O demónio por detrás da palavra escrita | Rui Sobral

Em todas as palavras de autor o demónio está à espreita. Trata-se de uma besta insaciável, de um bicho cru, de um ladrão desmedido que rouba coisas que não lhe pertencem. Em todas as obras de autor mas não em todas as coisas escritas há um demónio a pairar. Ele chama-se escritor.

De verdade, todos os escritos de escritor são indubitavelmente caros, roubados e usados com retalhos de outros que não ele. Quer seja ficção, ou não, tudo é matéria de ladroagem. O escritor é um gatuno que materializa imagens, sons, cheiros e sentimentos e sensações e acasos e um sem número de eventos que pertenciam a alguém, em obras de arte.

É evidente que há quem escreva e quem seja escritor. Há dicionários que dizem o contrário mas a palavra “excepção” consta lá – nos dicionários pré-acordo ortográfico. Das muitas coisas que se escrevem algumas são genuínas obras de arte – como se de terra fértil se tratasse, e essas, dos escritores, são da autoria dos tais demónios, as outras, aqueles escritos, nem sempre são roubados e quando são, são mal empregues. Dos escritores mede-se a veracidade do roubo, a empregabilidade da estética no “artigo” surripiado e nas nuances, pelas páginas fora, estão pedaços de coisas que o leitor identifica como suas. E são suas evidentemente.

Num enrolar o cabelo com os dedos, num olhar fugídio, num bater de palmas, num suspiro, num berro, num sorriso, num cruzar de pernas, em tudo e em mais alguma coisa o demónio estará por perto, a besta estará a registar, estará a roubar para mais tarde, possívelmente num leito esfomeado por criar algo de valor, transformar tudo isso que é seu numa obra de arte que não terá o seu nome nos créditos, porém, encontrar-se-à numa metamorfose irrepreensivel e isso não é coisa de quem somente escreve, é coisa de artista, é coisa de sensível. Isso é coisa de escritor.

N’O Processo de Kafka está patente o pandemónio da existência do ser no mais profundo consentimento, ou até submissão, com o universo e isso é intemporal. O mesmo aplica-se ao A voz subterrânea do Dostoiévski, ou seria ele assim tão mau e tão doente, ou pior ainda seria ele todo um suicída nas suas gavetas mentais? Até Pessoa era um aldrabão com toda aquela história dos inúmeros heterónimos. Cabiam nele todos os Ricardo Reis e Álvaro de Campos – é verdade, mas são matéria de pedaços que foi encontrando noutros ao longo dos dias, embora com uma ornamentação sublime. Os exemplos não caberiam todos por aqui.
Cuidado! O escritor anda à solta e com uma sede imparável e angustiante. Não há exorcismo que o pare.

PINTURA QUASE ABSTRACTA | Domingos da Mota

Domingos da Mota

 

 

 

 

 

 

besouros não trepam no abstrato

Manoel de Barros

Um círculo de fogo: posto
ao centro um buraco negro
de infinito: adentro do buraco

a placenta de mundos paralelos
que se fitam através dos espelhos
da matéria (negra, fria, escura

tal o breu)
entre rectas e curvas e espirais,
algum mar, tanto ar e muito céu,

um quadro gigante sem moldura,
mas com bichos, minerais e vegetais
E no canto esquerdo, bem no cimo

da tela pintada com os olhos,
vê-se um rabo de fora que gatinha
em busca de algum rato (a desoras)

pois um gato não caça no abstracto

Domingos da Mota

De Bolsa de Valores e Outros Poemas, Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010

Poema | Helder Magalhães

um dia escrevo à minha mãe
o poema com a menina
que ela gostaria de ter dado à luz.
há-de riscar-lhe os vestidos
e costurá-los
com as mãos que só ela sabe
sentá-la no colo e coser-lhe as flores
dos versos
entre as madeixas dos cabelos
com as mãos que só ela sabe.
há-de fazer
crescer o pano do vestido
refazer as bainhas sempre que preciso
e o sorrir dos botões
pelo ventre das casas
com as mãos que só ela sabe.
um dia escrevo à minha mãe
o poema com a menina
que ela gostaria de ter dado à luz.

