ANTÓNIO LOBO ANTUNES | Soledade Martinho Costa

 

 

A manter vivos
Os nomes
E a Casa
Ser o eco da infância.
À flor da pele
A ternura
Assumida e assinada.
Mas ser também
Vela de seda
Em mastro desfraldada
Num mar de rebeldia
E de coragem.
A inverter as regras
Ao recato
Imposto ao bom-nome
Da palavra.

Soledade Martinho Costa
Do livro «O Nome dos Poemas»

Gota de sangue | Vera de Vilhena

 

acontecem nascentes ao longe

E poentes incendeiam
A pálida safira dos meus olhos.

E eu neste começo sem fim.

Hábil sou agora
na análise
do meu sangue.

Colhendo amostras
Até desfalecer
Num leito de vidro invasor

na lamela uma gota de seiva

enquanto as horas do mundo
se consomem, sumindo,
subindo, fugindo de mim:

– Não, não mais o egoísmo da cegueira! –
– e vão-se as horas das minhas veias

E eu neste começo sem fim.

 

(Vera de Vilhena, inédito, Janeiro 2015)

Já não de rosas o tempo | Maria Isabel Fidalgo

 

 

morrer por dentro de ti lentamente é um gemido de sangue
não sei quantas vezes morri neste sufoco engelhado
mas a vida perde o fôlego sobre a franja da noite que se cola à janela
e a tua imagem gelou com flocos de neve triste
sobre um inverno que desce aos poucos sobre a idade.
se o tempo fosse de rosas havia de querer um jardim de novo
e um sol de abelhas havia de pedir-te
e um relâmpago de beijos e de oiro
sobre os meus lábios de cereja verde.
como um pão ceifado assim me estendo sobre o que sobra da vida
e aqueço as mãos por causa do frio
com um bafo de boca.

Maria Isabel Fidalgo

A LUA | Licínia Quitério

 

 

Nestes dias solares,
desassombrados,
em que um sopro nos toca,
dissimuladamente,
e se serve de nós
e nos penetra sem pedir licença
e nos põe a vibrar
como um velho instrumento
esquecido de soar,
queria ser um lagarto
imóvel, esverdeado,
determinado a enganar a vida,
filá-la, distraída,
escondida
em ternuras de pomba
e ganas de falcão,
saltar,
morder-lhe a mão,
nela deixar os dentes
como quem espeta no Sol
um ferro em brasa.
Poder, enfim, esperar solenemente
a Lua,
Senhora das Frescuras e
cavalgar ribeiros e remansos.

Licínia Quitério, em “Da Memória dos Sentidos”, 2005, edição de autor

Maria Isabel Fidalgo

E Deus criou o homem e inquietou-lhe os olhos. E Deus criou a mulher e deu-lhe a extensão da água e uma fiada de violetas na bainha do azul. E Deus criou o dia que fosse três vezes três. Depois Deus escondeu-se onde O procurasses. E foi maravilhoso!

