Almada, um nome de guerra

«Almada, um nome de guerra» foi projetado na quarta-feira passada na cinemateca portuguesa. A sessão teve casa cheia e público de pé. Foi a terceira vez (talvez a última) que o material reunido no final da década de sessenta por Ernesto de Sousa foi montado, numa apresentação que reúne imagem, palavra, gravação de voz (do próprio Almada), música e performance, com filmagens do último ano de vida de Almada Negreiros – em plena fase geométrica.

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Jabuti para Fernando Veríssimo e Audálio Dantas

Luís Fernando Veríssimo venceu o jabuti deste ano na categoria de ficção, com Diálogos Impossíveis (Objetiva). Na categoria de não-ficção venceu Audálio Dantas, com o livro-reportagem As Duas Guerras de Vlado Herzog (Editora Civilização Brasileira). A cerimónia de entrega dos prémios foi na quarta-feira passada, em São Paulo.

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As Primeiras Coisas

Foi lançado a 14 de Outubro As Primeiras Coisas, de Bruno Vieira Amaral. O romance – primeira incursão no género do autor – tem uma estrutura própria, fragmentária, e inclui inúmeras notas de rodapé, que constituem em si um complemento indispensável da leitura. Edição da Quetzal.

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A COR E A TEXTURA DE UMA FOLHA DE PAPEL EM BRANCO – Folhetim em Oito Episódios da autoria de Carlos Pessoa Rosa – Quarto Episódio

O gringo, o marido da húngara que se apaixonou pelo pernambucano, sabia tudo o que falavam de Cristo, conhecia cada sentido bíblico. Trabalhador exemplar, treinava brasileiros em uma multinacional. A guerra não lhe deu outra opção, era pegar ou largar. Perdeu dois filhos na viagem, foram lançados ao mar. Submergiam em sonhos. Ninguém soube como o caso da mulher chegou até o ouvido do homem. Um dia ele resolveu parar para conversar, falou de coisas fúteis. O tremor nas pálpebras parecia um aviso. O italiano não se cansava de dizer que na terra dele homem era homem, mulher era mulher – um pouco fora de época, hão de concordar -, e naquela situação alguém tinha de morrer. Mas a passividade do homem intrigava, o que levou os amantes a abusarem da sorte. Um dia tinha de acontecer. Aposentou os mandamentos. Sentiu ódio de Noé por ser um incluído, de Deus por ter abandonado Cristo à sua sorte, e matou os dois. Isso mesmo, o tiro entrou pela têmpora do amante. A mulher apanhou antes de morrer, estava cheia de hematomas. Talvez quisesse morrer assim, pelas mãos do marido.

(continua)

Biografia de Malala já à venda

Eu, Malala está à venda em Portugal desde 5 e de Novembro. O livro surgiu num pequeno espaço de tempo após a projeção mediática de Malala Yousafzai e é a biografia oficial da mesma. Em Outubro, o Parlamento Europeu atribuiu a Malala o prémio Sakharov para a liberdade de pensamento. A edição é da Editorial Presença.

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A COR E A TEXTURA DE UMA FOLHA DE PAPEL EM BRANCO – Folhetim em Oito Episódios da autoria de Carlos Pessoa Rosa – Terceiro Episódio

Ele gostava de matutar coisas inúteis. Elas vinham e iam como os insetos que voejavam o lixo. O que mais poderia fazer um pobre morador de uma vila esquecida pelas autoridades? Água, algumas horas por dia. O córrego em frente mais parecia um esgoto ao ar livre. Sem aviso, cortavam a energia elétrica. Daí manter uma vela em lugares estratégicos na casa. A luz no rosto, esboços de objetos e o negrumoso imitavam um quadro à Oitocentos. Nessas horas, a palavra morte entrava em seu circuito. Arrepiava-se todo ao pensar na possibilidade de ser enterrado vivo. Avisou a mulher para colocar uma vela e uma caixa de fósforos no caixão quando partisse. Ela brincou com a seriedade dele, perguntou-lhe se queria alguns livros e revistas. Para quê?, pensou. As palavras ajuntavam-se em sua cabeça sem o mínimo esforço. Sua história de vida mudou tanto que não sabia mais o que era real e o que era imaginação. O velho álbum de fotografia trazia-lhe à lembrança uma infinidade de passados. Apesar disso, nunca o agradou escrever. Letras possuíam alma? Palavras pensavam? Duvidava… Sabia que elas nasciam, morriam e ressuscitavam… Cristo é uma palavra…

(continua)

Cadeira 23 da ABL

Antônio Torres sucede ao jornalista e musicólogo Luiz Paulo Horta, falecido em Agosto passado, na cadeira vinte e três da Academia Brasileira de Letras. Romancista, na cena literária desde 1972, tem dezassete livros publicados.