(dista um palmo, a amplitude do peso que suportas, outubro de 2014)

COISAS DA VELHA DO ARCO – UMA LIVREIRA EXEMPLAR | Soledade Martinho Costa

Entrei na livraria com a intenção de comprar um livro para oferecer a uma muito jovem amiga. Passara já o tempo em que lhe fui oferecendo os meus próprios livros.
Levava escolhido o título da obra a adquirir. Tratava-se de «Os Contos Exemplares» de Sofia de Mello Breyner. A livraria, na Rua Marquês de Tomar, conheci-a eu muitíssimo bem. Dirigi-me ao local onde previa encontrar o livro e não me enganei. Lá estava ele entre os muitos livros infanto/juvenis. Uma solícita empregada, que me pareceu cara nova por ali, ao ver-me com o livro na mão perguntou, numa voz como se quisesse dizer-me um segredo:
– A senhora vai levar esse livrinho?
– Sim, vou levá-lo. – Respondi.
Aquilo que em seguida ouvi, deixou-me estupefacta. Sempre a meia-voz e sem que a pequena perdesse o ar simpático com que me abordou, deu-me este singular conselho:
– Não leve. Esse livro é já muito antigo. Foi escrito há muito tempo. Tem aqui outros mais modernos… Não quer ver?
A empregada de uma livraria catalogar assim um clássico da nossa literatura juvenil, só por ignorância, certamente! E pensei, nesta como noutras áreas profissionais, não há forma de dar a estes jovens, neste caso candidatos a livreiros, alguma formação, algumas noções básicas onde se agarrem, antes de começar a atender os clientes? Num país onde não se lê, onde as pessoas não têm o hábito de frequentar livrarias nem bibliotecas, onde não se conhecem as obras dos seus escritores, onde a Literatura teima em sobreviver sem apoios, sem estímulo, sem o respeito e a divulgação que merece, serão livreiros como esta jovem, provavelmente, os indigitados condignos para não destoar do contexto. Será?
Um pouco incomodada, confesso, com a falta de conhecimento demonstrado pela jovem, levei-a para um local mais discreto da livraria e perguntei-lhe:
– Sabe quem escreveu este livro?
– Não, não sei. Mas sei que é antigo. Conheço o título. – Acrescentou.
– Pois é, quem escreveu os «Contos Exemplares» foi um grande nome da nossa Literatura. Uma grande poetisa. Este livro, a que chama antigo, tem tido ao longo dos anos muitas e muitas reedições.
Aqui parei, acauteladamente, e perguntei:
– Sabe o que são reedições?
– Sim, é o livro ser feito várias vezes. – Respondeu.
«Vá lá, menos-mal», pensei. E prossegui:
– Um livro que se mantém nos escaparates com reedições consecutivas, quer dizer que agradou aos leitores. Por isso os editores investem nas reedições para atender ao interesse manifestado pelo público leitor. – Expliquei.
Seguiu-se uma espécie de palestra sobre livros «antigos», clássicos, contemporâneos, novíssimos. Que não havia livros modernos, mas livros actuais, publicados recentemente. Veio à baila Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco, Júlio Dinis, até chegar aos alfarrabistas.
Olhou-me calada e com semblante sério.
– Compreendo. – Foi a resposta.
Lembrei-me, então, de Sofia. Na altura, se lhe tivesse contado este episódio, sei que não teria estranhado. Estava habituada a situações semelhantes. Não foi por acaso que se recusou a ir receber o Grande Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças, pelo conjunto da sua obra, em 1994. A verdade – e ela sentiu-a –, é que Sofia de Mello Breyner só foi distinguida com este prémio quando muitos outros autores de menor gabarito o tinham recebido já em anos anteriores. Sofia sentiu-se magoada. E com razão.