(Maria Isabel Fidalgo, dando os parabéns a uma grande amiga), in Facebook

Não somos Charlie | Manuela Degerine

O jornal “Charlie Hebdo” foi fundado em 1970 e tem combatido – com humor – os tabus, a estupidez e a demagogia. Para os franceses o título evoca um grupo de criadores que vai de Cavanna, Reiser, Cabu (assassinado) a Charb, Honoré e Wolinski (igualmente assassinados), figuras lendárias pelo inconformismo, pela irreverência, pela intransigência. Pela coragem. Pelo civismo. Pelo humanismo. (Bernard Maris – também ele assassinado – representava a economia humanista.) Quando foram mortos estavam a preparar uma edição do jornal contra o racismo… Cabu e Wolinski – entre outros: os fundadores – faziam parte da geração que se celebrizou em maio de 1968 e protagonizaram a liberdade sexual, a ecologia, o pacifismo, a generosidade, a fraternidade: o sonho de um mundo melhor. Estes escritores, cronistas, caricaturistas têm-nos ajudado a pensar a vida, têm sido as nossas sirenes de alarme, têm encarnado a nossa rebeldia, têm alargado a minha e a vossa liberdade, também a vossa, sim, internautas portugueses: foram massacrados por representarem a nossa vontade de rir, de inventar, de questionar, de escrever e publicar. Por isso tantos franceses têm manifestado a sua dor e a sua indignação: “Somos Charlie”. O que é assim muito fácil…
Como o filósofo Michel Onfray lembrou ontem numa entrevista a “France Inter”, há decénios que a esquerda cedeu à extrema direita o privilégio de refletir sobre a imigração, o islamismo, a diferença; à sua maneira. São consequências desta miopia que agora nos surgem pela frente… Na sociedade dos anos 2000 predominam a autocensura e o politicamente correto; o que progressivamente isolou os resistentes de “Charlie Hebdo”. Toda a sociedade francesa se escondeu atrás da sua coragem e com ela se foi desculpando por não correr os mesmos riscos. Não somos honestamente hoje “Charlie” por não termos reagido quando uma bomba explodiu na sede do jornal e quando uma canção explicitamente os condenou à morte… Lembram-se do poema de Bertolt Brecht?

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei
Não era negro.

A seguir levaram operários
Não me importei
Também não era operário.

Depois levaram vagabundos
Mas não me importei
Porque não era vagabundo.

Posteriormente levaram desempregados
Como tinha emprego
Continuei a não me importar.

Agora levam-me a mim
Mas já é tarde.
Como não me importei com ninguém,
Ninguém se importa comigo.

Os alvos e bodes expiatórios mudaram entretanto, quem hoje nos quer aniquilar não é nazi – cessemos de chamar nazismo a tudo e mais alguma coisa – por isso substituamos “negros”, “operários”, “vagabundos”, “desempregados”, que deixaram há muito de ser vítimas do totalitarismo, por “feministas”, “desenhadores”, “jornalistas”, “filósofos”, “realizadores” (por exemplo): o poema diz toda a estupidez da nossa cobardia. (A maioria dos políticos e intelectuais quer reparar a máquina com ferramentas de há cinquenta anos.)
Pouco conhecemos da religião muçulmana por os efeitos que ela produz nos seus crentes não incitarem à descoberta. Já viram/ouviram alguém de cultura muçulmana declarar-se publicamente ateu? Mesmo a religião muçulmana que pretende ser moderada se impõe através do medo que os islamistas inspiram, por consequência os seus cânones são burcas e nicabes, os seus adjuvantes de culto são punhais, explosivos e metralhadoras…
Sabem como se diz em francês “auto da fé”? Pois… “Autodafé”. Em português. E não nos podemos orgulhar disto. Apenas um exemplo: o dramaturgo António José da Silva, que escreveu “Guerras de Alecrim e Mangerona”, foi queimado na cidade de Lisboa em 1739. A religião católica não era então mais libertária do que o islamismo hoje, porém a nossa sociedade – com coragem, obstinação, inteligência e muita luta – reduziu-lhe o poder. “Charlie Hebdo” foi atacado por associações de católicos integristas mas quando o combate se trava num tribunal não há perigo de vida.
A violência não nos forçará a trair três séculos de luta: de Voltaire a Onfray, dos direitos do homem ao controlo da natalidade, do respeito pela vida ao direito de usar minissaia… Deixei de vestir saias – mesmo compridas – nos dois últimos liceus por os alunos muçulmanos me escarrarem para cima das pernas; o obscurantismo vai progredindo com estas pequenas cobardias. Com estas desistências. Mais valem mil escarretas do que a submissão: também quero ser Charlie. Sabem qual é a prova de que somos fortes?… Não precisamos de metralhadoras.