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Goncourt para Pierre Lemaitre

O maior prémio literário de França foi este ano para Pierre Lemaitre, com o livro Au revoir lá-haut, publicado pela editora Albin Michel. O romance aborda a Primeira Guerra Mundial, e conta a história de dois veteranos afectados pelos factos aí vividos.

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DISPARADA

De repente, peguei de escrever. Em disparada.  

Não que não tenha escrito por aí, vida afora. Acho até que só fiz isso, demais até, e esses amor exagerado de livros, de palavras, e de suas poeiras, e de seus cupins…e a paciência de desatar os nós que as Palavras  

dão entre si, as danadas – nós bravios, piolhentos, renitentes.  

           Mas agora é diferente. Chego ao fim da vida, não tenho mais tempo para me esquivar. 

                                Para maniganças  

                                  – só lembranças!  

    

( a Rima é menina travessa, meio vesga, quando menos se espera ela pula no meio da frase, com histerias de quem procura par. Que seja 

                                                                                                  – beleza!

A VIDA DOS LIVROS – de 11 a 17 de novembro 2013

«Un Autre Visage de l’Europe» (editions Noir sur Blanc, 1989), de Tadeusz Mazowiecki, com prefácio de Jean-Marie Domenach, é uma obra esquecida que deve ser relida e revisitada no momento em que o seu autor nos deixou há muito pouco. O livro reúne diversos textos fundamentais que nos permitem seguir a resistência intelectual polaca e o início da transição democrática.

SÍMBOLO EUROPEU
Tadeusz Mazowiecki (1927-2013) é um dos símbolos da democracia polaca e da Europa contemporânea. Não o conheci pessoalmente, mas fui amigo de dois dos seus mais próximos companheiros, Jacek Wosniakowski (membro do Centro Nacional de Cultura) e Bronislaw Geremek. Acompanhei, por isso, a sua ação muito de perto, também graças ao conhecimento de Adam Michnik, um antigo resistente duramente perseguido e um dos grandes jornalistas contemporâneos na «Gazeta Wyborcza». A vida e o pensamento deste homem permitem compreender como o fim da guerra fria e a queda do muro de Berlim puderam ser preparados e antecipados. É verdade que a eleição de João Paulo II como Sumo Pontífice em 1978 suscitou a aceleração dos acontecimentos, mas devemos dizer que sem a participação persistente dos intelectuais e leigos católicos polacos na defesa da liberdade nada teria sido possível. T. Mazowiecki foi um dos mais influentes políticos cristãos na preparação da democracia no centro e no leste da Europa. Foi um dos mais determinantes discípulos de Emmanuel Mounier (ao lado de Jacques Delors), que soube interpretar fielmente a defesa feita em 1932 na revista «Esprit» sobre a necessidade de os cristãos se associarem aos não cristãos na construção, na cidade terrestre, de uma sociedade aberta e solidária, livre e responsável, assente na eminente dignidade da pessoa humana. Tadeusz Mazowiecki nasceu em Plock (18.4.27), no coração da Polónia. Fez os seus estudos de Direito em Varsóvia, sendo profundamente influenciado pela doutrina social da Igreja. Começou por militar na associação política católica Pax, até ser dissolvida, participando depois de 1955 na criação do KIK (Clube de Intelectuais Católicos) e na fundação da influente revista «Wiez» (Elo), onde (sob a inspiração de Mounier) lança a reflexão que visa suscitar um ambiente capaz de contrariar a lógica totalitária, aproveitando as margens toleradas pelo regime. Assim, procura forçar uma evolução gradual das instituições, aproveitando a tímida abertura de Wladislaw Gomulka.

