Feira do Livro de Frankfurt

Paulo Lins, autor de “Cidade de Deus” e “Desde que o samba é samba”, representou o Brasil no discurso de encerramento da Feira do Livro de Frankfurt 2013. Recorde-se que o Brasil foi o convidado de honra do certame, o que foi uma oportunidade de divulgação da literatura em língua portuguesa.

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Prémio Fernando Namora para Agualusa

Foi com Teoria Geral do Esquecimento (D. Quixote, 2012) que José Eduardo Agualusa arrecadou o Prémio Literário Fernando Namora 2013. Os restantes finalistas, pela primeira vez anunciados, eram: Afonso Cruz (Jesus Cristo Bebia Cerveja), Ana Cristina Silva (O Rei do Monte Brasil), Julieta Monginho (Metade Maior) e Rui Nunes (Barro). O Júri foi presidido por Vasco Graça Moura.

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Alice Munro, Nobel de Literatura 2013

O Nobel para Alice Munro é, sem dúvida, um prémio para o conto. A canadiana era uma das eternas candidatas. Desta foi de vez. Munro tinha ganho, em 2009, o Man Booker International Prize. Vários livros da autora estão traduzidos em Portugal.

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Amazon e Jabuti

«A loja Kindle brasileira criou uma seção com finalistas do Prêmio Jabuti. 30 das obras indicadas ao prémio literário estão disponíveis no site www.amazon.com.br/premiojabuti. Os vencedores serão anunciados no próximo dia 17 de outubro pela Câmara Brasileira do Livro (CBL).»

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CRIATURAS DE BALTASAR – Folhetim em Catorze episódios da autoria de Carlos Pessoa Rosa – oitavo episódio

De repente, a mulher sentiu frio. Os olhos vasculharam cada dobra do apartamento. Com certeza, tratava-se de um homem com hábitos estranhos, nunca entrara em uma sala daquelas, mais parecia um templo, a melancolia e a energia conviviam simultaneamente. Uma tapeçaria amarela separava as duas poltronas. Nela, via-se a imagem de duas mulheres em roupas transparentes sentadas à margem de um lago. Separava-as do restante do mundo uma densa floresta. Sobre um dos móveis, um pequeno oratório feito de madeira trazia motivos religiosos e de guerra. Levantou-se para passar os dedos nas elevações da santa barroca. Os pais obrigaram-na a estudar em colégio de freiras. Conhecia a hipocrisia que preenchia os vãos daquele silêncio, das sombras que se avolumavam atrás das portas e desapareciam em orgias, o modo como as meninas fechavam os quartos, algumas usando os móveis como obstáculos. Nunca se esquecera dos olhos esbugalhados da madre, bem na frente de uma imagem muito semelhante a que estava diante dela agora. Acabava de presenciar a superiora assediar uma de suas amigas. Viu muitas colegas serem castigadas pela cegueira dos pais que não acreditavam no que ouviam. No outro ambiente, um tapete vermelho trazia a figura de um lindo pavão. Uma biblioteca ocupava toda a parede oposta à do oratório. Nas estantes, os livros mantinham-se unidos pelo tempo, queriam vir em bloco. Arquitetura, filosofia, literatura, mitologia, debates e ensaios. Ali também encontravam-se os discos: Haendel, Bach, Schumann e muitos outros. Gostava de Bach. A altura do som foi suficiente para preencher o vazio das palavras. Pegou no telefone, diria estar na casa de alguma amiga, ouviria algum sermão, diria não ser mais criança e, impaciente, desligaria o telefone. Não, não deixaria o mundano entrar naquela atmosfera, afastou os dedos do aparelho.

CRIATURAS DE BALTASAR – Folhetim em Catorze episódios da autoria de Carlos Pessoa Rosa – sétimo episódio

Considerou absurdo o romantismo momentâneo. Com certeza, ajeitava as coisas para desaparecer, todas agiam assim. Adorava seu espaço, um mundo muito particular, sem o ruído que faziam as correntes presas nas pernas e no pescoço daqueles que caminhavam cegos de luz, que nada sabiam de metáforas em corpos nus. Quarenta anos vivendo sozinho, fazia parte daquelas paredes, igual à lenda turca onde a gruta serve de molde a uma forma humana que, sob o efeito do sol, adquire vida. Talvez, fosse sua metade perdida… gostaria de acreditar em duendes e fadas mas, por mais que tentasse, voltava ao concreto. Seria difícil habituar-se a dividir o espaço com alguém…

Colecção Vertigo está a chegar

O Grupo Autêntica lança este mês a colecção Vertigo, dedicado aos romances policiais. Farão parte desta, romances de época, policiais “nórdicos”, e policiais de atmosfera. Guillaume Prévost, Leena Lehtolainen, Andrea H. Japp, Alexis Aubenque e Pierre Lemaitre serão alguns dos autores comtemplados.

