Volfrâmio, de Aquilino Ribeiro

Romance de 1943, Volfrâmio é a imagem do Portugal rural profundo que de um momento para o outro, com a Segunda Guerra Mundial, vê o volfrâmio das terras de paupérrimos recursos valorizado, permitindo que o dinheiro comece a jorrar a ritmos nunca previstos nas aldeias do interior do território.

Continue reading

Os Filhos de K., de Julieta Monginho

Este romance abre com Carminho a ler O Processo de Franz Kafka, tendo como pano de fundo a queda de uma avioneta em Camarate, onde faleceram, entre outros, o primeiro-ministro e o ministro da defesa. Estamos nos anos 80. Anos de penúria, onde os estudantes universitários à espera de uma insípida refeição na cantina, sonhavam com um emprego estável e, medianamente, remunerado. Partilhava-se em grupo um maço de cigarros SG Ventil, a partilha era a resposta à economia do estudante. Estruturava-se o sentimento de pertença a um grupo. Não é possível olhar para o passado sem recordar os encantos de uma vida simples.

Continue reading

Bocage – por Cristina Carvalho

Celebra-se hoje, 15 de Setembro a data de nascimento do maior poeta português do século XVIII, MANUEL M. B. du BOCAGE tão mal e pouco conhecido nos nossos dias.
Quer dizer, o menos instruído conhece, perfeitamente, o nome de BOCAGE a partir da sua poesia erótica, que condenava a moral sexual da época. Mas não conhece mais nada. Desde pequena que me lembro das gargalhadas sopeirais (era assim que se dizia) e dos versos lúbricos que se sabia de cor e salteado, ditos entre dentes e não sem um certo rubor nas bochechas.

Continue reading

Aylan Kurdi | Domingos da Mota

 

 

Arrastado na fuga para a vala
comum que aprofunda a crueldade,
foragido da guerra ou duma bala
perdida nos confins da iniquidade,
ao dar à costa, depois do naufrágio,
o corpo exangue do menino morto
agravou a ferida do presságio
de que a esperança pode ser um porto
de desabrigo, de terror, de medo,
de quem sendo novíssimo tem cedo
o caminho das pedras tão hostil
ou das águas sem pé dum mar revolto,
mar encrespado convertido em esgoto
de perdição e de cinismo vil.

Domingos da Mota

[inédito]

A uma musa qualquer | Lídia Borges

 

 

preciso de ti

agora que as palavras me afloram

com o sabor ocre da terra

rugosas como fragas

com cheiro a resina e a musgo.

deixam nos ombros a friagem húmida

do nevoeiro, devorador de barcos

 

preciso que venhas

trazer às palavras o sabor do pão

o rumor antigo das searas e do vento

a lisura branca dos seixos

entre os dedos das crianças.

 

traz-me palavras com cheiro a maçã

redondas e doces como beijos de mãe

traz-me a alegria do sol presa num sorriso franco

falta-me

para adubar nos vasos os versos

que nada sabem das estações do ano

nem desta paixão tornada melancolia

 

vem musa, preciso de ti agora

não te esqueça a alegria.

 

Lídia Borges

CHORAR NÃO CHEGA | Soledade Martinho Costa

 

 

Em fuga

Não são apenas corpos o que vejo.

 

Vejo as almas dos anjos sepultados

Naquele azul de pranto

Onde a ânsia e o medo se confundem

Com a esperança de alcançar

Uma nesga de Sol sobre a terra.

 

De todas as palavras que o coração conhece

Nenhuma poderá expressar com sílabas exactas

A visão da morte de um anjo à flor do mar.

 

Chorar não chega.

 

É preciso abrir os braços e gritar:

Quem foi que enlouqueceu?

Quem detem um tal poder nas mãos?

Quem são os homens que matam os irmãos?

Quem manda mais no Mundo do que Deus?

 

 

Soledade Martinho Costa

O Homem que Engoliu a Lua, de Mário de Carvalho

No Beco das Sardinheiras tudo pode acontecer. O que está em cima é igual ao que está em baixo, o que é estreito pode ser largo, o que é pequeno é grande também. É uma alegria permanente – olhem os desenhos de Pierre Pratt – de uma rua em festa que entende que nunca, mas nunca, se deve confundir género humano com Manuel Germano.

Continue reading

BertrandCírculo novidades editoriais até ao final de 2015.

José Luís Peixoto, Howard Jacobson, Jodi Picoult, Conchita Wurst, Charb, Diogo Freitas do Amaral, Francisco Bethencourt, Niall Ferguson. E ainda Uma História Concisa de Portugal e uma dos Racismos, Amores e Desamores entre Portugal e Espanha e os animais de companhia ao longo dos tempos. Em ano de anúncio do vencedor do Prémio José Saramago.

Continue reading

Encostados à Parede, de Eduardo Paz Ferreira

Encostados à Parede – Crónicas de novos anos de chumbo
Eduardo Paz Ferreira

Depois de Da Europa de Schuman à Não Europa de Merkel, Eduardo Paz Ferreira regressa com um conjunto de crónicas fundamentais para percebermos as transformações de Portugal durante os «anos de chumbo» da crise e da austeridade.

Continue reading

As novidades da rentrée da Porto Editora

Isabel Allende, João Pedro Marques e Valter Hugo Mãe entre os destaques de ficção

Esta manhã, no Museu Bordalo Pinheiro, em Lisboa, a Porto Editora apresentou à comunicação social as novidades editoriais para a rentrée de 2015 e são várias as obras que chegarão às livrarias entre setembro e novembro.

