Contos na casa dos Bicos

Decorreu no dia 20 de Setembro a primeira sessão da nova iniciativa de contos na Cada dos Bicos – Fundação José Saramago. A inciativa contou com a presença de Ana Sofia Paiva, Cláudia Fonseca e Cristina Taquelim.

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CRIATURAS DE BALTASAR – Folhetim em Catorze Episódios da autoria de carlos Pessoa Rosa – Quarto Episódio

A mulher acompanhou todo o movimento do homem que conhecera na noite anterior através do olho mágico. Tão logo desapareceu, voltou-se para a sala. Apalpou o próprio corpo, algumas peças que estavam sobre os móveis e o tecido da poltrona. Experimentou a estranha sensação de conhecer há muito mais tempo alguém que entrou em sua vida a pouco mais de dez horas. Então era verdade, podia apaixonar-se, o que é do tempo nesses momentos? Jogou-se sobre o sofá para rememorar cada minuto vivido desde o início. Encontraram-se na rua, acabava de sair de uma loja, cheia de pacotes. Ele se ofereceu para ajudá-la. Coincidência ou não, haviam estacionado no mesmo local. Aceitou o convite para jantar. A escolha do restaurante foi dele, uma cantina italiana escondida em uma ruela florida e mal-iluminada. Disse que gostava do local, que lhe trazia lembranças de Spello, uma pequena cidade da Itália. Não a deixou escolher o prato, pediu talharim ao molho de salmão e um vinho San Gigminano, fez questão que fosse safra do ano. O sabor da comida, como um perfume francês, permanecia na memória. Seria difícil esquecer a noite que passaram juntos.

(continua)

CRIATURAS DE BALTASAR – Folhetim em Catorze Episódios da autoria de carlos Pessoa Rosa – Terceiro Episódio

A porta fechou um mundo e abriu outro. O ruído de chave girando na fechadura deixou definitivamente uma das montagens de sua vida para trás. Sentia-se cansado desse abrir e fechar de destinos, do jogo de poder que gerava crises nas relações a dois. No corredor, um tapete amarelo-ouro forrava o soalho estreito e cheio de portas. Em cada uma das entradas, do mesmo tamanho e da mesma altura, um olho espiava e deformava rostos. O interior a observar o exterior, a decidir quem tem direito de atravessar os vãos. Parou esperançoso de encontrar algo novo, alguma surpresa, o som ou o cheiro de algum mistério. Ouviu somente os gritos vindos de dentro, criaturas de Baltasar, repetitivas, agiam como se a madeira e os gonzos fossem simples objetos de carpintaria. Um ruído forte e seco no outro corredor afugentou os sons, balançou os delicados lustres dourados que se alternavam com extintores de incêndio e gravuras construtivistas dependurados na parede pintada em um amarelo mais brando. A seta vermelha e um leve estalido fez com que saísse daquele marasmo a passos largos para não perder o elevador. Descer para o inferno…

(continua)

Finalistas do Prémio Portugal Telecom

Estão anunciados os finalistas do Prémio P0rtugal Telecom de Literatura 2013. Na categoria de romance encontra-se Valter Hugo Mãe, com “O filho de mil homens”. O prémio abrange as categorias de poesia, conto/crónica e romance.

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“Jerusalém” na Grécia

Jerusalém, de Gonçalo M. Tavares, foi adaptado para teatro, na Grécia. A adaptação chama-se Jerusalém Heaven e conta com encenação de Vana Pefani. Está em cena até 2 de Outubro, na sede da Fundação Michael Cacoyannis.

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Almada por contar

É um catálogo que reúne reproduções de mais de uma centena de obras do artista que foi TUDO, como o próprio dizia. A obra de Almada Negreiros fica assim mais acessível, com a junção de ilustrações, textos inéditos e outros menos conhecidos entre outros aspectos relevantes da sua obra. Foi lançado na sexta-feira passada na Biblioteca Nacional de Portugal.

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Ana de Londres

Ana de Londres é o novo título de Cristina Carvalho. Trata-se da reedição de um dos contos do primeiro livro da autora: Até já não é Adeus. O lançamento decorre dia 27, às 22h, no bar Transmission. A apresentação estará a cargo de Francisco José Viegas. A edição é da Parsifal.