Tempo antes tinha falado neste assunto a José Hermano Saraiva, à época um dos elementos do júri deste prémio. Lembro-me também que publiquei um artigo sobre este tema com o título «Sofia de Mello Breyner um Nome à Margem», num ano em que mais uma vez o seu nome foi esquecido. Disse-me José Hermano Saraiva: «Eu tenho insistido. O prémio já devia ter sido entregue à Sofia. Mas a resposta que ouvi foi a de que tinha poucos livros para crianças publicados, imagine!». Juntei a minha indignação à de José Hermano Saraiva. Quando se mede a quantidade pela qualidade, é normal que outros autores tenham arrecadado o prémio primeiramente.
Mas este facto nem sequer corresponde à verdade. Sofia de Mello Breyner conta na sua bibliografia com 13 títulos publicados na área da literatura infanto/juvenil: O Rapaz de Bronze; A Menina do Mar; A Fada Oriana; Noite de Natal; Contos Exemplares; O Cavaleiro da Dinamarca; Os Três Reis do Oriente; A Floresta; Tesouro; Contos; Histórias da Terra e do Mar; A Árvore e Era uma Vez uma Praia Lusitana.
Durante mais de uma década, a partir de 1976, Sofia esteve representada nas bibliotecas das escolas do Ensino Básico apenas com uma das suas obras, enquanto autores menores estavam representados com todos os seus livros, alguns somando mais de 30 títulos.
No caso do Prémio Gulbenkian, nem José Hermano Saraiva teria força, por muitos argumentos apontados, para que Sofia fosse galardoada entre os primeiros. Estava sozinho e o compadrio político possuía toda a força do mundo. Ainda hoje o possui. O nome de Sofia só foi indigitado quando o bodo já estava devidamente distribuído. Daí, a sua recusa em apresentar-se na Gulbenkian.
Mas não é só. Certo dia telefonou-me para me perguntar: «Soledade, você conhece jornais ou revistas que tenham publicado críticas ou recensões sobre alguns dos meus livros?». Respondi que não, que não conhecia. Sofia, então, esclareceu-me: «Sabe, há um editor japonês que quer editar um livro meu e pediu-me para lhe enviar algumas críticas. Mas só encontro as que a Soledade publicou, não encontro mais nada. E não me parece bem enviar-lhe só as suas, não acha?».
Ignoro como terá, Sofia, resolvido este assunto. Sei apenas que sempre fiz referência aos seus livros, quer tratando-se de um título novo ou de uma reedição, nos vários anos em que desempenhei essa função no Expresso e no extinto Diário Popular (neste, semanalmente, durante cinco anos).
Numa outra ocasião, em conversa, Sofia também me confessou a sua mágoa pelo facto do seu livro “A Menina do Mar” ter sido utilizado para um belíssimo espectáculo para crianças, que passou num dos canais televisivos de Itália. «Aqui em Portugal nunca fizeram nada e a comunicação social ignorou por completo este trabalho dos italianos. Nem sequer a Televisão Portuguesa se mostrou interessada em passá-lo no nosso país» – Desabafou.
Palavras sentidas de quem tem apenas a seu (des)favor a grande qualidade literária da sua obra destinada aos mais pequenos. A mediocridade não aceita comparações. Não gosta de perder. Só os medíocres rivalizam entre si. Dá menos nas vistas. A sua mediania torna-se menos evidente. A qualidade faz-lhes sombra e mostra, com mais evidência, as limitações dissimuladas de cada um.
Bom, saí da livraria com o livro de Sofia muito bem embrulhado e com um lacinho a enfeitar. Por pouco, pensei, Sofia sairia uma vez mais derrotada. Se a pessoa pretendente aos “Contos Exemplares” fosse menos conhecedora ou mais incauta poderia seguir o inconcebível conselho. Neste caso, foi o nome da autora que ganhou. Não direi de forma simples. Mas simplesmente pela falta de conhecimento da livreira. Aqui, ao contrário de outras situações, não havia capelinhas, comadres, compadres ou fadas madrinhas. Só havia desconhecimento. Facto que, por si só, já considero uma vitória. Sem dúvida alguma.