Continue reading

Las Cosas de la vida, de António Lobo Antunes

A editora da Universidade de Talca, no Chile, tem vindo a publicar uma colecção que reúne os autores que foram distinguidos com o Prémio Iberoamericano de Letras “José Donoso”.
O prémio tem o nome do que foi talvez o romancista chileno mais importante do século XX e um dos expoentes do chamado «boom» das letras latino-americanas.

Continue reading

Livros do Brasil – Faulkner e Kafka

Livros do Brasil publica pela primeira vez A Aldeia, de William Faulkner, e lança uma nova edição de
O Processo, de Franz Kafka.
No dia 3 de setembro, a Livros do Brasil publica A Aldeia, de William Faulkner, o primeiro romance da trilogia sobre a ardilosa família Snopes, que até hoje nunca foi publicada na sua totalidade em Portugal.

Continue reading

Mulheres que Correm, de Cristina Mitre

O que aconteceria se um dia uma mulher convidasse todas as mulheres da sua cidade a correrem com ela?
Foi isso que perguntou a si própria a jornalista espanhola Cristina Mitre, antes de acabar por liderar o movimento solidário Mulheres que Correm, do qual fazem parte hoje mais de dez mil pessoas.

Continue reading

‘Os Vira-Latas da Madrugada’, romance caiçara | Silas Corrêa Leite

Recolhes de excluídos sociais de uma ribeirinha sociedade anônima

Silas Corrêa Leite (*)

“O livro é uma máquina de nos fazer levantar a cabeça”. Gonçalo M. Tavares

I

O literato Adelto Gonçalves tem um currículo espetacular, em breves palavras para tanto, assim se resumindo: jornalista, trabalhou no Estadão, Folha de S. Paulo, Editora Abril e A Tribuna, de Santos. Professor universitário, doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), autor dos livros Os Vira-latas da Madrugada, Prêmio José Lins do Rego, da José Olympio Editora; Gonzaga, um Poeta do Iluminismo, Barcelona Brasileira, Bocage – o Perfil Perdido e Tomás Antônio Gonzaga. Ganhou em 1986 o Prêmio Fernando Pessoa, da Fundação Cultural Brasil-Portugal. Foi professor universitário em Santos, na Universidade Paulista (Unip) e na Universidade Santa Cecília (Unisanta).

Por essas e outras, reler um romance dele escrito entre os seus 18 e 19 anos de idade, já o sabendo um brilhante artista vencedor, a própria primorosa reedição da obra Os Vira-Latas Madrugada pela editora LetraSelvagem, de Taubaté-SP, credencia e sela, por assim dizer, a sua consagração em alto estilo e ainda reverbera toda a sua vida brilhante.

Pois o romance, por assim dizer social, Os Vira-Latas da Madrugada é um despojo observativo e narrativo de sua primeira fase de juventude junto a um berço litorâneo do Porto de Santos, feito o livraço ser assim uma bela espécie de cargueiro de letras, de palavras, de orações, de parágrafos rasgados com sentenças de vida e de morte, e ele, no embarcadouro do olhar já primoroso, tecendo velas ao verbo, às aventuras narrativas com o vento todo (da imaginação e criatividade) em popa.. O próprio autor, aliás, e a bem dizer, se sente evocado e retratado, no belo poema de Ribeiro Couto (“A Infância em um Poema”), que quase também o retrata fielmente e saudosista, e diz de seu espaço laborial com sustância:

“Nasci junto do porto, ouvindo o barulho dos embarques//Os pesados carretões de café//Sacudiam as ruas, faziam tremer o meu berço//Cresci junto do porto, vendo a azáfama dos embarques//O apito triste dos cargueiros que partiam//Deixava longas ressonâncias na minha rua//Brinquei de pegador entre vagões das docas,//Os grãos de café, perdidos no lajedo//Eram pedrinhas que eu atirava noutros meninos//As grades de ferro dos armazéns, fechados à noite//Faziam sonhar (tantas mercadorias!)//E me ensinavam a poesia do comércio//Sou bem teu filho, ó, cidade marítima//Tenho no sangue o instinto da partida//O amor dos estrangeiros e das nações//Ó, não me esqueças nunca, ó, cidade marítima//Que eu te trago comigo por todos os climas//E o cheiro do café me dá tua presença.(…)// Ó minha infância, adeus, morreu toda a inocência!//Entre imagens fiéis que habitam comigo//Caminho devagar para a serenidade//Sede os meus anjos, imagens fiéis!//Vinde voar assim, com cantigas de roda//Vinde bater as asas, anjos do meu tempo,//Vinde cantar em voz velada ao meu ouvido//Para que com doçura eu recebe a morte (…)//”

II

Tal poema é quase uma primeira vertente introdutória do que é o norteamento do romance Os Vira-Latas da Madrugada, em rápidas pinceladas poéticas. E no livro estão registrados ex-sindicalistas, punguistas, sonhadores, noiteadeiros, perdidos, notívagos sem eira nem beira, jornaleiros, bicheiros, pés-rapados, mendigos, cafetinas, negros, pardos, mulatos, caiçaras; vísceras expostas de meio e chão. A tal marginália sociedade anônima aflorando no seu romance de excluídos sociais, despossuídos. Os manés, os párias e mesmo as sequelas sociais de seu recanto beira-mar.

