Soneto do Amor Total | Vinicius de Moraes

 

AMO-TE TANTO, meu amor… não cante
O humano coração com mais verdade…
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade
Amo-te, enfim, como grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo, de repente
Hei-de morrer de amar mais do que pude.

Vinicius de Moraes | O Operário em Construção

O Bicho-de-Sete-Cabeças | Carmen Zita Ferreira

História de uma eleição democrática
Edição/reimpressão: 2010
Editor: Trinta por uma linha
ISBN: 9789898213419
Sinopse | Plano Nacional de Leitura

Livro recomendado para apoio a projetos relacionados com a cidadania nos 3º, 4º, 5º e 6º anos de escolaridade.

Esta história é uma dessas que nos encanta e que ainda nos ensina como é importante ser bom, justo, humilde, determinado, honrado, sabedor e imparcial.

Lettre de George Sand à Alfred de Musset

Venise, 12 mai 1834

Non, mon enfant chéri, ces trois lettres ne sont pas le dernier serrement de main de l’amante qui te quitte, c’est l’embrassement du frère qui te reste. Ce sentiment-là est trop beau, trop pur, et trop doux, pour que j’éprouve jamais le besoin d’en finir avec lui. Que mon souvenir n’empoisonne aucune des jouissances de ta vie, mais ne laisse pas ces jouissances détruire et mépriser mon souvenir. Sois heureux, sois aimé. Comment ne le serais-tu pas ? Mais garde-moi dans un petit coin secret de ton coeur, et descends-y dans tes jours de tristesse pour y trouver une consolation, ou un encouragement.

Aime donc, mon Alfred, aime pour tout de bon.
Aime une femme jeune, belle, et qui n’ait pas encore aimé,
Ménage-la, et ne la fais pas souffrir.
Le coeur d’une femme est une chose si délicate
Quand ce n’est pas un glaçon ou une pierre !
Je crois qu’il n’y a guère de milieu
Et il n’y en a pas non plus
Dans ta manière d’aimer.
Ton âme est faite pour aimer ardemment,
Ou pour se dessécher tout à fait.

Tu l’as dit cent fois, et tu as eu beau t’en dédire
Rien, rien n’a effacé cette sentence-là,
Il n’y a au monde que l’amour
Qui soit quelque chose.

Peut-être m’as-tu aimée avec peine,
Pour aimer une autre avec abandon.
Peut-être celle qui viendra t’aimera-t-elle moins que moi,
Et peut-être sera-t-elle plus heureuse
Et plus aimée.

Peut-être ton dernier amour sera-t-il le plus romanesque et le plus jeune.
Mais ton coeur, mais ton bon coeur, ne le tue pas, je t’en prie.
Qu’il se mette tout entier
Dans toutes les amours de ta vie,
afin qu’un jour tu puisses regarder en arrière
Et dire comme moi, j’ai souffert souvent,
Je me suis trompé quelquefois
Mais j’ai aimé.

Link: http://www.vagalume.com.br/celine-dion/lettre-de-george-sand-a-alfred-de-musset.html#ixzz381oSMziS

A Causa Secreta | Machado de Assis

Garcia, em pé, mirava e estalava as unhas; Fortunato, na cadeira de balanço,
olhava para o tecto; Maria Luísa, perto da janela, concluía um trabalho de agulha.
Havia já cinco minutos que nenhum deles dizia nada. Tinham falado do dia, que
estivera excelente, — de Catumbi, onde morava o casal Fortunato, e de uma casa
de saúde, que adiante se explicará. Como os três personagens aqui presentes estão
agora mortos e enterrados, tempo é de contar a história sem rebuço.
Tinham falado também de outra cousa, além daquelas três, cousa tão feia e
grave, que não lhes deixou muito gosto para tratar do dia, do bairro e da casa de
saúde. Toda a conversação a este respeito foi constrangida. Agora mesmo, os
dedos de Maria Luísa parecem ainda trêmulos, ao passo que há no rosto de Garcia
uma expressão de severidade, que lhe não é habitual. Em verdade, o que se passou
foi de tal natureza, que para fazê-lo entender é preciso remontar à origem da
situação.

Garcia tinha-se formado em medicina, no ano anterior, 1861. No de 1860,
estando ainda na Escola, encontrou-se com Fortunato, pela primeira vez, à porta da
Santa Casa; entrava, quando o outro saía. Fez-lhe impressão a figura; mas, ainda
assim, tê-la-ia esquecido, se não fosse o segundo encontro, poucos dias depois.
Morava na rua de D. Manoel. Uma de suas raras distrações era ir ao teatro de S.
Januário, que ficava perto, entre essa rua e a praia; ia uma ou duas vezes por mês,
e nunca achava acima de quarenta pessoas. Só os mais intrépidos ousavam
estender os passos até aquele recanto da cidade. Uma noite, estando nas cadeiras,
apareceu ali Fortunato, e sentou-se ao pé dele.
A peça era um dramalhão, cosido a facadas, ouriçado de imprecações e
remorsos; mas Fortunato ouvia-a com singular interesse. Nos lances dolorosos, a
atenção dele redobrava, os olhos iam avidamente de um personagem a outro, a tal
ponto que o estudante suspeitou haver na peça reminiscências pessoais do vizinho.
No fim do drama, veio uma farsa; mas Fortunato não esperou por ela e saiu; Garcia
saiu atrás dele. Fortunato foi pelo beco do Cotovelo, rua de S. José, até o largo da
Carioca. Ia devagar, cabisbaixo, parando às vezes, para dar uma bengalada em
algum cão que dormia; o cão ficava ganindo e ele ia andando. No largo da Carioca
entrou num tílburi, e seguiu para os lados da praça da Constituição. Garcia voltou
para casa sem saber mais nada.

Decorreram algumas semanas. Uma noite, eram nove horas, estava em casa,
quando ouviu rumor de vozes na escada; desceu logo do sótão, onde morava, ao
primeiro andar, onde vivia um empregado do arsenal de guerra. Era este que alguns
homens conduziam, escada acima, ensangüentado. O preto que o servia acudiu a
abrir a porta; o homem gemia, as vozes eram confusas, a luz pouca. Deposto o
ferido na cama, Garcia disse que era preciso chamar um médico.

— Já aí vem um, acudiu alguém.

