Mario Vargas Llosa | A literatura na vida das nações

 

 

Outro motivo para se conferir à literatura um lugar de destaque na vida das nações é que, sem ela, a mente crítica – verdadeiro motor das mudanças históricas e melhor escudo da liberdade – sofreria uma perda irreparável. Porque toda boa literatura é um questionamento radical do mundo em que vivemos. Qualquer texto literário de valor transpira uma atitude rebelde, insubmissa, provocadora e inconformista.

Mario Vargas Llosa

paisagem | Lídia Borges

 

 

dizes saber de cor o rio que corre em frente da tua janela
dizes que as cantigas da água são sempre líquidas e insípidas
e que do canto das aves resta só o verde do musgo nas pedras.

esperas da noite a prata da lua que te cega as mãos
e escreves à toa poemas de vidro que se quebram
ao primeiro contacto com a dolência da tua voz.

mistura na paleta: o rio, o canto das aves
o feitiço da lua e todos os estilhaços do poema.
não esqueças os homens do barco, ao longe.

deixa repousar por algum tempo. não muito.
agora pinta uma paisagem nova para os teus olhos
na esquadria refeita de uma janela com vista para o sonho.

Lídia Borges

Ladainha do tempo | Maria Isabel Fidalgo

 

 

não me preveni contra o tempo
sempre achei que a vida era para lá dos dias
e que a ceifa do corpo era numa azenha muito ao longe.
na casa dos meus pais havia os passos deles na transpiração noturna
e essa música garantia a tranquilidade do travesseiro inocente
quando as portas rangiam nos dentes do vento
e a dança das folhas era um tapete fundido sobre os olhos.
não me preveni contra a ruína dos espelhos
de formas convexas ou côncavas
e o que vejo é já os estilhaços das formas
as pálpebras quebradas no chão do rosto
um barco privado de velas num desfiladeiro apertado.
não me preveni contra o tempo
e umas mãos de azul longínquo crescem na minha vida
numa asa faminta de mar.

Maria Isabel Fidalgo

Não | Domingos da Mota

 

 

Não é por trinta dinheiros
que me vendo, que me rendo,
me submeto ao tremendo
ónus dos flibusteiros,

ou que cedo à voz do dono,
ao coro de paus-mandados
que trazem velhos recados
com sinais de desabono.

Se trinta dinheiros são
o preço da traição,
não serei um novo Judas,
como pensas, como julgas

dos que ousam dizer não.

Domingos da Mota

[inédito]

UM NOVO OLHAR | Soledade Martinho Costa

 

 

Talvez
Eu seja agora
Outra mulher.

Talvez
Que sobre mim
Eu vista um novo olhar.

Talvez em cada madrugada
Eu diga
Estou aqui
Neste lugar
Que sempre foi o meu.

Aquilo que sonhar
Ou que fizer
Aquilo que pensar
Ou que disser
Será por obra e graça de ser eu.

Ser mulher
É repartir
É repetir
Em cada gesto
O mesmo amor.

É oferecer
Quer ao sorriso
Quer à dor
Cada segundo
Que temos para cumprir.

Talvez
Eu seja agora
Outra mulher
Na forma de sentir
E de me expor.

Tentei
Construí.

Fui laço
Aliança
Berço e trave
Alicerce
Chave
Tecto e abraço
Porta que se abre
Janela por onde a luz
Inunda o espaço.

Caminhei
Consegui.

Mas sei
Que apenas dei
Não recebi.

Soledade Martinho Costa

DETECTIVE ENEIAS TRINDADE | (trechos de uma ficção) | António Garcia Barreto

 

 