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Prémio Rei Abdllah no Brasil

A 6.ª edição do Prémio Internacional Rei Abdullah para Tradução será, pela primeira vez, entregue no Brasil. Um brasileiro – João Baptista de Medeiros Vargens – será um dos premiados, neste caso na categoria “Esforços individuais”. A cerimónia decorrerá a 21 de Outubro.

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Os Maias em cinema

A rodagem de Os Mais – (alguns) episódios da vida romântica, inicia-se a 14 deste mês. A adaptação do romance de Eça de Queirós será uma co-produção luso-brasileira e contará, entre outros, com Miguel Guilherme, João Perry, Graciano Dias, Pedro Inês, Maria João Pinho. A realização é de João Botelho.

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Tom Clancy

Tom Clancy faleceu a semana passada em Baltimore, nos EUA. Autor de best-sellers de espionagem e thrillers militares, Clancy viu títulos como Caçada ao Outubro vermelho e Jogos Patrióticos adaptados ao cinema. Tinha 66 anos.

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A propósito de “A Dobra do Crioulinho”, de Luís Carmelo | Teresa Sande

Escrevo estas palavras como leitora. Não está aqui em causa a análise literária exaustiva, que

deixo para os peritos, mas a simples tradução do impacto que a leitura deste romance me

suscitou. As frases iniciais transportam-nos de imediato para uma paisagem em que apetece

entrar. E olhar. Pode ler-se, em dado momento: ”A paisagem é a súmula demorada de todos

os olhares que até hoje a terão esboçado.”. Entrei, portanto, com a lentidão de quem se quer

demorar, com o olhar pronto a desenhá-la ao ritmo do espanto.

Deixei-me conduzir por imagens assombrosas, que foram construindo à minha passagem um

mundo novo, que fui desbravando numa permanente descoberta. Entrei numa vila. E era

como se já lá tivesse estado, e conhecesse as gentes que a habitavam, tal o realismo do retrato

criado. Caminhei no empedrado imaculado, entrei na livraria, passei junto ao café, demorei-
me em frente à Igreja de Nossa Senhora dos Ares. Conheci as pessoas que se movem por

estas ruas, entrei nas suas casas. Percebi as suas tristezas e os seus sonhos. Despedi-me com

a saudade de quem deseja ficar, só mais um pouco. No olhar, a promessa de um regresso.

Talvez eu tenha deixado naquela paisagem um pouco de mim. Afinal, os meus olhos também

a esboçaram. Penso que, ao ler uma história, o leitor mergulha no mar de sonhos de quem

a escreveu. Ao sair, deixa lá os seus próprios sonhos. E aquele mar torna-se, de repente, um

oceano.

Obrigada ao autor por me ter permitido a entrada neste pequeno mundo encantado, onde

puras delícias espreitam a cada esquina.

Teresa Sande

(Luís Carmelo, A Dobra do Crioulinho, Editora Quidnovi, 2013)

CRIATURAS DE BALTASAR – Folhetim em Catorze Episódios da autoria de Carlos Pessoa Rosa – Quinto Episódio

Nunca foi tratada assim por ninguém, mesmo o convite para que ela o acompanhasse ao apartamento foi muito natural. Até aquele momento, além de um toque de dedos, um ou outro olhar mais indiscreto, nada mais havia acontecido. Tudo muito sutil e indireto, igual à poesia que ouvira e gostara muito: seus seios/olham meus lábios/tesos/num rigor militar//meus lábios anseiam seus seios/úmidos/num sutil transgredir/de olhar//:se tocam/apesar da distância/e das metáforas. Agora, aquelas palavras ouvidas, com o mesmo carinho com que a tratou na cama: se você ficar tem comida e bebida na geladeira. Queria ter os lábios dele beijando seu corpo, o grito que não conseguiu segurar, o corpo caindo no vazio e o sono. Um milhão de vezes… convulsionar. Acordou com o barulho de buzinas, ele lhe havia dito algo sobre a reunião. Lembrou-se apenas do horário. Procurou afastar a vontade de ir até a sacada e gritar que estaria ali quando ele retornasse, foi sempre muito instável, poderia mudar de idéia de uma hora para outra, desde criança evitava se ligar às pessoas a ponto de precisar delas… e a paixão trazia essa dependência a tiracolo…