Na verdade, alguns zés sem um porto de chegada ou de partida, mas lugar fincado de tantos pobres atracados no destino-azar, no desperdício de vida-escória, mais sequelas e arroubos, má sorte lançando-os aos mares de sargaços… Sobreviver é impreciso? Nos retalhos do pano de fundo da história toda, as manifestações de borra-botas, de vira-latas e suas oportunidades perdidas, de direitos vilipendiados, de violências de todos os naipes, mais o golpe ditatorial se aflorando e rugindo naquele eito. A ditadura, o horror que os desclassificaram como nódulos de veios da história desmistificada, porque o que era para ser revolução (pátria, família, igreja) de araque foi o que se viu depois, rotulada por Millôr Fernandes de “A Canalha de 64”.

E Adelto Gonçalves pontua isso, pari-passu, leva e traz, e narra. Dando voz a quase seres, subseres, rebotalhos de um tempo, de um canto, um lugar… Um belo livro do ciclo da chamada “identidade portuária”, entre outros da mesma lavra e safra, como Primórdios, de Vicente de Carvalho, o Poeta do Mar, Navios Iluminados (romance, 1937), de Ranulpho Prata, Cais de Santos (romance, 1939), de Alberto Leal, Agonia na Noite (romance, 1956), de Jorge Amado, Cais (poesia, 2002), de Alberto Martins, A História dos Ossos (novela, 2005), de Alberto Martins, Santos – Natureza e Arquitetura em Fotopoemas (haikais, 2011), de Regina Alonso, Costa a Costa (poesia, 2012), de Ademir Demarchi, entre outros.

III

Desgraças, lamúrias em doses etílicas, deserdados da má sorte e perseguidos de becos, antros e guetos, mais cenários pobres de biroscas, biscates, inocentes úteis, batucadas, e a sobrevivência calça curta dentro do banzo e do curtume do possível… Adelto Gonçalves escreve sobre ruínas humanas…

“Tomei coragem e desci à rua e vi quando alguns daqueles homens que estavam acuados na parte de cima do sindicato desceram as escadarias, sob a mira de metralhadoras, e entraram numa espécie de ‘corredor polonês’ aos tapas e pescoções em direção a um caminhão coberto” – “Essa é uma história de muitas histórias e algumas confissões” – “… signo do Novo Estado é esse navio-calabouço e limite, cheirando a mijo e merda” – “Tristes são também os vagabundos e os trabalhadores do cais (…) como tristes são os tempos que as tornaram (as histórias) reais” – “E com o tempo, a gente também fica assim, quase um morto” – “Desse Paquetá quero escrever, sem restrição, o que sei” – “Assim contam os velhos manguaceiros do beira-cais que tudo sabem e vêem” – “Eu me lembro, eu era menino, mas me lembro muito bem” – “As vozes que me trouxeram até aqui já não ouço mais (…). Este irregular relato é só uma homenagem a essas vozes que se calaram cansadas de testemunhar tanta ignorância e violência”(…) – (Fragmentos sequenciais do romance)

Um arguto olhar crítico e sensível (e privilegiado?) sobre as cinzas das horas, dos burburinhos decorrentes no derredor alvoroçado, e os revoltos calados em terra de órfãos… os ninguéns… O pré-golpe, o levante-golpe, e o pós-golpe, cenários vistos pelos olhos de um jovem quase menino, mas ainda assim precoce, de atiçado prisma, pronto para o embate do que seria o futural se desanuviando, se deslanchando, nos finca-pés dessa canoa rodada que é a vida, às vezes sem carta náutica (mas pirateando incompletudes)… às vezes sem mastro, sem âncora, sem sextante ou bússola, mais dos sentidores, pensadores… criadores…

E assim despontando o que é ficção, invenção e mentira, diferenças e disparates. O próprio uso da literatura e da ficção como fonte de conhecimento histórico, e da própria literatura como forma de conhecimento sobre a vida e suas erranças e errações, a alma humana, o mundo particularizado no microespaço (a urbanidade vira-latas), mas entrelaçado com o macroespaço que retrata e beira o humano dessa “humana” civilização. Civilização?

IV

Em Adelto Gonçalves, como muito bem disse Antonio Cândido, “a literatura pode contribuir para o processo de humanização ou de confirmação da humanidade dos indivíduos, dá voz aos excluídos que personifica na obra, retrata-os com fidelidade e características”. Revela-os com magnitude na precariedade desses tipos com seus achismos e sentimentalismos de momentos e ações, dentro da música de suas exclusões, preservando o espetáculo de cada ser, cada personagem, a descida ao inferno da mesmice, mais sexo, droga, boemia, malquerenças, e a bizarra e ordinária sobrevivência sem eira nem beira, que não seja aquele pedaço de zona litorânea em que, mesmo assim, os pobretões literalmente ficam a ver navios…

Tudo isso com requinte ora de realismo, ora de piedade, mais a solidão-cadáver de cada personagem tirado a golpe de olhar da perdição do anonimato absoluto. E nessas conotações, embarcam fantasmas, atracam aproveitadores, mais tarefeiros de achaques, furtos, perdições, ilusões perdidas (são tantas as ilusões perdidas), a quem belamente e com vigor e densidade narrativa o autor denomina, esplende do nada, dá nome, configura, enreda ramalhete de palavras, e cada um tem seu desdizer, sua sentição, feito um estado de lástima e lamúria posto em primeiro plano no emergente da escrita.