— Procurei-o em casa dos Cartago, mas não estava. Tenho um recado para si. Estou certo que vai ouvir e ponderar.
— Um recado? Você veio de Lisboa, de propósito, para me transmitir um recado? Sinto-me desvanecido. Mas sabendo que eu me hospedava em casa dos Cartago, podia ter poupado na despesa e nos esforços telefonando-me ou enviando um telegrama. A época não está para gastos supérfluos.
Indiferente às minhas palavras, “Sebastião, Sebastiana” transmitiu-me a mensagem que alguém o encarregara de me fazer chegar; alguém que só podia ter sido o coronel Pereira, esse outro polichinelo bem mais perigoso.
 — Afaste-se da família Cartago e esqueça essa estúpida investigação. O caso já foi resolvido pelas autoridades competentes, em devido tempo. Isto aqui não é a América dos crimes e dos detectives, que os filmes mostram no cinema. É um país pequeno, que respeita a ordem e a justiça. Deixe as famílias cristãs em paz e preocupe-se antes com caloteiros e adúlteros. Não ponha o seu futuro em causa. Podemos ser generosos se desistir do processo.
Senti um inesperado formigueiro no corpo e não era urticária, ou algo semelhante, mas o sangue a pedir-me que depenasse aquele pavão sem cauda. Dominei-me para não lhe atirar um soco directo aos queixos. Apeteceu-me desfazer-lhe aquele trejeito sinistro que o fino bigode sublinhava como se fosse um erro na espécie humana. Foi muito difícil conter-me.
 — Se já transmitiu o recado, saia da minha mesa para a qual não o convidei. Porte-se como um homem e não como um pombo-correio. 
Não replicou, mas deixou-me um aviso:
 — Não se esqueça que podem cassar-lhe a licença profissional. Seria lamentável.

< >

Caetano pediu desculpa e levantou-se, de novo, para ir atender um fornecedor. Na sua esteira seguiu o cão, balouçando o corpo pesado como uma traineira em mar agitado. Era velho e doente. Fiquei a pensar nas palavras de Caetano, que aprofundavam o que me contara o rendeiro Silvestre. Ao fundo da rua surgiu Caixinhas contornando o pelourinho, como se estivesse de volta desde o último dia, quando o vi afastar-se em sentido contrário. Caminhava pela sombra em passo miúdo, cumprimentando quem com ele se cruzava. Reparou em mim e logo se aproximou da esplanada. Pediu licença para se sentar.
— Uff! Está de assar perdizes na charneca — comentou, abanando-se com o chapéu. — O que nos vale é a sombra das árvores.
— A sombra das árvores e uma bebida fresca.
— Como vai a sua investigação? Tem novidades?

António Garcia Barreto

Homenagem a António Salvado | Gisela Ramos Rosa

 

 

Entrego-te o segredo:
Nunca o teu coração
trema perante a dor
António Salvado, in Outono p. 25

 

 

Sacro perfume de chuvas estendidas

em solo dourado ergues-te no vazio

do silêncio e da água nasces como

sombra transformada em segredo

 

persistes como um raio de sol ancorado

no poema e vais repondo a fenda das

estações até compores a paz de um rio.

 

Ó testemunha de pétalas e de reflexos

a flor que me olha é a breve memória de

uma paisagem maior enraizada

 

prece que flui na carta que chega e

na que parte, coração que amanhece

na montanha dos teus olhos

 

Gisela Ramos Rosa, in “um extenso Continente” Antologia de homenagem a António Salvado, p. 129 (2014)

A ficção da ficção de Eça em Campos Matos | Adelto Gonçalves

 

 