(continua)

“Dar Sentido ao Tempo”

Decorreu no sábado passado, 21 de Setembro, na Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, o lançamento de Dar Sentido ao Tempo – da Maianga ao Bonfim, de António Cadete Leite. A apresentação esteve a cargo de Augusto Baptista.

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Literatura e memória: o passado nunca é passado

Memória é recuperar o que resta dos outros, de todos os outros, de que também somos feitos.

Teolinda Gersão, As Águas Livres

Vamberto Freitas

Quase todos saberão que parte do meu título aqui é uma paráfrase de um dito de William Faulkner num dos seus romances: “O passado não está morto, Nem sequer é passado”. Muita da literatura que nos toca profundamente pode depois ser lembrada através dos seus personagens mais marcantes ou situações inusitadas – ou por uma simples frase. Outro escritor sulista (e falar dos melhores escritores sulistas norte-americanos é também aproximar algumas temáticas que têm definido muita da escrita portuguesa do século passado, e até do presente), Thomas Wolfe, está mais ou menos esquecido, mas raro será também o leitor de língua inglesa que não recordará de imediato um dos títulos mais significantes de toda uma geração, a um tempo romântica e modernista – You Can’t Go Home Again/Não Se Pode Regressar A Casa. Os nossos percursos de vida não mexem com os lugares, mexem, sim, decididamente connosco os lugares das nossas origens. Nós estamos condenados a caminhar sempre, mesmo que só interiormente. Não se pode voltar a casa, por certo, mas podemos lembrar os que connosco a partilharam num prolongado momento das nossas vidas, quase sempre o tempo decisivo da infância e adolescência, e em que ficam para sempre sempre inscritos na nossa conscência as figuras e os incidentes que nos vão acompanhar a vida inteira.

Um livro de memórias é o quê? Uma autobiografia selecciona que factos e afazeres na vida de um escritor? Como se torna arte literária um “diário”, que poderá ser escrito com dias ou meses entre uma entrada e

outra, ou como se integra num cânone particular do seu autor ou autora? As Águas Livres/Caderno II, de Teolinda Gersão, é uma riquíssima fonte de reflexões sobre arte e memória, e ainda mais quando certas páginas da sua prosa se tornam em contos autênticos, com princípio, meio e fim, nos quais a vida interior ou afazeres relembrados e definidores do “carácter” do seu “protagonista” obedecem a certo mandato teórico desse mesmo género: o leitor fica com o conhecimento da fatia-de-vida inteira, um outro imaginário de certo tempo e geografia. As suas entradas não vêm datadas, mas acredito que estão organizadas cronologicamente – vamo-nos situando no tempo e nos lugares conforme um ou outro pormenor que a autora vai deixando cair ou relatando. Aliás, ler esta prosa recortada de Teolinda Gersão é entrar na mente e no quotidiano de uma grande escritora, As Águas Livres virando parte diário, parte autobiografia, parte reflexão teórica sobre o próprio acto escritural. Para mim provavelmente devido à minha formação académica norte-americana – um dos maiores prazeres literários é precisamente este género de confessionalismo intelectual meio disfarçado, estes fragmentos incisivos de, uma vez mais, considerações filosóficas, memória de lugares e dos seus “personagens” – a linguagem das coisas e gentes transfiguradas, a linguagem dos nossos afectos e os uivos dos nossos ódios, a génese da arte revista e revisitada. Por certo, como insistiam os new critics americanos, um leitor poderá dispensar por completo conhecimentos biográficos de qualquer autor, a obra ficcional ou poética ou se auto-segura, por assim dizer, na sua unidade total, ou então não vale como “literatura”. É claro que exageravam propositadamente: conhecer o pensamento íntimo de um autor ou autora é abrir mais profundamente a percepção da sua restante obra. Só que estes “cadernos” de Teolinda Gersão oferecem-nos também e só por si o prazer do texto, contêm nas suas páginas outros mundos ou “realidades” autónomas que passam a fazer parte do que mais lembramos da sua escrita no seu todo, o que dela nos fica entre a ficcão e a realidade, a ordenação do caos nas nossas vidas.