SE EU MORRER HOJE | Rui Sobral

Se eu morrer hoje, por favor não fujas. Não deixes que me levem embora, que se esqueçam das minhas dores, dos meus monstros – aqueles gigantes “encardecidos”.
Eu peço-te que não permitas que a minha voz se cale e principalmente que as recordações acabem, que todo o sentido desvaneça….
Quero que saibas que não houve um dia que passa-se que não se passa-se amor – aquele fel, aquele amor servido num toque, servido num beijo, numa carícia. Mal servido em mim quente, em mim sôfrego, em mim irrespirável…porque tu sabes que não houve um dia sequer que o meu olhar não te cantasse o quanto te amo!
Se eu morrer hoje eu vou abraçar-te o coração, vou subir pétala a pétala os verdes tão sem cor. Vou subir pétala a pétala flores por desabrochar em ti, flores que te ofereci, flores em embrião, flores que não te dei, flores rasgadas, flores…
Não houve uma palavra por mim dita que soasse a verdade, porém todas foram autênticas, estupidamente honestas, estupidamente cruéis, emancipadas em corpo, cadentes… angústia…dói…eu adoro-te!
Eu prometo que nunca mais vais caminhar sozinha porque se eu morrer hoje a minha mão fica para que na tua viagem te sintas atada à vida, amarrada à sorte!!
Sabes? Eu aprendi tanto contigo que parece que antes de ti o nada era tudo o que tinha, tudo o que eu era, o meu registo, até a minha voz era tão muda, os meus passos tão descoordenados, o meu sentido tão sem-sentido…
Por isso se logo, mais tarde, me encontrares pálido, deitado, com as maõs como nozes, formalmente vestido, por favor – eu peço-te, não me acaricies o rosto, não lutes para entender, não te escondas atrás das lágrimas. Mostra-te!! … Chora tudo!! … Chora muito! … Cai no chão! … Vai ao fundo do poço em busca de nada porque daqui a dias tens uma vida pela frente, curta ou comprida – não importa! mas preenche-a, enche-a de tudo quanto te fizer bem porque eu, se morrer hoje, quero-te viva, quero-te inteira e todos os dias, no final dos dias, quando te fores deitar vais dormir descansada e saberás que estou orgulhoso de ti e que por te amar tanto vou estar tão feliz por te saber tão inteira.
E aí fará sentido a razão para nunca te ter dito “és o amor da minha vida”, sempre te disse ” amo-te para sempre”. É diferente.
Se eu morrer hoje eu sei que não me vou embora.

Rui Sobral

Batimentos‏ | Maria Isabel Fidalgo

 

 

se me deito do lado do coração
posso ouvi-lo a bater no travesseiro
e o seu batimento é o sinal exato da existência da minha vida
coisa estranha e curiosa
ser eu um batimento sobre um travesseiro
onde deito a cabeça agitada
como se tivesse acabado de fazer uma maratona
e só me faltasse subir ao pódio para agarrar a taça
mas o meu coração está tão cansado que não quer medalhas
mas apenas escutar o tique taque de qualquer coisa acelerada dentro de mim
um dentro de mim que não consigo ver mas que me é familiar
e que se deitou vezes infinitas comigo sobre um travesseiro
e que me ouviu rir como a uma menina a quem deram um baloiço sobre o mar
e que me ouviu chorar como a uma princesa a quem falhou o beijo e o trono
quando eu morrer sobre um travesseiro deixarei de ouvir a minha vida
e tudo em mim será nada. um nada prestes a deixar o travesseiro
e a ser eu eternamente surda e muda para a minha existência.

Maria Isabel Fidalgo

A ERECÇÃO INTELECTUAL DO DEFUNTO | Rui Sobral

 

Eu nunca nasci vivo
eu nunca amei tanto quanto a mim nunca me amei
e por isso vivo morto
cabisbaixo – aquele contente descontentamento
As vidas dos outros parecem-me flores na areia
no sangue e no frio que há em ti
e eu vivo sempre morto
com o olhar ao relento
coriscas no chão; saudades ao vento
com a vida no pulmão.
e o teu nome não é mulher
e o teu nome não é fêmea
e eu sou quente
e eu sou gelo
sou pestana inquieta; sou prostituta
despida de sorte, virgem de fortuna
Tenho em mim a dor da ansiedade
aceite? Aceito!, perto de mim
no meu leito
e se tu, doce caminho, me pregares partidas
eu deixo de ser carne, passo a ser angústia, a ser ferida, cicatriz, a ser nuvem, a ser sexo e passo a ser vida em ti…
porque hoje eu deixei de ser cavaleiro
porque hoje nasci vivo – e vivo, vivo morto em ti

 

Rui Sobral

 

FIANDEIRA | Soledade Martinho Costa

 

 

Na manhã
Galopam cascos
De cavalos mansos.