PREPARANDO A TRANSIÇÃO
Em 1961, é eleito para a Dieta como membro do grupo de deputados católicos independentes do Znak (ligados a uma prestigiada corrente de reflexão e a uma editora, que viria a ser dirigida por Wosniakowski). Compreende depressa que a abertura de Gomulka é débil e efémera. Em 1968, protesta contra a repressão dos estudantes, a vaga de antissemitismo orquestrada pelo poder e a invasão soviética da Checoslováquia. Conhece e apoia o jovem Adam Michnik, que acolhe, sob pseudónimo, na redação da revista «Wiez» – ao lado de outro inconformista, Jacek Kuron. Em 1970, sendo a abertura impossível, rompe definitivamente com o poder. Inicia-se um tempo difícil de provação e perseguições. Encontra de novo Michnik e Kuron no Comité de Defesa dos Operários (KOR), apoia as atividades do grupo, defende as vítimas da repressão e contribui para a criação das Universidades volantes. E chega o momento decisivo em que, em agosto de 1980, com Bronislaw Geremek vai ao encontro dos grevistas dos estaleiros de Gdansk. Esse episódio mudará o curso dos acontecimentos. Com Lech Walesa, lançam as bases do «Solidariedade» – o primeiro sindicato independente do mundo comunista. As vicissitudes são conhecidas. Na noite de 13 de dezembro de 1981, o general Jaruselski decreta o estado de sítio para destruir o Solidariedade, que passa à clandestinidade. Mazowiecki é preso. Só será libertado ao fim de um ano. Desenvolverá então intensa atividade clandestina – através da imprensa e de encontros informais. Segue atentamente a Perestroika de Gorbatchov. Até 1989, criar-se-ão as condições para a realização de negociações e para que se alcancem importantes acordos na Mesa-Redonda com as autoridades, que permitem a vitória eleitoral do «Solidariedade» e a nomeação de um católico como o primeiro Chefe do Governo não comunista no mundo coletivista. O Solidariedade é legalizado, podendo apresentar candidatos às eleições de 4 de junho de 1989. A vitória é esmagadora. Abre-se a porta ao que culminará, em 9 de novembro de 1989, na queda do muro de Berlim e no fim do poder soviético (1991). Nomeado primeiro-ministro, o antigo militante católico toma todas as precauções, para não pôr em causa a transição, uma vez que há uma coabitação com a velha guarda comunista e o general Jaruselski. Completa-se, assim, a nova vaga democrática iniciada em Portugal em 1974, segundo Samuel Huntington. O programa de Mazowiecki é complexo e simples: construir um Estado de direito, criar a economia social de mercado, fazer a Polónia sair da ruína e reunir-se à Europa. Para dirigir a reforma económica escolhe Leszek Balcenowicz, que põe em prática com sucesso a célebre «terapia de choque». Importaria salvaguardar os passos graduais e seguros, o que levou os caricaturistas a representarem Mazowiecki como a tartaruga da fábula. Assim, recusa a caça às bruxas e os ajustes de contas, o que o levará, mais tarde, a ser crítico de alguns companheiros. Então o Solidariedade divide-se e Mazowiecki apresenta-se contra Walesa na eleição presidencial de 1990, que este último vence. Apesar dessa contenda, L. Walesa, há dias, ao tomar conhecimento da morte de Mazowiecki considerou-o o melhor primeiro-ministro da democracia e um político exemplar de excecional honestidade.

POLÍTICA NO MAIS NOBRE SENTIDO
Em «Un Autre Visage de l’Europe», Mazowiecki fala da necessidade de uma política antipolítica, usando deste modo um jogo de palavras que, não pondo em causa a nobreza da política como responsabilidade cívica, a afasta totalmente da politiquice e dos jogos imediatistas. Foi essa a sua coerência, que o levou a afirmar que a política deve ser o lugar «onde respirar a verdade e poder fazer tudo pela verdade é um fator de liberdade». Cristão e católico de uma coerência exemplar, demitir-se-á mais tarde de relator especial da comissão de direitos humanos das Nações Unidas para a ex-Jugoslávia, ao verificar não poder tomar decisões que fossem relevantes e pudessem contribuir para a paz. Perante a falta de coragem das grandes potências confrontadas com a «odisseia trágica» dos muçulmanos em Srebenica, recusa-se a participar num processo aparente e ilusório, insuscetível de garantir a defesa e a salvaguarda dos direitos humanos (1995). Mazowiecki é o exemplo do cristão que não volta a cara às responsabilidades. Acreditou na força do «compromisso político» e deixou-nos, como outros cristãos (Giorgio La Pira e Robert Schuman), a demonstração de que o combate à indiferença exige uma responsabilidade cívica determinada (v. Guy Coq, «Mounier: o Compromisso Político», Gradiva).