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CRIATURAS DE BALTASAR – Folhetim em Catorze Episódios da autoria de carlos Pessoa Rosa – Segundo Episódio

Você vai chegar atrasado, fez saber uma voz feminina. A luz, interceptada pelas grades da janela, fatiou o corpo de uma mulher nua. Fitou o corpo zebrado pelas sombras dos ferros sem perceber o rubor no rosto dela. As grades nas janelas estavam ali por precaução, preocupava-o a estranha atração que sentia ao se aproximar delas. Ouviu muitas histórias de colegas solitários que se atiraram no asfalto e ele morava no quinto andar de um prédio situado no centro comercial. Nunca abriu a porta que dava para a varanda. Você não ouviu?, já passam das sete, assim vai perder a hora, insistiu a mulher. Tem razão, dormi pesado, respondeu pegando o casaco. Beijou-a sem entender os olhos castanhos, pareciam azuis no dia anterior. As lentes de contato são azuis, confessou a mulher ao percebê-lo surpreso. Pareceu-lhe conviver com ela há anos. Ficou a segurar a maçaneta sem vontade de girá-la. A companheira ajudou-o suavemente com as mãos. Se você ficar tem comida e bebida na geladeira. Por que dizer dessa forma?, poderia ser mais objetivo, usar o imperativo afirmativo, por que não?

(continua)

CRIATURAS DE BALTASAR – Folhetim em Catorze Episódios da autoria de carlos Pessoa Rosa – Primeiro Episódio

Enquanto mordia e mastigava a fruta, Artur tentava compreender o estranho e pesado cansaço com que acordou. A carne e as juntas do corpo doíam muito, como se andasse a levantar uma parede de pedras. Há muito, não erguia um único tijolo e a idade não era muita para justificar aquele mal-estar todo, muito menos a noite que havia sido muito prazerosa. Se um caminhão passou por cima de meu corpo, foi no sonho, disse às paredes. De uns tempos para cá, vinha a falar com elas. Somente assim conseguia se distrair do coro que vinha de dentro. O falatório perdia as forças com o passar das horas. No almoço, não haveria mais que um frágil sussurro, um som de procissão a se esgotar nas inflexões das ruas. Acostumou-se.

(continua)

A constante reinvenção da escrita

Uma das surpresas do Verão – quando ninguém compra livros – foi animalescos, de Gonçalo M. Tavares, com edição da Relógio D’Água.

Com 43 anos, Tavares vai no trigésimo segundo livro e não esconde que o que fez sair é uma ínfima parte do que tem em casa para publicar.

À parte uma capacidade (a que o próprio chamaria necessidade) de produção fora do normal, o que distingue Gonçalo M. Tavares é a possibilidade de actuar em campos novos, até agora muito pouco explorados. A narrativa tradicional é suplantada por uma organização lógica e sintática que está muito mais próxima da tentativa de superação de obstáculos epistemológicos do que de criar sentidos comprováveis, justificar teses ou desenvolver um enredo que se baste a si próprio como motivo de interesse do texto.

Página 89:

latrinas

martelo

bigorna

Tens a chave das latrinas e tal é suficiente para teres o domínio da casa e aí começa a tua ambição que vai até ao centro da cidade, dá a volta e bate depois a cabeça contra a parede, uma ambição-martelo, bigorna, que quer partir o que está à frente, quer abrir uma passagem onde há uma parede, ou melhor, onde há uma passagem antiga, velha de mais, que se pensava já não poder ser usada

O livro é constituído por 39 textos, todos com títulos compostos por várias palavras com carácter independente. Logo aqui se percebe um princípio de fragmentação inerente à construção narrativa. É como se o texto não se fixasse num único eixo, e muito menos estivesse interessado em fazê-lo. Pelo contrário, nunca temos a certeza de quanto vai durar a frase e do que surgirá na frase seguinte. É também um Gonçalo M. Tavares mais quente, mais onírico, mais próximo de Canções Mexicanas ou Água, Cão, Cabeça, Cavalo. Aliás, os três volumes inserem-se num conjunto denominado Canções.

Não cabe neste editorial fazer uma análise técnica da obra, mas não deixamos de referir um uso pouco comum da pontuação, com ausência deliberada de vírgulas ou palavras grafadas a maiúscula – tal como acontecia em Canções Mexicanas. Grande parte dos textos iniciam-se com minúscula, e alguns como que surgem do nada, ou antes da primeira palavra que estamos a ler.

Trata-se de uma escrita em constante renovação, que nunca se acomoda com uma fórmula que parece já ter sido encontrada várias vezes e poderia criar algum conforto no acto de criação. Pelo contrário, a invenção continua, sem cedências, obrigando o leitor a encontrar uma nova posição para grande parte dos seus livros.

António Pacheco

Crónicas de peso sobre anos de chumbo

As Crónicas de Ano de Chumbo (2008-2013) de Eduardo Paz Ferreira (Edições 70, 2013) carregam consigo um punhado de qualidades, sendo uma delas o não terem nada a ver com o chumbo da gíria, nem sequer para chumbar o país que nos saiu na lotaria destes últimos anos. O peso assinalado no título até contrasta com a elevação das crónicas, que agarram o ânimo do leitor. Decididamente não são nada pesadas, embora falem de realidades muito tristes (basta olhar-se para as datas), de perenes dificuldades da pátria, do buraco negro que a ameaça e do nevoeiro onde se escondem as soluções. Se é que se escondem e o nevoeiro não passa de disfarce a tapar a boca desse buraco.