Nas tuas mãos
Sepulto
O fuso
Herança
Reflectida
No luto
Dos teus olhos.

Rés ao fio
Calosos
Os teus dedos
Ciciam
Antepassados
Jeitos.

Impune
Desço ao poço da memória.

Asas fechadas
De recurvos bicos
Há pássaros azuis
Pousados nos lambris.

Quem dera
A varinha de condão
O príncipe da história.

Consciente
Rejeito em mim
O peso das palavras.

Só os Invernos
Passaram por aqui.

 

Soledade Martinho Costa

Do livro “15 Poemas do Sol e da Cal”
(Editorial Presença)

Raimundo | Conto II | Colectivo Nau | Ana Saragoça

Dizem que Raimundo conhecia muito mundo. É uma afirmação que já se transformou em provérbio naquela aldeia da Beira Baixa, entalada entre serranias inóspitas e cada vez mais vazia. Raimundo homem é hoje uma imagem esmaecida na memória dos mais velhos, mas a sua presença imponente ainda habita os sonhos de quem cresceu na aldeia e hoje labuta pelos sítios mais díspares do planeta. Sim, estes homens e mulheres aprenderam a sonhar o mundo pela boca de Raimundo e por ele foram em sua busca.

Em Maio de 1968, quando de Paris irradiavam ondas de choque que agitavam o statu quo em toda a Europa, especialmente as juventudes do Sul, famintas de liberdade, aquela aldeia viveu também a sua revolução. Mas, como a sua juventude era faminta apenas, tolhida e atrofiada por gerações mal alimentadas e que da vida conheciam apenas o milenar imperativo ora et labora, a revolução foi a chegada de Raimundo. E lá por ser mais pequena não foi mais limitada do que a que abalou o vasto globo, desconhecido de todos porque ali não chegavam jornais, rádio e muito menos televisão. As notícias, escassas e atrasadas, chegavam por via do padre, que para bem do rebanho as limpava de espinhos e elementos perturbadores. A única verdade que não tinha conseguido maquilhar fora a da guerra, uma vez que quem regia os destinos da Nação, se sempre esquecera aquele recanto serrano, não o eximia do patriótico dever de mandar os filhos lutar por algo que eles nem tentavam entender. A população recorria aos únicos expedientes que conhecia em prol dos seus rapazes: as mulheres rezavam ardentemente para que os seus rebentos não fossem saudáveis a ponto de serem dignos de morrer, e os homens, ao contrário dos seus pais e avós, suspiravam de alívio quando lhes chegava a nova de terem gerado uma moça.

Raimundo chegou à boleia numa carroça de ciganada, e só mostrou não lhes pertencer quando, de saco da tropa ao ombro, resolveu apear-se ali enquanto os outros seguiam. Era homem dos seus cinquenta anos, de bigode farto e olhar penetrante, umas farripas de cabelo grisalho e rebelde a espreitar-lhe na nuca sob o boné. Atravessou a praça sob os olhares do mulherio escondidos pelas portadas das janelas, e a sua entrada na venda silenciou todas as conversas dominicais. Não se preocupou em conquistar a simpatia dos presentes com técnicas elaboradas. Tomou-a de assalto, desejando boas tardes em voz potente e confiante, e oferecendo uma rodada. Não havia memória de um forasteiro chegar tão depressa aos corações dos locais, de seu natural desconfiados. A falar verdade, não havia memória de um forasteiro desde que 20 anos antes o pároco ali arribara, e isso nem podia considerar-se um forasteiro, era só o novo funcionário do Altíssimo, desinteressado e distante como o patrão, maldizendo a atribuição de freguesia tão pouco prometedora.