As Águas Livres é um livro de supresas constantes – de tema em tema, a autora vai-nos abrindo as portas ao mais inesperado no seu e nosso

pensamento, fazendo literatura-outra ora com o realismo na descrição de um antigo prédio lisbotea prestes a desabar, com a narrativa do comportamento de um personagem à solta na rua ou aprisionado/a na sua gaiola urbana habitacional, ora com o diálogo que trava com outros artistas da palavra, com certos filósofos da nossa infelicidade, com a música ou com as artes plásticas. Razão e emoção – nada nestas páginas sobressai em cinzento, ou numa suposta objectividade ou distanciamnento. A autora relembra o seu passado numa província do país com a mesma acuidade crítica, bondade e sensualidade com que olha e vive os seus dias no centro da cidade de Lisboa, ora banhada na sua luz solarenga ora tortuosa nos seus labirintos de pobreza e desespero. Esta é a outra “cidade de Ulisses”, só que agora revisitada e vivida sem o filtro da ficção pura, a autora e narradora sendo uma só pessoa real movendo-se e falando sobre a sua vida de mulher, mãe e amante, a Teolinda Gersão num magnífico autoretrato oferecido aos seus leitores, um abrir de corpo e alma que nos leva de imediato a algumas das suas reinventadas protagonistas noutras obras. Cada livro seu poderá tomar formas diferentes, mas cada um deles como que se encaixa perfeitamente num imaginário completo dos seus mundos e memórias, contradizendo e depois reconstruindo a “verdade” dos seus dias, reimaginando tudo e todos como que num palimpsesto, que é afinal a natureza implícita de toda a literatura.

“A criatividade – escreve Teolinda Gersão quase no início de As Águas Livres, talvez sugerindo levemente aos seus leitores o que esperar ou até como interpretar o que se segue, entrada a entrada – é destrutiva, em parte a sua raiz é a destruição. Afasto-me da limpidez da alma, porque é necessário o limo. A criação surge da matéria: densa. Impura”.

Se na ficção é Teolinda Gersão por detrás da máscara de uma “narradora”, a inventora das suas personagens e a quem lhes dá corpo e alma, nos seus cadernos As Águas Livres são as suas personagens que nos reinventam a autora do mesmo nome, “Teolinda Gersão”. Creio ser isso mesmo o que ela quer dizer ou signiicar quando escreve as palavras que aqui servem de epígrafe: “…o que resta dos outros, de todos os outros, de

que também somos feitos”. A humanidade que aparece nestas suas páginas vai desde um mendigo na aristocrática Almirante Reis, aos avós e familiares da província de origem aos mais conhecidos nomes da literatura ou escrita filosófica internacional (Freud, Kafka, Goethe e Kierkegaard, por exemplo), a escritores portugueses como Vitorino Nemésio, um dos mais faulknerianos escritores nossos quando insiste em recriar toda uma geografia muito sua e a cultivar a memória da comunidade através de excêntricos personagens de livros como Mau Tempo No Canal. Do mesmo modo, algumas das figuras “verdadeiras” de Teolinda Gersão neste livro são ainda mais estranhas ou mesmo “implausíveis” do que as dos seus romances ou contos. É certo que, hoje, se um ficcionista reinventasse certos personagens, provavelmente um editor inteligente rejeitaria essas criações por falta de, digamos, consistência psicológica ou comportamentos “inacreditáveis” adentro do realismo literário a que a maioria dos leitores se habituou desde há muito. Mas elas existem na realidade, essas personagens absolutamente originais e de pouca credibilidade na própria ficção. Cada escritor parte inevitavelmente de uma determinada geografia humana, que o destino lhe guardou na caminhada da sua vida. Do mesmo modo, cada leitor aproxima-se de um texto a partir da sua própria vida, experiência e imaginação, se não reescrevendo o livro de outrem, pelo menos “completando-o”, assimilando ou resistindo à leitura do texto, às aparentes propostas interpretativas do próprio autor. Do que poderia e gostaria de citar aqui, guardo, entre muitos outros, o momento “açoriano” com que a autora nos brinda. Depois de nos contar a velha amizade entre a família de Nemésio e a sua, Teolinda relembra uma viagem à Ilha Terceira, e num dado momento em busca da casa de nascença do autor do Jornal do Observador, que ela menciona directamente. Duvido que a ficção comportasse credivelmente o que lhe acontece numa rua da Praia da Vitória, e quando pergunta ao primeiro homem que encontra onde ficava a casa de Nemésio: “A casa de Nemésio? Venha comigo, disse. Eu moro lá”.