I

Depois de quase uma vida inteira dedicada ao estudo da obra eciana, com mais de trinta títulos publicados, o pesquisador A. Campos Matos (1928) decidiu se lançar àquele que considera o maior desafio de sua carreira literária, ao assumir-se também como ficcionista, mas sem deixar de lado o seu culto a Eça de Queiroz (1845-1900). E assim produziu este Diário íntimo de Carlos da Maia (1890-1930), que acaba de sair à luz pelas Edições Colibri, de Lisboa, em edição restrita de 450 exemplares, dos quais 200 foram numerados e rubricados pelo autor.
Quem conhece a obra de Eça de Queiroz bem sabe que Carlos da Maia é personagem do célebre romance Os Maias (1888), protagonista do drama de incesto involuntário com Maria Eduarda, sua irmã dois anos mais velha. Inspirado nessa vida tumultuada, Campos Matos escreveu o que seria não a continuação de Os Maias, mas o imaginário percurso de seu protagonista durante o período de 40 anos (1890-1930) registrado por ele mesmo, depois do insólito caso familiar.
Nascido em Lisboa em 1855, Carlos da Maia teria sido assassinado em 1930, aos 75 anos de idade, a tiro de zagalote (bala de espingarda) por um vizinho inconformado com a perda de um terreno baldio de 350 hectares que lhe dizia pertencer, mas que um juiz da Régua acabara de atribuir ao patrimônio da quinta de Santa Olávia, propriedade da família Maia à beira do rio Douro, em frente à estação de Aregos, local em que se passa boa parte do romance de Eça de Queiroz.
Estas informações constam de um intróito que o filho de Carlos da Maia, Carlos Afonso, teria escrito para um hipotético terceiro volume de Os Maias, empreitada da qual teria desistido ao descobrir a existência do diário deixado pelo pai e preservado por sua mãe, Rosália, a filha do caseiro de Santa Olávia com quem seu progenitor casaria depois do conturbado caso de incesto com Maria Eduarda.
Obviamente, trata-se de um exercício de ficção da ficção a que Campos Matos se devotou, seguindo as pegadas de outros autores que também se inspiraram em personagens alheias. Campos Matos no posfácio que escreveu para este livro cita, entre outros, os casos do filósofo espanhol Ortega y Gasset (1883-1955), que escreveu Meditações do Quixote (1914), uma das principais obras de filosofia do século XX, do poeta e ensaísta Vasco Graça Moura (1942-2014), autor de Os Lusíadas para gente nova (2012), um diálogo com o texto de Luís de Camões (1524-1580), e o próprio Eça de Queiroz que produziu Correspondência de Carlos Fradique Mendes (1900), com base no primeiro Fradique, que é uma criação coletiva.
Sem contar a ficção inspirada em Eça de Queiroz artisticamente mais bem sucedida até aqui que é A bela angevina (2005), de José-Augusto França (1922), que não se baseia em personagem eciana, mas em quatro fotografias de uma desconhecida de Angers que foram localizadas em 1989 no espólio do escritor pela professora Beatriz Berrini. Vista ao lado de Eça numa das fotos, a desconhecida possivelmente teria vivido um enlace amoroso com o escritor durante o período em que este morou na França.

II

É de se lembrar que a narrativa de Eça de Queiroz em Os Maias tem início com Pedro da Maia, filho de Afonso da Maia, personagem educado de acordo com padrões românticos, que se casa com Maria Monforte, filha de um traficante de escravos e, por isso, também conhecida como “a negreira”. Dessa união, nascem dois filhos: Maria Eduarda e Carlos. O casal se separa logo depois. A menina fica com a mãe e o menino com o pai, que se suicida, depois que a mulher foge com um napolitano.
Descendente de uma família nobre da Beira, educado pelo avô, segundo padrões britânicos, Carlos da Maia forma-se em Medicina, mas nunca exerceria a profissão a sério. É um desocupado que está sempre acompanhado de João da Ega, ex-estudante de Direito em Coimbra, um tipo espirituoso e adepto do Naturalismo em Literatura.
Após alguns encontros amorosos com a condessa Gouvarinho, Carlos conhece, por intermédio de Dâmaso Salcede, um tipo medíocre e balofo, a mulher de Castro Gomes, um brasileiro rico, e apaixona-se por ela. A amada rompe com Castro Gomes, com quem não era casada legalmente, e vai viver com Carlos da Maia, acompanhada de uma filha, criança ainda. É quando Joaquim Guimarães, um velho jornalista, entrega a João da Ega uma caixa de documentos a ele confiada por Maria Monforte em Paris, para que ele a encaminhasse a Carlos. Este julgava que a irmã, como a mãe, estivesse morta há muito tempo.
Ega lê os documentos e, aterrorizado, vai mostrá-los a Carlos: ele e sua amada, Maria Eduarda, a antiga madame Castro Gomes, eram irmãos. Desnorteado, Carlos volta a encontrar-se com a irmã, numa atitude de incesto consciente, de que, mais tarde, arrepende-se. Surpreendido com o reaparecimento da neta, que surgia como amante do irmão, o austero Afonso da Maia falece. A situação entre os irmãos só é solucionada após o funeral: Maria Eduarda, com a identidade esclarecida e seus direitos reconhecidos, volta para Paris, refaz sua vida e lá se casa. Já Carlos da Maia viaja para a América e o Japão, em companhia de Ega. Só dez anos mais tarde retornaria a Lisboa, fixando depois residência também em Paris, onde alia a falta do que fazer ao diletantismo.