Garcia olhou: era o próprio homem da Santa Casa e do teatro. Imaginou que
seria parente ou amigo do ferido; mas rejeitou a suposição, desde que lhe ouvira
perguntar se este tinha família ou pessoa próxima. Disse-lhe o preto que não, e ele
assumiu a direção do serviço, pediu às pessoas estranhas que se retirassem, pagou
aos carregadores, e deu as primeiras ordens. Sabendo que o Garcia era vizinho e
estudante de medicina pediu-lhe que ficasse para ajudar o médico. Em seguida
contou o que se passara.
— Foi uma malta de capoeiras. Eu vinha do quartel de Moura, onde fui visitar
um primo, quando ouvi um barulho muito grande, e logo depois um ajuntamento.
Parece que eles feriram também a um sujeito que passava, e que entrou por um
daqueles becos; mas eu só vi a este senhor, que atravessava a rua no momento em
que um dos capoeiras, roçando por ele, meteu-lhe o punhal. Não caiu logo; disse
onde morava e, como era a dois passos, achei melhor trazê-lo.
— Conhecia-o antes? perguntou Garcia.
— Não, nunca o vi. Quem é?
— É um bom homem, empregado no arsenal de guerra. Chama-se Gouveia.
— Não sei quem é.
Médico e subdelegado vieram daí a pouco; fez-se o curativo, e tomaram-se as
informações. O desconhecido declarou chamar-se Fortunato Gomes da Silveira, ser
capitalista, solteiro, morador em Catumbi. A ferida foi reconhecida grave. Durante o
curativo ajudado pelo estudante, Fortunato serviu de criado, segurando a bacia, a
vela, os panos, sem perturbar nada, olhando friamente para o ferido, que gemia
muito. No fim, entendeu-se particularmente com o médico, acompanhou-o até o
patamar da escada, e reiterou ao subdelegado a declaração de estar pronto a
auxiliar as pesquisas da polícia. Os dous saíram, ele e o estudante ficaram no
quarto.
Garcia estava atônito. Olhou para ele, viu-o sentar-se tranqüilamente, estirar
as pernas, meter as mãos nas algibeiras das calças, e fitar os olhos no ferido. Os
olhos eram claros, cor de chumbo, moviam-se devagar, e tinham a expressão dura,
seca e fria. Cara magra e pálida; uma tira estreita de barba, por baixo do queixo, e
de uma têmpora a outra, curta, ruiva e rara. Teria quarenta anos. De quando em
quando, voltava-se para o estudante, e perguntava alguma coisa acerca do ferido;
mas tornava logo a olhar para ele, enquanto o rapaz lhe dava a resposta. A
sensação que o estudante recebia era de repulsa ao mesmo tempo que de
curiosidade; não podia negar que estava assistindo a um ato de rara dedicação, e se
era desinteressado como parecia, não havia mais que aceitar o coração humano
como um poço de mistérios.
Fortunato saiu pouco antes de uma hora; voltou nos dias seguintes, mas a
cura fez-se depressa, e, antes de concluída, desapareceu sem dizer ao obsequiado
onde morava. Foi o estudante que lhe deu as indicações do nome, rua e número.
— Vou agradecer-lhe a esmola que me fez, logo que possa sair, disse o
convalescente.
Correu a Catumbi daí a seis dias. Fortunato recebeu-o constrangido, ouviu
impaciente as palavras de agradecimento, deu-lhe uma resposta enfastiada e
acabou batendo com as borlas do chambre no joelho. Gouveia, defronte dele,
sentado e calado, alisava o chapéu com os dedos, levantando os olhos de quando
em quando, sem achar mais nada que dizer. No fim de dez minutos, pediu licença
para sair, e saiu.
— Cuidado com os capoeiras! disse-lhe o dono da casa, rindo-se.
O pobre-diabo saiu de lá mortificado, humilhado, mastigando a custo o
desdém, forcejando por esquecê-lo, explicá-lo ou perdoá-lo, para que no coração só
ficasse a memória do benefício; mas o esforço era vão. O ressentimento, hóspede
novo e exclusivo, entrou e pôs fora o benefício, de tal modo que o desgraçado não
teve mais que trepar à cabeça e refugiar-se ali como uma simples idéia. Foi assim
que o próprio benfeitor insinuou a este homem o sentimento da ingratidão.
Tudo isso assombrou o Garcia. Este moço possuía, em gérmen, a faculdade
de decifrar os homens, de decompor os caracteres, tinha o amor da análise, e sentia
o regalo, que dizia ser supremo, de penetrar muitas camadas morais, até apalpar o
segredo de um organismo. Picado de curiosidade, lembrou-se de ir ter com o
homem de Catumbi, mas advertiu que nem recebera dele o oferecimento formal da
casa. Quando menos, era-lhe preciso um pretexto, e não achou nenhum.
Tempos depois, estando já formado e morando na rua de Matacavalos, perto
da do Conde, encontrou Fortunato em uma gôndola, encontrou-o ainda outras
vezes, e a freqüência trouxe a familiaridade. Um dia Fortunato convidou-o a ir visitá-
lo ali perto, em Catumbi.
— Sabe que estou casado?
— Não sabia.
— Casei-me há quatro meses, podia dizer quatro dias. Vá jantar conosco
domingo.
— Domingo?
— Não esteja forjando desculpas; não admito desculpas. Vá domingo.
Garcia foi lá domingo. Fortunato deu-lhe um bom jantar, bons charutos e boa
palestra, em companhia da senhora, que era interessante. A figura dele não mudara;
os olhos eram as mesmas chapas de estanho, duras e frias; as outras feições não
eram mais atraentes que dantes. Os obséquios, porém, se não resgatavam a
natureza, davam alguma compensação, e não era pouco. Maria Luísa é que possuía
ambos os feitiços, pessoa e modos. Era esbelta, airosa, olhos meigos e submissos;
tinha vinte e cinco anos e parecia não passar de dezenove. Garcia, à segunda vez
que lá foi, percebeu que entre eles havia alguma dissonância de caracteres, pouca
ou nenhuma afinidade moral, e da parte da mulher para com o marido uns modos
que transcendiam o respeito e confinavam na resignação e no temor. Um dia,
estando os três juntos, perguntou Garcia a Maria Luísa se tivera notícia das
circunstâncias em que ele conhecera o marido.
— Não, respondeu a moça.
— Vai ouvir uma ação bonita.
— Não vale a pena, interrompeu Fortunato.
— A senhora vai ver se vale a pena, insistiu o médico.
Contou o caso da rua de D. Manoel. A moça ouviu-o espantada.
Insensivelmente estendeu a mão e apertou o pulso ao marido, risonha e agradecida,
como se acabasse de descobrir-lhe o coração. Fortunato sacudia os ombros, mas
não ouvia com indiferença. No fim contou ele próprio a visita que o ferido lhe fez,
com todos os pormenores da figura, dos gestos, das palavras atadas, dos silêncios,
em suma, um estúrdio. E ria muito ao contá-la. Não era o riso da dobrez. A dobrez é
evasiva e oblíqua; o riso dele era jovial e franco
” Singular homem!” pensou Garcia.
Maria Luísa ficou desconsolada com a zombaria do marido; mas o médico
restituiu-lhe a satisfação anterior, voltando a referir a dedicação deste e as suas
raras qualidades de enfermeiro; tão bom enfermeiro, concluiu ele, que, se algum dia
fundar uma casa de saúde, irei convidá-lo.
— Valeu? perguntou Fortunato.
— Valeu o quê?
— Vamos fundar uma casa de saúde?
— Não valeu nada; estou brincando.
— Podia-se fazer alguma cousa; e para o senhor, que começa a clínica, acho
que seria bem bom. Tenho justamente uma casa que vai vagar, e serve.
Garcia recusou nesse e no dia seguinte; mas a idéia tinha-se metido na
cabeça ao outro, e não foi possível recuar mais. Na verdade, era uma boa estréia
para ele, e podia vir a ser um bom negócio para ambos. Aceitou finalmente, daí a
dias, e foi uma desilusão para Maria Luísa. Criatura nervosa e frágil, padecia só com
a idéia de que o marido tivesse de viver em contato com enfermidades humanas,
mas não ousou opor-se-lhe, e curvou a cabeça. O plano fez-se e cumpriu-se
depressa. Verdade é que Fortunato não curou de mais nada, nem então, nem
depois. Aberta a casa, foi ele o próprio administrador e chefe de enfermeiros,
examinava tudo, ordenava tudo, compras e caldos, drogas e contas.
Garcia pôde então observar que a dedicação ao ferido da rua D. Manoel não
era um caso fortuito, mas assentava na própria natureza deste homem. Via-o servir
como nenhum dos fâmulos. Não recuava diante de nada, não conhecia moléstia
aflitiva ou repelente, e estava sempre pronto para tudo, a qualquer hora do dia ou da
noite. Toda a gente pasmava e aplaudia. Fortunato estudava, acompanhava as
operações, e nenhum outro curava os cáusticos.
— Tenho muita fé nos cáusticos, dizia ele.
A comunhão dos interesses apertou os laços da intimidade. Garcia tornou-se
familiar na casa; ali jantava quase todos os dias, ali observava a pessoa e a vida de
Maria Luísa, cuja solidão moral era evidente. E a solidão como que lhe duplicava o