As Águas Livres é quase todo feito destas pessoas e situações inesperadas, mas que nos aproximam ainda mais do próprio texto. Não é

só a autora que está em frente a um espelho de imagens ora “realistas” ora “distorcidas”. Estamos lá com ela, na nossa comum humanidade.

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Teolinda Gersão, As Águas Livres/Cadernos II, Porto, Sextante Editora, 2013.

ouves?

Se tu ouvisses percebias que o meu coração já não bate ao mesmo ritmo, tudo está e é mais devagar, dormente, incapaz de reagir como anteriormente. Se tu ouvisses saberias dizer as palavras certas no momento certo e talvez, quem sabe?, a rotação do meu sangue tivesse um desvio acidental, tudo voltasse ao mesmo. De certa forma, se tu ouvisses eu não estaria muda para o mundo e tu não estarias surdo. Fará isto algum sentido? Deixas estar o teu corpo vestido na cama de criança, abandonado, cheio de pena de ti mesmo. É da idade, dizem. Se tu ouvisses, saberias melhor. E eu não te posso dizer mais nada.

Uma imaginação certa

Uma das tendências recentes da literatura portuguesa é reproduzir um uso linguístico que remete para o ambiente rural. Isto acontece num período em que a sociedade portuguesa se europeizou e passou, grosso modo, de rural a urbana.

Em Os Demónios de Álvaro Cobra – Prémio Literário Cidade de Almada 2012 – Carlos Campaniço, através de um romance de estrutura clássica, com um narrador tradicional, que se senta de frente para os acontecimentos e os descreve tal como os vê, recua a uma certa autenticidade perdida. Isto acontece não tanto recorrendo ao uso deliberado de regionalismos, como em Aquilino, ou transparecendo um amor incondicional sobre o drama humano do povo simples, como em Miguel Torga, mas refletindo a visão exterior de quem, hoje, vive num mundo onde a imaginação foi subtraída à eficácia da produtividade.

É esta uma das razões pelas quais parte da literatura se tem refugiado num espaço onde as superstições – como é o caso de Campaniço – são possíveis. Se pensarmos num conto como Maldita Matemática, de Arkady Avertchenko, em que uma criança se subtrai à obrigação de resolver um problema matemático pela sucessiva efabulação de narrativas extraídas do próprio enunciado do problema, deparamo-nos com a necessidade humana de escapar das asperezas da luta pela subsistência através do refúgio em locais fantásticos.

Em Os Demónios de Álvaro Cobra, este espaço imagético – ou fuga – muito próximo do Realismo Mágico, abre a possibilidade de os personagens extrapolarem o vivencial e entrarem no campo do relacional, do íntimo, da luta interior por uma realização (im)possível. A acção passa-se numa aldeia alentejana dos finais séc. XIX, onde o positivismo crescente da época estava ainda muito longe de chegar. Daí as características aparentemente mágicas do personagem principal – Álvaro – despertarem diferentes impressões na população da aldeia: para uns, santo; para outros, bruxo.

A capacidade de descolagem de um texto em relação à realidade permite que a literatura se institua como campo de investigação, colocando possibilidades que no mundo concreto não podemos equacionar. Lembremo-nos da abordagem

Fantástica em Saramago, ou da forma como Thomas Mann faz uma troca de cabeças entre dois personagens, colocando a partir daí um conjunto de questões de identidade que não esgotam nem encontram resposta certa. Felizmente, não é possível fazê-lo no mundo real.

É preciso, contudo, distinguir entre imaginação e extravagante. Que a imaginação venha, sim – o mundo já é suficientemente tecnocrático. O problema começa quando uma certa corrente – é preciso dizê-lo – usa o absurdo apenas pelo absurdo, somando uma situação mirabolante à anterior. Toda a boa literatura se esquiva a isto; os grandes autores fazem-no por instinto.

