“O salvador e o ditador” | Carlos de Matos Gomes

“As igrejas são sempre por natureza totalitárias. Assim tem de ser. Só nos salvamos acreditando no seu Deus e não noutro. Os deuses são sempre verdadeiros, mas só para os seus crentes. Não pode haver compromissos, não há deuses partilhados. É-se de um e contra os outros. Admitir outros deuses é admitir que nos podemos salvar sem nos submetermos absolutamente ao nosso.

Na política, a salvação segue o mesmo princípio totalitário. Os Partidos da Salvação têm um programa único, só eles possuem a chave para a sociedade perfeita. Acreditar que outros também podem, que diabo, oferecer uma esperança, uma possibilidade, é admitir a dúvida, essa venenosa semente da Liberdade!”

Ler mais: http://aviagemdosargonautas.net/2014/08/12/biscates-o-salvador-e-o-ditador-por-carlos-de-matos-gomes/

Albert Camus, pensée du jour

Je n’ai pas de mépris pour les militants communistes, bien que je les croie dans une erreur mortelle. J’en ai, et à revendre, pour les intellectuels qui le sont sans l’être, qui nous assassinent de leur pseudo-déchirement de curés laïques, et qui pour finir se donnent une bonne conscience aux frais des militants ouvriers.

[Carnets]

O Captain! my Captain! | Walt Whitman

O Captain! my Captain! our fearful trip is done,
The ship has weather’d every rack, the prize we sought is won,
The port is near, the bells I hear, the people all exulting,
While follow eyes the steady keel, the vessel grim and daring;
But O heart! heart! heart!
O the bleeding drops of red,
Where on the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.

O Captain! my Captain! rise up and hear the bells;
Rise up—for you the flag is flung—for you the bugle trills,
For you bouquets and ribbon’d wreaths—for you the shores a-crowding,
For you they call, the swaying mass, their eager faces turning;
Here Captain! dear father!
The arm beneath your head!
It is some dream that on the deck,
You’ve fallen cold and dead.

My Captain does not answer, his lips are pale and still,
My father does not feel my arm, he has no pulse nor will,
The ship is anchor’d safe and sound, its voyage closed and done,
From fearful trip the victor ship comes in with object won;
Exult O shores, and ring O bells!
But I with mournful tread,
Walk the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.

Homenagem em Salvador | Valdeck Almeida de Jesus

Valdeck Almeida de Jesus, natural de Jequié-BA, foi homenageado, dia 9 de agosto, no Real Gabinete Português de Leitura, numa cerimônia promovida pela Associação Internacional de Escritores e Artistas, com a Comenda Luís Vaz de Camões, em reconhecimento aos serviços prestados em prol da Cultura e da Educação Lusófona. A distinção faz parte das comemorações oficiais dos 800 anos da língua portuguesa.

O poeta participa de várias atividades literárias no Brasil e no exterior, com objetivos de fortalecer as políticas do livro e da leitura, bem como valorizar a lusofonia. Na capital baiana, Valdeck Almeida de Jesus é um dos coordenadores do Projeto Fala Escritor, que completou cinco anos de encontros mensais em uma livraria para realizar recitais, leituras e palestras sobre literatura. Além disso, o escritor ainda frequenta o Sarau da Onça, em Sussuarana, o Prosa e Poesia, o Sarau da Paz, dentre outros.

Desde 2005 Valdeck Almeida de Jesus organiza e patrocina um concurso literário que já publicou mais de treze antologias com poetas do mundo lusófono, cuja obra foi lançada em eventos das bienais do Rio de Janeiro, Bahia, Feira do Livro de Feira de Santana e Festa Literária do Sertão de Jequié. Este ano será lançado, mais uma vez, na Bienal Internacional do Livro de São Paulo, dia 24 de agosto, das 12:30 às 14:30h, no estande da PerSe Editora.

Fonte:
http://www.iteia.org.br/jornal/escritor-jequieense-recebe-homenagem-em-salvador

Elites paulistas no século XVIII | Adelto Gonçalves

I

A rigor, foi o historiador português António Manuel Hespanha, com o livro As Vésperas do Leviathan: instituições e poder político – Portugal – sec. XVII (Coimbra, Almedina, 1994), quem abriu a porta para uma nova modalidade de se escrever a História, ao fazer a arqueologia do poder concelhio em Portugal, apontando temas voltados à administração e ao Estado. Tantos anos passados, a porta aberta por Hespanha não só permitiu a outros historiadores portugueses que vislumbrassem essa nova maneira de se re(escrever) a História como atraiu uma grande parte dos estudiosos brasileiros do período colonial – exatamente aqueles mais talentosos e da geração que teve como orientadora a professora Laura de Mello e Souza, da Universidade de São Paulo.