Sim, escrever é tocar as cascas da vida de alto a baixo, das crostas urbanas às placas de contemplação, das cargas de profundidade às profundezas de lamas e de vazios existenciais, do baixio chão ao alto escalão de patentes, poses, golpes e insurreições suspeitas. Porque se um dia tudo será memória, o livro registra os pedregulhos sujos de algum cais como extrato da vida perpassada a limpo do limbo, e insurgida em prosa rica de verdade real. A carne mais barata do mercado das pulgas ainda é a dos pobres, a ralé. A grossa massa de manobra (peixes pequenos entre tubarões) à maré de seus ensimesmamentos, porque nossa sociedade está imersa num magnetismo que transborda alucinação, às vezes caçando os vampiros que não necessitam de sangue, até porque somos feitos de horas impróprias, de horas vagas, de filosofias sobrevivenciais, cada um com seu casulo, sua chiqueza, sua escureza, sua rebeldia sem casca… Ou nos livramos de nós, ou nos enlivramos de nós por nós mesmos?

V

Adelto Gonçalves, logo nessa sua já passada e brilhante estreia, hoje revisitada com consagração literária, com talento logo se encara de dar nome aos excluídos na crueldade da história; logo se atiça de dar formato, composição personalística e ramificações que tendem a aludir a ciscos e sítios literais contundentes de Plinio Marcos ou até a alguns nuances severos de Jean Genet, tristices, horrores, finitudes, afinidades, ambições, mortes, assassinatos, desmoralizações, cerrações. Desesperos encruados e parcas esperanças saindo pelo ladrão, nesse romance que é, sim, um romance de caiçaras da periferia da sociedade anônima tendo voz, tendo dor, tendo foco, sujeitos de si mesmos. Somos todos cheios de pose e com pinta de pedigree, mas, afinal, curto e grosso, somos mesmo todos (os maiores e melhores criadores também e por isso mesmo) pescadores de sargaços?

Adelto Gonçalves escreveu um clássico com a cara e a coragem de captar arestas e essências de desgarramentos humanos, dentro do ciclo atribulado do humanus e do núcleo de abandono do humano lambendo feridas nas paredes das memórias…

Talvez, quem sabe, sejamos todos sargaços também, varando madrugadas de nós mesmos, retratados no pacote incompleto de outrem, quaisquer alguns; nas perdições arrependidas, na cópia assentada, no espelho da interatividade existencial.

O romance Os Vira-Latas da Madrugada é o tenebroso sal da terra que iça velas e a tromba do motor de um braço de mar revolto que ruge.

______________________________

Os Vira-Latas da Madrugada, de Adelto Gonçalves, com prefácio de Marcos Faerman e posfácio de Maria Angélica Guimarães Lopes, ilustrações e capa de Enio Squeff.. Taubaté-SP: Associação Cultural LetraSelvagem, 216 págs., 2015, R$  35,00. E-mail: letraselvagem@letraselvagem.com.br   Site: www.letraselvagem.com.br

______________________________

(*) Silas Corrêa Leite é poeta e autor de Goto, a Lenda do Barqueiro Noturno do Rio Itararé (São Paulo, Editora Clube de Autores).  E-mail: poesilas@terra.com.br

Blog: www.portas-lapsos.zip.net

À roda do vento‏ | Maria Isabel Fidalgo

 

 

Como um fio de água que escorre pela nascente da luz
assim te construí.
És um lume da minha imaginação.
Acendes de beleza
a beleza que falta à roda do vestido
que arejo em dias de festa.
Eu gosto que sejas belo na roda do meu vestido
quando o vento o desarruma.
Quando o vento sopra alto
as rendas são a roda do meu vestido a cantar à beira da fonte
e eu uma catraia a saltar à corda nas pedras de um riacho.
Não digas a ninguém que és lume
que eu quero que o segredo seja nosso
e que o meu vestido traga o vento de todos os universos para o desarrumar.

maria isabel fidalgo

Adelto Gonçalves – uma carreira dedicada às palavras | Raphael Matos

Com um novo romance a caminho, o jornalista e escritor Adelto Gonçalves encerra a carreira como professor

Raphael Matos

 

O jornalista e escritor Adelto Gonçalves traçou uma carreira exemplar. Atuou no campo acadêmico como professor universitário nos cursos de Jornalismo, Publicidade e Propaganda e Direito e, como jornalista, teve passagens pelos jornais Cidade Santos e A Tribuna, na editoria de esportes de ambos e no Estado de S. Paulo, onde foi subeditor de política.

Por meio do jornalismo, conheceu mais de 30 países e foi correspondente internacional da revista Época em Lisboa, onde escreveu uma série de reportagens sobre as comemorações dos 500 anos do descobrimento do Brasil. Como escritor, recebeu menção honrosa com o livro Os vira-latas da madrugada, em 1980. No ano seguinte, a editora José Olympio publicou o livro, que teve bastante repercussão na imprensa.

Na época, a Folha de S.Paulo publicou resenha do professor Cláudio  Lembo, que viria a ser governador do Estado anos mais tarde. A obra se destaca, pois é uma das poucas que, dentro do gênero de ficção, têm o golpe militar de 1964 como pano de fundo.

Após 34 anos, o livro ganhou uma segunda edição pela Associação Cultural Letra Selvagem, de Taubaté-SP, com capa e ilustrações do artista plástico Ênio Squeff. O livro traz um acréscimo, o prefácio escrito pelo jornalista Marcos Faerman, que chegou a ser impresso na primeira edição, mas que foi arrancado página a página por pressões de “forças ocultas”, já que, à época, a editora estava sob intervenção, conta o jornalista. Abaixo, a íntegra da entrevista.

 

Primeira Impressão – Como o jornalismo influenciou na preparação dos seus livros?