Do que sobre Finanças diz o catedrático de Direito da Universidade de Lisboa, não serei eu quem se vai atrever a ajuizar. Do mais, direi amplamente que sim, está ali um belo conjunto de reflexões sobre Portugal, sobre o mundo, sobre a nossa geração (bom, sou uns aninhos mais velho, admito, mas andámos embarcados nos mesmos ventos da História),

sobre o produto dos sonhos da utópica juventude de 60, tudo dito na prosa de quem poderia ter feito carreira brilhante no jornalismo (o autor andou por lá e foi muito tentado a permanecer) ou na escrita literária, sempre numa voz cujo tom me agarrou em sintonia ao longo das suas quase 400 páginas. E sem risco de desafinar.

Eduardo Paz Ferreira reune nesta colectânea artigos de jornais, mas também muitos textos de intervenção em colóquios, congressos, conferências solicitadas para públicos diversos. Significativamente, em todos mantem a mesma voz, a mesmíssima inalterável ponderação, uma sábia e encantadora serenidade, uma sagesse culta, erudita, nunca presumida nem pomposa, reflectindo por todos os flancos uma experiência de vida a temperar criticamente o saber haurido nos livros e debitado nas salas de aula.

O livro fecha (culmina) com esplêndida chave de ouro: uma entrevista com Anabela Mota Ribeiro, explicando, ou ajudando o leitor a entender, muitas posições do autor. Poderá dizer-se que abrindo portas para se entender até o próprio autor e o seu percurso bioideográfico. Conduzida hábil e sabiamente por Anabela Mota Ribeiro, o Professor

colaborou de boamente e de boa fé expondo-se com uma candura contagiante e envolta em sensibilidade de impor respeito.

Crónicas de Anos de Chumbo são reflexões de quem seguiu o nosso século português bem de perto e muito por dentro, ou na proximidade dos que mais contribuiram para o seu rolar. O autor gosta particularmente dos versos de Wordsworth citados, no final do filme Spendor in the Grass, por Natalie Wood, e faz deles como a epígrafe ou mensagem-chave do livro: Nunca mais teremos o esplendor na relva, mas não nos queixaremos, antes ganharemos forças lutando pelo que tivemos.

Falei em sabedoria de vida? A que melhores versos poderemos nós agarrar-nos hoje num Portugal que ainda não vislumbrou saída para estes anos de chumbo?

Onésimo Teotónio Almeida

O DEBITADOR | Cristina Carvalho

E então o rapaz levanta-se, entorta, ligeiramente, mas só ligeiramente a cabecinha para um lado – reminiscências de infância! -, ajeita os seus dois relógios, um em cada pulso, um verde, outro amarelo, esfrega as mãos, simula um auto-abraço, entrelaça os dedos das mãos, começa a andar de um lado para o outro do palco, com frenesim e alguma estudada e ensaiada atitude nervosa e começa a debitar um incompreensível, na sua totalidade, amontoado de palavras.
Dirige-se a um público atordoado – pensa ele – por tantas e singulares afirmações, um público que nem sabe bem onde é que está e o que veio ouvir.
O jovem debitador vomita e defeca palavras que não existem, questiona, ilude, prestidigita, inventa; o jovem debitador apresenta uma energia doentia, é baixote e ágil como um ladrão; forma frases compridíssimas, com mais palavras estrangeiras que portuguesas; tenta convencer em acto desesperado; de tempos a tempos, ergue os braços e incita a plateia a levantar-se e a aplaudir e faz-se de tal maneira insinuante que, num primeiro vislumbre, até confunde. E faz gestos, observa, ri-se e manda sentar, de novo! Apreciou a constatação: levantaram-se e baixaram-se a seu comando!
Eu sou quase Deus!
O jovem debitador não diz absolutamente nada. Nada de nada! É de uma banalidade confrangedora. São toneladas de lugares-comuns, resmas de frases feitas, pensamentos cansados, esgotados de tanto ouvidos. É um autómato, uma figura de cera que, se for deixada ao sol, derreter-se-à num ápice. Ele não sabe, ele não sente. Não deve ter sangue. A sua proclamada ambição e o seu expresso desejo é que todos os jovens deste desgraçado país trabalhem. E ele existe para nos convencer que, se não trabalham, é porque não querem e que se trabalhassem tinham sucesso garantido! Basta a vontade! O rapaz é cansativo. Rebenta-nos de cansaço! Fala à velocidade da luz e não dá tréguas. Não tem tempos. Não tem noções. Impõe. Exige! Ordena! Expulsa! Tudo explode à sua volta! Não! Não quero ouvi-lo nem mais uma fracção de segundo em todo o resto da minha vida! Irra!
O debitador tem sido recebido em todo o lado. Nas televisões, nas rádios, nos jornais como se de um Messias se tratasse, um espalhador da palavra, um arrebimba-o-malho de certezas e confianças no nada, no zero. Nada! Diz nada! Não há, naquele discurso, nada de coerente, de sábio, de conhecedor. Não há vida. No seu discurso existem todas as sombras de todos os desesperos, de todas as angústias, de todas as incertezas.
O ignóbil disto tudo é o sorriso satisfeito dos que o elegeram para encabeçar um movimento destes: o empreendedorismo jovem! E também daqueles que lhe dão cobertura mediática. É que isto chama audiêêências! Muitas!
No olhar deste rapaz não existe nada a não ser a vontade desmedida de se fazer notado seja de que maneira seja. Um case study, para usar umas das suas muitas lenga-lengas anglo-saxónicas e que passo a dar exemplos:
Mind set, interface, feedback, swaip, pitch, slide, as we speak, expertise, spam, newsletters e desculpem-me os erros, que alguma coisa deve estar mal escrita.
Não existe naquele olhar uma única estrela! Nem um grão de pó de estrela! Não há o desenho do infinito, não há um horizonte de sonho, ainda que possa parecer. Daquele sonho inalcançável, que faz dos homens seres excepcionais. Não há sedas, nem veludos, nem esconderijos secretos, nem absurdos de fantasias! Não há nada que se vislumbre naquele olhar de tão perdido que anda!
Que triste vida!