encanto. Garcia começou a sentir que alguma coisa o agitava, quando ela aparecia,
quando falava, quando trabalhava, calada, ao canto da janela, ou tocava ao piano
umas músicas tristes. Manso e manso, entrou-lhe o amor no coração. Quando deu
por ele, quis expeli-lo para que entre ele e Fortunato não houvesse outro laço que o
da amizade; mas não pôde. Pôde apenas trancá-lo; Maria Luísa compreendeu
ambas as coisas, a afeição e o silêncio, mas não se deu por achada.
No começo de outubro deu-se um incidente que desvendou ainda mais aos
olhos do médico a situação da moça. Fortunato metera-se a estudar anatomia e
fisiologia, e ocupava-se nas horas vagas em rasgar e envenenar gatos e cães.
Como os guinchos dos animais atordoavam os doentes, mudou o laboratório para
casa, e a mulher, compleição nervosa, teve de os sofrer. Um dia, porém, não
podendo mais, foi ter com o médico e pediu-lhe que, como cousa sua, alcançasse do
marido a cessação de tais experiências.
— Mas a senhora mesma…
Maria Luísa acudiu, sorrindo:
— Ele naturalmente achará que sou criança. O que eu queria é que o senhor,
como médico, lhe dissesse que isso me faz mal; e creia que faz…
Garcia alcançou prontamente que o outro acabasse com tais estudos. Se os
foi fazer em outra parte, ninguém o soube, mas pode ser que sim. Maria Luísa
agradeceu ao médico, tanto por ela como pelos animais, que não podia ver padecer.
Tossia de quando em quando; Garcia perguntou-lhe se tinha alguma coisa, ela
respondeu que nada.
— Deixe ver o pulso.
— Não tenho nada.
Não deu o pulso, e retirou-se. Garcia ficou apreensivo. Cuidava, ao contrário,
que ela podia ter alguma coisa, que era preciso observá-la e avisar o marido em
tempo.
Dois dias depois, — exatamente o dia em que os vemos agora, — Garcia foi
lá jantar. Na sala disseram-lhe que Fortunato estava no gabinete, e ele caminhou
para ali; ia chegando à porta, no momento em que Maria Luísa saía aflita.
— Que é? perguntou-lhe.
— O rato! O rato! exclamou a moça sufocada e afastando-se.
Garcia lembrou-se que na véspera ouvira ao Fortunado queixar-se de um
rato, que lhe levara um papel importante; mas estava longe de esperar o que viu. Viu
Fortunato sentado à mesa, que havia no centro do gabinete, e sobre a qual pusera
um prato com espírito de vinho. O líquido flamejava. Entre o polegar e o índice da
mão esquerda segurava um barbante, de cuja ponta pendia o rato atado pela cauda.
Na direita tinha uma tesoura. No momento em que o Garcia entrou, Fortunato
cortava ao rato uma das patas; em seguida desceu o infeliz até a chama, rápido,
para não matá-lo, e dispôs-se a fazer o mesmo à terceira, pois já lhe havia cortado a
primeira. Garcia estacou horrorizado.
— Mate-o logo! disse-lhe.
— Já vai.
E com um sorriso único, reflexo de alma satisfeita, alguma coisa que traduzia
a delícia íntima das sensações supremas, Fortunato cortou a terceira pata ao rato, e
fez pela terceira vez o mesmo movimento até a chama. O miserável estorcia-se,
guinchando, ensangüentado, chamuscado, e não acabava de morrer. Garcia
desviou os olhos, depois voltou-os novamente, e estendeu a mão para impedir que o
suplício continuasse, mas não chegou a fazê-lo, porque o diabo do homem impunha
medo, com toda aquela serenidade radiosa da fisionomia. Faltava cortar a última
pata; Fortunato cortou-a muito devagar, acompanhando a tesoura com os olhos; a
pata caiu, e ele ficou olhando para o rato meio cadáver. Ao descê-lo pela quarta vez,
até a chama, deu ainda mais rapidez ao gesto, para salvar, se pudesse, alguns
farrapos de vida.
Garcia, defronte, conseguia dominar a repugnância do espetáculo para fixar a
cara do homem. Nem raiva, nem ódio; tão-somente um vasto prazer, quieto e
profundo, como daria a outro a audição de uma bela sonata ou a vista de uma
estátua divina, alguma coisa parecida com a pura sensação estética. Pareceu-lhe, e
era verdade, que Fortunato havia-o inteiramente esquecido. Isto posto, não estaria
fingindo, e devia ser aquilo mesmo. A chama ia morrendo, o rato podia ser que
tivesse ainda um resíduo de vida, sombra de sombra; Fortunato aproveitou-o para
cortar-lhe o focinho e pela última vez chegar a carne ao fogo. Afinal deixou cair o
cadáver no prato, e arredou de si toda essa mistura de chamusco e sangue.
Ao levantar-se deu com o médico e teve um sobressalto. Então, mostrou-se
enraivecido contra o animal, que lhe comera o papel; mas a cólera evidentemente
era fingida.
“Castiga sem raiva”, pensou o médico, “pela necessidade de achar uma
sensação de prazer, que só a dor alheia lhe pode dar: é o segredo deste homem”.
Fortunato encareceu a importância do papel, a perda que lhe trazia, perda de
tempo, é certo, mas o tempo agora era-lhe preciosíssimo. Garcia ouvia só, sem dizer
nada, nem lhe dar crédito. Relembrava os atos dele, graves e leves, achava a
mesma explicação para todos. Era a mesma troca das teclas da sensibilidade, um
diletantismo sui generis, uma redução de Calígula.
Quando Maria Luísa voltou ao gabinete, daí a pouco, o marido foi ter com ela,
rindo, pegou-lhe nas mãos e falou-lhe mansamente:
— Fracalhona!
E voltando-se para o médico:
— Há de crer que quase desmaiou?
Maria Luísa defendeu-se a medo, disse que era nervosa e mulher; depois foi
sentar-se à janela com as suas lãs e agulhas, e os dedos ainda trêmulos, tal qual a
vimos no começo desta história. Hão de lembrar-se que, depois de terem falado de
outras coisas, ficaram calados os três, o marido sentado e olhando para o teto, o
médico estalando as unhas. Pouco depois foram jantar; mas o jantar não foi alegre.
Maria Luísa cismava e tossia; o médico indagava de si mesmo se ela não estaria
exposta a algum excesso na companhia de tal homem. Era apenas possível; mas o
amor trocou-lhe a possibilidade em certeza; tremeu por ela e cuidou de os vigiar.
Ela tossia, tossia, e não se passou muito tempo que a moléstia não tirasse a
máscara. Era a tísica, velha dama insaciável, que chupa a vida toda, até deixar um
bagaço de ossos. Fortunato recebeu a notícia como um golpe; amava deveras a
mulher, a seu modo, estava acostumado com ela, custava-lhe perdê-la. Não poupou
esforços, médicos, remédios, ares, todos os recursos e todos os paliativos. Mas foi
tudo vão. A doença era mortal.
Nos últimos dias, em presença dos tormentos supremos da moça, a índole do
marido subjugou qualquer outra afeição. Não a deixou mais; fitou o olho baço e frio
naquela decomposição lenta e dolorosa da vida, bebeu uma a uma as aflições da
bela criatura, agora magra e transparente, devorada de febre e minada de morte.
Egoísmo aspérrimo, faminto de sensações, não lhe perdoou um só minuto de
agonia, nem lhos pagou com uma só lágrima, pública ou íntima. Só quando ela
expirou, é que ele ficou aturdido. Voltando a si, viu que estava outra vez só.
De noite, indo repousar uma parenta de Maria Luísa, que a ajudara a morrer,
ficaram na sala Fortunato e Garcia, velando o cadáver, ambos pensativos; mas o
próprio marido estava fatigado, o médico disse-lhe que repousasse um pouco.
— Vá descansar, passe pelo sono uma hora ou duas: eu irei depois.
Fortunato saiu, foi deitar-se no sofá da saleta contígua, e adormeceu logo.
Vinte minutos depois acordou, quis dormir outra vez, cochilou alguns minutos, até
que se levantou e voltou à sala. Caminhava nas pontas dos pés para não acordar a
parenta, que dormia perto. Chegando à porta, estacou assombrado.
Garcia tinha-se chegado ao cadáver, levantara o lenço e contemplara por
alguns instantes as feições defuntas. Depois, como se a morte espiritualizasse tudo,
inclinou-se e beijou-a na testa. Foi nesse momento que Fortunato chegou à porta.
Estacou assombrado; não podia ser o beijo da amizade, podia ser o epílogo de um
livro adúltero. Não tinha ciúmes, note-se; a natureza compô-lo de maneira que lhe
não deu ciúmes nem inveja, mas dera-lhe vaidade, que não é menos cativa ao
ressentimento.
Olhou assombrado, mordendo os beiços.
Entretanto, Garcia inclinou-se ainda para beijar outra vez o cadáver; mas
então não pôde mais. O beijo rebentou em soluços, e os olhos não puderam conter
as lágrimas, que vieram em borbotões, lágrimas de amor calado, e irremediável
desespero. Fortunato, à porta, onde ficara, saboreou tranqüilo essa explosão de dor
moral que foi longa, muito longa, deliciosamente longa.