III

Na ficção de Campos Matos, no começo de 1890, Carlos da Maia encontra-se a viver sozinho já havia dois anos num apartamento dos Champs Elysées, quando decide começar a registrar acontecimentos e reflexões que lhe “turbilhonam a mente”. É a época do ultimato inglês, uma advertência em forma de telegrama enviado ao governo português pelas autoridades inglesas, em que era exigida a retirada imediata das forças militares portuguesas dos territórios entre Angola e Moçambique, que correspondem aos atuais Zimbabwe e Malawi.
Caso a exigência não fosse aceita por Portugal, a Inglaterra avançaria com uma intervenção militar. Diante da humilhante capitulação, Carlos da Maia faz uma reflexão que espelha boa parte do pensamento da elite lusa ilustrada ainda hoje em relação aos seus antepassados: “(…) Tão miseráveis, sem recursos na metrópole, mas sonhamos ainda com um grande império, para nos estiolar e enfraquecer. Absurda coisa! Não temos capacidade para progredir e trabalhar nesta nesga de terra que definha a olhos vistos, mas pretendemos tomar conta de quase um continente!…”.
O desalento de Carlos da Maia com a própria elite portuguesa da qual descende é visível na anotação que faz em 1914, à época da deflagração da Primeira Guerra Mundial: “Os nossos soldados, analfabetos quase todos, e pessimamente preparados, vão ser trucidados por alemães bem armados e bem treinados”, prevê, citando em seguida palavras de Eça n´As Farpas: “(…) A Europa pensará que imensos territórios, pelo facto lamentável de pertencerem a Portugal, não devem ficar perpetuamente sequestrados do movimento da civilização”.
O diário registra acontecimentos de que Carlos da Maia participa como médico estagiário num hospital de Paris e, depois de uma viagem a Londres e uma passagem pelo Porto, o seu refúgio na quinta de Santa Olávia, onde continua o seu trabalho de espectador do mundo. Por todo o diário, não faltam reflexões sobre os acontecimentos que envolvem Portugal e o mundo nem alusões musicais ou referências à grande pintura e a religiões (em que ridiculariza o fenômeno do aparecimento de Nossa Senhora de Fátima a três pastorinhos analfabetos) e muito menos a autores franceses, como Honoré de Balzac (1799-1850), Guy de Maupassant (1850-1893), Marcel Proust (1871-1922) e Gustave Flaubert (1821-1880), e portugueses, como Antero de Quental (1842-1891), Camilo Castelo Branco (1825-1890), António Feliciano de Castilho (1800-1875), António Nobre (1867-1900), António Feijó (1859-1917), Pinheiro Chagas (1842-1895), Oliveira Martins (1845-1894), Raul Brandão (1867-1930), Aquilino Ribeiro (1885-1963), José Régio (1901-1969), Fernando Pessoa (1888-1935) e Mário de Sá-Carneiro (1890-1916), ou ainda a Machado de Assis (1839-1908) e, naturalmente, a Eça de Queiroz, seu criador. De fato, Carlos da Maia não só se refere várias vezes ao seu criador como conta sobre as ocasiões em que esteve bem próximo dele sem se atrever a lhe dirigir a palavra.
A tal ponto chega a recriação que Campos Matos faz de personagens e ambientes ecianos que, às vezes, tem-se a nítida impressão que se lê o próprio Eça de Queiroz. É como se Campos Matos quisesse escrever o livro (ou o terceiro volume de Os Maias) que Eça escreveria se a vida não lhe tivesse sido breve, ao lhe reproduzir com perfeição o sarcasmo e a ironia, como o faz neste trecho em que Carlos da Maia analisa a própria atividade de ficcionista: “(…) Devo dizer a este propósito que é necessário ter cuidado com a veracidade do que escrevem os escritores, sobretudo os ficcionistas. Estão sempre prontos a sacrificar a verdade dos factos se entenderem que esse sacrifício lhes traz vantagens de forma e efeitos de estilo, ou satisfações à sua vaidade”.
É claro que isso só foi possível porque Campos Matos, à força do seu ofício de investigador, criou tamanha intimidade com Eça de Queiroz e sua obra que só mesmo de sua pena poder-se-ia esperar tal resultado. Um excepcional e feliz resultado.