Adelto Gonçalves – O jornalismo me ajudou a depurar o texto. Quando fiz mestrado em Letras na USP em 1988, já era jornalista bastante experiente, com livros publicados. À época, procurei o professor Mario Miguel González, da USP, e deixei com ele um portfólio de resenhas de livros de autores hispanoamericanos que já havia publicado. E ele me disse que não precisava de mais nada para começar o curso de mestrado.

 

PI – Você recebeu diversos prêmios por seu trabalho como escritor. Existe algum que deixou uma recordação especial?

AG – A menção honrosa que ganhei do Prêmio de Romance José Lins do Rego, da Livraria José Olympio Editora, do Rio de Janeiro, em 1980, com o livro Os vira-latas da madrugada. Eu nunca mais havia relido o livro, o que fiz só agora para acompanhar a revisão para a segunda edição. Fui tentado a reescrever algumas passagens, corrigir alguns pequenos erros de gramática ou mesmo retirar algumas expressões em nome do ideal do politicamente correto de hoje, mas, por fim, optei por deixá-lo praticamente como apareceu em 1981, mantendo o tom coloquial e “espontâneo” da narrativa, que mais se aproxima da naturalidade das personagens do beira-cais.

 

PI – Qual sua inspiração para escrever?

AG – Como intelectual, tenho duas facetas: como ficcionista, estreei com o livro de contos Mariela Morta, em 1977, em edição de autor. Além de Os vira-latas da madrugada, publiquei o romance Barcelona Brasileira, que saiu primeiro em Portugal pela editora Nova Arrancada, em 1999, e depois, em 2002, pela Publisher Brasil, de São Paulo. O livro saiu primeiro em Portugal porque, em 1997, quando publiquei Fernando Pessoa: a voz de Deus, livro de artigos e ensaios, pela Editora da Unisanta, o ex-embaixador do Brasil em Portugal, José Aparecido de Oliveira, enviou um exemplar para Dário Moreira de Castro Alves, outro ex-embaixador brasileiro em Lisboa, que, à época, estava escrevendo um prefácio para um livro sobre Fernando Pessoa para a editora Nova Arrancada e citou o meu livro nesse texto. Então, a Nova Arrancada se interessou pelo meu trabalho sobre Pessoa, mas acabou optando por publicar o romance Barcelona brasileira, depois que informei que era um trabalho inédito. Como pesquisador, tenho ainda um trabalho inédito, O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo (1788-1797), que desenvolvi em 2013-2014 com bolsa de pesquisa da Universidade Paulista (Unip).

 

PI – Como foi sua primeira experiência no jornalismo?

AG – Comecei como repórter de esportes do jornal Cidade de Santos, à época em que estava no segundo ano da Faculdade de Comunicação da atual Unisantos. Fiquei três meses e passei para a seção de esportes de A Tribuna, de Santos, onde permaneci até me formar em Jornalismo em 1974. Em 1975, fui para o Estado de S.Paulo e lá cheguei a subeditor de Política.

 

PI – Você já foi correspondente da revista Época em Lisboa. Teve alguma dificuldade em se adaptar ao outro país? Sofreu algum preconceito por ser brasileiro? O que isso trouxe de experiência?

AG – Nunca sofri nenhum preconceito por ser brasileiro. Pelo contrário. Fui correspondente da revista Época em Lisboa ao tempo em que estava lá para pesquisar a vida e a obra de Bocage. Fiz várias reportagens interessantes para a revista sobre as comemorações dos 500 anos do descobrimento do Brasil, inclusive uma sobre a casa onde morou e morreu Pedro Álvares Cabral em Santarém.

 

PI – Em sua opinião, quais as características de um bom jornalista?

AG – Em primeiro lugar, um bom jornalista brasileiro deve dominar a Língua Portuguesa, seu instrumento de trabalho. Com o tempo, vai aprender a investigar e a produzir boas reportagens. Infelizmente, o que se vê hoje imprensa brasileira são matérias mal escritas. Além de acabar com a seção de revisão, os jornais, para cortar despesas, dispensaram os redatores mais experientes. O ideal é manter uma redação mesclada de jovens e jornalistas mais experientes.

 

PI – O que mais lhe satisfez na carreira de jornalista?

AG – Foi a oportunidade de conhecer mais de 30 países. Hoje, sou assessor cultural e de imprensa do Centro Lusófono Camões da Universidade Estatal Pedagógica Hertzen, de São Petersburgo, depois de visita que fiz àquela instituição em 2011. Por indicação do ex-embaixador Dário Moreira de Castro Alves, escrevi os prefácios de dois livros de contos de Machado de Assis que foram publicados pelo Centro em edição russo-portuguesa em 2006 e 2007. Os estudantes russos de Português do Centro gostaram tanto de minha visita que eu e minha esposa fomos recepcionados com bandeirinhas brasileiras na estação ferroviária de São Petersburgo, um momento inesquecível. Participei também do livro Studi su Fernando Pessoa, publicado em 2010 na Itália. O livro reúne os maiores especialistas do mundo em Fernando Pessoa (1888-1935) na visão de seu editor, o professor Brunello De Cusatis, da Universidade de Perugia. Continuo a escrever resenhas de livros. Sou colaborador desde 1994 da Revista Vértice, de Lisboa, e escrevo com frequência para o quinzenário As Artes Entre as Letras, do Porto, e para o Jornal Opção, de Goiânia. Escrevo ainda para sites do Brasil e de Portugal e para uma revista digital de Moçambique, a Literatas. Já escrevi prefácios para livros de três autores moçambicanos.