Raimundo era alentejano, isso saltou logo aos ouvidos dos presentes, pois todos viviam anualmente a odisseia dos ratinhos, migrantes beirões que desciam à planície nas épocas da ceifa e da apanha da azeitona. Era sim senhores, confirmou, nado e criado na vila da Cuba, onde tinha nascido também o grande navegador Cristóvão Colombo – e aqui todos os copos se suspenderam a meio caminho das bocas abertas de pasmo. Homessa, não sabiam? Então porque pensavam que ele chamara Cuba à primeira terra a que aportou na América? E logo ali Raimundo os enredou numa narrativa fascinante de espionagem luso-castelhana. Quando foi chegada a hora do jantar, já Raimundo era indispensável à aldeia. O que convinha a ambas as partes, porque ele tinha exactamente precisão de ali assentar arraiais.
Depois de uns dias a trouxe-mouxe, pernoitando aqui e ali, Raimundo instalou-se na casa do falecido padeiro da aldeia. Ao que parece o homem tinha paulatinamente mantido duas famílias em vida, e pela sua morte a viúva não-oficial, vendo-se só, pobre, desvalida e desgraçada, tinha-se enforcado, não sem antes deixar os dois filhos entregues, por via do pároco, à legítima esposa enlutada. Esta, convencida pelo senhor prior que criar os mocinhos junto das filhas era a vontade divina, lá se sujeitara, contrariada. E assim tinha ficado a casa da rival ao abandono, apesar da excelente localização, em pleno largo da vila. Raimundo oferecia-se para pagar uma renda modesta e a entregar-lhe parte das nozes, laranjas, limões e do mais que crescesse no quintal.

Entretanto o Verão ia chegando, e com ele a vontade de seroar ao sereno, conversas a meia-voz, olhos atentos a quem passava. Como uma força desconhecida, o largo defronte da casa de Raimundo atraía todos depois do jantar, a começar pelas crianças, sentadas no chão, de pés descalços a fazer cócegas à terra. Sentado no degrau de pedra, aquele homem de voz hipnótica contava como era o cultivo de cacau no Brasil, como os masaï, altos e nobres, corriam pela planície africana, como na Noruega se secava o bacalhau que se comia no Natal casado com as couves da aldeia, como o canto das mulheres do Rif se ouvia das ruas, arrastado, dolente, infinito, encantatório, como os espanhóis tinham eliminado civilizações superiores à força de vírus e espadeirada, como no Japão se erguiam ondas altas como as serras que envolviam a aldeia e engoliam populações inteiras, populações essas que viviam em casas de bambu e papel. Papel? Sim, papel. E não havia móveis, e as camas eram enxergas que de manhã se enrolavam e guardavam, e as almofadas eram banquinhas de madeira, credo, coitadinhos, dizia uma mulher. Não, coitadinhos não, explicava Raimundo, era um povo superior, o mais delicado que se podia encontrar, de gestos minuciosos e vozes suaves, e sabem quem deste lado os encontrou primeiro? Os portugueses, sim. Que eram umas bestas barbudas sem limpeza nem educação, e que lhes levaram as primeiras armas de fogo.

Aquelas horas após a ceia tinham-se transformado no momento mais ansiado na aldeia. Faziam esquecer por momentos a ausência de moços novos, perdidos por matos de que Raimundo evitava cuidadosamente falar. As cabeças de todos começaram a encher-se de sonhos: as crianças nos bancos da escola olhavam para o quadro e viam a erupção do vulcão dos Capelinhos, que durara um ano e acrescentara quilómetros de terra negra à Ilha do Faial; os velhos atrás das ovelhas eram tuaregues no deserto; as mulheres espremendo e voltando a espremer a massa dos queijos na francela olhavam para a correnteza de soro a caminho do alguidar e viam o Danúbio atravessando a Europa e inspirando valsas pelo caminho. O taberneiro passava os copos de vidro grosso na água da tina de folha, mudada todas as semanas por questões de higiene, e via-se ao balcão de um saloon no Oeste americano, com pioneiros a passarem-lhe à porta e rechonchudas mulheres da vida a dar alento à cóboiada.