Cristina Carvalho

Agosto 2013

TIRAS – Folhetim em Quatro Episódios da autoria de Carlos Pessoa Rosa – Terceiro Episódio

Bambambã da zona, dizia jornal no outro dia. Filho-mais-velho-em-tudo-igual-ao-pai, aquele da pinta no pinto, lê e não acredita. O pai sempre foi de pá, lavra, sol e sins, nunca de tiros. Nessas horas é que se conhece o homem dizia a si mesma sem saber o que isto significava, a mãe. O filho-atirador-profissional colou manchete no espelho do guarda-roupa, queria estar com o velho, pela primeira vez o via como herói. Sabia do prazer de matar aqueles que mataram antes pela indiferença. O corpo do pai recebeu mais do que deu, sempre foi assim, dezenas de balas vararam uma caatinga de corpo. Pai herói. Parecia novela. Meio morto; meio vivo. Estava morto desde o nascimento, sabia. Mas alguns daqueles-que-mataram-antes-pela-indiferença também morreram. Pobre sempre tem esperança e naquela ilusão de vida e de morte acreditou que todos entrariam no mesmo inferno.

(continua)

Capital Mundial do Livro 2015

Incheon será a Capital Mundial do Livro em 2015. A cidade sul coreana foi selecionada por um comité reunido na UNESCO pela «qualidade do seu programa, e pelo impacto que este terá na melhoria da integração de todas as partes interessadas na promoção do livro e leitura, acesso a livros e textos em todos os formatos aos cidadãos de Incheon e da península coreana durante o ano de 2015 e além dele».

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Projecto Save de Story reabilita clássicos

Foi lançado no Brasil, pela Galera Record, o projecto “Save the Story”. Destina-se a recuperar clássicos mundiais da literatura, recontando-os pela mão de escritores contemporâneos. Os livros contarão também com ilustrações.

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Sem Barreiras Arte Russa 1985-2000: Que farei com esta liberdade?

Quem visitou São Petersburgo talvez se recorde de ter visto, no Museu Russo – que alberga uma das maiores e mais imponentes colecções de arte russa do mundo – o quadro de Karl Briullov (1799-1852), um dos mais reconhecidos artistas do seu tempo, “A morte de Inês de Castro” (1834). Este encontro inesperado com uma página da história portuguesa na capital cultural da Rússia não deixa certamente de emocionar. Também o registou Fernando Namora, em “Os adoradores do sol” (1971), crónica de viagens à Escandinávia e a São Petersburgo, então Leninegrado. Na mesma obra, escreveu, também “O sol, como a saúde, como a liberdade, só se dá por ele se é escasso. Ou se o perdemos”. 

Vêm estas palavras à memória, transmutadas em perguntas, a propósito da exposição “Sem Barreiras Arte Russa 1985-2000”, inaugurada no mesmo Museu Russo em Dezembro de 2012. Que acontece quando se reencontra a liberdade? Ou se adquire uma liberdade que nunca se teve antes? 