O resultado dessa forma nova de se encarar a História pode ser constatado em O governo dos povos, de Laura de Mello e Souza, Junia Ferreira Furtado e Maria Fernanda Bicalho, orgs. (São Paulo: Alameda Editorial, 2009), que reúne trabalhos apresentados e discutidos por estudiosos de universidades brasileiras e portuguesas nos últimos dias de agosto e primeiros dias de setembro de 2005, em Parati-RJ, durante o seminário denominado “Governo dos Povos”.

Desses 28 estudos, dois serão destacados aqui não porque sejam superiores em qualidade aos demais, mas exatamente porque se referem a temas ainda pouco estudados, aos quais este investigador também se dedica nestes dias, ou seja, o funcionamento da câmara municipal de São Paulo e de outras câmaras ao tempo da capitania de São Paulo e do Brasil colonial: “Camaristas, provedores e confrades: os agentes comerciais nos órgãos do poder (São Paulo, século XVIII)”, de Maria Aparecida de Menezes Borrego, e “O município no Brasil colonial e a configuração do poder econômico”, de Vera Lucia Amaral Ferlini.

As articulações entre o poder central – ou seja, os altos representantes da Coroa (governador e capitão-general e ouvidor) e as câmaras municipais constituem um tema clássico na historiografia, mas que hoje deve ser visto por novos olhares, já que as últimas investigações têm deixado clara a necessidade de reformular certas interpretações cristalizadas que não convencem ante a evidência de novos fatos.

Uma dessas revisões que se deve fazer, como alerta Vera Ferlini, é que já não se pode aceitar pacificamente a afirmação de que as câmaras tenham sido reduto de oligarquias autônomas, ou seja, de senhores de terras, grandes proprietários rurais. Já na década de 1720, com o fim da capitania de São Paulo e Minas do Ouro e a separação de Minas Gerais, a presença de comerciantes na Câmara da cidade de São Paulo é uma evidência de que aquela idéia não é tão pacífica assim. Ao contrário do que aprendemos com Caio Prado Júnior, a nossa elite colonial não foi constituída apenas por proprietários rurais.

É verdade que, no Brasil colonial, dependendo das circunstâncias, ainda seriam válidos certos princípios – impedimento a quem descendesse de “nação infecta” ou ganhasse a vida com trabalhos manuais – que se aplicavam no Reino, mas por aqui essas exigências já começavam a se tornar mais fluidas. Afinal, seriam poucos, mesmo aqueles que se apresentavam como a elite agrária paulista, que podiam se assumir como “brancos”. Dificilmente, algum daqueles pró-homens, que haviam ascendido a potentados e que geralmente andavam à frente de batalhões de escravos índios (ou carijós) e negros, não teria tido entre seus ascendentes indígenas ou negros ou miscigenados.

II

Há um documento (AHU, Conselho Ultramarino, capitania de São Paulo, caixa 6, doc. 650, 26/10/1728) – citado aqui à guisa de explicação porque não consta de nenhum dos textos reunidos no livro resenhado – em que os camaristas da vila de Santana do Parnaíba, que à época seria um povoado pouco menor que o de São Paulo, cidade desde 1711, mostram-se indignados e ressentidos com a perseguição que o governador e capitão-general Antônio da Silva Caldeira Pimentel lhes movia, “inferiorizando-os perante os visitantes e os do Reino”.

É de especular que uma das razões para isso seria a maneira rude de se comportar desses camaristas, que levariam o governador e os visitantes e os reinóis a deles escarnecer. Outra talvez fosse a cor da pele. Quem sabe tivessem feições indígenas. Ou traços africanos. Foram desses homens que saíram aqueles que se embrenharam na mata para descobrir ouro e pedras preciosas em Goiás e Cuiabá.