 

PI – Dentre os livros que você escreveu, qual é o seu favorito?

AG – Penso que o romance Barcelona Brasileira foi o livro que me deixou mais satisfeito. É um romance que trata do anarquismo no porto de Santos na década de1910-1920. E vai até a fundação do Partido Comunista do Brasil em 1922.

 

PI – Quais são seus próximos projetos?

AG – Em 2014, encerrei minha carreira como professor universitário. Agora, moro numa pequena cidade do interior de São Paulo, mas continuo a atuar como assessor de imprensa na área empresarial. Com a tranquilidade da vida numa cidade do interior, penso em aproveitar o tempo para concluir um romance que já tem título: Memorial Republicano. Aborda um caso de corrupção nos primeiros tempos da República no Rio de Janeiro. O romance já anda por volta de 60 páginas, mas ficou parado por falta de tempo.

_________________________

* Publicado no Primeira Impressão, jornal-laboratório da Faculdade de Artes e Comunicação da Universidade Santa Cecília (Unisanta), de Santos-SP, nº154,  maio/junho 2015, pág.39.

_________________________

Os Vira-Latas da Madrugada, de Adelto Gonçalves, com prefácio de Marcos Faerman e posfácio de Maria Angélica Guimarães Lopes, ilustrações e capa de Enio Squeff.. Taubaté-SP: Associação Cultural LetraSelvagem, 216 págs., 2015, R$  35,00. E-mail: letraselvagem@letraselvagem.com.br   Site: www.letraselvagem.com.br

Ontem e hoje, o mesmo Brasil | Adelto Gonçalves

Pesquisador Adelto Gonçalves desvenda a estrutura judiciária na capitania de São Paulo (1709-1822) em livro que ajuda a entender o momento que o País vive

SÃO PAULO – Para entender o Brasil de hoje, é preciso conhecer o de ontem. Essa é a oportunidade que oferece o livro Direito e Justiça em Terras d´El Rei na São Paulo Colonial (1709-1822), publicado em julho de 2015 pela  Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. Resultado de bolsa de pesquisa concedida pela Universidade Paulista (Unip), o livro é um trabalho de investigação sobre a atuação de ouvidores, juízes de fora, corregedores, provedores, juízes ordinários e vereadores à época da capitania de São Paulo (1709-1822), por meio da descrição dos casos mais significativos, constituindo um diagnóstico da estrutura judiciária. Por seu caráter inédito e recorte específico, é uma contribuição aos estudos da aplicação do Direito e da Justiça na São Paulo colonial e deverá se tornar referência nos planos de ensino da cadeira de História do Direito.

Para o pesquisador, o patrimonialismo, que ainda sobrevive não só nas regiões mais arcaicas do Brasil, é apenas uma continuação de um sistema social que veio de Portugal à época da colônia e que define a organização do Estado como se fosse propriedade familiar, de uma casta ou de uma oligarquia. “Desde aqueles tempos, o Estado é usado para proteger e favorecer grupos ou empresas que fazem negócios lucrativos sob a sua sombra”, diz Gonçalves.

O pesquisador lembra ainda que, a partir da presença dos ouvidores e juízes de fora, a partir da segunda metade do século XVII, as câmaras municipais começaram a perder poderes e atribuições judiciárias e administrativas, mas continuaram a acumular funções que atraíam uma elite formada quase exclusivamente por comerciantes, como a de arrematação de contratos, como os da carne, aferição e estanques. “As câmaras serviriam como instrumento político para a viabilização de negócios tutelados pelo governo, que eram assumidos por clãs locais. Foram o embrião que daria origem aos chamados coronéis”, explica.

Para o estudioso, a corrupção é prática tão antiga quanto o Brasil. “Não raro, a corrupção partia daqueles que estavam encarregados de fiscalizar os descaminhos ou contrabandos, que aceitavam suborno para deixar passar irregularidades”, diz. Segundo ele, o mau exemplo vinha de cima. “Foram raros os capitães-generais e governadores que voltaram para Portugal com as mãos limpas e vazias. Embora fossem proibidos por lei régia de 1755, faziam negócios por interpostas pessoas. Como entendiam que ganhavam mal, sempre concluíram que deveriam aproveitar o período em que ficavam longe do Reino para amealhar recursos, ainda que de maneira ilícita, para compensar o sacrifício que faziam em nome do rei”, observa. E acrescenta: “Deixar de recolher tributos seria permitido se a pessoa envolvida tivesse certo status, ou seja, uma folha de serviços prestados à Coroa ou ascendentes de prestígio”.

Por isso, diz, os magistrados não tinham uma bússola para seguir: o que seria ilícito para uns seria permitido para outros. “As penas variavam de acordo com a qualidade das vítimas e dos réus. Até porque não havia o pressuposto de que todos os homens seriam iguais. Nobres, clérigos, grandes comerciantes e governantes, senão estavam explicitamente acima das leis, dificilmente, seriam passíveis de punição”, explica.

Ele lembra ainda que d. Rodrigo de Sousa Coutinho, ministro do príncipe regente d. João, ao final do século XVIII, reconheceu que a magistratura na América portuguesa seria, além de numerosa, extremamente venal e dependente não só dos governadores como de comerciantes e arrematantes de contratos.

 

Currículo do autor

 

Doutor em Literatura Portuguesa e mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-Americana pela Universidade de São Paulo (USP), Adelto Gonçalves, 63 anos, é jornalista desde 1972, com passagens pelos jornais Cidade de Santos, A Tribuna, de Santos, O Estado de S. Paulo e Folha da Tarde e pela Editora Abril.