Retrato de um tempo enquanto meio do artista que o retrata

1985-2000: estes foram os anos das reformas globais do sistema socialista soviético, a “Perestroika”, anos de revoluções profundas e sucessivas em todas as esferas da vida de um país que acabaria por deixar de existir e da dos países que lhe sobreviveram. Recordemos algumas datas fundamentais: em 1985-1990 dá-se o início da liberalização política; surge a imprensa independente, são legalizadas fontes de informação ocidentais, é publicada literatura antes silenciada; fazem-se as primeiras tentativas de reforma da economia planificada; 1989 é o ano da queda do Muro de Berlim e do fim da Guerra Fria; desenrola-se o processo de desintegração da União Soviética, cuja existência cessa oficialmente em 1991, processo que envolveu confrontos com intervenção de forças militares nas ex-repúblicas; entretanto, intensifica-se a crise económica, verifica-se um défice total de produtos de primeira necessidade; em 1992 são levadas a cabo reformas económicas “de choque” de transição para a economia de mercado; a inflação sobe em flecha; em 1993 dá-se uma crise constitucional acompanhada por um conflito armado em Moscovo; em 1994 ocorrem actos terroristas em Moscovo e outra cidades russas, e também no Cáucaso; em 1998 dá-se uma profunda crise económica, com a desvalorização abrupta do rublo e a derrocada do sistema bancário; inúmeros cidadãos perdem as suas poupanças.   

Escusado será dizê-lo, foram anos em que o Museu Russo não dispunha de meios para adquirir obras para o seu espólio. Mas foram os anos em que muitas obras que se encontravam nos depósitos foram expostas, de novo ou pela primeira vez. Entre outras, realizam-se no Museu Russo, nos finais dos anos 80, as exposições de Pavel Filonov (1883-1941), Vassili Kandinsky (1866-1944) e “Arte dos anos 1920-1930”, em 1996 a retrospectiva de Vladimir Tatlin (1885-1953) e em 1997-1998 a exposição “Mosteiros Russos: Arte e Tradição”. No vizinho Museu Ermitage, em 1988, acontece a exposição de arte ocidental do século XX “Época de descobertas”. Em 1989, no Parque de Exposições Lenexpo, também em Leninegrado, tem lugar a exposição “Da arte não-oficial à perestroika: 40 anos de underground em Leninegrado”.

Como escreveu Mark Petrov, num dos artigos incluídos no catálogo da exposição “Sem Barreiras Arte Russa 1985-2000”, assistiu-se naquele período ao “enfraquecimento abrupto das funções censório-repressivas dos institutos estatais, chamados a zelar pela cultura na sociedade do socialismo triunfante. (…) A ideologia enquanto sistema de medidas proibitivas deixa de ser factor determinante na organização da vida artística ainda antes da mudança de regime, e depois, durante os anos 90, deixa completamente de existir”.

Por escolha consciente, os mais de 200 artistas representados na presente exposição são artistas que não emigraram até 1985 ou que viviam na Rússia pré- ou pós-soviética na altura em que criaram as obras expostas. O olhar dos artistas que emigraram foi necessariamente influenciado pelas novas circunstâncias em que se encontraram, e talvez pelas expectativas da cultura com que se depararam; por exemplo, verifica-se que a desconstrução e desvalorização do sistema de símbolos soviéticos, quando patente, tem contornos mais suaves nas obras dos artistas que ficaram. Pretendeu-se que a exposição fosse sobretudo reflexo de uma vivência na Rússia em 1985-2000, mostrando os caminhos que foram trilhados como resposta à pergunta que se colocava, também, no plano artístico: que fazer com a nova liberdade?  

Pintar a realidade, sem barreiras 

E o que é isso de “liberdade”? Um “contra tudo e contra todos” por definição, uma liberdade egoísta e hedonista, ou responsável e com valores? E que valores, agora que “nada é proibido”? Que fazer, quando todos os caminhos, na arte como na vida, são uma possibilidade e não há regras, barreiras ou indicações, como simboliza o “Semáforo”, tela do início da década de 90, de Aleksandre Petrov (n. 1947), com as luzes vermelha, amarela e verde acesas em simultâneo? 

Há ainda hábitos de receio: na tela “Autoretrato (com censura interior)” (1988), de Valeri Lukka (n. 1945), há um rosto sem feições definidas e um corpo como uma massa que se desprende, viscosamente, da massa envolvente.