É de supor ainda que esses potentados fossem analfabetos ou que talvez manejassem mal o idioma português, acostumados que estariam ao linguajar indígena de seus empregados ou escravos. Mas aqui também é preciso cautela nas conclusões porque não se sabe se os níveis de analfabetismo seriam assim tão elevados, embora Hespanha em As Vésperas do Leviathan diga isso em relação às câmaras do Reino. E se o analfabetismo mesmo entre os camaristas nas vilas do Reino era acintoso, é de imaginar que na colônia seria maior. Até porque os índices de analfabetismo em Portugal e no Brasil continuariam altos até o século XX.

No entanto, há outro documento dessa época (AHU, Conselho Ultramarino, capitania de São Paulo, caixa 5, doc.615, 11/11/1727) que se refere a uma festa denominada das Onze Mil Virgens, que era celebrada ao som de tambores havia muitos anos, desde a época em que São Paulo era vila, que tinha como principais entusiastas os estudantes, que costumavam se mascarar nesse dia. Para organizá-la, os estudantes pediam licença ao governador na sede da capitania e aos capitães-mor nas vilas, embora em determinadas ocasiões os ouvidores também tenham assumido a responsabilidade pela autorização para que saíssem às ruas. Se havia tantos estudantes assim, tanto na cidade ou na antiga vila de São Paulo como nas demais vilas da capitania, dispostos a organizar uma festa pública tida como tradicional, é porque o contingente de alfabetizados não seria tão irrisório como imaginamos.

Também é de supor que as características físicas do homem paulista tenham- se alterado a partir do final da primeira metade do século XVIII, com o retorno daqueles que haviam ido se aventurar em Goiás e Cuiabá, diante do esgotamento das minas, com o afluxo de reinóis – especialmente da região do Minho –, com a presença cada vez maior dos escravos africanos e de pessoas enriquecidas com o trato mercantil. Tudo isso se refletiu na estrutura da família patriarcal, mas necessariamente não quer dizer que a pele dos oligarcas paulistas tenha-se embranquecido. A não ser que confundamos “embranquecimento” com ascensão social, ou seja, enriquecimento material.

Muitos destes homens enriquecidos com o comércio – que desempenhavam funções mecânicas tidas como abjetas, pois manuseavam valores e manipulavam mercadorias – casaram com filhas de antigos oligarcas, assumindo seus negócios com o tempo. Não se pode esquecer também que esses oligarcas tinham muitas concubinas negras, indígenas e miscigenadas, acumulando filhos fora do casamento que acabavam integrados ao seio da família patriarcal.

Maria Aparecida de Menezes Borrego diz que os homens de negócios casavam seus filhos varões com filhas da elite agrária (p.333) ou os encaminhavam para a carreira eclesiástica, mas suas filhas desposavam outros comerciantes. É provável que a continuação dos negócios da família da elite agrária fosse entregue aos genros, que já vinham de famílias de comerciantes. Em função disso, logo estes recém-admitidos na família patriarcal começaram também a galgar posições nas estruturas das câmaras, da Santa Casa de Misericórdia e das irmandades religiosas, que eram os veículos que possibilitavam a “nobilitação” dos candidatos a homens bons. É de assinalar também que muitos que haviam retornado enriquecidos das minas apresentavam-se como pretendentes no mercado matrimonial.

III

Vera Ferlini observa, em seu estudo, que ao longo do período colonial, as câmaras foram dominadas pela presença de grupos familiares e tradicionais que constituíram oligarquias, que, obviamente, nem sempre conviveram pacificamente. Em São Paulo, é conhecida a solução encontrada pela Coroa em 1655 para apaziguar as lutas entre as famílias Pires e Camargo, permitindo que apenas oriundos desses clãs ocupassem os principais lugares na instituição. Isto porque, diante do seu poder reduzido, a Coroa não tinha outra saída a não ser contemporizar e aceitar certas exigências das oligarquias locais, provavelmente com receio de que pudessem flertar com a idéia de passar para o lado dos espanhóis.

Fosse como fosse, os estudos apontam para uma via de mão de dupla na atuação das câmaras: por um lado, defendiam os interesses locais, ou seja, dos manda-chuvas da ocasião, mas de outro, também resguardavam as políticas e as determinações de metrópole, tratando-se de compor com os interesses do governador e capitão-general.