IV

O arquiteto e historiador da literatura portuguesa Alfredo Campos Matos, nascido na Povoa do Varzim, como Eça de Queiroz, tem vasto currículo queiroziano, que começou com Imagens do Portugal Queirosiano (1976). É autor em grande parte do Dicionário de Eça de Queiroz, publicado em 1988, que deu lugar a uma edição aumentada em 1993 e, em 2000, ao Suplemento ao Dicionário de Eça de Queiroz. Aliás, do Dicionário de Eça de Queiroz está para sair uma terceira edição pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda, de Lisboa, que conta com numerosos colaboradores portugueses e estrangeiros.
Em 2014, Campos Matos publicou pela Editora Unicamp e Ateliê Editorial a edição brasileira (revista e aumentada) de Eça de Queiroz. Uma biografia, considerada desde que lançada em 2009 por Edições Afrontamento, do Porto, como a mais completa e mais rica biografia do romancista português. Ao final de 2014, publicou Eça de Queiroz – Correspondência (Adenda II), do qual é responsável pela introdução, organização e anotações. Publicado por Colares Editora, de Lisboa, o livro reúne duas cartas inéditas de Eça de Queiroz a Guerra Junqueiro (1850-1923), datada de 1878, e ao seu amigo Eduardo Prado (1860-1901), milionário brasileiro de quem se tornou amigo em Paris e um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras.
Publicou ainda Eça de Queiroz-Emília de Castro, Correspondência Epistolar (1995) e, posteriormente, Cartas de Amor de Anna Conover e Mollie Bidwell para José Maria Eça de Queiroz, cônsul de Portugal em Havana: 1873-1874 (1999).
É também autor de Diálogo com Eça de Queiroz (1999), A Casa de Tormes, Inventário de um Patrimônio (2000), Viagem no Portugal de Eça de Queiroz (2000), A Igreja Românica de S. Pedro de Rates: Guia para Visitantes (2000), Eça de Queiroz, Marcos Bibliográficos e Literários (1845-1900), catálogo da exposição do Instituto Camões (2000), Ilustrações e Ilustradores na Obra de Eça de Queiroz (2001), O Mistério da Estrada de Ponte de Lima: António Feijó, Eça de Queiroz (2001), Sobre Eça de Queiroz (2002), Sete Biografias de Eça de Queiroz (2004), Dicionário de Citações de Eça de Queiroz (2005), Eça de Queirós, Postais Ilustrados (2006), A Guerrilha Literária Eça de Queiroz-Camilo Castelo Branco (2008), Eça de Queiroz. Correspondência (2008), Eça de Queiroz-Ramalho Ortigão, Retrato da “Ramalhal Figura” (2009), Silêncios, Sombra e Ocultações em Eça de Queiroz (2011) e Sexo e Sensualidade em Eça de Queiroz (2012), entre outros. No total, já publicou 36 livros, incluindo obras sobre arquitetura.

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Diário íntimo de Carlos da Maia (1890-1930), de A. Campos Matos. Lisboa: Edições Colibri, 421 págs., 20 euros, 2014. Site: www.edi-colibri.pt E-mail: colibri@edi-colibri.pt
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981), Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003) e Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

Língua | Vera de Vilhena

 

 

«Se eu disser “chocolate”, “avelãs”,
Laranja, morangos silvestres…
A minha boca é naufrágio de sabores;
Aguada, de apetite aberto,
Pedindo açúcar,
Essências de frutos,
Densidades suaves.
O veludo na língua,
Estar vivo, morder o cio,
Devorando as minhas agonias,
Despertando as minhas vontades.
Se eu disser canela, tomilho, açafrão,
Aos meus olhos chegam cores,
Texturas, odores,
Gritando “terra”, “imensidão”.
Aromas sedutores como laços magenta…
Café, hortelã, mel, framboesa:
Os dentes húmidos, a língua sedenta
E o meu corpo dócil, junto à mesa.
Cereja, jasmim, violeta ou amora…
Alagam-se nos olhos os perfumes da terra.
Rugosas, duras, ásperas ou macias,
A pele no barro, na lenha, na folha, na pedra,
Na polpa mais tenra dos meus melhores dias.
Se é o sol que dá as cores ao mundo,
Se é a água que lhe concede nascimento,
Quero ser luz ou gota de chuva!
Semente ou não mais que rebento!
Será que faço parte do mundo?
Só na consciência de um momento perfeito,
Da minha agonia me torno viúva.»