Há o desejo de ironizar com os símbolos do passado soviético – a desconstrução semiótica de um sistema é uma constante da revolução que leva à mudança desse sistema. Na escultura “Lira russa” (1985), de Aleksandre Sokolov (1941-2009), a foice e o martelo transformam-se numa lira, rudimentar e tosca, mas que é, ao mesmo tempo, uma evocação do “Contra-relevo de canto” (1915) de Tatlin – símbolo da arte de vanguarda russa do princípio do século XX que foi inicialmente associada ao regime saído do Golpe Bolchevique de 1917, mas que passaria a ser, a partir dos finais dos anos vinte, arte “non grata”; na tela “Em Pereiaslavle” (1987), de Ekaterina Grigorieva (1928-2010), mulheres conversam numa praça da cidade de Pereiaslavle, levantando um braço num gesto que repete o braço estendido de Lenine na estátua no meio da praça; na paisagem fabril da tela “Levam-no” (1997-1998), de Iuri Chichkov (n. 1940), cinco homems levam em ombros uma estátua de Lenine, o mesmo braço estendido, num cortejo fúnebre, encabeçado por dois músicos de jazz; na tela “Ameixas em calda” (1988), de Oleg Zaika (n. 1963), uma lata de ameixas em calda é elevada à categoria de ícone “Soc-art” (“arte socialista”): trata-se de uma lata “artesanal” e imperfeita, em vez dos contornos bem definidos das latas de sopa Campbell’s de Andy Warhol. 

Há o empenho em registar e narrar a realidade: telas realistas e hiper-realistas que não cantam a beleza idealizada do trabalho e das gentes, mas constatam a fealdade do quotidiano, como o bêbado em “Levanta-te, Ivan!” (1997), de Hélio Korjev (1925-2012), as filas intermináveis em “Fila” (1989), de Aleksei Sundukov (n. 1952) ou o desencanto no rosto dos mais velhos em “Velhice feliz” (1988), de Tatiana Nazarenko (n. 1944); que não descrevem celebrações populares solenes, mas momentos de descanso na relva, com vodca e pão com chouriço, sem pompa nem glória, como a tela “Na relva” (1983-85), de Fiodor Kunitzin (n. 1951); que não mostram as virtudes da vida no campo, mas desalento, como em “Jantar na aldeia” (1987-88), de Vladimir Cherbakov (1935-2008) – mãe e filho, pão e um ovo sobre a mesa, cansaço nos olhos da mãe, que deita leite numa chávena, mudez nos olhos do filho, que tudo vê.

Memórias, destroços, metáforas

A realidade rima com desencanto e inquietação: a escultura “Rapto” (1987), de Vladimir Soskiev (n. 1941); a tela de Igor Orlov (n. 1935), “Pressentimento” (1988), uma paisagem, à primeira vista, clássica e harmoniosa, com montes, árvores e casas, uma luz de fim de tarde, mas em que a harmonia logo se quebra, pois que as casas afinal resvalam para um abismo; “À procura de Ícaro” (1990), escultura de Pavel Chimes (n. 1930), em que Ícaro, de asas abertas, jaz, caído, e em cima dele a multidão amontoa-se, olhando para o longe à procura de um sinal, rostos que parecem murmurar “E agora?”; a escultura “Estrela caída” (1991), de Vassili Pavlovski (1932-2009).

Na tela “Recordação do futuro” (1989), de Mark Petrov (1933-2004), encontramos a saudade de ideais por cumprir, expressa nos rostos cinzentos-azulados que se recortam num fundo de referências a heróis de várias épocas, um rosto que olha para o momento presente, outro para o passado, outro para o futuro. Será também esta saudade, com ironia desencantada, que exprime Konstantin Persidski (1954-2008) na tela “O bolo” (1999-2000): a Rússia, simbolizada pela Praça Vermelha em Moscovo, é um enorme bolo coberto de velas, em cima de uma mesa à volta da qual, de pé, em vestes cinzentas e de rostos cinzentos, avidamente uns, tristemente outros, esperam, silenciosamente, a sua fatia, os “proletários e camponeses”, as longas mãos esguias e vazias. Velas que assinalam mais um aniversário do Golpe de Outubro de 1917, ou da mais recente revolução, a “Perestroika”; fatia que, claramente, não lhes chegará ao prato, como realça o contraste da cor – o bolo, cor desmaiada de tijolo, e a envolvente cinzenta da mesa e dos pratos vazios, dos corpos e das faces, do fundo azul de chumbo.  

Há toda uma atmosfera de desesperança e abandono: na paisagem cinzenta e branca de neve, cães e corvos na tela “No boulevard” (1983-88), de Nikolai Andronov (1929-1998); nas manchas cinzentas do céu e das asas das aves na tela “O lento voo dos corvos” (1988), de Irina Starzhenetskaya (n. 1943);  na tela de Vladimir Chinkarev (n. 1954) “No hospital Skvortzov-Stepanov” (1990), em que a enfermaria de um hospital se transforma em paisagem, também ela cinzenta, onde as paredes e o tecto são como o rio e o céu que prolongam o espaço das camas, a cidade é assim uma enorme enfermaria, um espaço colectivo de sofrimento; na tela “Chá” (1997), de Ludmila Markelova (n. 1959), onde muitas mãos se estendem para um único prato e para um único bule minúsculo, numa mesa em tons vermelhos escuros de amora e malva, visível um único rosto, cor de mostarda; na tela “Outono” (2000), de Serguei Kitchko (n. 1946), onde há maçãs e folhas caídas e caindo nas ervas e em cima de uma velha mesa e duas cadeiras de madeira, chagas abertas na tinta azul, um jarro de água esquecido sobre a mesa.