FIM

Fortaleza | I Seminário Pesquisas em Cultura

Fortaleza sedia o I Seminário Pesquisas em Cultura. Entre amanhã, 15, e quarta, 16, o evento reune pesquisadores, gestores e artistas em torno do debate sobre gestão e produção cultural no Brasil.

Quais as diferenças entre as políticas culturais debatidas no meio acadêmico e a realidade vivenciada pelos produtores e artistas? Os gestores públicos levam em consideração as reflexões dos pesquisadores em cultura? A partir de questões como essas, o I Seminário Pesquisas em Cultura pretende discutir a relação entre as pesquisas acadêmicas e o mercado da produção cultural, amanhã (no auditório do Porto Iracema das Artes) e quarta, 16 (no Centro Dragão do Mar).

Procultura, Lei Rouanet, Sistema Nacional de Cultura, blocos de maracatu e festejos juninos são alguns dos temas a serem tratados no evento, que tem como convidada de destaque a historiadora Lia Calabre. Ela é chefe do setor de Estudos de Políticas Públicas de Cultura da Fundação Casa de Rui Barbosa, instituição de fomento à cultura com sede no Rio de Janeiro. A pesquisadora ministrará a palestra de abertura do seminário com o tema “Políticas Culturais Locais e o Sistema Nacional de Cultura: proposição de estudos”.

Em entrevista a O POVO, Lia Calabre antecipa a discussão e comenta sobre alternativas para os modelos de gestão cultural que existem nos dias de hoje. “Muitos estados e municípios vêm buscando se adaptar a um modelo mais democrático e participativo da cultura, que tem em sua base a existência de um conselho de política, a realização de conferências de cultura e a criação de um fundo”, pontua.

Embora perceba um crescimento dos estudos sobre políticas culturais, Lia Calabre afirma que ainda há resistência, por parte dos gestores públicos, no convite a uma maior participação da sociedade civil. “O compartilhamento do poder com conselhos de políticas com alto grau de participação social ainda não é bem visto pelo conjunto da classe política”, diz Lia. “A sociedade precisa se democratizar, a luta pelos direitos tem que reocupar a pauta dos movimentos sociais. Estamos em meio a um lento processo de transformação de cultura política”, completa.

E os gestores?

Como então aproximar o meio acadêmico e a realidade vivenciada pelos produtores, gestores e artistas? Paulo Mamede, secretário de Cultura do Ceará, afirma ser importante considerar que a pesquisa serve de suporte e referência e dá entendimento mais amplo do cenário cultural.

“O conhecimento da política cultural permite um melhor planejamento, execução e avaliação da implementação”, diz Mamede.

Quando perguntado sobre a relação entre pesquisa teórica e a prática das políticas culturais, Paulo Linhares, presidente do Instituto Dragão do Mar, é categórico. “Não existe, como imaginam os leigos, uma separação entre campo teórico e mundo prático. Na teoria, a prática é outra. Ou seja: a teoria organiza o pensamento e as práticas. Assim, a formação em gestão cultural exige que se entenda o campo cultural em termos de linguagens, tecnologias e organização social”, diz.