(in “Fora do Mundo, pág.17, Poética Edições, 2014)

O Último Teorema de Fermat | Simon Singh

 

 

Simon Lehna Singh (Wellington, condado de Somerset, Inglaterra, 1964) é um autor britânico.
Singh é o autor do livro O Último Teorema de Fermat, que narra a história do enigma mais longo da Matemática, o Último Teorema de Fermat.
Lançado no Brasil pela Editora Record em 1998, o livro O Último Teorema de Fermat teve versão para a televisão na série de documentários científicos da BBC “Horizon”.
É autor também dos livros Big Bang e O Livro dos Códigos.

O QUINTO RAIMUNDO | CONTO V | COLECTIVO NAU | Pedro Almeida Maia

 

 

Dizem que Raimundo conheceu muito mundo. Aliás, muito mais do que meio mundo, embora ninguém soubesse como nem quando, já que sair da Cuba alentejana era um feito que só podia suceder no anonimato. O bigode delgado dava-lhe um ar latino, os olhos rasgados instigavam frieza e via-se o rir da pele, mas ele era um miserabilista obstinado. Vivia em função da probabilidade da próxima desgraça.
Naquela tarde chuvosa, decidiu entrar na biblioteca da freguesia que o viu nascer e crescer. O sítio fedorento nunca viu mais do que três visitantes juntos, a não ser no feriado municipal, quando uma dúzia de fregueses, sempre os mesmos, os Oliveiras, traziam os lanches da festa e enfardavam ali, longe dos olhares famintos do resto da vizinhança. Costumava ser uma festa de galinhas.
A paz reinava nas prateleiras poeirentas dos escaparates. A empregada de limpeza mascava pastilha elástica e usava perfume de água de esgoto. O bibliotecário era um homem na casa dos cinquenta, com aspeto de quem só lavava o cabelo quando a viscosidade ganhava cheiro. Só tinha olhos para um jogo de cartas solitário. Raimundo interrompeu a cartada e desejou boa tarde. O rececionista retorquiu com um suspiro e um olhar por cima dos óculos baratos.
— Procuro um livro — Raimundo puxou de um papel e desdobrou-o. — Este, se faz favor. É de uma edição limitada.
Os óculos do bibliotecário posicionaram-se a meio caminho do papel e depois voltaram ao encontro do visitante. Ele fitou Raimundo com uma expressão de quem está a decidir se devia torturá-lo naquele momento ou de madrugada.
— Deve estar por ali — e apontou duas vezes. — Por ali.
— Não pode verificar aí no computador? É porque preciso de….
— Estou sem sistema — o cinquentão impaciente fez um estalido com a bochecha e levantou as sobrancelhas. — Lamento!
Raimundo pensou em retaliar. Quis sorrir, mas ficou-se por um esgar. Tinha a habilidade de andar descalço sobre brasas de chantagem, mas era tão otimista que a sua maior expetativa para o futuro era que não chovesse no dia seguinte. Rodou nos calcanhares, contrariado, e seguiu para um dos corredores mais compridos.
Quando o cheiro a água de esgoto ficou mais forte, sentiu um puxão na camisa de flanela. Era a empregada de limpeza, abraçada à esfregona, pedindo com os olhos para ver o papel. Raimundo acedeu, mas as palavras gatafunhadas no pedaço rabiscado deviam estar enfeitiçadas, porque a mulher arregalou os olhos de tal maneira que pareciam estar prestes a saltar-lhe. A princípio, a cara dela mostrava mais espanto do que uma máscara de comédia. Até tinha parado de mascar a pastilha. Depois, quando levou a mão a coçar o cabelo basto, viu-se que aquilo era só dúvida, mais nada. Até que soltou-se-lhe a língua.
— Não sei porque há de querer este livro. A minha irmã, uma vez, leu uma história desse escritor e passou um mês a chorar. Não consegui animá-la, nem com panquecas! Coitada. Ela perdeu o marido dois anos depois de casar e não chegou a engravidar. Ela queria um filho e uma filha. Um casalinho, que é o que a maioria quer. Coisa simples, parece, mas não é! Além de ser difícil arranjar um marido como deve de ser, decente, com dois dedos de testa, ainda é preciso fazê-lo trabalhar na cama. — A mulher fungou e preparou-se para retomar a dança com a esfregona. — Nem sempre aconselho as pessoas, mas, como é para si, não me deixa outra hipótese. Escolha outro. — E calou-se.
Raimundo não queria acreditar em nenhuma mosca que saísse pela boca da empregada, mas acabou por insistir na localização do livro. Só recebeu dela um levantar do queixo em direção ao corredor seguinte. Percorreu o labirinto da galeria, tão linearmente como quem atravessa uma rotunda. Avizinhou-se de uma estante, baixou o olhar e meteu-se de cócoras. O sítio tinha de tudo um pouco, como uma farmácia do século passado. E o que ele procurava estava ali.
A lombada era de um verde-escuro, grossa, cartonada, arredondada e gasta, de acabamento pouco moderno e com letras vermelhas em relevo. Era um daqueles livros que profetizam o romance maléfico, que cheiram a couro podre e têm os cantos das folhas amarelecidos. Pesava pouco mais do que um dicionário breve e a história acabava na página trezentos e tal. A contracapa tinha um parágrafo acerca de uma viagem e a capa não parecia diferente das novelas inglesas de há quatro décadas.
Raimundo sentou-se em frente à mesa de leitura mais distante da receção. Viu as teias de aranha nos cantos da abóbada central, cheirou o mofo que o cercava e ouviu o ranger das madeiras antigas. Depois, apreciou o olhar feroz do bibliotecário e o desprezo com que a empregada de limpeza o fitou. Voltou ao livro e abriu-o. Para Raimundo, o tempo tinha parado. Estava entre o tique e o taque. Pronto para viajar outra vez. Ia conhecer mais mundo. Dizem que ele conheceu muito mundo.