Há também a solidão: nas telas “Metro” (1986-88), de Gueorgui Koventchuk (n. 1933), em que o túnel das escadas rolantes ressoa em ondas de amarelos e vermelhos, como gritos de Edvard Munch, ou “Era uma vez Zinaida, a bela” (1992), de Vladimir Iachke (n.1948), um retrato de mulher que é uma síntese de Vincent van Gogh e Henri de Toulouse-Lautrec. 

Há o preservar da memória pessoal e íntima – por oposição à memória colectiva – no espaço e nos objectos, como na “Fotografia de recordação” (1984-85), de Erik Bulatov (n. 1933), uma paisagem bucólica em que, recortados como sombras chinesas, mas a vermelho – para que a recordação seja mais vívida? – estão quatro amigos, sentados num banco, talvez para sempre fisicamente longe da paisagem que conserva a memória deles, ou na escultura em ferro fundido e bronze “A sombra da minha Avó” (1999), de Marina Spivak (n. 1955), em que os contornos, como um espectro, de uma figura de mulher, sentada a uma máquina de costura Singer, tão metálicos como a própria máquina, fazem já parte dela.

Há a memória da repressão, traduzida em metáforas na tela “Sombra mortal” (1992), de Boris Sveshnikov (1927-1998), herdeira da arte analítica de Filonov, um mosaico em tons de azul e verde, que é feito, afinal, de caveiras; nesse mosaico há também dois rostos, um deles o rosto da morte, o galo, símbolo da traição, e a dança da morte, no horizonte, como nas cenas finais do filme “O sétimo selo” de Bergman. 

Há o sentimento de mudança de uma era: na tela “Movimento dos gelos” (1987), de Victor Ivanov (n. 1924), em que a estética do “estilo austero”, renovação dentro do realismo socialista nos anos 60, faz parte da metáfora, pois veste aqui uma temática não correspondente e cheia de densidade psicológica, há um grupo de homens e mulheres, uma delas com uma criança ao colo, expressivas silhuetas gráficas recortadas na paisagem azul, que observam, imóveis e solenes, a passagem das massas de gelo flutuando no rio depois do inverno. 

Há o sentimento de que é preciso começar tudo de novo, e não se sabe como: na tela de Helena Figurina (n. 1955), “Brincadeira na areia” (1988), com referências às telas de Henri Matisse “A dança” e “A música” (a propósito, ambas no Museu Ermitage) mas em amarelos e laranjas, cinco homens-embriões tentam, sem instruções e sem roteiro, (re)construir a realidade a partir da areia, matéria limitada e que se lhes escapa por entre os dedos.  

Renascimento

Mas há também esperança no meio dos destroços: na tela “Rapazinho colhendo ameixas” (1999), de Larissa Naumova (n. 1945), um rapazinho, banhado pelo sol da manhã, procura ameixas no meio de um amontoado de troncos de bétula caídos, um bosque branco destroçado em que as ameixas são o único toque de cor, embora triste, e olha para nós, como que surpreendido pela nossa presença, talvez com um pedido mudo de auxílio.

Há curiosidade e amor pela vida: na escultura “É só o começo…” (1989), de Adelaida Pologova (1923-2008), em que uma mulher, engelhada pela idade, tenta caminhar, podem ler-se, na base, os versos finais do poema de Paul Claudel “A resposta do sábio Hsien Yuan”: “Porque é que dizemos que é o fim de tudo, quando, na verdade, é só o começo”.

Há, enfim, renascimento espiritual e religioso, depois do colapso do sistema que, propondo-se moldar o homem novo e livre, perseguiu o Cristianismo, demoliu igrejas e catedrais, arrasou cemitérios. Uma metáfora para este renascimento é a tela de Ivan Uralov (n. 1948), “O anjo da nossa aldeia (Achado)” (1998), harmoniosa como um fresco muito antigo, acentuando a ligação com o passado, onde duas mulheres, perto de um rio, se debruçam sobre a figura de um anjo, que jaz como que numa sepultura – o anjo reencontrado da igreja da aldeia (cada igreja tem um anjo, e o anjo continua nesse lugar, mesmo se a igreja tiver sido destruída).  

Alguns artistas escolhem a Paixão de Cristo como tema das suas obras: as telas “Levando a Cruz” (1996), de Serguei Repin (n. 1948), “Crucificação” (1994), de Natália Nesterova (n. 1944) e “Gólgota” (1988), de Evcei Moiceenko (1916-1988).