Em Carlos campaniço essa preocupação é evidente. Apesar dos actos mágicos, o desenrolar do drama vai ao encontro dos anseios mais simples e humanos: a sobrevivência, os preconceitos sociais, as relações amorosas e a relação com o transcendente. O tratamento linguístico procura reflectir este ambiente. É preciso não esquecer que o texto literário é composto de uma matéria chamada linguagem e que esta deve transparecer o mundo em causa. É de um certo uso linguístico não completamente arbitrário que um texto se compõe.

António Pacheco

Prémio da União Europeia

Já são conhecidos os vencedores do Prémio da União Europeia para a Literatura. O anúncio foi realizado na abertura da Feira do Livro de Gotemburgo. Entre os vencedores encontram-se Isabelle Wéry (Bélgica), Faruk Šehić (Bósnia-Herzegovina) ou Emilios Solomou (Chipre).

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Alquimia

Platina, estudante de química, namorou Hélio, um homem de ferro, amigo de Laurêncio, mas rompeu por causa de Berílio, um cara que veio do Vale do Silício. Apesar dele cobrí-la com jóias de ouro e prata, enjoou daquela cara de Indio, e rompeu com ele também.

Estrôncio, irmão de Túlio, era apaixonado por ela, mas era muito vanádio, e ela engrenou um namoro com Polônio, um cério germânio, que trabalhava em uma usina de enriquecimento de urânio. Apesar das suas feições estranhas – parece que lhe faltava o oxigênio – casaram em um dia cor de estanho.

Ela acabou engordando bastante, porque gostava muito de comer massa atômica, e ele se tornou hipertenso devido ao excesso de sódio. Ela queria muito ter dois filhos, havia escolhido até os nomes: Césio e Hássio, mas não era para agora, eles não tinham nem um rádio. Gastaram até o último níquel com a prótese de titânio que Polônio teve que colocar em função de um acidente. Seus ossos eram muito frágeis devido a uma deficiência congênita de cálcio. Ademais, ela também não queria ter filhos enquanto não mudassem daquele bairro que fedia a enxofre.

Entretanto, foi traída pelo mendelévio destino. Ficou grávida. Bem feito! Quem manda não tomar anticoncepcional. Foi se cuidar apenas pela tabelinha periódica.

Espólio de Ramos Rosa na BNP

O espólio literário de António Ramos Rosa foi doado em 2007 à Biblioteca Nacional de Portugal. No acervo do poeta, que morreu na semana passada, encontra-se a correspondência com Eduardo Lourenço, Vergílio Ferreira, Roger Munier, René Char, Casais Monteiro, Gaspar Simões, Urbano Tavares Rodrigues e Natália Correia, assim como inúmeros poemas manuscritos e dactiloscritos.

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“Andrei Rodosski – Entre escombros e flores, não deixar que a chama se extinga”

Neste ano de 2011, em que se assinalam 95 anos sobre a morte de Mário de Sá-Carneiro (26 de Abril de 1916), foram editados, em São Petersburgo, no volume XXVI da revista literária “Sfinx” (“Esfinge”), 10 poemas do escritor, traduzidos em russo (“Álcool”, “A queda”, “Nossa Senhora de Paris”, “Salomé”, “Certa voz na noite, ruivamente…”, “16”, “Sugestão”, “Taciturno”, “O resgate” e “Campainhada”. As traduções são de Andrei Rodosski, poeta, filólogo e tradutor, professor do Departamento de Filologia Românica e do Departamento de História da Cultura Russa e da Cultura Europeia Ocidental da Universidade Estatal de São Petersburgo.

Não é a primeira vez que Mário de Sá-Carneiro é traduzido em Russo (as primeiras traduções apareceram em 1974, na antologia “Poesia Portuguesa do Século XX”, organizada e prefaciada por Helena Golubeva), nem a primeira vez que o professor traduz o genial poeta português. Mas é, em grande parte, devido ao trabalho, empenho e talento de Andrei Rodosski, que a chama da literatura portuguesa e da literatura de expressão portuguesa se mantem viva em São Petersburgo.