O Governos dos Povos, de Laura de Mello e Souza, Junia Ferreira Furtado e Maria Fernanda Bicalho (orgs). São Paulo: Alameda Editorial, 560 págs. Adelto Gonçalves – Brasil in “As Artes Entre as Letras”

Histórias Fulminantes | ptn

… Então? – ela.
Salgado. – ele.
Eram tempos em que a Censura já não se sentava à mesa, pelo que, sem dúvida, ele desconhecia a têmpera (e o tempero) da sua mulher.
Sem mais, nem ais, ela fez-lhe as malas e abriu-lhe a porta de casa, leia-se, da rua. Ele, coitado, nada tinha em seu nome, pelo que… Jesus, Maria, Espírito Santo, o que seria dele doravante?

Ex-líbris ou a arte de personalizar os livros | Adelto Gonçalves

I

O poeta Alberto da Costa e Silva diz que há muitas maneiras de amar os livros, mas a mais estranha que conheceu seria a de um amigo seu que, à medida que os lia, arrancava as suas páginas e as punha no lixo. Não revela o nome do amigo, mas este articulista sabe de um leitor bem famoso que, em vez de arrancar as páginas uma a uma, manda o livro lido para o cesto do lixo.
“O que fazes com os exemplares lidos?”, perguntei-lhe, certa tarde fria de janeiro de 1990, à mesa do Café Samoa, no Paseo de Gracia, quase em frente à insólita Casa Milà, mais conhecida como La Pedrera, uma das mais estranhas entre as obras com que o arquiteto Antoni Gaudí (1852-1926) embelezou a Barcelona da belle époque. “Los tiro a la basura”, disse-me, sem pestanejar, acrescentando que preferia ficar com as imagens suscitadas pela leitura do que encher o seu apartamento de livros e mais livros, muitos dos quais recebia sem que os pedisse.
Para quem ainda não descobriu quem é esse leitor voraz deve-se dizer que tal estranho amante dos livros é hoje considerado o maior ficcionista em atividade da Língua Espanhola, ainda que seja catalão. Seu nome: Eduardo Mendoza (1943), autor de La ciudad de los prodígios, La verdad sobre el caso Savolta, El misterio de la cripta embrujada, La isla inaudita, El año del dilúvio e Una comedia ligera, entre outros livros que vendem aos milhares no mundo de língua hispânica.

II

Mas a que vêm estas reminiscências de mais de duas décadas? Vêm a propósito do recente lançamento do Livro dos Ex-Líbris, de Alberto da Costa e Silva e Anselmo Maciel (organização), publicado pela Academia Brasileira de Letras e pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, com apoio cultural do Ministério das Relações Exteriores. No prefácio que escreveu para esta obra, Costa e Silva lembra de outros colecionadores bizarros, a exemplo daquele que não deixava rastros do que lia por ciúme de que o mesmo exemplar tivesse outros leitores.
Há alguns menos bizarros, como aqueles que costumam assinar o nome na folha de rosto do livro adquirido. Ou ainda aqueles que mandam fazer um carimbo para marcar como seus todos os exemplares de sua biblioteca, talvez para incomodar os que pedem livros emprestados e não costumam devolvê-los. Há, porém, observa o poeta, uma maneira mais antiga e requintada de assinalar a posse do livro: o ex-líbris, que pode ser um selo a ser colado igualmente na folha de rosto ou na contracapa.
É dessa mania de alguns poucos e zelosos bibliófilos que trata este livro que, a rigor, nasceu a partir da mostra “O barão do Rio Branco, colecionador de ex-líbris”, realizada em abril de 2012 nos salões da Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro. O chanceler José Maria da Silva Paranhos (1845-1912), o barão do Rio Branco, homem público a quem o Brasil muito deve por ter as fronteiras que tem hoje, teria sido o primeiro ex-librista brasileiro de quem se tem notícia. Em suas andanças pela Europa, costumava reunir uma extensa coleção de obras raras nas quais sempre pespegava seu ex-líbris. E mais: muitos dos livros de sua biblioteca traziam o ex-líbris de outros bibliófilos, o que o levou a fazer a coleção que hoje pertence ao acervo da Biblioteca do Ministério das Relações Exteriores no Rio de Janeiro.