Soledade Martinho Costa

A SOPHIA DE MELLO BREYNER | Soledade Martinho Costa

 

Na voragem do tempo

Em ti resiste

O mar e a liberdade que cantaste.

 

Teu velo de oiro

Sem mácula

Sem sinal de abandono.

 

Mas não partiste

Numa praia só tua

Adormeceste

Vestida de conchas e de búzios

Enquanto as ondas velam pelo teu sono.

 

 

Soledade Martinho Costa

Do livro «O Nome dos Poemas»

 

 

FESTAS E ROMEIROS | Soledade Martinho Costa

Terminada a grande celebração litúrgica, o povo dá então largas ao seu contentamento, ao seu entusiasmo, à esperança de que as suas preces tenham sido ouvidas. Porque as consciências repousam agora na paz das penitências cumpridas.

Esquecem-se os joelhos sangrados e o peso dos círios. Os risos trepam aos olhos onde a comoção, pouco antes, tinha feito poiso. As almas soltam-se. As conversas são outras. Só é preciso ter fé, e essa tem-na o povo.

Por isso faz as suas procissões. Recama, por sua mão, com pétalas de flores, os caminhos que pisam os seus santos. Faz e cumpre promessas. Invoca Cristo.

Mas sem alegria a devoção não é perfeita. Daí, a necessidade do deslumbramento feérico das luzes a iluminar cansaços de imensa escuridão. Do aconchego das vozes nos ouvidos que poucas falas escutam. Da presença de quem não se conhece e se aceita por companhia e por amigo. Da blusa nova conquistada ao mealheiro. Dos aromas, peregrinos de paisagens, nomes e distâncias. Do pão, a lembrar das mãos os gestos que percorrem as searas. Dos foguetes, sem asas para tocar os céus. Dos abraços, da música, da magia, a envolverem o corpo e o espírito num tule de segredos que ninguém descobre.

No mar de gente, como se fora tão-só o mesmo corpo, um único desejo. Quase ingénuo, por tão simples. E tão pouco exigente por tão puro: ver, ouvir, participar – estar presente.

Faz-se a reconciliação com o dia-a-dia. Com as horas que o tempo esgota sem compromisso de regresso. Tréguas tão breves, essas. Contudo, as que são permitidas e possíveis. O mundo não é assim. Muito menos a vida.

Para esquecer rotinas que obrigam ao retorno, há que viver a festa. Respirá-la. Bebê-la. Como se fora um campo de lilases. Uma fonte que socorre a nossa sede. Ainda que a ilusão dure tão pouco. Que a evasão seja tão breve – irremediavelmente, por um ou poucos dias.

Soledade Martinho Costa

Impossível | Vladimir Maiakovski

Sozinho não posso carregar um piano

e menos ainda um cofre-forte.

Como poderia então retomar

de ti meu coração e carregá-lo de volta?

Os banqueiros dizem com razão:

“Quando nos faltam bolsos,

nós que somos muitíssimo ricos,

guardamos o dinheiro no banco”.

Em ti depositei meu amor,

tesouro encerrado em caixa de ferro,

e ando por aí como um Creso contente.

É natural, pois, quando me dá vontade,

que eu retire um sorriso,

a metade de um sorriso ou menos até

e indo com as donas

eu gaste depois da meia-noite

uns quantos rublos de lirismo à toa.

Hermann Hesse

É certo que aqui não é raro as pessoas matarem outras pessoas- explicou ele-, mas ainda assim encaramos esse como o mais grave de todos os crimes. Só na guerra é permitido matar, pois na guerra ninguém mata por ódio ou inveja em proveito próprio; ao invés, todos fazem apenas aquilo que a comunidade lhes exige. É, porém, um erro achares que têm uma morte fácil. Se olhares para os rostos dos nossos mortos, poderás vê-lo. Eles têm uma morte difícil; têm uma morte difícil e morrem contra a sua vontade.

O jovem ouviu tudo isto e ficou espantado com a tristeza e a dureza da vida que as pessoas pareciam levar naquela estrela.

Estas pessoas, que viviam dominadas por um negro receio da morte e que, ainda assim, se chacinavam em grande quantidade,…

Contos Maravilhosos, de Hermann Hesse, D. Quixote.

Ingeborg BACHMANN | Escritora austríaca

Le 17 octobre 1973 s’éteignait Ingeborg BACHMANN, poétesse et nouvelliste autrichienne, la plus importante auteure de langue allemande de l’après-guerre. Son « Journal de guerre » montre son obsession de la mémoire et sa volonté d’entrer dans un monde nouveau.
On peut trouver ses œuvres dans le « Thesaurus » d’Actes Sud.
Exceptionnellement nous laissons ces trois vers en langue originale. Ils sont intouchables. A nos lecteurs de les comprendre.

« Lang ist die Nacht
lang für den Mann,
der nicht sterben kann, lang »

Ingeborg Bachman in « Curriculum Vitae »

Prémio Leya | romance O Meu Irmão | Afonso Reis Cabral

Tem nome de conquistador e conquista mesmo. Com apenas 24 anos, Afonso Reis Cabral arrecadou o Prémio Leya, com o romance “O Meu Irmão”. É verdade que é trineto de Eça de Queiroz, mas a genética, por si só, não dita as regras do jogo. Será que o autor de “Os Maias” sabia traduzir grego antigo? É que o trineto sabe.