Também profundamente simbólica é a tela “Ícone novo” (1990), de Ivan Lubennikov (n. 1951). Representa um ícone cujos traços são quase indefinidos, como que apagados, destruídos pelo tempo e pelo abandono. Mas sobre essa forma esfumada aparece claramente recortada uma cruz branca, e ainda outra cruz preta, mais pequena, e outra, e outra, cruzes essas que são, ao mesmo tempo, atributos das vestes dos santos em alguns ícones da Rússia Antiga e referências inequívocas ao suprematismo de Casimir Malevitch. “Ícone Novo” aparece assim como uma metáfora para a regeneração da fé Cristã: a religião renegada renasce, emergindo mesmo através das formas da arte que foi um dia símbolo do sistema que a renegou.  

Extremos que se tocam

Em 1985-2000, há também artistas que aparecem como herdeiros do abstraccionismo russo e soviético das três primeiras décadas do século XX. A vanguarda de ontem tansforma-se assim em tradição interrompida, à qual se retorna para expressar uma outra realidade nova. Encontramos, por exemplo, referências ao abstraccionismo expressivo de Kandinsky, na “Composição Nº3” (1990), de Leonid Tkatchenko (n. 1927) e ao construtivismo de Tatlin, no tríptico “Contra-relevo-estéreo” (1993), de Viacheslav Koleitchuk (n. 1941), em que o painel central, “Contra-relevo-estéreo em estilo arcaico”, é uma reinvenção do motivo da cruz.

Salientam-se ainda a renda geométrica dos barcos inquietos na paisagem metafísica verde de Mikhail Shvartzman (1926-1997), na tela “Perturbação” (1985), a perspectiva e a luz pastel da cidade abstracta de Valentin Levitin (n. 1931), evocando os pátios sempre presentes de São Petersburgo, na “Composição” (1990-92), a luz e as sombras nas texturas simultaneamente diáfanas e telúricas na tela “Obra apócrifa” (1999-2000), de Vladimir Dukhovlinov (n. 1950) e a arquitectura do edifício formado pela memória dos textos sucessivamente raspados e reescritos no “Palimpsesto (Deslocamento da haste)” (2000) de Serguei Sergueiev (n. 1953), tela que é mais uma metáfora para o desaparecimento de uma era e o aparecimento de outra.

Uma tradução é sempre uma interpretação, e o descodificar dos vários conteúdos apresentados na exposição “Sem Barreiras Arte Russa 1985-2000” aqui proposto propõe-se ser ponto de partida para a leitura em contexto da mesma exposição. E, porque os extremos se tocam, nas espirais do tempo e das formas, poderá ser ainda ponto de partida para outras reflexões, dramaticamente relevantes no momento presente. “Durante a vida, fui vendo cair o que, em jovem, parecia estar de pedra e cal. Ou me diziam que estava firme como o aço”, diz um dos heróis do romance “A falha” (1998), de Luís Carmelo. Que fizemos com a nossa liberdade? Que fazemos com a nossa liberdade? 


Ana Luísa Simões Gamboa, em São Petersburgo

Chávena com livros

Durante a Feira do Livro de Lisboa, foram angariados livros que foram recentemente entregues a instituições da Cruz Vermelha de Lisboa. No evento, os visitantes contribuíram com livros novos ou usados, depositados numa chávena de café gigante.

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TIRAS – Folhetim em Quatro Episódios da autoria de carlos Pessoa Rosa – Segundo Episódio

A mulher se dizia, já não o faz mais, emudeceu como a tarde, escureceu sem lua. A única luz está na lembrança do arraial. O resto foi prostituição, boceta aberta por reais que até padre chupou. Ainda bem que doutor operou; não deu tempo de ter nenê mulher. De longa caminhada intuiu que o sexo tem a ver com a qualidade do viver. Aprendeu a chorar de faz-de-conta. Varreu até onde deu, depois apelou. Agora corpo não serve mais para uso animal, passa o dia a chulear a culpa nas margens da memória.

Partes de Amâncio-casado-pai-de-dois-filhos não sonham nem têm consciência, logo, não devaneiam, fizeram de tudo para sobreviver. Cabelos negros pintados de branco, o homem flana vingança no jardim da praça pública. Longa mão segura arma que arrota única palavra que justiça ouve. Não importava quem deitava em sangue, queria acertar contas, melhor se fosse graúdo, mas esses não andavam em lugares públicos. Paciência, se pegava o bagre, o grande logo saberia. Cheirou pó que filho esqueceu na gaveta. Nunca pensou que olhos vissem um outro mundo, que pessoas tivessem cor e a linfa fosse tão vermelha.

(continua)

Amazon em suporte físico no Brasil

Sete meses depois da chegada ao Brasil com venda de livros digitais, a Amazon deverá, no início do próximo ano, passar a comercializar livros físicos. Uma manobra semelhante deu que falar no mercado americano, com vendas de livros a baixíssimo custo.

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