É também autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), sua tese de doutoramento, biografia do poeta árcade Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), que obteve em 2000 o Prêmio Ivan Lins de Ensaios da União Brasileira dos Escritores e da Academia Carioca de Letras.

Com bolsa de estudos da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp), Gonçalves desenvolveu investigações em 1999-2000 em arquivos e bibliotecas de Portugal para escrever uma biografia do poeta Manuel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805), seu primeiro trabalho de pós-doutorado. O livro Bocage: o perfil perdido foi publicado em 2003 pela Editorial Caminho, de Lisboa, seguindo o mesmo destino do romance Barcelona brasileira, que foi lançado primeiro em Portugal, em 1999, pela editora Nova Arrancada, de Lisboa, e, em 2003, pela Publisher Brasil, de São Paulo.

Colaborador do quinzenário As Artes Entre as Letras, do Porto, e Jornal Opção, de Goiânia, Gonçalves publicou ainda o livro de contos Mariela Morta (Ourinhos Complemento Editorial, 1977), o romance Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio, 1981; Taubaté: Editora Letra Selvagem, 2015), o livro de ensaios e artigos Fernando Pessoa: a voz de Deus (Santos, Editora da Unisanta, 1997) e Tomás Antônio Gonzaga, antologia e estudo crítico-biográfico (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012).

O escritor conquistou os prêmios José Lins do Rego (1980), da Livraria José Olympio Editora, Fernando Pessoa (1986), da Fundação Cultural Brasil-Portugal, e Assis Chateaubriand (1987) e Aníbal Freire (1994), ambos da Academia Brasileira de Letras. É sócio-correspondente da Academia Brasileira de Filologia (Abrafil) e assessor cultural do Centro Lusófono Camões da Universidade Estatal Pedagógica Hertzen, de São Petersburgo, na Rússia.

_________________________

Direito e Justiça em Terras d´El Rei na São Paulo Colonial, de Adelto Gonçalves. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 364 págs., R$ 55,00, 2015. Site: www.imprensaoficial.com.br

_____________________________________

Microficção: salada de gêneros literários | Adelto Gonçalves

I

Para quem reluta em aceitar a microficção como gênero literário, o último número da revista Forma Breve, nº 11, da Universidade de Aveiro, de dezembro de 2014, oferece cinco ensaios que ajudam a jorrar luz sobre o assunto, até porque esse é um tema ainda recente na literatura portuguesa. É de se lembrar que a Primeira Antologia de Micro-Ficção Portuguesa, de Rui Costa e André Sebastião, organizadores (Vila Nova de Gaia, Editora Exodus), e única até agora, foi editada em 2008. Seja como for, como observou Henrique Fialho no prefácio que fez para esta antologia, “ninguém pode negar que, sob a capa de poema, poema em prosa, aforismo, ou o que quer que seja, a micronarrativa vai marcando presença na literatura portuguesa”.

Já Rui Costa, co-organizador daquela antologia pioneira, afirma que aquilo que mais o “atrai na microficção é a sua extrema aptidão para a promiscuidade”. E acrescenta: “A micro-ficção não é um gênero literário, é a riqueza da impossibilidade de o ser. Confunde os gêneros e deixa-nos (bem) perdidos no caminho para qualquer definição”. Além disso, como se trata de textos curtos e de leitura rápida, a microficção ganhou um fôlego especial nestes tempos de Internet e profusão de blogs dedicados à literatura.

Um dos ensaios mais fecundos sobre o assunto que se encontra no último número de revista Forma Breve é “Eros y Afrodite en la minificción”, de Dina Grijalva Monteverde, da Universidad Autônoma de Sinaloa, México, em que a autora diz que foi o escritor mexicano Edmundo Valdés (1915-1994) quem chamou de minificção este tipo de texto breve, que admite outros nomes como miniconto, microrrelato, conto pigmeu, conto liliputense, microconto, relato vertiginoso, conto minúsculo, entre outros. Nesses textos de tamanho reduzido, observa a estudiosa, é possível encontrar-se todas as paixões que inquietam o ser humano: amor, ódio, inveja, ciúme, desejo. Ou seja, é a mesma variedade que se pode encontrar em outros gêneros.

Em seu ensaio, Dina Grijalva Monteverde, porém, prefere restringir-se às incursões que Eros tem feito em miniaturas textuais escritas por autores da Argentina e do Chile. E destaca o trabalho de dois deles; o argentino Orlando Van Bredam (1952) e o chileno Max Valdés Avilés (1963). De tão breves que são – e para que o leitor neófito tenha uma ideia do que sejam esses relatos curtos –, pode-se repeti-los aqui:

En el ascensor, de Orlando Van Bredam:

Mientras bajan, él imagina lo que haría con ella si ella quisiera.  Ella se imagina lo que él imagina y lo mira. Él ve en los ojos de ella lo que ha imaginado y se llena de vergüenza. Ella se lamenta, otra vez, de la eterna indecisión de ambos.

El amor en tiempos de postmodernidad, de Max Valdés Avilés:

Un hombre, una mujer, tocan la pantalla simultáneamente, uno a cada lado del hemisferio, esa nueva forma de amar y extasiarse, hasta la soledad.