Já para Magela Lima, secretário de cultura de Fortaleza, a “reflexão intelectual é fundamental para subverter os limites que a vida prática impõe, como orçamentos e legislações”. O gestor pontua que quanto “maior o volume de pesquisas desenvolvidas, maior é o cenário de possibilidades que se coloca, o que é sempre bem-vindo, sobretudo num setor de fragilidades e desafios tão expressivos como a gestão pública da cultura.”

http://www.opovo.com.br/app/opovo/vidaearte/2014/07/14/noticiasjornalvidaearte,3281221/a-arte-da-politica-cultural.shtml … (FONTE)

Sarau da Onça vai à 23ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo

A antologia “O Diferencial da Favela: poesias quebradas de quebrada”, organizada pela equipe que realiza o Sarau da Onça é composta de poemas de 50 autores de Salvador e será lançada no estande da União Brasileira de Escritores (UBE), dia 24 de agosto de 2014, a partir das 16horas, durante a 23ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo. Estarão presentes Sandro Sussuarana e Valdeck Almeida de Jesus (editora Galinha Pulando), organizador e editor, respectivamente.

A obra literária tem capa ilustrada por Zezé Olukemi e fez parte do I Festival de Arte e Cultura que o Sarau da Onça, projeto selecionado no edital “Arte em Toda Parte”, em 2013, patrocinado pela Fundação Gregório de Matos, ligada à Secretaria de Desenvolvimento, Turismo e Cultura da Cidade do Salvador.

Os poetas do livro são Denisson Palumbo, Jairo Pinto, Gleise Silva Sousa, Alan Felix, Marconi Machado, Paulo Vendaval, Silvana Oliveira, Varenka de Fátima Araújo, William Silva, Sidney Fortes, Renato Almeida, Raphael Mukumbi, Audelina Macieira, Carlos Daliga, Cleidinalva, Cristiano Sousa, Crispin, Ednaldo Muniz, Evanilson Alves dos Santos, Gonesa Gonçalves, Sandro Sussuarana, Sil Kaiala, Valter Bitencourt Junior, Rodrigo Gomes da Silva, Vanessa Cruz, Osmar Junior, Maria da Hora, Luiz Menezes de Miranda, Joyce Melo, Heider Santos Gonzaga, Adalmir Chabi, Verônica Soares, Alaíde Santana, Egerce, Gildásio Barreto, Hildete Monte Verde, Giovane Sobrevivente, Jacquinha Nogueira, Leandro Mota, Joane Macieira, Jefferson Mirnauivitã, Fábio Haendel, Lane Silva, Jocevaldo Santiago, Luciana Ribeiro, Jorge Augusto, Maiara dos Anjos Silva, Josémário: O Poeta Caipira, Marcelo Oliveira e Renata Rabelo.

Foram destacadas as Menções Honrosas aos textos: Brazileiro – Alan Felix, Pena da Sorte – Fábio Haendel, Berimbau Barroco – Denisson Palumbo, Convidativo – Renato Almeida, Quilombo Rio Dos Macacos – Paulo Vendaval, Feice buzuk – Vanessa Cruz, Intimidade – Hildete Monte Verde, Tia Anastácia – Giovane Sobrevivente, Mundo paralelo – Heider Gonzaga, Prenda-me – Sil Kaiala.

Coordenado pelo estudante de Serviço Social Sandro Ribeiro dos Santos (Sandro Sussuarana), o Sarau da Onça atua em Sussuarana nas dependências do Espaço CENPAH – Centro de Pastoral Afro, pertencente à Paróquia São Daniel Comboni, em Salvador-BA. A cada quinze dias são realizados saraus, apresentações musicais, leituras poéticas e canjas de hip hop e outras atividades culturais.

Serviço
O que: Lançamento do livro “O diferencial da favela. Poesias quebradas de quebrada”
Quando: 24 de agosto de 2014, às 16hs
Onde: Estande da União Brasileira de Escritores (UBE) – 23ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo
Fones: 71 8454 8187 e 71 9345 5255
Editora: Galinha Pulando – ISBN: 978.85.66465.12.9
Páginas: 115
Assessoria de Imprensa: Valdeck Almeida de Jesus, 71 9345 5255

A belle époque na coleção de cardápios de Bilac

A pesquisadora Lúcia Garcia escolheu a coleção de cardápios do poeta Olavo Bilac como seu objeto de estudo em busca de reflexos da vida cotidiana que se espraiava pelos lugares frequentados pela elite carioca às vésperas do fim do Segundo Reinado e nos anos iniciais da República

Adelto Gonçalves
Especial para o Jornal Opção

Atribui-se a Lucien Fe­bvre (1878-1956), fundador da Escola dos An­na­les, a ideia segundo a qual a História poderia ser contada a partir da escolha de novos objetos de estudos, o que constituiu uma revolução na historiografia, tal foi o número de trabalhos que se seguiram a partir da década de 1950 com recortes específicos. Deixou-se de lado a concepção tradicional que marcou os livros de História até então, baseados nos feitos dos grandes nomes — reis, presidentes, primeiros-ministros, governadores. Hoje, um livro que siga esse modelo é visto como quinquilharia de museu, a tal ponto que um autor chegou a ser acusado pejorativamente na universidade de candidato a membro de algum instituto histórico.

É claro que a História vista em mí­nimos detalhes é sempre mais interessante do que aquela que se baseia nos feitos dos “grandes”. O problema é encontrar nos arquivos resquícios do que pensaram ou disseram aqueles que eram iletrados e, portanto, não deixaram registros de suas vivências, queixas, emoções ou anseios. Quer se queira ou não, a His­tória sempre será escrita a partir da visão dos letrados, daqueles que dei­xaram registro do que viram e viveram, refletindo obrigatoriamente a visão de mundo da classe dominante.

Para uma História da Belle Époque: A Coleção de Cardápios de Olavo Bilac

Mas a que vêm estas reflexões? Vêm a propósito do livro “Para uma História da Belle Époque: A Coleção de Cardápios de Olavo Bilac”, de Lúcia Garcia, com prefácio do poeta e ensaísta Alberto da Costa e Silva, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras e ex-embaixador do Brasil em Portugal, Nigéria, Benim, Colômbia e Paraguai.

A partir da ideia de Febvre, Lúcia Garcia escolheu a coleção de cardápios do poeta Olavo Bilac (1865-1918), que faz parte do acervo da Academia Brasileira de Letras, como seu objeto de estudo em busca de reflexos da vida cotidiana que se espraiava pelos lugares frequentados pela elite carioca às vésperas do fim do Segundo Reinado e nos anos iniciais da República. Aliás, como observa Lúcia Garcia, Bilac, certamente, colecionava menus dos almoços, jantares e banquetes festivos de que participava no Brasil e no mundo.

É de assinalar que, como explica a autora, a palavra cardápio é um neologismo criado pelo filólogo Antônio de Castro Lopes (1827-1901) na década de 1890 para substituir a palavra francesa menu que, a rigor, significa miúdo e não tem em português equivalente, pelo menos no sentido de almoço, jantar ou ceia.

Diz a pesquisadora ainda que Bilac “preservava os cardápios para revisitar os momentos vividos, em benefício da memória, como antídoto ao esquecimento”. Entre os cardápios reproduzidos estão alguns de banquetes em homenagem ao próprio poeta, homem célebre ao seu tempo, e outros que celebravam o IV Centenário do Descobrimento do Brasil, a visita ao Rio de Janeiro da famosa atriz italiana Tina Di Lorenzo (1872-1930) e acontecimentos diversos.