Guilherme d’Oliveira Martins

Paixão de Ler 2013

«A Paixão de Ler», que decorre no Rio de Janeiro até amanhã, tem este ano como tema : «Vozes do nordeste: identidade, memória e contemporaneidade» e presta homenagem a Ariano Suassuna. A organização é da Secretaria Municipal de Cultura da cidade.

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A COR E A TEXTURA DE UMA FOLHA DE PAPEL EM BRANCO – Folhetim em Oito Episódios da autoria de Carlos Pessoa Rosa – Segundo Episódio

Além das crostas, gostava de brincar com as palavras, frases e sintaxes. Elas permitiam o jogo, mantinham o pouco que restou de sua individualidade. Levavam personagens para a rua e traziam pessoas para personagem. Assim foi com a vizinha, uma húngara corpulenta, loira de olhos claros, ancas saltando do corpo. Os indícios não deixavam dúvidas: ela tinha um caso com o motorista de táxi. O homem era um nordestino calado pelo intemperismo da vida, sempre bem-trajado, gel no cabelo, com costeletas bem-aparadas e rosto arredondado. Não dispensava o sapato marrom e branco e o chapéu caído sobre a testa. Trazia uma cicatriz no lado direito do pescoço. Ficava carrancudo quando lhe perguntavam o motivo. Ele a valorizava. Poucos sabiam que foi provocada por um acidente ainda na infância. Foi estourar uma bombinha dentro de uma garrafa e um caco quase lhe cortou a jugular. Imaginavam fruto de valentia de nordestino, de algum acerto de contas, coisas da deusa Fama em seu castelo cheio de orifícios que assopravam novidades ao mundo. A mulher caiu nas graças dele. Essas coisas de paixão desenfreada, sem muita explicação, que acontecem em romances, mas também na vida. De repente, ela trocou de marido, de roupa e de sorriso.

(continua)

A COR E A TEXTURA DE UMA FOLHA DE PAPEL EM BRANCO – Folhetim em Oito Episódios da autoria de Carlos Pessoa Rosa – Primeiro Episódio

Dedo indicador no nariz, o homem fuçou o buraco calmamente. Parou a ponta do dedo na frente dos olhos. Notou a estreiteza do campo visual, daí aproximar e afastar o dedo procurando o ponto de melhor foco. Estava envelhecendo. O cigarro deixou uma marca escura na unha e na pele ao redor dela. O corpo estranho foi analisado com a minúcia de um relojoeiro, como se fosse o primeiro. No fundo, a sombra de um homem não lhe despertou maior interesse.

Hábito antigo, gostava de passar o dia sentado no portão. Vez ou outra, ia bebericar na cozinha. Pinga de alambique, das boas, nunca desprezou. Aprendeu com o pai. Um gole só. Retornava esfregando as mãos e fazendo careta. Os olhos vermelhos e brilhantes fixavam o olhar no final da rua. Oferecia-lhe outro colorido. Há anos, aguardava da vida algo mais do que ser tetracampeão ou herói por ter sobrevivido às endemias, epidemias, desnutrição, doenças profissionais, atropelamentos e às chacinas. Mas um dia era imitação do outro: os mesmos rostos, indo e vindo, como o fole de um acordeão. O desemprego aumentado como praga. O tempo cada vez roubando mais o espaço. Construíram um prédio enorme na praça do bairro. Uma construção cheia de curvas e arcos. Dizia o italiano vizinho que imitavam a arte de sua cidade natal. Que importância teria se roubou o local onde ele jogava truco, xadrez e conversa fora? Desde então, o destino do italiano era uma velha cadeira de madeira no apertado da calçada. Gordo, as pernas inchadas transudam água.

(continua)

Astérix está de volta

No passado dia 24 de Outubro foi lançado Astérix entre os Pictos. Trata-se da nova aventura do herói gaulês, com argumento de Jean-Yves e ilustrações de Didier Conrad. A edição é da ASA.

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Sonangol apresentado

No passado dia 1 de Novembro, foi apresentado o Prémio Sonangol de Literatura. O prémio vai na décima segunda edição e é atribuído de cinco em cinco anos. Participam escritores de Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Guiné Bissau.

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Jorge Andrade em versão digital

Jorge Andrade foi reconhecido em vida, chegando a ser comparado com Nelson Rodrigues, como renovador do teatro brasileiro. Agora, a obra completa do dramaturgo será disponibilizada em formato e-book, no site da Amazon. Estará disponível a partir da próxima semana.

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