Aos Domingos, o padre erguia a cabeça desatenta e já não encontrava uma mole abúlica a papaguear as orações. Sim, papagueavam-nas, mas com um enfado de quem agora sabia mais, de quem ao cerrar os olhos exaustos entrava num mundo de cores que antes desconhecia. Um dia depois da missa encheu-se de brios, e de jovialidade postiça afivelada no rosto dirigiu-se à venda para conhecer o tal Raimundo que ousava ameaçar o seu ascendente sobre aquelas ovelhas. Entrou a matar com uma ou duas frases de Santo Agostinho que lhe tinham ficado do seminário, e foi triturado sem piedade por São Francisco de Assis, por Lutero, por Calvino, e por fim por Bertrand Russell, que nem ele sabia quem era, mas que a avaliar pelo que dizia tinha as chamas do inferno à espera, se é que não estava já lá a assar. E aquele demoníaco Raimundo sem perder o sorriso humilde, a falar como se lhe estivesse a prestar reverência, a salvar-lhe a face perante os paroquianos quando na verdade lhe deixava a alma inchada de hematomas! Dia negro para o padre, para a Igreja, para a Cristandade!
Apertava com as mulheres no escuro da confissão, cuidado, minha filha, o teu marido está longe, o teu pai perdeu os trambelhos e anda pela serra feito parvo, esse Raimundo disse-te, fez-te, aconteceu-te? Diz-me lá, meu anjinho, o Raimundo mexe-te debaixo da saia? Não te acanhes, moço, ele alguma vez te pediu que lhe fizesses isto ou aquilo? Rapariga, ele não tenta abrir-te os botões da blusa, não te leva a mão para ali? O teor das perguntas tornou-se de tal modo escabroso que o mundo que Raimundo narrava na sua voz cantada de alentejano passou a ter um contraponto horrendo nos sussurros e arquejos do padre. Quando aos homens chegaram os relatos daqueles interrogatórios cheirando a cera e a deboche, foram peremptórios: acabavam-se as confissões, ia-se à missa e estava a obrigação comprida, não admitiam que a pretexto de lhes salvar as almas o padre enchesse a cabeça de mulheres e crianças com coisas que ninguém naquela aldeia sabia sequer que existiam.

Ao ver a freguesia escassear e deixar de lhe mostrar boa cara, o prior encheu-se de coragem e recorreu aos superiores. Estes informaram-se junto do poder dos homens: Raimundo era desconhecido de todos, nada constava. Acaso falava de política ao povo simples, tentava afastá-lo do lugar que Deus e o Governo lhe tinham destinado nesta passagem pela Terra? De cabeça pendida, o pobre sacerdote teve de admitir que não, Raimundo falava apenas do mundo que percorrera, de montanhas altíssimas e planíces sem fim e aves coloridas e homens exóticos e bichos que pareciam flores e arvoredo tão espesso que a luz do sol não chegava ao chão e de dunas imensas onde de longe em longe havia um riacho cantante à sombra de tamareiras e onde as alfaces cresciam como se tivessem sido plantadas num quintal da aldeia. Da Rússia, falava da Rússia? Da Rússia assim propriamente Rússia não, falava das estepes brancas de encandear, onde o meio de transporte eram carroças sobre patins, por vezes puxadas por cães. Bom, por aí não iam lá, ao menos falava da China? Ah, sim, da China já o ouvira falar, parece que nos tempos antigos enfaixavam os pés às meninas para os impedirem de crescer, era uma mania lá deles, mulheres de pés pequenos, e os pides pensando ai a minha vida. De fato e chapéu e expressão façanhuda fizeram uma visita de cortesia a Raimundo e saíram como entraram, enfadados com o tempo perdido por causa da dor de cotovelo do padreca. Nunca imaginaram que, se tocassem num cabelo daquele homem mágico, todos os habitantes da aldeia, cães e gatos incluídos, lhes teriam saltado ao caminho.

