mas tem a madrinha, que é a mãe, e cresce, e vai ser feliz, a menina que não tem mãe.

– Sabes madrinha, a professora disse que há muitos meninos que ficaram sem mãe, como eu, como tu disseste, sabes, a guerra é uma coisa muito má, mata as pessoas e as crianças ficam sozinhas, sem pai, sem mãe, como eu fiquei, sabes madrinha? E eu disse-lhe: não tenho a mamã que foi para o céu e fiquei com a minha madrinha, a quem a mamã pediu para cuidar de mim, e ela gosta de mim. A professora disse que a vida anda muito depressa, sabes, sempre, e eu vou ficar crescida como tu madrinha, e ser uma senhora e não vou ter medo de nada, vou estudar muito, e ser uma menina linda, e sou, não sou madrinha?
– Sim meu amor, esta é a nossa terra, onde nascemos, onde nasceste, onde a guerra matou muitas mamãs, papás, há muitos meninos como, tu sabes Ema? E vão ser como tu, muito fortes para crescer e serem um dia pessoas importantes, pessoas que vão governar, ensinar, educar, e não vamos ter guerra nunca mais, e não vemos ter medo nunca mais.

A madrinha ouviu tudo o que a menina dizia, sentiu tudo como se fosse ela a viver toda a dor de uma menina pequena, de tranças, uma de cada lado da cabeça, não muito longas, mas muito lindas, ela gosta tanto das suas tranças como a madrinha gosta dela. A Emma ia crescendo, estava a ficar uma menina grande, obediente, fazia tudo o que a madrinha lhe pedia, estudava, fazia os deveres, ajudava a madrinha a arrumar a cozinha depois do jantar, brincava um bocadinho até o sono chegar, pois, ia levantar-se muito cedo no dia seguinte, para ver de novo um sol brilhante, um céu azul, onde dorme em paz a mamã, que a guerra lhe tirou.

– Vamos fazer um soninho, Ema, vamos?
– Sim madrinha, vamos.

E foram, até de novo o novo dia.

A menina que andava sempre triste, não mais é uma menina triste, sabe que a mamã está no céu e olha sempre por ela, a madrinha está sempre perto.

A menina cresceu e entendeu.

Nunca mais a menina acordou triste.

FIM