A literatura desconhecida

Sempre gostou muito de ler – literatura clássica, tanto russa como ocidental, e de aprender línguas (domina não só o português, mas também o galego, espanhol, francês, inglês, latim e eslavo antigo). Mas a literatura portuguesa sempre foi pouco conhecida na Rússia, e foi a curiosidade que o levou a estudar o português. “Li Camões e o livro de contos “Escura era a noite” (editado em 1962, primeira tradução de literatura portuguesa em russo depois de uma pausa de muitos anos, em que aparecem, pela primeira vez, autores como Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro, José Gomes Ferreira, João Gaspar Simões, Miguel Torga, Manuel da Fonseca, Alves Redol, Fernando Namora, José Augusto França, José Cardoso Pires). Fiquei muito interessado e curioso e por isso decidi ingressar na Secção de Literatura Portuguesa.” Dois professores que o influenciaram muito e incentivaram foram Helena Golubeva e Anatólio Gach.

Entre 1980-1981 trabalhou, como intérprete, em Moçambique, na província de Nampula, para uma empresa Soviética do cultivo de algodão. Gostou muito das gentes, da natureza, da arquitectura. Mas recorda também os pedestais dos monumentos depostos dos heróis e escritores portugueses – Camões, Vasco da Gama, Mouzinho de Alburquerque. “Vi só os pedestais. Só ficou o Monumento aos Heróis europeus e africanos da Primeira Guerra Mundial, em Maputo”. E, ao falar com as pessoas, era perceptível um sentimento anti-português? “Entre os governantes sim, mas entre o povo não.”

Em 1985, no congresso internacional de escritores organizado em São Petersburgo (então Leninegrado) no âmbito das comemorações do quadragésimo aniversário da Vitória na Segunda Guerra Mundial, em que foi intérprete, conheceu Urbano Tavares Rodrigues e António Cardoso. E as suas primeiras traduções publicadas foram três poemas deste poeta angolano – “Nunca é velha a esperança”, “Ainda muitos teremos de morrer” e “Contrato” – que apareceram no jornal “Smena” (“Sucessão”), em 1986.

Escombros e flores

É durante os anos de ruína e caos da “Perestroika”, das senhas de racionamento e das filas intermináveis, que surgem os primeiros livros de traduções de Rodosski, uma colectânea de contos humorísticos brasileiros e uma antologia de poesia portuguesa dos séculos XIX-XX. “Para pessoas como Helena Golubeva e como eu, não escrever é o mesmo que não respirar. E é também preciso publicar. Poupámos em tudo para publicar os nossos livros.”

Em “A medalha, o revólver e a dúvida” (1993), para além do conto epónimo de Guilherme de Figueiredo, aparecem, entre outros, contos de Joaquim José de França Júnior, Antônio de Ancântara Machado, Artur Azevedo e Fernando Sabino. Em 1994, na antologia “Campo de Flores” (em homenagem a João de Deus), surgem Almeida Garrett, Alexandre Herculano, João de Deus, Antero de Quental, Mário de Sá-Carneiro, Florbela Espanca, Vasco Miranda, Egito Gonçalves, Manuel Alegre e José Saramago.

Se os romances “Levantado do chão” e “Memorial do convento” eram já conhecidos dos leitores russos, os 19 poemas de Saramago publicados em “Campo de flores” – entre eles “Fala do Velho do Restelo ao Astronauta” e “Há-de haver…” – permitiram aos mesmos leitores apreciar, pela primeira vez, a obra poética do futuro Nobel português. Numa das suas estadias em Portugal, em que trabalhou e leccionou na Universidade do Minho, o tradutor teve o prazer de conhecer pessoalmente o seu poeta, “muito complexo, como homem e como escritor”. E as ideologias? Rodosski cita Heine: “A pena do génio pode ser mais genial do que o próprio génio”.

Rodosski tem traduzido e publicado, em livro e em diversas revistas literárias, autores como Frei António das Chagas, João de Lemos, António Feliciano de Castilho, Camilo Castelo Branco, Alexandre O´Neil, Fernando Guimarães, Urbano Tavares Rodrigues, Pedro Tamen, Vasco Graça Moura, Joaquim Pessoa, António Cândido Gonçalves Crespo, Machado de Assis, Érico Veríssimo e Carlos Nejar.

A sua grande referência na literatura portuguesa é Garrett, cujo papel nas letras portuguesas compara ao de Alexandre Pushkin nas letras russas. No prefácio de “Campo de flores”, escreveu – “Tal como Pushkin, Garrett foi um poeta, prosador e dramaturgo admirável, que fundou uma nova escola literária no seu país.” No seu artigo publicado nas Actas do Quinto Congresso Internacional de Lusitanistas (Universidade de Oxford, 1996), Rodosski estabelece vários paralelos entre a obra destes “dois poetas geniais, que nasceram, em 1799, em extremos opostos da Europa”.