Nos menus, acrescenta a pesquisadora, estão presentes as confeitarias Pascoal e Colombo, entre outros estabelecimentos comerciais conhecidos e frequentados pela classe dominante no Rio de Janeiro no início do século 20. Como diz Lúcia Garcia, a extensa coleção doada à ABL por Bilac, ou por seus familiares, revela a rede de sociabilidade do escritor, quer pela indicação do anfitrião, quer pela assinatura dos comensais. A essa época, é de ressaltar que havia uma “febre” entre as pessoas bem-postas na vida de colecionar autógrafos e cartões postais.

Olavo Bilac preservava os cardápios para revisitar os momentos vividos, em benefício da memória, como antídoto ao esquecimento

Como diz Alberto da Costa e Silva no prefácio, esta coleção revela como novos padrões se iam popularizando no País e, como pela lista de pratos, afrancesavam-se cada vez mais as elites. A partir daí, Costa e Silva imagina o que se conversava à época os vizinhos de mesa, já que ecos dessas tertúlias não ficaram, a não ser esparsamente em crônicas, como as que Machado de Assis (1839-1908) e mesmo Bilac assinavam nos grandes jornais.

Diz: “É provável que, num almoço, se discutisse a abertura da Avenida Central pelo prefeito Pereira Passos ou a campanha sanitária de Oswaldo Cruz”. E acrescenta mais adiante: “Pois ainda havia quem não tivesse saído do assombro ou se acostumado, de alma rendida, à aspirina, à lâmpada elétrica, ao telégrafo, ao cabo submarino, do rádio, ao telefone, ao navio a vapor com hélice e casco de ferro, ao motor de combustão interna, ao automóvel com pneu de câmara de ar, às máquinas voadoras, aos raios-X, ao cinematógrafo e à partilha da África e de parte da Ásia entre as potências europeias”.

Da coleção constam ainda fotografias de um almoço — do qual não restou o cardápio — na década de 1910 na fazenda em Lou­vei­ra, no interior do Estado de São Paulo, de Júlio Mesquita (1862-1927), fundador e proprietário do jornal “O Estado de S. Paulo”, do qual Bilac também era colaborador. De notar, como assinala a pesquisadora, é que Bilac nas fotografias sempre fazia questão de aparecer de perfil. É essa também uma rara foto em que aparece alguém das classes menos favorecidas, o cozinheiro da fazenda de Mesquita, sentado meio a contragosto e sem jeito no primeiro degrau de uma escada à frente dos demais.

Lúcia Garcia (1979) é doutora e mestre em História Po­lítica pela Universidade do Es­tado do Rio de Janeiro. Partici­pou de vários projetos de pesquisa histórica documental e iconográfica nos últimos anos, tendo colaborado como consultora na “Comissão para as comemorações do bicentenário da chegada de D. João ao Rio de Janeiro” (Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro).
É autora de “Euclides Da Cu­nha: Escritor por Aci­dente e Repórter do Ser­tão” (São Pau­­lo, Companhia das Letras), “A Transferência da Família Real para o Brasil 1808 2008”, com outros autores (Lisboa: Tribuna da His­tória), “Rio e Lisboa: Construções de um Império” (Lisboa: Câmara Muni­cipal) e “Documentos Oito­centistas da Biblioteca Nacional”, coautoria de Lilia Schwarcz (Rio de Janeiro, Bi­bli­o­teca Nacional). É coautora de “Im­presso no Brasil: Desta­ques da His­tória Gráfica”, organizado por Rafael Car­doso (Rio de Janeiro: Verso Brasil).

Adelto Gonçalves, mestre em Língua Espanhola e Literatura Espanhola e Hispanoamericana e doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo.

Os Homens Ocos | T. S. Eliot

Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada

Fôrma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;

Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam — se o fazem — não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.

II

Os olhos que temo encontrar em sonhos
No reino de sonho da morte
Estes não aparecem:
Lá, os olhos são como a lâmina
Do sol nos ossos de uma coluna
Lá, uma árvore brande os ramos
E as vozes estão no frêmito
Do vento que está cantando
Mais distantes e solenes
Que uma estrela agonizante.

Que eu demais não me aproxime
Do reino de sonho da morte
Que eu possa trajar ainda
Esses tácitos disfarces
Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas
E comportar-me num campo
Como o vento se comporta
Nem mais um passo

— Não este encontro derradeiro
No reino crepuscular

Albert Camus, pensée du jour

Le vrai désespoir ne naît pas devant une adversité obstinée, ni dans l’épuisement d’une lutte inégale. Il vient de ce qu’on ne connaît plus ses raisons de lutter et si, justement, il faut lutter. Les pages qui suivent disent simplement que si la lutte est difficile, les raisons de lutter, elles du moins, restent toujours claires.

[Actuelles]

Quatro Cantos do Mundo, Cristina Carvalho

A escuridão é a parte mais difícil da vida, aqui e em todo o lado.

Quatro Cantos do Mundo é uma viagem ao planeta Terra, ao seu lado mais profundo, desconhecido e misterioso. Um devaneio literário como lhe chama a autora, uma viagem por locais físicos, percorridos pelo olhar irrequieto da nossa imaginação. Recantos apenas acessíveis a um devir poético. São quatro contos entregues a um narrador que nos chega do infinito universo, ele próprio viajante das estrelas e que nos fala a partir do ponto de vista das crianças ou dos jovens. Só a curiosidade de um coração puro vence o medo do desconhecido e só uma mente livre do peso do bem e do mal consegue escutar a voz pela qual a natureza nos fala. Então, todas as viagens se tornam possíveis. Na Casa Verde o feiticeiro da aldeia, o homem mais sábio, foi em tempos um menino que subiu ao dorso de uma ave e a quem lhe foi dado o privilégio de ver o mundo a partir de uma perspetiva radicalmente diferente. Regressou já homem de idade feita, dotado de uma sabedoria para além do dizível.

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HISTÓRIA | A belle époque na coleção de cardápios de Bilac

I

Atribui-se a Lucien Febvre (1878-1956), fundador da Escola dos Annales, a ideia segundo a qual a História poderia ser contada a partir da escolha de novos objetos de estudos, o que constituiu uma revolução na historiografia, tal foi o número de trabalhos que se seguiram a partir da década de 1950 com recortes específicos. Deixou-se de lado a concepção tradicional que marcaram os livros de História até então, baseados nos feitos dos grandes nomes – reis, presidentes, primeiros-ministros, governadores etc. Hoje, um livro que siga esse modelo é visto como quinquilharia de museu, a tal ponto que um autor chegou a ser acusado pejorativamente na universidade de candidato a membro de algum instituto histórico.

É claro que a História vista em mínimos detalhes é sempre mais interessante do que aquela que se baseia nos feitos dos “grandes”. O problema é encontrar nos arquivos resquícios do que pensaram ou disseram aqueles que eram iletrados e, portanto, não deixaram registros de suas vivências, queixas, emoções ou anseios. Quer se queira ou não, a História sempre será escrita a partir da visão dos letrados, daqueles que deixaram registro do que viram e viveram, refletindo obrigatoriamente a visão de mundo da classe dominante.