Ler mais: http://goo.gl/tk2JeF Jornal Expresso

Incontidos mares | Blog de Teresa Sande

Um blog a visitar… da Teresa Sande 🙂

“Há palavras que nascem assim. Com o infinito desejo de serem escritas. Como ínfimas gotas que, ainda nas nuvens, almejam ser já o mar. Inquieto. Incontido.”

http://incontidosmares.blogspot.pt

foi na penumbra das horas que partiste. as sombras acolheram-te,
perseguiste a quase noite, no encalço dos braços magnéticos da lua.
escolheste seguir os passos do mar, onde a lua se afoga, todas as noites,
desde a imemorabilidade do tempo.
falaste com as ondas, contaste-lhes da luz que te chamava.
e por um instante hesitaste, quando o mar murmurou o meu nome.

pressenti as palavras que já não podias, não querias dizer.
na crescente escuridão das horas tinham desmaiado os teus olhos,
girassóis ansiando pelo sol. e os meus, aflitos, devolviam a chama
com medo de que a morte os levasse.
mas a minha luz era já um ocaso. e eu não sabia.

queria ter-te falado do mar, ao ouvido, como se conta um segredo.
haveria um rasto de sal nas palavras que te diria e na tua pele
guardarias restos de espuma e das estrelas que só respiram no mar.
queria ter-te dito que o sol também se afoga , todos os dias,
desde a imemorabilidade do tempo,
nesse mar que te murmura o meu nome.
e que nas suas águas o fogo permanece aceso para sempre.
fosse eu agora o mar, só para incendiar o que ficou de nós.

Milan Kundera

E presta atenção ao sentido exato desta palavra: um Narciso não é um orgulhoso. O orgulhoso despreza os outros. Subestima-os. O Narciso sobrestima-os, porque observa nos olhos de cada um a sua própria imagem e quer embelezá-la. Por conseguinte, interessa-se gentilmente por todos os seus espelhos.
[A Festa da Insignificância, de Milan Kundera, D. Quixote]

Tábula Rasa |A negação contemporânea da natureza humana | Steven Pinker

O livro de Steven Pinker “A Tábula Rasa” argumenta que todos os humanos nascem com algumas características inatas. Aqui, Pinker fala sobre sua tese, e porque algumas pessoas a consideram incrivelmente irritante.

http://goo.gl/w1Dqpb

Do outro lado das coisas | João Rosa Lã

“Nos primeiros dias do ano de 1974, durante um fim de semana, Santos e Castro fora chamado a Lisboa, secretamente, pelo então Presidente do Conselho. Queria este ouvi-lo sobre algumas ideias que tinha com vista a tentar pôr fim a uma situação para a qual já não via qualquer saída airosa para o país. Porque a conversa era ultra-secreta, utilizou um carro privado, sem qualquer escolta ou segurança, onde só os dois seguiam.”

Lã

Lã 02

A Casa Azul, de Claudia Clemente | António Ganhão

Dentro dos muros da casa azul, os quatro elementos primordiais.

Acreditavam os antigos que o mundo era formado por quatro elementos primordiais. Neste romance é-nos dado a conhecer um quinto elemento que aglutina todos os outros: a vida. Mesmo quando entregue a diversas vozes que, correndo desencontradas, nos chegam na primeira pessoa, por carta, relatórios ou vindas do interior em forma de agressão. Num momento de fuga, as asas abrem-se de acordo com a natureza de cada um dos elementos: terra, fogo, ar e água.
Se a terra e o fogo apontam para um conflito permanente – a vida lança as suas raízes na primeira, sendo tudo consumido pela força da segunda-, já a água e o ar surgem como elementos gémeos. É sabido ser na água que o céu se reflete.
O que nos completa? Tudo aquilo de que temos de nos libertar. Visitamos em sonhos a casa azul, os seus salões, os quartos, a escadaria circular, abrindo as portas uma a uma. Ao contrário dos espíritos, os sonâmbulos não têm a capacidade de atravessar as paredes. Sou então sonâmbula dentro dos meus próprios sonhos, e não um fantasma. Pela sua estrutura, este é um romance onde as vozes se vão encaixando, capítulo a capítulo, elemento a elemento. Fazendo parte uma das outras, contra todas as distâncias, como se pertencessem a um corpo que só faz sentido se for único, mesmo que se transforme numa inverosímil e disforme criatura. …ficava coberta delas, linhas finíssimas e claras na minha pele morena, como cicatrizes, nos pulsos e nos braços.
O romance abre com uma visita à casa azul, ou ao local onde existiu a casa azul, agora transformada num condomínio fechado. É um regresso de quem vem de longe para visitar a casa da sua infância e a quem a separação uma da outra não serviu de muito. Se subtraíssemos essas distâncias encontraríamos todas as respostas? Somos o que resta do rosto de alguém que nunca chegámos a conhecer? … tentava subtrair, uma por uma, das minhas feições aquelas que pareciam provir da minha mãe. Restava pouco.

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