III

Este livro, porém, não reúne só a coleção do barão, mas as dos professores Paulo Bodmer, Santos Sobrinho e Luiz Felipe Stelling, especialistas no assunto, além da coleção da própria Academia, que fecha o volume. No extenso texto que abre o livro, “Sua Excelência, o ex-líbris”, Ubiratan Machado faz um retrospecto da história desse símbolo que já representou o poder de um faraó e de um rei assírio. E lembra que essas pequenas jóias de arte já foram assinadas por mestres como Albrecht Dürer (1471-1528), Hans Holbein (1497-1543), Pablo Picasso (1881-1973) e Henri Matisse (1869-1954), observando que não é à toa que alguns exemplares alcançam preços inimagináveis no mundo alfarrabista. Apesar disso, diz o especialista, o ex-líbris continua praticamente ignorado no Brasil, talvez porque seja mania reservada aos bem-postos na vida e no mundo da cultura.
Machado diz ainda que os primeiros ex-líbris surgiram na Alemanha, na região da Baviera, durante o terceiro quarto do século XV. O mais antigo seria o de Hans Igler (Johannes Knabensberg), capelão da família bávara Schoenstett, gravado entre 1470 e 1480, medindo 152 x 200 mm. Representa um ouriço de perfil, comendo erva. Por que um ouriço? Melhor o leitor acessar o livro para lhe conhecer a história.
Um dos primeiros escritores interessados em ex-líbris, segundo Machado, foi Erasmo de Roterdã (1467-1536), autor de Elogio da Loucura. Mas a idade de ouro do ex-líbris foi mesmo o século XVIII, o do Iluminismo, quando o vício, até então restrito à nobreza, alcançou a burguesia. Afinal, exibir na contracapa ou na folha de rosto o selo do ex-líbris era sinal de status.
Ainda segundo Machado, 1922 foi o ano de nascimento do ex-líbris moderno, acompanhando a evolução das artes plásticas. No Brasil, muitos foram os ex-libristas como Tristão da Cunha, Paulo de Almeida Prado e João Franklin da Costa, que encomendavam o ex-líbris à casa parisiense Agry, ou Alfredo Pujol, Antônio Fernandes Figueira e o Instituto Oswaldo Cruz que preferiam outra casa parisiense, a Stern. Em São Paulo, o artista Adolf Kohler foi o responsável pelos ex-líbris de Yan de Almeida Prado, José Carlos de Macedo Soares, Guilherme de Almeida e Adhemar de Barros. Segundo o historiador, até o escritor Lima Barreto (1881-1922), notório revoltado social e representante das classes baixas, exibia ex-líbris nos livros de sua biblioteca.

IV

No breve ensaio “Pesquisa e conhecimento do ex-líbris no Brasil e em Portugal”, Paulo Bodmer, professor universitário, bibliófilo e colecionador de antiguidades gráficas, ressalta que, desde o começo do século XX, vários artistas brasileiros brilharam na arte de criação do ex-líbris, como Alberto Lima e Carlos Oswald. Dos contemporâneos, Jorge Oliveira, radicado na cidade de Caçador-SC, é um dos derradeiros criadores, com mais de 500 trabalhos para colecionadores e bibliófilos.
Em “O desejo gráfico dos ex-líbris”, Santos Sobrinho, colecionador e bibliófilo, faz também breve histórico da trajetória do ex-líbris, enumerando seus estilos – do vitoriano ao art nouveau, passando pelo art déco, além de criações próprias do Expressionismo e do Surrealismo. Por fim, Luiz Felipe Stelling, professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (IFRJ), bibliófilo e colecionador, em “Ex-líbris como objeto de estudo e coleção”, destaca que, no final do século XX, vários artistas começaram a criar ex-líbris por meio de computador, mas faz uma relação de tipos e matrizes que foram utilizados até então, como a xilografia, a heliogravura e o clichê. E acrescenta que o ex-líbris pode ser feito não só em papel, mas em tecido, couro, plástico e finas chapas de madeira ou cortiça.
Enfim, para quem quiser conhecer a fundo tudo o que se refere ao ex-líbris este volume se torna desde já imprescindível, digno de receber também em sua contracapa ou folha de rosto o selo de seu seleto proprietário, ainda que existam aqueles que preferem atirar livros lidos ao lixo.
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LIVRO DOS EX-LÍBRIS, de Alberto da Costa e Silva e Anselmo Maciel (organização). Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 224 págs., 2014, R$ 100,00. E-mail: academia@academia.org.br Site: www.imprensaoficial.com.br/livraria
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981), Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003) e Tomás Antônio Gonzaga (Rio de Janeiro, Academia Brasileira de Letras; São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