Mas a que vêm estas reflexões? Vêm a propósito do livro Para uma história da belle époque: a coleção de cardápios de Olavo Bilac, de Lúcia Garcia, com prefácio do poeta e ensaísta Alberto da Costa e Silva, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras e ex-embaixador do Brasil em Portugal, Nigéria, Benim, Colômbia e Paraguai.

A partir da ideia de Febvre, Lúcia Garcia escolheu a coleção de cardápios do poeta Olavo Bilac (1865-1918), que faz parte do acervo da Academia Brasileira de Letras, como seu objeto de estudo em busca de reflexos da vida cotidiana que se espraiava pelos lugares frequentados pela elite carioca às vésperas do fim do Segundo Reinado e nos anos iniciais da República. Aliás, como observa Lúcia Garcia, Bilac, certamente, colecionava menus dos almoços, jantares e banquetes festivos de que participava no Brasil e no mundo.

É de assinalar que, como explica a autora, a palavra cardápio é um neologismo criado pelo filólogo Antônio de Castro Lopes (1827-1901) na década de 1890 para substituir a palavra francesa menu que, a rigor, significa miúdo e não tem em português equivalente, pelo menos no sentido de almoço, jantar ou ceia.

II

Diz a pesquisadora ainda que Bilac “preservava os cardápios para revisitar os momentos vividos, em benefício da memória, como antídoto ao esquecimento”. Entre os cardápios reproduzidos estão alguns de banquetes em homenagem ao próprio poeta, homem célebre ao seu tempo, e outros que celebravam o IV Centenário do Descobrimento do Brasil, a visita ao Rio de Janeiro da famosa atriz italiana Tina Di Lorenzo (1872-1930) e acontecimentos diversos.

Nos menus, acrescenta a pesquisadora,          estão presentes as confeitarias Pascoal e Colombo, entre outros estabelecimentos comerciais conhecidos e frequentados pela classe dominante no Rio de Janeiro no início do século XX. Como diz Lúcia Garcia, a extensa coleção doada à ABL por Bilac, ou por seus familiares, revela a rede de sociabilidade do escritor, quer pela indicação do anfitrião, quer pela assinatura dos comensais. A essa época, é de ressaltar que havia uma “febre” entre as pessoas bem-postas na vida de colecionar autógrafos e cartões postais.

III

Como diz Alberto da Costa e Silva no prefácio, esta coleção revela como novos padrões se iam popularizando no País e, como pela lista de pratos, afrancesavam-se cada vez mais as elites. A partir daí, Costa e Silva imagina o que se conversava à época os vizinhos de mesa, já que ecos dessas tertúlias não ficaram, a não ser esparsamente em crônicas, como as que Machado de Assis (1839-1908) e mesmo Bilac assinavam nos grandes jornais.

Diz: “É provável que, num almoço, se discutisse a abertura da Avenida Central pelo prefeito Pereira Passos ou a campanha sanitária de Oswaldo Cruz”. E acrescenta mais adiante: “Pois ainda havia quem não tivesse saído do assombro ou se acostumado, de alma rendida, à aspirina, à lâmpada elétrica, ao telégrafo, ao cabo submarino, do rádio, ao telefone, ao navio a vapor com hélice e casco de ferro, ao motor de combustão interna, ao automóvel com pneu de câmara de ar, às máquinas voadoras, aos raios-X, ao cinematógrafo e à partilha da África e de parte da Ásia entre as potências europeias”.

Da coleção constam ainda fotografias de um almoço – do qual não restou o cardápio – na década de 1910 na fazenda em Louveira, no interior do Estado de São Paulo, de Júlio Mesquita (1862-1927), fundador e proprietário do jornal O Estado de S. Paulo, do qual Bilac também era colaborador. De notar, como assinala a pesquisadora, é que Bilac nas fotografias sempre fazia questão de aparecer de perfil. É essa também uma rara foto em que aparece alguém das classes menos favorecidas, o cozinheiro da fazenda de Mesquita, sentado meio a contragosto e sem jeito no primeiro degrau de uma escada à frente dos demais.

IV

Lúcia Garcia (1979) é doutora e mestre em História Política pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Participou de vários projetos de pesquisa histórica documental e iconográfica nos últimos anos, tendo colaborado como consultora na Comissão para as comemorações do bicentenário da chegada de D. João ao Rio de Janeiro (Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro, 2008).

É autora de Euclides da Cunha: escritor por acidente e repórter do sertão (São Paulo, Companhia das Letras, 2009), A transferência da família real para o Brasil 1808-2008, com outros autores (Lisboa: Tribuna da História, 2007), Rio e Lisboa: construções de um Império (Lisboa: Câmara Municipal, 2007) e Documentos oitocentistas da Biblioteca Nacional, coautoria de Lilia Schwarcz (Rio de Janeiro, Biblioteca Nacional, 2006). É coautora de Impresso no Brasil: Destaques da História Gráfica, organizado por Rafael Cardoso (Rio de Janeiro: Verso Brasil, 2009).

 

PARA UMA HISTÍORIA DA BELLE ÉPOQUE: A COLEÇÃO DE CARDÁPIOS DE OLAVO BILAC, de Lúcia Garcia, com prefácio de Alberto da Costa e Silva.  São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 288  págs., 2011, R$ 130,00.

E-mails: livros@imprensaoficial.com.br

academia@academia.org.br

_________________________

(*) Adelto Gonçalves, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispanoamericana e doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo, é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa: Nova Arrancada, 1999; São Paulo: Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa: Editorial Caminho, 2003) e Tomás Antônio Gonzaga (Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

FESTIVAL AO LARGO | 26 de Junho a 27 de Julho, 2014: Teatro Nacional de São Carlos

Largo do Teatro Nacional São Carlos,
Lisboa

Programação: para mais informação sobre o programa, os artistas, etc, por favor, carregue sobre as imagens.

Transportes
Metro: Baixa-Chiado
Autocarros: 709, 711, 714, 732, 735, 736, 758, 759, 760, 781, 782

Eléctricos: 12, 15, 25, 28
Barco: Terreiro do Paço, Cais do Sodré
Comboio: Cais do Sodré, Rossio, Santa Apolónia

15 TESES SOBRE A NECESSIDADE DA FILOSOFIA NO ENSINO SECUNDÁRIO | Miguel Real

miguel_real1. – O estatuto da disciplina de Filosofia no ensino secundário reside em duas grandes características:

1.1. – LUCIDEZ: pela lucidez que transmite a adolescentes, abordando temas existencialmente vividos pelos alunos, mas não reflectidas no seio da família e no interior das restantes disciplinas;

1.2. – UTILIDADE: pela sua suprema utilidade, iniciando o adolescente no caminho dos valores morais, da reflexão sobre o conhecimento, a religião, a arte, a reflexão sobre o estatuto da ciência e da tecnologia, sobre o que significa pensar…