Foi depois disso que a visita quinzenal da carrinha do peixe passou a incluir uma novidade. Enquanto na parte de trás a peixeira Júlia despachava a freguesia, que mesmo pobre sempre lhe levava alguma sardinha e carapau, o peixeiro Ramiro retirava do banco da frente volumosos caixotes que passavam de imediato para a casa de Raimundo, à qual a carrinha estacionava mesmo rentinho. Ninguém sabia o que os caixotes continham, e os inquéritos caíam em saco roto, Ó Júlia, mas o que é que vem ali? Não são contas do meu rosário, isto dá meio-quilo mais um niquinho, queres que tire ou vai assim? E dali não saía mais nada. A gente perguntava, mas não se inquietava. O mais certo era serem tarecos para ele se instalar. Coisa má não havia de ser, que do Raimundo só chegavam sorrisos e sonhos. No entanto, não fosse o diabo tecê-las, e sem ser preciso combinarem-se, dos caixotes nunca chegou notícia ao padre.

Uma noite, ao deitar-se no quarto por cima da venda, pareceu ao taberneiro ouvir um ruído furtivo de passos no largo. Ainda fez um esforço para se chegar à janela, mas o sono foi mais forte e acometeu-o de um ressonar agudo ainda antes de pousar a cabeça no travesseiro. Espreitando, teria visto de fugida um vulto a esgueirar-se cosido às paredes, de saco da tropa às costas.
A manhã surgiu a contragosto, cinzenta, como se adivinhasse a cratera que ia abrir no coração da aldeia. A porta da casa de Raimundo estava escancarada, e dele nem sinal. Foi com algum receio, algum pudor, que ao fim de algum tempo uma mulher se decidiu a entrar. Só agora se davam conta de que em todo aquele tempo ninguém passara daquela porta para dentro.

O recheio não podia ser mais pobre, nem mais rico. Uma mesa, um banco, uma bacia e um jarro, um colchão de barbas de milho no chão, junto ao lume apagado. Tudo objectos que eles reconheceram por já existirem antes de a casa mudar de mãos. A diferença estava nas paredes. A madeira dos caixotes fora transformada em prateleiras, que, de cima a baixo, forravam a casa com o calor de milhares de livros. Os rapazitos, ainda com as letras frescas na cabeça, silabavam a custo títulos e nomes: na patagónia, o egipto notas de viagem, t e lawrence, viagens na minha terra, as chuvas vieram, wenceslau de moraes, a estepe, jorge amado, luís de camões, pearl buck, peregrinação, a pousada da sexta felicidade, somerset maugham, erico veríssimo, debaixo do vulcão, mark twain, a volta ao mundo em oitenta dias, paul bowles, as verdes colinas de áfrica, ferreira de castro, muitos, muitos, sem respeito por renome ou nacionalidade, apenas pela lonjura.
À tristeza e confusão iniciais foi-se sobrepondo lentamente a compreensão do que havia a fazer com o que tinham diante dos olhos.

Raimundo partira, mas tinha-lhes deixado o mundo.

O QUENTE SABOR | Licínia Quitério

 

 

Sonhei com o quente sabor das tâmaras
a polpa cor de açúcar queimado
a trazer lembranças de leite-creme das avós
as fibras a prenderem-se nos dentes
a retardar prazeres a prolongar trabalhos

Acordei na areia da praia e
quando disse bom-dia saiu da minha boca
um fruto sem nome que tomou o caminho
dos navios ao longe.

Fechei os olhos mas não voltei a sonhar
com o sabor quente das tâmaras.

Abandonei a praia e passei a seguir a rota dos navios.