Entre as obras de Garrett que traduziu, destacam-se “Um auto de Gil Vicente”, “O alfageme de Santarém”, “Frei Luís de Sousa” e o poema “Camões”.

O poeta e os valores

Em todos os volumes da revista “Esfinge”, da qual Rodosski é redactor pricipal, aparecem invariavelmente traduções suas de poesia portuguesa e de expressão portuguesa.

Esta revista surgiu de uma tertúlia literária, que se reunia na Biblioteca Tchekov, em São Petersburgo, e é publicada, seis vezes por ano, desde 2005. “É uma revista de inspiração tradicionalista, que se assume como herdeira dos poetas clássicos pré-revolucionários e dos valores por eles professados; poetas como Sologub e Balmont, que iniciaram a carreira antes da revolução, e que depois foram, quase todos, forçados a emigrar”. E valores que têm no amor o seu paradigma – “o amor puro, o amor a Deus, o amor pelo seu país. Afirmar estes valores é particularmente importante nos nossos tempos difíceis de hoje. Há um ditado que diz – aquele que não ama o seu próprio povo não é capaz de respeitar os outros povos. Mas aqueles que amam a sua cultura são muito abertos à cultura dos outros povos.” Descendente de uma antiga família de sacerdotes da Igreja Ortodoxa Russa, Rodosski sublinha: “Nunca fui ateu”.

O seu primeiro livro de poesia, “A luz que não se extingue”, foi publicado em 2000. Seguiram-se-lhe “Frutos do meu pensar predilecto” (2002), “O verbo dos tempos” (2004), “Rostos e faces” (2006) e “Autoretrato” (2007), antologia que assinala o quinquagésimo aniversário do poeta. Alguns dos seus poemas foram musicados por compositores russos.

As formas e os temas da poética de Rodosski são o reflexo especular da sua preferência literária pelos clássicos, dos valores que defende e das suas inquietações.

Assim, nas formas, encontramos dísticos, quadras, epigramas, madrigais, baladas, sonetos, oitavas, trioletos e sextinas. Nos temas, encontramos, sobretudo, o amor: o amor lírico e o amor pela Rússia. A poesia de Rodosski está imbuída da nostalgia e da beleza da Rússia e, em particular, da nostalgia e da beleza de São Petersburgo. O seu tempo é o tempo histórico, o trágico século XX, o tempo mágico da infância; os seus heróis são os seus antepassados, os príncipes e czares, os santos da Igreja Ortodoxa Russa, os poetas – incluindo ele próprio.

No posfácio de “Autoretrato” (por Irena Sergueeva) pode ler-se: “ (…) saber e Fé são as linhas mestras da poética do autor. E é para nós motivo de júbilo que o conceito de honra esteja aqui também presente – para nós, gerações que foram despojadas dos atributos do seu grupo social, da sua ascendência, dos túmulos dos seus antepassados, gerações que foram, no fundo, despojadas da sua honra.” A poesia de Rodosski dá vida à memória da Rússia, e o poeta vê nessa memória o ponto de partida para o renascimento do seu país, assente nos valores intemporais do Cristianismo e do respeito pelos seus antepassados.

Dieter Woll escreveu – “A ordem pela qual se sucedem os poemas de Mário de Sá-Carneiro é, em grande parte, susceptível de ser alterada. Do primeiro ao último giram sempre à volta da polaridade entre os dois extremos da idealidade e da realidade” (in “Realidade e idealidade na lírica de Sá-Carneiro”, 1968, trad. Maria Manuela Delille). Mutatis mutandis, pode dizer-se que a poética de Rodosski gira também sempre em torno da polaridade entre dois extremos, não do Eu idealizado e do Eu real do poeta de “Além”, mas sim entre os dois extremos que são a destruição e o renascimento da idealidade, isto é, entre os extremos da idealidade, dilacerada pela realidade, e da idealidade como alicerce para a reconstrução da realidade, a realidade futura da ancestral e riquíssima casa que é a Rússia.

(…)

Sempre foi, para mim, mais cara que a carreira,

A honra – Deus disso testemunha é.

E não são desgraça a nuvem escura e a tempestade sobranceira;

Ajudaram o saber e a Fé.

Andrei Rodosski, 2006 (excerto)

Ana Luísa Simões Gamboa, em São Petersburgo