2. – DAR SENTIDO À EXISTÊNCIA: a Filosofia permite que a mente do aluno escape a um raciocínio exclusivamente técnico de manipulação de conceitos para se elevar à ponderação sobre o valor, o alcance e a utilidade dos conceitos no interior de uma reflexão sobre o Homem, a História e a Humanidade;

3. – CONTRA A METODOLOGIA QUANTITATIVA OU POSITIVISTA: Com efeito, a Filosofia é a única disciplina obrigatória do ensino secundário que se subtrai à

metodologia positivista e documental, de carácter técnico e da objectivação da aprendizagem através de modelos quantitativos e materialistas do saber, isto é, de modelos tecnocratas do saber, onde dominam a Matemática e o Inglês, como disciplinas de vasto alcance social;

4. – HUMANIZAÇÃO: A Filosofia não está contra este modelo quantitativo do saber, onde são suspeitas palavras como «Espírito» e «Metafísica». A sua responsabilidade histórica, sempre, é a de abertura de novos horizontes na mente dos alunos no sentido de uma autêntica humanização da consciência e na compreensão e elevação ética dos seus comportamentos. Foi o objectivo de Sócrates há dois mil e quinhentos anos face aos seus discípulos. É o grande objectivo do actual professor de Filosofia do ensino secundário face aos seus alunos.

5.- NECESSIDADE ONTOLÓGICA DE RENOVAÇÃO: Com efeito, em nenhuma outra disciplina o aluno apreende que a renovação é permanente, que a vida e as instituições sociais precisam de se esgotar para se inovarem e que a Filosofia morre em cada filósofo para renascer em um novo filósofo;

6. – NECESSIDADE DE TEORIA: Em nenhuma outra disciplina o aluno apreende que o que mais inútil parece do ponto de vista social – «pensar», «meditar» – é o que mais profundamente anima a totalidade do tecido social e mais forma a mente dos cidadãos, isto é, por detrás de cada acção prática existe uma teoria a conformá-la e a orientar-lhe o sentido;

7. – ALTERNATIVA À RELIGIÃO E À IDEOLOGIA: Nenhuma outra disciplina transmite ao aluno um equivalente reflexivo e lúcido para a religião e para a ideologia política, não negando estas mas fundamentando-as, positiva ou negativamente.

8. – NECESSIDADE DE PENSAR O TODO: Neste sentido, em nenhuma outra disciplina o aluno apreende a necessidade de elevação da sua vida existencial ao Todo – religioso, político, social, económico, estético – que a fundamenta.

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A Poesia Haiku | por Teresa Sande

O haiku é um poema breve que descende de uma forma de poesia ancestral no Japão, muito popular entre os séculos IX e XII, designada por tanka, que significa “poema curto”. O tanka é constituído por 31 sílabas japonesas, dispostas em cinco versos, de 5 – 7 – 5 – 7 – 7 sílabas em alternância.

O tanka foi desenvolvido e aperfeiçoado principalmente por mulheres, habitualmente pertencentes à corte da época, sendo utilizado como mensagem entre amantes, oficiais ou secretos. Esses poemas, cujo tema principal é o amor, e sensações particulares a ele associadas, estavam repletos de delicadeza e sensibilidade feminina, conferindo-lhes uma grande profundidade estética.

Nos séculos XIV e XV, popularizou-se o tanka, nessa altura também composto no masculino, em que o poeta mantinha o mesmo ideal de composição, dando origem ao renga, mais tarde ao renku, e finalmente ao haiku, estes essencialmente criados no masculino. No entanto, no século XVII a composição haiku estendeu-se também às mulheres. Do ponto de vista formal, no haiku mantêm-se os primeiros três versos de 5-7-5 sílabas (17 sílabas) iniciais do tanka, criando uma forma de poesia que acabou por se autonomizar.

O haiku, de que Matsuo Bashô foi considerado o primeiro e maior poeta japonês, regista a percepção objectiva captada pelos sentidos, rejeitando a subjetividade e emoção do poeta, associada à natureza e muito frequentemente às estações do ano. Prima pela simplicidade, pela apreensão direta da essência de pequenas coisas, e não necessariamente da sua beleza, captando um instante, um momento irrepetível, registando-o.

(Fontes: www.prof2000.pt; Luísa Freire, O Japão no Feminino, vol.II, Haiku Séculos XVII a XX, Lisboa, Assírio & Alvim, 2007)

Ação Literária – “Haiku 43 poemas a Lisboa”

Em Dezembro de 2012, o Departamento de Ação Cultural da Câmara Municipal de Lisboa em colaboração com a Embaixada do Japão, promoveu uma iniciativa literária denominada “Haiku-43 poemas a Lisboa”, cujo desafio era a criação de poemas haiku tendo como temática a cidade de Lisboa, com a edição posterior de um livro com os poemas vencedores.

Teresa Sande (ver nota biográfica) foi uma das autoras de um haiku selecionado e integrado no referido livro. São dela os haiku, todos sobre a cidade de Lisboa, e os três tanka, que se seguem.

Haiku

Um labirinto
Vielas que desembocam
Em sonhos

(in “Haiku-43 poemas a Lisboa”)

Sopro do rio
Invade as sete colinas
Perde-se a voar

Os desenhos
Na calçada branca e negra
Rugas de história

Luz da cidade
Entardecer dourado
Vontade de olhar

Numa praça
O olhar pousa no rio
O espanto

Numa rua ao acaso
Uma gaivota a voar
Um rasto do rio

Passeio no cais
A brisa agita o rio
Um sussurro

Do miradouro
A cidade envolta em névoa
E segredos

Tanka

A minha alma voa
Ao sabor da brisa suave
Talvez procurando
O rasto que deixaste
Quando na pressa partiste

As folhas da tília
Sussurram tais suspiros
Que o meu coração
Num eco de melancolia
Canta a tristeza com elas

Entro no sonho
Na esperança de ver
As papoilas
A nascer entre a seara
Triste do meu peito

 

NOTA BIOGRÁFICA

Teresa Sande nasceu em Évora, em 1964. É licenciada em Arquitetura Paisagista pela Universidade de Évora. Atualmente vive em Lisboa. Concilia a sua atividade profissional com o prazer da escrita.

Em Dezembro de 2012 foi premiada na iniciativa literária “Haiku-43 poemas a Lisboa”, promovida pela Embaixada do Japão em Lisboa e pela Câmara Municipal de Lisboa, com a publicação de um poema haiku de sua autoria num livro editado no âmbito desta iniciativa. Não tem mais nenhum trabalho publicado.

DESEJOS | Carlos Drummond de Andrade

Desejo a vocês…
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus.
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho.
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender um nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinho meu.

Um evento

Ela usava calças pretas
e um pulôver cor de rosa
passou diante das casas pequenas
de onde ninguém olhava
passou diante da caixa do correio
abriu a mão e a estampou
devagar sobre o arbusto
sobre a neve sobre o arbusto
depois seguiu seu caminho
mas a marca da sua mão ficou ali
espalmada
como um aceno fixo
uma saudação póstuma
como as pegadas dos dinossauros na pedra
antes de derreter.

Adriana Lisboa