Texto por: Pedro Almeida Maia

dia de S. Valentim | Maria Isabel Fidalgo

 

 

nem era preciso o dia para ser amor
nem era preciso amor para ser paixão
nem era preciso falar para ser olhos
era sempre fogo em combustão
não era preciso roupa para ser sede
nem era preciso sede para ser fome
não era preciso mão para ser dedos
era sempre o apetite do teu nome
nem era preciso árvore para ser ninho
nem era preciso ramo para ser ave
nem era preciso trave para ser porta
era sempre só a pressa de ser chave

maria isabel fidalgo

Desencontro​ | Vera de Vilhena

 

 

​«Po​​r que razão só despertamos quando o Destino nos põe de castigo? Nem sequer se trata da contrição de pecados, mas da gravidade de termos cometido pecados que não eram os nossos. Gastamos tempo da nossa vida em horas e lugares que não nos pertencem; entregando-nos a causas que não nos estavam destinadas – com sorte, desembocamos na nossa própria vida; experimentando a vergonha de termos andado a usar a de outro. Só nos resta afastá-la com estranheza e embaraço, pedindo desculpas desajeitadas, por uso indevido, e perdão aos que deixámos para trás. É aí que procuramos pelo chão, pelo pó da estrada, a evidência, o lugar que nos mostrará o engano no caminho, a fim de podermos oferecer de novo o braço à nossa realidade legítima. A prova viva de que Deus, a existir, terá que ser um incorrigível brincalhão, é a sua maior ironia: quando somámos a sabedoria bastante para apreciar o Sol com certa dignidade, o nosso dia já anoiteceu.»

 

(in “O PISA-PAPÉIS”, novela, DG Edições, 2006)

Nuno Júdice premiado em Marrocos

O escritor, poeta e ensaísta Nuno Júdice, cuja obra é publicada pela Dom Quixote, acaba de ser distinguido com o Prémio Argana de Poesia da Masion de La Poésie de Marrocos, que lhe será entregue no sábado, dia 14, em Marrocos, no decorrer de mais uma edição do Salão do Livro de Casablanca.

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