Clarisse olha-se ao espelho. Está nua. Estica os braços atrás da cabeça, um seio a elevar-se, a auréola a apontar para o tecto. O outro seio teima em não contrariar a gravidade, mostrando-se cabisbaixo. Instintivamente cobre a mama entorpecida com uma mão e vira-se de costas. A curva da coluna vertebral imita uma rampa de lançamento e os glúteos, de uma brancura quase doentia, pronunciam-se num orgulho nada disfarçado. Uma mão afaga uma metade e a outra mão aparece por entre as suas pernas, ajustando-se ao fundo de si com a urgência de um clamor. E, ali mesmo, Clarisse entrega-se ao espelho.

Bruno Barão da Cunha

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