II

Lendo o ensaio “Linguagem e arte de sugestão: Os contos de Ukamba Kimba”, de Lola Geraldes Xavier, da Escola Superior de Educação de Coimbra/Centro de Literatura Portuguesa, fica-se sabendo que João-Maria Vilanova, poeta angolano da geração de 70, pseudônimo literário de João Guilherme Fernandes de Freitas (1933-2005), foi um dos maiores cultores em Língua Portuguesa desse gênero (ou subgênero) que à época nem essa classificação carregava. Em Os contos de Ukamba Kimba (Luanda, Editora Vila Nova de Cerveira, 2012), o leitor encontra 24 narrativas muito curtas, que, como observa a estudiosa, mudam de forma se o narrador é português ou angolano.

“Isso significa o uso de uma linguagem que tenta aproximar-se do coloquial, utilizada por uma camada da população que tem acesso ao português apenas falado, misturando-o com termos de quimbundo, que o autor esclarece em alguns contos com glossário. Encontram-se, aqui e ali, as marcas de uma linguagem socioletal, representativa de grupos menorizados, negros, como tentativa de criação de uma literatura “descolonizada”, com o mínimo de marcas do Português europeu”, diz Lola Geraldes Xavier.

Explica ela que, embora a linguagem usada por Vilanova se enquadre majoritariamente na variante do Português falado em Angola, o estilo lingüístico é original e próprio, “é reinvenção da realidade, é a linguagem que a memória de João de Freitas recria de uma mundividência angolana que vivera décadas antes de dar por encerrados alguns dos seus contos (outros não terá finalizado)”.

III

Em “Micro fiction and short ficction: surrounded by scaffolding on all sides” (Microficção e ficção curta rodeadas por andaimes), Erik Van Achter, da CLP/Coimbra-KULeuven (Bélgica), diz que tanto o conto literário moderno quanto a microficção são  produtos duma época diferente e consequentemente de circunstâncias diferentes. “Contrariamente ao que acontece com a short story”, diz Van Achter,  “a micro fiction não tem encontrado grandes opositores nem críticas severas”. Entre estas duas categorias de micronarrativas, acrescenta, existe ainda a vignette.

Ou seja, vinheta, em bom português, pode ser entendida como um atalho ou cena curta (na linguagem teatral). Ou ainda, em diagramação de jornal, um minitítulo que marca um tema. Van Achter questiona qual o lugar deste gênero no concerto dos subgêneros da narrativa breve. O articulista mesmo procura responder lembrando que, se o conto ocupou lugar de destaque na literatura praticada nos séculos 19 e 20, a microficção vale-se em sua divulgação da era digital em curso neste século 21.

Do mesmo modo, Paulo Antonio Gatica Cote, da Universidad de Salamanca, no ensaio “Nuevas tradiciones electrónicas y viejas rupturas de vanguardia en la tuiteratura mexicana”, diz que as práticas artístico-literárias na Internet têm dado cumprimento, além da consolidação de uma estética fragmentária, ao grande projeto vanguardista de desmaterialização da obra de arte. “A realidade textual do objeto-livro tem dado lugar a novas realizações eletrônicas que respondem a uma lógica distinta da “posse” da obra-documento: a lógica do acesso ou distribuição praticada por grande parte dos criadores nas redes sociais”, acrescenta.

Em seu trabalho, Gatica Cote procura aprofundar-se na tuiteratura mexicana, ou seja, na literatura produzida e compartilhada no Twitter no México em língua castelhana, por meio da recolha das manifestações literárias que considera as mais interessantes.

IV

Ainda dentro do tema microficção, o ensaio “João Gilberto Noll, leitor de Clarice Lispector”, de Luiz Gonzaga Marchezan, da Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho (Unesp), campus da Araraquara, analisa o microconto “Afã”, com 129 palavras, publicado no jornal Folha de S. Paulo em 6 de agosto de 2001 e que faz parte do livro Mínimos, múltiplos, comuns (São Paulo, Editora Francis, 2003),  do autor gaúcho, que reúne outros 337 contos ultracurtos e obteve o Prêmio ABL (Academia Brasileira de Letras) de Ficção de 2004. Nesse conto, João Gilberto Noll faz uma alusão a uma passagem do conto “O búfalo”, de Clarice Lispector (1920-1977), mas que só percebe quem a conhece, o que constitui um hipotexto, como bem explica o ensaísta. E que pode ser vista também como intertextualidade. Nunca como plágio.

______________________________

Forma Breve, Revista de Literatura. Microficção, nº 11, dezembro de 2014. Departamento de Línguas e Cultura da Universidade de Aveiro. E-mail: antonio@ua.pt

______________________________

(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, LetraSelvagem, 2015), Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012), e Direito e Justiça em Terras D´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

(…) este ódio antigo e tenebroso do homem sobre o homem | Maria Isabel Fidalgo

As notícias e as imagens que vemos dizem deste ódio velho, este ódio antigo e tenebroso do homem sobre o homem. Vamos dizendo que é possível acreditar, mas sempre nos espantamos. O homem é um conjunto de mazelas indecifráveis que ultrapassam a compreensão racional.

Saio devagar‏ | Maria Isabel Fidalgo

 

 

Saio devagar do teu corpo
como se lá não tivesse estado
e tento distrair-me das tuas mãos
e até das minhas
estas mãos inúteis que tocaram
com veludo de teclado
a dor antes do amor.
Saio devagar de uma longa ferida
como galho sem árvore esborrachado no chão.
Podia dizer ave mas tenho as asas ceifadas
e ave ou galho é igual neste caso:
galho ou ave é a chave
que não dá a volta ao trinco enferrujado
da casa desabitada.
Saio devagar do teu corpo
onde nunca estive sem que não doesse
antes do amor
e onde chorei depois dele
sem que tu visses.

maria isabel fidalgo