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Exposição | Artur Pastor, fotógrafo/ artista

Traços breves, apenas para recomendar a melhor exposição que este Verão atravessa a agenda de propostas em Lisboa. Artur Pastor, fotógrafo/ artista cujo trabalho testemunha, inventaria, ilumina como poucos o que foi a segunda metade do século XX português. A mostra (na verdade, três) encontra-se patente no Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa (Rua da Palma, 246), no Pavilhão Negro do Museu da Cidade (Campo Grande, 245) e na loja Colorfoto (Alvalade, Av. da Igreja, 39). Em visita, centenas de imagens (de um espólio muito mais vasto, na ordem das dezenas de milhares de negativos, a preto e branco e cor) provenientes do Fundo Artur Pastor (1922-1999), pertença do Arquivo Municipal alfacinha que o adquiriu em 2001. Uma exposição que há muito era devida ao autor, que talvez merecesse um espaço de maior amplitude e visibilidade público-turística, uma exposição que (espante-se, não terá direito a um catálogo; claro, só há dinheiro para bancos falidos…), mas, sobretudo, uma exposição que, pela primeira vez, dá a conhecer ao grande público e às novas gerações amantes de fotografia Artur Pastor e a sua arte. Até final do mês.

Fotos: ptn

Texto: Pedro Teixeira Neves

Artur Pastor 02

Artur Pastor B

Feira do Livro da Póvoa de Varzim‏

A Feira do Livro já começou.

No Largo do Passeio Alegre, como habitualmente, com livros e propostas de leituras e o mar ali tão perto. A ler-o-mar. Já perceberam, certamente.,

Com uma programação sempre interessante e entre amigos.

Já amanhã, a não perder:

Às 18h00, apresentação dos livros O Boião Mágico (Presença) e De zero a Dez (Clube do Autor), de Margarida Fonseca Santos. Quem não conhece a Margarida Fonseca Santos e a sua literatura para crianças e jovens. Desde 2005 que se dedica por inteiro à escrita, mas sem ter abandonado por completo as aulas, agora de Escrita Criativa, para jovens, professores, adultos e professores. Há vários livros seus no Plano Nacional de Leitura, como Uma Questão de Azul-Escuro, O Peixe Azul, O Boião Mágico, a coleção «O Reino de Petzet», entre outros. O seu mais recente projeto é De zero a Dez, que será apresentado na feira. A não perder.

Podem encontrar os livros da Margarida no stand da Livraria Minerva.

À noite, às 22h00, Leituras com Aurelino Costa, Ivo Machado e João Rios. Qualquer um destes autores dispensa apresentações. Quem resiste a ouvi-los dizer poesia? Cada um com a sua forma própria, com o seu tom. A não perder, garanto eu. Poetas os três. Com livros publicados. Anos dedicados à poesia e às leituras. E como!

No dia 7, quinta-feira, Oficina de Fantoches, para os mais novos.

Às 18h00, sessão de autógrafos com a escritora Manuela Gonzaga. Com mais de uma dezena de livros publicados, coordenadora de Oficinas de Escrita, com conteúdos adequados a vários tipos de audiências, desde 2000 que se dedica à escrita e à investigação a tempo inteiro. Podem encontrar os livros da Manuela no stand da livraria Minerva.

Às 22h00, conversa com Margarida Fonseca Santos, Manuela Gonzaga e Paulo Ferreira. Paulo Ferreira estreou-se na vida literária com o livro Onde a Vida se Perde, mas a sua ligação aos livros é anterior. É consultor editorial e em 2006 criou o projeto Booktailors que se dedica ao mundo do livro e mais recentemente a agência literária Bookoffice.

Na sexta-feira, dia 8, Oficina de leitura e desenho para os mais novos às 16h00 e no final da praia, pelas 18h00, pretexto, mais uma vez, para apresentação de livros. Desta vez à conversa com o Jornalista João Gobern. Mais um autor que dispensa apresentações. Jornalista, comentador desportivo. Cresceu com vista para o mar e vive, na Póvoa de Varzim, com vista para o mar. Na Feira, de novo com vista para o mar, apresentará o seu mais recente livro de crónicas Pano para Mangas.
aleromar

UM FADO, PALAVRAS MINHAS | Pedro Tamen

Palavras que disseste e já não dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava
em olhos que eram meus, e mais felizes.

Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam.

Palavras que dizias, sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
à noite que assomava ao meu ouvido…

Palavras que não dizes, nem são tuas,
que morreram, que em ti já não existem
– que são minhas, só minhas, pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas.

in «Tábua das Matérias – Poesia 1956-1991»

Marginal, de Cristina Carvalho

Uma menina desce à rua para se dirigir à estação de metro. É a rua onde mora. Desce os dez degraus de pedra entre a porta do seu prédio e o empedrado do passeio. “Não ia com pressa.” Tal como este relato.

Caminha distraída, atenta a pormenores sem importância, como acontece a quem caminha distraído. Umas ervas entre o empedrado, uma bolinha de papel ali, umas folhas, é o seu olhar que também não tem pressa.

Uma mancha negra surge-lhe no caminho, uma mancha negra que se estende e que se prende à sua atenção. É então que, como num flashback, a menina inicia o processo inverso, o caminho de regresso a casa. Sobe os dez degraus de pedra entre o empedrado do passeio e a porta do seu prédio. Apanha um saco de plástico. Faz o percurso até à sua descoberta, apanha algo e volta novamente a casa. O ritmo acelera, sobe a escada, entra em casa, vai ao quarto. Momentos soletrados, sendo cada um deles uma fotografia, uma rápida sucessão de fotografias.

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Pássaro Azul | Charles BUKOWSKI

Pássaro Azul

há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica aí dentro,
não vou deixar
ninguém ver-te.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu despejo whisky para cima dele
e inalo fumo de cigarros
e as putas e os empregados de bar
e os funcionários da mercearia
nunca saberão
que ele se encontra
lá dentro.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica escondido,
queres arruinar-me?
queres foder-me o
meu trabalho?
queres arruinar
as minhas vendas de livros
na Europa?
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado esperto,
só o deixo sair à noite
por vezes
quando todos estão a dormir.
digo-lhe, eu sei que estás aí,
por isso
não estejas triste.
depois,
coloco-o de volta,
mas ele canta um pouco lá dentro,
não o deixei morrer de todo
e dormimos juntos
assim
com o nosso
pacto secreto
e é bom o suficiente
para fazer um homem chorar,
mas eu não choro,
e tu?

(Charles Bukowski)

Fyodor Books | Novo espaço alfarrabista de Lisboa

A Fyodor Books é um recente espaço alfarrabista de Lisboa, baseado num conceito norte-americano de divulgação do livro. Dinamiza um clube de leitura e pretende lançar muitos outros projetos nesta área. Aqui pode comprar livros usados a preços módicos e também trocar aqueles que já não deseja.
Morada: Avenida Óscar Monteiro Torres, n° 13,B,Campo Pequeno
Horário 11:00 – 20:00 | 2ªf. a sábado
Fotografias de Ana Luísa Alvim
Pode saber mais aqui: http://on.fb.me/1s6GYWc

Citando Thomas Jefferson

1) “Os bancos são mais perigosos para a nossa liberdade que os exércitos com armas.”
Thomas Jefferson

2) Quando as pessoas temem o governo, isso é tirania. Quando o governo teme as pessoas, isso é liberdade.
Thomas Jefferson

3) A árvore da liberdade deve ser regada de quando em quando com o sangue dos patriotas e dos tiranos. É o seu adubo natural.
Thomas Jefferson

Isabel Coutinho

“Não sei se aguento este mês de Outubro. Só na editora Dom Quixote vão ser publicados O Arquipélago da Insónia, o novo romance de António Lobo Antunes; A Feiticeira de Florença, de Salman Rushdie; Diário de Um Ano Mau, de J.M. Coetzee e Rebeldes, de Sándor Márai.”
(Isabel Coutinho, Ciber Escritas)
LC

Verbo e Mundo

“O verbo faz surgir o mundo, sim, mas faz surgir sobretudo o mundo do verbo. Um mundo onde é possível ao escritor inventar para os leitores a carnalidade da linguagem que os constitui – escritor e leitores – como produtos e sujeitos de actos de escrita e de actos de leitura particulares.”
Manuel Portela
Link: Os Livros Ardem Mal
Créditos/Fotografia: Triplov
LC