 

Licínia Quitério, em “DE PÉ SOBRE O SILÊNCIO”

UM ROSTO | Carlos Bondoso

 

 

não me deito nas madrugadas
nem nuns olhos que decantam
rios
secos de emoções

sou tão frágil que navego num deserto de silêncios
quando o Sol se esconde ou ouse

apenas partilho a transparência do momento
e a solidão de um navio partido
sem rumo
num cais que se afoga

é nesta linha que o meu silêncio
se cruza
e busca um rosto
num porto sem abrigo
onde o indefinível me liberte e me solte

POR CFBB

Motete sobre as nuvens negras | Domingos da Mota

 

 

O primeiro Natal sem nuvens negras,

apesar do negrume que se vê;

o primeiro Natal, esse que enxergas

não passa de ilusão, a mesma que

 

se estende na mensagem para o ano

que chegará depois de este partir,

sob o manto do logro, do engano,

de tudo o que se possa presumir

 

tendo em vista a defesa do poder,

para então prosseguir e aprofundar

as reformas e o mais que aprouver

aos reais interesses do larvar

 

e soberbo poder de quem comanda

os cordéis da cobiça mais nefanda.

 

Domingos da Mota

 

[inédito]

Desço pela margem da memória | Maria Isabel Fidalgo

 

Desço pela margem da memória

e entro pelo cais do rio

onde havia o ouro das manhãs

e o sorriso lavado do vento

lento na mansidão matinal.

Havia o dorso molhado da água apetecível

e um ensejo de lume

sem saber que ardia

Desço sem pressa por onde andei

na idade antes desta idade

como viajante clandestino

sem rumo

no ventre azul da mocidade.

Era tudo bom e grande na promessa

o sol despontava como um dardo perdurável

e sem pressa desço por mim mesma

como duna estendida num lençol do areal

ou uma serpente.

 

Maria Isabel Fidalgo

ABRAM ALAS AO NODDY!?! UPS… AO NATAL!! | Rui Sobral

O andar cabisbaixo identifica o monstro. O monstro nascido hoje. Morto em breve. A fome, nestes dias, é coisa zero, matéria nula. A noite será passada num inferno diferente. O frio, vestido de vermelho, está pronto para as facadas e os passos desamparados cantam silêncios. Os cartões – apaixonadamente encharcados. O monstro dele irá lembrar-lhe passados longínquos e aí, nessa tortura, tornar-se-à mais mártir que nunca. Ele, um comum sem-abrigo, sentirá que o natal não é para todos. Felizmente. O natal morreu. Uma morte nunca anunciada.

O natal é um país que cheira a podre. Um lugar onde os joelhos suportam feridas. Onde os corações são dentes separados. Nunca a celebração será honesta! Desde o motivo às constatações, aos costumes. O natal é uma merda espetacular.

Os lacinhos e os embrulhinhos e as luzinhas e os bonequinhos e as corzinhas e todas essas coisinhas próprias deste período são náuseas e emanam vómitos contentes, provenientes dos transeuntes que ostentam presentes à “última ceia” – nós. O natal é uma merda espetacular.

E os velhinhos, muitos sozinhos. Oh, coitadinhos! Anseiam fins nos princípios dos “ainda não” desacreditados. Coitadinhos. E os que morreram nestes dias? E os que, sufocados, estão lá no hospital? E os que, no leito da doença, nos assombram a memória? – lembramo-nos e esquecemo-nos ao primeiro desembrulho. O natal é uma merda espetacular.

Abram alas à mentira. Ao natal. À alegria. Deixem passar as batatas e o bacalhau. Que se ligue o aquecimento ou a lareira ou qualquer coisa porque “faz frio”. Ah!, mas que se coma rápido porque as crianças – famintas – estão impacientes. Pelos presentes. Agitados. Ansiedade. Rápido! Rápido! O mundo não interessa. Lá fora? “Faz frio” – sinto muito. É natal, é natal. Saudação e luz. O natal é mesmo uma merda espetacular.

Rui Sobral

A Viagem do Elefante – em BD

“Em meados do século XVI o rei D. João III oferece a seu primo, o arquiduque Maximiliano da Áustria, genro do imperador Carlos V, um elefante indiano que há dois anos se encontra em Belém, vindo da Índia.” Desta forma se resume o episódio histórico a partir do qual Saramago construiu o seu romance. Salomão, assim se chama o elefante, parte a caminho de Viena acompanhado do seu cornaca. Uma comitiva de apoio assegura a necessária logística e todos seguem protegidos por uma escolta militar. Homens e bestas caminhando segundo a sua condição.

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